terça-feira, julho 18, 2023

Drummond: Discurso

Eternidade:
os morituros te saúdam.

Valeu a pena farejar-te
na traça dos livros
e nos chamados instantes inesquecíveis.

Agônico
em êxtase
em pânico
em paz
o mundo-de-cada-um dilata-se até as lindes
do acabamento perfeito.

Eternidade:
existe a palavra,
deixa-se possuir, na treva tensa.

Incomunicável
o que deciframos de ti
e nem a nós mesmos confessamos.

Teu sorriso não era de fraude
Não cintilas como é costume dos astros.
Não és responsável pelo que bordam em tua corola
os passageiros da presiganga.

Eternidade,
os morituros te beijaram. 

in: A falta que ama (1968)

Drummond: O deus mal Informado

 



No caminho onde pisou um deus
há tanto tempo que o tempo não lembra
resta o sonho dos pés
                             sem peso
                             sem desenho.

Quem passe ali, na fração de segundo,
em deus se erige, insciente, deus faminto,
saudoso de existência.

Vai seguindo em demanda de seu rastro,
é um tremor radioso, uma opulência
de impossíveis, casulo do possível.

Mas a estrada se parte, se milparte,
a seta não aponta
destino algum, e o traço ausente
ao homem torna homem, novamente. 

in: A Falta que ama (1968)

domingo, julho 16, 2023

Mário Faustino: "E nos irados olhos das bacantes..."


Bacchantes overtaking Orpheus. Douglas Strachan (1875-1950)


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E nos irados olhos das bacantes
Finalmente descubro quem procuro.
Não eras tu, Poesia, meras armas,
Pura consolação de minha luta.
Nem eras tu, Amor, meu camarada,
Às costas me levando, após a luta. 
Procurava-me a mim, e ora me encontro
Em meu reflexo, nos olhares duros
De ébrios que me fuzilam contra o muro
E o perdão de meu canto. Sobre as nuvens
Defronte mãos escrevem numa estranha
Antiquíssima língua estas palavras
Que afinal compreendo: toda vida
É perfeita. E pungente, e raro, e breve
É o tempo que me dão para viver-me,
Achado e precioso. Mas saúdo
Em mim a minha paz final. Metade
Infame de homem beija os pés da outra
Diva metade, enquanto esta se curva
E retribui, humilde, a reverência.
A serpente tritura a própria cauda,
O círculo de fogo se devora, 
Arrasta-se o cadáver bem ferido
Para fora do palco:
                                este cevado
Bezerro justifica minha vida. 

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