domingo, dezembro 21, 2014

Píndaro, Ístmica 2


Para Xenócrates de Agrigento, vencedor na corrida de carros

Os homens do passado, Trasíbulo,
            que das Musas de laços de ouro
subiam a carruagem,
             ínclita lira com eles,
ágeis asseteavam com hinos dulcíssonos 
os meninos. Quem era belo tinha a mais doce flor
estival, a lembrança de Afrodite em trono.

Outrora a Musa não era gananciosa
ainda, por dinheiro não trabalhava:
não estavam à venda as doces 
              blandíloquas canções
de Terpsícore[1] voz-de-mel,
            para cobrir de prata a fronte.
Mas hoje nos ordena a defender Argivo
adágio,  (...) a um só passo da verdade:

“Dinheiro, o dinheiro faz o homem!” –
            Disse o que perdeu posses e amigos também.
Basta! Sois sábios. Não ignorais o que canto:
            Ístmica vitória com corcéis,
que concedeu Posídon a Xenócrates,
e enviou-lhe guirlanda de dórios
aipos para prender aos cabelos,

recompensa ao varão de bom carro,
            a luz para Agrigento!
Em Crisa viu-o estrênuo
Apolo, e infundiu-lhe o brilho
também ali; com ínclitas graças dos Erectidas[2] munido,
            na opima Atenas não recebeu censuras
o braço do ginete que guiou a carruagem,

Nicômaco, que as rédeas todas
            manejou competente:
até mesmo os arautos das estações, os Eléios
            portadores das tréguas[3] do Cronida
Zeus, o reconheceram, por provarem, alhures, de sua acolhida:
            saudaram-lhe com doce alento na voz,
quando ele se curvou a áurea Vitória,

em sua terra,
            que chamam de bosque sacro
de Zeus Olímpio. Lá os filhos de Enesídamo[4]
a honras imortais uniram-se.
De fato a tua casa não ignora,
Trasíbulo, amáveis cortejos,
nem canções de louvor doce mel,

pois não existem montes,
não existem estradas difíceis demais,
se para homens de boa fama
alguém leva os lauréis das Musas[5]
Lançado longe o disco, possa eu atirar meus dardos, tanto quanto
Xenócrates no doce ímpeto superava a todos!
Nas assembleias de cidadãos respeitado,

 acostumado ao trato de corcéis,
            tradição pan-helênica,
 todos os banquetes de Deuses
            abraçou! E jamais lufaram tantos ventos
que o fizeram colher as velas de sua mesa hóspede!
            Não, mas ele cruzava o Fásis no verão,
e no inverno vogava até as costas do Nilo!

Ora porque invejosas esperanças
pairam em torno do coração dos mortais,
que a virtude paterna o filho não emudeça,
nem estes hinos!  Não os lavrei
para serem imóveis.
Tudo isso comunica, Nicásipo,
a Trasíbulo, meu hóspede amigo querido.

[Tradução: Rafael Brunhara]

Αʹ Οἱ μὲν πάλαι, ὦ Θρασύβουλε,
φῶτες, οἳ χρυσαμπύκων
ἐς δίφρον Μοισᾶν ἔβαι-
νον κλυτᾷ φόρμιγγι συναντόμενοι,
ῥίμφα παιδείους ἐτόξευον μελιγάρυας ὕμνους,
ὅστις ἐὼν καλὸς εἶχεν Ἀφˈροδίτας
εὐθρόνου μνάστειραν ἁδίσταν ὀπώραν.(5)

ἁ Μοῖσα γὰρ οὐ φιλοκερδής
πω τότ' ἦν οὐδ' ἐργάτις·
οὐδ' ἐπέρναντο γˈλυκεῖ-
αι μελιφθόγγου ποτὶ Τερψιχόρας
ἀργυρωθεῖσαι πρόσωπα μαλθακόφωνοι ἀοιδαί.
νῦν δ' ἐφίητι <τὸ> τὠργείου φυλάξαι
ῥῆμ' ἀλαθείας <⏑–> ἄγχιστα βαῖνον, (10)


’χρήματα χρήματ' ἀνήρ’
ὃς φᾶ κτεάνων θ' ἅμα λειφθεὶς καὶ φίλων.
ἐσσὶ γὰρ ὦν σοφός· οὐκ ἄγˈνωτ' ἀείδω
Ἰσθμίαν ἵπποισι νίκαν,
τὰν Ξενοκˈράτει Ποσειδάων ὀπάσαις,
Δωρίων αὐτῷ στεφάνωμα κόμᾳ (15)
⸐πέμπεν ἀναδεῖσθαι σελίνων,


Βʹ εὐάρματον ἄνδρα γεραίρων,
Ἀκˈραγαντίνων φάος.
ἐν Κρίσᾳ δ' εὐρυσθενὴς
εἶδ' Ἀπόλλων νιν πόρε τ' ἀγˈλαΐαν
καὶ τόθι κˈλειναῖς <τ'> Ἐρεχθειδᾶν χαρίτεσσιν ἀραρώς
ταῖς λιπαραῖς ἐν Ἀθάναις, οὐκ ἐμέμφθη (20)
ῥυσίδιφˈρον χεῖρα πλαξίπποιο φωτός,

τὰν Νικόμαχος κατὰ καιρὸν
νεῖμ' ἁπάσαις ἁνίαις·
ὅν τε καὶ κάρυκες ὡ-
ρᾶν ἀνέγˈνον, σπονδοφόροι Κρονίδα
Ζηνὸς Ἀλεῖοι, παθόντες πού τι φιλόξενον ἔργον·
ἁδυπνόῳ τέ νιν ἀσπάζοντο φωνᾷ (25)
χρυσέας ἐν γούνασιν πίτˈνοντα Νίκας
γαῖαν ἀνὰ σφετέραν,


τὰν δὴ καλέοισιν Ὀλυμπίου Διός
ἄλσος· ἵν' ἀθανάτοις Αἰνησιδάμου
παῖδες ἐν τιμαῖς ἔμιχθεν.
καὶ γὰρ οὐκ ἀγνῶτες ὑμῖν ἐντὶ δόμοι (30)
⸐οὔτε κώμων, ὦ Θρασύβουλ', ἐρατῶν,
οὔτε μελικόμπων ἀοιδᾶν.

Γʹ οὐ γὰρ πάγος οὐδὲ προσάντης
ἁ κέλευθος γίνεται,
εἴ τις εὐδόξων ἐς ἀν-
δρῶν ἄγοι τιμὰς Ἑλικωνιάδων.
μακˈρὰ δισκήσαις ἀκοντίσσαιμι τοσοῦθ', ὅσον ὀργάν (35)
Ξεινοκράτης ὑπὲρ ἀνθρώπων γλυκεῖαν
⸏ἔσχεν. αἰδοῖος μὲν ἦν ἀστοῖς ὁμιλεῖν,
ἱπποτˈροφίας τε νομίζων
ἐν Πανελλάνων νόμῳ·
καὶ θεῶν δαῖτας προσέ-
πτυκτο πάσας· οὐδέ ποτε ξενίαν
οὖρος ἐμπνεύσαις ὑπέστειλ' ἱστίον ἀμφὶ τράπεζαν· (40)
ἀλλ' ἐπέρα ποτὶ μὲν Φᾶσιν θερείαις,
ἐν δὲ χειμῶνι πˈλέων Νείλου πρὸς ἀκτάν.
μή νυν, ὅτι φθονεραὶ


θνατῶν φρένας ἀμφικρέμανται ἐλπίδες,
μήτ' ἀρετάν ποτε σιγάτω πατρῴαν,
μηδὲ τούσδ' ὕμνους· ἐπεί τοι (45)
οὐκ ἐλινύσοντας αὐτοὺς ἐργασάμαν.
ταῦτα, Νικάσιππ', ἀπόνειμον, ὅταν
ξεῖνον ἐμὸν ἠθαῖον ἔλθῃς.


[1] Terpsícore é uma das nove Musas, associada à dança.
[2] Os descendentes de Erecteu, rei mítico de Atenas. Designa, portanto, os Atenienses.
[3] Os arautos de Élis, região que hospedava os jogos Olímpicos. Estes arautos proclamavam a trégua entre os gregos durante as competições, enviada por Zeus. Eram eles os responsáveis por anunciar os vencedores.
[4]Enesídamo: pai de Xenócrates. Ao mencionar que “os filhos de Enesídamo a honras imortais uniram-se” Píndaro certamente alude também a Terão, irmão de Xenócrates, vencedor na corrida de carros em Olímpia (ver Ol.2)
[5] No original, Heliconíades. As Musas habitavam o monte Hélicon. 



domingo, dezembro 14, 2014

Hino Órfico 51: Ninfas

Νυμφῶν;, θυμίαμα ἀρώματα.


Νύμφαι, θυγατέρες μεγαλήτορος Ὠκεανοῖο,
ὑγροπόροις γαίης ὑπὸ κεύθεσιν οἰκί' ἔχουσαι,
κρυψίδρομοι, Βάκχοιο τροφοί, χθόνιαι, πολυγηθεῖς,
καρποτρόφοι, λειμωνιάδες, σκολιοδρόμοι, ἁγναί,
ἀντροχαρεῖς, σπήλυγξι κεχαρμέναι, ἠερόφοιτοι,
πηγαῖαι, δρομάδες, δροσοείμονες, ἴχνεσι κοῦφαι,
φαινόμεναι, ἀφανεῖς, αὐλωνιάδες, πολυανθεῖς,
σὺν Πανὶ σκιρτῶσαι ἀν' οὔρεα, εὐάστειραι,
πετρόρυτοι, λιγυραί, βομβήτριαι, οὐρεσίφοιτοι,
ἀγρότεραι κοῦραι, κρουνίτιδες ὑλονόμοι τε,
παρθένοι εὐώδεις, λευχείμονες, εὔπνοοι αὔραις,
αἰπολικαί, νόμιαι, θηρσὶν φίλαι, ἀγλαόκαρποι,
κρυμοχαρεῖς, ἁπαλαί, πολυθρέμμονες αὐξίτροφοί τε,
κοῦραι ἁμαδρυάδες, φιλοπαίγμονες, ὑγροκέλευθοι,
Νύσιαι, † μανικαί, παιωνίδες, εἰαροτερπεῖς,
σὺν Βάκχωι Δηοῖ τε χάριν θνητοῖσι φέρουσαι·
ἔλθετ' ἐπ' εὐφήμοις ἱεροῖς κεχαρηότι θυμῶι
νᾶμα χέουσαι ὑγεινὸν ἀεξιτρόφοισιν ἐν ὥραις.

Das Ninfas; Fumigação: Ervas Aromáticas

Ninfas, filhas do magnânimo Oceano,
com lares nos úmidos recessos da terra,
nutrizes de Baco, de ocultos percursos, terrestres e muito alegres:
Deusas dos prados, nutrizes de frutos, puras de oblíquos percursos,
que se alegram nos antros, nas grutas, errantes dos ares!
Vestidas de orvalho, deixam rastros sutis nas fontes, nos rios;
Visíveis e invisíveis as  ninfas multiflóreas dos promontórios,
bradando evoés no alto das montanhas com o lépido Pan,
das rochas defluem com silvos sonoros, errantes das montanhas!
Rústicas donzelas das fontes e dos bosques;
virgens vistosas, de alvas vestes e suaves ventos,
com pastos, cabras - amigas das bestas! - e esplêndidos frutos,
tenras amigas do frio, fruticosas multinutrientes,
as divertidas e umentes donzelas hamadríades.
Nísias loucas, Peãs felizes na primavera,
com Baco e Deméter trazendo graça aos mortais!
Vinde aos auspiciosos ritos, com o coração grato,
vertendo fontes de fruticosas chuvas nas estações.

[Tradução: Rafael Brunhara]



segunda-feira, dezembro 08, 2014

Hino Órfico 50: Leneu Libertador

Κλῦθι, μάκαρ, Διὸς υἷ', ἐπιλήνιε Βάκχε, διμάτωρ,
σπέρμα πολύμνηστον, πολυώνυμε, λύσιε δαῖμον,
κρυψίγονον μακάρων ἱερὸν θάλος, εὔιε Βάκχε,
εὐτραφές, εὔκαρπε, πολυγηθέα καρπὸν ἀέξων,
ῥηξίχθων, ληναῖε, μεγασθενές, αἰολόμορφε,
παυσίπονον θνητοῖσι φανεὶς ἄκος, ἱερὸν ἄνθος
χάρμα βροτοῖς φιλάλυπον, † ἐπάφιε, καλλιέθειρε,
λύσιε, θυρσομανές, βρόμι', εὔιε, πᾶσιν ἐύφρων,
οἷς ἐθέλεις θνητῶν ἠδ' ἀθανάτων † ἐπιφαύσκων
νῦν σε καλῶ μύσταισι μολεῖν ἡδύν, φερέκαρπον.

Ouve-me, venturoso filho de Zeus, Baco dos lagares, Deus com duas mães,
sêmen inolvidável,nume libertador, de muitos nomes,
sacro rebento dos venturosos que em segredo nasceu, evoé, Baco!
Luxuriante muito alegre a viçar bons frutos,
Deus do lagar [Leneu] que irrompe da terra, magna força e mutante forma,
fazendo surgir felicidade leniente, uma cura aos mortais!  Flóreo sagrado
e amigo da liberdade, Epáfio de lindas melenas,
libertador, Brômio louco pelo tirso; evoé!  És benévolo a todos
os mortais e imortais que queres, quando manifestas tua luz:
agora peço que venhas aos mistérios, doce, frutífero!

[Tradução: Rafael Brunhara]

sábado, dezembro 06, 2014

Hino Órfico 49: Hipta

Ἵπτας, θυμίαμα στύρακα.

Ἵπταν κικλήσκω, Βάκχου τροφόν, εὐάδα κούρην,
μυστιπόλοις τελεταῖσιν ἀγαλλομένην Σάβου ἁγνοῦ
νυκτερίοις τε χοροῖσιν ἐριβρεμέταο Ἰάκχου.
κλῦθί μου εὐχομένου, χθονία μήτηρ, βασίλεια,
εἴτε σύ γ' ἐν Φρυγίηι κατέχεις Ἴδης ὄρος ἁγνὸν
ἢ Τμῶλος τέρπει σε, καλὸν Λυδοῖσι θόασμα·
ἔρχεο πρὸς τελετὰς ἱερῶι γήθουσα προσώπωι.

De Hipta, fumigação: estoraque

Hipta invoco, nutriz de Baco e donzela dos evoés
que em místicos ritos se ufana do puro Sabo,
em coros noturnos do altitroante Iaco!
Ouve as minhas preces, mãe terrestre e rainha,
quer tu rejas na Frígia o puro monte Ida,
quer o Tmolo te agrade, aos lídios belo tablado:
vem aos ritos, com alegria em teu sagrado rosto!

[Tradução: Rafael Brunhara]

Hino Órfico 48: Sabázio

<Σαβαζίου>, θυμίαμα ἀρώματα.
Κλῦθι, πάτερ, Κρόνου υἱέ, Σαβάζιε, κύδιμε δαῖμον,
ὃς Βάκχον Διόνυσον, ἐρίβρομον, εἰραφιώτην,
μηρῶι ἐγκατέραψας, ὅπως τετελεσμένος ἔλθηι
Τμῶλον ἐς ἠγάθεον παρὰ; Ἵπταν καλλιπάρηιον.
ἀλλά, μάκαρ, Φρυγίης μεδέων, βασιλεύτατε πάντων,
εὐμενέων ἐπαρωγὸς ἐπέλθοις μυστιπόλοισιν.

De Sabázio, fumigação: ervas aromáticas

Ouve, pai, filho de Crono, Sabázio triunfante nume,
que a Baco Dioniso, taurino de amplo clamor,
na coxa costurou para que perfeito ele chegasse
ao sagrado Tmolo, junto a Hipta de bela face.
Eia, venturoso guardião da Frígia, supremo rei de tudo,
peço-te, benfazejo auxiliador: vem aos mistérios!

[Tradução de Rafael Brunhara]

Hino Órfico 47: Dioniso Periciônio

Περικιονίου, θυμίαμα ἀρώματα.


Κικλήσκω Βάκχον περικιόνιον, μεθυδώτην,
Καδμείοισι δόμοις ὃς ἑλισσόμενος πέρι πάντη
ἔστησε κρατερῶς βρασμοὺς γαίης ἀποπέμψας,
ἡνίκα πυρφόρος αὐγὴ ἐκίνησε χθόνα πᾶσαν
πρηστῆρος ῥοίζοις· ὃ δ' ἀνέδραμε δεσμὸς ἁπάντων.
ἐλθέ, μάκαρ, βακχευτά, γεγηθυίαις πραπίδεσσιν.

Do Periciônio, fumigação: ervas aromáticas.


Invoco o Baco Periciônio, doador do vinho,
que a casa de Cadmo envolvendo inteira
com força a firmou, os fervores da terra banindo
quando o ignífero raio prevaleceu sobre tudo
no rugir do furacão: os jugos de todos ele desfaz.
Vem, venturoso, báquico, com alegrias no espírito!

[Tradução: Rafael Brunhara]


sábado, novembro 29, 2014

"Primeira Ode Olímpica" (Píndaro) - Tradução de Mário Faustino

I

Água: primeiro dos bens.
                                         Mas Ouro
(chama acesa na noite) ofusca os tesouros inteiros
da altiva opulência: queres,
alma minha, cantar os Jogos?
                                               De dia não busques
Além do sol no ar deserto estrêla
mais ardente nem liça mais gloriosa,
mais cantável que Olímpia:
de lá vem a canção que estica as cordas
nos corações peritos
em celebrar-te, filho de Cronos: e êles vêm
por todos os caminhos rumo à mesa
(repleta) de Hierão.

manejador do cetro da justiça
na Sicília fecunda
e ceifeiro de todas as virtudes
em seus caules mais altos
e que sabe crescer com sua fama
pelo esplendor da música
enquanto nos deleita em mesa amiga.
                                                           Anda!
tira do gancho a lira dórica
se ainda tens o coração domado
pela Cáris de Pisa – glória de Ferênicos,
quando êste disparou (sem chicote!) nas margens
do Alfeu, rumo à vitória
do rei de Siracusa, amador de cavalos;
                                                        seu renome
esplende nessa terra de homens fortes
onde Pélops, o Lídio, foi morar,
Pélops,
          por quem se apaixonou Posêidon (o
que cinge, firme, a terra) quando Clôto
o retirou do vaso puro, o ombro
marfim luzindo.
                         Grandes maravilhas
(e verdadeiras) estas, porém quantas
Fábulas enfeitadas de mentira
encantam nossas mentes
                                    para lá da verdade...

II

Cáris,
Cáris o gênio a graça a quem devemos
Tudo o que nos encanta
devolvendo-lhe as honras, quantas vêzes
transforma em verdadeiro o que é incrível
O futuro é a melhor testemunha – e mais seguro
é dizer bem dos deuses. Pois direi
assim, filho de Tântalo (ao contrário
do que dizem os velhos) direi que
quando teu pai retribuindo aos deuses
os convidou para impecável festa
sôbre o Sipilo – monte que êles amam –
nesse dia o senhor do luminoso
tridente arrebatou-te

o coração partido de paixão. Cavalos, carros de ouro,
levou-te ao céu de Zeus aonde mais
tarde iria Ganimedes
prestar ao próprio Zeus igual serviço.
Ao desapareceres, procurando-te
os homens de tua mãe sem descobrir-te
e voltando sem ti, alguém, vizinhos
inventaram – despeito – que, cortados
a faca, tuas pernas, braços (em
água fervendo) foram já no fim
do banquete servidos e comidos.

Chamar um deus de canibal? Eu nunca!
Quem escapa ao castigo da blasfêmia?
Se mortal houve honrado pelos donos
do Olimpo, êsse foi Tântalo; só que
lambuzou-se de mel, com tanta sorte; insaciável,
provocou monstruosa punição: a pedra
enorme que lhe ergueu o pai dos deuses
sobre a cabeça, êle esperando a queda
que nunca vem e o deixa um tanto triste ...

III

Quarto suplício, junto a mais três, é acima
de suas fôrças: só por ter roubado
o nétar, a ambrosia (com que os deuses
o fizeram imortal) para dar aos amigos!

Como se engana aquêle que procura
esconder algo aos deuses ...
                                         Foi por isso
que resolveram devolver-lhe o filho
à desgraçada sorte humana. E quando
à flor da idade descobriu que o buço
o queixo começava a escurecer-lhe,
sonhou ganhar a noiva mais à mão,

Hipodaméia (filha ilustre de um
soberano de Pisa): a sós à noite ao pé
do mar grisalho o deus chamou que faz
rugir o abismo, o do tridente: e face
a face êste surgiu-lhe
                                E disse Pélops:
“Escuta aqui, Posêidon, se tiveste
algum prazer com meu amor (presentes
deleitosos de Cípris), prende a lança
de bronze de Oinomáos, e cinge-me de fôrça
e leva-me à terra do Élis em teu carro mais rápido.
O homem já matou treze heróis, treze
pretendentes, para adiar o casamento

da filha! Quem é fraco nunca enfrenta
grande perigo: mas, se a morte é certa,
por que ficar sentado à sombra, à espera
duma velhice inglória? A mim correr
o risco; a ti dar-me o triunfo”.
Falou e não perdeu seu tempo: o deus
por sua glória deu-lhe um carro de ouro
e cavalos alados incansáveis.

IV

Tendo quebrado a fôrça de Oinomáos, levou a virgem
para o leito e houve dela seis
príncipes ardorosos.
                             Ao pé do Alfeu, agora
com os mortos potentes se mistura
lá onde as multidões cercam seu túmulo
perto do altar acima
de todos venerado; mas a glória
de Pélops olha de longe lá de Olímpia
sôbre as arenas onde a ligeireza
disputa a ligeireza, a fòrça a fôrça.
(E o vencedor a vida inteira saboreia
alegria mais doce do que o mel

- pelo menos os jogos não traíram seus votos –
alegria que o dia passa ao dia
bem supremo de um homem...)

                                           Quero eu
coroar esse rei no tom eqüestre
e no compasso eólio. Pois meu canto
em seu panejamento glorioso
jamais vestirá outro que reúna
o gôsto pelo belo
e a fôrça irresistível.
Hierão, algum deus por teus desígnios
vela: fique sempre a teu lado, que mais doce
a vitória te seja em carro agílimo.
Na colina de Cronos luminosa
irei buscar o veio de louvores
dignos de celebrá-la:
                                pois a musa
para mim forja o dardo mais potente
Há grandezas de várias excelências,
a mais alta é dos reis. Não busques mais.
Pisem teus pés os cimos sempre, enquanto
a teu lado farei brilhar meu gênio
por toda parte, na vanguarda helênica.

NOTAS DO TRADUTOR

- A tradução foi feita a partir da inglêsa de Richmond Lattimore (em verso livre) e da francesa de Aimé Pucch (em prosa). Sem saber grego e sem ser um “métricien”, o tradutor, a tentar o impossível (reproduzir em português o mais complicado dos versos gregos) preferiu traduzir Píndaro em linguagem e versificação as mais atuais a seu alcance. Foi adotada, por outro lado, a orientação de alguns tradutores, inclusive de Lattimore, segundo a qual há muito de irônico nesta ode de Píndaro, mais jocosa (foi cantada pela primeira vez num banquete em honra de Hierão: não foi encomendada por êste; a encomenda, no caso, coube a Baquílide) do que pensam outros.

- Algumas anotações para a melhor compreensão do poema: foi composto para celebrar, em geral, os jogos olímpicos (donde o aparecimento do tantálida Pélops como personagem central e exemplo dado a Hierão) e, em particular, Hierão de Siracusa e seu cavalo Ferênicos, vencedores da corrida de cavalos montados nas olimpíadas de 476 antes de Cristo, ano em que foi composta a ode. Faz-se alusão, no poema, a uma vitória anterior de Ferênicos. Hierão, mais tarde, realizaria o voto expresso por Píndaro no final da ode: tanto em 470  como em 468 a.C., venceu as corridas de quadrigas, as mais ambicionadas pelos atletas gregos Lembrar também as diversas versões dos mitos de Tântalo, de Pélops e de Ganimedes, estes dois últimos amados, respectivamente, por Posêidon e Zeus (mais ou menos o Netuno e o Júpiter romanos); lembrar, em particular, que Pélops, servido no banquete aos deuses, teve um ombro comido por Demeter, sendo após reconstituído, num vaso puro, por Clôto, sendo-lhe aposto um ombro de marfim. N.B. no início da terceira tríade, Píndaro refere-se, para nós zombeteiramente, às várias versões do suplício de Tântalo, a mais recente sendo a da pedra suspensa sôbre a cabeça do condenado, ameaçando cair a qualquer momento. Há quem interprete êsses versos de outra maneira: Tântalo seria o último de quatro condenados, sendo os outros Títios, Sísifo e Íxion.

- Pisa: antiga cidade da Élida, às margens do rio Alfeu, perto do Templo de Olímpia.

- Cípris: um dos cognomes de Afrodite (Vênus).

- A ode é composta de quatro tríades: quatro estrofes, quatro anti-estrofes, quatro epodos. Era acompanhada pela “forminx”, a “lira dórica”, mencionada no poema. O esquema de metros, como sempre acontece em Píndaro, é complicadíssimo, segundo os entendidos um verdadeiro “show” de virtuosismo.
- No princípio da segunda tríade, notar o tema da beleza-verdade, verdade-beleza, comum em clássicos e românticos. Cf., especialmente, a famosa carta de Keats a Bailey sôbre o “sonho de Adão”.

- Píndaro: 518-438 a.C. o mestre do lirismo coral na Grécia.


FONTE:
Jornal do Brasil, Suplemento Dominical (03/11/1957), p.05  (disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_07)

Homero

Escrever o poema como um boi lavra o campo
Sem que tropece no metro o pensamento
Sem que nada seja reduzido ou exilado
Sem que nada separe o homem do vivido

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, outubro 28, 2014

O Artista Inconfessável

Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não, fazer para esquecer
que é inútil: nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e dificil-
mente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.

(João Cabral de Melo Neto)

segunda-feira, outubro 06, 2014

Heike Monogatari - Poema de abertura

O Heike Monogatari ("Conto de Heike") é um romance épico japonês do séc. XIII d.C.,  que registra o confronto entre os clã Taira (Heike) e Minamoto.  O início da obra se dá com este poema de oito versos, que se distingue  dos tradicionais waka  por sua proximidade com poemas ocidentais (tanto em métrica, quanto em temas). A tradução abaixo não é direta, e toma algumas liberdades em relação ao texto original.  Ela toma como base a tradução inglesa de Helen C. McCullogh (The Tale of the Heike, Stanford, 1990),  consultando, porém, o original japonês de perto (onde um comentário pode ser lido aqui):

Em Guiôn (*),o som dos sinos ressoa
 que nada permanece para sempre.
Na cor das folhas das árvores gêmeas, (**),
a verdade: o que nasce, perece.
A arrogância não dura muito tempo,
é  sonho breve na noite vernal;
até os bravos um dia enfim tombam,
se tornam nada mais que poeira ao vento.

祇園精舎の鐘の聲、
諸行無常の響あり。
娑羅雙樹の花の色、
盛者必衰のことわりをあらはす。
おごれる人も久しからず、
唯春の夜の夢のごとし。
たけき者も遂にほろびぬ、
偏に風の前の塵に同じ。

[Tradução: Rafael Brunhara]

(*) No original, Gion Shouja, o templo situado em Gion, na Índia.

(**) No original, as árvores gêmeas com folhas de Shala (sharashouju). Árvores com dois troncos crescendo em quatro direções. Diz a lenda que Buda morreu sob essas árvores, após ter alcançado o Nirvana. 

quarta-feira, outubro 01, 2014

890 PMG e Anaxândrides (fr.142 K) em Ateneu, Deipnosophistae, 15.694e

ὑγιαίνειν μὲν ἄριστον ἀνδρὶ θνητῷ,
δεύτερον δὲ καλὸν φυὰν γενέσθαι,
τὸ τρίτον δὲ πλουτεῖν ἀδόλως,
καὶ τὸ τέταρτον ἡβᾶν μετὰ τῶν φίλων.

ᾀσθέντος δὲ τούτου καὶ πάντων ἡσθέντων ἐπ' αὐτῷ καὶ μνημονευσάντων ὅτι καὶ ὁ καλὸς Πλάτων αὐτοῦ μέμνηται ὡς ἄριστα εἰρημένου (Pl.Gorg. 451e), ὁ Μυρτίλος ἔφη Ἀναξανδρίδην αὐτὸ διακεχλευακέναι τὸν κωμῳδιοποιὸν ἐν Θησαυρῷ λέγοντα οὕτως (fr.142 K)·

ὁ τὸ σκόλιον εὑρὼν ἐκεῖνος, ὅστις ἦν,
τὸ μὲν ὑγιαίνειν πρῶτον ὡς ἄριστον ὂν
ὠνόμασεν ὀρθῶς· δεύτερον δ' εἶναι καλόν,
τρίτον δὲ πλουτεῖν, τοῦθ', ὁρᾷς, ἐμαίνετο·
μετὰ τὴν ὑγίειαν γὰρ τὸ πλουτεῖν διαφέρει·
καλὸς δὲ πεινῶν ἐστιν αἰσχρὸν θηρίον.

Saúde é o melhor para um mortal;
Em segundo lugar, bela aparência;
Em terceiro, enriquecer sem dolo;
E em quarto, ser jovem com os amigos.

Depois que ele cantou, que todos se encantaram com esse escólio, e relembraram que o belo Platão (Pl.Gorg.451e) também o mencionara como um dito excelente, Mirtilo disse que Anaxândrides, o comediógrafo, zombou dele em sua obra O Tesouro, falando assim (fr.142 K):

O sujeito que inventou o escólio, quem seja,
Que diz “Saúde primeiro, como o melhor”
Disse com acerto. Mas em segundo, ser belo,
e depois, rico – aí, vê, ele estava louco:
Depois da saúde, a riqueza se distingue,
e um belo homem, faminto, é uma besta horrível.

Tradução: Rafael Brunhara

domingo, setembro 21, 2014

Marcial, 1.13

casta suo gladium cum traderet Arria Paeto,
quem de uisceribus strinxerat ipsa suis,
'si qua fides, uulnus quod feci non dolet,' inquit,
'sed tu quod facies, hoc mihi, Paete, dolet.'

Quando Árria*,casta, entregou ao seu Peto o gládio
que ela mesma arrancara das entranhas,
"se crês" - diz - "a ferida que me fiz não dói;
mas a que farás em ti, Peto, dói-me."

[Tradução: Rafael Brunhara]

* Árria, famosa personagem da cultura romana, celebrizada pela expressão "Non dolet, Paeto!" ("Não dói, Peto!"). Esposa do cônsul romano Cecina Peto, Árria viu o marido ser condenado ao suicídio após uma malograda conspiração contra o imperador Cláudio (41-54 d.C). Contudo, no último momento, o marido hesita em matar-se, e a própria Árria toma-lhe a adaga das mãos, crava-a em seu próprio peito e devolve-a ao marido, dizendo a famosa frase. Se na versão da história tal qual a encontramos na obra de Plínio o Jovem (III.16) a atitude de Árria é quase uma exortação para Peto agir como um homem, no poema de Marcial encontramos uma representação que parece antes realçar a concordância e o carinho entre um casal.

quinta-feira, setembro 18, 2014

Marcial, Epigrama 2.7

Declamas belle, causas agis, Attice, belle;
historias bellas, carmina bella facis;
componis belle mimos, epigrammata belle;
bellus grammaticus, bellus es astrologus,
et belle cantas et saltas, Attice, belle; 
bellus es arte lyrae, bellus es arte pilae.
Nil bene cum facias, facias tamen omnia belle,
uis dicam quid sis? Magnus es ardalio. 

Tu declamas e advogas belamente, Ático; 
fazes belas histórias, belos versos; 
compões uns mimos belos, epigramas belos; 
és um gramático e astrólogo belo, 
 cantas e danças, Ático, tão belamente, 
és belo na lira, belo na bola...
Já que nada fazes bem, mas tão belamente, 
sabes o que és? Um grande metido! 

[Tradução: Rafael Brunhara]

quinta-feira, setembro 11, 2014

Hino Órfico 46: Licnito

Λικνίτου, θυμίαμα μάνναν.

Λικνίτην Διόνυσον ἐπευχαῖς ταῖσδε κικλήσκω,
Νύσιον ἀμφιθαλῆ, πεποθημένον, εὔφρονα Βάκχον,
νυμφῶν ἔρνος ἐραστὸν ἐυστεφάνου τ' Ἀφροδίτης,
ὅς ποτ' ἀνὰ δρυμοὺς κεχορευμένα βήματα πάλλες
σὺν νύμφαις † χαρίεσσιν ἐλαυνόμενος μανίηισι, (5)
καὶ βουλαῖσι Διὸς πρὸς ἀγαυὴν Φερσεφόνειαν
ἀχθεὶς ἐξετράφης φίλος ἀθανάτοισι θεοῖσιν.
εὔφρων ἐλθέ, μάκαρ, κεχαρισμένα δ' ἱερὰ δέξαι.

De Licnito, fumigação:incenso

Dioniso Licnito eu invoco com esta preces,
Deus de Nisa, frondoso, desejado e benévolo Baco,
rebento amado das ninfas e de Afrodite bem coroada,
que por bosques outrora agitavas os pés nas danças corais,
com ninfas gráceis, guiado pela loucura (5)
e por desígnios de Zeus levado à pura Perséfone
que o criou dileto aos Deuses imortais.
Vem benévolo, venturoso, e aceita, grato, os sacrifícios!

[Tradução: Rafael Brunhara]

Hino a Dioniso Bassário Trienal

Ἐλθέ, μάκαρ Διόνυσε, πυρίσπορε, ταυρομέτωπε,
Βάσσαρε καὶ Βακχεῦ, πολυώνυμε, παντοδυνάστα,
ὃς ξίφεσιν χαίρεις ἠδ' αἵματι Μαινάσι θ' ἁγναῖς,
εὐάζων κατ' Ὄλυμπον, ἐρίβρομε, † μανικὲ Βάκχε,
θυρσεγχής, βαρύμηνι, τετιμένε πᾶσι θεοῖσι
καὶ θνητοῖσι βροτοῖσιν, ὅσοι χθόνα ναιετάουσιν·
ἐλθέ, μάκαρ, σκιρτητά, φέρων πολὺ γῆθος ἅπασι.

Vem, venturoso Dioniso, nascido do fogo, face de touro,
Bassário e Baqueu, todo poderoso de muitos nomes,
teu prazer são as espadas em sangue e as puras Mênades,
enquanto bradas evoés no Olimpo, louco Baco de amplo clamor
e pesada ira, o tirso é tua lança, és honrado por todos os Deuses
e morituros mortais quantos habitam a terra.
Vem, venturoso, lépido, trazendo a todos muita alegria.

[Tradução: Rafael Brunhara]

quarta-feira, setembro 10, 2014

Hino Órfico 44: Sêmele

<Σεμέλης>, θυμίαμα στύρακα.

Κικλήσκω κούρην Καδμηίδα παμβασίλειαν,
εὐειδῆ Σεμέλην, ἐρατοπλόκαμον, βαθύκολπον,
μητέρα θυρσοφόροιο Διωνύσου πολυγηθοῦς,
ἣ μεγάλας ὠδῖνας ἐλάσσατο πυρφόρωι αὐγῆι
ἀθανάτη τευχθεῖσα Διὸς βουλαῖς Κρονίοιο (5)
τιμὰς τευξαμένη παρ' ἀγαυῆς Περσεφονείης
ἐν θνητοῖσι βροτοῖσιν ἀνὰ τριετηρίδας ὥρας,
ἡνίκα σοῦ Βάκχου γονίμην ὠδῖνα τελῶσιν
εὐίερόν τε τράπεζαν ἰδὲ μυστήριά θ' ἁγνά.
νῦν σέ, θεά, λίτομαι, κούρη Καδμηίς, ἄνασσα, (10)
πρηύνοον καλέων αἰεὶ μύσταισιν ὑπάρχειν.

De Sêmele, fumigação: estoraque.

Invoco a donzela de Cadmo, rainha de tudo,
vistosa Sêmele de lindas tranças e fundos seios,
mãe de Dioniso tirsóforo bem jubiloso,
que tamanhas dores do parto sofreu por ignífero raio,
tornou-se imortal por planos de Zeus Cronida, (5)
tem honras ao lado da pura Perséfone
entre os morituros mortais a cada triênio
quando celebram o fértil parto de teu Baco,
a sacratíssima mesa e os puros mistérios.
Agora suplico-te, Deusa, donzela de Cadmo soberana, (10)
chamando-a para ser sempre branda aos iniciados.

[Tradução: Rafael Brunhara]

terça-feira, setembro 09, 2014

Hino Órfico 43: Horas

Ὡρῶν, θυμίαμα ἀρώματα.

Ὧραι θυγατέρες Θέμιδος καὶ Ζηνὸς ἄνακτος,
Εὐνομίη τε Δίκη τε καὶ Εἰρήνη πολύολβε,
εἰαριναί, λειμωνιάδες, πολυάνθεμοι, ἁγναί,
παντόχροοι, πολύοδμοι ἐν ἀνθεμοειδέσι πνοιαῖς,
Ὧραι ἀειθαλέες, περικυκλάδες, ἡδυπρόσωποι, (5)
πέπλους ἑννύμεναι δροσεροὺς ἀνθῶν πολυθρέπτων,
ἁγνῆς Περσεφόνης συμπαίκτορες, ἡνίκα Μοῖραι
καὶ Χάριτες κυκλίοισι χοροῖς πρὸς φῶς ἀνάγωσι
Ζηνὶ χαριζόμεναι καὶ μητέρι καρποδοτείρηι·
ἔλθετ' ἐπ' εὐφήμους τελετὰς ὁσίας νεομύστοις (10)
εὐκάρπους καιρῶν γενέσεις ἐπάγουσαι ἀμεμφῶς.

Das Horas; fumigação: Ervas Aromáticas

Horas, filhas de Têmis e Zeus soberano,
Bensoência [Eunomia], Justiça [Díke] e Paz [Eirene] multiafortunada,
vernais Deusas dos prados, puras e multiflóreas
em flóridos sopros, de todas as cores, de muitos odores,
Horas volventes e  viçosas sempre, de face doce,   (5)
que vestem véus feitos do orvalho de rosas virentes,
brincais com a pura Perséfone quando as Sinas [Moirai]
e as Graças cantando e dançando em roda a elevam à luz,
a Zeus agradando e à mãe doadora de frutos.
Vinde aos neófitos nos auspiciosos e consagrados ritos (10)
trazendo sem falha frutos nascentes das estações.

[Tradução: Rafael Brunhara]



segunda-feira, agosto 04, 2014

Hino Órfico #42: Mise

Θεσμοφόρον καλέω ναρθηκοφόρον Διόνυσον,
σπέρμα πολύμνηστον, πολυώνυμον Εὐβουλῆα,
ἁγνήν εὐίερόν τε Μίσην ἄρρητον ἄνασσαν,
ἄρσενα καὶ θῆλυν, διφυῆ, λύσειον Ἴακχον·
εἴτ' ἐν Ἐλευσῖνος τέρπηι νηῶι θυόεντι, (5)
εἴτε καὶ ἐν Φρυγίηι σὺν Μητέρι μυστιπολεύεις,
ἢ Κύπρωι τέρπηι σὺν ἐυστεφάνωι Κυθερείηι,
ἢ καὶ πυροφόροις πεδίοις ἐπαγάλλεαι ἁγνοῖς
σὺν σῆι μητρὶ θεᾶι μελανηφόρωι Ἴσιδι σεμνῆι,
Αἰγύπτου παρὰ χεῦμα σὺν ἀμφιπόλοισι τιθήναις· (10)
εὐμενέουσ' ἔλθοις ἀγαθοὺς τελετῆς ἐπ' ἀέθλους.

O Tesmóforo eu chamo, Dioniso tirsóforo,
sêmen inolvidável, Eubuleu de muitos nomes,
pura e sacratíssima Mise, soberana inefável,
masculina e feminina, biforme, Iáco libertador,
quer te alegres em teu olente santuário em Elêusis (5)
quer celebres mistérios na Frígia com tua mãe,
ou te alegres em Chipre com Citereia de bela coroa,
ou ainda exultes em puras planuras ricas em trigo
com a mãe Deusa, Ísis insigne de negras vestes,
junto às correntes do Egito com amas solícitas.(10)
Peço, venhas benfazeja aos bons certames deste rito.

[Tradução: Rafael Brunhara]

quinta-feira, julho 31, 2014

Teognideia, 983-988

Confiemos nossos corações às festividades, enquanto
Ainda podemos ter as obras do prazer e do amor.
Súbito como um pensamento passa a brilhante juventude:
Nem corcéis impetuosos são tão rápidos,
Levando em fúria um rei de lança à lida guerreira,
E cavalgando exultantes pela planície rica em trigo.

Ἡμεῖς δ' ἐν θαλίηισι φίλον καταθώμεθα θυμόν,...
ὄφρ' ἔτι τερπωλῆς ἔργ' ἐρατεινὰ φέρηι.
αἶψα γὰρ ὥστε νόημα παρέρχεται ἀγλαὸς ἥβη·
οὐδ' ἵππων ὁρμὴ γίνεται ὠκυτέρη,
αἵτε ἄνακτα φέρουσι δορυσσόον ἐς πόνον ἀνδρῶν
λάβρως, πυροφόρωι τερπόμεναι πεδίωι.

[Tradução: Rafael Brunhara]

sexta-feira, maio 23, 2014

Hino Órfico #41: Mãe das Preces [Antaia]

Μητρὸς Ἀνταίας, θυμίαμα ἀρώματα.

Ἀνταία βασίλεια, θεά, πολυώνυμε μῆτερ
ἀθανάτων τε θεῶν ἠδὲ θνητῶν ἀνθρώπων,
ἥ ποτε μαστεύουσα πολυπλάγκτωι ἐν ἀνίηι
νηστείαν κατέπαυσας Ἐλευσῖνος {ἐν} γυάλοισιν
ἦλθές τ' εἰς Ἀίδην πρὸς ἀγαυὴν Περσεφόνειαν (5)
ἁγνὸν παῖδα Δυσαύλου ὁδηγητῆρα λαβοῦσα,
μηνυτῆρ' ἁγίων λέκτρων χθονίου Διὸς ἁγνοῦ,
Εὔβουλον τεύξασα θεὸν θνητῆς ἀπ' ἀνάγκης.
ἀλλά, θεά, λίτομαί σε, πολυλλίστη βασίλεια,
ἐλθεῖν εὐάντητον ἐπ' εὐιέρωι σέο μύστηι. (10)

Da Mãe das Preces [Antaia],Fumigação: Ervas Aromáticas

Rainha das preces[Antaia],Deusa, de muitos nomes a mãe
de Deuses imortais e homens mortais,
que outrora procurando em multívaga dor
teu jejum cessaste {nos}vales de Elêusis.
Foste ao Hades a procura da nobre Perséfone, (5)
tendo por guia o puro filho de Disaules,
revelador do leito sagrado do puro Zeus ctônio.
Para a necessidade mortal geraste Deus Eubuleu.
Vamos, Deusa rainha de muitas súplicas, suplico-te
que venhas afável ao teu sacratíssimo mistério.(10)

[Tradução: Rafael Brunhara]


sábado, abril 19, 2014

Hino Órfico 40: Deméter de Elêusis

[Δήμητρος Ἐλευσινίας], θυμίαμα στύρακα.

Δηώ, παμμήτειρα θεά, πολυώνυμε δαῖμον,
σεμνὴ Δήμητερ, κουροτρόφε, ὀλβιοδῶτι,
πλουτοδότειρα θεά, σταχυοτρόφε, παντοδότειρα,
εἰρήνηι χαίρουσα καὶ ἐργασίαις πολυμόχθοις,
σπερμεία, σωρῖτι, ἀλωαία, χλοόκαρπε, (5)
ἣ ναίεις ἁγνοῖσιν Ἐλευσῖνος γυάλοισιν,
ἱμερόεσσ', ἐρατή, θνητῶν θρέπτειρα προπάντων,
ἡ πρώτη ζεύξασα βοῶν ἀροτῆρα τένοντα
καὶ βίον ἱμερόεντα βροτοῖς πολύολβον ἀνεῖσα,
αὐξιθαλής, Βρομίοιο συνέστιος, ἀγλαότιμος, (10)
λαμπαδόεσσ', ἁγνή, δρεπάνοις χαίρουσα θερείοις·
σὺ χθονία, σὺ δὲ φαινομένη, σὺ δε πᾶσι προσηνής·
εὔτεκνε, παιδοφίλη, σεμνή, κουροτρόφε κούρα,
ἅρμα δρακοντείοισιν ὑποζεύξασα χαλινοῖς
ἐγκυκλίοις δίναις περὶ σὸν θρόνον εὐάζουσα, (15)
μουνογενής, πολύτεκνε θεά, πολυπότνια θνητοῖς,
ἧς πολλαὶ μορφαί, πολυάνθεμοι, ἱεροθαλεῖς.
ἐλθέ, μάκαιρ', ἁγνή, καρποῖς βρίθουσα θερείοις,
εἰρήνην κατάγουσα καὶ εὐνομίην ἐρατεινὴν
καὶ πλοῦτον πολύολβον, ὁμοῦ δ' ὑγίειαν ἄνασσαν. (20)

[De Deméter de Elêusis], fumigação: estoraque

Deo, Deusa mãe de todos, nume de muitos nomes,
Deméter insigne, nutriz de jovens, doadora de fortuna,
Deusa doadora de riqueza,nutriz de cereais, doadora de tudo;
que se agrada com a paz e com trabalhos muito laboriosos,
semeadora a colher e debulhar os grãos, Deusa dos verdes frutos,
 que  habitas os puros vales de Elêusis, és desejada
e amada, o sustento de todos os mortais sem exceção;
foste a primeira a atrelar a cerviz de bois ao arado
enviando aos mortais uma vida feliz e multiafortunada;
Vicejante companheira de Brômio, de esplêndidas honras, (10)
Luminar, pura, te comprazes nas ceifas estivais,
tu és terrestre, tu és luzente, tu és gentil para todos;
de boa prole, insigne amiga das crianças, jovem nutriz de jovens,
que atrelaste teu carro impondo rédeas em dragões,
em cíclicos turbilhões a bradar evoés em torno ao teu trono,  (15)
 unigênita, Deusa muito fecunda, muito augusta entre os mortais,
que tem muitas formas, multiflóreas, em sagrado viço!
Vem, venturosa pura, abundante em frutos estivais,
trazendo a paz, a amável equidade
a riqueza multiafortunada e também saúde soberana. (20)

Tradução: Rafael Brunhara

sexta-feira, abril 18, 2014

Antologia Palatina, 9. 385: Estéfano Gramático - Conteúdo da Ilíada a cada canto.

Ἄλφα λιτὰς Χρύσου, λοιμὸν στρατοῦ, ἔχθος ἀνάκτων,
Βῆτα δ' ὄνειρον ἔχει, ἀγορὴν καὶ νῆας ἀριθμεῖ.
Γάμμα δ' ἄρ' ἀμφ' Ἑλένης οἴοις μόθος ἐστὶν ἀκοίταις.
Δέλτα θεῶν ἀγορή, ὅρκων χύσις, ἄρεος ἀρχή.
Εἶ, βάλλει Κυθέρειαν Ἄρηά τε Τυδέος υἱός· (5)
Ζῆτα δ' ἄρ' Ἀνδρομάχης καὶ Ἕκτορός ἐστ' ὀαριστύς.
Ἦτ', Αἴας πολέμιζε μόνῳ μόνος Ἕκτορι δίῳ.
Θῆτα, θεῶν ἀγορή, Τρώων κράτος, Ἕκτορος εὖχος·
ἐξεσίη δ' Ἀχιλῆος ἀπειθέος ἐστὶν Ἰῶτα.
Κάππα δ' ἄρ', ἀμφοτέρων σκοπιαζέμεν ἤλυθον ἄνδρες. (10)
Λάμβδα δ', ἀριστῆας Δαναῶν βάλον Ἕκτορος ἄνδρες.
Μῦ, Τρώων παλάμῃσι κατήριπε τεῖχος Ἀχαιῶν.
Νῦ δέ, Ποσειδάων Δαναοῖς κράτος ὤπασε λάθρῃ.
Ξῖ, Κρονίδην λεχέεσσι σὺν ὕπνῳ τ' ἤπαφεν Ἥρη.
Οὖ, Κρονίδης κεχόλωτο Ποσειδάωνι καὶ Ἥρῃ. (15)
Πῖ, Πάτροκλον ἔπεφνεν ἀρήιον Ἕκτορος αἰχμή.
Ῥῶ, Δαναοὶ Τρῶές τε νέκυν πέρι χεῖρας ἔμισγον.
Σῖγμα, Θέτις Ἀχιλῆι παρ' Ἡφαίστου φέρεν ὅπλα·
Ταῦ δ', ἀπέληγε χόλοιο καὶ ἔκθορε δῖος Ἀχιλλεύς.
Ὗ, μακάρων ἔρις ὦρτο, φέρει δ' ἐπὶ κάρτος Ἀχαιοῖς. (20)
Φῖ, κρατερῶς κατὰ χεύματ' ἐδάμνατο Τρῶας Ἀχιλλεύς.
Χῖ δ' ἄρα, τρὶς περὶ τεῖχος ἄγων κτάνεν Ἕκτορ' Ἀχιλλεύς.
Ψῖ, Δαναοῖσιν ἀγῶνα διδοὺς ἐτέλεσσεν Ἀχιλλεύς.
Ὦ, Πριάμῳ νέκυν υἷα λαβὼν γέρα δῶκεν Ἀχιλλεύς.

Alfa, as súplicas de Crises, a peste do exército, a querela dos soberanos;
Beta contém o sonho, a assembleia, a contagem dos navios.
Gama é o combate singular por Helena entre os maridos.
Delta, a assembleia dos Deuses, a quebra das juras, o início da guerra.
Epsilon,  fere Afrodite e Ares o filho de Tideu.
Zeta, a conversa amável entre Andrômaca e Heitor.
Eta, Ájax sozinho luta contra o divino Heitor sozinho.
Théta, assembleia dos Deuses, a vitória dos troianos, vanglória de Heitor.
A embaixada ao inflexível Aquiles está em Iota. 
Kappa,  guerreiros de ambos os lados vão para espionar.
Lambda, os guerreiros de Heitor ferem os melhores dos Dânaos.
Mu, a muralha dos aqueus cai pelas mãos dos troianos.
Nu, Posídon confere vitória aos Dânaos em segredo.
Ksi, Hera engana Zeus com o leito e o sono.
Ômicron, Zeus se enfurece com Posídon e Hera.
Pi, A lança de Heitor mata o guerreiro Pátroclo.
Rô, Dânaos e Troianos se misturam na luta pelo corpo.
Sigma, Tétis leva as armas de Hefesto para Aquiles.
Tau, desiste da cólera o divino Aquiles, e ataca.
Ípsilon, Entre os venturosos faz-se a discórdia, mas traz a vitória aos Aqueus.
Phi, Aquiles às margens do rio fortemente subjuga os troianos.
Khi, E então, Aquiles mata Heitor, guiando pela muralha três vezes.
Psi, Aquiles realiza jogos,  que dedica aos Dânaos.
Ômega, Aquiles, depois de ganhar presentes, dá a Príamo o cadáver de seu filho.

Tradução: Rafael Brunhara


quinta-feira, abril 03, 2014

Antologia 9.368 (Juliano) - "Sobre a Cerveja"

Τίς, πόθεν εἶς, Διόνυσε; μὰ γὰρ τὸν ἀληθέα Βάκχον,
οὔ σ' ἐπιγιγνώσκω, τὸν Διὸς οἶδα μόνον·
κεῖνος νέκταρ ὄδωδε, σὺ δὲ τράγου. ἦ ῥά σε Κελτοὶ
τῇ πενίῃ βοτρύων τεῦξαν ἀπ' ἀσταχύων·
τῷ σε χρὴ καλέειν Δημήτριον, οὐ Διόνυσον, (5)
πυρογενῆ μᾶλλον καὶ Βρόμον, οὐ Βρόμιον.

Quem és, Dioniso? De onde? Pelo verdadeiro Baco!
Não te reconheço. Só sei do filho de Zeus.
Ele cheira a néctar; tu, a bode. Sim, os Celtas,
pobres de uvas, fizeram-te dos cereais...
Então, deves se chamar Demétrio, não Dioniso, (5)
antes nascido do trigo que do fogo*, e "Bromo"**, não mais Brômio.

Tradução: Rafael Brunhara

* antes nascido do trigo que do fogo" no original,  jogo de palavras entre πῠρογενής ("nascido do fogo"), epíteto do deus do vinho, e πῡρογενής,"nascido do trigo".
** "Bromo": do grego "Βρόμον", "cereal", "aveia".

quarta-feira, abril 02, 2014

Hino Órfico 39: Coribante

<Κορύβαντος>, θυμίαμα λίβανον.

Κικλήσκω χθονὸς ἀενάου βασιλῆα μέγιστον,
Κύρβαντ' ὀλβιόμοιρον, Ἀρήιον, ἀπροσόρατον,
νυκτερινὸν Κουρῆτα, φόβων ἀποπαύστορα δεινῶν,
φαντασιῶν ἐπαρωγόν, ἐρημοπλάνον Κορύβαντα,
αἰολόμορφον ἄνακτα, θεὸν διφυῆ, πολύμορφον,(5)
φοίνιον, αἱμαχθέντα κασιγνήτων ὑπὸ δισσῶν,
Δηοῦς ὃς γνώμαισιν ἐνήλλαξας δέμας ἁγνόν,
θηρότυπον θέμενος μορφὴν δνοφεροῖο δράκοντος·
κλῦθι, μάκαρ, φωνῶν, χαλεπὴν δ' ἀποπέμπεο μῆνιν,
παύων φαντασίας, ψυχῆς ἐκπλήκτου ἀνάγκας. (10)

[Do Coribante], Fumigação: Olíbano

Invoco da eterna terra o rei maior,
Cirbante rico, guerreiro vetado ao olhar,
noturno Curete,exterminador de temores terríveis,
auxiliador das fantasias, Coribante que vaga sozinho,
soberano de mutante forma, Deus de duas naturezas e multiforme, (5),
sanguinário manchado pelo sangue de seus dois irmãos,
que por veredito de Deméter mudou o seu corpo puro,
e assumiu a forma bestial de um tenebroso dragão:
Ouve, venturoso, nossas vozes: afasta a dura ira,
Põe fim à fantasia da alma, ao pânico, à necessidade. (10)

[Tradução: Rafael Brunhara]

Antologia Palatina 9.489 (Paladas de Alexandria)

Γραμματικοῦ θυγάτηρ ἔτεκεν φιλότητι μιγεῖσα
παιδίον ἀρσενικόν, θηλυκόν, οὐδέτερον.

A filha do professor de gramática gerou unida em amor
prole do gênero masculino, feminino e neutro.

(Tradução: Rafael Brunhara)

Hino Órfico 38: Curetes


<Κουρήτων>, θυμίαμα λίβανον.

Χαλκόκροτοι Κουρῆτες, Ἀρήια τεύχε' ἔχοντες,
οὐράνιοι χθόνιοί τε καὶ εἰνάλιοι, πολύολβοι,
ζωιογόνοι πνοιαί, κόσμου σωτῆρες ἀγαυοί,
οἵτε Σαμοθράικην, ἱερὴν χθόνα, ναιετάοντες
κινδύνους θνητῶν ἀπερύκετε ποντοπλανήτων·(5)
ὑμεῖς καὶ τελετὴν πρῶτοι μερόπεσσιν ἔθεσθε,
ἀθάνατοι Κουρῆτες, Ἀρήια τεύχε' ἔχοντες·
νωμᾶτ' Ὠκεανόν, νωμᾶθ' ἅλα δένδρεά θ' αὕτως·
ἐρχόμενοι γαῖαν κοναβίζετε ποσσὶν ἐλαφροῖς,
μαρμαίροντες ὅπλοις· πτήσσουσι δὲ θῆρες ἅπαντες (10)
ὁρμώντων, θόρυβος δὲ βοή τ' εἰς οὐρανὸν ἵκει
εἱλιγμοῖς τε ποδῶν κονίη νεφέλας ἀφικάνει
ἐρχομένων· τότε δή ῥα καὶ ἄνθεα πάντα τέθηλε.
δαίμονες ἀθάνατοι, τροφέες καὶ αὖτ' ὀλετῆρες,
ἡνίκ' ἂν ὁρμαίνητε χολούμενοι ἀνθρώποισιν (15)
ὀλλύντες βίοτον καὶ κτήματα ἠδὲ καὶ αὐτοὺς
† πιμπλάντες, στοναχεῖ δὲ μέγας πόντος βαθυδίνης,
δένδρη δ' ὑψικάρην' ἐκ ῥιζῶν ἐς χθόνα πίπτει,
ἠχὼ δ' οὐρανία κελαδεῖ ῥοιζήμασι φύλλων.
Κουρῆτες Κορύβαντες, ἀνάκτορες εὐδύνατοί τε (20)
ἐν Σαμοθράικηι ἄνακτες, ὁμοῦ <δὲ> Διόσκοροι αὐτοί,
πνοιαὶ ἀέναοι, ψυχοτρόφοι, ἀεροειδεῖς,
οἵτε καὶ οὐράνιοι δίδυμοι κλήιζεσθ' ἐν Ὀλύμπωι,
εὔπνοοι, εὔδιοι, σωτήριοι ἠδὲ προσηνεῖς,
ὡροτρόφοι, φερέκαρποι ἐπιπνείοιτε ἄνακτες. (25)

[Dos Curetes], fumigação: Olíbano

Curetes de brônzeo clangor, com armaduras de guerra,
celestes, terrestres e marinhos, multiafortonados,
sopros vivificantes, nobres salvadores do cosmo,
habitantes da Samotrácia, solo sagrado,
que afastais os perigos dos mortais que vagam no mar: (5)
vós fostes os primeiros a instituir o ritual entre os homens,
Curetes imortais com armaduras de guerra!
Ocupais o Oceano e por igual o salso mar e as florestas;
ao chegar na terra com leves pés ressoais,
cintilantes nas armas: as feras todas se encolhem (10)
dos vossos ataques; tumulto e clamor atingem o céu
e o pó em vossos pés volteia e voa às nuvens:
nesse momento todas as flores estão em seu viço.
Numes imortais nutridores e igualmente destrutivos,
sempre que atacais coléricos a humanidade, (15)
destruindo as vidas, as posses e os seres,
... plenos; o vasto mar de fundos remoinhos geme,
e a alta árvore, arrancada, tomba ao solo:
eco celeste chia silvante de suas folhas.
Curetes Coribantes, soberanos bem poderosos, (20)
senhores da Samotrácia, os Dióscuros em pessoa,
sopro eterno nutrindo almas, aeriformes,
sois chamados no Olimpo de gêmeos celestes;
senhores dos ventos bons, serenos, salvadores e suaves,
frutíferos que nutrem as estações, peço: soprai-os sobre nós. (25)

[Tradução: Rafael Brunhara]

sábado, março 29, 2014

Antologia Palatina, 9.401 (Anônimo)

Ἡ φύσις ἐξεῦρεν φιλίης θεσμοὺς ἀγαπῶσα
τῶν ἀποδημούντων ὄργανα συντυχίης,
τὸν κάλαμον, χάρτην, τὸ μέλαν, τὰ χαράγματα χειρός,
σύμβολα τῆς ψυχῆς τηλόθεν ἀχνυμένης.

A natureza, por apreço às leis da amizade,inventou
 ferramentas para o encontro de amigos ausentes:
cálamo, papel, tinta, a letra manuscrita;
signos do coração que longe se aflige.

[Tradução: Rafael Brunhara]

Hino Órfico 37: Titãs

[Τιτάνων], θυμίαμα λίβανον.

Τιτῆνες, Γαίης τε καὶ Οὐρανοῦ ἀγλαὰ τέκνα,
ἡμετέρων πρόγονοι πατέρων, γαίης ὑπένερθεν
οἴκοις Ταρταρίοισι μυχῶι χθονὸς ἐνναίοντες,
ἀρχαὶ καὶ πηγαὶ πάντων θνητῶν πολυμόχθων,
εἰναλίων πτηνῶν τε καὶ οἳ χθόνα ναιετάουσιν· (5)
ἐξ ὑμέων γὰρ πᾶσα πέλει γενεὰ κατὰ κόσμον.
ὑμᾶς κικλήσκω μῆνιν χαλεπὴν ἀποπέμπειν,
εἴ τις ἀπὸ χθονίων προγόνων οἴκοις ἐπελάσθη.

Dos Titãs, fumigação: Olíbano

Titãs, esplêndida prole da Terra [Gaia] e do Céu [Urano],
Ancestrais de nossos pais, sob o chão da terra
habitando mansões tártareas nas profundezas,
princípio e fonte para todos os mortais sofredores,
para as criaturas marinhas, aladas e que vivem na terra: (5)
surgem de vós todos os seres do universo.
Invoco-vos para afastardes  a dura ira,
se um de meus ínferos ancestrais marcha contra vosso lar.

[Tradução: Rafael Brunhara]

sexta-feira, março 28, 2014

Hino Órfico 36: Ártemis

[Ἀρτέμιδος], θυμίαμα μάνναν.

Κλῦθί μου, ὦ βασίλεια, Διὸς πολυώνυμε κούρη,
Τιτανίς, βρομία, μεγαλώνυμε, τοξότι, σεμνή,
πασιφαής, δαιδοῦχε θεά, Δίκτυννα, λοχεία,
ὠδίνων ἐπαρωγὲ καὶ ὠδίνων ἀμύητε,
λυσίζωνε, φίλοιστρε, κυνηγέτι, λυσιμέριμνε, (5)
εὔδρομε, ἰοχέαιρα, φιλαγρότι, νυκτερόφοιτε,
κληισία, εὐάντητε, λυτηρία, ἀρσενόμορφε,
Ὀρθία, ὠκυλόχεια, βροτῶν κουροτρόφε δαῖμον,
ἀμβροτέρα, χθονία, θηροκτόνε, ὀλβιόμοιρε,
ἣ κατέχεις ὀρέων δρυμούς, ἐλαφηβόλε, σεμνή, (10)
πότνια, παμβασίλεια, καλὸν θάλος, αἰὲν ἐοῦσα,
δρυμονία, σκυλακῖτι, Κυδωνιάς, αἰολόμορφε·
ἐλθέ, θεὰ σώτειρα, φίλη, μύστηισιν ἅπασιν
εὐάντητος, ἄγουσα καλοὺς καρποὺς ἀπὸ γαίης
εἰρήνην τ' ἐρατὴν καλλιπλόκαμόν θ' ὑγίειαν· (15)
πέμποις δ' εἰς ὀρέων κεφαλὰς νούσους τε καὶ ἄλγη.

De Ártemis, fumigação: incenso

Ouve-me, rainha, donzela de Zeus, de muitos nomes,
Titânide, Brômia de nome magno,arqueira insigne,
luz de todos,Deusa dadófora, Dictina, parteira,
auxiliadora dos trabalhos do parto, que nunca pariste,
amante do delírio, auxílio das parturientes, caçadora, alívio dos cuidados; (5)
corredora notívaga, sagitária que ama caçar,
Árbitra ágil e afável, de masculina forma,
Órtia, rápida parteira, nume nutriz de mortais,
Imortal e terrestre assassina de feras; rica
que reges bosques nas montanhas, insigne caçadora de cervos; (10)
Senhora rainha de todos, belo viço sempre vivo,
habitante de bosques, protetora dos cães, Cidônia, mutante forma:
vem, deusa salvadora e amiga, a todos os mistérios
acessível, trazendo os belos frutos da terra,
a paz e a amável saúde de lindas tranças:
Peço, envia para os cimos das montanhas as doenças e a dor.

[Tradução de Rafael Brunhara]

terça-feira, março 18, 2014

Antologia Palatina 10.45 (Paladas)

Ἂν μνήμην, ἄνθρωπε, λάβῃς, ὁ πατήρ σε τί ποιῶν
ἔσπειρεν, παύσῃ τῆς μεγαλοφροσύνης.
ἀλλ' ὁ Πλάτων σοὶ τῦφον ὀνειρώσσων ἐνέφυσεν
ἀθάνατόν σε λέγων καὶ φυτὸν οὐράνιον.
ἐκ πηλοῦ γέγονας. τί φρονεῖς μέγα; τοῦτο μὲν οὕτως (5)
εἶπ' ἄν τις κοσμῶν πλάσματι σεμνοτέρῳ.
εἰ δὲ λόγον ζητεῖς τὸν ἀληθινόν, ἐξ ἀκολάστου
λαγνείας γέγονας καὶ μιαρᾶς ῥανίδος.

Se te lembrasses, homem, o que fez teu pai
ao te gerar, porias de lado o orgulho.
Mas Platão,sonhador, plantou em ti ilusão,
chamando-te imortal, planta do céu;
Do barro tu nasceste. Por que a arrogância?
Quem diz isso orna-se em ficções solenes.
Se procuras um dito verdadeiro: vieste
de licencioso coito e sêmen sujo.

[Tradução: Rafael Brunhara]

sexta-feira, março 14, 2014

Antologia Palatina, 11.430 - Luciano

Εἰ τὸ τρέφειν πώγωνα δοκεῖς σοφίαν περιποιεῖν,
καὶ τράγος εὐπώγων αἶψ' ὅλος ἐστὶ Πλάτων.

Se tu acreditas que cultivar uma barba é adquirir sabedoria,
de repente até um bode de bela barba é um  Platão completo.

[Tradução: Rafael Brunhara]

segunda-feira, março 10, 2014

Lançamento de "Lira Grega: Antologia de Poesia Arcaica"


Apesar de dispormos de excelentes traduções da chamada poesia lírica grega arcaica, muitas dessas traduções encontram-se esparsas, publicadas em artigos de periódicos, trabalhos acadêmicos ou seções de revistas.

Há exceções notáveis -- volumes como Poesia Grega e Latina de Péricles Eugênio da Silva Ramos (Cultrix, 1967); Poesia Grega: De Álcman a Teócrito  de Frederico Lourenço (Cotovia,2006) e Ritmo e Sonoridade na Poesia Grega Antiga, de Leonardo Antunes (Humanitas, 2011) -- exceções às quais este novo trabalho de Giuliana Ragusa, que será lançado no dia 25/03 em SP pela Editora Hedra, vem se somar, suprindo uma lacuna: a de oferecer, reunidos em um só volume, boas traduções dos nove grandes poetas "líricos" arcaicos.

quarta-feira, janeiro 29, 2014

"O Poema dos Irmãos" - Novo fragmento de Safo

Nota Liminar:

Trata-se de um dos dois novos fragmentos de Safo, descobertos recentemente em uma coleção particular. O papirologista Dirk Obbink, que trabalha em uma edição do texto, chamou-o de "Poema dos Irmãos" por ser o primeiro que menciona explicitamente os nomes de Caraxo e Lárico, referidos como irmãos de Safo em outras fontes. As descobertas de Obbink serão publicadas em breve, mas uma versão preliminar (de onde foi extraído o texto para esta tradução) pode ser lida aqui: 

http://www.papyrology.ox.ac.uk/Fragments/Obbink.Sappho7.draft.pdf

Tradução:



Toda a vez tagarelas sobre Cáraxo, por vir
com o navio cheio; Zeus sabe disso,
creio, e os deuses todos: mas não é
o que deves pensar,

e sim em enviar-me junto e recomendar
que eu faça muitas preces à rainha Hera
para que Cáraxo retorne, guiando
seu navio em segurança,

e nos encontre a salvo. Tudo o mais,
confiemos aos numes.
Pois é do vento forte que vêm,
de súbito, os dias serenos.

Aqueles a quem o rei do Olimpo quiser
mandar um nume que os auxilie nos afãs,
são estes que se tornam venturosos
e muito prósperos.

Também nós: se Lárico erguer a cabeça
e um dia se tornar um homem,
de tanto peso na alma, sim, imediatamente
estaríamos livres.

[Tradução de  Rafael Brunhara]

ἀλλ’ ἄϊ θρύλησθα Χάραξον ἔλθην
νᾶϊ σὺμ πλέαι· τὰ μέν̣, οἴο̣μα̣ι, Ζεῦς
οἶδε σύμπαντές τε θέοι· σὲ δ᾽οὐ χρῆ
ταῦτα νόεισθαι,

ἀλλὰ καὶ πέμπην ἔμε καὶ κέλ{η}`ε ́ςθαι
πόλλα λίσσεσθαι̣ βασί̣λ̣η̣αν Ἤρ̣αν
ἐξίκεσθαι τυίδε σάαν ἄγοντα
νᾶα Χάραξον,

κἄμμ’ ἐπεύρην ἀρτέ̣ μ̣ εας· τὰ δ’ ἄλλα
πάντα δαιμόνεσσι̣ν ἐπι̣τ̣ρόπωμεν·
εὐδίαι̣ γὰ̣ρ̣ ἐκ μεγάλαν ἀήτα̣ν̣
αἶψα πέλ̣̣ο̣νται·

τῶν κε βόλληται βασίλευς Ὀλύμπω
δαίμον’ ἐκ πόνων ἐπάρ{η}`ω ́γον ἤδη
περτρόπην, κῆνοι μ̣άκαρες πέλονται
καὶ πολύολβοι.

κἄμμες, αἴ κε τὰν κεφάλαν ἀέρρῃ
Λάριχος καὶ δήποτ᾽ἄνηρ γένηται,
καὶ μάλ’ἐκ πόλλ{η}`αν ́ βαρ̣υθύμ̣ιάν̣ κεν
αἶψα λύθειμεν.

quarta-feira, janeiro 22, 2014

Hino Órfico 35: Leto

Λητοῦς, θυμίαμα σμύρναν.

Λητὼ κυανόπεπλε, θεὰ διδυματόκε, σεμνή,
Κοιαντίς, μεγάθυμε, πολυλλίστη βασίλεια,
εὔτεκνον Ζηνὸς γονίμην ὠδῖνα λαχοῦσα,
γειναμένη Φοῖβόν τε καὶ Ἄρτεμιν ἰοχέαιραν,
τὴν μὲν ἐν Ὀρτυγίηι, τὸν δὲ κραναῆι ἐνὶ Δήλωι, (5)
κλῦθι, θεὰ δέσποινα, καὶ ἵλαον ἦτορ ἔχουσα
βαῖν' ἐπὶ πάνθειον τελετὴν τέλος ἡδὺ φέρουσα.

De Leto, fumigação: mirra

Leto de escuro véu, Deusa mãe dos gêmeos, insigne,
Filha de Coios magnânima, rainha de muitas preces,
que teve por honra o fértil parto da boa prole de Zeus,
dando à luz a Febo e a Ártemis sagitária:
ela em Ortígia, ele em Delos rochosa (5).
Ouve-me, senhora Deusa e com propício peito,
vem ao ritual de todos os deuses, trazendo o doce fim.

[Tradução: Rafael Brunhara]

segunda-feira, janeiro 06, 2014

Antologia Palatina 5.95 (Anônimo)

Quatro são as Graças, duas as Afrodites e dez as Musas:
Dercílis é uma de cada: Musa, Graça, Afrodite.  (5.95)

(Tradução: Rafael Brunhara)

Asclepíades de Samos - Antologia Grega 5. 85

Φείδῃ παρθενίης. καὶ τί πλέον; οὐ γὰρ ἐς Ἅιδην
ἐλθοῦσ' εὑρήσεις τὸν φιλέοντα, κόρη.
ἐν ζωοῖσι τὰ τερπνὰ τὰ Κύπριδος· ἐν δ' Ἀχέροντι
ὀστέα καὶ σποδιή, παρθένε, κεισόμεθα.

Poupas tua virgindade; o que ganhas com isso? Ao chegar
no Hades não encontrarás quem te ame, menina.
Entre os vivos é que estão as delícias da Cípria; no Aqueronte,
como ossos e cinzas, donzela, jazeremos.

Tradução: Rafael Brunhara