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sábado, janeiro 19, 2019

Heine em tradução - Gonçalves Dias, Manuel Bandeira, Mário de Andrade

Du schönes Fischermädchen
Treibe das Kahn ans land;
Komm zu mir und setze dich nieder,
Wir kosen, Hand in Hand.

Leg'an mein Herz dein Kopfchen
Und furcht dich nicht so sehr
Vertraust du dich doch sorglos
Täglich dem wilden Meer!

Mein Herz gleicht dem Meere,
Hat Sturm und Ebb und Flut,
Und mache schöne Perle
I seiner Tiefe ruht.

Tradução de Gonçalves Dias:

Vem, ó bela gondoleira!
Ferra a vela, - junto a mim
Te assenta...Quero as mãos dadas,
E conversemos assim.

Põe ao meu peito a cabeça.
Não tens de que recear.
Que sem temor, cada dia,
Te fias do crespo mar!

Minha alma semelha o pego,
Tem maré, tormenta e onda;
Mas finas pérolas encontra
Nos seus abismos a sonda.

Tradução de Manuel Bandeira:

Vem, linda peixeirinha,
Trégua aos anzóis e aos remos!
Senta-te aqui comigo,
Mãos dadas conversemos.

Inclina a cabecinha
E não temas assim:
Não te fias do oceano?
Pois fia-te de mim!

Minh'alma, como o oceano,
Tem tufões, correntezas,
E muitas lindas pérolas
Jazem nas profundezas.


Tradução de Mário de Andrade:

Peixeira linda,
do barco vem;
Senta a meu lado,
Chega-te bem.

Ouves meus peito?
Porque assustar!
Pois não te fias
Ao diário mar?

Como ele, eu tenho
Maré e tufão,
Mas fundas pérolas
No coração.

quarta-feira, julho 07, 2010

Macbeth, Ato I, Cena 1 - Tradução de Manuel Bandeira

(Thunder and lightning. Enter three Witches)

FIRST WITCH
When shall we three meet again?
In thunder, lightning, or in rain?

SECOND WITCH

When the hurly-burly's done,
When the battle's lost, and won.

THIRD WITCH
That will be ere the set of sun.

FIRST WITCH
Where the place?

SECOND WITCH
Upon the heath.

THIRD WITCH
There to meet with Macbeth.

FIRST WITCH

I come, Graymalkin.

SECOND WITCH

Paddock calls.

THIRD WITCH

Anon.

ALL
Fair is foul, and foul is fair,
Hover through the fog and filthy air.
***

(Relâmpagos e trovões. Entram as Três Bruxas)

1ºBRUXA
Quando novamente as três nos juntamos
No meio dos raios e trovões que amamos?

2ºBRUXA
Quando terminada esta barulhada,
Depois da batalha perdida e ganhada.

3ºBRUXA
Antes de cair a noite

1ºBRUXA
Em que lugar?

2ºBRUXA

Na charneca.

3ºBRUXA
Ali vamos encontrar
com Macbeth.

1ºBRUXA

Irmãs, o Gato nos chama!

2ºBRUXA

O sapo reclama!

3ºBRUXA
Já vamos! Já vamos!

TODAS.
O Bem, o Mal,
- É tudo igual.
Depressa, na névoa, no ar sujo sumamos!

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Poema do beco

Que me importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco

M.Bandeira

segunda-feira, setembro 07, 2009

Último Poema

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

terça-feira, março 18, 2008

Quatro haicais de Bashô

1.
Quatro horas soaram.
Levantei-me nove vezes
Para ver a lua.

2.
Fecho a minha porta.
Silencioso vou deitar-me
Prazer de estar só...

3.
A cigarra...Ouvi:
Nada revela em seu canto
Que ela vai morrer.

4.
Quimonos secando
Ao sol. Oh aquela manguinha
Da criança morta!

Tradução: Manuel Bandeira

domingo, fevereiro 03, 2008

Epílogo

Eu quis um dia, como Schumann, compor
um carnaval todo subjetivo:
Um carnaval que o só motivo
fosse o meu próprio ser interior...

Quando acabei - a diferença que havia!
O de Schumann é um poema cheio de amor,
e de frescura, e mocidade...
E o meu tinha a morta morta-cor
da senilidade e da amargura...
- O meu carnaval sem nenhuma alegria!

sábado, fevereiro 02, 2008

Mascarada

Você me conhece?
(Frase dos mascarados de antigamente)


-Você me conhece?
-Não conheço não.
-Ah, como fui bela!
Tive grandes olhos,
que a paixão dos homens
(estranha paixão!)
Fazia maiores...
Fazia infinitos.
Diz: não me conheces?
-Não conheço não.

-Se eu falava, um mundo
Irreal se abria
à tua visão!
Tu não me escutavas:
Perdido ficavas
Na noite sem fundo
Do que eu te dizia...
Era a minha fala
Canto e persuasão...
Pois não me conheces?
-Não conheço não.
-Choraste em meus braços
-Não me lembro não.

-Por mim quantas vezes
O sono perdeste
E ciúmes atrozes
Te despedaçaram!

Por mim quantas vezes
Quase tu mataste,
Quase te mataste,
Quase te mataram!
Agora me fitas
E não me conheces?

-Não conheço não.
Conheço que a vida
É sonho, ilusão.
Conheço que a vida,
A vida é traição.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Namorados

O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
- Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
- Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagartixa listada?
A moça se lembrava: - A gente fica olhando…
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
- Antônia, você parece uma lagartixa listada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
- Antônia, você é engraçada! Você parece louca.


Manuel Bandeira

domingo, dezembro 16, 2007

Estrela da manhã

Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte

Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noites
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecais por todos pecai com todos

Pecai com os malandros
Pecai com os sargentos
Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras

Com os gregos e com os troianos
Com o padre e com o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto

Depois comigo

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra
[e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás

Procurem por toda parte
Pura ou degradada até a última baixeza
Eu quero a estrela da manhã

(Manuel Bandeira)

quarta-feira, maio 09, 2007

Arte de amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

(Manuel Bandeira in: Lira dos cinqüent´anos)

domingo, maio 06, 2007

Consoada

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez eu sorria, ou diga:
- Alô, Iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com seus sortilégios)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

(Manuel Bandeira in: Opus 10)

Poema só para Jaime Ovalle

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada)
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação.
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei
[pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que
[amei.

(Manuel Bandeira in: Belo Belo)

Morte absoluta

Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
a lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."
Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome.

(Manuel Bandeira in Lira dos cinquent´anos)

Momento num café

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

(Manuel Bandeira in: "Estrela da Manhã)

Profundamente

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondo de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes ben risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
-Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

(Manuel Bandeira in:"Libertinagem")

Carnaval - Epígrafe

Ela entrou com embaraço, tentou sorrir, e per-
guntou tristemente - se eu a reconhecia?
O aspecto carnavalesco lhe vinha menos do
frangalho de fantasia do que do seu ar de extre-
ma penúria. Fez por parecer alegre. Mas o sor-
riso se lhe transmudou em ricto amargo. E os
olhos ficaram baços, como duas poças de água
suja...Então, para cortar o soluço que adivi-
nhei subindo de sua garganta, puxei-a para ao pé
de mim, e com doçura:
- Tu és a minha esperança de felicidade e
cada dia que passa eu te quero mais, com perdida
volúpia, com desesperação e angústia...

(Manuel Bandeira in "Carnaval")

Gesso

Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova
- o gesso muito branco, as linhas muito puras -
Mal sugeria a imagem de vida
(Embora a figura chorasse).

Há muitos anos tenho-a comigo.
O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de pátina
[amarelo-suja.
Os meus olhos, de tanto a olharem,
Impregnaram-na da minha humanidade irônica de tísico.

Um dia mão estúpida
Inadvertidamente a derrubou e partiu.
Então ajoelhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmen-
[tos, recompus a figurinha que chorava.
E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo
[mordente de pátina...

Hoje este gessozinho comercial
É tocante e vive, e me fez agora refletir
Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu.

Soneto inglês nº2

Aceitar o castigo imerecido,
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar, senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé no mundo além do mundo. E então,
Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.

(Manuel Bandeira in: Lira dos cinquent´anos)

sábado, abril 28, 2007

O Rio

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refletí-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranqüilas.

(Manuel Bandeira)