segunda-feira, novembro 23, 2020

Nukata no Okimi - tr. Haroldo de Campos

"Princesa Nukata", 1909 de Kajita Hanko (1870-1917)


 KOI

Entre os irmãos rivais

Imperadores Tenmu e Tenji

a Princesa Nukata

poeta e maga

com seus olhos de outono

nostálgicos da visão do Monte Miwa

brilha indecisa

como um brocado de prata

na seda evasiva ao tacto


TRANSPOSIÇÕES


Man'yoshu 1:16

do casulo do inverno

sai a primavera

aves que não cantavam

cantam agora

flores que não floriam

agora florescem

no flanco da montanha

difícil colher flores

difícil escolhê-las

onde a relva é espessa

no outono: sou eu mesma.

posso vê-las

as folhas vermelhas

vê-las e colhê-las

deixo apenas as verdes

nas árvores com pena

- meu pesar é só este - 

no outono: sou eu mesma.


Man'yoshu 1:17


aprazível como sakê

o Monte Miwa

alegria da encosta azul-verde

até que se esvaeça

entre as colinas de Nara

a ondulante:

para além das voltas

sem conta do caminho

vou indo e sem cessar

me volto para vê-lo

uma vez outra vez

volto o olhar distante

nuvens sem coração

que discórdia vos leva

a ocultá-lo de mim?


Man'yoshu 1:18

assim o Monte Miwa

se oculta

de mim:

nuvens de coração cordato

é sensato ocultá-lo? 


Man'yoshu 1:20

passeavas pela púrpura

dos campos de violetas

passeavas pelo parque proibido:

os guardas da campina terão visto

que acenavas para mim com tua manga?


FONTE: CAMPOS, Haroldo de. "Nukata no Okimi: a princess poet and magician in the Man'yoshu" in Miner, Earl & Dev, Amiya (orgs.) The renewal of song: renovation in lyric conception and practice. Calcutta: Seagull books, 2000. 


sábado, julho 18, 2020

25 Proêmios da Odisseia


Por Rafael Brunhara




Reúno aqui 25 traduções do início da Odisseia de Homero em Língua portuguesa, trazendo tudo feito em nossa língua, extraídos das traduções integrais do poema e de coletâneas, livros, artigos e ensaios em que a passagem é citada.

A primeira tradução da Odisseia em língua portuguesa foi a de João Félix Pereira (1822-1891), polímata português que também teria traduzido a Ilíada. São poucas as menções a essa tradução e são incertas mesmo notícias a respeito de sua data de publicação e  de como foi a sua recepção. A entrada sob seu nome no Dicionário Bibiográfico Português, Tomo Décimo, de 1883, menciona que a tradução era em prosa e supostamente estaria concluída à essa época. Antes de 1883, portanto, não podemos dizer que tínhamos Homero completo em português, e basta ver nesse sentido a agonia e mau humor do polêmico José Agostinho de Macedo (1761-1830) por não conseguir lê-lo em vernáculo...

 Segundo a pesquisadora Tâmara Kovacs, que transcreve o trecho do proêmio em "Ensaios e Experiências de Tradução da Ilíada no Oitocentismo Português" (2013, p.11, n.6) a tradução de João Félix Pereira não era em prosa, mas em versos decassílabos. O  exemplar consultado pela pesquisadora, na Biblioteca da Unicamp, data de 1891. Deste trabalho que extraímos a passagem que se lerá abaixo. 

 Parecia muito popular no XIX as traduções dos dois poemas para o latim feitas por Samuel Clarke (1729) e traduções parciais em vernáculo, com intenção de apresentar Homero ao leitor de língua portuguesa. A primeira de que tenho notícia é a de Antônio José Viale (1806-1889), que apresenta, traduz e anota o primeiro canto da Odisseia em sua Miscelânea Helênico-Literária (1868). Viale, que foi o primeiro professor da cadeira de Literatura Grega e Latina do Curso Superior de Letras de Lisboa, o compôs para fins didáticos -- como se nota no subtítulo da obra ("oferecida aos estudantes da 2a cadeira do curso superior de Letras"). No entanto, não descuida do apuro poético, vertendo Homero em decassílabos (usando aproximadamente dois decassílabos para cada hexâmetro homérico).

Mas a primeira tradução integral a circular amplamente foi a de Manuel Odorico Mendes (1799-1864). Depois da empreitada de traduzir todo o Virgílio (1858), sabe-se que o poeta maranhense já trabalhava nas suas versões das duas epopeias de Homero. Elas, porém, só vieram à luz postumamente: a Ilíada em 1874 e a Odisseia apenas em 1928. 

Outro poeta maranhense, Carlos Alberto Nunes (1897-1990) também traduziu os dois poemas de Homero. Já foi o tradutor mais popular de Homero no Brasil, e ainda é reeditado até hoje (algumas editoras que o publicaram: Melhoramentos, 1962; Tecnoprint, 1997; Ediouro, 2001; Hedra, 2011; Nova Fronteira, 2015). Muito disso se deve, em parte,  porque só teríamos novas traduções em verso a partir dos anos 2000. Por muitos anos foi objeto de debate a data da primeira edição da tradução  de Nunes, mas, recentemente, a pesquisadora Tatiana Alvarenga Chanoca, em sua dissertação de mestrado (2017), revela que a Odisseia de Nunes saiu originalmente pela  Editora  Atena em 1941. 

As próximas traduções do poema serão em prosa. Há duas em 1960: a de  G.D.Leoni e Neyde Ramos de Assis, ex-professores de latim da Pontifícia Universidade Católica de SP (São Paulo: Editora Atena, 1a ed: 1960; 2a ed.1973) e a de Antônio Pinto de Carvalho (1901-1963), ex-professor de Letras da Universidade de Lisboa. Esta teve grande circulação no Brasil, sendo primeiramente publicada na Coleção Clássicos Garnier da Difusão Europeia do Livro (1960) e depois muito republicada em diversas coleções populares, como a da Editora Abril Cultural (1979, 1981, 1986) e Nova Cultural (2002). Não pude rastrear se a tradução de Pinto de Carvalho foi também publicada em Portugal.

A terceira tradução em prosa é de Jaime Bruna, ex-professor de latim da Universidade de São Paulo, que a publica na coleção Clássicos Cultrix da Editora Cultrix (1a edição em 1968, 2a edição em 1976 e 3a edição em 2013). Em 1970, a Ediouro publica também Odisseia (em forma narrativa), uma tradução bastante parafrástica e em prosa, em sua coleção Clássicos de Ouro.

A partir dos anos 2000, começa a predominância das traduções de Homero vindas da academia. Em 2003 é lançada em Portugal uma nova tradução da Odisseia, feita em versos livres por Frederico Lourenço (1963-), professor de grego na Universidade de Coimbra (Lisboa: Editora Cotovia). Esta tradução alcançaria grande popularidade também no Brasil, sendo republicada pelo selo Penguin da Companhia das Letras em 2011.

 Em 2007, Donaldo Schüler (1932-), professor emérito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, publica sua tradução em versos livres, em 3 volumes, pelo selo L&PM Pocket (Porto Alegre: L&PM editores). Também em 2011, Trajano Vieira, professor de grego da Unicamp, publica a sua tradução pela Editora 34. Em 2014, Christian Werner (1970-), professor de grego da Universidade de São Paulo, publica a sua tradução pela Editora Cosac Naify. Sua tradução seria republicada em 2018, juntamente com a Ilíada, pela Editora Ubu. Ainda em 2018, Frederico Lourenço revê sua primeira tradução da Odisseia e a relança em Portugal pela Editora Quetzal. Esta é a mais recente tradução integral em português do poema. 

Mas, para além destas traduções integrais, o trecho que nos interessa foi muito traduzido. Registro em ordem cronológica os autores dessas traduções: a primeira é da ex-professora emérita da Universidade de Coimbra Maria Helena da Rocha Pereira (1925-2017) que traduziu o trecho para a sua obra Hélade: Antologia de Cultura Grega (1a edição: 1959). A tradução das ex-professoras de grego da UNESP Maria Helena da Moura Neves e Daisi Malhadas também vem de uma coletânea, a Antologia de Poetas Gregos, de Homero a Píndaro (Araraquara: UNESP, 1976).

Em 2001, o professor de grego da USP Jaa Torrano (1946-) traduz para o periódico Letras Clássicas n.5, da Universidade de São Paulo, todo o primeiro canto da Odisseia. Breno Sebastiani, professor de grego da Universidade de São Paulo, traduz os 21 primeiros versos do poema em artigo da Revista de tradução Modelo, da UNESP, em 2002. Na obra Antiga Musa: Arqueologia da Ficção, de 2005, reeditada em 2015, Jacyntho Lins Brandão (1952 -), professor emérito da UFMG, escritor membro da Academia Mineira de Letras, analisa o trecho e oferece uma tradução de sua própria lavra. Em 2018, o professor de grego da USP André Malta (1970 -) publica seu estudo da Odisseia, a obra Astúcia de Ninguém - Ser e não Ser na Odisseia, que traz 8 cantos traduzidos, dentre eles o Canto 1. No artigo "O Homem Complicado" (2019),  Rodrigo Tadeu Gonçalves, professor de latim da UFPR, dá uma tradução dos primeiros versos de Homero a partir da celebrada versão inglesa de Emily Wilson. Pude acessar, ainda, uma tradução inédita do poeta e professor de latim da UFPR Guilherme Gontijo Flores (1984 -),  uma do professor de latim da UFPB e escritor, membro da Academia Paraibana de Letras Milton Marques Júnior, e uma do poeta, tradutor e crítico literário Matheus de Souza Oliveira Almeida, autor do blog Formas Fixas.  Acrescento a tradução do professor da Universidade de São Paulo Adriano Aprigliano, recentemente publicada na página da Editora Syrinx. Também agradeço ao Prof. Fábio P. Cairolli, por me indicar a tradução de Fernando C. de Araújo.

*Atualização: Agradeço à tradutora Denise Bottman por me indicar a tradução de João Félix Pereira e a data de sua tradução (1891).

1. Antônio José Viale (1868)
Musa, os trabalhos a cantar me ensina
Do ardiloso varão, que longo tempo,
Agitado, vagou, depois que os muros
Da sagrada Ilión lançou por terra;
Que de distantes e mui vários povos
Viu as cidades, os costumes soube,
E magoas mil curtiu, a propria vida
Por salvar forcejando, e os companheiros
Reconduzir buscando ao pátrio ninho;
Mas por salvá-los se esforçou debalde:
Morte lhes foi seu próprio desatino.
Loucos! a fome, sôfregos, fartaram
No, consagrado ao sol, bovino armento:
Do arrojo em punição, o irado nume
Negou-lhes do regresso o fausto dia.
Parte ao menos de tantas aventuras
Conta-me, ó filho do supremo Jove.

2. João Félix Pereira (1891)
Ó Musa, fala do varão astuto,
que errante andou, após haver prostrado
os sacrossantos muros de Dardânia,
que muitos povos viu e de seus usos
Tomou conhecimento. Mil desgostos
Também sofreu nos mares, ansiando
salvar a vida e assegurar a volta
dos companheiros seus; mas não o alcança,
sem embargo de bons desejos ter.
Morreram vítimas da própria inépcia.
Loucos! dos bois do Sol se alimentaram;
e o mesmo Sol lhes denegou o dia,
em que deviam regressar. Ó deusa, faze
exposição d’algumas destas coisas.

3. Odorico Mendes (1928)
Canta, ó Musa, o varão que astucioso,
Rasa Ílion santa, errou de clima em clima,
Viu de muitas nações costumes vários.
Mil transes padeceu no equóreo ponto,
Por segurar a vida e aos seus a volta;
Baldo afã! Pereceram, tendo, insanos,
Ao claro Hiperiônio os bois comido,
Que não quis para a pátria alumiá-los.
Tudo, ó prole Dial, me aponta e lembra.

4. Eusébio Dias Palmeira e Manoel Alves Corrêa (1938)
Ó Musa, fala-me do solerte varão que, depois de ter destruído a cidade sagrada de Tróia, andou errante por muitas terras, viu as cidades de numerosas gentes e conheceu-lhes os costumes; e, por sobre o mar, sofreu no seu coração aflições sem conta, no intento de salvar a sua vida e de conseguir o regresso dos companheiros. Mas, não obstante o seu desejo, não os salvou, pois pereceram por desatino próprio os insensatos, que devoraram as vacas do sol, filho de Hiperíone, pelo que este não os deixou ver o dia do regresso. Deusa, filha de Zeus, conta-nos a nós também algumas destas empresas, começando por qualquer delas.

5.Carlos Alberto Nunes (1941)
Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso que muito
peregrinou, dês que esfez as muralhas sagradas de Troia;
muitas cidades dos homens viajou, conheceu seus costumes,
como no mar padeceu sofrimentos inúmeros na alma,
para que a vida salvasse e de seus companheiros a volta.
Os companheiros, porém, não salvou, muito embora o tentasse,
pois pereceram por culpa das próprias ações insensatas.
Loucos! que as vacas sagradas do Sol Hiperiônio comeram.
Ele, por isso, do dia feliz os privou do retorno.
Deusa nascida de Zeus, de algum ponto nos conta o que queiras.

6. Maria Helena da Rocha Pereira (1959)
Canta-me, ó Musa, o homem fértil em expedientes, que muito vagueou,
depois que destruiu a cidadela sagrada de Tróia,
que viu as cidades de muitos homens e conheceu o seu espírito,
que padeceu, sobre as ondas, muitas dores no seu coração,
em luta pela vida e pelo regresso dos seus companheiros.
Mas a estes não pôde salvá-los, a despeito de seus esforços.
Esses pereceram pela sua própria insensatez
-- loucos! que foram devorar os bois consagrados a Hipérion,
o Sol! Por isso o deus os privou do dia do regresso.
Sobre estes feitos, ó deusa, filha de Zeus, fala-nos,
a nós também, principiando em qualquer altura.

7. G.D.Leoni e Neyde Ramos de Assis (1960)
Fala-me, ó Musa, do homem de talento multiforme que tanto vagueou após haver destruído a sagrada fortaleza de Tróia, viu numerosas cidades, conheceu a índole de homens vários, e muito sofreu sôbre o mar quando buscava o meio pelo qual êle e os companheiros poderiam manter-se vivos e voltar à pátria. Mas êles, insensatos, comeram os bois do Sol Hiperônio, que lhes dificultou o dia do regresso. 
Ó Deusa, filha de Zeus, narra também a mim estes fatos, e começa por onde tu quiseres. 

8. Antônio Pinto de Carvalho (1960)
Canta para mim, ó Musa, o varão industrioso que, depois de haver saqueado a cidadela sagrada de Tróade, vagueou errante por inúmeras regiões, visitou cidades e conheceu o espírito de tantos homens; o varão que sobre o mar sofreu em seu íntimo tormentos sem conta, lutando por sua vida e pelo regresso dos companheiros. Mas, ai! nem assim logrou satisfazer seu desejo de salvá-los: pereceram, em consequência de sua cegueira, os insensatos que devoraram os bois de Hélio Hipérion. O qual os privou do dia do regresso. Deusa, filha de Zeus, conta-nos, a nós também, algumas destas façanhas, começando onde quiseres.

9. Jaime Bruna (1968)
Musa, narra-me as aventuras do herói engenhoso, que após saquear a sagrada fortaleza de Troia, errou por tantíssimos lugares vendo as cidades e conhecendo o pensamento de tantos povos e, no mar, sofreu tantas angústias no coração, tentando preservar a sua vida e o repatriamento de seus companheiros, sem, contudo, salvá-los, mau grado seu; eles perderam-se por seu próprio desatino; imbecis, devoraram as vacas de Hélio, filho de Hipérion, e ele os privou do dia do regresso. Começa por onde te apraz, deusa, filha de Zeus, e conta-as a nós também.

10. Fernando C. de Araújo (1970)
Eis a história de um homem que jamais se deixou vencer. Viajou pelos confins do mundo, depois da tomada de Tróia, a impávida fortaleza. Conheceu muitas cidades e aprendeu a compreender o espírito dos homens. Enfrentou muitas lutas e dificuldades, no esfôrço de salvar a própria vida e levar de volta os companheiros aos seu lares. Fêz o que pôde, mas não consegui salvá-los. Pereceram devido à sua própria loucura, por terem matado e devorado os bois de Hiperion, o Deus-Sol, e este diligenciou para que êles jamais vissem de nôvo seus lares. Ao começar a história, (...)

11. Maria Helena da Moura Neves e Daisi Malhadas (1976)
A vida conta-me, ó Musa, do varão industrioso que tanto
andou errante, depois que a cidadela sagrada de Tróia saqueou,
e de muitos homens visitou as cidades e o espírito conheceu;
que, sobre o mar, angústias sem conta sofreu no coração,
lutando pela própria vida e pelo retorno dos companheiros,
mas nem assim os companheiros salvou, por mais que desejasse;
pois por seu próprio desvario eles pereceram,
os loucos, que os bois de Hélio Hiperião
comeram; e foi este que os privou do dia do retorno.
Desses fatos, a partir de qualquer ponto, ó deusa, filha de Zeus, fala-nos também.

12. Jaa Torrano (2001) 
O varão, diz-me, ó Musa, multívio, que por muitas vias
Vagou, após destruir a sacra fortaleza de Tróia;
De muitos homens viu cidades e conheceu a mente,
Muitas dores no alto mar padeceu em seu ânimo,
Agarrado à sua vida e ao regresso dos companheiros;
Mas nem assim salvou os companheiros, querendo-o
Pois por sua estultícia deles mesmos perecerem,
Néscios, que devoraram as vacas do supereunte Sol
E este por sua vez lhes arrebatou o regressário dia.
Disto nos conta, ó Deusa, filha de Zeus, também a nós.

13. Breno Sebastiani (2002)
Narra-me o homem, ó Musa, de muitas facetas, que demasiadamente
vagou, depois que arrasou a sagrada cidadela de Tróia,
e que de muitos homens viu as praças e conheceu a inteligência;
no mar, muitas dores no ânimo ele sofreu
esforçando-se por garantir sua vida e o retorno dos companheiros.
Eles, pois, perecerem por sua própria presunção,
fracalhões que devoraram os bois de Hélio
Hipérion, o qual em seguida privou-os do dia do retorno.
De qualquer dessas coisas, ó deusa filha de Zeus, narra também a nós.

14.Frederico Lourenço 1a versão (2003/2011)
Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou,
depois que de Tróia destruiu a cidadela sagrada.
Muitos foram os povos cujas cidades observou,
cujos espíritos conheceu; e foram muitos no mar
os sofrimentos por que passou para salvar a vida,
para conseguir o retorno dos companheiros a suas casas.
Mas a eles, embora o quisesse, não logrou salvar.
Não, pereceram devido à sua loucura,
insensatos, que devoraram o gado sagrado de Hipérion,
o Sol - e assim lhes negou o dia do retorno.
Destas coisas fala-nos agora, ó deusa, filha de Zeus.

15. Jacyntho Lins Brandão (2005/2015)
O guerreiro diz-me, Musa, ardiloso, que muitíssimo
vagou, desde que, de Troia, a sacra cidadela pilhou,
e de muitos homens viu as cidades e o espírito conheceu --
e muitas dores ele, no mar, sofreu em seu ânimo,
lutando por sua vida e pelo retorno dos companheiros --
mas nem assim os companheiros salvou como queria,
pois eles, pela própria insensatez, pereceram,
tolos, que os bois do filho de Hipérion, o sol,
comeram, logo este lhes tirou o dia do retorno.
Disso, desde algum ponto, deusa, filha de Zeus, fala também a nós.

16. Donaldo Schüller (2007)
O homem canta-me, ó Musa, o multifacetado, que muitos
males padeceu, depois de arrasar Tróia, cidadela sacra.
Viu cidades e conheceu costumes de muitos mortais. No
mar, inúmeras dores feriram-lhe o coração, empenhado em
salvar a vida e garantir o regresso dos companheiros. Mas
não conseguiu contê-los, ainda que abnegado. Pereceram,
vítimas de suas presunçosas loucuras. Crianções! Forraram
a pança com a carne das vacas de Hélio Hipérion. Este os
privou, por isso, do dia do regresso. Das muitas façanha,
Deusa, filha de Zeus, conta-nos algumas a teu critério.

17.Trajano Vieira (2011) 
O homem multiversátil, Musa, canta, as muitas
errâncias, destruída Troia, pólis sacra,
as muitas urbes que mirou e mentes de homens
que escrutinou, as muitas dores amargadas
no mar a fim de preservar o próprio alento
e a volta aos sócios. Mas seu sobre-empenho não
os preservou: pueris, a insensatez vitima-os,
pois Hélio Hiperiônio lhes recusa o dia
da volta, morto o gado seu que eles comeram.
Filha de Zeus, começa o canto de algum ponto!

18. Christian Werner (2014/2018)
Do varão me narra, Musa, do muitas-vias, que muito
vagou após devastar a sacra cidade de Troia.
De muitos homens viu urbes e a mente conheceu,
e muitas aflições sofreu ele no mar, em seu ânimo,
tentando garantir sua vida e o retorno dos companheiros.
Nem assim os companheiros socorreu, embora ansiasse:
por iniquidade própria, a deles, pereceram,
tolos, que as vacas de Sol Hipérion
devoraram. Esse, porém, tirou-lhes o dia do retorno.
De um ponto daí, deusa, filha de Zeus, fala também a nós.

19. André Malta (2018)
O varão me evoca, Musa || multiforme, que muitíssimo
vagou, depois de pilhar || a sacra pólis de Troia,
e de muitos homens viu || cidades e soube a mente,
e muitas dores no mar || em seu ânimo sofreu,
almejando sua vida || e a volta dos companheiros.
Mas nem assim os salvou,|| apesar de se empenhar,
pois pereceram por causa || dos próprios atrevimentos,
os tolos, que devoraram || vacas do sobrepassante
Sol -- que deles então re-||tirou o dia da volta!
Disso a partir de algo, deusa|| de Zeus, nos fala também.

20. Frederico Lourenço 2a versão (2019)
Fala-me, Musa, do homem versátil que tanto vagueou,
depois que de Tróia destruiu a cidadela sagrada.
De muitos homens viu as cidades e a mente conheceu;
e foram muitas no mar as dores que sofreu em seu coração
para salvar a vida e o regresso dos companheiros.
Pereceram devido às suas próprias loucuras,
tolos, que o gado de Hiperíon, o Sol,
comeram; e este lhes negou o dia do regresso.
Destas coisas, a partir de um ponto qualquer,
ó deusa, filha de Zeus, fala-nos também a nós.

21. Guilherme Gontijo Flores (2019)
O homem conta-me, Musa, do multimodal que por muitos
males passou, arrasando a santa muralha de Troia,
vendo e sabendo de muitas cidades e mentes humanas,
muitas dores sofrendo no mar e dentro do peito
ao proteger seu alento e o retorno de seus companheiros,
sem conseguir salvá-los, por mais que assim desejasse:
pois se perderam pela própria perversidade –
tão pueris que comeram o gado do Sol Hiperônio,
e este por isso então lhes tomou o dia da volta.
Deusa filha de Zeus, começa por um desses pontos.

22. Emily Wilson via Rodrigo Tadeu Gonçalves (2019)
Me conta sobre um homem complicado.
Musa, me conta como ele vagou
perdido, devastando a sacra Troia,
pra onde foi, quem encontrou, a dor
sofrida sobre os mares, e os trabalhos
pra os seus trazer pra casa e se salvar.
Falhou, e eles morreram por seus erros.
Comeram o gado do deus Sol, e o deus
os afastou de casa. Agora, Deusa,
conta essa história para os nossos tempos.
Encontre o início.

23. Milton Marques Júnior (s.d.)
Reconta-me, Musa, sobre o homem de muitas voltas, que em extremo
Errou, depois que destruiu a cidadela sagrada de Troia:
Viu as cidades de muitos homens e conheceu seu pensamento,
Que, sobre o mar, muitas dores sofreu no coração,
Lutando pela sua vida e pelo retorno dos companheiros.
Mas não salvou os companheiros, embora desejando:
Pois pela própria louca presunção deles mesmos pereceram,
Tolos! Os bois do Sol de Hipérion comeram:
Em seguida, o dia do retorno daqueles foi destruído.
Estas coisas, de algum ponto, narra-nos também, Deusa, filha de Zeus.

24. Matheus Oliveira (2020)
O homem, o muitos-atalhos, que passa por muito
tendo pilhado as sagradas muralhas de Tróia,
conta-me, Musa: as cidades e os muitos costumes,
muitos suplícios que no íntimo pena à deriva
salvaguardando o seu ser e o regresso dos sócios.
Quanto esforçasse é em vão, pois não chega a salvá-los:
visto que a própria imprudência aniquila os parceiros,
tão pueris, que o rebanho de Hélio Hiperônio
comem: e assim o deus Sol os afasta de casa.
De onde quiseres, ó Deusa, nos conta também.

25. Adriano Aprigliano (2020)
Varão me canta, Musa, viajado,
o qual vagou deveras, Troia santa,
depois de devastá-la; viu cidades
e a mente soube a muitos homens; vária
sofreu no mar e n'alma dor, a vida
afim de que guardasse e a volta aos sócios.
Porém não salva os sócios, que ansiava:
da própria insensateza pereceram,
sandeus, pois que do Sol que sobrepassa
as vacas devoraram; surrupia
de volta o dia o Sol a eles. Deusa,
de Zeus ó filha,  a nós dalgures fala. 



REFERÊNCIAS
BRANDÃO, Jacyntho Lins. A Antiga Musa: Arqueologia da Ficção. Belo Horizonte: Relicário, 2015.
CHANOCA, Tatiana Alvarenga. O texto pelo avesso: gênese das traduções em português da Ilíada. Dissertação de Mestrado. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2017.
GONÇALVES, R.T. "Homem Complicado" in Helena, uma revista de ideias, arte e cultura, n.11. Disponível em: http://www.bpp.pr.gov.br/Helena/Noticia/O-homem-complicado (Acesso em 17.07.2020).
HOMERO. Odisseia. Tradução de Antônio Pinto de Carvalho. São Paulo: Difel, 1960.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição e Apresentação de Antônio Medina Rodrigues. São Paulo: EDUSP, 1996.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Frederico Lourenço. Lisboa: Cotovia, 2003.
HOMERO. Odisséia I: Telemaquia..Tradução, introdução e análise de Donaldo Schüler. Porto Alegre, RS: L&PM, 2007.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Frederico Lourenço. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Trajano Vieira. São Paulo: Editora 34, 2011.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 2013.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Christian Werner. São Paulo: Cosac&Naify, 2014.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Christian Werner. São Paulo: Ubu, 2018.
HOMERO. Odisseia. Tradução, introdução e notas de Frederico Lourenço. Lisboa: Quetzal, 2018.
KOVACS, Tâmara. Ensaios e Experiências de Tradução da Ilíada no Oitocentismo Português. Trabalho de conclusão de curso. São Paulo: FFLCH/USP. 2013.
MALHADAS, Daisi; NEVES, Maria Helena da Moura. Antologia de Poetas Gregos: de Homero a Píndaro. Araraquara: Editora da UNESP, 1976.
MALTA, André. Astúcia de Ninguém - Ser e não Ser na Odisseia. Belo Horizonte: Impressões de Minas, 2018. 
SEBASTIANI, B. B.. Uma experiência de leitura e tradução: Odisséia, I, 1-21. Modelo 19, São Paulo, v. 13, p. 92-94, 2002.
PEREIRA, Maria Helena da Rocha. Hélade: Antologia de Cultura Grega. Guimarães Editores, 2009.
SILVA, Francisco Inocêncio da. Dicionário bibliográfico português. Tomo Décimo. Lisboa:Imprensa Nacional, 1883. 

TORRANO, JAA. "Odisseia, Canto I". in Letras Clássicas, vol. 5. São Paulo: Humanitas/ FFLCH/ USP/ DLCV. 2001.
VIALE, Antônio José. Miscelânea Helênico-Literária. Lisboa: Imprensa Nacional. 1868.

segunda-feira, maio 04, 2020

Kaga no Chiyo (1703-1775)


Chocho ya/Nani wo yume mite/ hanazukai 

Ah, borboleta!
Que sonho fez você
bater as asas? 

[Trad. Rafael Brunhara]