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segunda-feira, março 02, 2026

Catulo 3 - Trad. Trajano Vieira

 Chorai, Amores, Vênus e quem for
sensível à beleza neste mundo.
Morreu o pássaro de minha amiga,
o deleite de minha amiga, o pássaro,
a quem amava mais que aos próprios olhos.
Ele era um mel e conhecia a dona
tão bem quanto uma filha à própria mãe.
Não se afastava de seu colo, mas
de um lado e de outro saltitava, só
pipiando aos ouvidos da senhora.
Agora segue a via tenebrosa,
lugar sem volta -- como nos afirmam.
Devoradoras da beleza, trevas
malditas, vos amaldiçoo! Belíssimo
pardal me arrebatastes! Que desgraça!
Pobre pardal! Agora os olhinhos
inchados da minha menina estão
vermelhos de chorar e és o motivo.

Fonte: Catulo e Horácio, Uma Antologia. São Paulo: Ateliê, 2025. 

domingo, março 01, 2026

Catulo, 2 - Trad. Trajano Vieira

Versão 1

Pardal, prazer da minha namorada,
que a entretém retido em seu peito,
a quem destina a ponta de um dos dedos
a fim de que o biques cruelmente,
quando ela, meu desejo fulgurante,
ama brincar com algo agradável,
alívio paliativo à sua dor,
querendo (creio) apaziguar o ardor,
pudesse me distrair como ela faz
contigo, sem turvar-me o triste afã.

---

Versão 2

Pássaro, distração do meu amor,
lúdico passatempo em seu colo,
ao teu ataque oferta o ponto extremo
do dedo, objeto de bicadas acres,
quando à fulguração do meu querer
apraz brincar com algo que encarece
e traga algum alívio à sua dor,
quem sabe acalmar o ardor do amor,
pudera me entreter como tua dona,
tornar mais leve o afã que abate a ânima. 

Fonte: Catulo e Horácio, uma Antologia. São Paulo: Ateliê, 2025. 

quarta-feira, novembro 12, 2025

Catulo (Traduções de J.H.Dacanal)

 5

Vivamos, Lésbia minha, e amemos,

E os murmúrios todos dos velhos rabugentos

(Todos) de um tostão ter valor julguemos.

Os astros morrer e tornar podem, 

A nós, quando uma vez a breve luz se apaga,

Perpétua noite dormir imposta é.

Mil beijos dá-me, depois cem,

Depois mil outros, depois de novo cem,

Depois até outros mil, depois cem.

Depois ,quando contados muitos mais tivermos,

Os confundamos, para que não saibamos

Ou para que alguém mau invejar não possa

Quando souber (qual) o tanto de beijos ser. 

Vivamus mea Lesbia, atque amemus,
rumoresque senum severiorum
omnes unius aestimemus assis!
soles occidere et redire possunt:
nobis cum semel occidit brevis lux,
nox est perpetua una dormienda.
da mi basia mille, deinde centum,
dein mille altera, dein secunda centum,
deinde usque altera mille, deinde centum.
dein, cum milia multa fecerimus,
conturbabimus illa, ne sciamus,
aut ne quis malus invidere possit,
cum tantum sciat esse basiorum.

109


Que terno e eterno seja

Entre nós este nosso amor

Vida minha, me propões! 

Ó, grandes deuses, fazei com que ela

Verdadeiramente prometê-lo possa,

E dizê-lo de coração sincero,

Para que nos permitido seja

Por toda a vida manter

Este perpétuo laço de santa amizade!

Iucundum, mea vita, mihi proponis amorem
 hunc nostrum inter nos perpetuumque fore.
 di magni, facite ut vere promittere possit, 
atque id sincere dicat et ex animo,
 ut liceat nobis tota perducere vita
 aeternum hoc sanctae foedus amicitiae.

Fonte: DACANAL, J.H. O que é Narrar? - E outros Ensaios. Porto Alegre: Besouro Box, 2021. 


J.H.Dacanal é jornalista e professor desde 1965, formado em Letras e Ciências Econômicas.

terça-feira, março 05, 2024

Catulo, Poema 69 - Tradução de Rafael Frate

 Não se impressione pelo fato de mulher nenhuma,

Rufo, querer trancá-lo em suas macias coxas,

nem mesmo se você a estimular com roupas caras,

ou com algum regalo e pedras cintilantes.

é que o afeta um mau rumor nocivo, que declara

que habita um feroz bode sob o seu sobaco.

Todos o temem. Nem é de admirar, pois é um bicho

terrível, com quem moça nenhuma quer estar.

Por isso, acabe logo co’ esta peste atroz para os narizes,

ou o 'por que todas fogem?' não o impressione mais.


Noli admirari quare tibi femina nulla,

Rufe, velit tenerum supposuisse femur,

non si illam rarae labefactes munere vestis

aut perluciduli deliciis lapidis.

laedit te quaedam mala fabula, qua tibi fertur

valle sub alarum trux habitare caper.

hunc metuunt omnes; neque mirum: nam mala valdest

bestia, nec quicum bella puella cubet.

quare aut crudelem nasorum interfice pestem,

aut admirari desine cur fugiant.


domingo, fevereiro 04, 2024

Catulo, 37 - Tradução de Rafael Frate

Catulo na casa de Lésbia. Lawrence Alma-Tadema (1865). 


Taberna suja e todos camaradas,

nono pilar dos gêmeos de barrete,

acham que só vocês têm uma pica,

que só vocês podem comer qualquer

menina e achar que os outros são uns bodes?

Ou porque bem sentados, comportados,

cem ou duzentos idiotas, não acreditam

que eu ouse arrombar duzentos machos?

Mas acreditem: pois hei de escrever

na frente da taberna pixos a cada um de vocês.

Pois minha menina, que fugiu de meu regaço,

amada tanto quanto nenhuma há de ser,

por quem lutei tantas tão grandes batalhas,

está sentada aí. Vocês, gente de bem,

todos a amam, certo, o que é indecente,

todos miúdos, metelões de putas pelos becos.

E dentre todos cabeludos, mais que todos, você,

da Celtibéria coelhuda filho,

Egnácio, que a espessa barba torna belo

e tem os dentes esfregados em mijo ibérico.

segunda-feira, setembro 18, 2023

Catulo, 9 - QuatroTraduções

Verani, omnibus e meis amicis
antistans mihi milibus trecentis,
venistine domum ad tuos penates
fratresque unanimos anumque matrem?
venisti. o mihi nuntii beati!
visam te incolumem audiamque Hiberum
narrantem loca, facta nationes,
ut mos est tuus, applicansque collum
iucundum os oculosque suaviabor.
o quantum est hominum beatiorum,
quid me laetius est beatiusve?

Verânio, dos amigos o primeiro,
de todos os trezentos mil que tenho,
voltaste a tua casa, a teus Penates,
irmãos (um coração) e idosa mãe?
Voltaste. Ah, que notícia tão feliz!
Vou te ver são e salvo e ouvir contares
feitos, lugares, povos lá da Ibéria
com teu jeito e, chegando a ti meu rosto,
teu lábios belos vou beijar e os olhos.
Ó quantos homens vivam tão felizes,
quem mais que eu é alegre ou feliz?

[Tradução de João Angelo Oliva Neto in O Livro de Catulo, São Paulo: Edusp, 1996]


Verânio, que de todos os meus trezentos mil
amigos és o primeiro,
regressaste tu a casa, aos teus Penates,
aos teus adoráveis irmãos e à tua velha mãe?
Regressaste! Ó felizes novas!
Visitar-te-ei são e salvo, e ouvir-te-ei falar
dos lugares, dos feitos, das gentes iberas,
como é teu uso, e tomando-te o pescoço,
a boca alegre e os olhos te beijarei.
Ó, de todos os homens felizes do mundo,
há algum mais alegre e feliz do que eu?

[Tradução de José Pedro Moreira e André Simões in Catulo. Carmina. Lisboa: Cotovia, 2012]

Verânio, dos amigos todos meus, 
Acima estando duns trezentos mil, 
Tu voltaste à casa, aos penates teus,
 Aos irmãos em alma, e à anosa mãe? 
Voltaste! Oh, que notícia mais feliz! 
Vou te ver com saúde e ouvir do ibero
 Povo, feitos, terras, as narrativas, 
Como costumas; e, inclinando o rosto, 
A linda face e os olhos vou beijar. 
Ó, quantos homens haverá felizes 
Mais contentes do que eu ou mais felizes?

[Tradução de Beethoven Alvarez, 2018]

Devo ter uns trezentos mil amigos,
Verânio. Para mim, és o primeiro.
Voltaste a tua casa, ao teu larário,
a tua mãe senil, a teus irmãos
uniconcordes? Sim! Que bom saber!
Hei de rever-te firme e forte, ouvir
por onde andaste, o que fizeste, a gente
ibérica, no teu estilo. Arcando
o colo, beijo os belos lábios, olhos.
Quantos homens conheçam a alegria,
nenhum conhecerá como me alegro. 

[Tradução de Trajano Vieira in Catulo, 20 Poemas. Londrina: Galileu Edições, 2022]



domingo, setembro 17, 2023

Catulo, 96 - três traduções

Si quicquam mutis gratum acceptumve sepulcris
 accidere a nostro, Calve, dolore potest,
 quo desiderio veteres renovamus amores 
atque olim missas flemus amicitias, 
certe non tanto mors immatura dolori est 
Quintiliae, quantum gaudet amore tuo.


Se à muda cinza algum carinho e agrado, ó Calvo,

     pode dar nossa dor -- esta saudade

com que nós renovamos antigos amores 

    e choramos perdidas amizades, 

certo Quintília já não sofre pela morte

    tão precoce, mas goza teu amor.


[Tradução de João Angelo Oliva Neto in O Livro de Catulo, São Paulo: Edusp, 1996]


Se alguma coisa de bom ou estimado mudas tumbas

pode tocar, Calvo, com a nossa dor, 

com essa saudade velhos amores renovamos

e outrora perdidas amizades choramos,

então não se dói tanto com a morte precoce

Quintília, quanto se alegra com o teu amor. 


[Tradução de José Pedro Moreira e André Simões in Catulo. Carmina. Lisboa: Cotovia, 2012]


Caso a tumba silente possa receber

a dor que seja grata -- e a saudade

remova amores do passado, Calvo, e o pranto

amizades que o tempo dissipou --, 

Quintília já não padece a morte prematura,

tanto quanto sorri com teu amor. 

[Tradução de Trajano Vieira in Catulo, 20 Poemas. Londrina: Galileu Edições, 2022]

sexta-feira, novembro 19, 2021

Catulo, Poema 1

 


Este poema poderia ser entendido como uma abertura a um livro de poemas de Catulo. Entretanto, não sabemos ao certo como tal livro estava estruturado e ao que o poeta estava se referindo com a palavra libellus (livrinho). Os poemas que nos restaram podem ser divididos em três grandes grupos: os de metros variados (1-60); os poemas longos (61-68) e os poemas elegíacos (69-118). Pode-se pensar, então, que a coleção de que dispomos hoje seria a reunião de três libelli distintos. 


Pra quem dedico charmoso e novo livrinho

com seca pedra-pomes polido há pouco?

Pra você, Cornélio, pois você costumava

ver alguma coisa nas minhas ninharias,

mesmo quando ousou, único na Itália,  [5]

 explicar toda a história em três volumes

bem doutos e –meu Deus!– tão trabalhosos.

Por isso, toma pra você um mero livrinho,

qual seja seu valor;  Virgem Patrona,

que ele dure sem fim por mais de um século! [10]

[trad. Rafael Brunhara]


Cui dono lepidum novum libellum

arida modo pumice expolitum?

Corneli, tibi: namque tu solebas

meas esse aliquid putare nugas.

Iam tum, cum ausus es unus Italorum

omne aevum tribus explicare cartis . . .

Doctis, Iuppiter, et laboriosis!

Quare habe tibi quidquid hoc libelli—

qualecumque, quod, o patrona virgo,

plus uno maneat perenne saeclo!


1. lepidum novuum (“charmoso novo”) .  Palavras-chave da poética catuliana.  O poeta não está falando só da aparência do livro, mas também do conteúdo dos poemas, repletos de lepos (charme, sagacidade, elegância) e  de inovações em relação às tradições poéticas pregressas. Libellum (“livrinho”): o poeta se vale constantemente de aliterações e diminutivos. Também é palavra programática: sugere a ideia não só do formato e tamanho do livro, mas de sua brevidade.

2. "com seca pedra-pomes polido há pouco":  o livro era escrito em folhas de papiro.  Como uma folha de papiro se costurava à outra para formar o livro, havia pequenas irregularidades e era necessário lixá-lo com a pedra-pomes a fim de formar o rolo.

3. Cornélio: Cornélio Nepos, autor de poemas breves e de uma história do mundo, sucinta, em apenas três volumes (hoje perdida). Catulo teria admirado a erudição e estilo de Cornélio.

4. ninharias: traduz nugas ( nuga, -ae). Catulo é adepto de uma poética da brevidade, herdeira de uma tradição helenística. Irônico, Catulo designa aqui a ligeireza de seus versos, que se opõe ao tom grave de outros poetas. 

6. volumes: traduz Cartis (carta, -ae). Uma folha do papiro egípcio. O plural sugere várias folhas reunidas, daí a tradução por volumes.  

7. meu deus: no original, Iuppiter (Júpiter). 

9. Virgem patrona: esta é a Musa ou Palas Atena. 

10. "que ele dure sem fim por mais de um século!":   Note que a ironia se desvela aqui: ao “livrinho”, à “ninharia”, o poeta vislumbra um destino grandioso: se manter perene por mais de um século. 

terça-feira, agosto 05, 2008

Catulo, 65

Embora ilhado em mágoas, uma dor sem fim
me afaste, ó Hórtalo, das virgens doutas
nem bons frutos das Musas possa pensamento
gerar (que já flutua em tantos males
pois uma onda, há pouco manando do abismo
do Oblívio, os alvos pés banhou de meu
irmão, em quem, roubado a meus olhos, na praia
Retéia areias pesam de Tróia, ah!
Nunca mais conversar nem ouvir-te contar-me
teus feitos, nunca mais te ver, irmão
mais amável que a vida, e sempre vou te amar,
meu canto tornar triste por tua morte,
qual canta sob as sombras dos ramos tão densas -
ave - a Daulíade a gemer a ausência
de Ítilo); em tanta dor porém te envio, ó Hórtalo,
estes versos vertidos de Calímaco
por teus ditos, dispersos aos ventos volúveis,
em vão não creres voaram de meu peito,
como a maçã - furtivo presente do amante -
que cai do casto colo da menina
esquecida, coitada, do fruto escondido
entre as dobras do manto: vem a mãe,
ela salta e no chão foge o fruto, em sua face
infeliz um rubor lhe sobe cúmplice.

Tradução: João Angelo Oliva Neto

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Catulo

Catulo 1: tradução de Haroldo de Campos
Catulo 1: tradução e notas
Catulo 2: tradução de João Ângelo Oliva Neto/Haroldo de Campos
Catulo 3: tradução de Haroldo de Campos
Catulo 3: tradução de João Ângelo Oliva Neto
Catulo 5: tradução de Almeida Garrett/João Ângelo Oliva Neto/Haroldo de Campos
Catulo 6: Tradução de Haroldo de Campos
Catulo 7: tradução de Haroldo de Campos
Catulo 8: tradução de João Ângelo Oliva Neto
Catulo 9: tradução de Francisco Achcar
Catulo 13: tradução de Haroldo de Campos
Catulo 13: tradução de João Ângelo Oliva Neto
Catulo 14b: tradução de Haroldo de Campos
Catulo 16: tradução de João Ângelo Oliva Neto
Catulo 27: tradução de Haroldo de Campos/João Ângelo Oliva Neto
catulo 30: tradução de João Ângelo Oliva Neto
Catulo 32: tradução de João Ângelo Oliva Neto/José Paulo Paes/Nelson Ascher
Catulo 32: tradução de Haroldo de Campos
Catulo 38: tradução de Haroldo de Campos
Catulo 39: tradução de Haroldo de Campos
Catulo 41: tradução de Haroldo de Campos
Catulo 41: tradução de João Ângelo Oliva Neto
Catulo 43: tradução de Haroldo de Campos
Catulo 52: tradução de Haroldo de Campos
Catulo 58: tradução de Haroldo de Campos
Catulo 70: tradução de João Ângelo Oliva Neto/José Dejalma Dezotti
Catulo 73? tradução e notas de João Ângelo Oliva Neto
Catulo 82: tradução de Haroldo de Campos
Catulo 85:tradução de João Ângelo Oliva Neto
Catulo 86: tradução de Haroldo de Campos
Catulo 89: tradução de José Dejalma Dezotti
Catulo 91: tradução de Haroldo de Campos
Catulo 92: tradução de João Ângelo Oliva Neto/José Dejalma Dezotti
Catulo 93: tradução de Haroldo de Campos/João Ângelo Oliva Neto/José Dejalma Dezotti

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Catulo, 13 - Outra tradução

Cenabis bene, mi Fabulle, apud me
paucis, si tibi di fauent, diebus,
si tecum attuleris bonam atque magnam
cenam, non sine candida puella
et uino et sale et omnibus cachinnis.
haec si, inquam, attuleris, uenuste noster,
cenabis bene: nam tui Catulli
plenus sacculus est aranearum.
sed contra accipies meros amores
seu quid suauius elegantiusuest:
nam unguentum dabo, quod meae puellae
donarunt Ueneres Cupidinesque;
quod tu cum olfacies, deos rogabis,
totum ut te faciant, Fabulle, nasum.


Jantarás bem, Fabulo, em minha casa,
muito em breve se os deuses te ajudarem,
se contigo levares farto e bom
jantar, e não sem fina artista, vinho,
graça e as risadas todas. Isso tudo,
se levares, encanto meu, garanto,
jantarás bem, pois teu Catulo tem
o bolso cheio de teias de aranha.
Em troca aceitarás meros amores
E o que há de mais suave ou elegante,
Pois um perfume te darei que à minha
Garota Vênus e os Cupidos deram,
Que ao sentires aos deuses vais pedir
Te façam, Fabulo, todo nariz.

[Tradução: João Angelo Oliva Neto]

domingo, dezembro 23, 2007

Catulo 16

Meu pau no cu, na boca, eu vou meter-vos,
Aurélio bicha e Fúrio chupador,
que por meus versos breves, delicados,
me julgastes não ter nenhum pudor.
A um poeta pio convém ser casto
ele mesmo, aos seus versos não há lei.
Estes só tem sabor e graça quando
são delicados, sem nenhum pudor,
e quando incitam o que excite não
digo os meninos, mas esses peludos
que jogo de cintura já não tem
E vós, que muitos beijos (aos milhares!)
já lestes, me julgais não ser viril?
Meu pau no cu, na boca, eu vou meter-vos.

Tradução de João Angelo Oliva Neto

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Catulo, 85

Odi et amo. Quare id faciam fortasse requiris
Nescio, sed fieri sentio et excrucior.


Odeio e amo. Talvez queiras saber "como?"
Não sei. Só sei que sinto e crucifico-me.

[Tradução: João Ângelo Oliva Neto]

sexta-feira, outubro 12, 2007

Catulo, 32 - outra tradução

Vamos, minha doce Ipsistila, minha
delícia, meu
pão:
convida-me a passar a tarde contigo.
Se me dás essa chance
tira o trinco da porta e
cancela o restante:
espera-me disposta
para o jogo da dama:

nove vezes, na cama.


A idéia te inflama?
Então, basta de dúvida!
Almoçado a regalo, reclinado em decúbito,
aqui estou,
como falo:

-perfuro túnica e pálio!


Outras traduções: José Paulo Paes, Nelson Ascher, João Angelo Oliva Neto.

Catulo 14b

Se acaso lês estes meus desmandos
e se não te repugna
aproximar de mim tuas mãos

[Tradução: Haroldo de Campos]

Catulo, 39

Egnatius
porque tem dentes brancos
ri à toa.
Se alguém está no banco dos réus
e o advogado arranca lágrimas do júri
Egnatius ri.
Ri.
Em qualquer momento ou lugar.
É seu fraco. Ofensivo
à elegância e à urbanidade.
(creio).
Aprende pois
Egnatius
meu velho:
ainda que fosses da Capital
ou da Sabina
ou de Tibur
um úmbrio sovina ou um etrusco obeso
um lanuvino moreno e de bons dentes
ou
(para incluir meus conterrâneos) um
transpadano ou
de qualquer parte onde se faça um mínimo
de higiene bucal
ainda assim
eu não suportaria os teus dentes ridentes.
nada mais alvar que um riso alvar.
Mas acontece que és celtíbero.

Na Celtibéria
costumam de manhã com a própria urina
enxaguar caninos e gengivas.

Dentes mais brancos?
Maior ração de urina.

[Tradução: Haroldo de Campos]

Catulo, 41 - Outra tradução

Ameana, piranha desfrutável,
me pediu dez mil sestércios
ao todo!
Aquela mesma,
a menina de nariz torto,
comida do banquirroto Formiano.

Parentes e vizinhos dessa moça
chamem o médico,
reúnam (ela não anda boa)
o conselho da família.
Que tem?
Excesso...
de fantasia.

[Tradução: Haroldo de Campos]

Outra tradução: João Ângelo Oliva Neto

Catulo, 13

Vais jantar bem, Fábulo, em minha casa
qualquer noite destas.
Basta que tragas o favor dos deuses
e ainda
o "couvert", o assado, o vinho, muito sal,
uma companheira enxuta
e uma reserva de risadas.
Nessa base, vais jantar bem:
a bolsa do teu Catulo está cheia
de teias de aranha.
Em troca, mera amizade
e o que me resta de raro e refinado:
um perfumne
-Vênus e os amores! -
o aroma - o cheiro da minha dona.
Fábulo,
uma fábula!
Vais virar nariz.

[Tradução: Haroldo de Campos]

Catulo, 82

Quíncio,
queres que Catulo te deva os olhos
e o que há de mais caro que os olhos?
Não lhe roubes o que é
muito mais caro do que os olhos
ou do que há de mais caro que os olhos.

[Tradução de Haroldo de Campos]

Catulo, 3 - Outra tradução

Chorai, coro de Graças e Cupidos,
e todos aqueles que veneram Vênus.
Morreu o pardal de Lésbia.
o doce pássaro de minha namorada,
prenda que ela amava mais que os olhos.
Ave de açúcar, seguia sua dona
como a pupila à mestra.
Sempre mimado em seu regaço
- aqui, ali, saltarinando -
só pra ela ensaiava o gorgeio.
Agora se foi para a terra das trevas
de onde ninguém retorna.
Malditas, malignas sombras do Orco
devoradoras de tudo quanto é belo:
privaram-me de um pássaro belíssimo!
Pobre passarinho de pêsames:
por tua causa, os olhos de minha amada
turvam-se, vermelhos de pranto.

[Tradução de Haroldo de Campos]

Outra tradução: João Ângelo Oliva Neto.