domingo, junho 28, 2026
Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro - Cecília Meireles
sábado, junho 27, 2026
Telefonema para João Ângelo
Hoje pensei o dia inteiro em te ligar
porque tive vontade de te ouvir
a sua pressa, a sua ansiedade e a sua urgência
ao telefone, e claro, você,
o que está fazendo e tal,
e as lições do professor de poesia, a quem
sempre releva perguntar o que está lendo.
Porque você tem seu Catulo, seu Horácio,
seu Plínio Jovem,
a remediar -- e sejamos
positivos, preencher --
a vaga do tempo incompreensível.
E eu te contaria que andei lendo
a biografia de Petrarca.
E você, com seus livros,
com seus clássicos e urgência,
repõe as letras no sentido das coisas,
quando, amigo e professor,
traz os poetas da Roma velha e cansada
para passear nas ruas da Santa Cecília,
Angélica, Consolação.
E eu te diria que Petrarca,
tão alto poeta,
viveu mergulhado em ninharias, como nós,
doce consolo.
E minha amiga sempre diz
dos encontros que havia antes
e não há mais
-- e eu me lembro
de você
e de seu sonoro nome em minha agenda
e penso que estamos aqui
e também nos encontramos
e almoçamos na cidade poluída
defendendo nosso Horácio
no fundo do bolso.
Iuri Pereira
in: Parte de Tudo. São Paulo: Hedra, 2025.
domingo, junho 21, 2026
Otávio Guimarães Tavares
O que essa rua diz sobre a lua?
diz nada
diz correria
diz dessa luz estranha
que brilha no asfalto
besteiras
e ainda grita
sob o para-brisa dos carros
canções enevoadas
e apelos ao vento
dos corpos mecânicos
deixados pra trás
--------
O mundo
essa loucura que nos toca
tece trepa e joga
nosso cadáver pela vala
e acha
que ainda
em algum momento
devemos algum tipo de honraria
resta
pela esquina
sem pensar
jogar o mundo
devagar
--------------
Fonte: Tavares, Otávio Guimarães. Entre Marés. Cotia: Urutau, 2025.
sexta-feira, junho 05, 2026
Li Bai - Bebendo sozinho sob a lua (3 traduções)
virar sozinho sem mais companhia
Erguer o copo à lua reluzente
e mais a sombra agora somos três
Contanto a lua não saiba beber
e em vão a sombra me devolva o corpo
por um momento seguem lua e sombra
Todo o prazer é só uma primavera
Eu canto e a lua flana tremulando
Danço e se soma a sombra redobrando-se
Despertos dividimos alegria
depois de ébrios cada qual um caminho
Até não mais, desfeitos nós se apartam
rever-se um dia pela Via Láctea
Tradução de Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao in: n Antologia de Poesia Clássica Chinesa - Dinastia Tang, São Paulo: Editora da Unesp. 2013
Ergo entre as flores um copo de vinho
e convido o luar
Acabo também por convidar
a minha sombra.
Mas a lua não sabe beber.
e a minha sombra não me consegue acompanhar.
Companheiros de um instante.
– a lua a minha sombra e eu – vamos brindar.
à primavera..
Enquanto canto a lua vagueia.
Enquanto danço a minha sombra desespera.
Esqueçamos tudo enquanto estivermos a beber.
Que cada um se afaste.
quando o dia chegar.
Na longínqua Via Láctea.
mais cedo ou mais tarde.
nos voltaremos a encontrar.
Tradução de Sérgio Capparelli e Sun Yuqi. in: Poemas Clássicos Chineses. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2016.
quinta-feira, junho 04, 2026
À Maneira de G.S.
No Pélion em meio às castanheiras a camisa do Centauro
deslizava entre as folhas para vir enrolar-se no meu corpo
um vem de Salamina e quer saber de um outro se ele "vem da Omônia"
cadeias de montanhas, arquipélagos, grandes escalavrados.
Στο Πήλιο μέσα στις καστανιές το πουκάμισο του Κενταύρου
γλιστρούσε μέσα στα φύλλα για να τυλιχτεί στο κορμί μου
καθώς ανέβαινα την ανηφόρα κι η θάλασσα μ’ ακολουθούσε
ανεβαίνοντας κι αυτή σαν τον υδράργυρο θερμομέτρου
ώσπου να βρούμε τα νερά του βουνού.
Στη Σαντορίνη αγγίζοντας νησιά που βουλιάζαν
ακούγοντας να παίζει ένα σουραύλι κάπου στις αλαφρόπετρες
μου κάρφωσε το χέρι στην κουπαστή
μια σαΐτα τιναγμένη ξαφνικά
από τα πέρατα μιας νιότης βασιλεμένης.
Στις Μυκήνες σήκωσα τις μεγάλες πέτρες και τους θησαυρούς των Ατρειδών
και πλάγιασα μαζί τους στο ξενοδοχείο της «Ωραίας Ελένης του Μενελάου»·
χάθηκαν μόνο την αυγή που λάλησε η Κασσάντρα
μ’ έναν κόκορα κρεμασμένο στο μαύρο λαιμό της.
Στις Σπέτσες στον Πόρο και στη Μύκονο
με χτίκιασαν οι βαρκαρόλες.
Τί θέλουν όλοι αυτοί που λένε
πως βρίσκουνται στην Αθήνα ή στον Πειραιά;
Ο ένας έρχεται από τη Σαλαμίνα και ρωτάει τον άλλο μήπως «έρχεται εξ Ομονοίας»
«Όχι έρχομαι εκ Συντάγματος» απαντά κι είν’ ευχαριστημένος1
«βρήκα το Γιάννη και με κέρασε ένα παγωτό».
Στο μεταξύ η Ελλάδα ταξιδεύει
δεν ξέρουμε τίποτε δεν ξέρουμε πως είμαστε ξέμπαρκοι όλοι εμείς
δεν ξέρουμε την πίκρα του λιμανιού σαν ταξιδεύουν όλα τα καράβια·
περιγελάμε εκείνους που τη νιώθουν.
Παράξενος κόσμος που λέει πως βρίσκεται στην Αττική και δε βρίσκεται πουθενά·
αγοράζουν κουφέτα για να παντρευτούνε
κρατούν «σωσίτριχα» φωτογραφίζουνται
ο άνθρωπος πού ειδα σήμερα καθισμένος σ’ ένα φόντο με πιτσούνια και με λουλούδια
δέχουνταν το χέρι του γερο-φωτογράφου να του στρώνει τις ρυτίδες
που είχαν αφήσει στο πρόσωπό του
όλα τα πετεινά τ’ ουρανού.
Στο μεταξύ η Ελλάδα ταξιδεύει ολοένα ταξιδεύει
κι αν «ὁρῶμεν ἀνθοῦν πέλαγος Αἰγαῖον νεκροῖς»
είναι εκείνοι που θέλησαν να πιάσουν το μεγάλο καράβι με το κολύμπι
εκείνοι που βαρέθηκαν να περιμένουν τα καράβια που δεν μπορούν να κινήσουν
την ΕΛΣΗ τη ΣΑΜΟΘΡΑΚΗ τον ΑΜΒΡΑΚΙΚΟ.
Σφυρίζουν τα καράβια τώρα που βραδιάζει στον Πειραιά
σφυρίζουν ολοένα σφυρίζουν μα δεν κουνιέται κανένας αργάτης
καμιά αλυσίδα δεν έλαμψε βρεμένη στο στερνό φως που βασιλεύει
ο καπετάνιος μένει μαρμαρωμένος μες στ’ άσπρα και στα χρυσά.
Όπου και να ταξιδέψω η Ελλάδα με πληγώνει·
παραπετάσματα βουνών αρχιπέλαγα γυμνοί γρανίτες…
Το καράβι που ταξιδεύει το λένε ΑΓ ΩΝΙΑ 937.
Α/π Αυλίς, περιμένοντας να ξεκινήσει.
Καλοκαίρι 1936
sábado, maio 30, 2026
Robert Bolaño - Dois Poemas para Lautaro Bolaño
sexta-feira, maio 29, 2026
Li Bai - Adeus a Meng Haoran
A oeste do pavilhão da Grua Amarela,
despedimo-nos, velho amigo.
Entre as flores e a bruma de março,
desces rumo à aldeia de Yang.
A vaga silhueta em tua solitária vela
desaparece no espaço esmeralda,
e só resta o Grande Rio
a correr para os confins do céu.
Tradução de Sérgio Capparelli e Sun Yuqi. in: Poemas Clássicos Chineses. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2016.
segunda-feira, abril 20, 2026
Poema de Morte - Yukio Mishima (Trad. Renan Kenji Sales Hayashi)
Venta a tormenta,
terça-feira, março 24, 2026
O Primeiro Degrau - Konstantinos Kaváfis
quinta-feira, março 19, 2026
Shakespeare - Soneto 116
De almas sinceras, pois não é amor
O amor que muda ao sabor do momento
E se move e remove em desamor.
Oh, não, o amor é marca mais constante
Que enfrenta a tempestade e não balança,
É a estrela-guia dos batéis errantes,
Cujo valor lá no alto não se alcança.
O amor não é o bufão do Tempo, embora
Sua foice vá ceifando a face a fundo
O amor não muda com o passar das horas,
Mas se sustenta até o final do mundo.
Se é engano meu, e assim provado for,
Nunca escrevi, ninguém jamais amou.
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove.
O no, it is an ever fixed mark
That looks on tempests and is never shaken;
It is the star to every wand’ring bark,
Whose worth’s unknown although his height be taken.
Love’s not Time’s fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle’s compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to edge of doom.
If this be error and upon me proved,
O never writ, nor no man ever loved.
quarta-feira, março 18, 2026
Rainer Maria Rilke - O Poeta
Fonte: CAMPOS, Augusto. Coisas e Anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2020
terça-feira, março 17, 2026
Ricardo Reis
Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,
Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá.
Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?
Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?
Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
Na noite e ao fim da estrada.
Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mal as olhaste.
Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.
segunda-feira, março 16, 2026
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
Hilda Hist
I, Júbilo e Memória, Noviciado da Paixão
domingo, março 15, 2026
Hilda Hilst - XI, Trovas de Muito Amor para um Amado Senhor
Amor tão grande
Morrer não há de.
Mais cobiçado.
sábado, março 14, 2026
Hilda Hilst
As asas não se concretizam.
Terríveis e pequenas circunstâncias
Transformam claridades, asas, grito
Em labirinto de exígua ressonância.
Os solilóquios de amor não se eternizam.
E no entanto, refaço minhas asas
Cada dia. E no entanto, invento amor
Como as crianças inventam alegria.
[18, Roteiro do Silêncio]
sexta-feira, março 13, 2026
Porto Alegre Blues - Pedro Gonzaga
(...)
e não demora estou diante da igreja
de nossa senhora das dores --
inclino meu pescoço para cima
finco os pés no primeiro degrau
da escadaria que se estende feito um muro
erguido numa diagonal pixelada
e não tenho amparo contra sua beleza
e alguma coisa em mim
há muito contida
rompe minha valerosa armadura
e subo os degraus sozinho
(os cães se sabem desnecessários)
e isto não é apenas um blues --
meus olhos ardem e
alguma coisa feito um blues
feito umidade quente flui
extraída à força pelas arcadas brancas
pelo círculo ao topo da fachada
quero chamar de patético o soluço
mas o soluço é mais rápido que a retórica
meus pés sobem mais dois lances
e depois mais dois e talvez o erro
seja acreditar em um sentido
esperar por um milagre no refrão
quando os pés não esperam nada
ladeira abaixo na madrugada
escada acima agora eles fluem
em direção à balaustrada de pedra
até que desprovido de todas as preces usuais
aquele que era incapaz de crer
crê
na beleza que flui --
a beleza
e minhas lágrimas
finalmente
fluem.
quinta-feira, março 12, 2026
Lírica Trovadoresca Alemã
Tu és meu, sou tua também,
cuida disso e lembra bem.
No meu coração
permaneces trancado
-- perdida está a chavezinha,
de lá não serás livrado.
Canção Anônima Trovadoresca Alemã. Tradução de J.Carlos Teixeira in: O Ramo de Tília. Poesia Trovadoresca Alemã dos Séculos XII e XIII.
quarta-feira, março 11, 2026
Nóssis (Antologia Palatina, 9, 332)
Tradução de Clara Sperb
Fonte: ANTUNES, CLB; BARACAT JR., J.C.; BRUNHARA, R. Cadernos de Tradução 44: Flores da Antologia Grega. Porto Alegre: RS, IL/UFRGS.
terça-feira, março 10, 2026
Arquíloco, 128 W: Coração, Coração...
†ἀναδευ δυσμενῶν† δ’ ἀλέξεο προσβαλὼν ἐναντίον
στέρνον †ἐνδοκοισιν ἐχθρῶν πλησίον κατασταθεὶς
ἀσφαλέως· καὶ μήτε νικέων ἀμφάδην ἀγάλλεο,
μηδὲ νικηθεὶς ἐν οἴκωι καταπεσὼν ὀδύρεο, 5
ἀλλὰ χαρτοῖσίν τε χαῖρε καὶ κακοῖσιν ἀσχάλα
μὴ λίην, γίνωσκε δ’ οἷος ῥυσμὸς ἀνθρώπους ἔχει.
levanta, protege-te dos oponentes, volvendo adverso
peito, nas emboscadas inimigas próximo postado
firme; e vencendo, não exultes abertamente,
nem vencido, em casa caído lamentes, 5
mas com alegrias alegra-te e deplora males,
sem excesso: aprende que ritmo rege a humanidade.
Tradução: Rafael Brunhara
Fonte: Brunhara, R.; Ragusa, G. Elegia Grega Arcaica: uma antologia. São Paulo: Mnema/Ateliê, 2021.
segunda-feira, março 09, 2026
Inspiração
Os meus amores são flores feitas de original!...
Arlequinal!...Traje de losangos...Cinza e ouro...
Luz e bruma...Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paris...Arys!
Bofetadas líricas no Trianon...Algodoal!...
São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América!
Mário de Andrade in: Pauliceia Desvairada, 1922.
domingo, março 08, 2026
Paul Valéry - O Vinho Perdido (Trad. Nelson Ascher)
joguei, malgrado mal lembrar
quando é que foi ou sob qual céu,
gotas de vinho raro ao mar.
Quem quis, licor, ver-te desfeito?
Seguia eu ordens do adivinho?
Talvez o anseio que, em meu peito,
sonhava sangue ao verter vinho?
Um vapor róseo ergueu-se até
que, pura, o mar reouve tal qual
sua transparência habitual:
perdido o vinho, ébria a maré!...
Vi no ar amargo mais e mais
formas lançarem-se abissais...
Tradução de Nelson Ascher in "Um Pouco de Tudo". Link: Folha de S.Paulo - Nelson Ascher: Um Pouco de Tudo - 11/09/2006. [Acessado em 27 de fevereiro de 2026]
sábado, março 07, 2026
Biodiversidade - Paulo Henriques Britto
Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,
que não requerem prática, oficina, suor.
Maneiras mais simpáticas de pagar mico
e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor.
Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo,
como há quem não se vexe de ler e decifrar
essas palavras bestas estrebuchando inúteis,
cágados com as quatro patas viradas pro ar.
Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,
de repente é mais que isso, é uma voz, talvez,
do outro lado da linha formigando de estática,
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,
câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,
incapazes de reassumir a posição natural,
não são na verdade uma outra forma de vida,
tipo um ramo alternativo do reino animal?
sexta-feira, março 06, 2026
Animula Vagula Blandula - Tradução de Ivan P. de Arruda Campos
amiga corpórea para onde agora?
lugares pálidos gélidos lunares...e
não mais nos dás logojogos.
quinta-feira, março 05, 2026
OP.CIT., PP.164-165 (Paulo Henriques Britto)
uma tensão entre a necessidade
quarta-feira, março 04, 2026
Ovídio - Amores 1, 1 - Tradução de Raimundo Carvalho
Fonte: CARVALHO, Raimundo. Metamorfoses em Tradução. Relatório de pós-doutoramento. São Paulo: DLCV/FFLCH/USP, 2010.
terça-feira, março 03, 2026
George Trakl - "O Sol"
O SOL
Serra acima o sol diário surge fulvo.
Formoso é o bosque, a fera escura,
E, cace ou pastoreie, o homem.
O peixe da água verde assoma rubro.
Debaixo do céu côncavo,
O pescador, num barco azul, desliza.
A uva sazona, e o trigo.
Conforme o dia plácido se encerra,
Algo de bom se engendra e algo de ruim.
Chegada a noite,
O forasteiro soergue pálpebras pesadas;
Sombrio abismo afora o sol irrompe.
segunda-feira, março 02, 2026
Catulo 3 - Trad. Trajano Vieira
Morreu o pássaro de minha amiga,
Não se afastava de seu colo, mas
Pobre pardal! Agora os olhinhos
domingo, março 01, 2026
Catulo, 2 - Trad. Trajano Vieira
Pássaro, distração do meu amor,
Fonte: Catulo e Horácio, uma Antologia. São Paulo: Ateliê, 2025.
sábado, fevereiro 28, 2026
[Platão] - Antologia Palatina
CORPO CELESTE
Astro diurno que, em vida, ofuscava os mortais -és, morto, o astro da tarde e deslumbras as sombras.
sexta-feira, fevereiro 27, 2026
Atena louva Odisseu (Odisseia, 13, 291-301)
quinta-feira, fevereiro 26, 2026
"Troianos", Konstantinos Kaváfis - Trad. José Paulo Paes
nossos esforços, como os dos troianos.
Algum êxito obtido, alguma empresa
assumida, e eis que começamos
a encher-nos de esperanças, de coragem.
Algo surge, porém, que nos irá deter.
Emerge Aquiles da trincheira à nossa frente
Mas quando o instante decisivo chega,
quarta-feira, fevereiro 25, 2026
Drummond - Apelo aos meus dessemelhantes em favor da paz
para ler, para corrigir, para louvar
Fonte: DRUMMOND, C.D.A. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Record, 2001.
terça-feira, fevereiro 24, 2026
Yosa Buson - Traduções de Olga Savary
Um bando de pequenos pardais
Chuva de primavera:
Há um halo em torno da lua.
Preferimos a do primeiro porque a sugestão -- quase mágica -- é maior.
Menina muda,
Sobre o sino do templo
Aqui e acolá
Um caranguejo:
N.T. O tempo aparece para nós como que parado, eternizado, através da visão do caranguejo imóvel sobre o céu sem nuvens.
Lavrando o campo:
As flores me enlouqueceram:
N.T. A beleza da natureza supera os artifícios da corte.
Casal de patos.
O crisântemo amarelo
Chegado para ver as flores,
Ontem um vôo,
Lavrando o campo
A cerejeira florida
N.T. Este hai-kai tem influência budista em seu conteúdo. A contemplação da natureza exalta e transforma as coisas.
Em círculo rodam
Nadando sob a água mais e mais
Amarelas couves em flor
O ruído
Armazéns e atrás um caminho
Capulhos na pereira
Primavera que parte
Sinto um agudo frio:
A noite passou rápida:
N.T. Estes três últimos hai-kais sobre o mesmo tema constituem um tríptico conhecido por sua força lírica.
segunda-feira, fevereiro 23, 2026
Canções de Bilítis, Pierre Louÿs - Tradução de Guilherme de Almeida
CANTO PASTORAL
Devo cantar um canto pastoral, invocar Pan, deus dos ventos do estio. Guardo o meu rebanho, e Selenis o seu, à sombra redonda de uma oliveira trêmula.
Selenis está deitada na relva. Ela ergue-se e corre, ou procura cigarras, ou colhe flores e verduras, ou lava o rosto na água fresca do regato.
Arranco a lã ao dorso louro dos carneiros, para prover à minha roca -- e fio. As horas são lentas. Uma águia passa no céu.
A sombra gira; mudemos de lugar o cabaz de flores e a jarra de leite. Devo cantar um canto pastoral, invocar Pan, deus dos ventos do estio.
CHANT PASTORAL
Il faut chanter un chant pastoral, invoquer Pan, dieu du vent d’été. Je garde mon troupeau et Sélénis le sien, à l’ombre ronde d’un olivier qui tremble.
Sélénis est couchée sur le pré. Elle se lève et court, ou cherche des cigales, ou cueille des fleurs avec des herbes, ou lave son visage dans l’eau fraîche du ruisseau.
Moi, j’arrache la laine au dos blond des moutons pour en garnir ma quenouille, et je file. Les heures sont lentes. Un aigle passe dans le ciel.
L’ombre tourne : changeons de place la corbeille de figues et la jarre de lait. Il faut chanter un chant pastoral, invoquer Pan, dieu du vent d’été.
***
PALAVRAS MATERNAIS
Minha mãe banha-me no escuro, veste-me ao sol a pino e penteia-me na luz; mas quando saio ao luar, ela aperta-me o cinto e faz um nó duplo.
Ela me diz: "Brinca com as virgens, dansa com as criancinhas; não olhes pela janela; evita a palavra dos rapazes e teme o conselho das viúvas.
"Uma noite, alguém, como acontece a todas, virá buscar-te à soleira da porta, com um grande cortejo de tímpanos sonoros e flautas amorosas.
"Nessa noite, quando partires, Bilítis, tu me deixarás três odres de fel: um para a manhã, outro para o meio-dia, e o terceiro -- o mais amargo -- o terceiro para os dias de festa".
PAROLES MATERNELLES
Ma mère me baigne dans l’obscurité, elle m’habille au grand soleil et me coiffe dans la lumière ; mais si je sors au clair de lune, elle serre ma ceinture et fait un double nœud.
Elle me dit : « Joue avec les vierges, danse avec les petits enfants ; ne regarde pas par la fenêtre ; fuis la parole des jeunes hommes et redoute le conseil des veuves.
« Un soir, quelqu’un, comme pour toutes, te viendra prendre sur le seuil au milieu d’un grand cortège de tympanons sonores et de flûtes amoureuses.
« Ce soir-là, quand tu t’en iras, Bilitô, tu me laisseras trois gourdes de fiel : une pour le matin, une pour le midi, et la troisième, la plus amère, la troisième pour les jours de fête. »
***
OS PÉS DESCALÇOS
Tenho cabelos negros, soltos pelas costas, e um pequeno barrete redondo. Minha camisa é de lã branca. Minhas pernas firmes tisnam-se ao sol.
Se eu morasse na cidade, teria jóias de ouro, e camisas douradas, e sapatos de prata...Olho para meus pés nus, calçados de poeira.
Psophis! vem cá, minha pobrezinha! leva-me até as fontes, lava-me os pés nas tuas mãos, e esmaga olivas com violetas para perfumá-los sobre as flores.
Hoje, serás minha escrava. Hás de seguir-me e servir-me, e ao fim do dia dar-te-ei lentilhas do jardim de minha mãe, para a tua.
LES PIEDS NUS
J’ai les cheveux noirs, le long de mon dos, et une petite calotte ronde. Ma chemise est de laine blanche. Mes jambes fermes brunissent au soleil.
Si j’habitais la ville, j’aurais des bijoux d’or, et des chemises dorées et des souliers d’argent… Je regarde mes pieds nus, dans leurs souliers de poussière.
Psophis ! viens ici, petite pauvre ! porte-moi jusqu’aux sources, lave mes pieds dans tes mains et presse des olives avec des violettes pour les parfumer sur les fleurs.
Tu seras aujourd’hui mon esclave ; tu me suivras et tu me serviras, et à la fin de la journée je te donnerai, pour ta mère, des lentilles du jardin de la mienne.
Fonte: Guilherme de Almeida (trad.) Pierre Louÿs. O Amor de Bilítis. Rio de Janeiro: José Olympio, 1948.


