Mostrando postagens com marcador João Angelo Oliva Neto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador João Angelo Oliva Neto. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, setembro 18, 2023

Catulo, 9 - QuatroTraduções

Verani, omnibus e meis amicis
antistans mihi milibus trecentis,
venistine domum ad tuos penates
fratresque unanimos anumque matrem?
venisti. o mihi nuntii beati!
visam te incolumem audiamque Hiberum
narrantem loca, facta nationes,
ut mos est tuus, applicansque collum
iucundum os oculosque suaviabor.
o quantum est hominum beatiorum,
quid me laetius est beatiusve?

Verânio, dos amigos o primeiro,
de todos os trezentos mil que tenho,
voltaste a tua casa, a teus Penates,
irmãos (um coração) e idosa mãe?
Voltaste. Ah, que notícia tão feliz!
Vou te ver são e salvo e ouvir contares
feitos, lugares, povos lá da Ibéria
com teu jeito e, chegando a ti meu rosto,
teu lábios belos vou beijar e os olhos.
Ó quantos homens vivam tão felizes,
quem mais que eu é alegre ou feliz?

[Tradução de João Angelo Oliva Neto in O Livro de Catulo, São Paulo: Edusp, 1996]


Verânio, que de todos os meus trezentos mil
amigos és o primeiro,
regressaste tu a casa, aos teus Penates,
aos teus adoráveis irmãos e à tua velha mãe?
Regressaste! Ó felizes novas!
Visitar-te-ei são e salvo, e ouvir-te-ei falar
dos lugares, dos feitos, das gentes iberas,
como é teu uso, e tomando-te o pescoço,
a boca alegre e os olhos te beijarei.
Ó, de todos os homens felizes do mundo,
há algum mais alegre e feliz do que eu?

[Tradução de José Pedro Moreira e André Simões in Catulo. Carmina. Lisboa: Cotovia, 2012]

Verânio, dos amigos todos meus, 
Acima estando duns trezentos mil, 
Tu voltaste à casa, aos penates teus,
 Aos irmãos em alma, e à anosa mãe? 
Voltaste! Oh, que notícia mais feliz! 
Vou te ver com saúde e ouvir do ibero
 Povo, feitos, terras, as narrativas, 
Como costumas; e, inclinando o rosto, 
A linda face e os olhos vou beijar. 
Ó, quantos homens haverá felizes 
Mais contentes do que eu ou mais felizes?

[Tradução de Beethoven Alvarez, 2018]

Devo ter uns trezentos mil amigos,
Verânio. Para mim, és o primeiro.
Voltaste a tua casa, ao teu larário,
a tua mãe senil, a teus irmãos
uniconcordes? Sim! Que bom saber!
Hei de rever-te firme e forte, ouvir
por onde andaste, o que fizeste, a gente
ibérica, no teu estilo. Arcando
o colo, beijo os belos lábios, olhos.
Quantos homens conheçam a alegria,
nenhum conhecerá como me alegro. 

[Tradução de Trajano Vieira in Catulo, 20 Poemas. Londrina: Galileu Edições, 2022]



domingo, setembro 17, 2023

Catulo, 96 - três traduções

Si quicquam mutis gratum acceptumve sepulcris
 accidere a nostro, Calve, dolore potest,
 quo desiderio veteres renovamus amores 
atque olim missas flemus amicitias, 
certe non tanto mors immatura dolori est 
Quintiliae, quantum gaudet amore tuo.


Se à muda cinza algum carinho e agrado, ó Calvo,

     pode dar nossa dor -- esta saudade

com que nós renovamos antigos amores 

    e choramos perdidas amizades, 

certo Quintília já não sofre pela morte

    tão precoce, mas goza teu amor.


[Tradução de João Angelo Oliva Neto in O Livro de Catulo, São Paulo: Edusp, 1996]


Se alguma coisa de bom ou estimado mudas tumbas

pode tocar, Calvo, com a nossa dor, 

com essa saudade velhos amores renovamos

e outrora perdidas amizades choramos,

então não se dói tanto com a morte precoce

Quintília, quanto se alegra com o teu amor. 


[Tradução de José Pedro Moreira e André Simões in Catulo. Carmina. Lisboa: Cotovia, 2012]


Caso a tumba silente possa receber

a dor que seja grata -- e a saudade

remova amores do passado, Calvo, e o pranto

amizades que o tempo dissipou --, 

Quintília já não padece a morte prematura,

tanto quanto sorri com teu amor. 

[Tradução de Trajano Vieira in Catulo, 20 Poemas. Londrina: Galileu Edições, 2022]

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Calímaco - Epigrama 8 P

Pequena, Dionísio, basta uma palavra
ao poeta feliz: "venci" é o máximo
que diz. Mas se ao que tu não inspiraste bem
"que tal?",indagam, "duro é o que me ocorre",
diz. Que isto ocorra a quem injustos versos trama.
a mim, senhor, as tais pequenas sílabas.

Tradução de João Angelo Oliva Neto

terça-feira, agosto 05, 2008

Catulo, 65

Embora ilhado em mágoas, uma dor sem fim
me afaste, ó Hórtalo, das virgens doutas
nem bons frutos das Musas possa pensamento
gerar (que já flutua em tantos males
pois uma onda, há pouco manando do abismo
do Oblívio, os alvos pés banhou de meu
irmão, em quem, roubado a meus olhos, na praia
Retéia areias pesam de Tróia, ah!
Nunca mais conversar nem ouvir-te contar-me
teus feitos, nunca mais te ver, irmão
mais amável que a vida, e sempre vou te amar,
meu canto tornar triste por tua morte,
qual canta sob as sombras dos ramos tão densas -
ave - a Daulíade a gemer a ausência
de Ítilo); em tanta dor porém te envio, ó Hórtalo,
estes versos vertidos de Calímaco
por teus ditos, dispersos aos ventos volúveis,
em vão não creres voaram de meu peito,
como a maçã - furtivo presente do amante -
que cai do casto colo da menina
esquecida, coitada, do fruto escondido
entre as dobras do manto: vem a mãe,
ela salta e no chão foge o fruto, em sua face
infeliz um rubor lhe sobe cúmplice.

Tradução: João Angelo Oliva Neto

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Catulo, 13 - Outra tradução

Cenabis bene, mi Fabulle, apud me
paucis, si tibi di fauent, diebus,
si tecum attuleris bonam atque magnam
cenam, non sine candida puella
et uino et sale et omnibus cachinnis.
haec si, inquam, attuleris, uenuste noster,
cenabis bene: nam tui Catulli
plenus sacculus est aranearum.
sed contra accipies meros amores
seu quid suauius elegantiusuest:
nam unguentum dabo, quod meae puellae
donarunt Ueneres Cupidinesque;
quod tu cum olfacies, deos rogabis,
totum ut te faciant, Fabulle, nasum.


Jantarás bem, Fabulo, em minha casa,
muito em breve se os deuses te ajudarem,
se contigo levares farto e bom
jantar, e não sem fina artista, vinho,
graça e as risadas todas. Isso tudo,
se levares, encanto meu, garanto,
jantarás bem, pois teu Catulo tem
o bolso cheio de teias de aranha.
Em troca aceitarás meros amores
E o que há de mais suave ou elegante,
Pois um perfume te darei que à minha
Garota Vênus e os Cupidos deram,
Que ao sentires aos deuses vais pedir
Te façam, Fabulo, todo nariz.

[Tradução: João Angelo Oliva Neto]

domingo, dezembro 23, 2007

Catulo 16

Meu pau no cu, na boca, eu vou meter-vos,
Aurélio bicha e Fúrio chupador,
que por meus versos breves, delicados,
me julgastes não ter nenhum pudor.
A um poeta pio convém ser casto
ele mesmo, aos seus versos não há lei.
Estes só tem sabor e graça quando
são delicados, sem nenhum pudor,
e quando incitam o que excite não
digo os meninos, mas esses peludos
que jogo de cintura já não tem
E vós, que muitos beijos (aos milhares!)
já lestes, me julgais não ser viril?
Meu pau no cu, na boca, eu vou meter-vos.

Tradução de João Angelo Oliva Neto

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Catulo, 85

Odi et amo. Quare id faciam fortasse requiris
Nescio, sed fieri sentio et excrucior.


Odeio e amo. Talvez queiras saber "como?"
Não sei. Só sei que sinto e crucifico-me.

[Tradução: João Ângelo Oliva Neto]

Calímaco - Epigrama 28P

Eu odeio o poema cíclico; da estrada
que muitos leva, traz, aqui e lá, não gosto.
Que vagueia detesto amante nem da fonte
bebo e me afasto do lugar comum.
Lisânias, tu és belo, belo, sim, mas antes
que o diga o Eco, alguém diz: "Outro o tem"

[Tradução: João Angelo Oliva Neto]

Píndaro - 11ºOlímpica

Aos homens há por vezes de ventos mais que tudo
precisão. E de celestes águas,
chuvosas filhas da nuvem.
Mas se com esforço alguém bem se
fez, melissonantes hinos,
começo de longa fama,
se perfazem, fiel penhor
de ingentes gestas.
Sem inveja, aos que vencem em Olímpia
esta loa se consagra. E tal é pasto de minha língua,
mas vem de deus homem em sábios
dons florescer. Se é assim,
sabe agora, Hagesidamo,
filho de Arquéstrato, por tuas pugnas, que
ornato à coroa de áurea oliva
um canto farei soar doce,
cuidando na raça dos Locros Zefírios. Tomai
parte, Musas, nesta festa, que garanto:
até vós ao encontro um povo
não virá hostil ao hóspede
nem avesso ao belo, mas
de agudo saber e lutar. Congênito,
rubra raposa e rugientes leões não vão permudar caráter.


[Tradução: João Angelo Oliva Neto]

quinta-feira, outubro 18, 2007

Priapo

1.
Por que em mim não tem veste a parte obscena, indagas?
Indaga se algum deus seus dardos cobre:
às claras o senhor do céu detém seu raio,
não se oculta o tridente ao deus das águas;
nem Marte esconde aquela espada com que é bravo
nem Palas guarda a lança em dobras tépidas.
Portando setas de ouro Febo acaso cora?
Diana sói levar, esconsa, a aljava?
E Hércules cobre a massa da nodosa clava?
O deus alado vela o caduceu?
Quem viu Baco estender no grácil tirso as vestes?
E quem, Amor, te viu de rosto oculto?
Não seja crime que meu pau se mostre sempre:
que se esta lança falta, eu sou inerme. [Priapea latina,9]

2.
Quem sejas tu que no meu alvo muro vês
poemas nada castos mas jocosos,
não te ofendas com versos obscenos, meu pau
não há de te fazer franzir o cenho.[Priapea latina, 49]

3.
Matronas castas, ide p'ra bem longe:
palavras sem pudor vergonha é lerdes!
(Não dão a mínima e aqui vêm direto;
Não admira, também matronas vêem,
degustam com prazer um pau enorme.)[Priapea latina,7]

4.
Se menino, enrabar; se menina, foder;
Ladrões barbados têm terceira pena.[Priapea latina,13]

5.
Caia eu morto, Priapo, se não sinto
vergonha de empregar palavras vis,
obscenas, mas se tu, que és deus sem ter
pudor, me mostra teus colhões de fora,
"boceta" e "pau" preciso pronunciar.[Priapea latina,29]

6.
Temos no corpo formas conhecidas.
Febo, os cabelos. Hércules, seus músculos;
o jovem Baco, o aspecto de menina;
Minerva é loira; oblíquo olhar tem Vênus;
Faunos da Arcádia, os chifres na cabeça;
belos pés tem o porta-voz dos deuses;
dá passos desiguais quem guarda Lemnos;
Esculápio tem sempre a barba longa;
ninguém tem peito como o bravo Marte.
E se entre todos me sobrar espaço,
que deus tem pau maior que o de Priapo?[Priapea latina,36]

7.
Pela beleza agrada ver Mercúrio,
pela beleza Apolo é admirável,
belo também Lieu é figurado.
mais belo que todos é Cupido.
Quanto a mim, sei, não tenho belas formas,
porém meu pau é esplêndido e qualquer
menina vai querê-lo mais àqueles
deuses, se não for tola de boceta. [Priapea latina,36]

8.
Tu, p'ra não veres meu viril sinal,
desvia-te como convém às castas.
É claro! A menos que o que temes ver
desejas que te adentre até as vísceras.[Priapea latina,66]

9.
Se, rústico, pareço ter inculta fala,
perdão!, não junto livros, junto frutos.
Mas rude embora, à força eu ouço meu senhor
a ler, e uns termos aprendi de Homero:
p'ra nós o que é "caralho" chama de karákallon,
e o que chamamos "cu" chama de cúleon.
Se merdaléon é aquilo que não tem limpeza,
é "merdaleu" o pinto dos que enrabam.
Mais!: Se a boceta Argiva não quisesse um pau
Troiano, não teria o que a cantasse.
Não fosse tão famoso o pinto do Tantálida,
de nada se queixara o velho Crises.
O mesmo pau tirou do amigo a doce amante:
sendo de Aquiles, quis que fora sua,
e um triste canto o herói cantou à Peletrônia
cítara, estando teso mais do que a cítara.
Na ira então começa a Ilíada famosa
foi o princípio do sagrado canto.
Matéria do outro é a errância do falaz Ulisses
e, a bem dizer, tesão foi que o moveu:
lemos de uma raiz que gera flor dourada
que, embora moly a chamem, era um pau;
lemos que Circe, que a Atlantíade Calipso
do herói Dulíquio o grande dote ansiaram.
Depois, ao ver que mal cobriu seu membro um espesso
ramo, a filha de Alcínoo se espantou.
Mas corre o herói à velha esposa só pensando,
Penélope, na tua bocetinha,
e casta, só ficaste por querer banquetes
e ter de fodedores cheia a casa,
e por saberes no arco o mais valente, assim
falaste aos pretendentes excitados:
"Ninguém, qual meu Ulisses, retesou sua arma,
de força usando ou de perícia. Agora
é morto, e vós! a arma entesai: que verei
quem é que é homem p'ra ser meu homem".
E eu poderia então te dar prazer, Penélope,
mas eu ainda não tinha sido feito.[Priapea latina,68]

[Tradução: João Angelo Oliva Neto]

sexta-feira, outubro 12, 2007

Catulo, 32 - outra tradução

Vamos, minha doce Ipsistila, minha
delícia, meu
pão:
convida-me a passar a tarde contigo.
Se me dás essa chance
tira o trinco da porta e
cancela o restante:
espera-me disposta
para o jogo da dama:

nove vezes, na cama.


A idéia te inflama?
Então, basta de dúvida!
Almoçado a regalo, reclinado em decúbito,
aqui estou,
como falo:

-perfuro túnica e pálio!


Outras traduções: José Paulo Paes, Nelson Ascher, João Angelo Oliva Neto.

terça-feira, maio 22, 2007

Catulo, 41

Ameana, menina tão fodida,
cobrou-me dez mil muito bem contados,
essa tal de nariz todo disforme,
amante do falido Formiano.
Ó parentes, que tendes seu cuidado,
amigos, médicos, mandai vir todos!
Não é sã a menina nem costuma
diante do espelho enxergar-se como é.

(Tradução de João Angelo Oliva Neto)

quinta-feira, maio 17, 2007

Catulo, 3

Podeis chorar, ó Vênus, ó Cupidos,
e quantos homens mais sensíveis vivam:
Morreu o pássaro de minha amiga,
o pássaro, delícias da menina,
que bem mais que seus olhos ela amava,
pois era mel e tanto a conhecia
quanto a filha conhece a própria mãe
e de seu colo nunca se movia
mas saltitando em torno aqui e ali
somente a ela sempre pipiava.
Agora vai por via escura lá
de onde, dizem, ninguém voltou jamais.
Ah! malditas, vós, trevas más do Orco
que devorais as belas coisas todas:
um pássaro tão belo me roubastes.
Ah, que maldade! Ah, pobre passarinho!
Por tua culpa os olhinhos dela estão
vermelhos e inchadinhos de chorar.

(Tradução de João Angelo Oliva Neto)

Catulo, 2

Pássaro, delícias de minha amiga --
com quem brincar e ter no colo, a quem
no ataque dar a ponta dos dedinhos
e acres dentadas incitar costuma
quando lhe apraz ao meu desejo ardente
um capricho, um gracejo preparar,
não sei qual, só um consolo à sua dor,
creio, para acalmar o ardor assim --
pudesse eu como ela brincar contigo
e a mente esquecer pensamentos tristes!
Para mim é tão bom quanto à menina
veloz se diz que foi a maçã de ouro
que o cinto atado há muito enfim soltou.
(Trad. de João Ângelo Oliva Neto)

Poema 2B
Tão caro a mim quanto à moça
de pernas ágeis (dizem)
a maçã de ouro
graças à qual desatou a cintura
longamente ligada.
(Trad. de Haroldo de Campos)



sábado, maio 12, 2007

Catulo,93

Não ligo a mínima, César,
Se estou mal em seu conceito.
Nem mesmo quero saber
Se você é branco ou preto.
(Tradução de José Dejalma Dezotti)


Não faço o mínimo, César, para te agradar.
Nem quero o saber se és branco ou preto.
(Tradução de Haroldo de Campos)

Pouco me importa, César, querer te agradar,
nem quero saber se és Grego ou Troiano.
(Tradução de João Angelo Oliva Neto)

Catulo,70

Minha mulher me diz que com ninguém se casa
menos eu, nem se Júpiter pedir.
Diz. Mas o que a mulher diz ao amante ardente
convém escrever no vento e na água rápida.
(Tradução de João Angelo Oliva Neto)


Com ninguém, diz minha amada,
Só comigo quer unir-se,
Ainda que o próprio Júpiter
A procurasse e pedisse.

Ela o diz; mas o que diz
A mulher ao louco amante,
Convém escrever no vento
Ou na rápida vazante.
(Tradução de José Dejalma Dezotti)

Catulo, 32

Amabo, mea dulcis Ipsitilla,
meae deliciae, mei lepores,
iube ad te veniam meridiatum.
Et si iusseris, illud adivuato,
ne quis liminis obseret tabellam,
neu tibi lubeat foras abire,
sed domi maneas paresque nobis
novem continuas fututiones.
Verum si quid ages, statim iubeto:
nam pransus iaceo et satur supinus
pertundo tunicamque palliumque.

Eu te peço, minha doce Ipsistila,
Delícia e encanto deste meu viver:
Convida-me a passar contigo a sesta.
Caso me convidares, cuida bem
De que não ponham tranca em tua porta
E não te dê vontade de sair.
Fica em casa, tranqüila, preparando-te
Para nove trepadas sucessivas.
Se preferires, vou agora mesmo:
Almocei bem e ora farto, ressupino,
Furo, de impaciência, túnica e toga.
(Tradução de José Paulo Paes)


Peço, minha boa Hipsistila,
minhas delícias, meus encantos, pede
que eu vá dormir junto contigo a sesta.
E se pedires cuida disto: que outro
não introduza entraves na portinha
nem queiras tu sair por aí fora.
Mas fica em casa, preparando para
nós umas nove contínuas trepadas.
E se algo fores fazer, chama logo,
que almoçado, deitado, e satisfeito,
tanto túnica eu furo quanto o manto.
(Tradução de João Angelo Oliva neto)

sexta-feira, maio 11, 2007

Catulo, 30

Alfene immemor atque unanimis false sodalibus,
iam te nil miseret, dure, tui dulcis amiculi?
iam me prodere, iam non dubitas fallere, perfide?
nec facta impia fallacum hominum caelicolis placent.
quae tu neglegis ac me miserum deseris in malis.
eheu quid faciant, dic, homines cuiue habeant fidem?
certe tute iubebas animam tradere, inique, me
inducens in amorem, quasi tuta omnia mi forent.
idem nunc retrahis te ac tua dicta omnia factaque
uentos irrita ferre ac nebulas aereas sinis.
si tu oblitus es, at di meminerunt, meminit Fides,
quae te ut paeniteat postmodo facti faciet tui.

Alfeno, que esqueces e enganas parceiros unânimes,
já não sentes dó, ó cruel, de teu bom doce amigo?
Trair-me, enganar-me já não imaginas, ó pérfido?
As ímpias ações dos mortais não deleitam celícolas
e tu os ignoras e em males me largas tão mísero.
Mas diz, o que façam os homens, em quem tenham fé?
Perverso, decerto ordenavas-me a alma vender,
levando-me a esse amor como se fosse seguro
e agora sais fora e teus ditos e todos os teus feitos
permites que os ventos e as névoas os levem em vão.
Se tu já esqueceste, os deuses se lembram, se lembra
a Fé, que fará que teu feito te cause remorsos.

(Tradução de João Angelo Oliva Neto)

Catulo, 73

Desine de quoquam quicquam bene velle mereri
aut aliquem fieri posse putare pium.
Omnia sunt ingrata, nihil fecisse benigne
prodest, immo etiam taedet obestque magis;
ut mihi, quem nemo gravius nec acerbius urget,
quam modo qui me unum atque unicum amicum habuit.

Desiste de querer de alguém merecer algo
ou crer que alguém será reconhecido.
É tudo ingratidão, em nada é bom ter feito o
bem, não! Dá tédio, mais: faz mal qual fez
comigo, a quem ninguém mais grave e fundo fere
que aquele que só eu de amigo teve e único.

Comentários

-Embora não nomeado, acredita-se que o destinatário seja Marco Célio Rufo, que outrora tinha sido amigo do poeta. A queixa ou a imprecação, como aqui, dirigida a quem fora amigo é tópica e remonta a Arquíloco de Paros, frag.79
-desiste: Apóstrofe ao leitor.
-reconhecido: No original, pium. impios - Um beneficium implica um referre gratiam, "agradecer" e alguém que não seja reconhecido não é pio.

(Tradução e comentários de João Angelo Oliva Neto)

sábado, abril 28, 2007

Catulo, 8

Infeliz Catulo, deixa de loucura
e o que pereceu considera perdido.
Outrora brilharam-te dourados sóis
Quando ias aonde levava a menina
amada por nós como ninguém será;
lá muitos deleites havia que tu
querias bem, e ela não queria mal.
É certo, brilharam-te dourados sóis...
Agora ela não quer: Tu, louco, não queiras
nem busques quem foge nem vivas aflito,
porém duramente suporta, resiste.
Vai,menina, adeus, Catulo já resiste,
não vai te implorar nem à força exigir-te
mas quando ninguém te quiser vais sofrer.
Ai de ti, maldita, que vida te resta?
Pois quem vai te ver? P'ra quem te enfeitarás?
E quem vais amar? De quem dirás que és?
Quem hás de beijar? Que lábios vais morder?
Mas tu, Catulo, resoluto, resiste.

Tradução: João Angelo Oliva Neto