Morreu o pássaro de minha amiga,
Não se afastava de seu colo, mas
Pobre pardal! Agora os olhinhos
5
Vivamos, Lésbia minha, e amemos,
E os murmúrios todos dos velhos rabugentos
(Todos) de um tostão ter valor julguemos.
Os astros morrer e tornar podem,
A nós, quando uma vez a breve luz se apaga,
Perpétua noite dormir imposta é.
Mil beijos dá-me, depois cem,
Depois mil outros, depois de novo cem,
Depois até outros mil, depois cem.
Depois ,quando contados muitos mais tivermos,
Os confundamos, para que não saibamos
Ou para que alguém mau invejar não possa
Quando souber (qual) o tanto de beijos ser.
Vivamus mea Lesbia, atque amemus,
rumoresque senum severiorum
omnes unius aestimemus assis!
soles occidere et redire possunt:
nobis cum semel occidit brevis lux,
nox est perpetua una dormienda.
da mi basia mille, deinde centum,
dein mille altera, dein secunda centum,
deinde usque altera mille, deinde centum.
dein, cum milia multa fecerimus,
conturbabimus illa, ne sciamus,
aut ne quis malus invidere possit,
cum tantum sciat esse basiorum.
109
Que terno e eterno seja
Entre nós este nosso amor
Vida minha, me propões!
Ó, grandes deuses, fazei com que ela
Verdadeiramente prometê-lo possa,
E dizê-lo de coração sincero,
Para que nos permitido seja
Por toda a vida manter
Este perpétuo laço de santa amizade!
Iucundum, mea vita, mihi proponis amoremNão se impressione pelo fato de mulher nenhuma,
Rufo, querer trancá-lo em suas macias coxas,
nem mesmo se você a estimular com roupas caras,
ou com algum regalo e pedras cintilantes.
é que o afeta um mau rumor nocivo, que declara
que habita um feroz bode sob o seu sobaco.
Todos o temem. Nem é de admirar, pois é um bicho
terrível, com quem moça nenhuma quer estar.
Por isso, acabe logo co’ esta peste atroz para os narizes,
ou o 'por que todas fogem?' não o impressione mais.
Noli
admirari quare tibi femina nulla,
Rufe,
velit tenerum supposuisse femur,
non si
illam rarae labefactes munere vestis
aut
perluciduli deliciis lapidis.
laedit te
quaedam mala fabula, qua tibi fertur
valle sub
alarum trux habitare caper.
hunc
metuunt omnes; neque mirum: nam mala valdest
bestia,
nec quicum bella puella cubet.
quare aut
crudelem nasorum interfice pestem,
aut
admirari desine cur fugiant.
![]() |
| Catulo na casa de Lésbia. Lawrence Alma-Tadema (1865). |
Taberna suja e todos camaradas,
nono pilar dos gêmeos de barrete,
acham que só vocês têm uma pica,
que só vocês podem comer qualquer
menina e achar que os outros são uns bodes?
Ou porque bem sentados, comportados,
cem ou duzentos idiotas, não acreditam
que eu ouse arrombar duzentos machos?
Mas acreditem: pois hei de escrever
na frente da taberna pixos a cada um de vocês.
Pois minha menina, que fugiu de meu regaço,
amada tanto quanto nenhuma há de ser,
por quem lutei tantas tão grandes batalhas,
está sentada aí. Vocês, gente de bem,
todos a amam, certo, o que é indecente,
todos miúdos, metelões de putas pelos becos.
E dentre todos cabeludos, mais que todos, você,
da Celtibéria coelhuda filho,
Egnácio, que a espessa barba torna belo
e tem os dentes esfregados em mijo ibérico.
Se à muda cinza algum carinho e agrado, ó Calvo,
pode dar nossa dor -- esta saudade
com que nós renovamos antigos amores
e choramos perdidas amizades,
certo Quintília já não sofre pela morte
tão precoce, mas goza teu amor.
[Tradução de João Angelo Oliva Neto in O Livro de Catulo, São Paulo: Edusp, 1996]
Se alguma coisa de bom ou estimado mudas tumbas
pode tocar, Calvo, com a nossa dor,
com essa saudade velhos amores renovamos
e outrora perdidas amizades choramos,
então não se dói tanto com a morte precoce
Quintília, quanto se alegra com o teu amor.
[Tradução de José Pedro Moreira e André Simões in Catulo. Carmina. Lisboa: Cotovia, 2012]
Caso a tumba silente possa receber
a dor que seja grata -- e a saudade
remova amores do passado, Calvo, e o pranto
amizades que o tempo dissipou --,
Quintília já não padece a morte prematura,
tanto quanto sorri com teu amor.
[Tradução de Trajano Vieira in Catulo, 20 Poemas. Londrina: Galileu Edições, 2022]
Este poema poderia
ser entendido como uma abertura a um livro de poemas de Catulo. Entretanto, não
sabemos ao certo como tal livro estava estruturado e ao que o poeta estava se referindo com a palavra libellus (livrinho). Os
poemas que nos restaram podem ser divididos em três grandes grupos: os de metros variados (1-60); os
poemas longos (61-68) e os poemas elegíacos (69-118). Pode-se pensar, então, que a
coleção de que dispomos hoje seria a reunião de três libelli distintos.
Pra
quem dedico charmoso e novo livrinho
com
seca pedra-pomes polido há pouco?
Pra
você, Cornélio, pois você costumava
ver
alguma coisa nas minhas ninharias,
mesmo
quando ousou, único na Itália, [5]
explicar toda a história em três volumes
bem
doutos e –meu Deus!– tão trabalhosos.
Por
isso, toma pra você um mero livrinho,
qual seja seu valor; Virgem Patrona,
que ele dure sem fim por mais de um século! [10]
[trad. Rafael Brunhara]
Cui
dono lepidum novum libellum
arida
modo pumice expolitum?
Corneli,
tibi: namque tu solebas
meas
esse aliquid putare nugas.
Iam
tum, cum ausus es unus Italorum
omne
aevum tribus explicare cartis . . .
Doctis,
Iuppiter, et laboriosis!
Quare
habe tibi quidquid hoc libelli—
qualecumque,
quod, o patrona virgo,
plus
uno maneat perenne saeclo!
1. lepidum novuum (“charmoso novo”) . Palavras-chave da poética catuliana. O poeta não está falando só da aparência do livro, mas também do conteúdo dos poemas, repletos de lepos (charme, sagacidade, elegância) e de inovações em relação às tradições poéticas pregressas. Libellum (“livrinho”): o poeta se vale constantemente de aliterações e diminutivos. Também é palavra programática: sugere a ideia não só do formato e tamanho do livro, mas de sua brevidade.
2. "com seca pedra-pomes polido há pouco": o livro era escrito em folhas de papiro. Como uma folha de papiro se costurava à outra para formar o livro, havia pequenas irregularidades e era necessário lixá-lo com a pedra-pomes a fim de formar o rolo.
3. Cornélio: Cornélio Nepos, autor de poemas breves e de uma história do mundo, sucinta, em apenas três volumes (hoje perdida). Catulo teria admirado a erudição e estilo de Cornélio.
4. ninharias: traduz nugas ( nuga, -ae). Catulo é adepto de uma poética da brevidade, herdeira de uma tradição helenística. Irônico, Catulo designa aqui a ligeireza de seus versos, que se opõe ao tom grave de outros poetas.
6. volumes: traduz Cartis (carta, -ae). Uma folha do papiro egípcio. O plural sugere várias folhas reunidas, daí a tradução por volumes.
7. meu deus: no original, Iuppiter (Júpiter).
9. Virgem patrona: esta é a Musa ou Palas Atena.
10. "que ele dure sem fim por mais de um século!": Note que a ironia se desvela aqui: ao “livrinho”, à “ninharia”, o poeta vislumbra um destino grandioso: se manter perene por mais de um século.