domingo, junho 30, 2019

Aristóteles: Hino à Virtude (fr. 842 PMG)

ἀρετά, πολύμοχθε γένει βροτείῳ,
   θήραμα κάλλιστον βίῳ,
σᾶς πέρι, παρθένε, μορφᾶς
   καὶ θανεῖν ζαλωτὸς ἐν Ἑλλάδι πότμος
καὶ πόνους τλῆναι μαλεροὺς ἀκάμαντας·
   τοῖον ἐπὶ φρένα βάλλεις
καρπὸν ἰσαθάνατον χρυσοῦ τε κρεῖσσον
καὶ γονέων μαλακαυγήτοιό θ' ὕπνου.
σεῦ δ' ἕνεκεν <καὶ>ὁ Διὸς
   Ἡρακλέης Λήδας τε κοῦροι
 πόλλ' ἀνέτλασαν ἔργοις
   σὰν ἀγρεύοντες δύναμιν·
σοῖς δὲ πόθοις Ἀχιλεὺς Αἴ-
   ας τ' Ἀίδαο δόμους ἦλθον·
σᾶς δ' ἕνεκεν φιλίου μορφᾶς Ἀταρνέος
   ἔντροφος ἀελίου χήρωσεν αὐγάς.
τοιγὰρ ἀοίδιμος ἔργοις,
    ἀθάνατόν τε μιν αὐξήσουσι Μοῦσαι,
Μναμοσύνας θύγατρες, Δι-
   ὸς ξενίου σέβας αὔξου-
   σαι φιλίας τε γέρας βεβαίου.

Virtude, tão custosa à raça humana,
   és o melhor espólio em vida;
   por ti, donzela, por tua beleza,
   até a morte é destino invejável na Grécia
e suportar terríveis incansáveis penas;
no espírito infundes tal
   fruto imortal, melhor que ouro,
que nossos pais, que o lânguido sonhar.
Por tua causa o brilhante
   Héracles e os meninos de Leda
muito em trabalhos padeceram,
   pois caçavam teu poder;
desejando-te, Aquiles e Ájax
   à casa de Hades desceram;
Por tua amada beleza, o filho da terra
   de Atarneu* desolou a luz do sol.
Por isso é celebrado por seus feitos,
   e imortal o exaltarão as Musas,
as filhas de Memória, exaltando
   a grandeza de Zeus Hospitaleiro
   e o firme privilégio da amizade.

Tradução: Rafael Brunhara

*Segundo a fonte deste poema (Ateneu, Banquete dos Eruditos, Livro 15, ) o poema foi composto para Hérmias, ctirano da cidade de Atarneu, na Ásia Menor. Ex-aluno da academia de Platão, quando da morte deste, Hérmias convida Aristóteles para se estabelecer em sua corte e oferece a mão de sua filha adotiva Pítia. Aristóteles lá permanece entre 347 a 345 a.C. e em 342 a.C., já na Macedônia, quando se encarregava da educação de Alexandre, recebe a notícia da morte do amigo nas mãos do rei Persa Artaxerxes III. Quando enfim regressa a Atenas, Aristóteles ergue um monumento no Liceu em homenagem ao amigo e estabelece o costume, nos jantares, de cantar este Hino à Virtude (ou Excelência, ἀρετά) em honra ao falecido amigo.

sexta-feira, junho 28, 2019

Sófocles: Ode ao homem (vv.332-375) - Trad. Barão de Paranapiacaba (1909)


Entre os muitos prodígios do mundo,

O homem forma o prodígio maior;

Ele doma o oceano profundo,

Que, espumante, lhe muge em redor,

Ao sopro dos nimbosos

Nótos impetuosos.



Volve, do arado ao gume,

Em annual semeio

Da Terra, antigo Nume,

O inexhaurível seio.

Tem, para auxilial-o,

A força do cavallo.



Para as aves, que giram na esphera,

Dispõe visco, gaiola e boiz;

Arma laços nos bosques á féra

E nas agoas aos peixes subtis.

Com rêde, facho e engodo

Cardumes colhe, a rôdo.



Da opaca selva tira

Cavallo de amplas crinas

E o touro, que respira

Ar flammeo das narinas;

A'quelle um freio ageita,

Ao jugo este sujeita.



Fala; e tem altas cousas expresso;

Dá leis sábias e povos dirige;

Contra os riscos ha feito recesso

Nas seguras moradas, que erige.



Dalli um desafio

Arroja ao vento, ao frio.

E firme na insistencia

De tudo prevenir

Estende a providencia

Aos males ]do porvir.

E, sem que a morte vença,

Dá golpes na doença



Engenhoso da industria no invento,

Habil, destro, qual não se imagina,

Ora, ao bem elle applica o talento,

Ora, a força do mal o domina;

E abusa do poder

Para as leis corromper.



Si é chefe e as leis arrostra,

De crimes polluido

Seja eloquente amostra

De um rei destituido.

Mas nunca o mesmo abrigo

Comparta elle comsigo.*

[*Nota do Tradutor. Literalmente: "Grande ao Estado, ajuntando a esta industria as leis de sua patria e o direito sagrado dos Deoses, mas indigno do nome de cidadão é aquelle a quem o que não é bello se prende por causa de sua audacia. Jamais o que pratica estas cousas, se assentará ao mesmo lar, nem pensará como eu.


FONTE:
SOPHOCLES. Antigone, tragédia em 4 actos. Versão poética portugueza de Barão de Parapiacaba.Rio de Janeiro: Oficinas da Renascença. 1909.

quinta-feira, junho 20, 2019

Sófocles: Antígona, Ode ao Homem (vv.332-375) - 9 traduções

Πολλὰ τὰ δεινὰ κοὐδὲν ἀν-
θρώπου δεινότερον πέλει·
τοῦτο καὶ πολιοῦ πέραν
πόντου χειμερίῳ νότῳ
χωρεῖ, περιβρυχίοισιν
περῶν ὑπ' οἴδμασιν, θεῶν
τε τὰν ὑπερτάταν, Γᾶν
ἄφθιτον, ἀκαμάταν, ἀποτρύεται,
ἰλλομένων ἀρότρων ἔτος εἰς ἔτος,
ἱππείῳ γένει πολεύων.


Κουφονόων τε φῦλον ὀρ-
νίθων ἀμφιβαλὼν ἄγει,
καὶ θηρῶν ἀγρίων ἔθνη
πόντου τ' εἰναλίαν φύσιν
σπείραισι δικτυοκλώστοις
περιφραδὴς ἀνήρ· κρατεῖ
δὲ μηχαναῖς ἀγραύλου
θηρὸς ὀρεσσιβάτα, λασιαύχενά θ'
ἵππον <ὑπ>άξεται ἀμφίλοφον ζυγὸν
οὔρειόν τ' ἀκμῆτα ταῦρον.


Καὶ φθέγμα καὶ ἀνεμόεν
φρόνημα καὶ ἀστυνόμους
ὀργὰς ἐδιδάξατο, καὶ δυσαύλων
πάγων <ἐν>αίθρεια καὶ
δύσομβρα φεύγειν βέλη
παντοπόρος· ἄπορος ἐπ' οὐδὲν ἔρχεται
τὸ μέλλον· Ἅιδα μόνον
φεῦξιν οὐκ ἐπάξεται, νό-
σων δ' ἀμηχάνων φυγὰς
ξυμπέφρασται.

Σοφόν τι τὸ μηχανόεν
τέχνας ὑπὲρ ἐλπίδ' ἔχων,
τοτὲ μὲν κακόν, ἄλλοτ' ἐπ' ἐσθλὸν ἕρπει,
νόμους παρείρων χθονὸς
θεῶν τ' ἔνορκον δίκαν
ὑψίπολις· ἄπολις ὅτῳ τὸ μὴ καλὸν
ξύνεστι τόλμας χάριν·
μήτ' ἐμοὶ παρέστιος γέ-
νοιτο μήτ' ἴσον φρονῶν
ὃς τάδ' ἔρδοι.

Trad. Jaa Torrano (2019)
Muitos os terrores e nenhum
mais terrível do que o homem.
Ele além do mar grisalho
vai ao vento tempestuoso
através dos vagalhões
fragorosos e extenua
a suprema dos Deuses
Terra imortal infatigável
volvendo ano após ano
o arado com o equino.

Ele circunda e captura
o bando de aves leves,
a grei de feras agrestes
e a salina fauna marinha
nas dobras urdidas da rede,
prudente varão: domina
com perícia a selvagem
fera montesa, mantém
crinudo equino sob jugo
e indômito touro montês.

Aprendeu a palavra,
a inteligência volátil,
as urbanas maneiras,
a fuga da geada inóspita
do céu e das intempéries,
multívio, ínvio a nenhum
porvir. Somente de Hades
não saberá fugir,
dos males impossíveis
descobriu a fuga.

Por hábil perícia de arte
além da expectativa
vai ora mal, ora bem;
venerando leis da terra
e jurada justiça dos Deuses,
alto na urbe; sem urbe
se por audácia não bem.
Não seja meu conviva
nem pense igual a mim
quem age assim!


Trad. Márcio Mauá Chaves (2014)

Há muitos prodígios, mas nada
é mais prodigioso que o homem.
Mesmo através do mar grisalho,
por Noto invernal impelido,
ele vai, cruzando-o sob fundos
vagalhões ao redor, e a Terra,
dentre os deuses a suprema,
inexaurível, imortal, ele consome,
num ir e vir dos arados ano após ano,
revolvendo-a com espécie equestre.

A tribo das aves levianas,
a raça das feras agrestes,
e a prole marinha do ponto
faz ele cativas cercando-as
nas tramas de rede tecidas,
homem de engenho; com suas artes
domina a fera selvagem
nas montanhas, e com jugo em torno à cerviz
doma não só o cavalo de longas crineiras
mas touro montês incansável.

Palavras e ágeis pensamentos,
e a índole para ordenar
as cidades ensinou-se, e a fugir
do ar livre em montes inóspitos
e dos dardos tempestuosos -
pleno é de meios, sem meios a porvir algum
ele vai; da Morte apenas
não terá como escapar,
mas de moléstias intratáveis
concebe a fuga.

Com tal aparato das artes,
um saber além do esperado,
vai ora para o mal, ora para o bem.
Honrando as normas da terra
e a Lei jurada por deuses,
alto é na pólis; da pólis um pária o que ao mal
se coliga por audácia.
Do meu lar não compartilhe,
tampouco de meus pensamentos,
o que age assim.

Trad. Trajano Vieira (2009)
Somam-se os assombros,
mas o homem ensombra o próprio assombro.
A rajada sul o açula
e ele singra o oceano cinza,
sub
adentra ondas amplirrumorejantes,
Ano a ano,
consome, com manobras
do arado que a raça eqüina arrasta,
a Terra,
imorredoura, infatigável,
hipercelestial.

Arresta às aves, laivos leves,
ao tropel de feras infrenes,
à prole marinha
enreda na trama que entreteceu,
o homem hiperlúcido.
Não carece de mecanismos para dominar,
a céu aberto,
na grimpa,
a fera arisca;
subjuga o corcel de crina hirta
e o touro torvo nos píncaros.

Aprende a linguagem,
o que é pensar: um sopro;
o afã das leis que civilizam,
a fuga ao gelo que fustiga
quando tempestua.
Nem a aporia do porvir poria em apuro
o sem-apuro em sua busca.
Apenas do Hades
ignora como evadir,
apesar da descoberta paliativa
às moléstias mais renitentes.

Seu domínio dos meandros da arte
transcende o esperável;
ora ao vil,
ora ao sutil
se encaminha.
Paladino das leis locais
e da justiça que jura aos numes,
encabeça a pólis; um sem-pólis,
se, truculento,
comete o não-belo.
Longe da lareira do meu lar,
não divida comigo um único pensamento!


Trad. Lawrence Flores Pereira (2006)

Há muitos assombros,
mas nada tão assombroso
quanto o homem. É ele que,
sobre o branco do mar,
por entre os vórtices das vagas,
foge ao tempestuoso vento sul.
E a maior dentre as deusas, a terra
indestrutível e infatigável, ele gasta
indo e vindo o arado ano a ano,
lavrando com a estirpe eqüina.

E o povo dos voadores pássaros
o homem destro em rastros, com redes
bem tramadas, após emboscá-lo
o caça, e a tribo da animalha bruta,
e a prole que do sal do mar se nutre,
e enreda com trapas as feras rudes
que rondam nos penhascos,
e o cavalo de lombo hirsuto
ele o prende, jugando a nuca,
e o indomável touro das montanhas.

E a palavra e o pensamento alado
e o elã que governa a cidade
aprendeu, e a fugir das borrascosas
flechas e dos granizos
dos inóspitos climas:
pleno de tramas, preso nas tramas
de nada que está por vir. Só não sabe
fugir ao sítio dos mortos,
mas contra as insanáveis pragas
um remédio ele urdiu.

Tendo algo do sábio e dos ardis
da arte bem mais que o esperado,
um dia alcança o mal, no outro, o bem.
Urdindo nas leis da terra
e na justiça jurada aos deuses,
é um grande na pátria, pária na pátria
se na audácia lhe escapa o bem.
Jamais partilhe meu Fogo
nem meus pensares
quem assim age.

Trad. Sueli de Regino (2004)
Muitos são os prodígios, no entanto,
nada é mais prodigioso do que o homem,
esse que estendeu o seu poder sobre as ondas
do mar cinzento e, sob o impulso de Noto,
o tempestuoso, atravessou abismos revoltos.
Também a divina Gaia, incansável, imperecível,
ele a revolve com o arado, ano após ano,
ajudado pela força da raça dos cavalos.

A raça das aves ligeiras,
ele captura e aprisiona;
a raça dos animais selvagens,
assim como a dos seres do mar,
é colhida nas malhas das redes
do engenhoso homem.
Com habilidade ele persegue
os animais que vagueiam
pelas matas. Nas montanhas,
domina o cavalo, de longas crinas,
envolvendo-lhe o pescoço
com o jugo das rédeas. Nos montes,
submete o incansável touro.

E a palavra, o espírito ligeiro,
as leis que protegem a vida na pólis,
tudo isso ele aprendeu por si mesmo.
E ainda, as grandes tempestades,
que arremetem geladas setas,
ele também soube enfrentar.
Somente de Hades, certamente,
ele não pode escapar, embora,
quando bem aconselhado,
saiba enfrentar as doenças.

Sua habilidade e inventividade,
ora o levam ao mal, ora ao bem.
Quando honra as leis da terra
e acredita na justiça dos deuses,
recebe elevadas honras na pólis,
porém, se por atrevimento,
ousar insultá-la, será desterrado.
Nesse caso, que se afaste
dos altares do meu lar
e dos meus pensamentos,
todo aquele que assim proceder.


Trad. Donaldo Schüler (1999)

De tantas maravilhas,
mais maravilhoso de todas é o homem.
O espumante mar nos ímpetos dos ventos austrais
sulca, bramantes
ondas fende,
e cultiva a dos deuses mãe, a Terra,
imortal, incansável,
revolvendo-a ano após ano
com arados movidos por força equina.

A linhagem das leves aves
leva capturadas
e as raças das feras agrestes,
peixes em penca prende
nas malhas das redes
o homem perspicaz;
engenhoso persegue a fera
fauna dos montes,
doma corcéis,
ao duro jugo
sujeita touros sanhudos.

A voz, o pensar
volátil e as urbanas leis
das assembleias ele as ensinou
a si mesmo, fugiu
da áspera agressão do frio
e dos dardos das tempestades.
Aparelhado, desaparelhado, não acata nada
do que lhe advém; só da morte
fuga não lhe acena,
ainda que de indômitas moléstias
alcance escape.

De saber fecundo, move recursos inesperados
ora ao bem, ora ao mal.
Una as leis da terra
à justiça jurada
dos deuses, e amuralhado será;
desamuralhado
se saiba, porém,
atrevendo-se a insultá-las.
De meus altares
não se aproxime
nem perturbe meu pensar quem assim procede.


Trad. Mário da Gama Kury (1989)

Há muitas maravilhas, mas nenhuma
é tão maravilhosa quanto o homem.
Ele atravessa, ousado, o mar grisalho,
impulsionado pelo vento sul
tempestuoso, indiferente às vagas
enormes na iminência de abismá-lo;
e exaure a terra eterna, infatigável,
deusa suprema, abrindo-a com o arado
em sua ida e volta, ano após ano,
auxiliado pela espécie equina.
Ele captura a grei das aves lépidas
e as gerações dos animais selvagens:
e prende a fauna dos profundos mares
nas redes envolventes que produz,
homem de engenho e artes inesgotáveis.
Com suas armadilhas ele prende
a besta agreste nos caminhos íngremes;
e doma o potro de abundante crina,
pondo-lhe na cerviz o mesmo jugo
que amansa o fero touro das montanhas.
Soube aprender sozinho a usar a fala
e o pensamento mais veloz que o vento
e as leis que disciplinam as cidades,
e a proteger-se das nevascas gélidas,
duras de suportar a céu aberto,
e das adversas chuvas fustigantes;
ocorrem-lhe recursos para tudo
e nada o surpreende sem amparo;
somente contra a morte clamará
em vão por um socorro, embora saiba
fugir até de males intratáveis.
Sutil de certo modo na inventiva
além do que seria de se esperar,
e na argúcia, que o desvia às vezes
para a maldade, às vezes para o bem,
se é reverente às leis da sua terra
e segue sempre os rumos da justiça
jurada pelos deuses ele eleva
à máxima grandeza a sua pátria.
Nem pátria tem aquele que, ao contrário,
adere temerariamente ao mal;
jamais quem age assim seja acolhido
em minha casa e pense igual a mim!


Trad. Guilherme de Almeida (2003 [1952 1a ed.])

Muitos milagres há, mas o mais portentoso é o homem.
Ele, que singra o mar sorrindo ao tempestuoso Noto,
galgando vagalhões
que escancaram em torno o abismo;
e que a deusa suprema, a Terra,
a eterna infatigável,
ano após ano, rasga a arado e pisa com cavalos.
E da espécie dos pássaros volúveis faz sua presa,
e à raça das bestas-feras,
e à nadante no oceano
estende as malhas que teceu
e, destro, as aprisiona;
e com artifícios doma a agreste
fera do monte, e laça o cavalo
de farta crina,
e o touro incansável das montanhas.
Palavras e pensamentos,
fugazes como o ar, e leis
a si mesmo ensinou; e do gelo
e da chuva inóspitos,
de tudo se defende; e, assim armado,
nada do que pode acontecer receia.
Somente à morte
não sabe como fugir,
embora às piores doenças saiba achar remédio.
Senhor de arte e de engenho que ultrapassam qualquer sonho,
pode preferir tanto o mal como o bem.
Quando respeita as leis
e os juramentos dos deuses,
é digno da pátria; mas é sem pátria
o que por orgulho a conduz ao mal:
esse não entre em minha casa
nem comigo tenha um pensamento igual.

J.B.Mello e Souza (1950)

Numerosas são as maravilhas da natureza, mas de todas a maior é o Homem! Singrando os mares espumosos, impelido pelos ventos do sul, ele avança, e arrosta as vagas imensas que rugem ao redor! Gêm, a suprema divindade, que a todas as mais supera, na sua eternidade, ele a corta com suas charruas que, de ano em ano, vão e vêm, revolvendo e fertilizando o solo, graças à força das alimárias!
A tribo dos pássaros ligeiros, ele a captura, ele a domina; as hordas de animais selvagemns, e de viventes das águas do mar, o Homem imaginoso as prende nas malhas de suas redes. E amansa, igualmente, o animal agreste, bem como o dócil cavalo, que o conduzirá, sob o jugo e os freios, que o prendem dos dois lados; bem assim o touro bravio das campinas.
E a língua, o pensamento alado, e os costumes moralizados, tudo isso ele aprendeu! E também, a evitar as intempéries e os rigores da natureza! Fecundo em seus recursos, ele realiza sempre o ideal a que aspira! Só a Morte, ele não encontrará nunca, o meio de evitar! Embora de muitas doenças, contra as quais nada se podia fazer outrora, já se descobriu remédio eficaz para a cura.
Industrioso e hábil, ele se dirige, ora para o bem...ora para o mal...Confundindo as leis da natureza, e também as leis divinas a que jurou obedecer, quando está à frente de uma cidade, muita vez se torna indigno, e pratica o mal, audaciosamente! Oh! Que nunca transponha a minha soleira, nem repouso junto a meu fogo, quem não pense como eu, e proceda de modo tão infame!

Barão de Paranapiacaba (1909)

Entre os muitos prodígios do mundo,
O homem forma o prodígio maior;
Ele doma o oceano profundo,
Que, espumante, lhe muge em redor,
       Ao sopro dos nimbosos
       Nótos impetuosos.

       Volve, do arado ao gume,
        Em annual semeio
        Da Terra, antigo Nume,
       O inexhaurível seio.
       Tem, para auxilial-o,
       A força do cavallo.

Para as aves, que giram na esphera,
Dispõe visco, gaiola e boiz;
Arma laços nos bosques á féra
E nas agoas aos peixes subtis.
         Com rêde, facho e engodo
         Cardumes colhe, a rôdo.

         Da opaca selva tira
         Cavallo de amplas crinas
         E o touro, que respira
         Ar flammeo das narinas;
         A'quelle um freio ageita,
         Ao jugo este sujeita.

Fala; e tem altas cousas expresso;
Dá leis sábias e povos dirige;
Contra os riscos ha feito recesso
Nas seguras moradas, que erige.
         
         Dalli um desafio
         Arroja ao vento, ao frio.
         E firme na insistencia
         De tudo prevenir
         Estende a providencia
         Aos males ]do porvir.
        E, sem que a morte vença,
        Dá golpes na doença

Engenhoso da industria no invento,
Habil, destro, qual não se imagina,
Ora, ao bem elle applica o talento,
Ora, a força do mal o domina;
        E abusa do poder
        Para as leis corromper.

Si é chefe e as leis arrostra,
De crimes polluido
Seja eloquente amostra
De um rei destituido.
Mas nunca o mesmo abrigo
Comparta elle comsigo.*

[*Nota do TradutorLiteralmente: "Grande ao Estado, ajuntando a esta industria as leis de sua patria e o direito sagrado dos Deoses, mas indigno do nome de cidadão é aquelle a quem o que não é bello se prende por causa de sua audacia. Jamais o que pratica estas cousas, se assentará ao mesmo lar, nem pensará como eu.


FONTES:
ALMEIDA, G; VIEIRA, T. Três Tragédias Gregas. São Paulo: Perspectiva, 2003.
CHAVES, M.M. Os Cantos de Sófocles: tradução e análise de gênero e metro das passagens líricas d'As traquínias, Ájax e Antígona. Dissertação de Mestrado. São Paulo: DLCV/FFLCH/USP.
KURY, M. (trad.) Sófocles. A Trilogia Tebana: Édipo Rei, Édipo em Colono, Antígona. Rio de Janeiro: Zahar, 1989.
MELLO E SOUZA, J.B. (trad.) Teatro Grego. São Paulo: W.M. Jackson Editores. 1950
PEREIRA, L.F. (trad.) SÓFOCLES. Antígona. São Paulo: Topbooks, 2006.
SCHÜLER, D. (trad.). SÓFOCLES. Antígone. Porto Alegre: L&PM. 1999.
SERRA, O. REGINO, S de. (trad.). SÓFOCLES. Édipo Rei, Antígona. Sâo Paulo: Martin Claret, 2015.
TORRANO, J. Mito e Imagens Míticas. São Paulo: Córrego, 2019.
VIEIRA, T. (trad.) Antígone de Sófocles. São Paulo: Perspectiva, 2009.

domingo, junho 02, 2019

Simônides Fr. 260 Poltera = 542 PMG

O texto deste poema foi conservado no diálogo Protágoras, de Platão. Nele, Sócrates faz uma paráfrase do poema de Simônides para discutir com seu interlocutor Protágoras o conceito de virtude. É importante observar a recorrência de alguns termos conceituais: a crítica e a reformulação de noções como o "homem de valor" (andr' agathós, ἄνδρ' ἀγαθός), o vil (kakós, κακὸς) e o bom (esthlós, ἐσθλός). Tais conceitos poderiam nos levar a pensar numa antecipação da universo retórico da sofística já em Simônides,entretanto os termos parecem bastante vinculados a uma ética arcaica simposial enraizada em um conceito de justiça que próprio da concepção política do mundo arcaico (ver v.35). Remeto o leitor ao trabalho de Anderson, A Ode a Escopas no Protágoras de Platão (2011) para uma discussão pormenorizada do fragmento à luz do Protágoras. Recentemente, o fragmento também já foi traduzido e comentado por Ragusa (2013).

Se tornar de verdade um homem de valor
é difícil, nas mãos, nos pés e na mente
completo, moldado sem mácula
[
[
[ Faltam 7 versos
[
[
[
[
Nem a máxima de Pítaco me soa
bem, embora dita por sábio
homem: “difícil” –dizia – “ser bom”
Só o Deus teria tal mercê, ao homem não
resta senão ser vil (15)
se o abate inelutável conjuntura.
Se bem-sucedido todo homem tem valor,
é vil se fracassa...
Amiúde os] melhores são
quem os Deuses amam. (20)

Por isso não jogarei a vida fora
buscando o impossível, em vã
inútil esperança:
o ser humano impecável entre nós, que da ampla
terra colhemos os frutos, (25)
vos avisarei se encontrá-lo.
E a todos vou louvando e amando,
que adrede não praticam
nada torpe: contra a necessidade
nem os Deuses lutam. (30)

[
[
[Não amo a censura. Basta-me]
um que não seja vil nem tão inábil,
ciente da benéfica justiça da pólis, (35)
um homem são... Eu não vou
censurá-lo. Pois infinita é a raça
dos estultos.
Belo é tudo a que
Não se funde o torpe. (40)

ἄνδρ' ἀγαθὸν μὲν ἀλαθέως γενέσθαι
χαλεπὸν χερσίν τε καὶ ποσὶ καὶ νόῳ
τετ'ράγωνον ἄνευ ψόγου τετυγ'μένον·
[
[
[ vacant 7 ll.
[
[
[


⸏[
οὐδέ μοι ἐμμελέως τὸ Πιττάκειον
νέμεται, καίτοι σοφοῦ παρὰ φωτὸς εἰ-
ρημένον· χαλεπὸν φάτ' ἐσθλὸν ἔμμεναι.
θεὸς ἂν μόνος τοῦτ' ἔχοι γέρας, ἄνδρα δ' οὐκ
ἔστι μὴ οὐ κακὸν ἔμμεναι, (15)
ὃν ἀμήχανος συμφορὰ καθέληι·
πράξας γὰρ εὖ πᾶς ἀνὴρ ἀγαθός,
κακὸς δ' εἰ κακῶς < -- >
ἐπὶ πλεῖστον δὲ καὶ] ἄριστοί εἰσιν
⸏οὓς ἂν οἱ θεοὶ φιλῶσιν. (20)

τοὔνεκεν οὔ ποτ' ἐγὼ τὸ μὴ γενέσθαι
δυνατὸν διζήμενος κενεὰν ἐς ἄ-
π'ρακτον ἐλπίδα μοῖραν αἰῶνος βαλέω·
πανάμωμον ἄνθρωπον, εὐρυεδέος ὅσοι
καρπὸν αἰνύμεθα χθονός, (25)
ἐπὶ δ' ὑμὶν εὑρὼν ἀπαγγελέω.
πάντας δ' ἐπαίνημι καὶ φιλέω,
ἑκὼν ὅστις ἔρδηι
μηδὲν αἰσχρόν· ἀνάγκᾳ δ'
οὐδὲ θεοὶ μάχονται. (30)
[
[
[οὐκ εἰμὶ φιλόψογος, ἐπεὶ ἔμοιγε ἐξαρκεῖ]
ὃς ἂν μὴ κακὸς ἦι μηδ' ἄγαν ἀπάλαμνος εἰ-
δώς γ' ὀνασίπολιν δίκαν,(35)
ὑγιὴς ἀνήρ· οὐ < u ->; ἐγὼ
μωμήσομαι· τῶν γὰρ ἀλιθίων
ἀπείρων γενέθλα.
πάντα τοι καλά, τοῖσίν τ'
αἰσχρὰ μὴ μέμεικται. (40)

domingo, maio 19, 2019

Arquíloco, Fr. 128 W (Traduçao de Aluizio de Faria Coimbra, 1941)

Coração, que insanáveis males cercam,
teus inimigos, peito a peito, enfrenta,
de perto e firme contra os seus embustes.
Vencedor, não blasones; nem, vencido,
no lar te prostres; mas desfruta, alegre,
o que é bom, sem que as penas te consumam,
e aprende que tal é da vida o ritmo.

in FALCO, Vittorio de; COIMBRA, Aluizio de Faria. Os Elegíacos Gregos - De Calino a Crates. São Paulo, 1941.

Arquíloco - Fragmento 128 (West)

θυμέ, θύμ’, ἀμηχάνοισι κήδεσιν κυκώμενε,
†ἀναδευ δυσμενῶν† δ’ ἀλέξεο προσβαλὼν ἐναντίον
στέρνον †ἐνδοκοισιν ἐχθρῶν πλησίον κατασταθεὶς
ἀσφαλέως· καὶ μήτε νικέων ἀμφάδην ἀγάλλεο,
μηδὲ νικηθεὶς ἐν οἴκωι καταπεσὼν ὀδύρεο,
ἀλλὰ χαρτοῖσίν τε χαῖρε καὶ κακοῖσιν ἀσχάλα
μὴ λίην, γίνωσκε δ’ οἷος ῥυσμὸς ἀνθρώπους ἔχει.

Coração, coração, por lutos inelutáveis agitado,
levanta, protege-te dos oponentes, volvendo adverso
peito, nas emboscadas inimigas próximo postado
firme; e vencendo, não exultes abertamente,
nem vencido, em casa caído lamentes,
mas com alegrias alegra-te e deplora males,
sem excesso: aprende que ritmo rege a humanidade.

Trad. Rafael Brunhara


Uma primeira versão desta tradução, feita em Junho de 2008:

http://primeiros-escritos.blogspot.com/2008/07/arquloco.html

domingo, abril 28, 2019

O Epitáfio de Virgílio - Quatro traduções

Mantua me genuit, Calabri rapuere, tenet nunc
Parthenope; cecini pascua, rura, duces.

Mântua gerou-me,Calábria arrebatou-me; Ora tem-me
 Nápoles; Cantei pastagens, campos, líderes.
[Trad. Rafael Brunhara]


De origem Mantuana, a Calábria me adotou,
sou Napolitano agora, quando a morte me tomou .
Cantei pastos, cantei campos, cantei o herói Troiano,
em um verso lapidar, o ARMA VIRUMQUE CANO.

[Trad. Milton Marques Jr.]


De nascença mantuano,
De querença calabrês,
Eu morri napolitano
E que deixo pra vocês:
Canto o campo, o camponês,
E as vitórias do troiano.

[Trad. Fábio Paifer Cairolli]


Mântua gerou-me,
Calábria arrebatou-me,
Ora tem-me Nápoles.
Cantei pampas, campanhas e caudilhos.
[Trad. Rafael Brunhara]

Simônides, fragmento 257 Poltera [579 PMG]

ἐστί τις λόγος
τὰν Ἀρετὰν ναίειν δυσαμβάτοις ἐπὶ πέτραις,
†νῦν δέ μιν θοαν† χῶρον ἁγνὸν ἀμφέπειν·
οὐδὲ πάντων βλεφάροισι θνατῶν
ἔσοπτος, ὧι μὴ δακέθυμος ἱδρὼς
ἔνδοθεν μόληι,
ἵκηι τ' ἐς ἄκρον ἀνδρείας·

Uma história diz
Que Excelência mora em ínvios rochedos
[perto dos Deuses]* a velar por terra sacra:
Mas não aos olhos de todos os mortais
é visível, só para aquele que sua o suor
que morde o coração dentro do peito
e chega ao ápice da coragem:


* Adoto a sugestão de Poltera (2018, p.448) que propõe ἐγγὺς δὲ θεῶν como uma das muitas leituras possíveis para o verso corrompido em grego.

Referência

POLTERA, O. Simonides Lyricus. Testimonie und Fragmente. Basel: Schwabe. 2018. 

domingo, abril 14, 2019

Dois epitáfios (Simônides e Antologia Palatina)

Simônides, Epigrama XXXVII

πολλὰ πιὼν καὶ πολλὰ φαγὼν καὶ πολλὰ κάκ' εἰπὼν
ἀνθρώπους κεῖμαι Τιμοκρέων Ῥόδιος.

Depois de muito beber, muito comer e muito falar mal
das pessoas, aqui jazo, Timocreonte de Rodes.

Antologia Palatina, Livro VII, Epigrama 348

Βαιὰ φαγὼν καὶ βαιὰ πιὼν καὶ πολλὰ νοσήσας,
ὀψὲ μέν, ἀλλ᾿ ἔθανον. ἔρρετε πάντες ὁμοῦ.

Comendo pouco, bebendo pouco e adoecendo muito,
  tarde, enfim, morri. E danem-se todos vocês.

Tradução: Rafael Brunhara


Meleagro (Antologia Palatina, V.152) - Tradução de Juliana Pondian

vai, voa, Mosquito,
mensageiro ligeiro,
sopra-lhe zum-
zunindo no ouvido:

entrementes ela te espera
insone
dormes
só com o esquecimento

eia, voa; vai, Musamante, voa:
diz-lhe baixinho e não desperta a outra
para que o ciúme contra mim não mova.

se me trouxeres meu menino,
Mosquito: te faço, na face, leão
e nas mãos, te dou teu ferrão.

:::

Πταίης μοι, κώνωψ, ταχὺς ἄγγελος, οὔασι δ᾽ ἄκροις
Ζηνοφίλας ψαύσας προσψιθύριζε τάδε:

ἄγρυπνος

μίμνει σε: σὺ δ᾽, ὦ λήθαργε φιλούντων,
εὕδεις.

εἶα, πέτευ; ναί, φιλόμουσε, πέτευ:
ἥσυχα δὲ φθέγξαι, μὴ καὶ σύγκοιτον ἐγείρας
κινήσῃς ἐπ᾽ ἐμοὶ ζηλοτύπους ὀδύνας,
ἢν δ᾽ ἀγάγῃς τὴν παῖδα, δορᾷ στέψω σε λέοντος,
κώνωψ, καὶ δώσω χειρὶ φέρειν ῥόπαλον.

segunda-feira, março 25, 2019

Safo, fragmento 31 - Tradução de Adriano Aprigliano

Parece a mim aquele igual aos Deuses,
o homem que se senta a tua frente
e ouve-te de perto docemente
enquanto palavreias

e ris amavelmente, o que no peito
meu coração já faz que todo frema.
Pois, basta que te veja brevemente,
que voz não mais me venha.

É como se me arrebentasse a língua,
corresse fino fogo pele adentro,
co’ os olhos vejo nada e meus ouvidos
zunindo vão por dentro;

suor me cobre frio e tremedeira
me toma inteira, verde mais que relva
me acho, e de estar morta já bem perto
pareço-me a mim mesma.

Mas há que se enfrentar a tudo...

domingo, março 24, 2019

Medeia - Sophia de Mello Breyner Andresen e Ovídio (Metamorfoses, VII. 189-206)

Medeia
(adaptado de Ovídio)

Três vezes roda, três vezes inunda
Na água da fonte os seus cabelos leves,
Três vezes grita, três vezes se curva
E diz: "Noite fiel aos meus segredos,
Lua e astros que após o dia claro
Iluminais a sombra silenciosa,
Tripla Hecate que sempre me socorres
Guiando atenta o fio dos meus gestos,
Deuses dos bosques, deuses infernais
Que em mim penetre a vossa força, pois
Ajudada por vós posso fazer
Que os rios entre as margens espantadas
Voltem correndo até às suas fontes.
Posso espalhar a calma sobre os mares
Ou enchê-los de espuma e fundas ondas,
Posso chamar a mim os ventos, posso
Largá-los cavalgando nos espaços.
As palavras que digo e cada gesto
Que em redor do seu som no ar disponho
Torcem longínquas árvores e os homens
Despedaçam-se e morre no seu eco.
Posso encher de tormento os animais,
Fazer que a terra cante, que as montanhas
Tremam e que floresçam os penedos.

Fonte: Sophia de Mello Breyner Andresen. Obra Poética. Lisboa: Tinta da China, 2018.

Metamorfoses, Canto VII, versos 189-205

ter se convertit, ter sumptis flumine crinem
inroravit aquis ternisque ululatibus ora 
solvit et in dura submisso poplite terra
'Nox' ait 'arcanis fidissima, quaeque diurnis
aurea cum luna succeditis ignibus astra,
tuque, triceps Hecate, quae coeptis conscia nostris
adiutrixque venis cantusque artisque magorum,
quaeque magos, Tellus, pollentibus instruis herbis,
auraeque et venti montesque amnesque lacusque,
dique omnes nemorum, dique omnes noctis adeste,
quorum ope, cum volui, ripis mirantibus amnes
in fontes rediere suos, concussaque sisto, 
stantia concutio cantu freta, nubila pello
nubilaque induco, ventos abigoque vocoque,
vipereas rumpo verbis et carmine fauces,
vivaque saxa sua convulsaque robora terra
et silvas moveo iubeoque tremescere montis 
et mugire solum manesque exire sepulcris!

Trad. Domingos Lopes Dias (2017):

Medeia se voltou três vezes. Três vezes aspergiu o cabelo
com água colhida do rio. Soltou três imprecações.
E, ajoelhando na terra dura, clama:
"Ó noite amiga fiel dos mistérios; douradas estrelas
que, com a lua, sucedeis os raios do dia; 
e tu, Hécate de três cabeças, que, conhecedora dos meus intentos,
vens em meu auxílio, tu, mestra dos encantamentos e das artes mágicas;
terra, que aos magos propicias ervas eficazes;
brisas e ventos, montes, rios e lagos;
deuses todos da floresta; todos os deuses da noite, vinde!
Com vossa ajuda, quando assim o quis, tornaram à nascente os rios,
com espanto das margens. Com meus encantamentos
acalmo o mar encapelado e encrespo o mar calmo;
disperso as nuvens e volto a acumulá-las; disperso e convoco os ventos.
Com os meus conjuros e encantamentos anulo as fauces da víbora,
arranco ao solo e ponho em movimento a rocha viva,
o carvalho e a floresta; abalo as montanhas
e faço a terra rugir e os mortos surgir do sepulcro.

FONTE: Ovídio. Metamorfoses. Tradução, introdução e notas de Domingos Lopes Dias; Apresentação de João Angelo Oliva Neto. São Paulo: Editora 34, 2017. 





domingo, março 17, 2019

Entusiasmo - Cecília Meireles

Por uns caminhos extravagantes,
irei ao encontro desses amores
-- por que suspiro -- distantes.

Rejeito os vossos, que são de flores.
Eu quero as vagas, quero os espinhos
e as tempestades, senhores.

Sou de ciganos e de adivinhos.
Não me conformo com os circunstantes
e a cor dos vossos caminhos.

Ide com os zoilos e os sicofantes.
Mas respeitai vossos adversários,
que nem querem ser triunfantes.

Vou com sonâmbulos e corsários,
poetas, astrólogos e a torrente
dos mendigos perdulários.

E cantamos fantasticamente,
pelos caminhos extravagantes,
para Deus, nosso parente.

De Retrato Natural, in Flor de Poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. 

sexta-feira, março 15, 2019

Arquíloco - fr.51B./ fr.130W

Fragmento 51 (Edição de T.Bergk, Anthologia Lyrica, 1907)

τοῖς θεοῖς τίθειν ἁπάντα· πολλάκις μὲν ἐκ κακῶν
ἄνδρας ὀρθοῦσιν μελαίνηι κειμένους ἐπὶ χθονί,
πολλάκις δ' ἀνατρέπουσι καὶ μάλ' εὖ βεβηκότας
ὑπτίους, κείνοις <δ'> ἔπειτα πολλὰ γίνεται κακά,
καὶ βίου χρήμηι πλανᾶται καὶ νόου παρήορος.

Confia tudo aos deuses: muitas vezes dos males
erguem os homens sobre a terra negra prostrados;
e, muitas vezes, os que estão firmes eles viram
do avesso; então lhes vêm muitos males,
[o homem] vaga sem meios e fora de si.

[Trad. Rafael Brunhara]

Fragmento 130 (Edição de M.West, Elegi et Iambi Graeci I 1971)


τοῖς θεοῖς †τ' εἰθεῖάπαντα· πολλάκις μὲν ἐκ κακῶν
ἄνδρας ὀρθοῦσιν μελαίνηι κειμένους ἐπὶ χθονί,
πολλάκις δ' ἀνατρέπουσι καὶ μάλ' εὖ βεβηκότας
ὑπτίους, κείνοις <δ'> ἔπειτα πολλὰ γίνεται κακά,
καὶ βίου χρήμηι πλανᾶται καὶ νόου παρήορος.

Aos deuses tudo é reto: muitas vezes dos males
erguem os homens sobre a terra negra prostrados;
e, muitas vezes, os que estão firmes eles viram
do avesso; então lhes vêm muitos males,
[o homem] vaga sem meios e fora de si.

sexta-feira, março 08, 2019

Ressurgiremos

Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta

Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta

Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta

Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta

[Sophia de Mello Breyner Andresen in Obra Poética. Rio de Janeiro: Tinta da China, 2018)

quinta-feira, fevereiro 07, 2019

Ode a Cassandre - Ronsard (Três traduções)

Mignonne, allons voir si la rose
Qui ce matin avait déclose
Sa robe de pourpre au soleil,
A point perdu, cette vêprée,
Lés plis de sa robe pourprée,
Et son teint au vôtre pareil.

Las,voyez comme en peu d’espace
Mignonne, elle a dessus la place
Las, las, ses beautés laissé choir!
O vraiment marâtre Nature.
Puisqu’une telle fleur ne dure
Que du matin jusques au soir.

Donc, si vous me croyez,Mignonne,
‘ Tandis que votre âge fleuronne
En sa plus verte nouveauté,
Cueillez, cueillez votre jeunesse:
Comme à cette fleur, la vieillesse
Fera ternir votre beauté.


Trad. Andrei Cunha (2019)

Menina, vem ver se a rosa
Que abriu de manhã vaidosa
Ao sol seu vermelho vestido
Guardou numa tarde assim
As dobras da flor tão carmim
Como teu rosto – ou parecido.
Ai, Menina! olha que não!
Em pouco tempo, já está no chão.
Que madrasta essa Natureza,
Que da manhã até o sol se pôr
Não dure uma tão bela flor
E no chão acabe sua beleza.
Então, se me crês, ô Menina,
Enquanto tua tez não declina,
E inda verdes tens amores,
Colhe, e aproveita a meninice:
Pois como a rosa, a velhice
Fará murchar tuas flores.


A Cassandra - Trad. de Mário Laranjeira (2004)

Querida, vamos ver se a rosa,
Que esta manhã abriu garbosa
Ao sol seu purpúreo vestido,
Não perdeu, da tarde ao calor,
De sua roupa a rubra cor,
E o aspecto ao vosso parecido.

Ah! Vede como em curto espaço,
Querida, caiu em pedaços,
Ah! ah! A beleza que tinha!
Ó mesmo madrasta Natura,
Pois que uma flor assim não dura
Senão da manhã à tardinha!

Então, se me dais fé, querida,
Enquanto a idade está florida
Em seu mais viçoso verdor,
Colhei, colhei a mocidade:
A velhice, como a esta flor,
Fará murchar vossa beldade.

ODE A CASSANDRA - Trad. de R. Magalhães Jr. (1972)

Vem, amor, vem ver se a rosa
Que ontem, fresca e perfumosa
Se abriu ao sol estival,
Não perdeu o viço ainda
E conserva, rubra e linda,
Cor à de teu rosto igual.

Oh, amor! Vê quão depressa
Fenecendo, a rosa cessa
De ser bela e ser louçã!
Como é madrasta a Natura,
Pois que tal flor jamais dura
Do entardecer à manhã!

Meu conselho é, pois,amor,
Que, enquanto na vida em flor,
Encantos possam sobrar-te
Colhe, colhe a mocidade,
Pois como à rosa a idade
Da beleza há de privar-te.

Fontes:

LARANJEIRA, M. Poetas Franceses de Renascença. Seleção, apresentação e tradução de Mário Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
MAGALHÃES JR, R. (org.) O livro de ouro da poesia da França. Tradução de R. Magalhães Jr. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1972

terça-feira, fevereiro 05, 2019

Alceu, fragmento 130b (ed. Voigt)

ἀγνοι̣σ̣..σ̣βιότοις..ις ὀ τάλαις ἔγω
ζώω μοῖραν ἔχων ἀγροϊωτίκαν
ἰμέρρων ἀγόρας ἄκουσαι
⸏καρ̣υ̣[ζο]μένας ὦγεσιλαΐδα

αὶ β̣[ό]λ̣λ̣ας· τὰ πάτηρ καὶ πάτερος πάτηρ
κα..[.].ηρας ἔχοντες πεδὰ τωνδέων
τὼν [ἀ]λλαλοκάκων πολίτ̣αν
⸏ἔ.[..ἀ]πὺ τούτων ἀπελήλαμαι

φεύγων ἐσχατίαισ', ὠς δ' Ὀνυμακλέης
ἔ̣ν̣θα[δ'] ο̣ἶος ἐοίκησα λυκαιμίαις
.[ ]ον [π]ό̣λεμον· στάσιν γὰρ
⸏πρὸς κρ.[....].οὐκ ἄμεινον ὀννέλην·

.].[...].[..]. μακάρων ἐς τέμ[ε]νος θέων
ἐοι̣[.....].ε̣[.]αίνας ἐπίβαις χθόνος
χλι.[.].[.].[.]ν̣ συνόδοισί μ' αὔταις
⸏οἴκημ<μ>ι κ[ά]κων ἔκτος ἔχων πόδας,

ὄππαι Λ[εσβί]αδες κριννόμεναι φύαν
πώλεντ' ἐλκεσίπεπλοι, περὶ δὲ βρέμει
ἄχω θεσπεσία γυναίκων
⸏ἴρα[ς ὀ]λολύγας ἐνιαυσίας


[ ].[´̣].[.].ἀπ̣ὺ πόλλ̣ω̣ν .ότα δὴ θέοι
[ ].[ ´]σ̣κ̣...ν Ὀλ̣ύ̣μ̣πιοι

Puras...vidas...ó, pobre de mim,
vivo a sorte de um rústico,
desejando ouvir a convocação
da assembleia, ó Agesilaída

e do conselho. Coisas que meu pai e o pai do pai
tiveram até a velhice com esses
cidadãos que se entre-destroem,
delas eu fui banido

fugindo para os confins; como Onômacles,
aqui, sozinho, morei na toca dos lobos
(foragido?) da guerra. Pois sedição
contra...não é melhor (repelir?)

No santuário dos venturosos deuses
(vivi?), palmilhei a terra negra,
....em seus encontros...
Vivo bem longe dos problemas

onde as lésbias no julgamento da beleza
desfilam arrastando os vestidos, e em volta freme
o eco divino das mulheres,
o sagrado alarido das mulheres, ano a ano...

...longe de muitos um dia os deuses...
... Os olímpios...

[Tradução: Rafael Brunhara]

domingo, janeiro 20, 2019

Cláudio Manoel da Costa (1729-1789) - Soneto II

Leia a posteridade, ó pátrio Rio,
Em meus versos teu nome celebrado,
Porque vejas uma hora despertado
O sono vil do esquecimento frio.

Não vês nas tuas margens o sombrio,
Fresco assento de um álamo copado;
Não vês Ninfa cantar, pastar o gado,
Na tarde clara do calmoso estio.

Turvo, banhando as pálidas areias,
Nas porções do riquíssimo tesouro,
O vasto campo da ambição recreias.

Que de seus raios o Planeta louro
Enriquecendo o influxo em tuas veias
Quanto em chamas fecunda, brota em ouro.

sábado, janeiro 19, 2019

Heine em tradução - Gonçalves Dias, Manuel Bandeira, Mário de Andrade

Du schönes Fischermädchen
Treibe das Kahn ans land;
Komm zu mir und setze dich nieder,
Wir kosen, Hand in Hand.

Leg'an mein Herz dein Kopfchen
Und furcht dich nicht so sehr
Vertraust du dich doch sorglos
Täglich dem wilden Meer!

Mein Herz gleicht dem Meere,
Hat Sturm und Ebb und Flut,
Und mache schöne Perle
I seiner Tiefe ruht.

Tradução de Gonçalves Dias:

Vem, ó bela gondoleira!
Ferra a vela, - junto a mim
Te assenta...Quero as mãos dadas,
E conversemos assim.

Põe ao meu peito a cabeça.
Não tens de que recear.
Que sem temor, cada dia,
Te fias do crespo mar!

Minha alma semelha o pego,
Tem maré, tormenta e onda;
Mas finas pérolas encontra
Nos seus abismos a sonda.

Tradução de Manuel Bandeira:

Vem, linda peixeirinha,
Trégua aos anzóis e aos remos!
Senta-te aqui comigo,
Mãos dadas conversemos.

Inclina a cabecinha
E não temas assim:
Não te fias do oceano?
Pois fia-te de mim!

Minh'alma, como o oceano,
Tem tufões, correntezas,
E muitas lindas pérolas
Jazem nas profundezas.


Tradução de Mário de Andrade:

Peixeira linda,
do barco vem;
Senta a meu lado,
Chega-te bem.

Ouves meus peito?
Porque assustar!
Pois não te fias
Ao diário mar?

Como ele, eu tenho
Maré e tufão,
Mas fundas pérolas
No coração.