domingo, maio 19, 2019

Arquíloco, Fr. 128 W (Traduçao de Aluizio de Faria Coimbra, 1941)

Coração, que insanáveis males cercam,
teus inimigos, peito a peito, enfrenta,
de perto e firme contra os seus embustes.
Vencedor, não blasones; nem, vencido,
no lar te prostres; mas desfruta, alegre,
o que é bom, sem que as penas te consumam,
e aprende que tal é da vida o ritmo.

in FALCO, Vittorio de; COIMBRA, Aluizio de Faria. Os Elegíacos Gregos - De Calino a Crates. São Paulo, 1941.

Arquíloco - Fragmento 128 (West)

θυμέ, θύμ’, ἀμηχάνοισι κήδεσιν κυκώμενε,
†ἀναδευ δυσμενῶν† δ’ ἀλέξεο προσβαλὼν ἐναντίον
στέρνον †ἐνδοκοισιν ἐχθρῶν πλησίον κατασταθεὶς
ἀσφαλέως· καὶ μήτε νικέων ἀμφάδην ἀγάλλεο,
μηδὲ νικηθεὶς ἐν οἴκωι καταπεσὼν ὀδύρεο,
ἀλλὰ χαρτοῖσίν τε χαῖρε καὶ κακοῖσιν ἀσχάλα
μὴ λίην, γίνωσκε δ’ οἷος ῥυσμὸς ἀνθρώπους ἔχει.

Coração, coração, por lutos inelutáveis agitado,
levanta, protege-te dos oponentes, volvendo adverso
peito, nas emboscadas inimigas próximo postado
firme; e vencendo, não exultes abertamente,
nem vencido, em casa caído lamentes,
mas com alegrias alegra-te e deplora males,
sem excesso: aprende que ritmo rege a humanidade.

Trad. Rafael Brunhara


Uma primeira versão desta tradução, feita em Junho de 2008:

http://primeiros-escritos.blogspot.com/2008/07/arquloco.html

domingo, abril 28, 2019

O Epitáfio de Virgílio - Quatro traduções

Mantua me genuit, Calabri rapuere, tenet nunc
Parthenope; cecini pascua, rura, duces.

Mântua gerou-me,Calábria arrebatou-me; Ora tem-me
 Nápoles; Cantei pastagens, campos, líderes.
[Trad. Rafael Brunhara]


De origem Mantuana, a Calábria me adotou,
sou Napolitano agora, quando a morte me tomou .
Cantei pastos, cantei campos, cantei o herói Troiano,
em um verso lapidar, o ARMA VIRUMQUE CANO.

[Trad. Milton Marques Jr.]


De nascença mantuano,
De querença calabrês,
Eu morri napolitano
E que deixo pra vocês:
Canto o campo, o camponês,
E as vitórias do troiano.

[Trad. Fábio Paifer Cairolli]


Mântua gerou-me,
Calábria arrebatou-me,
Ora tem-me Nápoles.
Cantei pampas, campanhas e caudilhos.
[Trad. Rafael Brunhara]

Simônides, fragmento 257 Poltera [579 PMG]

ἐστί τις λόγος
τὰν Ἀρετὰν ναίειν δυσαμβάτοις ἐπὶ πέτραις,
†νῦν δέ μιν θοαν† χῶρον ἁγνὸν ἀμφέπειν·
οὐδὲ πάντων βλεφάροισι θνατῶν
ἔσοπτος, ὧι μὴ δακέθυμος ἱδρὼς
ἔνδοθεν μόληι,
ἵκηι τ' ἐς ἄκρον ἀνδρείας·

Uma história diz
Que Excelência mora em ínvios rochedos
[perto dos Deuses]* a velar por terra sacra:
Mas não aos olhos de todos os mortais
é visível, só para aquele que sua o suor
que morde o coração dentro do peito
e chega ao ápice da coragem:


* Adoto a sugestão de Poltera (2018, p.448) que propõe ἐγγὺς δὲ θεῶν como uma das muitas leituras possíveis para o verso corrompido em grego.

Referência

POLTERA, O. Simonides Lyricus. Testimonie und Fragmente. Basel: Schwabe. 2018. 

domingo, abril 14, 2019

Dois epitáfios (Simônides e Antologia Palatina)

Simônides, Epigrama XXXVII

πολλὰ πιὼν καὶ πολλὰ φαγὼν καὶ πολλὰ κάκ' εἰπὼν
ἀνθρώπους κεῖμαι Τιμοκρέων Ῥόδιος.

Depois de muito beber, muito comer e muito falar mal
das pessoas, aqui jazo, Timocreonte de Rodes.

Antologia Palatina, Livro VII, Epigrama 348

Βαιὰ φαγὼν καὶ βαιὰ πιὼν καὶ πολλὰ νοσήσας,
ὀψὲ μέν, ἀλλ᾿ ἔθανον. ἔρρετε πάντες ὁμοῦ.

Comendo pouco, bebendo pouco e adoecendo muito,
  tarde, enfim, morri. E danem-se todos vocês.

Tradução: Rafael Brunhara


Meleagro (Antologia Palatina, V.152) - Tradução de Juliana Pondian

vai, voa, Mosquito,
mensageiro ligeiro,
sopra-lhe zum-
zunindo no ouvido:

entrementes ela te espera
insone
dormes
só com o esquecimento

eia, voa; vai, Musamante, voa:
diz-lhe baixinho e não desperta a outra
para que o ciúme contra mim não mova.

se me trouxeres meu menino,
Mosquito: te faço, na face, leão
e nas mãos, te dou teu ferrão.

:::

Πταίης μοι, κώνωψ, ταχὺς ἄγγελος, οὔασι δ᾽ ἄκροις
Ζηνοφίλας ψαύσας προσψιθύριζε τάδε:

ἄγρυπνος

μίμνει σε: σὺ δ᾽, ὦ λήθαργε φιλούντων,
εὕδεις.

εἶα, πέτευ; ναί, φιλόμουσε, πέτευ:
ἥσυχα δὲ φθέγξαι, μὴ καὶ σύγκοιτον ἐγείρας
κινήσῃς ἐπ᾽ ἐμοὶ ζηλοτύπους ὀδύνας,
ἢν δ᾽ ἀγάγῃς τὴν παῖδα, δορᾷ στέψω σε λέοντος,
κώνωψ, καὶ δώσω χειρὶ φέρειν ῥόπαλον.

segunda-feira, março 25, 2019

Safo, fragmento 31 - Tradução de Adriano Aprigliano

Parece a mim aquele igual aos Deuses,
o homem que se senta a tua frente
e ouve-te de perto docemente
enquanto palavreias

e ris amavelmente, o que no peito
meu coração já faz que todo frema.
Pois, basta que te veja brevemente,
que voz não mais me venha.

É como se me arrebentasse a língua,
corresse fino fogo pele adentro,
co’ os olhos vejo nada e meus ouvidos
zunindo vão por dentro;

suor me cobre frio e tremedeira
me toma inteira, verde mais que relva
me acho, e de estar morta já bem perto
pareço-me a mim mesma.

Mas há que se enfrentar a tudo...

domingo, março 24, 2019

Medeia - Sophia de Mello Breyner Andresen e Ovídio (Metamorfoses, VII. 189-206)

Medeia
(adaptado de Ovídio)

Três vezes roda, três vezes inunda
Na água da fonte os seus cabelos leves,
Três vezes grita, três vezes se curva
E diz: "Noite fiel aos meus segredos,
Lua e astros que após o dia claro
Iluminais a sombra silenciosa,
Tripla Hecate que sempre me socorres
Guiando atenta o fio dos meus gestos,
Deuses dos bosques, deuses infernais
Que em mim penetre a vossa força, pois
Ajudada por vós posso fazer
Que os rios entre as margens espantadas
Voltem correndo até às suas fontes.
Posso espalhar a calma sobre os mares
Ou enchê-los de espuma e fundas ondas,
Posso chamar a mim os ventos, posso
Largá-los cavalgando nos espaços.
As palavras que digo e cada gesto
Que em redor do seu som no ar disponho
Torcem longínquas árvores e os homens
Despedaçam-se e morre no seu eco.
Posso encher de tormento os animais,
Fazer que a terra cante, que as montanhas
Tremam e que floresçam os penedos.

Fonte: Sophia de Mello Breyner Andresen. Obra Poética. Lisboa: Tinta da China, 2018.

Metamorfoses, Canto VII, versos 189-205

ter se convertit, ter sumptis flumine crinem
inroravit aquis ternisque ululatibus ora 
solvit et in dura submisso poplite terra
'Nox' ait 'arcanis fidissima, quaeque diurnis
aurea cum luna succeditis ignibus astra,
tuque, triceps Hecate, quae coeptis conscia nostris
adiutrixque venis cantusque artisque magorum,
quaeque magos, Tellus, pollentibus instruis herbis,
auraeque et venti montesque amnesque lacusque,
dique omnes nemorum, dique omnes noctis adeste,
quorum ope, cum volui, ripis mirantibus amnes
in fontes rediere suos, concussaque sisto, 
stantia concutio cantu freta, nubila pello
nubilaque induco, ventos abigoque vocoque,
vipereas rumpo verbis et carmine fauces,
vivaque saxa sua convulsaque robora terra
et silvas moveo iubeoque tremescere montis 
et mugire solum manesque exire sepulcris!

Trad. Domingos Lopes Dias (2017):

Medeia se voltou três vezes. Três vezes aspergiu o cabelo
com água colhida do rio. Soltou três imprecações.
E, ajoelhando na terra dura, clama:
"Ó noite amiga fiel dos mistérios; douradas estrelas
que, com a lua, sucedeis os raios do dia; 
e tu, Hécate de três cabeças, que, conhecedora dos meus intentos,
vens em meu auxílio, tu, mestra dos encantamentos e das artes mágicas;
terra, que aos magos propicias ervas eficazes;
brisas e ventos, montes, rios e lagos;
deuses todos da floresta; todos os deuses da noite, vinde!
Com vossa ajuda, quando assim o quis, tornaram à nascente os rios,
com espanto das margens. Com meus encantamentos
acalmo o mar encapelado e encrespo o mar calmo;
disperso as nuvens e volto a acumulá-las; disperso e convoco os ventos.
Com os meus conjuros e encantamentos anulo as fauces da víbora,
arranco ao solo e ponho em movimento a rocha viva,
o carvalho e a floresta; abalo as montanhas
e faço a terra rugir e os mortos surgir do sepulcro.

FONTE: Ovídio. Metamorfoses. Tradução, introdução e notas de Domingos Lopes Dias; Apresentação de João Angelo Oliva Neto. São Paulo: Editora 34, 2017. 





domingo, março 17, 2019

Entusiasmo - Cecília Meireles

Por uns caminhos extravagantes,
irei ao encontro desses amores
-- por que suspiro -- distantes.

Rejeito os vossos, que são de flores.
Eu quero as vagas, quero os espinhos
e as tempestades, senhores.

Sou de ciganos e de adivinhos.
Não me conformo com os circunstantes
e a cor dos vossos caminhos.

Ide com os zoilos e os sicofantes.
Mas respeitai vossos adversários,
que nem querem ser triunfantes.

Vou com sonâmbulos e corsários,
poetas, astrólogos e a torrente
dos mendigos perdulários.

E cantamos fantasticamente,
pelos caminhos extravagantes,
para Deus, nosso parente.

De Retrato Natural, in Flor de Poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. 

sexta-feira, março 15, 2019

Arquíloco - fr.51B./ fr.130W

Fragmento 51 (Edição de T.Bergk, Anthologia Lyrica, 1907)

τοῖς θεοῖς τίθειν ἁπάντα· πολλάκις μὲν ἐκ κακῶν
ἄνδρας ὀρθοῦσιν μελαίνηι κειμένους ἐπὶ χθονί,
πολλάκις δ' ἀνατρέπουσι καὶ μάλ' εὖ βεβηκότας
ὑπτίους, κείνοις <δ'> ἔπειτα πολλὰ γίνεται κακά,
καὶ βίου χρήμηι πλανᾶται καὶ νόου παρήορος.

Confia tudo aos deuses: muitas vezes dos males
erguem os homens sobre a terra negra prostrados;
e, muitas vezes, os que estão firmes eles viram
do avesso; então lhes vêm muitos males,
[o homem] vaga sem meios e fora de si.

[Trad. Rafael Brunhara]

Fragmento 130 (Edição de M.West, Elegi et Iambi Graeci I 1971)


τοῖς θεοῖς †τ' εἰθεῖάπαντα· πολλάκις μὲν ἐκ κακῶν
ἄνδρας ὀρθοῦσιν μελαίνηι κειμένους ἐπὶ χθονί,
πολλάκις δ' ἀνατρέπουσι καὶ μάλ' εὖ βεβηκότας
ὑπτίους, κείνοις <δ'> ἔπειτα πολλὰ γίνεται κακά,
καὶ βίου χρήμηι πλανᾶται καὶ νόου παρήορος.

Aos deuses tudo é reto: muitas vezes dos males
erguem os homens sobre a terra negra prostrados;
e, muitas vezes, os que estão firmes eles viram
do avesso; então lhes vêm muitos males,
[o homem] vaga sem meios e fora de si.

sexta-feira, março 08, 2019

Ressurgiremos

Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta

Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta

Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta

Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta

[Sophia de Mello Breyner Andresen in Obra Poética. Rio de Janeiro: Tinta da China, 2018)

quinta-feira, fevereiro 07, 2019

Ode a Cassandre - Ronsard (Três traduções)

Mignonne, allons voir si la rose
Qui ce matin avait déclose
Sa robe de pourpre au soleil,
A point perdu, cette vêprée,
Lés plis de sa robe pourprée,
Et son teint au vôtre pareil.

Las,voyez comme en peu d’espace
Mignonne, elle a dessus la place
Las, las, ses beautés laissé choir!
O vraiment marâtre Nature.
Puisqu’une telle fleur ne dure
Que du matin jusques au soir.

Donc, si vous me croyez,Mignonne,
‘ Tandis que votre âge fleuronne
En sa plus verte nouveauté,
Cueillez, cueillez votre jeunesse:
Comme à cette fleur, la vieillesse
Fera ternir votre beauté.


Trad. Andrei Cunha (2019)

Menina, vem ver se a rosa
Que abriu de manhã vaidosa
Ao sol seu vermelho vestido
Guardou numa tarde assim
As dobras da flor tão carmim
Como teu rosto – ou parecido.
Ai, Menina! olha que não!
Em pouco tempo, já está no chão.
Que madrasta essa Natureza,
Que da manhã até o sol se pôr
Não dure uma tão bela flor
E no chão acabe sua beleza.
Então, se me crês, ô Menina,
Enquanto tua tez não declina,
E inda verdes tens amores,
Colhe, e aproveita a meninice:
Pois como a rosa, a velhice
Fará murchar tuas flores.


A Cassandra - Trad. de Mário Laranjeira (2004)

Querida, vamos ver se a rosa,
Que esta manhã abriu garbosa
Ao sol seu purpúreo vestido,
Não perdeu, da tarde ao calor,
De sua roupa a rubra cor,
E o aspecto ao vosso parecido.

Ah! Vede como em curto espaço,
Querida, caiu em pedaços,
Ah! ah! A beleza que tinha!
Ó mesmo madrasta Natura,
Pois que uma flor assim não dura
Senão da manhã à tardinha!

Então, se me dais fé, querida,
Enquanto a idade está florida
Em seu mais viçoso verdor,
Colhei, colhei a mocidade:
A velhice, como a esta flor,
Fará murchar vossa beldade.

ODE A CASSANDRA - Trad. de R. Magalhães Jr. (1972)

Vem, amor, vem ver se a rosa
Que ontem, fresca e perfumosa
Se abriu ao sol estival,
Não perdeu o viço ainda
E conserva, rubra e linda,
Cor à de teu rosto igual.

Oh, amor! Vê quão depressa
Fenecendo, a rosa cessa
De ser bela e ser louçã!
Como é madrasta a Natura,
Pois que tal flor jamais dura
Do entardecer à manhã!

Meu conselho é, pois,amor,
Que, enquanto na vida em flor,
Encantos possam sobrar-te
Colhe, colhe a mocidade,
Pois como à rosa a idade
Da beleza há de privar-te.

Fontes:

LARANJEIRA, M. Poetas Franceses de Renascença. Seleção, apresentação e tradução de Mário Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
MAGALHÃES JR, R. (org.) O livro de ouro da poesia da França. Tradução de R. Magalhães Jr. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1972

terça-feira, fevereiro 05, 2019

Alceu, fragmento 130b (ed. Voigt)

ἀγνοι̣σ̣..σ̣βιότοις..ις ὀ τάλαις ἔγω
ζώω μοῖραν ἔχων ἀγροϊωτίκαν
ἰμέρρων ἀγόρας ἄκουσαι
⸏καρ̣υ̣[ζο]μένας ὦγεσιλαΐδα

αὶ β̣[ό]λ̣λ̣ας· τὰ πάτηρ καὶ πάτερος πάτηρ
κα..[.].ηρας ἔχοντες πεδὰ τωνδέων
τὼν [ἀ]λλαλοκάκων πολίτ̣αν
⸏ἔ.[..ἀ]πὺ τούτων ἀπελήλαμαι

φεύγων ἐσχατίαισ', ὠς δ' Ὀνυμακλέης
ἔ̣ν̣θα[δ'] ο̣ἶος ἐοίκησα λυκαιμίαις
.[ ]ον [π]ό̣λεμον· στάσιν γὰρ
⸏πρὸς κρ.[....].οὐκ ἄμεινον ὀννέλην·

.].[...].[..]. μακάρων ἐς τέμ[ε]νος θέων
ἐοι̣[.....].ε̣[.]αίνας ἐπίβαις χθόνος
χλι.[.].[.].[.]ν̣ συνόδοισί μ' αὔταις
⸏οἴκημ<μ>ι κ[ά]κων ἔκτος ἔχων πόδας,

ὄππαι Λ[εσβί]αδες κριννόμεναι φύαν
πώλεντ' ἐλκεσίπεπλοι, περὶ δὲ βρέμει
ἄχω θεσπεσία γυναίκων
⸏ἴρα[ς ὀ]λολύγας ἐνιαυσίας


[ ].[´̣].[.].ἀπ̣ὺ πόλλ̣ω̣ν .ότα δὴ θέοι
[ ].[ ´]σ̣κ̣...ν Ὀλ̣ύ̣μ̣πιοι

Puras...vidas...ó, pobre de mim,
vivo a sorte de um rústico,
desejando ouvir a convocação
da assembleia, ó Agesilaída

e do conselho. Coisas que meu pai e o pai do pai
tiveram até a velhice com esses
cidadãos que se entre-destroem,
delas eu fui banido

fugindo para os confins; como Onômacles,
aqui, sozinho, morei na toca dos lobos
(foragido?) da guerra. Pois sedição
contra...não é melhor (repelir?)

No santuário dos venturosos deuses
(vivi?), palmilhei a terra negra,
....em seus encontros...
Vivo bem longe dos problemas

onde as lésbias no julgamento da beleza
desfilam arrastando os vestidos, e em volta freme
o eco divino das mulheres,
o sagrado alarido das mulheres, ano a ano...

...longe de muitos um dia os deuses...
... Os olímpios...

[Tradução: Rafael Brunhara]

domingo, janeiro 20, 2019

Cláudio Manoel da Costa (1729-1789) - Soneto II

Leia a posteridade, ó pátrio Rio,
Em meus versos teu nome celebrado,
Porque vejas uma hora despertado
O sono vil do esquecimento frio.

Não vês nas tuas margens o sombrio,
Fresco assento de um álamo copado;
Não vês Ninfa cantar, pastar o gado,
Na tarde clara do calmoso estio.

Turvo, banhando as pálidas areias,
Nas porções do riquíssimo tesouro,
O vasto campo da ambição recreias.

Que de seus raios o Planeta louro
Enriquecendo o influxo em tuas veias
Quanto em chamas fecunda, brota em ouro.

sábado, janeiro 19, 2019

Heine em tradução - Gonçalves Dias, Manuel Bandeira, Mário de Andrade

Du schönes Fischermädchen
Treibe das Kahn ans land;
Komm zu mir und setze dich nieder,
Wir kosen, Hand in Hand.

Leg'an mein Herz dein Kopfchen
Und furcht dich nicht so sehr
Vertraust du dich doch sorglos
Täglich dem wilden Meer!

Mein Herz gleicht dem Meere,
Hat Sturm und Ebb und Flut,
Und mache schöne Perle
I seiner Tiefe ruht.

Tradução de Gonçalves Dias:

Vem, ó bela gondoleira!
Ferra a vela, - junto a mim
Te assenta...Quero as mãos dadas,
E conversemos assim.

Põe ao meu peito a cabeça.
Não tens de que recear.
Que sem temor, cada dia,
Te fias do crespo mar!

Minha alma semelha o pego,
Tem maré, tormenta e onda;
Mas finas pérolas encontra
Nos seus abismos a sonda.

Tradução de Manuel Bandeira:

Vem, linda peixeirinha,
Trégua aos anzóis e aos remos!
Senta-te aqui comigo,
Mãos dadas conversemos.

Inclina a cabecinha
E não temas assim:
Não te fias do oceano?
Pois fia-te de mim!

Minh'alma, como o oceano,
Tem tufões, correntezas,
E muitas lindas pérolas
Jazem nas profundezas.


Tradução de Mário de Andrade:

Peixeira linda,
do barco vem;
Senta a meu lado,
Chega-te bem.

Ouves meus peito?
Porque assustar!
Pois não te fias
Ao diário mar?

Como ele, eu tenho
Maré e tufão,
Mas fundas pérolas
No coração.