segunda-feira, dezembro 21, 2020
Epitáfio para um cão (IG 14.2128)
domingo, dezembro 20, 2020
Antologia Palatina - Epigramas Cristãos
Sobre o Nascimento de Cristo
(1.37)
Trombetas e relâmpagos: a terra
treme.
Mas desceste em silêncio ao
ventre virgem.
Sobre o mesmo assunto (1.38)
A manjedoura é o Céu, é até maior
que o Céu:
o Céu é obra deste bebê.
Sobre o mesmo assunto (1.39)
Um só coro, um só canto, para
homens e anjos:
homem e Deus fizeram-se um só.
Sobre o mesmo assunto (1.40)
A manjedoura é o Céu, é até maior
que o Céu:
pois foi ela que acolheu o Rei dos
celestes.
Sobre os magos (1.41)
Não mais os magos levam presentes
ao fogo e ao sol:
este recém-nascido fez o sol e o brilho do
fogo.
Sobre a Anunciação (1.44)
Salve, grácil donzela, mais
venturosa, noiva imaculada:
terás em teu ventre o filho de Deus,
concebido sem pai.
[Tradução: Rafael Brunhara]
segunda-feira, novembro 23, 2020
Nukata no Okimi - tr. Haroldo de Campos
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| "Princesa Nukata", 1909 de Kajita Hanko (1870-1917) |
KOI
Entre os irmãos rivais
Imperadores Tenmu e Tenji
a Princesa Nukata
poeta e maga
com seus olhos de outono
nostálgicos da visão do Monte Miwa
brilha indecisa
como um brocado de prata
na seda evasiva ao tacto
TRANSPOSIÇÕES
Man'yoshu 1:16
do casulo do inverno
sai a primavera
aves que não cantavam
cantam agora
flores que não floriam
agora florescem
no flanco da montanha
difícil colher flores
difícil escolhê-las
onde a relva é espessa
no outono: sou eu mesma.
posso vê-las
as folhas vermelhas
vê-las e colhê-las
deixo apenas as verdes
nas árvores com pena
- meu pesar é só este -
no outono: sou eu mesma.
Man'yoshu 1:17
aprazível como sakê
o Monte Miwa
alegria da encosta azul-verde
até que se esvaeça
entre as colinas de Nara
a ondulante:
para além das voltas
sem conta do caminho
vou indo e sem cessar
me volto para vê-lo
uma vez outra vez
volto o olhar distante
nuvens sem coração
que discórdia vos leva
a ocultá-lo de mim?
Man'yoshu 1:18
assim o Monte Miwa
se oculta
de mim:
nuvens de coração cordato
é sensato ocultá-lo?
Man'yoshu 1:20
passeavas pela púrpura
dos campos de violetas
passeavas pelo parque proibido:
os guardas da campina terão visto
que acenavas para mim com tua manga?
FONTE: CAMPOS, Haroldo de. "Nukata no Okimi: a princess poet and magician in the Man'yoshu" in Miner, Earl & Dev, Amiya (orgs.) The renewal of song: renovation in lyric conception and practice. Calcutta: Seagull books, 2000.
segunda-feira, maio 04, 2020
terça-feira, abril 28, 2020
Mário de Andrade/Amy Lowell - "Delfim na água azul"
Água azul
Água rósea
Turbilhona, pincha, flutua
focinha no vácuo da vaga
mergulha, volteia
encurva por baixo
por cima
Corte de navalha e se afunda
rola, revira
erecta-se e espirra no céu
todo rosadas, flamantes gotinhas
Anela-se no fundo
pingo
focinho para baixo
curva
cauda
mergulha
e se vai
Como bolhas leves de água azulada
leve, oleoso cobalto
coleante, líquido lápis-lazúli
cambiantes esmeraldinas
pinceladas de róseo e amarelo
escorregões prismáticos
sob o céu de ventania...
Tradução de Mário de Andrade (in: A Escrava que não é Isaura, 1928)
Hey! Crackerjack—jump!
Blue water,
Pink water,
Swirl, flick, flitter;
Snout into a wave-trough,
Plunge, curl.
Bow over,
Under,
Razor-cut and tumble.
Roll, turn—
Straight—and shoot at the sky,
All rose-flame drippings.
Down ring,
Drop,
Nose under,
Hoop,
Tail,
Dive,
And gone;
With smooth over-swirlings of blue water,
Oil-smooth cobalt,
Slipping, liquid lapis lazuli,
Emerald shadings,
Tintings of pink and ochre.
Prismatic slidings
Underneath a windy sky.
segunda-feira, março 16, 2020
Sólon, frs. 25 e 26
Plutarco, Amatório, 5.751b
Muito boa, por Zeus, – ele disse – esta menção a Sólon; ele nos serve de expoente para o homem erótico:
Até amar um menino com a flor da sedutora juventude
desejando suas coxas e sua doce boca....
Fragmento 26
Plutarco, Amatório, 5.751e
Daí eu acho que Sólon escreveu esses versos (fragmento 25) quando ainda era novo e “repleto de muito sêmen”, como diz Platão (Leis, 8, 839b), e estes quando havia se tornado ancião:
Feitos da Ciprígena* ora me são caros, de Dioniso
e das Musas, que aos homens dão alegria.
*Afrodite, a nascida em Chipre.
domingo, março 01, 2020
Lendo Homero em tradução no século XIX
* José Agostinho de Macedo (1761-1830) foi um padre e poeta português. Autor de vasta obra e figura bastante controversa em seu tempo, ficou na verdade mais conhecido como intenso crítico de Camões, ao qual tentou corrigir com seu próprio poema épico, Oriente (1814) e uma alentada Censura das Lusíadas (1820).
sábado, fevereiro 29, 2020
Os Filhos de Tupã - José de Alencar
I
Ao deserto, minh'alma! Sôbre os píncaros
Da branca penedia, e enquanto o vento
Nos antros da montanha ulula e brame,
Solte a rude pocema o canto fero
Dos filhos de Tupã. E ruja a inúbia
Troando pela várzea os sons bravios.
II
Salve, Amazonas! Rei dos reis das águas,
Iumuí dos rios, filhos do dilúvio!
Mar, que do bôjo golfas tantos mares,
Fonte do abismo que sorveu a América,
E mais tarde, -quem sabe? -há de sumi-la.
Salve, Amazonas! Como o sol és único,
Gigante, que o maior dos oceanos
Gerou nos flancos da maior montanha!
Monstro vorace, o mundo tragarias
Se Deus, te sofreando a fúria indômita,
Não curvara em princípio o vasto Atlântico,
E só para contar-te a imensidade.
És origem do líquido elemento
Que circunda o universo? Es tu que pejas
Do pélago sem fim as profundezas,
Onde matam a sêde o céu e a terra?
És pai das ondas, ou tirano delas?
Colosso ingente, que fundiu em águas
O verbo de um artista onipotente,
A cabeça reclina sôbre os Andes
Ao céu rasgando as largas cataratas;
O dorso enorme ressupino estendes
Pela terra que verga com teu pêso;
Os mil braços, que alongas pelas serras,
Abrangem tanto espaço que outros mundos
Couberam inda neste mundo nôvo,
Feito para teu berço. Com desprêzo
Aos pés o colo esmagas do oceano,
Que mugindo se roja pelas praias;
Mas prostrado e vencido, não vassalo,
O mar soberano às vêzes se revolta.
Alçada a fronte, a juba desgrenhada,
S'eriça e raia e ruge e ronca e troa;
E a longa, imensa cauda destorcendo,
Te enlaça o corpo no impotente esfôrço.
segunda-feira, fevereiro 17, 2020
Hipônax, fragmento 39
se não me entregares agora mesmo um alqueire
de cevada, para eu fazer dos grãos
uma bebida que cure meu sofrimento.
κακοῖσι δώσω τὴν πολύστονον ψυχήν,
ἢν μὴ ἀποπέμψηις ὡς τάχιστά μοι κριθέων
μέδιμνον, ὡς ἂν ἀλφίτων ποιήσωμαι
κυκεῶνα πίνειν φάρμακον πονηρίης.
Trad. Rafael Brunhara



