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sábado, janeiro 19, 2019

Heine em tradução - Gonçalves Dias, Manuel Bandeira, Mário de Andrade

Du schönes Fischermädchen
Treibe das Kahn ans land;
Komm zu mir und setze dich nieder,
Wir kosen, Hand in Hand.

Leg'an mein Herz dein Kopfchen
Und furcht dich nicht so sehr
Vertraust du dich doch sorglos
Täglich dem wilden Meer!

Mein Herz gleicht dem Meere,
Hat Sturm und Ebb und Flut,
Und mache schöne Perle
I seiner Tiefe ruht.

Tradução de Gonçalves Dias:

Vem, ó bela gondoleira!
Ferra a vela, - junto a mim
Te assenta...Quero as mãos dadas,
E conversemos assim.

Põe ao meu peito a cabeça.
Não tens de que recear.
Que sem temor, cada dia,
Te fias do crespo mar!

Minha alma semelha o pego,
Tem maré, tormenta e onda;
Mas finas pérolas encontra
Nos seus abismos a sonda.

Tradução de Manuel Bandeira:

Vem, linda peixeirinha,
Trégua aos anzóis e aos remos!
Senta-te aqui comigo,
Mãos dadas conversemos.

Inclina a cabecinha
E não temas assim:
Não te fias do oceano?
Pois fia-te de mim!

Minh'alma, como o oceano,
Tem tufões, correntezas,
E muitas lindas pérolas
Jazem nas profundezas.


Tradução de Mário de Andrade:

Peixeira linda,
do barco vem;
Senta a meu lado,
Chega-te bem.

Ouves meus peito?
Porque assustar!
Pois não te fias
Ao diário mar?

Como ele, eu tenho
Maré e tufão,
Mas fundas pérolas
No coração.

sábado, dezembro 22, 2007

Canção do exílio

Kennst du das Land, wo die Citronen blühen,
Im dunkeln die Gold-Orangen glühen,
Kennst du es wohl? — Dahin, dahin!
Möcht ich... ziehn


Goethe.

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Coimbra - Julho de 1843



[Tradução da epígrafe: "Conheces o país onde os limões florescem/E laranjas de ouro acendem as folhagens?/[...]Conheces o país?/É onde, para onde/Eu quisera ir contigo, amado!Longe! Longe!" - Haroldo de Campos]

quarta-feira, setembro 19, 2007

Gonçalves Dias

Olhos verdes

Eles verdes são,
E têm por usança
Na cor esperança
E nas obras não


São uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos de verde-mar,
Quando o tempo vai bonança;
Uns olhos cor de esperança,
Uns olhos por que morri;
Que ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Como duas esmeraldas,
Iguais na forma e na cor,
Têm luz mais branda e mais forte,
Diz uma – vida, outra – morte;
Uma – loucura, outra – amor.
Mas ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

São verdes da cor do prado,
Exprimem qualquer paixão,
Tão facilmente se inflamam,
Tão meigamente derramam
Fogo e luz do coração;
Mas ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

São uns olhos verdes, verdes,
Que podem também brilhar;
Não são de um verde embaçado,
Mas verdes da cor do prado,
Mas verdes da cor do mar.
Mas ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Como se lê num espelho,
Pude ler nos olhos seus!
Os olhos mostram a alma,
Que as ondas postas em calma,
Também refletem os céus;
Mas ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Dizei vós, ó meus amigos,
Se vos perguntam por mi,
Que eu vivo só da lembrança
De uns olhos cor de esperança,
De uns olhos verdes que vi!
Que ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Dizei vós: Triste do bardo!
Deixou-se de amor finar!
Viu uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos da cor do mar:

Eram verdes sem esp’rança,
Davam amor sem amar!
Dizei-o vós, meus amigos,
Que ai de mi!
Não pertenço mais à vida
Depois que os vi!