Mostrando postagens com marcador Beethoven Alvarez. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Beethoven Alvarez. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, dezembro 26, 2024

Niterói - Metamorfose do Rio de Janeiro (versos 1-25) - Januário da Cunha Barbosa (1780-1846)

 Nos braços maternais, nascido apenas,

Jazia Niterói, satúrnea prole,

Quando Mimas, seu pai, gigante enorme

Que ao céu com mão soberba arremessara

A flamígera Lemnos, arrancada

Dos mares no furor da guerra ímpia,

Tingiu de sangue as águas, salpicando

De seu cérebro o Ossa, o Olimpo e o Ótris,

Ferido pelo ferro com que Marte

Vingou de Jove a injúria em morte acerba. 


Lamentando-se, Atlântida, apertava

Ao peito o filho, pálida, temendo

Trissulcos raios que inda acesos via.

Ouviu seu pranto o rei do argênteo lago

E o tenro infante, compassivo, acolhe.

No choque horrível, que dos Flegros Campos, 

O mundo sobre os polos abalara,

Surgiram novas terras, novos mares,

Cobriram reinos, ilhas, cabos, brenhas.

Netuno aponta a plaga rica e vasta,

Do sepulcro do sol, erguida há pouco,

Inda mádida e nova, inda ignorada

Dos homens e do mundo; aqui se abriga

A estirpe ilustre, em Mimas profligada,

Que o justo e paternal intento herdara. 


FONTE: ALVAREZ, Beethoven (edição, introdução, notas e posfácio). Niterói - Poema de Januário da Cunha Barbosa. Rio de Janeiro: Telha, 2023. 

sexta-feira, outubro 27, 2023

35 Proêmios da Eneida e mais um pouco (por Beethoven Alvarez)

 Beethoven Alvarez (UFF)

 

Fuga di Enea da Troia. Frederico Barocci. 1598

Tento aqui reunir a mais completa possível coleção de traduções para o português do proêmio da Eneida de Virgílio, ou seja, dos versos 1-11 em que se encontram a proposição temática e invocação às musas. Primeiro, faço uma coletânea de informações sobre as traduções disponíveis na forma de uma lista (as integrais em verso, as integrais em prosa e depois as avulsas que incluem os versos iniciais) e, em seguida, apresento a transcrição dos proêmios dessas traduções (que datam de 1638 a 2023). No final, acrescento notícias, trechos e imagens de adaptações variadas.

segunda-feira, setembro 18, 2023

Catulo, 9 - QuatroTraduções

Verani, omnibus e meis amicis
antistans mihi milibus trecentis,
venistine domum ad tuos penates
fratresque unanimos anumque matrem?
venisti. o mihi nuntii beati!
visam te incolumem audiamque Hiberum
narrantem loca, facta nationes,
ut mos est tuus, applicansque collum
iucundum os oculosque suaviabor.
o quantum est hominum beatiorum,
quid me laetius est beatiusve?

Verânio, dos amigos o primeiro,
de todos os trezentos mil que tenho,
voltaste a tua casa, a teus Penates,
irmãos (um coração) e idosa mãe?
Voltaste. Ah, que notícia tão feliz!
Vou te ver são e salvo e ouvir contares
feitos, lugares, povos lá da Ibéria
com teu jeito e, chegando a ti meu rosto,
teu lábios belos vou beijar e os olhos.
Ó quantos homens vivam tão felizes,
quem mais que eu é alegre ou feliz?

[Tradução de João Angelo Oliva Neto in O Livro de Catulo, São Paulo: Edusp, 1996]


Verânio, que de todos os meus trezentos mil
amigos és o primeiro,
regressaste tu a casa, aos teus Penates,
aos teus adoráveis irmãos e à tua velha mãe?
Regressaste! Ó felizes novas!
Visitar-te-ei são e salvo, e ouvir-te-ei falar
dos lugares, dos feitos, das gentes iberas,
como é teu uso, e tomando-te o pescoço,
a boca alegre e os olhos te beijarei.
Ó, de todos os homens felizes do mundo,
há algum mais alegre e feliz do que eu?

[Tradução de José Pedro Moreira e André Simões in Catulo. Carmina. Lisboa: Cotovia, 2012]

Verânio, dos amigos todos meus, 
Acima estando duns trezentos mil, 
Tu voltaste à casa, aos penates teus,
 Aos irmãos em alma, e à anosa mãe? 
Voltaste! Oh, que notícia mais feliz! 
Vou te ver com saúde e ouvir do ibero
 Povo, feitos, terras, as narrativas, 
Como costumas; e, inclinando o rosto, 
A linda face e os olhos vou beijar. 
Ó, quantos homens haverá felizes 
Mais contentes do que eu ou mais felizes?

[Tradução de Beethoven Alvarez, 2018]

Devo ter uns trezentos mil amigos,
Verânio. Para mim, és o primeiro.
Voltaste a tua casa, ao teu larário,
a tua mãe senil, a teus irmãos
uniconcordes? Sim! Que bom saber!
Hei de rever-te firme e forte, ouvir
por onde andaste, o que fizeste, a gente
ibérica, no teu estilo. Arcando
o colo, beijo os belos lábios, olhos.
Quantos homens conheçam a alegria,
nenhum conhecerá como me alegro. 

[Tradução de Trajano Vieira in Catulo, 20 Poemas. Londrina: Galileu Edições, 2022]