segunda-feira, dezembro 27, 2010

Encontro

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.

Está morto, que importa? Inda madrugada
e seu rosto,nem triste nem risonho,
é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga
suor algum, na calma de meu sonho.

Ó meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas

por um rio que corre o tempo inteiro,
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.

Carlos Drummond de Andrade,

Claro Enigma., 1951

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Simônides de Céos, fr. 579 P

Há um apólogo que diz
que Aretê habita em rochedos inacessíveis,
na companhia de um coro sagrado de céleres ninfas.
Porém não é visível aos olhos de todos os mortais,
- apenas ao daquele que, alagado de suor que devora o ânimo,
chegar ao cume, graças à sua coragem.

Tradução: Maria Helena da Rocha Pereira

Simônides de Céos fr.543 P

Quando
na arca lavrada
o vento soprando
e o mar encapelado
e o terror a abateu com faces não enxutas,
lançou os seus braços em volta de Perseu e disse: "Ó filho,

que aflição a minha!
Tu dormes, e com teu lácteo rosto
entregas-te ao sono neste madeiro sem deleite,
e na noite cravejada de pregos
brilhas estendido nas trevas escuras.
Da espuma profunda, sobre o teu cabelo,
ao passar da onda,
não curas, nem da voz do vento: deitado
no teu manto, belo é o teu rosto.
Se o que é terrível o fosse para ti,
às minhas palavras darias brandos ouvidos.
Mas eu te ordeno: dorme, filho, dorme, ó mar, dorme,
ó minha dor desmedida! Que uma mudança surja,

ó Zeus pai, vinda da tua parte!
Mas, por eu ter dito esta palavra ousada
e fora da justiça, eu te imploro, perdoa-me!"

Tradução: Maria Helena da Rocha Pereira.

Hino Homérico VIII: Ares

Ares muito forte, condutor da carruagem, de elmo áureo,
ânimo terrível, porta-escudo, salva-cidades, arnês-de-bronze,
braço forte, incansável, hábil-na-lança, muralha do Olimpo,
Pai de Vitória boa-na-guerra, ajudante de Justiça,
Tirano aos contrários, guia dos mais justos mortais,
porta-cetro da virilidade, que revolve o globo flamante
Etéreo nas constelações de sete estrelas, onde corcéis em chamas
eternamente acima da terceiro órbita mantêm-te;
Ouve, defensor dos mortais, dotador da juventude bem audaz,
Do alto do céu desce brilhando em fulgor para a nossa
vida e belicosa força, que eu seja capaz
de repelir malfazeja aflição de meu peito,
de vergar os enganosos impulsos da alma nas entranhas,
Detém também acerba cólera em meu coração, que me incita
a marchar em frias disputas: Mas tu, venturoso,
concede audácia para manter em leis propícias de paz
disperso do ardor pelo combate aos inimigos e da violência da Sina.

Tradução: Rafael Brunhara

domingo, dezembro 19, 2010

Passagem do ano

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles . . . e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.

A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Carlos Drummond de Andrade,
A rosa do povo, 1945.

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Hino Homérico XXVI: A Dioniso

De cabelos hederosos Dioniso mui clamoroso começo a cantar,
De Zeus e Sêmele mui gloriosa o esplêndido filho,
a ele nutriam ninfas de belos cabelos, do pai soberano
acolhendo-o em seus seios e solícitas criaram-no
nas grutas do Nisa:  ele crescia por paterna vontade
em olente antro, contabilizado entre os imortais
Mas depois que as Deusas o nutriram multi-hineado
aí então ele vagava por arbóreos vales
coberto de hera e louro; junto seguiam
as ninfas, ele lidera: frêmito toma a inefável selva.
Também assim, tu, salve, ó multicacheado Dioniso
dá-nos com alegria às estações ir uma vez
e das estações vir outra vez por muitos anos.

Tradução: Rafael Brunhara

Hino Homérico XXI: A Apolo

Febo se a ti até o cisne com canoras asas canta
ao monte lançando-se das margens do rodopiante rio
Peneu, também a ti o aedo portando a lira canora
de doce voz canta no princípio e no fim.
Também assim, tu, salve, soberano: propicio-te com o canto.

Tradução: Rafael Brunhara

Hino Homérico XXVIII: A Atena

Palas Atena ilustre Deusa começo a cantar,
a Glaucópida multiversátil que tem um coração sem doçuras;
virgem venerável protetora de cidades poderosa
Tritogênia, que o próprio Zeus próvido engendrou
de sua insigne cerviz, armas de guerra portando
áureas, omniluzentes. Vendo-a, reverência tomou
os imortais: diante de Zeus Egífero
impetuosamente irrompeu de sua imortal cabeça
brandindo pontiaguçado dardo: retumbou o vasto Olimpo
terrívelmente pela força da Glaucópida. A terra ao redor
temívelmente gritou, moveu-se então o alto mar
com purpúreas vagas agitado, conteve-se a água
de repente:  o esplêndido filho de Hipérion manteve
seus corcéis celerípedes até que a donzela
tomasse dos ombros imortais as deiformes armas,
Palas Atena! Alegrou-se Zeus próvido.
Também assim, tu, salve, filha de Zeus Egífero
Depois eu também te lembrarei em outro canto.

Tradução: Rafael Brunhara

terça-feira, dezembro 14, 2010

Hino Homérico XXXI: Ao Sol

Sol começa a cantar então, filha de Zeus, Musa
Calíope: o Resplandecente, que Eurýfaessa olhitáurea
engendrou para o filho de Terra e Céu constelado:
Pois Hipérion casou-se com Eurýfaessa mui ínclita,
a irmã, do mesmo ventre, que para ele engendrou bela prole:
Aurora dedirrósea, Lua de belas tranças
e Sol infatigável símil aos imortais
que reluz para mortais e imortais deuses,
a avançar com seus corcéis: temível ele observa com os olhos,
do áureo elmo;  brilhantes raios a partir dele
resplendem, cintilam, além das têmporas, e as faces
brilhantes, da cabeça grácil, retêm o rosto
longiluzente. Em volta do corpo reluz bela veste
de fino talhe no sopro dos ventos com machos corcéis
[...]
então permanece no carro de jugo áureo e os corcéis
conduz pelo céu até o Oceano.
Salve soberano benévolo concede vida que deleite meu coração:
por ti começando celebrarei a raça dos homens semideuses
de fala articulada, cujas obras Deuses aos mortais mostraram.

Tradução: Rafael Brunhara

Hino Homérico XXXII: À Lua

Mene amplivolante cantai em seguida, Musas
de voz doce filhas de Zeus Cronida  sabedoras da canção.
A partir dela resplendor visível do céu envolve a terra,
a partir de sua imortal cabeça, amplo adorno é visto com
lúcido resplendor e cintila o ar sem luz;
a partir da áurea coroa refletem-se os raios;
sempre depois de no Oceano banhar o belo corpo,
de os trajes vestir longiluzentes a Deusa Lua
e de jungir os potros resplendentes de arqueada cerviz
impetuosamente avançando toca os corcéis de linda melena
pelo anoitecer que divide o mês. Preenche-se a vasta órbita
e então seus raios crescentes iluminam e ao máximo brilham
no céu. Marca aos mortais e um sinal ela é.
Com ela uma vez Cronida uniu-se em amor e deitou-se
e engravidando-a donzela Pandeia gerou
tendo notável formosura  entre as Deusas imortais.
Salve soberana bracinívea Deusa Lua
benévola de belas tranças, por ti começando glórias
de mortais semideuses cantarei cujas obras celebram aedos
acólitos das Musas com seus deleitosos lábios.

Tradução: Rafael Brunhara

segunda-feira, dezembro 13, 2010

O medo

A Antonio Candido
"Porque há para todos nós um problema sério...
Este problema é do medo."
Antonio Candido,
Plataforma de uma geração.

Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:

carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.

E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.

Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.

Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno.
De nós, de vós; e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses.
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas

do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.

O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.

Tenhamos o maior pavor.
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos,
Nossos filhos tão felizes . . .
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Píndaro - Fragmentos

Hiporquemas

Fragmento 108

Quando um Deus aponta o início
de cada ação, reto então é
o caminho para obter virtude,
mais belo é o fim.

Fragmento 142

Um Deus é capaz de evocar
da negra noite a imaculada luz
E em sombria turva nuvem
ocultar o puro esplendor
do dia.


Fragmentos Incertos

Fragmento 150

Dá teu augúrio, Musa! Serei teu profeta.

Fragmento 159

De homens justos o tempo é o salvador supremo.

[Tradução Rafael Brunhara]

terça-feira, dezembro 07, 2010

Medeia vv. 1-52 - Duas traduções

 [Cena diante do palácio de Medeia, de onde sai a nutriz]

NUTRIZ

Argo, carena transvoante, não
cruzara o azul-cianuro das Simplégades,
rumo aos colcos! O talhe em pinho pélio
não produzira o remo dos heróis
condutores do velo pandourado
a Pélias: longe das ameias de Iolco,
Medeia ficaria, e eu com ela,
sem que eros, por Jasão, a transtornasse!
Nem Pélias jazeria pelas mãos
das filhas convencidas por quem sirvo,
nem ela viveria com os filhos
e o marido no exílio de Corinto,
sempre solícita com os daqui,
jamais em discordância com o cônjuge.
Se há concordância entre o casal, a paz
no lar é plena. O amor adoece agora,
instaura-se o conflito, pois Jasão
deitou-se com a filha de Creon.
Rebaixa a própria esposa e os descendentes.
Medeia amealha a messe da miséria,
soergue a destra, explode em jura, evoca
o testemunho dos divinos: eis
a paga de Jasão com o que lucra!
Seu corpo carpe, inane ela se prostra,
delonga o pranto grave assim que sabe
o quanto fora injustiçada. O olhar
sucumbe à terra, nada a faz erguê-lo,
feito escarcéu marinho, feito pedra,
discerne o vozerio amigo, exceto
quando regira o colo ensimesmado,
alvíssimo, em lamúrias pelo pai,
pelo país natal, que atraiçoou
por quem sem honra a tem agora. Aprende
o quanto custa renegar o sítio
natal. Ao ver os filhos, tolda o cenho
com desdém. Tremo só de imaginar
que trame novidades. Sua psique
circunspecta suporta mal a dor.
Conheço-a de longa data e não
descarto a hipótese de que apunhale
o fígado, depois que entrou sem voz,
rumo ao leito...ou será que mata o rei
e o marido, agravando o quadro mais?
Ela é terribilíssima. Ninguém
que a enfrente logra o louro facilmente.
Seus filhos chegam, finda a correria,
sem ter noção do que acomete a mãe,
pois tem horror à dor a mente em flor.


Tradução de Trajano Vieira
Fonte: Eurípides. Medeia. Tradução, posfácio e notas de Trajano Vieira. Comentário de Otto Maria Carpeaux. São Paulo: Editora 34, 2010.

NUTRIZ

Nunca a nau Argo, rumo a solo cólquido,
transvoasse as negras fragas das Simplégades!
Jamais nos pélios bosques decaísse
cortado pinho que virasse remo
em mãos de bravos que o pancríseo velo
deram a Pélias! Pois Medéia minha
dona às torres da terra de Iolco nunca
viria, por Jasão de amor turbada,
nem de Pélias as filhas suadiria
a matá-lo; aqui nunca viveria
com seu marido e filhos, agradando
êxule ao povo da coríntia terra,
ela em tudo concorde com Jasão.
A segurança torna-se suprema
quando mulher do esposo não disside.
Mas ora é tudo imigo, sofre o amor:
traiu seus filhos e a senhora minha
Jasão em núpcias régias foi deitar-se
co a filha de Creonte, o soberano.
Medéia, a miseranda, desonrada
evoca juramentos, clama a fé
empenhada: deidades chama testes
do que recebe de Jasão em troca.
Jaz inane. seu corpo entregue a dores,
esvaindo-se o tempo todo em lágrimas,
pós ouvir que seu homem a lesara.
Nem alça os olhos nem afasta o rosto
da terra e como pedra ou onda equórea
condescende aos conselhos dos amigos -
exceto quando vira o colo alvíssimo
e deplora consigo o caro pai,
a terra, a casa que traiu ao vir
com o varão que desonrada a tem.
Aprende a desgraçada, no desastre,
que deixar não se deve o solo pátrio.
Odeia aos filhos, não lhe apraz olhá-los.
Tremo que trame novidades, pois
o espírito tem grave e a dor não há
de suportar: eu a conheço e temo
que no fígado finque agudo gládio,
após entrar silente no aposento
ou que mate o tirano e o que se casa
e receba depois maior desdita.
Ela é terrível: quem seu inimigo
se tornar nao trará vitória fácil.
Mas eis que, findas as corridas, vêm
as crianças, incônscias das agruras
da mãe: sofrer não ama a mente nova.


Tradução de Flávio Ribeiro de Oliveira.
Fonte: Eurípides. Medeia. Tradução de Flávio Ribeiro de Oliveira. São Paulo: Odysseus, 2006.

Segredo

A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.

Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.

Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.

Carlos Drummond de Andrade

Amar-Amaro

por que amou por que amou
se sabia
p r o i b i d o p a s s e a r s e n t i m e n t o s
ternos ou desesperados
nesse museu do pardo indiferente
me diga: mas por que
amar sofrer talvez como se morre
de varíola voluntária vágula evidente?

ah PORQUE AMOU
e se queimou
todo por dentro por fora nos cantos nos ecos
lúgubres de você mesm (o, a)
irm(ã,o) retrato espéculo por que amou?

se era para
ou era por
como se entretanto todavia
toda via mas toda vida
é indagação do achado e aguda espostejação
da carne do conhecimento, ora veja

permita cavalheir(o,a)
amig(o,a) me releve
este malestar
cantarino escarninho piedoso
este querer consolar sem muita convicção
o que é inconsolável de ofício
a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima
a vida também
tudo também
mas o amor car (o,a) colega este não consola nunca de núncaras.

domingo, dezembro 05, 2010

Pastor Amoroso VIII

O pastor amoroso perdeu o cajado,
E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta,
E, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar.
Ninguém lhe apareceu ou desapareceu...Nunca mais encontrou o cajado.

Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas.
Ninguém o tinha amado, afinal.
Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo:
Os grandes vales cheios dos mesmos vários verdes de sempre,
As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento,
A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem,
E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor, uma liberdade no peito.

segunda-feira, outubro 18, 2010

Prometeu Prisioneiro, vv.1-87 - Quatro traduções

Tradução de Jaime Bruna

(A cena é o pico duma montanha deserta. Chegam Poder e Vigor, que trazem preso Prometeu; segue-os, coxeando, Hefesto, carregando correntes, cravos e malha.)

Poder. Eis-nos chegados a um solo longínquo da terra, caminho da Cítia, deserto ínvio. Hefesto, é mister te desincumbas das ordens enviadas por teu pai, acorrentando este celerado, com liames inquebráveis de cadeias de aço, aos rochedos de escarpas abruptas. Ele roubou uma flor que era tua, o brilho do fogo, vital em todas as artes, e deu-a de presente aos mortais; é preciso que pague aos deuses a pena desse crime, para aprender a acatar o poder real de Zeus e renunciar o mau vezo de querer bem à humanidade.

Hefesto. Poder e Vigor, a incumbência de Zeus para vós está terminada; nada mais vos embarga. Eu, porém, não me animo a agrilhoar à força um deus meu parente a um píncaro aberto às intempéries. Todavia, é imperioso criar essa coragem; é grave negligenciar as ordens de meu pai. Filho de Têmis bem avisada, cheio de ousados intentos, vou, mau grado meu, mau grado teu, prender-te com cravos de bronze impossíveis de arrancar a este penhasco deserto, onde não ouvirás a voz nem verás o vulto de nenhum mortal. Crestado pela chama ardente do sol, perderás o viço da pele; o manto matizado da noite, para teu gáudio, virá cobrir a luz, e o sol dissipará de novo as brumas da aurora, mas serás triturado pelo acabrunhamento da desgraça, presente sempre, porque ainda está para nascer o teu libertador. Eis o que te rendeu o vezo de querer bem à humanidade. Tu, um deus, não te encolheste de medo à cólera dos deuses e entregaste, com violação da justiça, as suas prerrogativas aos mortais; em paga, montarás guarda a este penhasco desprazível, de pé, sem dormir, sem dobrar os joelhos. Debalde exalarás gemidos e ais sem fim, porque inexorável é o coração de Zeus; todo poder recente é implacável.

Poder.
Basta! Para que te atardares em lástimas perdidas? Por que não abominas o deus mais odioso aos deuses, que entregou aos mortais um privilégio teu?
Hefesto. O parentesco e a amizade são forças formidáveis.
Poder. Concordo, mas como se podem transgredir as ordens do teu pai? Isso não te infunde medo?
Hefesto. Tu és sempre cruel e audacioso.
Poder. Lamentos não curam os seus males; não te canses à toa em lástimas ineficaves.
Hefesto. Oh! Que ofício detestável!
Poder Detestável por quê? Tua arte, francamente, culpa nenhuma tem nestas aflições.
Hefesto. Ainda assim, oxalá fosse ela o quinhão dalgum outro.
Poder. Todos os quinhões foram negociados, menos o de comandar os deuses; ninguém é livre, senão Zeus.
Hefesto. Bem sei. A isso não posso replicar.
Poder. Então, mãos à obra! Envolve-o nas cadeias; que teu pai não te aviste parado.
Hefesto. Ele pode ver-me com as correntes na mão.
Poder. Põe-lhe as cadeias em torno dos braços, martela com toda a força e prega-o na rocha.
Hefesto. O trabalho avança e sai a contento.
Poder. Bate mais forte, aperta, não deixes folga. ele é hábil em descobrir saídas até onde não existem.
Hefesto. Este braço está preso, de não se poder soltar.
Poder. Fixa também este solidamente, para ele aprender que sua astúcia não é tão ágil como a de Zeus.
Hefesto. Ninguém poderá reclamar com razão de meu trabalho, exceto ele.
Poder. Agora, finca-lhe firmemente no peito o dente duro duma cunha de aço.
Hefesto. Ai! Prometeu, gemo baixinho por teus sofrimentos.
Poder. Estás outra vez remanchando e lastimando um inimigo de Zeus? Cuidado, não venhas um dia a chorar por ti mesmo!
Hefesto. Não estás vendo um espetáculo triste de ver?
Poder. Eu o vejo receber o que merece. Vamos, passa-lhe um cinto em torno dos flancos.
Hefesto. Não posso evitar de fazê-lo. Não precisas exortar-me.
Poder. Pois não só te exortarei, mas até instarei contigo. Desce e mete-lhe à força umas grilhetas nas pernas.
Hefesto. Pronto. Não deu muito trabalho.
Poder. Crava-lhe agora fortemente umas peias penetrantes; quem fiscaliza a obra é rigoroso.
Hefesto. Tua linguagem afina-se com tua figura.
Poder. Sê brando tu, mas não censures minha rigidez e a crueza de minha índole.
Hefesto. Podemos ir. Seus membros já estão amarrados.
Poder (a Prometeu). Abusa, agora! Furta aos deuses seus privilégios para entregá-los aos seres efêmeros. Que alívio te podem dar deste suplício os mortais? Errados andaram os deuses em te chamarem Prometeu; tu mesmo precisas de alguém que te prometa um meio de safar-te destes hábeis liames! (Retiram-se Poder, Vigor e Hefesto).

Tradução: Jaa Torrano

Poder:
Chegamos a longínquo e limítrofe chão
da terra, sendeiro cita, imortal solidão.
Hefesto, incumbe-te cuidar da missão
que o Pai te impôs: nestas pedras
precípites, dominar este facínora,
com infrágeis peias de cadeias de aço.
Teu adorno, brilho de artificioso fogo,
ele furtou e outorgou aos mortais. Por
um erro tal, ele deve pagar aos Deuses,
para aprender a anuir à tirania de Zeus
e abster-se de ser amigos de humanos.

Hefesto:
Poder e Violência, as ordens de Zeus
vós cumpristes, e nada vos retém,
mas eu não ouso prender, com Violência,
congênere Deus a precipício tempestuoso.
Mas isto é de toda necessidade que ouse,
pois descuidar das palavras do Pai é grave.
Filho de abrupto pensar da Lei de reto conselho,
contra mim e contra ti, com insolúveis bronzes
agrilhôo-te neste penedo longe dos homens,
onde voz nem forma de nenhum mortal
verás, e tostado por fúlgido fulgor do Sol
trocarás a flor da pele. E para teu júbilo
a Noite de variáveis vestes cobrirá a luz.
O sol de manhã espalhará geada de novo.
Sempre o peso da presente miséria há de
esgotar-te, pois o libertador ainda não surgiu.
Tal é tua colheita da amizade por humanos.
Sem te esquivares à ira dos Deuses, Deus
outorgaste aos mortais honras além do justo,
pelas qais sem prazer vigiarás esta pedra,
de pé, insone e sem curvar os joelhos.
Muitos prantos e lamúrias inúteis
balbuciarás, inexorável o ânimo de Zeus.
Todo áspero é quem tem recente o poder.

Poder:
Eia! Por que demoras e lamurias em vão,
e não abominas ao Deus inimigo dos Deuses,
que entregou aos mortais o teu privilégio?

Hefesto:
Terrível é o vínculo fraterno e o convívio.

Poder:
Concordo. E não ouvir as palavras do Pai
é possível? não tens disso maior temor?

Hefesto:
Sempre sem dó e cheio de ousadia és tu.

Poder:
Remédio nenhum é lamuriá-lo. Não te
fadigues em vão a serviço de nada.

Hefesto:
Ó muitas vezes odiada perícia das mãos!

Poder:
Por que a abominas? Pois, a bem dizer,
a arte não é a causa dos presentes males.

Hefesto:
Todavia,outro devesse tê-la no sorteio.

Poder:
Só não há ônus em ser rei de Deuses,
pois ninguém é livre, além de Zeus.

Hefesto:
Estou ciente, e nada tenho a replicar.

Poder:
Apressa-te a lançar sobre ele cadeias,
para que o Pai não te veja em repouso.

Hefesto:
Podem-se ver já prontos estes freios.

Poder:
Põe em volta dos punhos com potente força,
bate com martelo e crava nas pedras.

Hefesto:
Conclui-se este trabalho, e não em vão.

Poder:
Bate mais forte, aperta, não afrouxes.
Ele sae achar saída até do inextricável.

Hefesto:
Está fixo este braço, sem que se solte.

Poder:
Agora prega o outro, irresvalável, que
sofista se perceba mais lerdo que Zeus.

Hefesto:
Exceto ele, ninguém me faria justa censura.

Poder:
Agora crava a mandíbula obstinada
da cunha de aço firme através do peito.

Hefesto:
Aiaî, Prometeu, gemo por tuas dores!

Poder:
Tu hesitas e choras por inimigos de Zeus?
Cuida que o teu pranto não seja por ti!

Hefesto:
Vês esta visão insuportável aos olhos.

Poder:
Vejo que este alcança o merecimento.
Eia! Põe a cilha ao redor dos flancos.

Hefesto:
Fazer isso é fatal, não mandes demais.

Poder:
Sim, quero mandar e açular a mais.
Desce e prende pernas com Violência.

Hefesto:
Está feito o trabalho sem longo esforço.

Poder:
Agora bate com ímpeto perfurantes peias,
pois o supervisor do trabalho é severo.

Hefesto:
Símil à tua forma soa a tua língua.

Poder:
Agora aí transgride, e privilégios de Deuses
rouba e dá aos efêmeros. Que alívio
destas dores podem os mortais te trazer?
Falso nome os Numes te dão de Prometeu
pois precisas tu mesmo de um Prometeu
com jeito que te desenrole deste artifício.


Tradução: Ramiz Galvão

A FORÇA - Aos términos da terra enfim chegamos,
à Cítia - inacessível soledade.
Das ordens de teu pai, Hefesto, cuida,
e o criminoso prende às escarpadas
rochas co'algemas de aço, que não quebrem;
pois deu aos homens a tua flor - o fogo
omnipresente, que furtara. Cumpre
que tal delito expie feito aos deuses,
pra que saiba acatar de Zeus a força,
e o sestro deixe de ajudar os homens.

HEFESTO - Força e Violência, está por vós cumprido
o mandado de Zeus e nada resta.
falta-me contudo o ânimo de atá-lo,
um deus parente, à rocha procelosa.
Todavia é forçoso que me atreva,
pois grave é descurar paternas ordens,
Ó filho pensador da sábia Têmis,
pregar-te-ei nesta rocha desabrida,
onde não vejas voz nem forma humana,
crestado pelo sol na viva chama,
a tez mimosa fanarás; ansioso
pela noite de estrelas recamada,
que a luz te robe aos olhos; desejando
o sol, que funde as geadas matutinas.
Do mal presente a dor curtirás sempre,
pois inda não nasceu quem te liberte.
De tanto amar os homens tens o fruto.
Nume, a col'ra dos numes afrontando,
por honrar aos mortais além do justo
guardarás o penhasco pavoroso,
de pé, insone, sem curvar o joelho,
a soltar crebros ais e vãos gemidos;
que Zeus se não aplaca facilmente.
Rigor é próprio de imperantes novos.

A FORÇA - Pois bem; porque a demora e vãos lamentos?
Porque o deus mais odiado pelos deuses
não detestas, se aos homens deu teu lume?

HEFESTO - Muito podem o sangue e a convivência.

A FORÇA - Sim; mas como do Pai furta-te às ordens?
Deste Delito mais não te arreceias?

HEFESTO - És sempre inexorável e audaciosa!

A FORÇA - Lástimas nada curam; não porfies
em dó inútil, que de nada serve.

HEFESTO - Ó quanto te aborreço, ingrato ofício!

A FORÇA - Porque execrá-lo? Tua arte, certamente,
dos males que ora vemos não foi causa.

HEFESTO - A qualquer outro a sorte o cometesse!

A FORÇA - Tudo aos numes foi dado exceto o mando;
Ninguém é, senão Zeus, independente.

HEFESTO - Sei disto, e para opor-lhe nada tenho.

A FORÇA - Porque, pois, não te apressas a encadeá-lo,
pra que o Pai te não veja titubeante ?

HEFESTO - Dos braços os anéis aqui'stão prontos.

A FORÇA - À obra! Os pulsos cinge-lhe e, com malho
vigoroso, na rocha prega-os ambos.

HEFESTO - 'Stá feito, e não é vão o meu trabalho.

A FORÇA - Bate mais rijo, aperta, não afrouxes;
que ao astuto não faltam expedientes.

HEFESTO - Um braço está bem preso.

A FORÇA - E outro agora
liga seguro, para que ele aprenda
que Zeus mais vale.

HEFESTO - Com razão, só ele,
ninguém mais, censurar-me poderia.

A FORÇA - Agora enterra-lhje, por sobre os peitos,
da cunha de aço os arrogantes dentes.

HEFESTO - Ai! Prometeu, teu padecer deploro.

A FORÇA - Hesitas outra vez? Os inimigos
de Zeus lastimas ? Oxalá que um dia
a ti próprio não venhas lastimar-te.

HEFESTO - Vês horrendo espetáculo!

A FORÇA - Sim, vejo-o
punido qual merece; mas as cintas
de aço lança-lhe em torno das costelas.

HEFESTO - Força é cumpri-lo, porém basta de ordens.

A FORÇA - Mandarei sempre, excitar-te-ei com gritos:
Pra baixo! As pernas co'os anéis constringe.

HEFESTO - Está feito, e o esforço não foi grande.

A FORÇA - Agora com vigor crava as algemas;
que é severo quem julga teu trabalho.

HEFESTO - É rude o teu falar como o teu senho.

A FORÇA - Fraco sê tu, mas minha pertinácia
e da índole a rudeza não me increpes.

HEFESTO - Partamos; tem os membros enleados.

A FORÇA - Ultraja agora, e furta o dom divino
para dá-lo aos mortais. De que te valem
os homens pra aliviar-te os sofrimentos?
Errado nome - Prometeu - te deram
os deuses, quando um Prometeu precisas
tu próprio para livrar-te destas malhas.

Tradução de Trajano Vieira

(Entram Hefesto, Poder e Força, conduzindo Prometeu)

PODER - Termina o mundo e chega a terra cita.
homem nenhum, deserto inacessível.
Deves cumprir à risca, Hefesto, o édito
paterno: aprisionar o criminoso
com fortes cabos de aço no rochedo
íngreme. Ele roubou a tua flor
- brilho ígneo, matriz de toda técnica -,
passou-o a mãos humanas. Tal afronta
aos imortais requer castigo duro.
Que aprenda a dar valor à voz de Zeus
e refreie seus gestos filantrópicos.

HEFESTO - Poder e Força, o que Zeus vos ordena
termina aqui, sem outro contratempo.
Pregar no precipício um deus parente
exige uma coragem que eu não tenho.
Mas como pôr em xeque o Necessário?
Desdém à voz paterna é falha grave.
Filho da sábia Têmis, mente audaz:
contra nós dois, o bronze indissolúvel
te imobiliza nno penedo inóspito,
de onde não vês nem voz nem cor humana.
O sol aceso troca a flor da pele
queimada. Para teu alívio, a noite
encobre o lume com seu manto rútilo.
Um novo sol dissipa logo a bruma
e o mesmo fardo desta agrura volta:
não vive ainda quem te dê alívio.
Eis o fruto dos gestos filantrópicos.
Um deus desteme a ira de outros deuses,
honrando além do justo o ser humano.
Por isso velas sobre a rocha odiosa,
de pé, desperto, com os joelhos retos.
Não surtirão efeito os teus lamentos;
o coração de Zeus, nada o comove:
é duro quem exerce poder novo.

PODER - Por que demoras com lamúrias vãs?
Afagas quem os deuses mais odeiam?
Quem deu para os mortais a tua insígnia?

HEFESTO - Convívio e parentesco me constrangem.

PODER - Certo. Mas desprezas as decisões
do pai não traz mais riscos? Não te aflige?

HEFESTO - Não cabe nunca dó em tua audácia.

PODER - Não há remédio no lamento. Evita
gastar inultimente tua energia.

HEFESTO - Como odeio a perícia dos meus dedos!

PODER - Rancor estranho. O mal que sobre ti
se abate tem a ver com tua arte?

HEFESTO - Que fosse entregue a outro esse dote!

PODER - Os deuses tudo provam, salvo o mando;
somente Zeus conhece o livre arbítrio.

HEFESTO - Bem sei. É irrefutável esse fato.

PODER - Sem mais delonga, abraça-o com amarras.
Que o pai não presencie o teu marasmo.

HEFESTO - Em minhas mãos já vês as rédeas prontas.

PODER - Com toda a força envolve bem os punhos;
bate o martelo, prende-o firme às pedras.

HEFESTO - Pronto. Não falta nada à minha obra.

PODER - Não deixes nada frouxo, vai!, mais forte;
ele desfaz o emaranhado cego.

HEFESTO - Este braço duvido que desate.

PODER - Então ao outro. A rapidez sofística 
- saiba - jamais alcançará o Cronida.

HEFESTO - Só ele poderia criticar-me.

PODER - No meio o seu peito encrava agora
o dente afiado desta cunha de aço.

HEFESTO - Ai, Prometeu, deploro a tua pena.

PODER - De novo hesitas? Choras o inimigo
de Zeus? Não caia sobre ti teu pranto;

HEFESTO - A cena que tu vês corrói a vista.

PODER - Não. Vejo-o recebendo o merecido.
Aperta mais a cinta em torno aos rins.

HEFESTO - Sei bem o meu papel; não me pressiones.

PODER - Minha voz tem o timbre de um açoite.
Embaixo! Cinge com vigor a coxa.

HEFESTO - Missão cumprida e sem maior fadiga.

PODER - Perfura os pés com arrebites!
Quem avalia teu labor é duro.

HEFESTO - Tua língua repercute em tua figura.

PODER - Frouxo, não venhas reprovar-me a fibra,
tampouco meu temperamento cáustico.

HEFESTO - Vamos! Não movimenta mais os membros.

PODER - Insulta agora do alto! Furta prêmios
divinos e transfere-os aos efêmeros!
Abrandam os mortais a tua pena?
Os numes se equivocam no teu nome:
Prometeu? Quem te fez a vã promessa
de desatar o nó que te tolheu?

quinta-feira, setembro 23, 2010

Xenófanes - Elegias

Fragmento 3 W

Discípulos dos Lídios em seu fausto sem sentido
(longe da odiosa tirania, ainda),
acorriam à ágora na gala de túnicas púrpuras,
- e a turba ultrapassava mil!, -
cheios de si, soberbos em melenas lindas,
exalando arômatas sutis

Fragmento 6 W

Pelo envio da coxa de um cabrito,
recebeste um pernil supimpa de touro pingue,
digno de eternas loas em todos os rincões
helenos, enquanto houver a raça dos aedos helênicos.

Fragmento 8 W

Há sete anos já mais uns sessenta,
divulgo o meu pensar em solo grego,
além de vinte e outros cinco, desde que vim ao mundo,
se posso ser exato nesse assunto...

Trajano Vieira

VIEIRA, T. Xenofanias - releitura de Xenófanes. Campinas: Editora da Unicamp; São Paulo: Imprensa oficial, 2006

domingo, setembro 19, 2010

Xenófanes, 2 W

Se alguém, com pés turbinados, colhesse os louros de Nike,
ou no pentatlo, onde se localiza o templo de Zeus
à beira-Pisa, rio olímpio, ou na luta,
ou na estressante peleja de boxe,
ou na selvagem disputa denominada pancrácio,
cairia nas graças da coletividade,
assinalado por todos na tribuna de honra,
levando alimento às custas do erário,
e o regalo do prêmio, verdadeiro tesouro.
Mesmo no hipismo, receberia o acima descrito,
sem o merecer como eu: músculos e eqüinos,
a força bruta, ficam aquém da minha filosofia!
Esse hábito extrapola o razoável! É justo
optar pela força em detrimento da boa sabedoria?
Um representante do povo campeão de boxe,
ás no pentatlo, ouro na pugna,
expedito na pista (modalidade mais honrosa que o uso
da força nos jogos), não garante à pólis um norte.
Fugaz sera o prazer da cidade
se um filho seu ganhasse na fímbria do Pisa.
Isso não sobe os silos da pólis.

Trajano Vieira

VIEIRA, T. Xenofanias - releitura de Xenófanes. Campinas: Editora da Unicamp; São Paulo: Imprensa oficial do Estado de São Paulo. 2006

sexta-feira, setembro 17, 2010

Xenófanes, Fragmento 7a

Testemunha casual do açoite de um cão,
reagiu, coração partido - é o que dizem:
Pára! Chega de tortura! Pertence a um amigo
seu espírito. Reconheci-o pelo timbre do grito.

Trajano Vieira

VIEIRA, T. Xenofanias - releituras de Xenófanes. - Campinas, SP: Editora da UNICAMP; São Paulo, SP: Imprensa oficial do Estado de São Paulo, 2006.

quinta-feira, setembro 16, 2010

Xenófanes, Fr. 1 W

Agora o solo se depura, as mãos todas, os cálices;
alguém eleva à fronte a trança da coroa;
um outro infunde bálsamo no púcaro;
a cratera, plena, rejubila-se;
ultimam um vinho diverso - sua falta é inadmissível! - ,
docimel, arômata floral nos jarros;
espira sacra incensa o meio;
água pura, água-dulçor, frescor de água;
pronto o louro pão; fartura de queijo e mel
à mesa engalanada;
pétalas antológicas enchem o altar central;
vozes musicais ocupam a morada em festa.
Iniciar hinos ao deus é prerrogativa de homens felizes,
com seus mitos de augúrio, linguagens de catarse.
Finda a libação e o clamor pelo justo proceder
- eis o que a tudo precede! -
beber já não agride, quando permita o torna-lar
sem amparo no escravo, se idade não pesa...
Digno de nota é quem, pós-beberagem, revela temas de nobreza,
o tônus da memória no que é meritório,
não em episódios de refregas titânicas, gigânteas,
centáureas, invencionices do passado,
ou nas revoltas sanguinárias. Que vantagem nos trazem?
Dádiva é manter a mente nas deidades.

Trajano Vieira.

Fonte: VIEIRA, T. Xenofanias: releituras de Xenófanes. Editora da Unicamp, São Paulo, SP: Imprensa oficial do estado de São paulo, 2006.

sexta-feira, setembro 03, 2010

Carmina Convivialia Fr.3

Outrora em Delos, Leto deu à luz
Febo, áurea-coma, senhor Apolo
E a Caçadora, fere-corças Ártemis,
Que entre as mulheres detém o poder.

Carmina Convivialia Fr.4

Ó Pan da Arcádia, defensor famoso
Dançarino de Brômio, companheiro
das Ninfas! Sorri, ó Pan, para mim
Canta em festas, alegre com a música!

Carmina Convivialia Fr.1

Palas Tritogênia, Senhora Atena,
Corrige essa cidade e os cidadãos,
Livra-nos de dores e sedições
E mortes precoces, tu e teu pai.

quarta-feira, julho 28, 2010

O que vale a minha vida? No fim (não sei que fim)
Um diz: ganhei trezentos contos,
Outro diz: tive três mil dias de glória,
Outro diz: estive bem com a minha consciência e isso é bastante...
E eu, se lá aparecerem e me perguntarem o que fiz,
Direi: olhei para as cousas e mais nada.
E por isso trago aqui o Universo dentro da algibeira.
E se Deus me perguntar: e o que viste tu nas cousas?
Respondo: apenas as cousas...Tu não puseste lá mais nada.
E Deus, que é da mesma opinião, fará de mim uma nova espécie de santo.

Alberto Caeiro, in: Poemas inconjuntos.

terça-feira, julho 13, 2010

Da Nékuia - Odisséia 11, 1-136 - Tradução de Haroldo de Campos

Foi assim que baixamos para a nau, mirando
o mar; antes, porém, lançamos o navio
ao sacro sal aquoso, o mastro e as velas todas
fazendo arborescer no barco escuro; então,
embarcamos carneiros e ovelhas. Subimos
a bordo, corações-cortados, todo-lágrimas.
Um vento enfuna-velas, favorável, ótimo
sócio, a deusa de belas tranças, poderosa,
claravoz, Circe, envia-nos, impulso à nau
de proa azul-cianuro. Após os faticosos
aprestos, nos sentamos, o piloto ao leme.
Transnavegamos, velas pandas, todo o dia.
O sol no ocaso, tudo escureceu: confins
do oceano fundo-fluente, povo e país cimérios,
circum-nevoentos, fosco-núveos, nunca o sol
radioso os afogueia, nem quando às estrelas
sobe, nem quando à terra baixa: noite lúgubre
sobre mortais sem sorte. Aproamos o navio
à costa; os animais foram trazidos para
fora, à praia; também nós, ao longo do oceano
fluescente, fomos todos seguindo, no afã
de conferir o sítio proferido por
Circe no seu aviso. Lá os dois, Perimedes
e Euríloco, aferraram as vítimas, eu
saquei da espada aguda, presa à minha coxa;
escavei uma fossa, um cúbito de lado,
vertendo libações para todos os mortos;
por primeiro, aquamel; depois o vinho doce;
água a terceira vez; alvíssima farinha
sobrespargi; roguei muito então às cabeças
vácuas dos mortos: a Ítaca tornando, estéril
novilha imolarei no paço, a melhor delas;
pira plena de dons, para Tirésias, só
para ele, todanegra, sineira, um ovelha.
Exconjurado assim o povo morto, as vítimas
dessangrei e na fossa negrejou o cruor.
Formas defuntas, psico-fantasmais, do Érebo,
moças e moços, multissofridos anciãos;
recém-morridas, tenras virgens que arrefecem;
muitos, bronzialanceados, caídos em combate,
de armas ensanguentadas; qual turba, ao redor
da fossa, inumeráveis, acorriam, daqui,
dali, em fragoroso tropel; um pavor
cloroso-pálido eis que me tomava todo.
Então aos companheiros conclamei: ovelhas,
que o bronze fero degolara, esfolem, grelhem-nas,
as carnes ofertando aos Sempiternos deuses,
ao forte Hades, à atroz Perséfone; do flanco
sacando a espada aguda, sentei-me impedindo
as vácuas testas de achegar-se ao sangue, enquanto
eu a Tirésias não tivesse ouvido. Veio
primeiro Elpénor, sombra-psiquê do finado
companheiro, insepulto ainda no ctônio chão
multívio seu cadáver, que no círceo paço
deixáramos sem pranto, sem jazigo, pois
outros afãs urgiam. Contristado ao vê-lo,
estas palavras-asas dirigi-lhe: "Elpénor,
como chegaste aqui sob o trevor nubloso?
A pé, ultrapassando minha nave negra?"
Tornou-me, suspiroso: "Odisseu Laercíade,
demonizou-me - ó multiastuto - o fado adverso;
fez-me dormir o vinho na mansão de Circe;
descuidei-me da volta, de baixar ao longo
das escadas; do topo caí, partindo a nuca,
as vértebras, desceu-me a ânima ao Hades!
Agora, pelos teus que na pátria ficaram;
por tua esposa; por teu pai que te nutriu;
por Telêmaco, só no teu solar, imploro
(pois sei que ao deixar este reino fosco irás
com tua nau bem-torneada rumo à ínsula Eéa)
que de mim não te olvides (lá chegando), ó rei!
Não fique eu para trás, sem pranto, sem jazigo,
ao léu enquanto a nau navega para longe;
não chames sobre ti a cólera dos deuses.
Ao fogo os meus despojos, armas, o que é meu.
Ergue-me a tumba às orlas da grisalha escuma:
Um homem sem fortuna, no futuro um nome,
e planta nela o remo que entre os meus vibrei."
Falou. De minha parte, respondi-lhe: "Elpénor,
ó sem ventura, tudo que rogas farei
e perfarei por ti." Sentados conversamos
nesse tom, tristemente; eu, gládio em guarda ao sangue
de um lado; ele, do lado oposto, discorrendo,
o ícone dele, e a fossa aberta entre nós ambos.
Veio a seguir a sombra-mãe, psiquê da Autólica
augusta Anticléia, mãe que eu deixara com vida,
vindo à Tróia. Chorei lágrimas consternadas.
Nem assim, mesmo aflito, permiti-lhe o acesso
à sanguinosa fossa, antes de vir Tirésias.
Veio, por fim, a sombra-psiquê do tebano
Tirésias, cetro-de-ouro. Conheceu-me e disse:
"Odisseu Laercíade, multiastucioso,
ó sem-ventura, por que vieste, de Hélios-Sol
fugindo à luz, aos mortos e à sua atroz necrópole?
Afasta dessa fossa o gládio agudo, que eu,
bebendo o sangue, coisas veras te direi."
Falou. Eu me arredei, remetendo à bainha
a argênteo-cravejada espada. De anegrado
sangue saciado, o imáculo adivinho, então,
proferiu seu prognóstico: "Odisseu glorioso,
buscas o mel-delícia do retorno; um deus,
ao invés, se empenhará em dar-te o fel difícil:
ao Tremeterra não creio que escapes; de ânimo
iroso, não esquece que o filho dileto
lhe cegaste. Sofrendo coisas ruins embora,
poderás regressar ainda, caso teu íntimo
domes e o dos teus homens. Ao aproar a nau
à ilha Tridêntea, após vencer o mar violeta,
as novilhas verás pastando e as bem-fornidas
ovelhas de Hélios-Sol, o deus onividente,
o oniescutante. Caso as deixes em paz, fixo
no regresso, intocadas, voltarás embora
sofrendo coisas ruins. Se lhes fizeres dano,
a ti, aos teus, à nau eu predigo infortúnio.
Mesmo que escapes, mesmo assim, só muito tarde
voltarás, velho, sobre nau alheia, sem
companheiros. Em casa, amargura: filáucia
de príncipes, comendo tua comida, todos
assediando tua esposa quase-deusa, dando-lhe
dons de bodas. De volta, tu lhes punirás
os malfeitos. Da astúcia oblíqua ou do fio nu
do bronze mortos todos os rivais, irás
com teu remo até onde um povo nada saiba
do mar, nem coma sal, nem tenha visto nunca
naves púrpuro-cavas, nem os remos-asas
das naus. Dou-te um sinal claro, uma senha-guia:
quando um outro viajor, contigo se cruzando,
disser que sobre a espádua resplendente levas
um joeirador de grãos, então finca na terra
o remo bem-lavrado, sacrifica ao rei
Posêidon um carneiro e um touro, e um javali
garanhão de javardas; volta à casa e oferta
hecatombes aos numes do urânio-céu, todos,
segundo a ordem prescrita. Do talásseo mar,
então, te provirá a morte, a mais doce, tal
que te colha avançado na idade, cercado
de um povo feliz. É o que eu falo e é verdade."


Tradução de Haroldo de Campos

Fonte: Revista de Estudos Clássicos - Phaos nº1

quarta-feira, julho 07, 2010

Semônides de Amorgos Fr. 1

O que mais belo disse o homem de Quios,
"Os homens passam como as folhas passam",
muito poucos mortais, de quantos o ouvem,
o imprimem n'alma. Agita-os a esperança,
que dos moços no peito sempre viça.
Ao que orna a flor gentil da juventude,
o ânimo inconsequente muitos sonhos
nutre impossíveis. Nem sequer lhe ocorre
que há de um dia morrer, tornar-se velho
ou ferí-lo a doença. Loucos, esses!
Não veem quão breve a quadra e curta a vida!
Mas tu que sabes estas cousas, a alma
com virtudes dispõe para a velhice.

Tradução de Aluízio Faria de Coimbra, Os Elegíacos Gregos: De Calino a Crates, vol.1, São Paulo, 1941.

Macbeth, Ato I, Cena 1 - Tradução de Manuel Bandeira

(Thunder and lightning. Enter three Witches)

FIRST WITCH
When shall we three meet again?
In thunder, lightning, or in rain?

SECOND WITCH

When the hurly-burly's done,
When the battle's lost, and won.

THIRD WITCH
That will be ere the set of sun.

FIRST WITCH
Where the place?

SECOND WITCH
Upon the heath.

THIRD WITCH
There to meet with Macbeth.

FIRST WITCH

I come, Graymalkin.

SECOND WITCH

Paddock calls.

THIRD WITCH

Anon.

ALL
Fair is foul, and foul is fair,
Hover through the fog and filthy air.
***

(Relâmpagos e trovões. Entram as Três Bruxas)

1ºBRUXA
Quando novamente as três nos juntamos
No meio dos raios e trovões que amamos?

2ºBRUXA
Quando terminada esta barulhada,
Depois da batalha perdida e ganhada.

3ºBRUXA
Antes de cair a noite

1ºBRUXA
Em que lugar?

2ºBRUXA

Na charneca.

3ºBRUXA
Ali vamos encontrar
com Macbeth.

1ºBRUXA

Irmãs, o Gato nos chama!

2ºBRUXA

O sapo reclama!

3ºBRUXA
Já vamos! Já vamos!

TODAS.
O Bem, o Mal,
- É tudo igual.
Depressa, na névoa, no ar sujo sumamos!

segunda-feira, abril 12, 2010

Íon de Eurípides, vv. 82-93

ἅρματα μὲν τάδε λαμπρὰ τεθρίππων
Ἥλιος ἤδη λάμπει κατὰ γῆν,
ἄστρα δὲ φεύγει πυρὶ τῷδ᾽ αἰθέρος
ἐς νύχθ᾽ ἱεράν:
Παρνησιάδες δ᾽ ἄβατοι κορυφαὶ
καταλαμπόμεναι τὴν ἡμερίαν
ἁψῖδα βροτοῖσι δέχονται.
σμύρνης δ᾽ ἀνύδρου καπνὸς εἰς ὀρόφους
Φοίβου πέταται.
θάσσει δὲ γυνὴ τρίποδα ζάθεον
Δελφίς, ἀείδουσ᾽ Ἕλλησι βοάς,
ἃς ἂν Ἀπόλλων κελαδήσῃ.

Estas as brilhantes quadrigas;
o Sol já brilha sobre a terra
e os astros fogem do flâmeo éter
para a noite sagrada.
Os cimos não trilhados do Parnaso,
iluminados, acolhem para os mortais
o disco do dia:
fumo de mirra seca se evola
aos telhados de Febo.
a délfica senta-se na mui divina trípode
e entoa aos gregos
os brados que Apolo ecoar.

(Tradução de Rafael Brunhara)

domingo, março 21, 2010

Antologia Grega, V, 73 (Rufino)

Te mando, Rodoklea, esta coroa de lindas flores
Que eu mesmo trancei com minhas mãos.
Há o lírio, a rosa, o cálice, a orvalhada anêmona
o tenro narciso e a violeta de brilho escuro.
Quando se coroar com elas, deixa de ser orgulhosa:
Fenece a rosa, a coroa, e você também.

(Tradução de Rafael Brunhara)

sábado, março 20, 2010

Hino a Hécate (Teogonia, vv.404-452)

Febe entrou no amoroso leito de Coios
e fecundou a Deusa o Deus em amor,
ela gerou Leto de negro véu, a sempre doce,
boa aos homens e aos Deuses imortais,
doce dês o começo, a mais suave no Olimpo.
Gerou Astéria de propício nome, que Perses
conduziu um dia a seu palácio e desposou,
e fecundada pariu Hécate a quem mais
Zeus Cronida honrou e concedeu esplêndidos dons,
ter parte na terra e no mar infecundo.
Ela também do Céu constelado partilhou a honra
e é muito honrada entre os Deuses imortais.
Hoje ainda, se algum homem sobre a terra
com belos sacrifícios conforme os ritos propicia
e invoca Hécate, muita honra o acompanha
facilmente, a quem a Deusa propensa acolhe a prece;
De quantos nasceram da Terra e do Céu
e receberam honra, de todos obteve um lote;
nem o Cronida violou nem a despojou
do que recebeu entre os antigos Deuses Titãs,
e ela tem como primeiro no começo houve a partilha.
Nem porque filha única menos partilhou de honra
e de privilégio na terra e no céu e no mar
mas ainda mais, porque honra-a Zeus.
A quem quer, grandemente dá auxílio e ajuda,
no tribunal senta-se junto aos reis venerandos,
na assembléia entre o povo distingue a quem quer,
e quando se armam para o combate homicida
os homens, aí a Deusa assiste a quem quer
e propícia concede vitória e oferece-lhe glória.
Diligente quando os homens lutam nos jogos
aí também a Deusa lhe dá auxílio e ajuda,
e vencendo pela força e vigor, leva belo prêmio
facilmente, com alegria, e aos pais dá a glória.
Diligente entre os cavaleiros assiste a quem quer,
e aos que lavram o mar de ínvios caminhos
e suplicam a Hécate e ao troante Treme-terra,
fácil a gloriosa Deusa concede muita pesca
ou surge e arranca-a, se o quer no seu ânimo.
Diligente no estábulo com Hermes aumenta
o rebanho de bois e a larga tropa de cabras
e a de ovelhas lanosas, se o quer no seu ânimo,
de pouco avoluma-os e de muitos faz menores.
Assim, apesar de ser a única filha de sua mãe,
entre imortais é honrada com todos os privilégios.
O Cronida a fez nutriz de jovens que depois dela
com os olhos viram a luz da multividente Aurora.
Assim dês o começo é nutriz de jovens e estas as honras.

Tradução de Jaa Torrano

Fonte: Teogonia, a origem dos Deuses. São Paulo: Iluminuras, 2006.

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Uma Mulher

Ela estava no círculo familiar como as outras,
Folheando um livro de gravuras:
A noite nos cercava com seus abismos azuis
E a idéia de quase uma floresta próxima.

Alguém acendeu um candeeiro de petróleo,
As pessoas presentes recuaram no tempo.
Ela se levantou para abrir uma vidraça,
E muito branca, toda vestida de preto,
Seus movimentos ao mesmo tempo lentos e velozes,
Fizeram nascer
Fizeram nascer um começo de dançarina ou de gaivota,
Hélices mexendo, mãos a correr no teclado.
Quando sentou-se era outra vez a mulher.

Murilo Mendes

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Um Escólio

Ao fim de vinte anos de trabalhos e de estranha aventura, Ulisses filho de Laertes retorna a sua Ítaca. Com a espada de ferro e o arco executa a devida vingança. Atônita até o medo, Penélope não se atreve a reconhecê-lo e alude, para testá-lo, a um segredo que os dois compartilham, e apenas os dois: o de seu tálamo comum, que nenhum dos mortais pode mover, porque a oliveira com que foi lavrado o ata à terra. Esta é a história que se lê no livro vigésimo terceiro da Odisséia.

Homero não ignorava que as coisas devem ser ditas de maneira indireta. Tampouco o ignoravam seus gregos, cuja linguagem natural era o mito. A fábula do tálamo que é uma árvore é uma espécie de metáfora. A rainha soube que o desconhecido era o rei quando se viu em seus olhos, quando sentiu em seu amor que a encontrava o amor de Ulisses.

Jorge Luís Borges
Tradução: Josely Vianna Baptista
Fonte: BORGES, J.L. História da Noite in: Obra completa Volume 3 São Paulo: Globo, 1996.

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Poema do beco

Que me importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco

M.Bandeira

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Safo 137 L-P

quero dizer-te uma coisa, mas me tolhe
o pudor [

...

fosse, o teu, um desejo por algo nobre e bom
não te estalassem na língua umas palavras feias,
nenhum pudor velaria os teus olhos
[e o que é certo tu dirias]

Tradução: Joaquim Brasil Fontes

Fonte: FONTES, J.B. Eros, tecelão de mitos. São Paulo: Iluminuras. 2002.

domingo, fevereiro 07, 2010

Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém
ninguém sabe, nem saberá.

Carlos Drummond de Andrade

O amor bate na aorta

Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.
Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Sherlock Holmes

Não saiu de uma mãe nem soube de ascendentes.
De Adão e de Quijano o caso é igual, decerto.
Está feito de acaso. Imediato ou ao perto,
regem-no os vaivéns de leitores diferentes.

Não é um erro pensar que nasce no momento
em que o vê aquele outro que dirá sua história
e que perece a cada eclipse da memória
de nós que o sonhamos. É mais oco que o vento.

Casto, nada sabe do amor. Foi seu intento.
Esse homem tão viril renunciou à arte
de amar. Em Baker Street vive sozinho e à parte.
Também é alheio a essa outra arte, o esquecimento.

Sonhou-o um irlandês, que não lhe teve afeto
e tentou matá-lo, ao que parece. Em vão.
Vai prosseguindo o homem só, lupa na mão,
sua estranha sorte instável de algo incompleto.

Não cultiva amizades, no entanto abençoa
a devoção ao outro, que foi seu evangelista
e que de seus milagres consignou a lista.
Vive de modo cômodo: em terceira pessoa.

Não vai mais ao banheiro. Tampouco visitava
esse retiro Hamlet, morto na Dinamarca
sem saber quase nada sobre essa comarca
da espada e do mar, do arco e da aljava.

(Omnia sunt plena Jovis. Do mesmo modo, à vera,
diremos desse justo que nome dá aos versos
que sua inconstante sombra percorre os diversos
domínios em que foi parcelada a esfera.)

Atiça na lareira as abrasadas ramas
ou extermina nos páramos um desses cães do inferno.
Esse alto cavalheiro não sabe que é eterno.
Resolve ninharias e repete epigramas.

Chega-nos de uma Londres de gás e de neblina,
da Londres que se sabe capital de um império
que pouco lhe interessa, a Londres de mistério
tranquilo, que não quer perceber que já declina.

Não nos maravilhemos. Depois da agonia,
o fado ou o acaso (que são a mesma coisa)
depara a cada um essa sorte curiosa
de ser ecos ou formas que morrem dia a dia.

Que morrem até um dia final em que o olvido,
que é a meta comum, esqueça-nos de todo.
Antes que nos alcance, brinquemos com o lodo
de ser durante um tempo, de ser e de ter sido.

Dos bons costumes que nos restam um é pensar
tarde após tarde em Sherlock Holmes. A morte
e a sesta são outros. Também é nossa sorte
convalescer em um jardim ou a lua contemplar.

Jorge Luis Borges


Tradução: Josely Vianna Baptista
Fonte: BORGES, J.L. Jorge Luis Borges, Obras Completas, volume 3. São Paulo: Globo, 1999.

terça-feira, janeiro 26, 2010

Safo: fragmento 2 L-P

Vem de Creta até este puro santuário,
onde há para ti um querido bosque
de macieiras, altares que se acen-
-dem com incensos:

Lá águas frescas murmuram através de ramos
de macieiras, sombreia-se com rosas
todo o solo, e de trementes folhagens
derrama-se um feitiço: o sono.

Lá viceja um prado, pasto de corcéis,
com flores de primavera, e os ventos
sopram docemente:

Aqui, Cípris, tu conquistaste
néctar mesclado a festividades
vertendo-o com delicadeza
em nossos dourados cálices.


Outras fontes do fragmento
:

Hermógenes, As formas do estilo, 2.34:


"E (sc. sobre os prazeres) pode-se descrever com simplicidade aqueles que não são torpes, como a beleza de uma região, plantas diversas, a variedade dos rios e tantas outras coisas. É que estes incutem prazer aos olhos, ao serem vistos, e aos ouvidos, quando alguém os anuncia, como fez Safo:
“ à sua volta, águas frescas murmuram através de ramos de macieiras”, e “das trementes folhagens derrama-se um feitiço: o sono”. e o que mais é dito antes desses versos e depois.

Ateneu, o Banquete dos eruditos:

E segundo a bela Safo:

“Vem, Cípris,
Vertendo com delicadeza
Em nossos dourados cálices
Néctar mesclado a festividades”


Aos meus e aos teus companheiros
.


(Tradução de Rafael Brunhara)

Sólon: Fragmentos

9 W

Da nuvem vem a fúria da neve e do granizo
e o trovão nasce do raio fulgurante;
por causa de homens poderosos a cidade perece
e o povo em sua ignorância cai na escravidão de um só governante.
Quando um homem se elevou muito, não é fácil contê-lo depois;
mas agora é preciso considerar tudo isso.


10 W


Breve tempo mostrará aos cidadãos a minha loucura,
mostrará, quando a verdade vier a público.

12 W

Pelos ventos o mar é perturbado; se nenhum (vento) o agita
é a mais justa de todas as coisas.

14 W

Não, homem algum é feliz: miseráveis
são todos os mortais que o sol contempla.

16 W

É muito difícil conhecer a medida oculta da sabedoria,
ela, a única que tem o fim de todas as coisas.

17 W

De todos os lados, a mente dos imortais é oculta aos homens.

22a W

Dize por mim a Crítias de ruivos cabelos que ouça o seu pai,
pois não obedecerá um guia de mente errada.

23 W

Feliz quem possui filhos queridos, cavalos de casco não partido,
cães de caça e um hóspede estrangeiro.

25 W

Até a amável flor da juventude amarás um rapaz,
desejando suas coxas e sua doce boca.


Tradução: Gilda N.M. de Barros

segunda-feira, janeiro 18, 2010

O Malvindo

Vive dando cabeçada.
Navegou mares errados,
perdeu tudo que não tinha,
amou a mulher difícil,
ama torto cada vez
e ama sempre, desfalcado,
com o punhal atravessado
na garganta ensandecida
Este, o triste cavaleiro
de tristíssima figura
que nem mesmo teve a graça
de estar ao lado de Alonso
e poder narrar eventos
nos quais entrou de mau jeito
mas com sabor de epopéia.
Nada a fazer com este tipo
avesso a qualquer romança
ou ode, apenas terráqueo,
ou nem isso, extraterráqueo,
de quem não se ouve um grito,
mais além do que gemido,
nem uma palavra lúcida
varando o cerne das coisas
que esperam ser reveladas
e nós todos pressentimos.
Inútil corpo, alma inútil
se não transfunde alegria
e esperança de renovo
no universo fatigado
em que repousa e não ousa.
Sua ficha - foi rasgada,
por ausência de sinais.
Seu nome - por que sabê-lo?
E sua vida completa
já nem é vida, é jamais.

Carlos Drummond de Andrade, Farewell

A um ausente

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos da obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
da nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

Carlos Drummond de Andrade, in: Farewell.

domingo, janeiro 17, 2010

Teognideia, 1319-1328, 1335-1336

1319-1322

Menino, já que a Cípris te dá ardente graça,
que teu porte aos moços todos concerne,
ouve estes versos e põe no coração minha graça,
ciente do quão árduo é ao homem suportar o amor.


1323-1326

Ciprogênia, cessa-me os suplícios, dissipa-me anseios
que devoram o coração, volta-me para a alegria:
cessa os maus cuidados, dá ao meu coração alegre,
findado o apogeu da juventude, atos de prudência.


1327-1328

Menino, enquanto tiveres queixo implume, nunca deixarei
de cortejá-lo, inda que morrer seja meu destino.


1335-1336


Feliz, quem ama se exercitar e quando vai
p’ra casa, dorme o dia todo com um belo menino


(Tradução de Rafael Brunhara)

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Velas

Os dias do futuro erguem-se diante de nós
como uma série de pequenas velas acesas -
pequenas velas douradas, quentes e vivas.

Os dias passados ficam atrás,
uma triste fileira de velas apagadas;
as mais próximas ainda exalam fumaça,
velas frias, derretidas e recurvadas.

Não quero vê-las; entristece-me seu aspecto,
e entristece-me lembrar seu primeiro clarão.
Adiante contemplo minhas velas acesas.

Não quero voltar-me para não ver, apavorado,
com que rapidez a sombria fileira se alonga,
com que rapidez se multiplicam as velas apagadas!

Konstantinos Kaváfis

Tradução de Ísis B. da Fonseca

domingo, janeiro 10, 2010

Goethe: Prometheus

Bedecke deinen Himmel, Zeus,
Mit Wolkendunst
Und übe, dem Knaben gleich,
Der Disteln köpft,
An Eichen dich und Bergeshöhn:
Musst mir meine Erde
Doch lassen stehn
Und meine Hütte, die du nicht gebaut,
Und meinen Herd,
Um dessen Glut
Du mich beneidest.

Ich kenne nichts Ärmeres
Unter der Sonn ais euch, Götter!
Ihr nähret kümmerlich
Von Opfersteuern
Und Gebetshauch
Eure Majestät
Und darbtet, wären
Nicht Kinder und Bettler
Hoffnungsvolle Toren.

Da ich ein Kind war,
Nicht wusste, wo aus noch ein,
Kehrt ich mein verirrtes
Auge Zur Sonne, ais wenn drüber wär
Ein Ohr, zu hören meine Klage,
Ein Herz wie meins,
Sich des Bedrängten zu erbarmen.

Wer half mir
Wider der Titanen Übermut?
Wer rettete vom Tode mich,
Von Sklaverei?
Hast du nicht alies selbst vollendet,
Heilig glühend Herz?
Und glühtest, jung und gut,
Betrogen, Rettungsdank
Dem Schlafenden da droben? .

Ich dich ehren? Wofür?
Hast du die Schmerzen gelindert
Je des Beladenen?
Hast du die Tränen gestillet
Je des Geängsteten?
Hat nicht mich zuni Manne geschmiedet
Die allmächtige Zeit
Und das ewige Schicksal,
Meine Herrn und deine?

Wähntest du etwa,
Ich sollte das Leben hasse,
In Wüsten fliehen,
Weil nicht alie Blütenträume reiften?

Hier sitz ich, forme Menschen
Nach meinem Bilde,
Ein Geschlecht, das mir gleich sei:
Zu leiden, zu weinen,
Zu geniessen und zu freuen sich,
Und dein nicht zu achten,
Wie ich!



Encobre o teu céu, ó Zeus,
Com vapores de nuvens,
E, qual menino que decepa
A flor dos cardos,
Exercita-te em robles e cristas de montes;
Mas a minha Terra
Hás-de-ma deixar,
E a minha cabana, que não construíste,
E o meu lar,
Cujo braseiro
Me invejas.

Nada mais pobre conheço
Sob o sol do que vós, ó Deuses!
Mesquinhamente nutris
De tributos de sacrifícios
E hálitos de preces
A vossa majestade;
E morreríeis de fome, se não fossem
Crianças e mendigos
Loucos cheios de esperança.

Quando era menino e não sabia
Pra onde havia de virar-me,
Voltava os olhos desgarrados
Para o sol, como se lá houvesse
Ouvido pra o meu queixume,
Coração como o meu
Que se compadecesse da minha angústia.

Quem me ajudou
Contra a insolência dos Titãs?
Quem me livrou da morte,
Da escravidão?
Pois não foste tu que tudo acabaste,
Meu coração em fogo sagrado?
E jovem e bom — enganado —
Ardias ao Deus que lá no céu dormia
Tuas graças de salvação?!

Eu venerar-te? E por quê?
Suavizaste tu jamais as dores
Do oprimido?
Enxugaste jamais as lágrimas
Do angustiado?
Pois não me forjaram Homem
O Tempo todo-poderoso
E o Destino eterno,
Meus senhores e teus?

Pensavas tu talvez
Que eu havia de odiar a Vida
E fugir para os desertos,
Lá porque nem todos
Os sonhos em flor frutificaram?

Pois aqui estou! Formo Homens
À minha imagem,
Uma estirpe que a mim se assemelhe:
Para sofrer, para chorar,
Para gozar e se alegrar,
E pra não te respeitar,
Como eu!

Tradução: Paulo Quintela