quarta-feira, dezembro 30, 2015

Hino Órfico 75: Palêmon

Παλαίμονος;, θυμίαμα μάνναν.

Σύντροφε βακχεχόροιο Διωνύσου πολυγηθοῦς,
ὃς ναίεις πόντοιο βυθοὺς ἁλικύμονας, ἁγνούς,
κικλήσκω σε, Παλαῖμον, ἐπ' εὐιέροις τελεταῖσιν
ἐλθεῖν εὐμενέοντα, νέωι γήθοντα προσώπωι,
καὶ σώζειν μύστας κατά τε χθόνα καὶ κατὰ πόντον·
ποντοπλάνοις γὰρ ἀεὶ ναυσὶν χειμῶνος ἐναργὴς
φαινομένου σωτὴρ μοῦνος θνητοῖς ἀναφαίνηι,
ῥυόμενος μῆνιν χαλεπὴν κατὰ πόντιον οἶδμα.

[De Palêmon], Fumigação: Incenso

Criado com Dioniso jubiloso que dança em delírio,
a ti, puro, que habitas abismos do mar circúnfluo,
invoco, Palêmon; vem aos sacratíssimos ritos
benfazejo, com alegria no jovem rosto,
e salva os iniciados, na terra e no mar!
Sempre que surge a tormenta aos vagantes navios,
visível salvador, só tu, aos mortais te revelas,
refreando a dura ira pelas vias do mar.

[Tradução: Rafael Brunhara]

Lícofron: fragmentos da Alexandra

Do Prólogo

Contarei sem torcer tudo o que me perguntas,
tudo, desde o cume do começo.
Perdoa-me, porém, se o discurso delonga.
Não tranqüila como antes, a moça desta vez
deslindava a boca fluida dos oráculos,
lançando da garganta laurívora um confuso
clamor desmesurado;
flameava os vaticínios,
repetindo fiel a voz da Esfinge escura.
Aquilo que eu retenho na alma e na memória
escuta, ó Rei, e repassando-o
no íntimo, sábio,
persegue os lances difíceis de dizer
de seu novelo de enigmas.
Discerne a trilha clara por onde, reta rota,
chegar às coisas trevosas.
Agora eu, rompendo o nastro, linde extremo,
alço-me ao giro das palavras oblíquas,
alado corredor que abala o marco da partida.

Da Fala de Alexandra

Aurora sobre as pontas escarpadas do Fégio
pairava apenas, alas rápidas de Pégaso,
deixando teu irmão, Titono, meio-sangue,
no leito junto a Cerne.
E os marinheiros desprendiam dos calhaus cavados
as plácidas amarras
e soltavam as âncoras da terra.
Escolopendras de cambiante cor cegonha
as filhas de Falacra, bela-vista,
batiam com seus remos de espátula
o mar, assassino de virgens,
mostrando para além das Calidnas
plumas brancas, popas, e as velas -- braços tensos --
sopradas do fogoso vento norte.
Báquica,
abrindo a boca insuflada pelos deuses,
ali, no extremo píncaro do Ates,
repouso da erradia novilha-fundadora,
Alexandra começou pelas palavras do princípio:


Rapto de Helena

Vejo a tocha de plumas acorrendo,
alada, ao rapto da pomba --
columba tímida, punível cadela de Pefnos.
(o cisne singrador, falcão das águas, engendrou-a
na recâmara curva de uma
concha).

Fonte: CAMPOS, H. "Arquitextura do Barroco" in: A Operação do Texto. São Paulo: Perspectiva. 1976.

terça-feira, dezembro 29, 2015

Hino Órfico 74: Leucótea

<Λευκοθέας>, θυμίαμα ἀρώματα.

Λευκοθέαν καλέω Καδμηίδα, δαίμονα σεμνήν,
εὐδύνατον, θρέπτειραν ἐυστεφάνου Διονύσου.
κλῦθι, θεά, πόντοιο βαθυστέρνου μεδέουσα,
κύμασι τερπομένη, θνητῶν σώτειρα μεγίστη·
ἐν σοὶ γὰρ νηῶν πελαγοδρόμος ἄστατος ὁρμή,
μούνη δὲ θνητῶν οἰκτρὸν μόρον εἰν ἁλὶ λύεις,
οἷς ἂν ἐφορμαίνουσα φίλη σωτήριος ἔλθοις.
ἀλλά, θεὰ δέσποινα, μόλοις ἐπαρωγὸς ἐοῦσα
νηυσὶν ἐπ' εὐσέλμοις σωτήριος εὔφρονι βουλῆι,
μύσταις ἐν πόντωι ναυσίδρομον οὖρον ἄγουσα.

[De Leucótea] Fumigação: Ervas Aromáticas


Leucótea Cadmeia eu chamo, nume insigne,
poderosa nutriz do bem coroado Dioniso.
Ouve-me, Deusa, guardiã do mar de âmago profundo,
nas ondas alegre, de mortais maior salvadora:
em ti o ímpeto instável das naus cruzando o pélago,
só tu livras da lamentável morte no mar
os mortais a quem acorres como amiga salvação.
Peço, senhora Deusa, vem, sendo tu auxiliadora,
com benévolos desígnios salva as naus de boas quilhas,
aos iniciados no mar leva os velívolos ventos.

[Tradução: Rafael Brunhara]

segunda-feira, dezembro 28, 2015

Hino Órfico 73: Nume [Daímon]

<Δαίμονος>, θυμίαμα λίβανον.

Δαίμονα κικλήσκω † μεγάλαν ἡγήτορα φρικτόν,
μειλίχιον Δία, παγγενέτην, βιοδώτορα θνητῶν,
Ζῆνα μέγαν, πολύπλαγκτον, ἀλάστορα, παμβασιλῆα,
πλουτοδότην, ὁπόταν γε βρυάζων οἶκον ἐσέλθηι,
ἔμπαλι δὲ τρύχοντα βίον θνητῶν πολυμόχθων·
ἐν σοὶ γὰρ λύπης τε χαρᾶς † κληῖδες ὀχοῦνται.
τοιγάρ τοι, μάκαρ, ἁγνέ, πολύστονα κήδε' ἐλάσσας,
ὅσσα βιοφθορίην πέμπει κατὰ γαῖαν ἅπασαν,
ἔνδοξον βιοτῆς γλυκερὸν τέλος ἐσθλὸν ὀπάζοις.

[Do Nume], fumigação: olíbano

Ao Nume invoco, majestoso líder apavorante;
propício Zeus, pai de todos, doador da vida dos mortais,
Zeus magno, multívago vingador, rei de tudo,
Doador de riqueza quando a florescer entra no lar,
mas que exaure aliás a vida dos sofredores mortais:
em ti guardam-se as chaves da tristeza e da alegria.
Por isso, eis, puro venturoso, as magoadas preocupações
que corrompem a vida despacha por toda a terra;
notável nobre doce termo tu outorgues!

Tradução: Rafael Brunhara

Hino Órfico 72: Sorte [Týkhe]

<Τύχης>, θυμίαμα λίβανον.

Δεῦρο, Τύχη· καλέω σ', ἀγαθῶν κράντειραν, ἐπευχαῖς,
μειλιχίαν, ἐνοδῖτιν, ἐπ' εὐόλβοις κτεάτεσσιν,
Ἄρτεμιν ἡγεμόνην, μεγαλώνυμον, Εὐβουλῆος
αἵματος ἐκγεγαῶσαν, ἀπρό<ς>μαχον εὖχος ἔχουσαν,
τυμβιδίαν, πολύπλαγκτον, ἀοίδιμον ἀνθρώποισιν. 5
ἐν σοὶ γὰρ βίοτος θνητῶν παμποίκιλός ἐστιν·
οἷς μὲν γὰρ τεύχεις κτεάνων πλῆθος πολύολβον,
οἷς δὲ κακὴν πενίην θυμῶι χόλον ὁρμαίνουσα.
ἀλλά, θεά, λίτομαί σε μολεῖν βίωι εὐμενέουσαν,
ὄλβοισι πλήθουσαν ἐπ' εὐόλβοις κτεάτεσσιν.

[Da Sorte]; fumigação: Olíbano

Aqui, Sorte! Invoco-te, Senhora do bem, em súplicas:
propícia no caminho para afortunadas riquezas,
Ártemis hegêmone de magno nome, do sangue
de Eubuleu nascida, incombatível anelo,
tumular multívaga cantada pela humanidade.
em ti a vida dos mortais faz-se toda variegada:
a uns, dás multiafortunada plenitude de bens;
a outros, atacando colérica, vil pobreza.
Vamos,Deusa, suplico-te que venhas benfazeja à vida,
plena de fortuna, para nos dar afortunadas riquezas.

[Tradução: Rafael Brunhara]


domingo, dezembro 27, 2015

Hino Órfico 71: Melínoe

[Μηλινόης], θυμίαμα ἀρώματα.

Μηλινόην καλέω, νύμφην χθονίαν, κροκόπεπλον,
ἣν παρὰ Κωκυτοῦ προχοαῖς ἐλοχεύσατο σεμνὴ
Φερσεφόνη λέκτροις ἱεροῖς Ζηνὸς Κρονίοιο,
ἧι ψευσθεὶς Πλούτων' ἐμίγη δολίαις ἀπάταισι,
θυμῶι Φερσεφόνης δὲ δισώματον ἔσπασε χροιήν, (5)
ἣ θνητοὺς μαίνει φαντάσμασιν ἠερίοισιν,
ἀλλοκότοις ἰδέαις μορφῆς τύπον † ἐκπροφαίνουσα,
ἄλλοτε μὲν προφανής, ποτὲ δὲ σκοτόεσσα, νυχαυγής,
ἀνταίαις ἐφόδοισι κατὰ ζοφοειδέα νύκτα.
ἀλλά, θεά, λίτομαί σε, καταχθονίων βασίλεια, (10)
ψυχῆς ἐκπέμπειν οἶστρον ἐπὶ τέρματα γαίης,
εὐμενὲς εὐίερον μύσταις φαίνουσα πρόσωπον.

[de Melínoe], fumigação: ervas aromáticas

A Melínoe eu chamo, ninfa ctônia em cróceo véu,
que junto à foz do Cocito deu à luz insigne
Perséfone, no sacro leito de Zeus Crônio;
uniu-se a ela ludibriado Plutão com ardis astutos,
ardoroso arrancou a dúplice pele de Perséfone*. (5)
Ela enlouquece os mortais com nevoentos fantasmas,
em estranhas imagens desvelando suas formas,
ora  às claras ora em sombras,  noturno cintilar
em encontros hostis nas trevas da noite.
Vamos, Deusa, suplico-te, subtérrea rainha, (10)
envia o furor da alma para os confins da terra,
benévola sacratíssima face revela aos iniciados.

Tradução: Rafael Brunhara

* O verso de mais difícil interpretação do mais difícil Hino Órfico: o que significa a "dúplice pele" de Perséfone? A tradução adotada segue a interpretação de Gessner e Athanassakis, que sugerem ser a dúplice pele (no original  δισώματον, disómaton, "dois corpos") referência à dupla natureza da Deusa, ao mesmo tempo relacionada a Hades e ao pai Zeus. O ardor sexual do pai pela própria filha faz sua pele romper-se no enlace. 

Entendo assim que é "Zeus Crônio" o sujeito do verbo ἐμίγη (emíge, "misturou-se", "uniu-se"), embora admita a ambiguidade suscitada por ψευσθεὶς Πλούτων, que possibilita duas traduções: (Ele, s.c. Zeus) depois de Plutão ser ludibriado, une-se a Perséfone;  ou "Falaz Plutão uniu-se à Perséfone"

 A passagem é aberta às mais diversas conjecturas, devido às poucas informações a respeito da divindade e ao texto grego pleno em ambiguidades. Contudo, a tradução tenta, na medida do possível, conservar as ambiguidades do texto grego,  vistas estas como significativas para o  efeito geral causado pelo hino e próprias da epifania da divindade -- justamente nevoento fantasma que desvela suas formas em imagens estranhas (v. 7). 


quarta-feira, dezembro 23, 2015

Eneias se reconhece: Eneida, vv. 466-497/ Eneida Brasileira, vv. 484-522

A lagrimar parou: "Que sítio ou clima
Cheio, Acates, não é dos nossos males?
Eis Príamo! o louvor tem cá seus prêmios,
Dói mágoa alheia e sobrevive o pranto.
Coragem! que em teu bem conspira a fama.
Disse, e em vãos quadros se apascenta e as faces
Gemebundo umedece em largo arroio.
Vê de Pérgamo em cerco a hoste Graia
Do Frígio ardor fugir, fugir a Teucra
Do instante carro do emplumado Aquiles.
Ai! perto a Reso por traição a Tidides,
No primo sono, arrasa as níveas tendas,
Da carnagem cruento, e os acres brutos
Volve ao seu campo, sem gostado haverem
De Tróia os pastos nem bebido o Xanto.
Além, nu de armas, o infeliz Troílo,
Que arremeteu menino ao próprio Aquiles,
É dos corcéis tirado, e ressupino,
Mas tendo os loros, do vazio carro
Pende, e a cerviz no pó, de rojo a coma,
Virada a lança hostil na areia escreve.
Em cabelo, as Ilíades aflitas
Ao templo iam também da iníqua Palas,
O peplo humildes ofertando e os peitos
A punhadas ferindo: aversa a déia
Olhos no chão pregava. A Heitor Pelide
Arastara em três voltas ante os muros,
De ouro a peso vendia-lhe o cadáver.
Do imo um forte gemido arranca Enéias,
No olhar o espólio, o coche, o amigo exânime,
E a Príamo estendendo as mãos inermes.
A arrostar no conflito os Gregos chefes
A si se reconhece, e Eoas turmas
E as do negro Memnon coiraça e cota.
À testa de milhares de Amazonas
Com lunados broquéis, Pentesiléia
Arde furente, belicosa atando
Sob a despida mama um cinto de ouro,
E virgem com varões brigar se atreve.

Tradução de Odorico Mendes

Namque videbat, uti bellantes Pergama circum
hac fugerent Graii, premeret Troiana iuventus,
hac Phryges, instaret curru cristatus Achilles.
Nec procul hinc Rhesi niveis tentoria velis
adgnoscit lacrimans, primo quae prodita somno
Tydides multa vastabat caede cruentus,
ardentisque avertit equos in castra, prius quam
pabula gustassent Troiae Xanthumque bibissent.
Parte alia fugiens amissis Troilus armis,
infelix puer atque impar congressus Achilli,
fertur equis, curruque haeret resupinus inani,
lora tenens tamen; huic cervixque comaeque trahuntur
per terram, et versa pulvis inscribitur hasta.
Interea ad templum non aequae Palladis ibant
crinibus Iliades passis peplumque ferebant,
suppliciter tristes et tunsae pectora palmis;
diva solo fixos oculos aversa tenebat.
Ter circum Iliacos raptaverat Hectora muros,
exanimumque auro corpus vendebat Achilles.
Tum vero ingentem gemitum dat pectore ab imo,
ut spolia, ut currus, utque ipsum corpus amici,
tendentemque manus Priamum conspexit inermis.
Se quoque principibus permixtum adgnovit Achivis,
Eoasque acies et nigri Memnonis arma.
Ducit Amazonidum lunatis agmina peltis
Penthesilea furens, mediisque in milibus ardet,
aurea subnectens exsertae cingula mammae,
bellatrix, audetque viris concurrere virgo.

sábado, dezembro 19, 2015

José Paulo Paes - "Do Evangelho de São Jerônimo"

A tradução -- dizem com desprezo -- não é a mesma coisa que o original.
Talvez porque tradutor e autor não sejam a mesma pessoa.
Se fossem, teriam a mesma língua, o mesmo nome, a mesma mulher, o mesmo cachorro.
O que, convenhamos, havia de ser supinamente monótono.
Para evitar tal monotonia, o bom Deus dispôs, já no dia da Criação, que tradução e original nunca fossem exatamente a mesma coisa.
Glória, pois, a Ele nas alturas, e paz, sob a terra, aos leitores de má vontade.

JOSÉ PAULO PAES. Poesia Completa. São Paulo: Companhia das Letras. 2008

quarta-feira, dezembro 16, 2015

Keats - "Bright Star" - Tradução de Mário Faustino

BRIGHT STAR

Bright star, would I were stedfast as thou art—
Not in lone splendour hung aloft the night
And watching, with eternal lids apart,
Like nature's patient, sleepless Eremite,
The moving waters at their priestlike task
Of pure ablution round earth's human shores,
Or gazing on the new soft-fallen mask
Of snow upon the mountains and the moors—
No—yet still stedfast, still unchangeable,
Pillow'd upon my fair love's ripening breast,
To feel for ever its soft fall and swell,
Awake for ever in a sweet unrest,
Still, still to hear her tender-taken breath,
And so live ever—or else swoon to death.

BRILHANTE ESTRELA

Brilhante estrela, fosse eu estável como tu,
Não em solitário esplendor presa e solta na noite
E observando, com eternos cílios afastados,
Como Eremita insone, paciente da natureza
As águas movediças, em seu trabalho sacerdotal,
Da pura ablução em torno das praias humanas da terra
Ou contemplando a nova máscara, suavemente caída
Da neve sobre os montes, sobre os brejos --
Não, e ainda assim estável, ainda assim imutável
Repousando sobre o peito de meu belo amor (que amadurece)
Sempre acordado, em doce inquietude
Quieta, quietamente ouvindo seu tenro respirar
E assim viver para sempre -- ou então render-se à morte.

FONTE:

Faustino, Mário. Poesia Completa e Traduzida. São Paulo: Editora Max Limonad. 1985

sábado, dezembro 12, 2015

Brasileidas, vv. 1- 50 - Poema Épico de Carlos Alberto Nunes

Musa, canta-me a régia poranduba
das bandeiras, os feitos sublimados
dos heróis que o Brasil plasmar souberam
través do Pindorama, demarcando
nos sertões a conquista e as esperanças.
Dá que em versos eu fixe os fundamentos
históricos e míticos da pátria
brasileira, deixando-os perpetuados
na memória de todos os teus filhos:
a luta dos Titãs, os novos deuses,
as Amazonas varonis e a raça
que o Gigante de pedra fêz do solo
surgir, robusta e bela, idéias novas
de grandeza forçando à eternidade.
Sobe, imaginação! Abre os arcanos
das lendas ameríndias, e dos Andes
me facilita os penetrais augustos.
Deixa ficar meu verso como o rio
das famosas guerreiras, quando as águas
aos tálamos da luz solene guia:
caudal e majestoso. Não menores
imagens me concede, altos remígios
aos feitos adequados, porque eu canto
do Brasil a excelência, na aristia
do férreo bandeirante celebrada.
Muito peregrinou Rapôso invicto,
por todo o Tapuirama, correntezas
em seu curso transpondo inumeráveis.
Longe os fortes paulistas arrebata,
léguas grandes à pátria incorporando.
Na direção do ocaso os lindes pátrios
afastou, sempre à frente de seus homens,
desde a Serra do Mar, desde a corrente
sagrada do Anhembi, por tôda a costa
que o grande abalador bramando açoita.
Já dos Andes retorna; já, nas águas
do grande mar de dentro, as Amazonas
belicosas procura, que tão grande
terror sabiam despertar em tôdas
as tribos aguerridas do mar doce.
Loucas! Pois intentaram revoltar-se
contra o poder dos Andes, como os nobres
Titãs, vindo por isso a ser entregues
aos deuses catactônios. Mas a glória
das Amazonas não baixou nas águas
que lhes tragou o império; em fascinantes
visões revive agora, inseparável
da do maior dos sertanistas pátrios,
e eternizada neste canto que há de
ser ouvido por todo o Pindorama.

Carlos Alberto Nunes. Os Brasileidas. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1962.

domingo, novembro 08, 2015

"Homero" - Murilo Mendes

Homero rapta Helena corporal, arma e desarma guerreiros, incendeia Tróia;

Fatigado, sangrando-lhe a armadura projetada pelo primeiro De Chirico, seguido por algumas Metáforas fiéis.

Recolhe-se, com guerra dentro, a um castelo de textos órfão de Helena; serpente e sibila interrogam-no.

Desprovido de Helena corporal, perde a vista.

O poema entretanto continua a caminhar às apalpadelas de seu corpo macho, auto-pai sem os braços de Helena total.

Antiqüíssimo, já nem se recorda das suas primeiras letras. E clássico, barroco, romântico, surrealista, atômico.

A aurora dedirrósea, Helena nº2, abole o seu inventor;

O crítico Poleimos contesta-lhe a téssera da identidade;

O vento analfabeto atira-lhe pedras.


sábado, outubro 24, 2015

Ezra Pound - Cantares, 81 - Fragmento. Tradução de Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos

O que amas de verdade permanece,
o resto é escória
O que amas de verdade não te será arrancado
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
Mundo de quem, meu ou deles
ou não é de ninguém?
Veio o visível primeiro, depois o palpável
Elísio, ainda que fosse nas câmaras do inferno,
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
O que amas de verdade não te será arrancado

A formiga é um centauro em seu mundo de dragões.
Abaixo tua vaidade, nem coragem
Nem ordem, nem graça são obras do homem,
Abaixo tua vaidade, eu digo abaixo.
Aprende com o mundo verde o teu lugar
Na escala da invenção ou arte verdadeira,
Abaixo tua vaidade,
Paquin, abaixo!
O elmo verde superou tua elegância.
"Domina-te e outros te suportarão"
Abaixo tua vaidade
Tu és um cão surrado e largado ao granizo,
Uma pega inchada sob o sol instável,
Metade branca, metade negra
E confundes a asa com a cauda
Abaixo tua vaidade
Que mesquinhos teus ódios
Nutridos na mentira,
Abaixo tua vaidade,
Ávido em destruir, avaro em caridade,
Abaixo tua vaidade,
Eu digo abaixo.

Mas ter feito em lugar de fazer
isto não é vaidade
Ter, com decência, batido
Para que um Blunt abrisse
Ter colhido no ar a tradição mais viva
ou num belo olho antigo a flama inconquistada
Isto não é vaidade.
Aqui, o erro todo consiste em não ter feito.
Todo: na timidez que vacilou.

[Tradução de Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Décio Pignatari in Ezra Pound, Poesia. Edição do centenário do nascimento de Ezra Pound. 2 ed. São Paulo: Hucitec, 1985]

What thou lovest well remains,
the rest is dross
What thou lov’st well shall not be reft from thee
What thou lov’st well is thy true heritage
Whose world, or mine or theirs
or is it of none?
First came the seen, then thus the palpable
Elysium, though it were in the halls of hell,
What thou lovest well is thy true heritage
What thou lov’st well shall not be reft from thee

The ant’s a centaur in his dragon world.
Pull down thy vanity, it is not man
Made courage, or made order, or made grace,
Pull down thy vanity, I say pull down.
Learn of the green world what can be thy place
In scaled invention or true artistry,
Pull down thy vanity,
Paquin pull down!
The green casque has outdone your elegance.

“Master thyself, then others shall thee beare”
Pull down thy vanity
Thou art a beaten dog beneath the hail,
A swollen magpie in a fitful sun,
Half black half white
Nor knowst’ou wing from tail
Pull down thy vanity
How mean thy hates
Fostered in falsity,
Pull down thy vanity,
Rathe to destroy, niggard in charity,
Pull down thy vanity,
I say pull down.

But to have done instead of not doing
this is not vanity
To have, with decency, knocked
That a Blunt should open
To have gathered from the air a live tradition
or from a fine old eye the unconquered flame
This is not vanity.
Here error is all in the not done,
all in the diffidence that faltered . . .

terça-feira, outubro 20, 2015

Hino Órfico 70: Eumênides

[Εὐμενίδων], θυμίαμα ἀρώματα.

Κλῦτέ μου, Εὐμενίδες μεγαλώνυμοι, εὔφρονι βουλῆι,
ἁγναὶ θυγατέρες μεγάλοιο Διὸς χθονίοιο
Φερσεφόνης τ', ἐρατῆς κούρης καλλιπλοκάμοιο,
αἳ πάντων καθορᾶτε βίον θνητῶν ἀσεβούντων,
τῶν ἀδίκων τιμωροί, ἐφεστηκυῖαι ἀνάγκηι, (5)
κυανόχρωτες ἄνασσαι, ἀπαστράπτουσαι ἀπ' ὄσσων
δεινὴν ἀνταυγῆ φάεος σαρκοφθόρον αἴγλην·
ἀίδιοι, φοβερῶπες, ἀπόστροφοι, αὐτοκράτειραι,
λυσιμελεῖς οἴστρωι, βλοσυραί, νύχιαι, † πολύποτμοι,
νυκτέριαι κοῦραι, ὀφιοπλόκαμοι, φοβερῶπες· (10)
ὑμᾶς κικλήσκω γνώμαις ὁσίαισι πελάζειν.

[Das Eumênides], fumigação: ervas aromáticas

Ouvi-me, Eumênides de magno nome, com benévolo desígnio,
puras filhas do grande Zeus ctônio
e de Perséfone, a amável donzela de belos cachos;
vós contemplais a vida de todos os ímpios mortais,
vingadoras de injustiças, investidas por necessidade, (5)
soberanas de pele escura, de vossos olhos lampeja
terrível radiante raio de luz, rompendo a carne;
perpétuas de olhar temível, revoltantes rainhas
solta-membros,com vosso aguilhão; hirsutas, multifatídicas
noturnas donzelas com cabelos de serpente e olhar temível; (10)
eu vos invoco com sagrados pensamentos: aproximai-vos!

[Tradução: Rafael Brunhara]

domingo, outubro 18, 2015

Horácio - Epodo XIII Leitura e Tradução de Robert de Brose

https://soundcloud.com/robert_de_brose/horace-epode-xiii

Horrida tempestas caelum contraxit et imbres
nivesque deducunt Iovem; nunc mare, nunc siluae
Threicio Aquilone sonant. rapiamus, amici,
occasionem de die, dumque virent genua
et decet, obdūctā solvatur fronte senectus.
tu vīna Torquato move consule pressa meo.
cetera mitte loqui: deus haec fortasse benigna
reducet in sedem vice. nunc et Achaemenio
perfundī nardō iuvat et fidē Cyllenaea
levāre diris pectora | sollicitudinibus,
nobilis ut grandī cecinit Centaurus alumno:
'invicte, mortalis deā nate puer Thetide,
te mānet Assaracī tellus, quam frigida parvī
findunt Scamandrī flumina lubricus et Simois,
unde tibi reditum certo subtemine Parcae
rupere, nec mater domum caerula te revehet.
illic omne malum vino cantuque lēvātō,
deformis aegrimoniae dulcibus adloquiis.'


Horrível tempestade contraiu o céu e chuvas
e neves depõem Jove: agora o mar, agora as selvas
com o Trácio Aquilão ressoam. Colhamos, amigos,
a ocasião do dia, enquanto vicejam as pernas
e convém, contraída à fronte dissolva-se a velhice.
Tu as uvas traz, prensadas no consulado do meu Torquato,
do resto evita falar, um deus talvez, os invés disso,
outras benesses reponha em seu lugar. Agora Aquemênio
com o nardo ajuda o ungir-se, e com a fida cilênia,
o aliviar do peito as diras preocupações,
assim nobre cantou o Centauro ao grande aluno:
“Invicto entre os mortais, filho nascido da deusa Tétis,
espera-te a terra de Assáraco, que as frígidas águas
do raso Escamândro dividem e o célere Símois,
onde o teu retorno, com certo fiame, as Parcas
romperam, nem a mãe cerúlea à casa te levará.
Lá todo o mal com o vinho, com o canto, alivia,
doces consolos de uma deformante tristeza.

[Tradução: Robert de Brose]

Hino Órfico 69: Erínias

[Ἐρινύων], θυμίαμα στύρακα καὶ μάνναν.

Κλῦτε, θεαὶ πάντιμοι, ἐρίβρομοι, εὐάστειραι,
Τισιφόνη τε καὶ Ἀλληκτὼ καὶ δῖα Μέγαιρα·
νυκτέριαι, μυχίοις ὑπὸ κεύθεσιν οἰκί' ἔχουσαι
ἄντρωι ἐν ἠερόεντι παρὰ Στυγὸς ἱερὸν ὕδωρ,
οὐχ ὁσίαις βουλαῖσι βροτῶν κεκοτημέναι αἰεί, (5)
λυσσήρεις, ἀγέρωχοι, ἐπευάζουσαι ἀνάγκαις,
θηρόπεπλοι, τιμωροί, ἐρισθενέες, βαρυαλγεῖς,
Ἀίδεω χθόνιαι, φοβεραὶ κόραι, αἰολόμορφοι,
ἠέριαι, ἀφανεῖς, ὠκυδρόμοι ὥστε νόημα·
οὔτε γὰρ ἠελίου ταχιναὶ φλόγες οὔτε σελήνης (10)
καὶ σοφίης ἀρετῆς τε καὶ ἐργασίμου θρασύτητος
† εὔχαρι οὔτε βίου λιπαρᾶς περικαλλέος ἥβης
ὑμῶν χωρὶς ἐγείρει ἐυφροσύνας βιότοιο·
ἀλλ' αἰεὶ θνητῶν πάντων ἐπ' ἀπείρονα φῦλα
ὄμμα Δίκης ἐφορᾶτε, δικασπόλοι αἰὲν ἐοῦσαι. (15)
ἀλλά, θεαὶ Μοῖραι, ὀφιοπλόκαμοι, πολύμορφοι,
πραΰνοον μετάθεσθε βίου μαλακόφρονα δόξαν.

[Das Erínias] Fumigação: estoraque e incenso

Ouvi, Deusas de todas as honras, bradando evoés
em amplo clamor, Tisífone e Alecto e divina Megera:
noturnas com lares nos profundos recessos da terra,
em nevoenta gruta junto às sacras águas do Estige,
com rancor de planos não pios dos mortais sempre,
sois Deusas altivas, fúrias enlouquecidas a clamar o devido,
fortíssimas vingadoras em vestes selvagens, de pesado sofrer,
subtérreas terríveis donzelas do Hades de mutante forma:
aéreas e invisíveis, correndo rápido como o pensamento!
Nem os raios velozes do sol ou da lua (10)
nem sabedoria, virtude, ou alegria em arrojados trabalhos
nem a parte mais rica da vida, a belíssima juventude,
despertam a felicidade de viver, se vos ausentais:
sim a todos os infinitos povos mortais sempre
mirais com olho da Justiça, juízas sempre vivas! (15),
Vamos, Deusas Moiras multiformes, cabelos de serpente:
tornai a mente branda e leve o coração nos pensamentos da vida.

[Tradução: Rafael Brunhara]

sábado, outubro 03, 2015

Antologia Palatina XII - A Musa Pueril

12.16 - Estratão
Não sejas recatado, Filócrates: o Deus Amor
basta p'ra calcar aos pés nosso coração.
Beija-me, hoje; chegará o dia em que tu
pedirás também esse favor de outro.

12.18 - Alfeu de Mitilene
Infeliz, quem vive sem amor; Sem o desejo,
não é fácil agir ou falar;
Por exemplo: sou muito lento, mas se vejo
Xenófilo, voo mais rápido que a luz.
Por isso, digo: não fujas do doce amor, persiga-o!
Amor é a pedra de toque da alma.

12.20 - Júlio Leônidas
Zeus compraz-se outra vez em banquetes Etíopes,
ou como ouro esgueira-se no leito de Dânae.
Pois seria um espanto se, ao ver Periandro, não raptasse da terra
o belo. Será que o Deus não mais ama meninos?

[Tradução: Rafael Brunhara]

sexta-feira, setembro 11, 2015

Jaa Torrano - A Esfera e os Dias - Grand hommage à L'inventeur du sonnet

Se ouvimos Deus em nosso dia deserto,
inútil conversarmos entre nós, que ouvimos.
Se não se (h)ouve Deus em nosso dia inaudível,
é inútil toda conversa, pois não ouvimos.

Converso com meu cachimbo como um homem
a quem se pudesse falar em silêncio. E
o cachimbo me responde como a um cachimbo.

Terrível prova foi vários dias ver
meus rastos adiante de meus passos.
O ouvido escuta o dia escuro como
a noite que se clareia com os pássaros.

Convivo só com um pequeno fantasma que
diz: convivo só com um pequeno fantasma que
diz conviver só com um pequeno fantasma.

(TORRANO, JAA. A Esfera e os Dias, São Paulo: Anablumme, 2009)

sábado, setembro 05, 2015

Epigramas de Calímaco - Traduções de José Carlos Baracat jr.

Epigrama 2 (ed.Pfeiffer)

Disse, Heráclito, alguém a tua sorte e às lágrimas
levou-me ele; lembrei-nos amiúde
a serenar o sol. Porém ao pó te arrimas,
halicarnasso, em prístino ataúde.
Mas Hades teus poemas, eternas vindimas,
não vai tocar, inda que de al mais cuide.

Εἶπέ τις, Ἡράκλειτε, τεὸν μόρον, ἐς δέ με δάκρυ
ἤγαγεν· ἐμνήσθην δ' ὁσσάκις ἀμφότεροι
ἥλιον ἐν λέσχῃ κατεδύσαμεν. ἀλλὰ σὺ μέν που,
ξεῖν' Ἁλικαρνησεῦ, τετράπαλαι σποδιή,
αἱ δὲ τεαὶ ζώουσιν ἀηδόνες, ᾗσιν ὁ πάντων
ἁρπακτὴς Ἀΐδης οὐκ ἐπὶ χεῖρα βαλεῖ.

[Fonte: BARACAT JR., J.C. - "Calímaco, Epigrama 2" in Translatio vol.8, Porto Alegre: UFRGS. 2014. p.66-68]


Epigrama 3 (ed. Pfeiffer)

Não me digas “olá”, cancro-cor, vade retro:
“Olá” p'ra mim é ver-te pelas costas.

Μὴ χαίρειν εἴπῃς με, κακὸν κέαρ, ἀλλὰ πάρελθε·
ἶσον ἐμοὶ χαίρειν ἐστὶ τὸ μὴ σὲ πελᾶν*.

*(Lê-se πελᾶν em vez de γελᾶν)


Epigrama 4 (ed.Pfeiffer)

“Tímon (pois já não vives): treva ou luz odeias?”
“Treva: mais numerosos sois no Hades”.

Τίμων (οὐ γὰρ ἔτ' ἐσσί), τί τοι, σκότος ἢ φάος, ἐχθρόν;
‘τὸ σκότος· ὑμέων γὰρ πλείονες εἰν Ἀΐδῃ


Epigrama 21 (ed.Pfeiffer)

Tu que por minha tumba andas, eu de Calímaco,
Sabe, sou filho e pai – Cirene é a terra.
Conheces ambos: um de exércitos da pátria
Chefe; poeta além de inveja o outro.
Justo: pois, quando zelam Musas por criança,
São-lhe amigas até tornar-se gris.

Ὅστις ἐμὸν παρὰ σῆμα φέρεις πόδα, Καλλιμάχου με
ἴσθι Κυρηναίου παῖδά τε καὶ γενέτην.
εἰδείης δ' ἄμφω κεν· ὁ μέν κοτε πατρίδος ὅπλων
ἦρξεν, ὁ δ' ἤεισεν κρέσσονα βασκανίης
οὐ νέμεσις· Μοῦσαι γὰρ ὅσους ἴδον ὄμματι παῖδας
ἄχρι βίου πολιοὺς οὐκ ἀπέθεντο φίλους.

[Trad. José Carlos Baracat Júnior]

sexta-feira, agosto 28, 2015

Antologia Palatina 11.400-401 - Luciano

400
Sê propícia, vital Gramática! Da fome
achaste a cura: "Canta a ira, ó deusa".
Dever-se-ia erguer belo templo para ti,
 altares teus jamais sem sacrifícios.
"Repletas de ti as trilhas, Repleto o mar,
portos."* a todos tu acolhes, Gramática! "

[Trad. Rafael Brunhara]

401
Um médico mandou-me o filho p'ra aprender
 comigo algumas lições de gramática
Mas quando leu "A ira canta" e "mil dores causou",
e em seguida o terceiro verso,
"Muitas valentes almas lançou no Hades"  
O pai não mais mandou o filho às aulas.
Quando me viu, falou:"Obrigado, amigo!
Essas coisas, o menino pode aprender comigo,
pois eu também muitas almas lanço no Hades,
e para isso não preciso de gramático!"

[Trad. Rafael Brunhara]

* Remete a Arato, Fenômenos, v.2-4: "Repletas de Zeus  todos os caminhos/ repletos os mercados humanos, repleto o mar,/portos..."


quinta-feira, agosto 27, 2015

A Folha de Ouro de Hipônion

Nota Liminar

A folha de ouro de Hipônion (Vibo-Valência) é um dos textos mais antigos a revelar elementos da religião e literatura órfica. Datado de 400 a.C., o texto, muito deteriorado,contém instruções aos mortos para o caminho além-vida. Para esta tradução, uso a edição de Miroslav Marcovich, "The Golden Leaf of Hipponion" publicado na Zeitschrift für Papyrologie und Epigraphik, 23, pp.221-224 (1976).




Eis a folha da Rememoração para o dia em que morrermos.

No palácio de Hades, quando lá chegares,
Encontrarás uma fonte de água escura à tua direita,
E ao lado dela, erguido, um cipreste branco.
Ali as almas dos mortos, quando descem, se refrescam.
Não chegues perto desta fonte!
Água fresca adiante encontrarás, jorrando
Do lago da Rememoração. No alto há guardiões
Que te perguntarão, com discernimento no espírito,
O que procuras na escuridão do Hades funesto.
Diz: “ sou filho da Terra pesada e do Céu constelado;
Mas estou morrendo, seco de sede. Então, dá-me logo
A água fresca que jorra do lago da Rememoração...”
E eles se compadecerão de ti, em nome Rainha subterrânea,
E te darão de beber desse lago da Rememoração;
E aí percorrerás longa estrada sagrada que também
Outros Bacos [Bácchoi] e Iniciados [mýstai] trilharam, gloriosos...

[Trad. Rafael Brunhara]

sábado, agosto 22, 2015

Antologia Palatina 5.158: Asclepíades de Samos

Com a sedutora Hermíone eu brincava um dia;
ela vestia cinto de variegadas flores, ó Afrodite,
com uma inscrição em letras de ouro por todo ele:
"Ama-me e não te atormentes se eu ficar com outro"

[Tradução: Rafael Brunhara]

Antologia Palatina 11, 312 - Lucílio

Embora ninguém tenha morrido aqui, viandante,
Marcos, o poeta, construiu um túmulo,
escreveu e gravou nesta pedra o epigrama de um verso:
"Chorai por Máximo de Éfeso, que viveu doze anos"
Eu nunca vi nenhum Máximo, mas para a exibição
do poeta, digo: "chorai, viandantes!"

[Trad. Rafael Brunhara]

quarta-feira, julho 22, 2015

Alceu, fr.38 L-P

Bebe, [e te embriaga], Melanipo, comigo. O que pensas?
Que quando a grande voragem do rio Aqueronte
atravessar[es], a pura luz do [s]ol verás [outra vez?]
Ora, vamos, não almejes grandes coisas:
pois até mesmo o rei Sísifo Eólida,
dos homens o mais entendido, [pensou ser senhor da morte]
mas mesmo muito esperto, por obra do Destino [duas vezes]
cruzou a voragem do rio Aqueronte e ο [Rei] Cronida então
tramou para ele um castigo [nas profundezas]
da terra negra. Vamos, não tenhas essas grandes esperanças,
enquanto somos jovens[convém suportar agora]
quaisquer sofrimentos [que o Deus nos faça passar]
...o vento Boreal...

πῶνε[καὶ μεθύ ὦ] Μελάνιππ' ἄμ' ἔμοι. τι[φαῖς
⸏†ὄταμε[...]διννάεντ' Ἀχέροντα μέγ̣[αν πόρον

ζάβαι[ς ἀ]ελίω κόθαρον φάος [ἄψερον
⸏ὄψεσθ', ἀλλ' ἄγι μὴ μεγάλων ἐπ[ ιβάλλεο

καὶ γὰρ Σίσυφος Αἰολίδαις βασίλευς [ἔφα
⸏ἄνδρων πλεῖστα νοησάμενος [θανάτω κρέτην

ἀλλὰ καὶ πολύιδρις ἔων ὐπὰ κᾶρι [ δις
⸏δ̣ιννάεντ' Ἀχέροντ' ἐπέραισε, μ[έμηδε δ ὦν

α]ὔτω<ι> μόχθον ἔχην Κρονίδαις βα̣[σιλευς κατώ
⸏]μ̣ελαίνας χθόνος. ἀλλ' ἄγ̣ι μὴ τα[δ ἐπέλπεο

Θᾶς] αβάσομεν αἴ ποτα κἄλλοτα.[νῦν πρέ[πει
φέρ]ην ὄττινα τῶνδε πάθην τα[χα δώι θέος
......ἄνε]μος βορίαις ἐπι.[

[Tradução: Rafael Brunhara]

Alceu, fragmento 130 L-P; Eurípides, Troianas, vv.924-944 ("O Julgamento de Páris"), Rufino (Antologia Palatina V.35 e V.36)

A competição (ágon) era um aspecto proeminente no mundo grego, e se manifestava em diversas esferas de sua sociedade: um exemplo está nos concursos de beleza, masculinos ou femininos. Alceu de Mitilene (fr. 130 L-P, v.13, 17-20) nos informa que esses concursos também faziam parte da vida religiosa, sendo provavelmente parte integrante de cultos à deusa Afrodite na ilha de Lesbos:

Lá, na terra consagrada aos deuses venturosos,
(...)
Onde as lésbias, sendo julgadas pela formosura,
vão e vêm arrastando os peplos, e em volta freme
o eco divino das mulheres,
o sagrado alarido das mulheres, ano a ano...

.].[...].[..]. μακάρων ἐς τέμ[ε]νος θέων
(...)
ὄππαι Λ[εσβί]αδες κριννόμεναι φύαν
πώλεντ' ἐλκεσίπεπλοι, περὶ δὲ βρέμει
ἄχω θεσπεσία γυναίκων
⸏ἴρα[ς ὀ]λολύγας ἐνιαυσίας

No entanto, um dos exemplos mais marcantes está no mito, no célebre julgamento de Páris. Na passagem abaixo da peça Troianas (v. 924-944) Eurípides apresenta Helena referindo-se ao episódio para o marido, Menelau:

E ele [Páris] julgou o trio de Deusas:
o presente de Palas para Alexandre era
se tornar general dos Frígios e destruir a Grécia;
Hera prometeu-lhe de Ásia e fronteiras de Europa
ser regente, se Páris a escolhesse.
Mas Cípris, espantada com minha formas
prometeu, se prevalecesse entre as Deusas,
dar a minha beleza. Daí, vê bem como segue a história:
Cípris vence as Deusas; e como as minhas núpcias
beneficiaram a Grécia! Não fostes dominados pelos Bárbaros,
na lança se impondo, ou por tirania.
No que a Grécia teve sorte, eu tive pranto;
vendida por minha beleza, sou censurada
por aqueles que deveriam coroar-me de louros!
Vais dizer que ainda não tratei do cerne da questão,
de como eu parti do teu palácio em segredo:
Não era deusa menor que veio com ele,
esse nume vingador, - queiras tu chamá-lo
de Alexandre ou de Páris – a quem,
grande infeliz, deixaste em teu palácio
e partiste num navio, de Esparta para o solo cretense.

ἔκρινε τρισσὸν ζεῦγος ὅδε τριῶν θεῶν·
καὶ Παλλάδος μὲν ἦν Ἀλεξάνδρωι δόσις
Φρυξὶ στρατηγοῦνθ' Ἑλλάδ' ἐξανιστάναι·
Ἥρα δ' ὑπέσχετ' Ἀσιάδ' Εὐρώπης θ' ὅρους
τυραννίδ' ἕξειν, εἴ σφε κρίνειεν Πάρις·
Κύπρις δὲ τοὐμὸν εἶδος ἐκπαγλουμένη
δώσειν ὑπέσχετ', εἰ θεὰς ὑπερδράμοι
κάλλει. τὸν ἔνθεν δ' ὡς ἔχει σκέψαι λόγον·
νικᾶι Κύπρις θεάς, καὶ τοσόνδ' οὑμοὶ γάμοι
ὤνησαν Ἑλλάδ'· οὐ κρατεῖσθ' ἐκ βαρβάρων,
οὔτ' ἐς δόρυ σταθέντες, οὐ τυραννίδι.
ἃ δ' εὐτύχησεν Ἑλλάς, ὠλόμην ἐγὼ
εὐμορφίαι πραθεῖσα, κὠνειδίζομαι
ἐξ ὧν ἐχρῆν με στέφανον ἐπὶ κάραι λαβεῖν.
οὔπω με φήσεις αὐτὰ τἀν ποσὶν λέγειν,
ὅπως ἀφώρμησ' ἐκ δόμων τῶν σῶν λάθραι.
ἦλθ' οὐχὶ μικρὰν θεὸν ἔχων αὑτοῦ μέτα
ὁ τῆσδ' ἀλάστωρ, εἴτ' Ἀλέξανδρον θέλεις
ὀνόματι προσφωνεῖν νιν εἴτε καὶ Πάριν·
ὅν, ὦ κάκιστε, σοῖσιν ἐν δόμοις λιπὼν
Σπάρτης ἀπῆρας νηὶ Κρησίαν χθόνα.


O mito do Julgamento de Páris torna-se um lugar-comum na poesia erótica, e são exemplos os dois epigramas (V.35; V.36) do poeta Rufino, abaixo citados. Pouco se sabe deste poeta a não ser pelos 38 epigramas de sua lavra conservados no Livro V da Antologia Palatina, o que levou alguns estudiosos (Paton, Stadtmüller) a crerem que ao menos uma porção deste livro seria proveniente de uma coleção organizada pelo próprio poeta. D.Page, em sua edição aos poemas de Rufino, argumenta que o poeta teria atuado, provavelmente, no século IV d.C.

Os poemas são uma paródia do julgamento de Páris: assim como as três deusas, as três competidoras também aparecem nuas para o poeta; e nesse sentido, o poeta expõe os critérios do que é desejável: o centro de interesse do poeta está nas partes ocultas da anatomia.

Rufino, V.35

as nádegas julguei de três moças: as próprias me escolheram
e me mostraram a fulgurante nudez de seus corpos.
A de uma, marcada por covinhas arredondadas,
florescia com alvura delicada.
Mas a de outra, quando abria as pernas, a nívea carne enrubescia
mais rubra que a rosa de cor púrpura;
a da terceira, mar sereno batido por tranquila onda,
balançava, tez macia, como que por vontade própria.
Se o juiz das deusas tivesse contemplado estas nádegas,
Nunca teria desejado ver as três primeiras.

Πυγὰς αὐτὸς ἔκρινα τριῶν· εἵλοντο γὰρ αὐταὶ
δείξασαι γυμνὴν ἀστεροπὴν μελέων.
καί ῥ' ἡ μὲν τροχαλοῖς σφραγιζομένη γελασίνοις
λευκῇ ἀπὸ γλουτῶν ἤνθεεν εὐαφίῃ·
τῆς δὲ διαιρομένης φοινίσσετο χιονέη σὰρξ
πορφυρέοιο ῥόδου μᾶλλον ἐρυθροτέρη·
ἡ δὲ γαληνιόωσα χαράσσετο κύματι κωφῷ,
αὐτομάτη τρυφερῷ χρωτὶ σαλευομένη.
εἰ ταύτας ὁ κριτὴς ὁ θεῶν ἐθεήσατο πυγάς,
οὐκέτ' ἂν οὐδ' ἐσιδεῖν ἤθελε τὰς προτέρας.

Rufino, V.36

Ródope, Mélite e Rodocleia disputaram entre si
qual das três tinha a melhor cona,
e me elegeram juiz. Assim como as deusas, admirabilíssimas
se puseram nuas, escorrendo em néctar;
E o meio das pernas de Ródope reluzia, raro,
qual roseira desfeita pelo sopro de Zéfiro [...]
[faltam dois versos.]
A de Rodocleia, igual cristal, úmida na frente
como estátua recém-esculpida em templo.
Mas, sabendo bem o que sofrera Páris pelo julgamento,
De pronto coroei as três deusas.

Ἤρισαν ἀλλήλαις Ῥοδόπη, Μελίτη, Ῥοδόκλεια,
τῶν τρισσῶν τίς ἔχει κρείσσονα μηριόνην,
καί με κριτὴν εἵλοντο· καὶ ὡς θεαὶ αἱ περίβλεπτοι
ἔστησαν γυμναί, νέκταρι λειβόμεναι.
καὶ Ῥοδόπης μὲν ἔλαμπε μέσος μηρῶν πολύτιμος
οἷα ῥοδὼν πολλῷ σχιζόμενος ζεφύρῳ ...
τῆς δὲ Ῥοδοκλείης ὑάλῳ ἴσος ὑγρομέτωπος
οἷα καὶ ἐν νηῷ πρωτογλυφὲς ξόανον.
ἀλλὰ σαφῶς, ἃ πέπονθε Πάρις διὰ τὴν κρίσιν, εἰδὼς
τὰς τρεῖς ἀθανάτας εὐθὺ συνεστεφάνουν.

[Traduções e comentários: Rafael Brunhara]

domingo, junho 21, 2015

Licofrônides, fragmento 844 PMG

Ofereço-te esta rosa,
bela oferta; e minhas sandálias, meu gorro,
e a lança caçadora: meu pensar escorre p'ra longe,
p'ra bela moça que as Graças amam.

[Trad. Rafael Brunhara]

τόδ' ἀνατίθημί σοι ῥόδον,
καλὸν ἄνθημα, καὶ πέδιλα καὶ κυνέαν
καὶ τὰν θηροφόνον λογχίδ', ἐπεί μοι νόος ἄλλαι κέχυται
ἐπὶ τὰν Χάρισιν φίλαν παῖδα καὶ καλάν.

domingo, maio 31, 2015

Hino Órfico 68: Saúde [Higeia]

<Ὑγείας>, θυμίαμα μάνναν.

Ἱμερόεσσ', ἐρατή, πολυθάλμιε, παμβασίλεια,
κλῦθι, μάκαιρ' Ὑγίεια, φερόλβιε, μῆτερ ἁπάντων·
ἐκ σέο γὰρ νοῦσοι μὲν ἀποφθινύθουσι βροτοῖσι,
πᾶς δὲ δόμος θάλλει πολυγηθὴς εἵνεκα σεῖο,
καὶ τέχναι βρίθουσι· ποθεῖ δέ σε κόσμος, ἄνασσα,
μοῦνος δὲ στυγέει σ' Ἀίδης ψυχοφθόρος αἰεί,
ἀιθαλής, εὐκταιοτάτη, θνητῶν ἀνάπαυμα·
σοῦ γὰρ ἄτερ πάντ' ἐστὶν ἀνωφελῆ ἀνθρώποισιν·
οὔτε γὰρ ὀλβοδότης πλοῦτος γλυκερὸς θαλίηισιν,
οὔτε γέρων πολύμοχθος ἄτερ σέο γίγνεται ἀνήρ·
πάντων γὰρ κρατέεις μούνη καὶ πᾶσιν ἀνάσσεις.
ἀλλά, θεά, μόλε μυστιπόλοις ἐπιτάρροθος αἰεὶ
ῥυομένη νούσων χαλεπῶν κακόποτμον ἀνίην.


Da Saúde [Higeia], fumigação: incenso

Desejada e amável multinutriz, rainha de tudo,
ouve-me, venturosa Saúde [Higeia], próspera mãe de tudo:
por ti as doenças dissipam-se entre os mortais,
a casa toda floresce em muito júbilo por tua causa
e frutificam as artes; o cosmo te anseia, soberana,
e somente o Hades, aniquilador de almas, te odeia eternamente;
viçosa sempre em supremos votos, alívio dos mortais;
sem ti tudo é sem proveito para os homens:
nem a próspera riqueza, doce em festivais
nem a velhice fatigada o homem alcança, sem ti;
pois a tudo imperas, sozinha, e a todos reges!
Vem, Deusa, vem ao rito místico como defensora,sempre;
protege-nos das doenças duras e da malfadada dor!

Tradução: Rafael Brunhara

sábado, maio 30, 2015

Íon de Quios (Antologia Palatina, 7.43)



Χαῖρε μελαμπετάλοις, Εὐριπίδη, ἐν γυάλοισι
Πιερίας τὸν ἀεὶ νυκτὸς ἔχων θάλαμον·
ἴσθι δ' ὑπὸ χθονὸς ὤν, ὅτι σοι κλέος ἄφθιτον ἔσται
ἶσον Ὁμηρείαις ἀενάοις χάρισιν.

Salve, Eurípides, que nos vales de pétalas negras
da Piéria tens o leito da noite eterna!
Sabe disto: embora sob a terra, será imperecível tua glória,
igual às graças perenes de Homero.

[Trad. Rafael Brunhara]

sexta-feira, maio 22, 2015

Hino Órfico 67: Asclépio

<Ἀσκληπιοῦ>, θυμίαμα μάνναν.

Ἰητὴρ πάντων, Ἀσκληπιέ, δέσποτα Παιάν,
θέλγων ἀνθρώπων πολυαλγέα πήματα νούσων,
ἠπιόδωρε, κραταιέ, μόλοις κατάγων ὑγίειαν
καὶ παύων νούσους, χαλεπὰς κῆρας θανάτοιο,
αὐξιθαλής, ἐπίκουρ', ἀπαλεξίκακ', ὀλβιόμοιρε, (5)
Φοίβου Ἀπόλλωνος κρατερὸν θάλος ἀγλαότιμον,
ἐχθρὲ νόσων, Ὑγίειαν ἔχων σύλλεκτρον ἀμεμφῆ,
ἐλθέ, μάκαρ, σωτήρ, βιοτῆς τέλος ἐσθλὸν ὀπάζων.

De Asclépio; fumigação: incenso.

Médico de todos, Asclépio, senhor Peã
que abranda as multidoridas penas das doenças humanas,
poderoso de dons generosos, vem, trazendo saúde
e pondo fim às doenças e aos duros destinos de morte;
vicejante auxiliador que repele o mal, doador da fortuna, (5)
de Febo Apolo o forte rebento de esplêndidas honras;
inimigo das doenças, tem Saúde [Higeia] perfeita como consorte.
Vem, venturoso, salvador, acompanhando o nobre termo da vida.

Tradução: Rafael Brunhara

quarta-feira, maio 20, 2015

Hino Órfico 66: Hefesto

<Ἡφαίστου>, θυμίαμα λιβανομάνναν.

Ἥφαιστ' ὀμβριμόθυμε, μεγασθενές, ἀκάματον πῦρ,
λαμπόμενε φλογέαις αὐγαῖς, φαεσίμβροτε δαῖμον,
φωσφόρε, καρτερόχειρ, αἰώνιε, τεχνοδίαιτε,
ἐργαστήρ, κόσμοιο μέρος, στοιχεῖον ἀμεμφές,
παμφάγε, πανδαμάτωρ, πανυπέρτατε, παντοδίαιτε, (5)
αἰθήρ, ἥλιος, ἄστρα, σελήνη, φῶς ἀμίαντον·
ταῦτα γὰρ Ἡφαίστοιο μέλη θνητοῖσι προφαίνει.
πάντα δὲ οἶκον ἔχεις, πᾶσαν πόλιν, ἔθνεα πάντα,
σώματά τε θνητῶν οἰκεῖς, πολύολβε, κραταιέ.
κλῦθι, μάκαρ, κλήιζω <σε> πρὸς εὐιέρους ἐπιλοιβάς, (10)
αἰεὶ ὅπως χαίρουσιν ἐπ' ἔργοις ἥμερος ἔλθοις.
παῦσον λυσσῶσαν μανίαν πυρὸς ἀκαμάτοιο
καῦσιν ἔχων φύσεως ἐν σώμασιν ἡμετέροισιν.

[De Hefesto], fumigação: incenso em pó;

Hefesto de coração brutal, magna força, fogo infatigável,
lume em puras chamas, luzeiro nume aos mortais
lucífero artesão eterno, mão forte,
trabalhador, elemento impecável e parte do cosmo,
devorador supremo, a tudo subjuga, a tudo consome! (5)
Éter, sol, estrelas, lua, límpida luz:
esses os membros de Hefesto, que manifesta aos mortais;
Toda a casa tu possuis, toda a cidade, todos os povos;
tu habitas o corpo dos mortais, ó forte multiafortunado!
Ouve-me, venturoso, celebro-te em sacratíssimas libações,
sempre, para que venhas gentil aos nossos gratos trabalhos.
Cessa a loucura furiosa do fogo infatigável,
mantém acesa a chama da natureza em nossos corpos.

[Tradução: Rafael Brunhara]

Hino Órfico 65: Ares

<Ἄρεος>, θυμίαμα λίβανον.

Ἄρρηκτ', ὀμβριμόθυμε, μεγασθενές, ἄλκιμε δαῖμον,
ὁπλοχαρής, ἀδάμαστε, βροτοκτόνε, τειχεσιπλῆτα,
Ἆρες ἄναξ, ὁπλόδουπε, φόνοις πεπαλαγμένος αἰεί,
αἵματι ἀνδροφόνωι χαίρων, πολεμόκλονε, φρικτέ,
ὃς ποθέεις ξίφεσίν τε καὶ ἔγχεσι δῆριν ἄμουσον·
στῆσον ἔριν λυσσῶσαν, ἄνες πόνον ἀλγεσίθυμον,
εἰς δὲ πόθον νεῦσον Κύπριδος κώμους τε Λυαίου
ἀλλάξας ἀλκὴν ὅπλων εἰς ἔργα τὰ Δηοῦς,
εἰρήνην ποθέων κουροτρόφον, ὀλβιοδῶτιν

De Ares, fumigação: Olíbano

Invulnerável coração brutal, magna força, bravo nume
que se apraz em armas, indomável homicida rompe-muralhas,
Ares soberano de armas clangorosas, de sangue sempre manchado,
Alegras-te no cruor das matanças, no tumulto da guerra, apavorante;
Anseias pelo rude estridor de lanças e espadas;
Contém o conflito furioso, alivia a fadiga que fere a alma,
ao desejo de Cípris anui, e aos cortejos de Lieu;
troca a bravura armada pelos trabalhos de Deo,
anseia a paz nutriz de jovens, sê o doador da fortuna!

[Tradução de Rafael Brunhara]

Proclo [410/11-485 d.C.]: Hino a Atena Multiversátil

Κλῦθί μευ, αἰγιόχοιο Διὸς τέκος, ἡ γενετῆρος
πηγῆς ἐκπροθοροῦσα καὶ ἀκροτάτης ἀπὸ σειρῆς·
ἀρσενόθυμε, φέρασπι, μεγασθενές, ὀβριμοπάτρη,
Παλλάς, Τριτογένεια, δορυσσόε, χρυσεοπήληξ,
κέκλυθι· δέχνυσο δ' ὕμνον ἐύφρονι, πότνια, θυμῷ, (5)
μηδ' αὔτως ἀνέμοισιν ἐμόν ποτε μῦθον ἐάσῃς,
ἡ σοφίης πετάσασα θεοστιβέας πυλεῶνας
καὶ χθονίων δαμάσασα θεημάχα φῦλα Γιγάντων·
ἣ πόθον Ἡφαίστοιο λιλαιομένοιο φυγοῦσα
παρθενίης ἐφύλαξας ἑῆς ἀδάμαντα χαλινόν· (10)
ἣ κραδίην ἐσάωσας ἀμιστύλλευτον ἄνακτος
αἰθέρος ἐν γυάλοισι μεριζομένου ποτὲ Βάκχου
Τιτήνων ὑπὸ χερσί, πόρες δέ ἑ πατρὶ φέρουσα,
ὄφρα νέος βουλῇσιν ὑπ' ἀρρήτοισι τοκῆος
ἐκ Σεμέλης περὶ κόσμον ἀνηβήσῃ Διόνυσος· (15)
ἧς πέλεκυς, θήρεια ταμὼν προθέλυμνα κάρηνα,
πανδερκοῦς Ἑκάτης παθέων ηὔνησε γενέθλην·
ἣ κράτος ἤραο σεμνὸν ἐγερσιβρότων ἀρετάων·
ἣ βίοτον κόσμησας ὅλον πολυειδέσι τέχναις
δημιοεργείην νοερὴν ψυχαῖσι βαλοῦσα· (20)
ἣ λάχες ἀκροπόληα καθ' ὑψιλόφοιο κολώνης,
σύμβολον ἀκροτάτης μεγάλης σέο, πότνια, σειρῆς·
ἣ χθόνα βωτιάνειραν ἐφίλαο, μητέρα βίβλων,
πατροκασιγνήτοιο βιησαμένη πόθον ἱρόν,
οὔνομα δ' ἄστεϊ δῶκας ἔχειν σέο καὶ φρένας ἐσθλάς· (25)
ἔνθα μάχης ἀρίδηλον ὑπὸ σφυρὸν οὔρεος ἄκρον
σῆμα καὶ ὀψιγόνοισιν ἀνεβλάστησας ἐλαίην,
εὖτ' ἐπὶ Κεκροπίδῃσι Ποσειδάωνος ἀρωγῇ
μυρίον ἐκ πόντοιο κυκώμενον ἤλυθε κῦμα,
πάντα πολυφλοίσβοισιν ἑοῖς ῥεέθροισιν ἱμάσσον. (30)
κλῦθί μευ, ἡ φάος ἁγνὸν ἀπαστράπτουσα προσώπου·
δὸς δέ μοι ὄλβιον ὅρμον ἀλωομένῳ περὶ γαῖαν,
δὸς ψυχῇ φάος ἁγνὸν ἀπ' εὐιέρων σέο μύθων
καὶ σοφίην καὶ ἔρωτα· μένος δ' ἔμπνευσον ἔρωτι
τοσσάτιον καὶ τοῖον, ὅσον χθονίων ἀπὸ κόλπων (35)
αὖ ἐρύσῃ πρὸς Ὄλυμπον ἐς ἤθεα πατρὸς ἐῆος.
εἰ δέ τις ἀμπλακίη με κακὴ βιότοιο δαμάζει –
οἶδα γάρ, ὡς πολλοῖσιν ἐρίχθομαι ἄλλοθεν ἄλλαις
πρήξεσιν οὐχ ὁσίαις, τὰς ἤλιτον ἄφρονι θυμῷ – ,
ἵλαθι, μειλιχόβουλε, σαόμβροτε, μηδέ μ' ἐάσῃς (40)
ῥιγεδαναῖς Ποιναῖσιν ἕλωρ καὶ κύρμα γενέσθαι
κείμενον ἐν δαπέδοισιν, ὅτι τεὸς εὔχομαι εἶναι.
δὸς γυίοις μελέων σταθερὴν καὶ ἀπήμον' ὑγείην,
σαρκοτακῶν δ' ἀπέλαυνε πικρῶν ἀγελάσματα νούσων,
ναί, λίτομαι, βασίλεια, καὶ ἀμβροσίῃ σέο χειρὶ (45)
παῦσον ὅλην κακότητα μελαινάων ὀδυνάων.
δὸς βιότῳ πλώοντι γαληνιόωντας ἀήτας,
τέκνα, λέχος, κλέος, ὄλβον, ἐυφροσύνην ἐρατεινήν,
πειθώ, στωμυλίην φιλίης, νόον ἀγκυλομήτην,
κάρτος ἐπ' ἀντιβίοισι, προεδρίην ἐνὶ λαοῖς. (50)
κέκλυθι, κέκλυθ', ἄνασσα· πολύλλιστος δέ σ' ἱκάνω
χρειοῖ ἀναγκαίῃ· σὺ δὲ μείλιχον οὖας ὑπόσχες.

Ouve-me, prole do Porta-Égide Zeus, que da genitora
fonte irrompeu e de sua mais elevada linhagem:
coração viril, portadora do escudo, fortíssima de pai poderoso,
Palas Tritogênia lanceira de elmo áureo,
ouve! Acolhe o hino, senhora, com alegre coração, (5)
não deixes meu verbo a mercê dos ventos, vão,
tu, que do saber abriste os portais trilhados por Deuses,
e dos terrestres Gigantes domaste a raça combatente de Deuses;
tu, que do desejo de Hefesto ardoroso escapaste,
e de tua virgindade guardaste o freio de diamante; (10)
tu, que salvaste o cor não lacerado do senhor
nos vales do firmamento, quando Baco foi repartido
pelas mãos dos Titãs, e o ofertaste ao teu pai levando
para que novo por desígnios inefáveis do genitor
re-adolescesse do ventre de Sêmele ao redor do cosmo Dioniso; (15)
teu machado cortou na raiz a feroz cerviz das feras
das paixões de Hécate onividente, aquietaste seu nascimento;
tu, que tens amor pelas virtudes que fazem mortais despertarem;
tu, que nossa vida toda ornaste com muitas formas de arte,
uma demiurgia inteligível lançando em nossas almas; (20)
que recebeste por lote a Acrópole na alcantilada colina,
símbolo da altíssima grandeza, senhora, de tua linhagem:
tu, mãe dos livros, amaste esta terra nutriz,
do irmão do pai refreando o sagrado desejo;
um nome à cidade deste, o teu, e nobre espírito: (25)
lá, da luta famosa no alto sopé de uma montanha
como memorial para os pósteros fizeste brotar a oliveira,
quando, sobre os Cecrópios, com auxílio de Posídon,
avançou infinita agitada onda vinda do mar
com seus políssonos fluxos fustigando tudo. (30)
Ouve-me, tu que da face irradia pura luz;
Dá a mim, que vago sem rumo, abrigo próspero;
Dá à minha alma a pura luz de teus mitos,
sabedoria e amor; sopra em meu amor uma força
tal e tamanha que para longe dos vácuos da terra (35)
me empurre de volta ao Olimpo, à estância de teu pai.
E se na vida venceu-me um erro vil -
sei que, alhures assolado por muitos atos alheios,
não sacros, faltas cometi com tolo coração -,
sê propícia, doce conselheira salva-mortais, não me deixes (40)
ser presa e espólio de Punições arrepiantes,
quando eu jazer no solo. Professo: sou teu.
Dá aos meus membros saúde firme e sem dano;
afasta a horda das mordazes doenças que consomem a carne,
sim, suplico, rainha, e tu, com tua mão imortal, (45)
faz cessar todo o mal de dores negras.
Dá, à viagem de minha vida, navegar por mares tranquilos,
filhos, esposa, glória, fortuna, a amável felicidade,
persuasão, conversas entre amigos, mente arguciosa,
poder contra meus inimigos, lugar proeminente no povo. (50)
Ouve-me, ouve-me, soberana! Chego a ti com muitas preces
em fatal necessidade: tu, doce, dá-me ouvidos!

[Tradução: Rafael Brunhara]

terça-feira, maio 19, 2015

Hino à Lei (Nomos) (64)

Ἀθανάτων καλέω καὶ θνητῶν ἁγνὸν ἄνακτα,
οὐράνιον Νόμον, ἀστροθέτην, σφραγῖδα δικαίαν
πόντου τ' εἰναλίου καὶ γῆς, φύσεως τὸ βέβαιον
ἀκλινὲς ἀστασίαστον ἀεὶ τηροῦντα νόμοισιν, (5)
οἷσιν ἄνωθε φέρων μέγαν οὐρανὸν αὐτὸς ὁδεύει,
καὶ φθόνον † οὐ δίκαιον † ῥοίζου τρόπον ἐκτὸς ἐλαύνει·
ὃς καὶ θνητοῖσιν βιοτῆς τέλος ἐσθλὸν ἐγείρει·
αὐτὸς γὰρ μοῦνος ζώιων οἴακα κρατύνει
γνώμαις ὀρθοτάταισι συνών, ἀδιάστροφος αἰεί,
ὠγύγιος, πολύπειρος, ἀβλάπτως πᾶσι συνοικῶν (10)
τοῖς νομίμοις, ἀνόμοις δὲ φέρων κακότητα βαρεῖαν.
ἀλλά, μάκαρ, πάντιμε, φερόλβιε, πᾶσι ποθεινέ,
εὐμενὲς ἦτορ ἔχων μνήμην σέο πέμπε, φέριστε.

De mortais e imortais eu chamo o puro soberano,
Lei celeste a compor os astros, signo da justiça
no mar e na terra, a segurança da natureza,
inflexível e imperturbável, eterno vigilante das leis.
Em pessoa ele viaja ao vasto céu e traz-nos as leis,
e com elas, rugente, a inveja injusta para o além expede:
é ele que desperta o nobre fim da vida mortal,
ele mesmo que, só, conduz o leme dos viventes;
companheiro em retos pensamentos, eterno inexorável,
prístino e muito experienciado; convivendo sem dano
com homens de lei, levando pesada degraça aos sem lei.
Vem, venturoso de todas as honras,traz felicidade desejada por todos,
com benfazejo peito envia-nos a lembrança de ti, ó poderoso!

[Tradução de Rafael Brunhara]

sábado, maio 09, 2015

Quinto de Esmirna: "Sequência dos Poemas Homéricos" Canto I, v.1-17

Εὖθ' ὑπὸ Πηλείωνι δάμη θεοείκελος Ἕκτωρ
καί ἑ πυρὴ κατέδαψε καὶ ὀστέα γαῖα κεκεύθει,
δὴ τότε Τρῶες ἔμιμνον ἀνὰ Πριάμοιο πόληα
δειδιότες μένος ἠὺ θρασύφρονος Αἰακίδαο·
ἠύτ' ἐνὶ ξυλόχοισι βόες βλοσυροῖο λέοντος
ἐλθέμεν οὐκ ἐθέλουσιν ἐναντίαι, ἀλλὰ φέβονται
ἰληδὸν πτώσσουσαι ἀνὰ ῥωπήια πυκνά·
ὣς οἳ ἀνὰ πτολίεθρον ὑπέτρεσαν ὄβριμον ἄνδρα,
μνησάμενοι προτέρων ὁπόσων ἀπὸ θυμὸν ἴαψε
θύων Ἰδαίοιο περὶ προχοῇσι Σκαμάνδρου,
ἠδ' <ὁπ>όσους φεύγοντας ὑπὸ μέγα τεῖχος ὄλεσσεν,
Ἕκτορά θ' ὡς ἐδάμασσε καὶ ἀμφείρυσσε πόληι,
ἄλλους θ' οὓς ἐδάιξε δι' ἀκαμάτοιο θαλάσσης,
ὁππότε δὴ τὰ πρῶτα φέρεν Τρώεσσιν ὄλεθρον.
Τῶν οἵ γε μνησθέντες ἀνὰ πτολίεθρον ἔμιμνον·
ἀμφὶ δ' ἄρά σφισι πένθος ἀνιηρὸν πεπότητο
ὡς ἤδη στονόεντι καταιθομένης πυρὶ Τροίης.


Quando o Pelida abateu o deiforme Heitor,
e a pira o consumiu e seus ossos a terra velou,
Os troianos permaneciam na cidade priâmea,
estarrecidos com o vigor do animoso Eácida.
qual reses no silvado um sevo leão
não querem deparar, mas apavoram-se
em tropel encolhidos na mata densa,
assim na cidadela abrigaram-se do estrênuo varão,
a lembrar de quantos ele antes arrojou o ânimo,
quando investia às margens do Idense Escamandro
e dos tantos que matou sob a alta muralha enquanto fugiam;
De como abateu Héctor e o arrastou ao redor da cidade,
De como trucidou outros pelo mar infatigável,
Quando primeiro trouxe aos troianos a ruína.
Disso cientes, na cidadela mantinham-se.
Mas em torno deles pairava uma aflita dor,
Como se Troia já ardesse na plangente chama.

[Tradução: Rafael Brunhara]

segunda-feira, maio 04, 2015

Hino Órfico 63: Retidão [Dikaiosýne]


Δικαιοσύνης, θυμίαμα λίβανον.

Ὦ θνητοῖσι δικαιοτάτη, πολύολβε, ποθεινή,
ἐξ ἰσότητος ἀεὶ θνητοῖς χαίρουσα δικαίοις,
πάντιμ', ὀλβιόμοιρε, Δικαιοσύνη μεγαλαυχής,
ἣ καθαραῖς γνώμαις<ιν> ἀεὶ τὰ δέοντα βραβεύεις,
ἄθραυστος τὸ συνειδὸς ἀεί· θραύεις γὰρ ἅπαντας,
ὅσσοι μὴ τὸ σὸν ἦλθον ὑπὸ ζυγόν, † ἀλλ' ὑπὲρ αὐτοῦ †
πλάστιγξι βριαραῖσι παρεγκλίναντες ἀπλήστως·
ἀστασίαστε, φίλη πάντων, φιλόκωμ', ἐρατεινή,
εἰρήνηι χαίρουσα, βίον ζηλοῦσα βέβαιον·
αἰεὶ γὰρ τὸ πλέον στυγέεις, ἰσότητι δὲ χαίρεις·
ἐν σοὶ γὰρ σοφίη ἀρετῆς τέλος ἐσθλὸν ἱκάνει.
κλῦθι, θεά, κακίην θνητῶν θραύουσα δικαίως,
ὡς ἂν ἰσορροπίαισιν ἀεὶ βίος ἐσθλὸς ὁδεύοι
θνητῶν ἀνθρώπων, οἳ ἀρούρης καρπὸν ἔδουσι,
καὶ ζώιων πάντων, ὁπόσ' ἐν κόλποισι τιθηνεῖ
γαῖα θεὰ μήτηρ καὶ πόντιος εἰνάλιος Ζεύς.

Da Retidão*, Fumigação: Olíbano

Ó mais justa para os mortais, desejada e multiafortunada,
equânime sempre a se alegrar com os justos mortais,
Por todos honrada, rica e retumbante Retidão,
com puro pensar sempre arbitras o devido,
indestrutível consciência sempre: destróis todos
que não se submetem a teu jugo,  † mas contra ele †
por ganância inclinam os potentes pratos da balança;
linda e imperturbável amante das festas, amada por todos;
te alegras na paz, zelosa da vida segura;
abominas a ganância, te alegras na equidade:
em ti a ciência da virtude alcança bom termo.
Ouve, Deusa, com justiça destrói a maldade dos mortais,
para que na trilha do equilíbrio sempre viaje a boa vida
dos homens mortais que comem o fruto da terra
e de todos os seres que se nutrem no seio
da Terra, a Deusa Mãe, [Gaia], e do Zeus das águas do mar.

[Tradução: Rafael Brunhara]


* Optou-se traduzir Δικαιοσύνη (Dikaiosýne) por Retidão. Embora "Justiça" também seja uma tradução de todo possível, optou-se por "Retidão" para diferenciá-la de Δίκη do hino anterior. Além disso, Δικαιοσύνη veicula mais a ideia do conceito abstrato de justiça, do sentimento e das ações vinculados a ela. 

domingo, maio 03, 2015

Hino Órfico 62: Justiça [Díke]

<Δίκης>, θυμίαμα λίβανον.

Ὄμμα Δίκης μέλπω πανδερκέος, ἀγλαομόρφου,
ἣ καὶ Ζηνὸς ἄνακτος ἐπὶ θρόνον ἱερὸν ἵζει
οὐρανόθεν καθορῶσα βίον θνητῶν πολυφύλων,
τοῖς ἀδίκοις τιμωρὸς ἐπιβρίθουσα δικαία,
ἐξ ἰσότητος ἀληθείαι συνάγουσ' ἀνόμοια·
πάντα γάρ, ὅσσα κακαῖς γνώμαις θνητοῖσιν ὀχεῖται
δύσκριτα, βουλομένοις τὸ πλέον βουλαῖς ἀδίκοισι,
μούνη ἐπεμβαίνουσα δίκην ἀδίκοις ἐπεγείρεις·
ἐχθρὰ τῶν ἀδίκων, εὔφρων δὲ σύνεσσι δικαίοις.
ἀλλά, θεά, μόλ' ἐπὶ γνώμαις ἐσθλαῖσι δικαία,
ὡς ἂν ἀεὶ βιοτῆς τὸ πεπρωμένον ἦμαρ ἐπέλθοι.

Da Justiça, Fumigação: Olíbano

Ao Olho da Justiça eu canto e danço, onividente esplêndida forma,
que se senta no sagrado trono do soberano Zeus
e do céu contempla a vida das muitas tribos mortais;
vingador contra injustos extravasando justiça,
equânime fazendo a verdade confrontar os dissídios.
Tudo quanto em maus juízos, difícil de julgar, acorre
aos mortais com iníquos desígnios desejosos de mais,
tu, apenas tu, calcas aos pés e a justiça despertas:
Tu és inimiga de injustos e benévola amparas os justos.
Eia, Deusa, vem, com justiça, pelos nobres pensamentos
sempre, até que me chegue a hora fatal da morte.

[Tradução: Rafael Brunhara]

sábado, maio 02, 2015

Hino à Nêmesis (61)

Ὦ Νέμεσι, κλήιζω σε, θεά, βασίλεια μεγίστη,
πανδερκής, ἐσορῶσα βίον θνητῶν πολυφύλων·
ἀιδία, πολύσεμνε, μόνη χαίρουσα δικαίοις,
ἀλλάσσουσα λόγον πολυποίκιλον, ἄστατον αἰεί,
ἣν πάντες δεδίασι βροτοὶ ζυγὸν αὐχένι θέντες·
σοὶ γὰρ ἀεὶ γνώμη πάντων μέλει, οὐδέ σε λήθει
ψυχὴ ὑπερφρονέουσα λόγων ἀδιακρίτωι ὁρμῆι.
πάντ' ἐσορᾶις καὶ πάντ' ἐπακούεις, {καὶ} πάντα βραβεύεις·
ἐν σοὶ δ' εἰσὶ δίκαι θνητῶν, πανυπέρτατε δαῖμον.
ἐλθέ, μάκαιρ', ἁγνή, μύσταις ἐπιτάρροθος αἰεί·
δὸς δ' ἀγαθὴν διάνοιαν ἔχειν, παύουσα πανεχθεῖς
γνώμας οὐχ ὁσίας, πανυπέρφρονας, ἀλλοπροσάλλας.

Ó Nêmesis, celebro-te, grande Deusa e rainha,
onividente a contemplar a vida das muitas tribos mortais,
multi-insigne perpétua, só tu te agradas com os justos
e transformas as palavras instáveis, multicambiantes, sempre;
os mortais,com o jugo no pescoço, têm medo de ti:
cuidas do pensar de todos e não deixas passar
a alma irrefletida que despreza tuas palavras.
Tudo contemplas, tudo auscultas, tudo arbitras:
em ti está a justiça dos mortais, supremo nume!
Vem, venturosa, pura e eterna defensora dos iniciados,
concede-nos nobres propósitos, cessa os mais hostis
pensamentos - impiedosos, soberbos e inconstantes.

[Tradução: Rafael Brunhara]



Hino Órfico 60: Graças [Khárites]

<Χαρίτων>, θυμίαμα στύρακα.


Κλῦτέ μοι, ὦ Χάριτες μεγαλώνυμοι, ἀγλαότιμοι,
θυγατέρες Ζηνός τε καὶ Εὐνομίης βαθυκόλπου,
Ἀγλαΐη Θαλίη τε καὶ Εὐφροσύνη πολύολβε,
χαρμοσύνης γενέτειραι, ἐράσμιαι, εὔφρονες, ἁγναί,
αἰολόμορφοι, ἀειθαλέες, θνητοῖσι ποθειναί·
εὐκταῖαι, κυκλάδες, καλυκώπιδες, ἱμερόεσσαι·
ἔλθοιτ' ὀλβοδότειραι, ἀεὶ μύσταισι προσηνεῖς.

Das Graças, fumigação: estoraque

Ouvi-me, Graças de magno nome e esplêndidas honras,
filhas de Zeus e de Eunomia de amplo seio,
Esplendente [Aglaie], Festa [Thalíe] e Agradábil[Euphrosýne] riquíssima,
mães da alegria, amáveis, benévolas, puras,
mutantes formas sempre viçosas, desejo dos mortais:
muito ansiadas no volver das estações, desejável face em flor,
Peço, vinde aos mistérios, doadoras da fortuna, suaves sempre.

Tradução: Rafael Brunhara

Hino Órfico 59: Moiras [Partes/Destinos]


<Μοιρῶν>, θυμίαμα ἀρώματα.

Μοῖραι ἀπειρέσιοι, Νυκτὸς φίλα τέκνα μελαίνης,
κλῦτέ μου εὐχομένου, πολυώνυμοι, αἵτ' ἐπὶ λίμνης
οὐρανίας, ἵνα λευκὸν ὕδωρ νυχίας ὑπὸ θέρμης
ῥήγνυται ἐν σκιερῶι λιπαρῶι μυχῶι εὐλίθου ἄντρου,
ναίουσαι πεπότησθε βροτῶν ἐπ' ἀπείρονα γαῖαν· (5)
ἔνθεν ἐπὶ βρότεον δόκιμον γένος ἐλπίδι κοῦφον
στείχετε πορφυρέηισι καλυψάμεναι ὀθόνηισι
μορσίμωι ἐν πεδίωι, ὅθι πάγγεον ἅρμα διώκει
δόξα δίκης παρὰ τέρμα καὶ ἐλπίδος ἠδὲ μεριμνῶν
καὶ νόμου ὠγυγίου καὶ ἀπείρονος εὐνόμου ἀρχῆς·(10)
Μοῖρα γὰρ ἐν βιότωι καθορᾶι μόνη, οὐδέ τις ἄλλος
ἀθανάτων, οἳ ἔχουσι κάρη νιφόεντος Ὀλύμπου,
καὶ Διὸς ὄμμα τέλειον· ἐπεί γ' ὅσα γίγνεται ἡμῖν,
Μοῖρά τε καὶ Διὸς οἶδε νόος διὰ παντὸς ἅπαντα.
ἀλλά μοι εὐκταῖαι, μαλακόφρονες, ἠπιόθυμοι, (15)
Ἄτροπε καὶ Λάχεσι, Κλωθώ, μόλετ', εὐπατέρειαι,
ἀέριοι, ἀφανεῖς, ἀμετάτροποι, αἰὲν ἀτειρεῖς,
παντοδότειραι, ἀφαιρέτιδες, θνητοῖσιν ἀνάγκη·
Μοῖραι, ἀκούσατ' ἐμῶν ὁσίων λοιβῶν τε καὶ εὐχῶν,
ἐρχόμεναι μύσταις λυσιπήμονες εὔφρονι βουλῆι. (20)
{Μοιράων τέλος ἔλλαβ' ἀοιδή, ἣν ὕφαν' Ὀρφεύς}



Fumigação: Ervas Aromáticas

Moiras infinitas, prole amável da Noite Negra,
ouvi as minhas preces, Deusas de muitos nomes que habitais
um lago no céu, onde a noite tépida faz irromper a água branca
no mais profundo de uma rochosa gruta, a brilhar nas trevas*.
Daí revoais para a terra infinita dos mortais, (5)
a raça humana tão nobre quanto vã nas esperanças
marchando encobertas em rubros véus pelo
vale da morte, por onde a Glória vos guia o carro enorme
como a terra, para além da justiça, da esperança e das ânsias,
para além da lei primeva e do infinito poder de ordem. (10)
Só a Moira vê a vida por completo, e nenhum outro
imortal que tem a cabeça do nevoento Olimpo,
e o olho perfeito de Zeus. O que nos ocorre,
tanto a Moira quanto a mente de Zeus tudo sabem totalmente.
Eia, vinde a mim em oração, suaves no espírito, gentis no coração! (15)
Inflexível [Átropos] e Distributriz [Láquesis], Fiandeira [Kloto], filhas de bom pai!
aéreas invisíveis, inalteráveis e para sempre indestrutíveis,
doadoras de tudo, arrebatadoras de tudo, inevitáveis aos mortais!
Moiras, ouvi meus votos e libações, vinde aos mistérios
sendo alívio das dores, com benévolos desígnios.(20)

{Chegou ao fim a Canção das Moiras, que Orfeu compôs}


Trad. Rafael Brunhara

* A referência ao lago no céu é obscura. Segundo Lorente (Vida de Pitágoras, Argonáuticas Órficas, Himnos Órficos, Madrid: Gredos, 1987) poderia ser uma referência vaga e imprecisa à Via Láctea. 

sexta-feira, maio 01, 2015

Hino Órfico 58: Amor [Eros]

Ἔρωτος, θυμίαμα ἀρώματα.


Κικλήσκω μέγαν, ἁγνόν, ἐράσμιον, ἡδὺν Ἔρωτα,
τοξαλκῆ, πτερόεντα, πυρίδρομον, εὔδρομον ὁρμῆι,
συμπαίζοντα θεοῖς ἠδὲ θνητοῖς ἀνθρώποις,
εὐπάλαμον, διφυῆ, πάντων κληῖδας ἔχοντα,
αἰθέρος οὐρανίου, πόντου, χθονός, ἠδ' ὅσα θνητοῖς
πνεύματα παντογένεθλα θεὰ βόσκει χλοόκαρπος,
ἠδ' ὅσα Τάρταρος εὐρὺς ἔχει πόντος· θ' ἁλίδουπος·
μοῦνος γὰρ τούτων πάντων οἴηκα κρατύνεις.
ἀλλά, μάκαρ, καθαραῖς γνώμαις μύσταισι συνέρχου,
φαύλους δ' ἐκτοπίους θ' ὁρμὰς ἀπὸ τῶνδ' ἀπόπεμπε.

Do Amor [Eros]. Fumigação: ervas aromáticas

Invoco o grande, puro, amável doce Amor [Eros],
poderoso no arco, alado, correndo como fogo em teu bom impulso,
brincando com Deuses e homens mortais;
inventivo, biforme, que detém as chaves de tudo:
do etéreo céu, do mar, da terra; és o Deus do sopro
de toda a vida, que a Deusa dos verdes frutos nutre;
és Deus de tudo que há no Tártaro vasto e do que no salso mar ressoa:
És tu, apenas tu, que imperas sobre tudo.
Vamos, venturoso! Une-te com puro pensar aos teus iniciados,
afasta dos teus servos impulsos baixos e absurdos.

[Tradução:Rafael Brunhara]

domingo, abril 26, 2015

Hino Órfico 57: Hermes Ínfero [Hermes Kthônios]

Ἑρμοῦ Χθονίου;, θυμίαμα στύρακα.

Κωκυτοῦ ναίων ἀνυπόστροφον οἶμον ἀνάγκης,
ὃς ψυχὰς θνητῶν κατάγεις ὑπὸ νέρτερα γαίης,
Ἑρμῆ, βακχεχόροιο Διωνύσοιο γένεθλον
καὶ Παφίης κούρης, ἑλικοβλεφάρου Ἀφροδίτης,
ὃς παρὰ Περσεφόνης ἱερὸν δόμον ἀμφιπολεύεις,
αἰνομόροις ψυχαῖς πομπὸς κατὰ γαῖαν ὑπάρχων,
ἃς κατάγεις, ὁπόταν μοίρης χρόνος εἰσαφίκηται
εὐιέρωι ῥάβδωι θέλγων † ὑπνοδώτειρα πάντα,
καὶ πάλιν ὑπνώοντας ἐγείρεις· σοὶ γὰρ ἔδωκε {τιμὴν}
τιμὴν Φερσεφόνεια θεὰ κατὰ Τάρταρον εὐρὺν
ψυχαῖς ἀενάοις θνητῶν ὁδὸν ἡγεμονεύειν.
ἀλλά, μάκαρ, πέμποις μύσταις τέλος ἐσθλὸν ἐπ' ἔργοις.


Do Hermes Ínfero, fumigação: estoraque

Habitante da senda sem volta, Cocito fatal,
tu que guias sob os ínferos a alma mortal,
Hermes, nascido do delirante dançador Dioniso
e Páfia, a donzela Afrodite de vivazes olhos;
tu, que guardas o sagrado palácio de Perséfone,
de condenadas almas condutor, auxílio sob a terra
que as leva para baixo na hora da morte,
com feitiços de teu sagrado cetro a todos dás o sono,
e os despertas outra vez dos sonhos; honra
deu-te a Deusa Perséfone sob o amplo Tártaro:
guiar o caminho para almas eternas dos mortais.
Vamos, venturoso! Peço,envies nobre fim aos trabalhos dos iniciados!

[Tradução:Rafael Brunhara]

terça-feira, abril 21, 2015

Hino Órfico 56: Adônis

Ἀδώνιδος, θυμίαμα ἀρώματα.

Κλῦθί μου εὐχομένου, πολυώνυμε, δαῖμον ἄριστε,
ἁβροκόμη, φιλέρημε, βρύων ὠιδαῖσι ποθειναῖς,
Εὐβουλεῦ, πολύμορφε, τροφεῦ πάντων ἀρίδηλε,
κούρη καὶ κόρε, † σὺ πᾶσιν † θάλος αἰέν, Ἄδωνι,
σβεννύμενε λάμπων τε καλαῖς ἐν κυκλάσιν ὥραις,
αὐξιθαλής, δίκερως, πολυήρατε, δακρυότιμε,
ἀγλαόμορφε, κυναγεσίοις χαίρων, βαθυχαῖτα,
ἱμερόνους, Κύπριδος γλυκερὸν θάλος, ἔρνος Ἔρωτος,
Φερσεφόνης ἐρασιπλοκάμου λέκτροισι λοχευθείς,
ὃς ποτὲ μὲν ναίεις ὑπὸ Τάρταρον ἠερόεντα,
ἠδὲ πάλιν πρὸς Ὄλυμπον ἄγεις δέμας ὡριόκαρπον·
ἐλθέ, μάκαρ, μύσταισι φέρων καρποὺς ἀπὸ γαίης.

Ouve as minhas preces, supremo nume de muitos nomes
e delicados cabelos, amigo dos ermos, florescente em cantos saudosos,
Eubuleu de muitas formas, magnífico nutridor de tudo,
Menina e menino, tu, entre todos viçoso sempre, Adônis
a se extinguir e a brilhar em belas cíclicas estações,
vicejante, bicórneo, o amor de muitos, honrado no pranto,
grato caçador de esplêndidas formas e longas melenas;
coração ardente, doce broto da Cípris, rebento do Amor,
concebido no leito de Perséfone de lindas tranças,
ora tu habitas o Tártaro nevoento
ora outra vez ao Olimpo levas teu corpo, maduro fruto:
Vem, venturoso, traz aos mistérios os frutos da terra.

[Tradução: Rafael Brunhara]

sábado, abril 18, 2015

Hino Órfico 55: Afrodite

<Εἰς Ἀφροδίτην.>


Οὐρανία, πολύυμνε, φιλομμειδὴς Ἀφροδίτη,
ποντογενής, γενέτειρα θεά, φιλοπάννυχε, σεμνή,
νυκτερία ζεύκτειρα, δολοπλόκε μῆτερ Ἀνάγκης·
πάντα γὰρ ἐκ σέθεν ἐστίν, ὑπεζεύξω δέ <τε> κόσμον
καὶ κρατέεις τρισσῶν μοιρῶν, γεννᾶις δὲ τὰ πάντα, (5)
ὅσσα τ' ἐν οὐρανῶι ἐστι καὶ ἐν γαίηι πολυκάρπωι
ἐν πόντου τε βυθῶι {τε}, σεμνὴ Βάκχοιο πάρεδρε,
τερπομένη θαλίαισι, γαμοστόλε μῆτερ Ἐρώτων,
Πειθοῖ λεκτροχαρής, κρυφία, χαριδῶτι,
φαινομένη, {τ'} ἀφανής, ἐρατοπλόκαμ', εὐπατέρεια, (10)
νυμφιδία σύνδαιτι θεῶν, σκηπτοῦχε, λύκαινα,
γεννοδότειρα, φίλανδρε, ποθεινοτάτη, βιοδῶτι,
ἡ ζεύξασα βροτοὺς ἀχαλινώτοισιν ἀνάγκαις
καὶ θηρῶν πολὺ φῦλον ἐρωτομανῶν ὑπὸ φίλτρων·
ἔρχεο, Κυπρογενὲς θεῖον γένος, εἴτ' ἐν' Ὀλύμπωι (15)
ἐσσί, θεὰ βασίλεια, καλῶι γήθουσα προσώπωι,
εἴτε καὶ εὐλιβάνου Συρίης ἕδος ἀμφιπολεύεις,
εἴτε σύ γ' † ἐν πεδίοισι † σὺν ἅρμασι χρυσεοτεύκτοις
Αἰγύπτου κατέχεις ἱερῆς γονιμώδεα λουτρά,
ἢ καὶ κυκνείοισιν ὄχοις ἐπὶ πόντιον οἶδμα (20)
ἐρχομένη χαίρεις κητῶν κυκλίαισι χορείαις,
ἢ νύμφαις τέρπηι κυανώπισιν ἐν χθονὶ Δίηι
† θῖνας ἐπ' αἰγιαλοῖς ψαμμώδεσιν ἅλματι κούφωι·
εἴτ' ἐν Κύπρωι, ἄνασσα, τροφῶι σέο, ἔνθα καλαί τε (24)
παρθένοι ἄδμηται νύμφαι τ' ἀνὰ πάντ' ἐνιαυτὸν
ὑμνοῦσιν, σέ, μάκαιρα, καὶ ἄμβροτον ἁγνὸν Ἄδωνιν.
ἐλθέ, μάκαιρα θεά μάλ' ἐπήρατον εἶδος ἔχουσα·
ψυχῆι γάρ σε καλῶ σεμνῆι ἁγίοισι λόγοισιν.

Celestial de muitos hinos, Afrodite que ama os sorrisos,
nascida no mar, Deusa genetriz, insigne e vígil amiga,
unindo na noite os casais, tecelã de enganos, mãe da Necessidade!
Tudo provém de ti, tu pões o cosmo sob teu jugo,
e reinas sobre suas três partes: engendras tudo (5)
que existe no céu, na terra frutífera
e no abismo do mar. Insigne assistente de Baco,
Deusa nupcial feliz em festivais, mãe dos Amores,
Persuasão, alegre no leito de amor, furtiva em tuas graças,
visível e invisível, Deusa de sedutoras tranças, de um bom pai, (10)
nubente comensal dos Deuses, lupina rainha cetrada,
amor dos homens, és a mais desejada, quem dá os filhos e a vida,
aquela que enlaça mortais em necessidades irrefreáveis
e a grei das feras, enlouquecendo-os de amor com teus feitiços.
Vem, prole divina nascida em Chipre, quer no Olimpo (15)
estejas, Deusa rainha, exultante em tua bela face,
quer passeies pela Síria, nação bem olorosa,
ou pelas planícies, com teu aurilavrado carro
ocupando férteis águas do sacro Egito,
ou ainda na tua carruagem de cisnes sobre as vias do mar,
quando vais te alegrar com as danças em roda das feras marinhas,
ou com as Ninfas de olhos escuros ter prazer no sagrado solo,
com lépidos saltos pela arenosa orla da praia,
ou então em Chipre, soberana, tua terra nutriz, onde belas
virgens,indômitas noivas, todos os anos
celebram-te, a ti, venturosa, e ao puro imortal Adônis.
Vem, venturosa Deusa, com tua tão desejável forma:
Na alma insigne evoco-te com piedosas palavras.

[Tradução: Rafael Brunhara]



domingo, abril 05, 2015

Lucílio - Antologia Grega 11.211

Γραπτὴν ἐν τοίχῳ Καλπούρνιος ὁ στρατιώτης,
ὡς ἔθος ἐστίν, ἰδὼν τὴν ἐπὶ ναυσὶ μάχην,
ἄσφυκτος καὶ χλωρὸς ὁ θούριος ἐξετανύσθη
“Ζωγρεῖτε,” κράξας, “Τρῶες ἀρηίφιλοι.”
καὶ μὴ τέτρωται, κατεμάνθανε καὶ μόλις ἔγνω
ζῆν, ὅτε τοῖς τοίχοις ὡμολόγησε λύτρα.


O soldado Calpúrnio viu na parede o quadro
de uma batalha naval, e como de praxe,
pálido e sem ar, estatelado no chão o valente gritou:
"Tomai-me vivo, Troianos diletos de Ares!"
Averiguou se não fora ferido e a custo reconheceu
estar vivo, quando concordou em pagar resgate à parede.

[Tradução: Rafael Brunhara]

Hino Homérico 7 - A Dioniso (Tradução de Jair Gramacho)

De Dionísio o glorioso rebento da augusta Sêmele,
Lembrarei, como à ourela do mar infecundo surgiu,
Sobre um cabo saliente, na forma de um jovem varão
Inda imberbe, os seus belos e negros cabelos flutuando,
E,portando nos ombros robustos um pálio de cor (5)
Purpurina.Eis que logo num bem cobertado navio
Salteadores tirrenos surgiram do mar dor de vinho,
Por madrasta fortuna impelidos, e, ao verem-no,pronto
Entre si consentiram, e logo a prendê-lo avançaram,
E em seguida ao navio levaram-no, as mentes alegres.(10)
Confiavam-no filho de reis procedentes de Zeus,
E em cadeias possantes atá-lo quiseram por força.
Todavia as cadeias o não seguravam, e os elos
De seus pés e das mãos se soltavam, enquanto,sentado
Com seus olhos noturnos se ria. O piloto, entendendo,(15)
Conclamou logo os seus companheiros e disse o seguinte:
“Infelizes, que deus poderoso domar e prender
Pretendeis?” Mesmo o nosso navio o não pode levar,
Pois sem dúvida é Zeus, ou Apolo das flechas de prata,
Ou talvez Posêidon, já que aos homens mortais não parece,(20)
Mas aos deuses que habitam as amplas moradas do Olimpo.
Apressai-vos! Deixêmo-lo em terra, na praia sombria,
Desde já nem co´as mãos o toqueis, para que não,irritado,
Fortes ventos excite e abundantes terríveis borrascas.”
Assim disse, e o cruel capitão retrucou-lhe o seguinte: (25)
“Infeliz, olha o vento e o velame da nave desferra,
Tendo as armas colhido, que deste os demais cuidarão.
Pois espero que chegue ao Egito, ou que a Chipre ele chegue,
Ou país hiperbóreo, ou além; e que ao fim da jornada
Seus amigos nos diga e nos conte seus todos haveres,(30)
Seus irmãos — pois é certo que um deus aqui no-lo entregou.”
Disse, e o mastro fincou e o velame largou do navio,
E no bojo da vela sopraram os ventos. Em torno,
Dispuseram as armas.Mas logo surgiram prodígios…
Vinho doce o odorante, primeiro, jorrava da nave (35)
E fluía flagrante e sonoro exalando um perfume
Imortal! Grande horror assaltou os marujos ao verem.
De repente, no topo do mastro alastrou-se uma vinha
Carregada de cachos, crescendo por todos os lados,
E do mastro ao redor enroscou-se uma hera noturna (40)
Toda em flores virente onde frutos ridentes pendiam;
As cavilhas cingiam coroas. Tal vendo, os marujos
Ao piloto premiam que a nau para a terra ligeiro
Dirigisse. Mas, dentro, em leão se tornou Dionísio
Que terrível por sobre o convés grandes urros lançava. (45)
Já uma ursa felpuda no meio criou, prodigioso,
Que se alçou furibunda. O leão, no mais alto da ponte,
Fulgurantes olhares lançava. Pra popa fugiram
E ao redor do piloto, que espírito calmo mantinha,
Se agruparam turbados. Mas súbito o leão atacou (50)
O cabeça. Os demais, vendo aquilo, ao mau fado escapando,
Todos juntos se às águas do mar atiraram divino
E viraram golfinhos. Doeu-se porém do piloto
E o reteve e, fazendo-o feliz, o seguinte lhe disse:
“Nada temas, Hecátor, que ao meu coração és querido.(55)
Sou Dionísio multíssono, aquele que foi concebido
Por Sêmele cadméia depois de por Zeus ser amada.”
Salve filho da de olhos formosos, Sêmele. É impossível,
Esquecendo de ti, se compor um cantar harmonioso.

Tradução: Jair Gramacho

segunda-feira, março 23, 2015

Poliano - Antologia Palatina 11.130

Os poetas cíclicos, que narravam os feitos da saga de Troia adjacentes à Ilíada e à Odisseia, parecem nunca ter gozado de muito prestígio, sendo frequentemente criticados como meros imitadores de Homero ou muito prolixos -- crítica que já se vê desde a Poética de Aristóteles. Não é de se admirar que não tenha sobrado quase nada de seus poemas. Neste aqui, um poeta obscuro de nome Poliano critica os cíclicos e declara sua preferência por outro gênero, a elegia: diferente dos poetas dos ciclos épicos, com sua narrativa prolixa e rente à Homero, na elegia, diz, ele seria não mais do que um homem poeticamente inapto, "uma orelhuda besta" se roubasse versos de seus colegas Calímaco ou Partênio. Mas o curioso é que ele afirma isso...roubando um verso de Calímaco!

Esses cíclicos, que ficam falando “e então, depois...”,
eu odeio, larápios são de verso alheio.
É por isso que prefiro a elegia: pois nada tenho
p’ra roubar de Partênio ou mesmo de Calímaco;
“igual a orelhuda besta” eu seria, se então grafasse:
“pálidas andorinhas que dos mares vêm” .
Mas eles roubam Homero tão descaradamente
que já grafam até “A ira, Deusa, celebra”.

Τοὺς κυκλίους τούτους τοὺς “αὐτὰρ ἔπειτα” λέγοντας
μισῶ, λωποδύτας ἀλλοτρίων ἐπέων.
καὶ διὰ τοῦτ' ἐλέγοις προσέχω πλέον· οὐδὲν ἔχω γὰρ
Παρθενίου κλέπτειν ἢ πάλι Καλλιμάχου.
“θηρὶ μὲν οὐατόεντι” γενοίμην, εἴ ποτε γράψω,
εἴκελος, “ἐκ ποταμῶν χλωρὰ χελιδόνια.”
οἱ δ' οὕτως τὸν Ὅμηρον ἀναιδῶς λωποδυτοῦσιν,
ὥστε γράφειν ἤδη “μῆνιν ἄειδε, θεά.”

[Tradução: Rafael Brunhara]

terça-feira, fevereiro 03, 2015

Antígona de Sófocles - 781 - 801 - Duas traduções

Guilherme de Almeida

Eros, invicto na batalha,
Eros, que à tua presa escravizas;
tu, que nas faces delicadas
da virgem estás à espreita
e vogas sobre o mar e pelas agrestes choupanas:
de ti nem o divino eterno se liberta
nem o efêmero humano; o que te possui desvaira.
Tu, que aos justos tornas injustos,
enlouqueces e levas à ruina;
tu, que também esta contenda
entre homens - pai e filho - armaste!
Mas triunfa fulgindo entre os cílios e úmido olhar da amável
noiva, como que sob o comando das fortes
leis. Sem lutar, brinca conosco a divina Afrodite.

Trajano Vieira

Há rusga em que Eros se frustre?
Eros, enreda-reses,
anoiteces à face flébil da núbil,
ocupas, transmarino,
o casebre campesino.
Imortal não há,
tampouco homem -- ser-de-um-dia --
imune ao teu desvario.

Incriminas quem tem discrímen,
quando enublas teu caminho.
Suscitas discordância consanguínea.
Mas hímeros -- querer que cintila
entre os cílios belos da virgem --
triunfa,
voz que avulta em concílios que legislam.
Não há quem resista a Afrodite,
deusa que brinca.

Fontes

VIEIRA, T. (org.) Três Tragédias Gregas. São Paulo: Perspectiva. 2003
VIEIRA, T. (trad.) Antígone de Sófocles. São Paulo: Perspectiva. 2009.

Alexander Pope (An Essay on Criticism, 1711)

(...) True ease in writing comes from art, not chance,
As those move easiest who have learn'd to dance.
'T is not enough no harshness gives offence,
The sound must seem an Echo to the sense.
Soft is the strain when Zephyr gently blows,
And the smooth stream in smoother number flows;
But when loud surges lash the sounding shore,
The hoarse, rough verse should like the torrent roar (...)

O escrever fácil só com arte é que se alcança,
Como melhor se move o que aprendeu a dança.
Não basta que o poema seja comedido:
Deve o som parecer um eco do sentido.
Maviosa é a música se branda expira a brisa,
E em métrica mais doce o doce rio desliza;
Mas se a vaga vergasta o litoral plangente,
O verso rude e rouco ruge qual torrente.

[Trad. Paulo Vizioli]

segunda-feira, janeiro 19, 2015

Hino Órfico 54: Sátiro Sileno, Bacas.

[Σιληνοῦ Σατύρου Βακχῶν], θυμίαμα μάνναν.


Κλῦθί μου, ὦ πολύσεμνε τροφεῦ, Βάκχοιο τιθηνέ,
Σιληνῶν ὄχ' ἄριστε, τετιμένε πᾶσι θεοῖσι
καὶ θνητοῖσι βροτοῖσιν ἐπὶ τριετηρίσιν ὥραις,
ἁγνοτελής, γεραρός, θιάσου νομίου τελετάρχα,
εὐαστής, φιλάγρυπνε σὺν εὐζώνοισι τιθήναις,
Ναΐσι καὶ Βάκχαις ἡγούμενε κισσοφόροισι·
δεῦρ' ἐπὶ πάνθειον τελετὴν Σατύροις ἅμα πᾶσι
θηροτύποις, εὔασμα διδοὺς Βακχείου ἄνακτος,
σὺν Βάκχαις Λήναια τελεσφόρα σεμνὰ προπέμπων,
ὄργια νυκτιφαῆ τελεταῖς ἁγίαις ἀναφαίνων,
εὐάζων, φιλόθυρσε, γαληνιόων θιάσοισιν.

ao Sátiro Sileno, Bacas. Fumigação: incenso

Ouve-me, multi-insigne mestre, nutridor de Baco,
dos Silenos de longe o melhor, honrado por todos os Deuses
e morituros mortais nas estações de festas trienais.
Sacerdote ancião, rei dos ritos no tíaso pastoral,
ama as vigílias e brada evoés com nutrizes de bela cintura,
o líder das Náiades e Bacas com guirlandas de Hera:
vem ao ritual de todos os deuses, traz todos os Sátiros,
de formas bestiais, brada o evoé do soberano Baco
em procissão com Bacas nas Leneias insignes e perfectivas,
revelando nos puros ritos a orgia noctiluzente,
amando o tirso e bradando evoés, encontrando a paz nos tíasos.

[Tradução: Rafael Brunhara]



Hino Órfico 53: Deus Anual

θυμίαμα πάντα πλὴν λιβάνου καὶ σπένδε γάλα.

Ἀμφιετῆ καλέω Βάκχον, χθόνιον Διόνυσον,
ἐγρόμενον κούραις ἅμα νύμφαις εὐπλοκάμοισιν
ὃς παρὰ Περσεφόνης ἱεροῖσι δόμοισιν ἰαύων
κοιμίζει τριετῆρα χρόνον, Βακχήιον ἁγνόν.
αὐτὸς δ' ἡνίκα τὸν τριετῆ πάλι κῶμον ἐγείρηι,
εἰς ὕμνον τρέπεται σὺν ἐυζώνοισι τιθήναις
εὐνάζων κινῶν τε χρόνους ἐνὶ κυκλάσιν ὥραις.
ἀλλά, μάκαρ, χλοόκαρπε, κερασφόρε, κάρπιμε Βάκχε,
βαῖν' ἐπὶ πάνθειον τελετὴν γανόωντι προσώπωι
εὐιέροις καρποῖσι τελεσσιγόνοισι βρυάζων.

Do Anual, Fumigação: Todas, exceto olíbano. Faça também uma libação de leite.

Anual Baco eu chamo, Dioniso ctônio
a despertar com donzelas ninfas de belas tranças.
Enquanto dorme no sacro palácio de Perséfone,
faz repousar por três anos o puro Baqueu.
Mas quando de novo desperta no terceiro ano o cortejo,
ele mesmo ao hino se volta, com suas nutrizes de bela cintura,
e adormece e agita as eras no giro das estações.
Eia, venturoso dos verdes frutos, cornígero Baco frutuoso,
Vem ao ritual de todos os Deuses, a face brilhando em alegria,
em sacratíssimos maduros frutos florescendo.

Tradução: Rafael Brunhara

quinta-feira, janeiro 15, 2015

Hino Órfico 52: DeusTrienal

<Τριετηρικοῦ>, θυμίαμα ἀρώματα.

Κικλήσκω σε, μάκαρ, πολυώνυμε, † μανικέ, Βακχεῦ,
ταυρόκερως, ληναῖε, πυρίσπορε, Νύσιε, λυσεῦ,
μηροτρεφής, λικνῖτα, † πυριπόλε καὶ τελετάρχα,
νυκτέρι', Εὐβουλεῦ, μιτρηφόρε, θυρσοτινάκτα,
ὄργιον ἄρρητον, τριφυές, κρύφιον Διὸς ἔρνος, [5]
πρωτόγον', Ἠρικεπαῖε, θεῶν πάτερ ἠδὲ καὶ υἱέ,
ὠμάδιε, σκηπτοῦχε, χοροιμανές, ἁγέτα κώμων,
βακχεύων ἁγίας τριετηρίδας ἀμφὶ γαληνάς,
ῥηξίχθων, πυριφεγγές, † ἐφάπτωρ, κοῦρε διμάτωρ,
οὐρεσιφοῖτα, κερώς, νεβριδοστόλε, ἀμφιέτηρε,[10]
Παιὰν χρυσεγχής, † ὑποκόλπιε, βοτρυόκοσμε,
Βάσσαρε, κισσοχαρής, † πολυπάρθενε καὶ διάκοσμε †
ἐλθέ, μάκαρ, μύσταισι βρύων κεχαρημένος αἰεί.

[Do Trienal], fumigação: ervas aromáticas

Invoco-te, venturoso de muitos nomes, louco Baqueu,
tauricorne Leneu, filho do fogo, Nísio Libertador
nutrido na coxa, Licnito que vaga nas chamas regendo os ritos,
noturno Eubuleu levando a mitra e brandindo o tirso,
Deus da orgia inefável, de três naturezas, rebento oculto de Zeus,
és o primogênito, o Deus Vernal [Ericepeu], o pai e o filho dos Deuses,
crudívoro rei cetrado, louco pelas danças, líder dos cortejos
entoando Baqueus à roda das sacras serenas cerimônias trienais,
irrompendo da terra fúlgido como fogo, tangedor de duas mães,
andarilho das montanhas, córneo em nébridas peles, todo o ano festejado,
Peã de áurea lança que ornado de uvas se esconde no seio materno,
Bassário que se compraz nas heras, harmonioso de muitas donzelas,
Vem, venturoso, sempre a florescer, alegre nos mistérios!

[Tradução: Rafael Brunhara]