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quinta-feira, dezembro 17, 2009

Propércio, Elegia 1.1

Cíntia, com seu olhar, foi a primeira que me enfeitiçou
(infeliz, não tocado anteriormente por nenhuma forma de paixão).
O Amor, então, abateu-me a usual altivez dos olhos,
dominou minha cabeça, calcando os pés sobre ela,
e ao mesmo tempo me ensinou, falso que é,
a ter ódio das moças honestas e a viver sem pensar.
Tal loucura não me abandonou ainda, durante todo este ano,
e, no entanto, sou forçado a ter os Deuses como contrários a mim.
Milanião, Tulo, por não se esquivar a nenhum esforço,
pôde enfrentar a dureza da cruel filha de Iásio.
Quando vagueava, desatinado, nas grutas do monte Partênio,
e se defrontava com animais ferozes, de pêlo hirsuto,
foi atingido pelo golpe da clava de Hileu
e gemeu, cheio de dores, nos rochedos de Arcádia.
Mas conseguiu, dessa forma, dominar a donzela veloz:
só têm valia, no amor, as súplicas e os favores.
Em relação a mim, o Amor é vagaroso, não pensa em artifícios conhecidos
nem se lembra, ao menos, de percorrer os caminhos costumeiros.
Vós, porém, que conheceis as bruxarias para dominar a lua
e a arte de fazer sacrifícios em altares mágicos,
eia, vamos, transformai o coração da minha amada
e fazei que ela se torne mais pálida ainda que meu próprio rosto.
Aí, então, eu poderia crer que vos é possível dominar
os astros e os rios com os encantamentos da mulher de Citas.
Vós, meus amigos, que procurais levantar tardiamente o que caiu,
buscai auxílio para um peito doente.
Com intrepidez saberei sofrer o ferro e o ardor do fogo
para que haja liberdade de dizer o que a ira desejar.
Levai-me por entre os povos mais distantes, levai-me por entre as ondas,
para que mulher alguma possa conhecer meu caminho.
Quanto a vós, a quem um Deus de ouvido benevolente se mostrou propício,
permanecei aqui, e que estejais sempre juntos, na segurança do amor.
Vênus me atormenta nas noites amargas
e o Amor desocupado não me abandona em momento algum.
Por isso aconselho-vos: evitai este mal. Que cada um permaneça
junto ao objeto de seu cuidado e não mude o lugar do amor usual.
Se alguém fizer ouvidos moucos aos meus conselhos,
ai dele! com que dor relembrará as palavras que eu disse.

Tradução: Zélia de Almeida Cardoso.
Fonte: NOVAK, M.G. & NERI, M.L. Poesia lírica latina. São Paulo: Martins fontes, 2003.

sábado, setembro 06, 2008

Virgílio - 4º Bucólica

Ó Musas da Sicília, cantemos coisas mais elevadas.
Os arbustos e humildes tamarindos não agradam a todos.
Se cantamos florestas, que sejam as florestas dignas do cônsul.
Já chegou a última época da profecia de Cumas:
surge novamente a grande ordem da totalidade dos séculos.
A Virgem já está de volta, voltam os reinos de Saturno,
uma nova geração é enviada do alto do céu.
Tu, casta Lucina, favorece o menino que nasceu há pouco;
por causa dele, a época de ferro desaparecerá
e a geração de ouro surgirá no mundo. Apolo é quem reina agora.
Sendo tu, ó Polião, sendo tu o cônsul, a glória desta idade avançará,
e os grandes meses começarão a correr, sendo tu o chefe.
Se permanecem alguns vestígios de nossos crimes,
serão apagados e libertarão a terra de um pavor eterno.
Ele receberá a vida dos deuses e verá os heróis
misturados às divindades; ele próprio será visto entre elas
e regerá com as virtudes paternas o universo pacificado.
E para ti, criança, a terra produzirá, sem cultura alguma,
pequenos presentes: heras que vicejam aqui e ali como nardos,
colocásias misturadas ao alegre acanto.
As próprias cabrinhas trarão de volta ao lar os úberes retesados
de leite, e os rebanhos não temerão os grandes leões.
Os próprios berços produzirão para ti mimosas flores.
A serpente morrerá, e morrerá a erva enganadora do veneno;
O amomo assírio nascerá em toda parte.
E assim que puderes ler os louvores dos heróis
e os feitos de teus ancestrais, e saber o que é o valor,
aos poucos, o campo amarelará com espigas maduras,
as uvas vermelhas penderão dos espinhais incultos
e os rudes carvalhos destilarão úmidos méis.
Sobrarão, entretanto, alguns vestígios da maldade antiga,
capazes de ordenar que se afronte Tétis, com navios,
que se circundem as cidades com muros, que se abram sulcos na terra.
Haverá então outros Tífis e outra Argo que transportará
heróis escolhidos; e haverá também outras guerras
e mais uma vez um grande Aquiles será enviado a Tróia.
E então, quando a juventude já te tiver tornado um homem,
não só o comandante deixará o mar como também o pinho náutico
não mercadejará; a terra toda produzirá de tudo.
O solo não precisará suportar arados, nem as vinhas, foices;
e o labrador robusto desprenderá os jugos do touro;
a lã não aprenderá a imitar cores diversas:
o próprio carneiro, no prado, transformará seu velo
em púrpura vermelha ou em dourado açafrão;
o escarlate, espontaneamente, vestirá os cordeiros que pastam.
"Correi, séculos tais", disseram a seus fusos
as Parcas concordes com imutável desejo dos fados.
Ergue-te para as grandes honrarias - pois o tempo chegará -,
rebento querido dos Deuses, prole grandiosa de Júpiter.
Observa o universo oscilante em sua massa convexa,
as terras, as extensões do mar e o céu profundo.
Observa como tudo se alegra com o século que está por vir.
Que para mim se estenda a última parte de uma longa vida
e que o alento me seja suficiente para cantar teus feitos.
O trácio Orfeu não me venceria com suas canções
e Lino também não, embora a mãe assista àquele e o pai a este:
Calíope, a Orfeu; o formoso Apolo, a Lino.
Até mesmo Pã, se disputasse comigo, sendo a Arcádia o juiz,
até mesmo Pã, sendo a Arcádia o juiz, se declararia vencido.
Começa, pequena criança, a reconhecer tua mãe pelo sorriso
(os dez meses trouxeram longos incômodos a tua mãe);
começa, pequena criança: aquele a quem os pais não sorriram,
os Deuses não o consideram digno de sua mesa nem as Deusas de seu leito.


Tradução: Zélia de Almeida Cardoso ( NOVAK, M.L.& NERI, M.L.(org.) Poesia Lírica Latina. São Paulo: Martins Fontes. 2003)

quinta-feira, julho 24, 2008

Propércio, I.2

Quid iuvat ornato procedere, vita, capillo
et tenuis Coa veste movere sinus,
aut quid Orontea crines perfundere murra,
teque peregrinis vendere muneribus,
naturaeque decus mercato perdere cultu,
nec sinere in propriis membra nitere bonis?
crede mihi, non ulla tuaest medicina figurae:
nudus Amor formam non amat artificem.
aspice quos summittat humus non fossa colores,
ut veniant hederae sponte sua melius,
surgat et in solis formosior arbutus antris,
et sciat indocilis currere lympha vias.
litora nativis praefulgent picta lapillis,
et volucres nulla dulcius arte canunt.
non sic Leucippis succendit Castora Phoebe,
Pollucem cultu non Helaira soror;
non, Idae et cupido quondam discordia Phoebo,
Eueni patriis filia litoribus;
nec Phrygium falso traxit candore maritum
avecta externis Hippodamia rotis:
sed facies aderat nullis obnoxia gemmis,
qualis Apelleis est color in tabulis.
non illis studium fuco conquirere amantes:
illis ampla satis forma pudicitia.
non ego nunc vereor ne sis tibi vilior istis:
uni si qua placet, culta puella sat est;
cum tibi praesertim Phoebus sua carmina donet
Aoniamque libens Calliopea lyram,
unica nec desit iucundis gratia verbis,
omnia quaeque Venus, quaeque Minerva probat.
his tu semper eris nostrae gratissima vitae,
taedia dum miserae sint tibi luxuriae.



Por que tens tanto prazer, vida minha, em andar com os cabelos enfeitados,
em fazer ondular as leves pregas do teu traje, de tecido de Cós?
Por que tens tanto prazer em inundar os cabelos com mirra de Orontes
e vender-te por presentes estrangeiros?
Por que tens tanto prazer em trocar tua beleza natural por um luxo comprado
e em não permitir que teus membros brilhem com seus próprios dotes?
Crê-me: nenhum cosmético é necessário ao teu semblante;
o Amor é nu e não ama os artifícios da beleza.
Observa as cores formosas que a terra produz
para que as heras, espontaneamente, cresçam mais belas;
para que, nas grutas abandonadas, o medronheiro surja mais formoso
e as águas indóceis saibam percorrer o seu caminho.
As praias atraem, matizadas com seixos nativos,
e os pássaros, sem aprender,cantam com doçura maior.
Não foi assim que Febe, a filha de Leucipo, inflamou o coração de Cástor;
não foi pela beleza cultivada que Hilaíra, sua irmã, inflamou o de Pólux;
não foi assim que a filha de Eveno, na praia de seu país,
foi motivo de discórdia para Idas e o cúpido Febo;
não foi com a falsa brancura de uma tez pintada que Hipodâmia,
raptada por um carro estrangeiro, conquistou um esposo frígio:
seu rosto não devia nada às pedras preciosas;
tal é seu aspecto nos quadros de Apeles.
Nenhuma delas teve a intenção de conquistar o amante de forma vulgar;
nelas, o grande pudor já era suficiente formosura.
Não tenho receio de ser para ti menos do que todos estes.
Se uma mulher agrada um único homem, ela já é enfeitada
principalmente quando Febo te oferece seus versos
e a jovial Calíope, sua lira aônia.
Não te falta a graça de palavras belas
e tudo que Vênus e Minerva aprovam.
Serás sempre o encanto de minha existência
desde que sintas repulsas por todo esse luxo infeliz.

Tradução: Zélia de Almeida Cardoso. In: NOVAK, M.da G. & NERI,M.L.(org.) Poesia Lírica Latina. SP: Martins Fontes. 2003.