domingo, janeiro 21, 2007

Unidade

As plantas sofrem como nós sofremos.
Por que não sofreriam
se esa é a chave da unidade do mundo?

A flor sofre, tocada
por mão inconsciente
Há uma queixa abafada
em sua docilidade.

A pedra é sofrimento
paralítico, eterno.

Não temos nós, animais,
sequer o privilégio de sofrer.

(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, janeiro 18, 2007

The road not taken

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there

Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.

Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.


(Robert Frost)

Macbeth V, v, 19

Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow,
Creeps in this petty pace from day to day,
To the last syllable of recorded time;
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!
Life's but a walking shadow; a poor player,
That struts and frets his hour upon the stage,
And then is heard no more: it is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing."

(Shakespeare, Macbeth V, v, 19)

Limites ao léu

POESIA: "words set to music" (Dante
via Pound), "uma viagem ao
desconhecido" (Maiakovski), "cernes e
medulas" (Ezra Pound), "a fala do
infalível" (Goethe), "linguagem
voltada para a sua propria
materialidade" (Jakobson),
"permanente hesitação entre som
e sentido" (Paul Valery), "fundação do
ser mediante a palavra" (Heidegger),
"a religião original da humanidade"
(Novalis), "as melhores palavras na
melhor ordem" (Coleridge), "emoção
relembrada na tranquilidade"
(Wordsworth), "ciência e paixão"
(Alfred de Vigny), "se faz com
palavras, não com idéias"
(Ricardo Reis/Fernando Pessoa), "um
fingimento deveras" (Fernando
Pessoa), "criticism of life" (Mattew
Arnold), "palavra-coisa" (Sartre),
"linguagem em estado de pureza
selvagem" (Octavio Paz), "poetry is to
inspire" (Bob Dylan), "design de
linguagem" (Decio Pignatari), "lo
imposible hecho posible" (Garcia
Lorca), "aquilo que se perde na
tradução" (Robert Frost), "a liberdade
da minha linguagem" (Paulo
Leminski)...

(Paulo Leminski)

Cartas a Lucílio I- 1

Procedes deste modo, caro Lucílio: reclama o direito de dispores de ti,concentra e aproveita todo o tempo que até agora te era roubado,subtraído, que te fugia das mãos. Convence-te de que as coisas são tal como as descrevo: Uma parte do tempo é-nos tomada, outra parte vai-se sem darmos por isso, outra deixamo-la escapar. Mas o pior de tudo é o tempo desperdiçado por negligência. Se bem reparares, durante grande parte da vida agimos mal, durante a maior parte não agimos nada, durante toda a vida agimos inutilmente.

Podes indicar-me alguém que dê o justo valor ao tempo aproveite bem o seu dia e pense que diariamente morre um pouco? É um erro imaginar que a morte está a nossa frente: grande parte dela já pertence ao passado, toda a nossa vida pretérita já é do domínio da morte!

Procede, portanto, caro Lucílio, conforme dizes: preenche todas as tuas horas! Se tomares nas mãos o dia de hoje conseguirás depender menos do dia de amanhã. De adiamento em adiamento, a vida vai passando.

Nada nos pertence, Lucílio, só o tempo é mesmo nosso. A natureza concedeu-nos a posse desta coisa transitória e evanescente da qual quem quer que seja pode nos expulsar. É tão grande a insensatez dos homens que aceitam prestar contas de tudo quanto – mau grado o seu valor mínimo ou nulo, e pelo menos certamente recuperável – lhes é emprestando, mas ninguém se julga na obrigação de justificar o tempo que recebeu, apesar de este ser o único bem que, por maior que seja a nossa gratidão, nunca podemos restituir.

Talvez te apeteça perguntar como procedo eu, que te dou todos estes preceitos. Dir-te-ei com franqueza: como alguém que vive bem, sem esbanjamento. Tenho todas as minhas contas em dia! Não te posso dizer que nunca perco tempo, mas sei dizer-te quanto, porquê e de que modo o perco. Posso prestar contas da minha pobreza. A mim,porém, sucede-me o mesmo que a muitos que, sem culpa própria, ficaram reduzidos à miséria: todos perdoam, mas ninguém ajuda.

Que mais há a dizer? Não considero pobre aquele que basta o poucochinho que tem. Prefiro, contudo, que tu preserves os teus bens e que o comeces a fazer quanto antes. Conforme diziam os nossos maiores “já vem tarde a poupança quando o vinho está no fundo!” É que o que fica no fundo, além de ser muito pouco, são apenas as borras!

(Sêneca,Lúcio Aneu - Cartas a Lucilio 1-1 - Tradução de J.A.Segurado E.Campos)

Ilíada XX, 293-307

"Dói-me, ó Deuses, que Enéias, grande-coração,veja-se
por obra do Aquileu, prestes a baixar ao Hades,
a Febo-Apolo, o vibralonge, dando ouvidos.
Tolo! Da morte lácrima o Deus não irá
defendê-lo. Inocente, por que deverá,
em vão, padecer por culpa alheia? Ele sempre
doou aos Deuses do vasto céu dádivas gratas.
Vamos, pois, resguardá-lo da morte, senão
Zeus Pai há de irritar-se, no caso de Aquiles
o abater. Manda a Moira que ele escape, a fim
de que, priva de sêmen, não pereça a estirpe
de Dárdano, o rebento que Zeus mais amou
entre os que, de mulheres mortais, lhe nasceram.
À linhagem de Príamo, o Croníade detesta.
Agora sobre os tróicos, Enéias reinará
e os seus filhos, e os filhos nascituros deles."

(Ilíada, XX, 293-307. trad. de Haroldo de Campos).
I´m nobody! Who are you?
Are you nobody, too?
Then there´s a pair of us - don´t tell!
They´d banish us, you know.

How dreary to be somebody!
How public, like a frog
To tell your name the livelong day
To an admiring bog!

(Emily Dickinson)