sexta-feira, novembro 19, 2021

Catulo, Poema 1

 


Este poema poderia ser entendido como uma abertura a um livro de poemas de Catulo. Entretanto, não sabemos ao certo como tal livro estava estruturado e ao que o poeta estava se referindo com a palavra libellus (livrinho). Os poemas que nos restaram podem ser divididos em três grandes grupos: os de metros variados (1-60); os poemas longos (61-68) e os poemas elegíacos (69-118). Pode-se pensar, então, que a coleção de que dispomos hoje seria a reunião de três libelli distintos. 


Pra quem dedico charmoso e novo livrinho

com seca pedra-pomes polido há pouco?

Pra você, Cornélio, pois você costumava

ver alguma coisa nas minhas ninharias,

mesmo quando ousou, único na Itália,  [5]

 explicar toda a história em três volumes

bem doutos e –meu Deus!– tão trabalhosos.

Por isso, toma pra você um mero livrinho,

qual seja seu valor;  Virgem Patrona,

que ele dure sem fim por mais de um século! [10]

[trad. Rafael Brunhara]


Cui dono lepidum novum libellum

arida modo pumice expolitum?

Corneli, tibi: namque tu solebas

meas esse aliquid putare nugas.

Iam tum, cum ausus es unus Italorum

omne aevum tribus explicare cartis . . .

Doctis, Iuppiter, et laboriosis!

Quare habe tibi quidquid hoc libelli—

qualecumque, quod, o patrona virgo,

plus uno maneat perenne saeclo!


1. lepidum novuum (“charmoso novo”) .  Palavras-chave da poética catuliana.  O poeta não está falando só da aparência do livro, mas também do conteúdo dos poemas, repletos de lepos (charme, sagacidade, elegância) e  de inovações em relação às tradições poéticas pregressas. Libellum (“livrinho”): o poeta se vale constantemente de aliterações e diminutivos. Também é palavra programática: sugere a ideia não só do formato e tamanho do livro, mas de sua brevidade.

2. "com seca pedra-pomes polido há pouco":  o livro era escrito em folhas de papiro.  Como uma folha de papiro se costurava à outra para formar o livro, havia pequenas irregularidades e era necessário lixá-lo com a pedra-pomes a fim de formar o rolo.

3. Cornélio: Cornélio Nepos, autor de poemas breves e de uma história do mundo, sucinta, em apenas três volumes (hoje perdida). Catulo teria admirado a erudição e estilo de Cornélio.

4. ninharias: traduz nugas ( nuga, -ae). Catulo é adepto de uma poética da brevidade, herdeira de uma tradição helenística. Irônico, Catulo designa aqui a ligeireza de seus versos, que se opõe ao tom grave de outros poetas. 

6. volumes: traduz Cartis (carta, -ae). Uma folha do papiro egípcio. O plural sugere várias folhas reunidas, daí a tradução por volumes.  

7. meu deus: no original, Iuppiter (Júpiter). 

9. Virgem patrona: esta é a Musa ou Palas Atena. 

10. "que ele dure sem fim por mais de um século!":   Note que a ironia se desvela aqui: ao “livrinho”, à “ninharia”, o poeta vislumbra um destino grandioso: se manter perene por mais de um século. 

sexta-feira, outubro 08, 2021

O Início do Banquete de Platão - 11 traduções



1. Albertino Pinheiro (1a edição: 1935)

Apolodoro: Não me considero desqualificado para ensinar-vos o que desejais saber. Porque ao voltar, há pouco, de Falero para Atenas, um conhecido, avistando-me por detrás, me chamou de longe e em tom de galhofa exclamou:

- Olá, Apolodoro Faléreo, por que não me esperas?

Detive-me para esperá-lo. E ele me disse:

- Apolodoro, eu andava justamente à tua procura desejoso que estava de me informar do banquete de Agaton, ao qual, entre outros, assistiram Sócrates e Alcibíades, e cujo tema escolhido para as conversações foi o amor. Alguém me narrou o que a esse respeito ouvira de Fênix, filho de FIlipe. Nada porém soube afirmar-me, ao certo, senão que tu sabias o que lá se passara. Faze-me, pois, a narrativa, tu que podes, de ciência própria, referir-me os discursos que ouviu o teu amigo. Mas antes de tudo, responde-me:

- Estiveste ou não presente, em pessoa, a essa reunião? 


2. Jorge Paleikat (1a Edição: 1945)

Creio que me acho preparado para responder acerca do que me perguntas. Com efeito, não faz muito, quando vinha de minha casa em Falera para Atenas, um de meus amigos me avistou e, aproximando-se, chamou-me com muito bom humor "-Olá, Apolodoro, homem calvo, não podes esperar-me?" Sustive a marcha e esperei. E ele continuou: - "Faz dias, caro Apolodoro, que te procuro com a intenção de saber de ti quais foram os discursos que sobre o amor pronunciaram Sócrates, Alcibíades e outros, naquela reunião de Ágaton. Uma pessoa que os ouvira de Fênix, filho de Filipe, já me falou desses discursos, e disse-me que tu também os conhecias. Não me soube ele, porém, relatá-los com clareza; por isso desejo que mos contes, pois és tu que tens a obrigação de dar notícias dos discursos do teu amigo. Porém, dize-me primeiro uma coisa: estiveste presente àquela reunião?"

3. Jaime Bruna (1963)

- Creio-me preparado para satisfazer vossa curiosidade. Com efeito, subia anteontem de minha casa em Falero para a cidade, quando um conhecido me avistou pelas costas e me chamou de longe, em tom de gracejo:

- Ó Falerense! Tu aí, de nome Apolodoro! Espera!

Eu parei e esperei. Ele, então, disse:

- Apolodoro, há pouco eu estava à tua procura; desejava informações da reunião de Agatão, Sócrates, Alcibíades e demais presentes no banquete aquele dia e saber de suas dissertações sobre o Amor. Tenho já o relato de alguém que o ouviu de Fênix, filho de Filipe; disse-me que tu também o sabias. Mas era incapaz de qualquer exatidão; conta-me, pois, tu, capacitado a reproduzir-me as palavras de teu amigo melhor do que ninguém. Antes, porém, -- lembrou ele -- dize-me: assististe àquela reunião pessoalmente ou não? 

4. José Cavalcante de Souza (1a edição: 1966)

Creio que a respeito do que quereis saber não estou sem preparo. Com efeito, subia eu há pouco à cidade, vindo de minha casa em Falero, quando um conhecido atrás de mim avistou-me e de longe me chamou, exclamando em tom de brincadeira: "Falerino! Eh, tu, Apolodoro! Não me esperas?". Parei e esperei. E ele disse-me: "Apolodoro, há pouco mesmo eu te procurava, desejando informar-me do encontro de Agatão, Sócrates, Alcibíades, e dos demais que então assistiram ao banquete, e saber dos seus discursos sobre o amor, como foram eles. Contou-nos uma outra pessoa que os tinha ouvido de Fênix, o filho de Filipe, e que disse que também tu sabias. Ele porém nada de claro tinha a dizer. Conta-me então, pois és o mais apontado a relatar as palavras do teu companheiro. E antes de tudo", continuou, "dize-me se tu mesmo estiveste presente àquele encontro ou  não".

5. Carlos Alberto Nunes (1a edição: 1973)

Considero-me em condições de responder ao que me perguntaste. Recentemente, quando eu subia de casa, em Falero, para a cidade, um conhecido que me tinha visto por detrás, gritou de longe, em tom de brincadeira: "Ó cidadão de Falero, de nome Apolodoro! por que não esperas? - Então, me detive para esperá-lo. E ele: - Apolodoro - me falou, - andava à tua procura, porque desejo obter informações precisas a respeito da conversa de Agatão com Sócrates, Alcibíades e os demais convivas do banquete dado por ele, em que proferiram vários discursos sobre o amor. Alguém já me contou alguma coisa, por ter ouvido de Fênix, filho de Filipe; acrescentou que estavas a par de tudo. Mas não falava com muita segurança. Por isso, de ti é que espero obter dados precisos. A ninguém mais compete relembrar as palavras do amigo. Porém, antes de tudo - continuou - declara se também tomaste parte no banquete. 

6. Donaldo Schuler (1a edição: 2009)

Do que que querem saber, não estou mal informado, suponho. Dias atrás, subi de minha casa no porto de Faleron para a cidade. Um conhecido, que me viu de longe, berrou atrás de mim em tom de troça:

"-Ei, Cuca-Polida, falo com você. - Por que tanta pressa?" 

Atendi. Parei.

"- O que você quer?"

- "Estive à tua procura, falerense, senhor Pelame-Falido, para matar uma curiosidade. Aquele encontro...Agaton, Sócrates, Alcibíades e outros, reunidos num banquete, discursaram sobre Eros. Disseram o quê? Alguém me informou que, a crer em Fênix, filho de Filipe, quem podia orientar-me era você, embora de seguro meu informante não soubesse nada. Esclareça-me, por favor, sigo instruções do meu amigo, fonte mais segura do que você não há. Antes de mais nada, quero saber se você esteve presente naquela reunião.

7. Edson Bini (1a edição: 2010)

Apolodoro: Realmente não estou despreparado para o que procuras saber. Anteontem aconteceu de eu estar me dirigindo à cidade vindo de minha casa em Falero, quando um conhecido meu que vinha atrás me avistou e chamou-me de uma alguma distância num tom brincalhão: "Ei, faleriano!" gritou, "Apolodoro, espera!" Detive-me e o aguardei. "Apolodoro", ele disse, "estive procurando por ti, pois desejaria ouvir tudo acerca do jantar que reuniu Agaton, Sócrates, Alcibíades e outros que se reuniram, bem como acerca dos discursos sobre o amor feitos por eles. Na verdade uma outra pessoa transmitiu-me uma versão com base no relato de Fênix, filho de Filipe, e comentou que o conhecias também. Mas a comunicação que ele me faz peca pela falta de clareza. Diante disso, cabe a ti contar-me tudo, uma vez que és o mais correto comunicador dos discursos do teu amigo. Mas começa me informando o seguinte", ele prosseguiu, "estiveste ou não presente nessa reunião?"

8. Maria Aparecida de Oliveira Silva (1a edição: 2015)

APOLODORO. – Eu penso que não estou despreparado a respeito do que me perguntais. E há pouco, quando vinha de minha casa em Falero para a cidade; um conhecido atrás de mim viu-me e de longe me chamou, brincando: “Falereu ! Ei, Apolodoro , não me esperas?” E eu parei e o esperei. E ele continuou: “Apolodoro, há pouco eu te procurava porque queria saber sobre a reunião de Agatão , Sócrates , Alcibíades e b os outros, que então estavam presentes no banquete , e a respeito de quais foram os seus discursos sobre o amor. Pois alguém me contou que os ouviu de Fênix, filho de Filipo, e disse que tu também os conhecias. Mas ele nada podia dizer com clareza. Conta-me tu, pois és o mais apropriado para relatar as palavras do teu companheiro". E ele continuou: "Antes disso, dize-me, estiveste presente a essa reunião ou não?" 

9. Anderson de Paula Borges (1a edição: 2017)

 Acredito que não estou sem preparo para descrever os eventos sobre os quais me interrogas, pois no dia anterior a ontem estava indo de minha casa, em Falero, para Atenas, quando um conhecido me viu por trás e, chamando-me à distância, disse em tom de brincadeira: 

“Falerino! Ei, Apolodoro! Não vais me esperar?” 

Parei e esperei. 

Então ele disse: “Apolodoro, há pouco te procurava. Queria me informar sobre tudo que aconteceu no encontro entre Agatão, Sócrates, Alcibíades e outros – que naquele momento tomaram parte no banquete –, para ouvir quais foram os discursos proferidos em honra do Amor. Ouvi uma versão de alguém que a ouvira de Fênix, o filho de Filipe, e que disse que tu também tinhas conhecimento do assunto. Mas tal pessoa não proferiu nada de muito claro, de modo que tu deves relatar-me, pois é o que mais propriamente podes reportar as palavras do teu amigo. Antes, porém, disse ele, “fala-me: tu mesmo estavas no encontro ou não?”.

10. Irley F. Franco e Jaa Torrano (1a edição: 2021

Creio não estar despreparado sobre o que quereis saber, pois casualmente anteontem, de casa em Falero subindo para a cidade, um conhecido longe lá atrás, ao me avistar, chamou, e em tom de brincadeira, disse: "Ó Falereu, tu aí, Apolodoro, não esperas?" E eu parei e esperei. E ele disse: "Apolodoro, ainda há pouco te procurava querendo saber do encontro de Agatão, Sócrates, Alcibíades, e de outros que então estiveram presentes ao banquete, e dos discursos sobre o amor, quais foram eles. Um outro me contou, tendo ouvido de Fênix, filho de FIlipe, e disse que também tu sabias, mas ele nada pôde dizer com clareza. Conta-me tu, então, pois o mais justo é que tu narres os discursos do teu companheiro. Mas antes me diz", continuou, "tu mesmo estiveste presente a esse encontro ou não?" 

11. José Carlos Baracat jr. (em elaboração) 

Acho que não estou destreinado no que vocês querem saber. Outro dia mesmo, por coincidência, eu subia de minha casa em Falero para a cidade, quando um conhecido meu, ao me avistar pelas costas, de longe me chamou e disse, numa intimação zombeteira: “ei, falério, senhor Apolodoro, não vai esperar?” Parei e esperei. “Apolodoro”, ele disse, “bem que eu procurava você há pouco, pois queria saber tudo sobre o encontro entre Agatão, Sócrates, Alcibíades e os outros presentes ao jantar, e quais foram seus discursos eróticos: outra pessoa, que os ouviu de Fênix, filho de Filipo, contava-os para mim e disse que você também os conhecia. Mas ele não conseguia dizer nada com clareza. Você, portanto, me conte: pois ninguém tem mais direito do que você de relatar os discursos do seu amigo. Primeiro, me diga (disse ele): você mesmo esteve nesse encontro ou não?”.

Referências

PLATÃO. Diálogos de Platão: O Banquete. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: Ed. UFPA, 2018.

PLATÃO. Diálogos V. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2017. 

PLATÃO. Mênon - Banquete - Fedro. Tradução de Jorge Paleikat e João Cruz Costa. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.

PLATÃO. O Banquete. Tradução de Donaldo Schüler. Porto Alegre: L&PM Editores, 2009. 

PLATÃO. O Banquete. Tradução de José Cavalcante de Souza. São Paulo: Editora 34, 2015.

PLATÃO. O Banquete. Tradução de Maria Aparecida de Oliveira Silva. São Paulo:  Martin Claret, 2015.

PLATÃO. O Banquete. Tradução de Anderson de Paula Borges. Petrópolis: Vozes, 2017. 

PLATÃO. O Banquete. Tradução de Irley F. Franco e Jaa Torrano. Rio de Janeiro: Edições Loyola, 2021. 

O Amor de Bilítis, por Guilherme de Almeida

Sem título. Ilustração George Barbier, para edição de 1922 de Les Chansons de Bilitis. 


Nota liminar 

Les Chansons de Bilitis (1895) é uma coleção de poemas homoeróticos femininos de autoria do francês Pierre Loüys, que o atribuiu a Bilítis, uma cortesã grega, discípula de Safo. Loüys afirmou ter encontrado os poemas numa tumba em Chipre, no entanto são poemas originais de Loüys, muitos deles reelaborações inventivas da mélica de Safo e de versos da Antologia Palatina. A obra teve grande repercussão (ver as adaptações de Claude Debussy para três dos poemas da obra: La flûte de Pan, La chevelure e Le tombeau des Naïades). A obra teve repercussão por sublinhar o homoerotismo da figura de Safo, desafiando algumas visões acerca da poeta de Lesbos que circulavam no século XIX. 

 Guilherme de Almeida traduziu algumas das canções em 1943, para a coleção Rubaiyat da José Olympio. 

A ÁRVORE

Despi-me para subir a uma árvore; minhas coxas nuas enlaçavam a cortiça lisa e úmida; minhas sandálias caminhavam sobre os galhos.

Bem no alto, mas ainda sob a folhagem e ao abrigo do calor, cavalguei um gancho aberto, balançando os pés no ar.

Havia chovido. Gotas de águas caíam e escorriam pela minha pele. Eu tinha as mãos manchadas de musgos, e os artelhos rubros por haver esmigalhado flores.

Eu sentia a bela árvore viver varada pelo vento; e cerrava então com mais força as minhas pernas, e colava meus lábios abertos contra a nuca felpuda de um ramo. 

[Tradução: Guilherme de Almeida, 1943]

Je me suis dévêtue pour monter à un arbre; mes cuisses nues embrassaient l'écorce lisse et humide; mes sandales marchaient sur les branches.

Tout en haut, mais encore sous les feuilles et à l'ombre de la chaleur, je me suis mise à cheval sur une fourche écartée en balançant mes pieds dans le vide.

Il avait plu. Des gouttes d'eau tombaient et coulaient sur ma peau. Mes mains étaient tachées de mousse, et mes orteils étaient rouges, à cause des fleurs écrasées.

Je sentais le bel arbre vivre quand le vent passait au travers; alors je serrais mes jambes davantage et j'appliquais mes lèvres ouvertes sur la nuque chevelue d'un rameau


REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Guilherme de. O Amor de Bilítis. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1943.
LOÜYS, Pierre. Les Chansons de Bilitis. em https://www.gutenberg.org/cache/epub/4708/pg4708-images.html. Acessado em 06.10.2021. 

terça-feira, abril 27, 2021

Teócrito, Idílio 2: A Feiticeira (Trad. Rafael Brunhara)

 

Circe invidiosa, Waterhouse (1896)

Onde as folhas de louro? Traz, Testílide. Onde os filtros mágicos?

Cinge o jarro com a mais fina lã carmesim[1]

porque amarrarei esse que é meu fardo, o amado

 que por doze dias, miserável, não me visita,

nem sabe se eu estou viva ou morta,                                                                        5

nem <me> bateu à porta, cruel. Com certeza para outro lugar

partiu, Eros e Afrodite levando seu espírito inconstante.

Vou à palestra[2] de Timágeto

amanhã. Quando lá o vir, vou criticá-lo por me tratar assim.

Mas hoje o amarrarei com oferendas de fogo. Vamos, Lua,                                   10

brilha bela: a ti, nume, cantarei serena,

e à ínfera Hécate[3], que até os cães faz tremer[4]

quando passa pelas tumbas dos mortos e pelo sangue negro[5].

Olá, Hécate horrenda, ajuda-nos até o fim,

faz estes fármacos não inferiores aos de Circe,                                                        15

aos de Medeia, aos da loira Perimede.[6]

 

Iynx, arrasta aquele homem para a minha casa! [7]

 

Cevada primeiro vou consumir no fogo, Vamos, polvilha,

Testílide.  Parva, para onde teu espírito voou?

Acaso para ti, desgraçada, também me tornei objeto de escárnio?                        20

Polvilha enquanto fala assim: “os ossos de Délfis[8] polvilho”

 

Iynx, arrasta aquele homem para a minha casa!

 

Délfis me perturbou: eu contra Délfis a folha de louro

queimo. E como ela crepita forte quando pega fogo

e de repente se inflama até que não vemos nem suas cinzas,                                25

assim também nas chamas Délfis reduza à pó <sua> carne.                                    

 

Iynx, arrasta aquele homem para a minha casa!                                                      27

 

Agora queimarei os farelos do trigo. Tu, Ártemis, que até no Hades                    33

podes mover o <portal de> adamante[9], e o que mais houver de firme...

Testílide! Os cães uivam para nós na cidade!                                                            35

A Deusa está nas encruzilhadas! Faz ressoar o bronze o mais rápido possível!

 

Iynx, arrasta aquele homem para a minha casa!

 

Veja! Cala-se o pélago, calam-se as brisas,

mas não se cala a dor lá dentro do meu peito,

eu me queimo toda por aquele homem que – mísera! – me                                      40

fez ser, em vez de esposa, vil e não-virgem.

 

Iynx, arrasta aquele homem para a minha casa!

 

Assim como essa cera eu derreto com <a ajuda> da divindade,                                28

assim derreta em desejo o míndio[10] Délfis de uma vez.                                         29

E como este rombo[11] de bronze roda pelo <poder> de Afrodite,                         30

assim ele fique rodeando a minha porta!                                                                     31

 

Iynx, arrasta aquele homem para a minha casa!                                                          32

 

Três vezes eu libo e três vezes, Dona, digo estas <palavras>:                                    43

se é mulher quem se deita ao lado dele, se é homem,

que se esqueça deles tanto quanto dizem que Teseu certa vez                                  45

em Dia[12] se esqueceu de Ariadne de belas tranças.

 

Iynx, arrasta aquele homem para a minha casa!

 

Hipômanes[13] é uma planta na Arcádia, pela qual todas

as potras enlouquecem nas montanhas e as ágeis éguas.

Assim também eu veja Délfis entrar nesta casa                                                            50

como um louco, vindo da oleosa[14] palestra.

 

Iynx, arrasta aquele homem para a minha casa!

 

De seu manto Délfis perdeu esta franja[15],

e eu agora arranco fio por fio e jogo no fogo selvagem:

Aiai, Eros perturbador, por que o sangue negro do meu corpo                                  55

bebeste todo, preso em mim como sanguessuga do pântano?

 

Iynx, arrasta aquele homem para a minha casa!

 

Um lagarto esfolarei e vil poção[16] levarei <para ele> amanhã.

Testílide, pega agora as ervas e espreme suavemente 

sobre a soleira <da casa> dele, enquanto ainda é noite,[17]                                    60

e diz sussurrando “espremo os ossos de Délfis”.                                                        62

 

Iynx, arrasta aquele homem para a minha casa!

 

Agora que estou só, a partir de onde chorarei meu desejo,[18]

de onde começarei? Quem me trouxe esse mal?                                                       65

A filha de Eubulo, nossa Anaxo, foi como canéfora[19]

ao bosque de Ártemis, para quem naquela ocasião muitas

feras caminhavam em procissão por todos os lados, entre elas uma leoa.[20]      

 

Olha de onde veio o meu desejo, Dona Lua.

 

E Teumárida, ama da Trácia, ela que está entre os deuses,                                    70

mas era minha vizinha de porta, rogou e implorou

para eu assistir à procissão. Eu, desgraçadíssima,

a acompanhei arrastando um belo vestido de linho

e toda envolta no manto de Clearista[21].

 

Olha de onde veio o meu desejo, Dona Lua.                                                            75

 

Eu já estava no meio do caminho, onde <estão as terras> de Lícon[22],

e vi Délfis indo junto com Eudamipo.

As barbas deles eram mais loiras que helicriso

e o peito reluzia mais do que tu, Lua,

porque tinham acabado de deixar o belo exercício do ginásio.                            80

 

Olha de onde veio o meu desejo, Dona Lua.

 

E assim que o vi, enlouqueci, meu coração foi lançado ao fogo,

parvo,  a beleza esvaiu-se, e àquela procissão eu não

 assisti mais, nem sei como eu voltei

para casa, mas uma febre abrasadora me abalou                                                85

e fiquei de cama por dez dias e dez noites.

 

Olha de onde veio o meu desejo, Dona Lua.

 

E muitas vezes minha pele tornava-se igual ao fustete[23],

começaram a cair da cabeça todos os cabelos, fiquei

só pele e ossos.  E à casa de quem eu não entrei?                                               90

A que velha que entoava encantos eu deixei de ir?

Mas não foi nada fácil, e o tempo, fugindo, acabava.

 

Olha de onde veio o meu desejo, Dona Lua.

 

E desse modo à escrava contei a história verdadeira:

“Vamos, Testílide, para a minha dura febre descobre um remédio.                   95

Tem-me toda, mísera, o míndio. Vai

e espera na palestra de Timágeto.

Lá ele frequenta, lá ele gosta de sentar-se.

 

Olha de onde veio o meu desejo, Dona Lua.

 

E quando souberes que ele está sozinho, acena discretamente,                       100

diz: ‘Simeta te chama’ e o traz aqui.

Assim falei. Ela foi e trouxe o de pele brilhosa

à minha casa, Délfis. Quando eu o vi

atravessar a soleira da minha porta com pé ágil  

 

Olha de onde veio o meu desejo, Dona Lua  –                                                    105

 

gelei-me toda, mais que a neve, e do meu rosto

escorria água, como o úmido orvalho,

não podia falar, não mais do que criança que

balbucia no sono chamando a mãe querida,

mas meu belo corpo enrijeceu todo como um boneco de cera.                       110

 

Olha de onde veio o meu desejo, Dona Lua.

 

E quando me viu, o insensível cravou os olhos no chão,

sentou-se na cama e, ao sentar-se, contou a história:

“De fato, Simeta, me ultrapassaste  -- tanto quanto eu

ultrapassei outro dia o grácil Filino[24] na corrida –                                       115

ao me convidar para estar sob este teu teto.

 

Olha de onde veio o meu desejo, Dona Lua.

 

Pois eu teria vindo, sim, pelo doce Eros, eu teria vindo,

com dois ou três amigos, logo à noite[25],

as maçãs de Dioniso [26] guardando no colo,                                                   120

na cabeça o álamo branco, sacro rebento de Héracles,

todo enrolado em nastros purpúreos[27].

 

Olha de onde veio o meu desejo, Dona Lua.

 

E se me recebesses, isso seria aprazível (pois ágil

e belo todos os rapazes me chamam).                                                                 125

e eu dormiria se só beijasse a tua bela boca,

mas se me rejeitasses e a porta tivesses <fechado> com um ferrolho,

de qualquer modo machados e tochas cairiam sobre ti.

 

Olha de onde veio o meu desejo, Dona Lua.

 

Mas agora, afirmo que estou devendo primeiro um “obrigado” à Cípris[28],     130

e, depois da Cípris, a ti, a segunda, que me tiraste do fogo,

mulher, quando me convocaste para este teu recinto,

eu que já estava meio em chamas. Eros muitas vezes

acende um brilho mais fogoso do que  o de Hefesto em Líparas[29], –

 

Olha de onde veio o meu desejo, Dona Lua –                                                        135

 

com vis insânias ele afugenta até a virgem da alcova

e faz a noiva abandonar a cama ainda quente

do marido.” Assim ele falou. E eu, tão crédula,

a sua mão peguei e o reclinei no leito macio;

logo corpo esquentava corpo, as <nossas> faces                                                  140

ficaram mais cálidas do que antes e docemente sussurrávamos.

Para não me alongar demais, amiga Lua,

o principal foi feito, e alcançamos os dois o <nosso> anseio.

Até ontem, pelo menos, ele não se queixava de mim

nem eu dele.  Mas visitou-me a mãe de Filista,                                                       145

nossa flautista, e de Melixo,

hoje, quando galopavam no céu os corcéis[30]

da rósea Aurora levando-a do Oceano,

e disse-me muitas coisas, aliás, que Délfis estava apaixonado,

e, ainda, que se o desejo era por mulher ou por homem,                                    150

ela disse não saber ao certo, só sabia esse tanto: ele sempre  a Eros

estava brindando vinho sem mistura e, no fim, saía correndo,

dizia que ia cobrir aquela casa com guirlandas.

Essas coisas minha hóspede me contou, e são verdadeiras,

pois então Délfis visitava-me três ou quatro vezes <por dia>                              155

e frequentemente até deixava em minha casa o <seu> frasco dório[31];

mas hoje já é o décimo segundo dia que não o vejo.

Acaso ele tem outro prazer e se esqueceu de mim?

Agora, sim, com filtros mágicos vou amarrá-lo; mas se ele ainda

atormentar, é à porta do Hades, -  pelas Moiras! [32] – que  baterá.                    160

Tais fármacos vis eu afirmo guardar na <minha> cesta,

tendo aprendido sobre eles, Senhora, com um estrangeiro assírio[33].

Mas digo-te adeus! Vira <teus> potros em direção ao Oceano,

Dona, e, enquanto isso, eu suportarei meu desejo como já venho suportando.

Adeus, Lua de brilhoso trono, adeus, todas as outras                                           165

estrelas, assistentes na carruagem da Noite imperturbável!


[Tradução: Rafael Brunhara]

_____________________________


Πᾷ μοι ταὶ δάφναι; φέρε, Θεστυλί. πᾷ δὲ τὰ φίλτρα;

στέψον τὰν κελέβαν φοινικέῳ οἰὸς ἀώτῳ,

ὡς τὸν ἐμὸν βαρὺν εὖντα φίλον καταδήσομαι ἄνδρα,

ὅς μοι δωδεκαταῖος ἀφ' ὧ τάλας οὐδὲ ποθίκει,

οὐδ' ἔγνω πότερον τεθνάκαμες ἢ ζοοὶ εἰμές,                                                             5

οὐδὲ θύρας ἄραξεν ἀνάρσιος. ἦ ῥά οἱ ἀλλᾷ

ᾤχετ' ἔχων ὅ τ' Ἔρως ταχινὰς φρένας ἅ τ' Ἀφροδίτα.

βασεῦμαι ποτὶ τὰν Τιμαγήτοιο παλαίστραν

αὔριον, ὥς νιν ἴδω, καὶ μέμψομαι οἷά με ποιεῖ.

νῦν δέ νιν ἐκ θυέων καταδήσομαι. ἀλλά, Σελάνα,                                                      10

φαῖνε καλόν· τὶν γὰρ ποταείσομαι ἅσυχα, δαῖμον,

τᾷ χθονίᾳ θ' Ἑκάτᾳ, τὰν καὶ σκύλακες τρομέοντι

ἐρχομέναν νεκύων ἀνά τ' ἠρία καὶ μέλαν αἷμα.

χαῖρ', Ἑκάτα δασπλῆτι, καὶ ἐς τέλος ἄμμιν ὀπάδει,

φάρμακα ταῦτ' ἔρδοισα χερείονα μήτε τι Κίρκας                                                       15

μήτε τι Μηδείας μήτε ξανθᾶς Περιμήδας.

      

Ἶυγξ, ἕλκε τὺ τῆνον ἐμὸν ποτὶ δῶμα τὸν ἄνδρα.

      

ἄλφιτά τοι πρᾶτον πυρὶ τάκεται. ἀλλ' ἐπίπασσε,

Θεστυλί. δειλαία, πᾷ τὰς φρένας ἐκπεπότασαι;

ἦ ῥά γέ θην, μυσαρά, καὶ τὶν ἐπίχαρμα τέτυγμαι;                                                        20

πάσσ' ἅμα καὶ λέγε ταῦτα· ‘τὰ Δέλφιδος ὀστία πάσσω.’

ἶυγξ, ἕλκε τὺ τῆνον ἐμὸν ποτὶ δῶμα τὸν ἄνδρα.

Δέλφις ἔμ' ἀνίασεν· ἐγὼ δ' ἐπὶ Δέλφιδι δάφναν

αἴθω· χὠς αὕτα λακεῖ μέγα καππυρίσασα  

κἠξαπίνας ἅφθη κοὐδὲ σποδὸν εἴδομες αὐτᾶς,                                                            25

οὕτω τοι καὶ Δέλφις ἐνὶ φλογὶ σάρκ' ἀμαθύνοι.

      

ἶυγξ, ἕλκε τὺ τῆνον ἐμὸν ποτὶ δῶμα τὸν ἄνδρα.                                                           27

      

νῦν θυσῶ τὰ πίτυρα. τὺ δ', Ἄρτεμι, καὶ τὸν ἐν Ἅιδα                                                    33

κινήσαις ἀδάμαντα καὶ εἴ τί περ ἀσφαλὲς ἄλλο – 

Θεστυλί, ταὶ κύνες ἄμμιν ἀνὰ πτόλιν ὠρύονται·                                                         35

ἁ θεὸς ἐν τριόδοισι· τὸ χαλκέον ὡς τάχος ἄχει.

      

ἶυγξ, ἕλκε τὺ τῆνον ἐμὸν ποτὶ δῶμα τὸν ἄνδρα.

 

ἠνίδε σιγῇ μὲν πόντος, σιγῶντι δ' ἀῆται·

ἁ δ' ἐμὰ οὐ σιγῇ στέρνων ἔντοσθεν ἀνία,

ἀλλ' ἐπὶ τήνῳ πᾶσα καταίθομαι ὅς με τάλαιναν                                                          40

ἀντὶ γυναικὸς ἔθηκε κακὰν καὶ ἀπάρθενον ἦμεν.

 

ἶυγξ, ἕλκε τὺ τῆνον ἐμὸν ποτὶ δῶμα τὸν ἄνδρα.

 

ὡς τοῦτον τὸν κηρὸν ἐγὼ σὺν δαίμονι τάκω,                                                              28

ὣς τάκοιθ' ὑπ' ἔρωτος ὁ Μύνδιος αὐτίκα Δέλφις.                                                       29

χὠς δινεῖθ' ὅδε ῥόμβος ὁ χάλκεος ἐξ Ἀφροδίτας,                                                         30

ὣς τῆνος δινοῖτο ποθ' ἁμετέραισι θύραισιν.                                                                31

      

ἶυγξ, ἕλκε τὺ τῆνον ἐμὸν ποτὶ δῶμα τὸν ἄνδρα.                                                           32

 

ἐς τρὶς ἀποσπένδω καὶ τρὶς τάδε, πότνια, φωνῶ·                                                        43

εἴτε γυνὰ τήνῳ παρακέκλιται εἴτε καὶ ἀνήρ,

τόσσον ἔχοι λάθας ὅσσον ποκὰ Θησέα φαντί                                                               45

ἐν Δίᾳ λασθῆμεν ἐυπλοκάμω Ἀριάδνας.

      

ἶυγξ, ἕλκε τὺ τῆνον ἐμὸν ποτὶ δῶμα τὸν ἄνδρα.

      

ἱππομανὲς φυτόν ἐστι παρ' Ἀρκάσι, τῷ δ' ἔπι πᾶσαι

καὶ πῶλοι μαίνονται ἀν' ὤρεα καὶ θοαὶ ἵπποι·

ὣς καὶ Δέλφιν ἴδοιμι, καὶ ἐς τόδε δῶμα περάσαι                                                        50

μαινομένῳ ἴκελος λιπαρᾶς ἔκτοσθε παλαίστρας.

ἶυγξ, ἕλκε τὺ τῆνον ἐμὸν ποτὶ δῶμα τὸν ἄνδρα.  

τοῦτ' ἀπὸ τᾶς χλαίνας τὸ κράσπεδον ὤλεσε Δέλφις,

ὡγὼ νῦν τίλλοισα κατ' ἀγρίῳ ἐν πυρὶ βάλλω.                                                            

αἰαῖ Ἔρως ἀνιαρέ, τί μευ μέλαν ἐκ χροὸς αἷμα                                                            55

ἐμφὺς ὡς λιμνᾶτις ἅπαν ἐκ βδέλλα πέπωκας;

      

ἶυγξ, ἕλκε τὺ τῆνον ἐμὸν ποτὶ δῶμα τὸν ἄνδρα.

      

σαύραν τοι τρίψασα κακὸν ποτὸν αὔριον οἰσῶ.

Θεστυλί, νῦν δὲ λαβοῖσα τὺ τὰ θρόνα ταῦθ' ὑπόμαξον

τᾶς τήνω φλιᾶς καθ' ὑπέρτερον ἇς ἔτι καὶ νύξ,                                                        60

καὶ λέγ' ἐπιτρύζοισα ‘τὰ Δέλφιδος ὀστία μάσσω.’

ἶυγξ, ἕλκε τὺ τῆνον ἐμὸν ποτὶ δῶμα τὸν ἄνδρα.

Νῦν δὴ μώνα ἐοῖσα πόθεν τὸν ἔρωτα δακρύσω;

ἐκ τίνος ἄρξωμαι; τίς μοι κακὸν ἄγαγε τοῦτο;                                                           65

ἦνθ' ἁ τωὐβούλοιο καναφόρος ἄμμιν Ἀναξώ                                                             

ἄλσος ἐς Ἀρτέμιδος, τᾷ δὴ τόκα πολλὰ μὲν ἄλλα

θηρία πομπεύεσκε περισταδόν, ἐν δὲ λέαινα.

      

φράζεό μευ τὸν ἔρωθ' ὅθεν ἵκετο, πότνα Σελάνα.

       

καί μ' ἁ Θευμαρίδα Θρᾷσσα τροφός, ἁ μακαρῖτις,                                                   70

ἀγχίθυρος ναίοισα κατεύξατο καὶ λιτάνευσε

τὰν πομπὰν θάσασθαι· ἐγὼ δέ οἱ ἁ μεγάλοιτος

ὡμάρτευν βύσσοιο καλὸν σύροισα χιτῶνα

κἀμφιστειλαμένα τὰν ξυστίδα τὰν Κλεαρίστας.

      

φράζεό μευ τὸν ἔρωθ' ὅθεν ἵκετο, πότνα Σελάνα.                                                   75

      

ἤδη δ' εὖσα μέσαν κατ' ἀμαξιτόν, ᾇ τὰ Λύκωνος,

εἶδον Δέλφιν ὁμοῦ τε καὶ Εὐδάμιππον ἰόντας·

τοῖς δ' ἦς ξανθοτέρα μὲν ἑλιχρύσοιο γενειάς,  

στήθεα δὲ στίλβοντα πολὺ πλέον ἢ τύ, Σελάνα,

ὡς ἀπὸ γυμνασίοιο καλὸν πόνον ἄρτι λιπόντων.                                                    80

      

φράζεό μευ τὸν ἔρωθ' ὅθεν ἵκετο, πότνα Σελάνα.

 

χὠς ἴδον, ὣς ἐμάνην, ὥς μοι πυρὶ θυμὸς ἰάφθη

δειλαίας, τὸ δὲ κάλλος ἐτάκετο. οὐκέτι πομπᾶς

τήνας ἐφρασάμαν, οὐδ' ὡς πάλιν οἴκαδ' ἀπῆνθον

ἔγνων, ἀλλά μέ τις καπυρὰ νόσος ἐξεσάλαξεν,                                                             85

κείμαν δ' ἐν κλιντῆρι δέκ' ἄματα καὶ δέκα νύκτας.

      

φράζεό μευ τὸν ἔρωθ' ὅθεν ἵκετο, πότνα Σελάνα.

      

καί μευ χρὼς μὲν ὁμοῖος ἐγίνετο πολλάκι θάψῳ,

ἔρρευν δ' ἐκ κεφαλᾶς πᾶσαι τρίχες, αὐτὰ δὲ λοιπά

ὀστί' ἔτ' ἦς καὶ δέρμα. καὶ ἐς τίνος οὐκ ἐπέρασα,                                                        90

ἢ ποίας ἔλιπον γραίας δόμον ἅτις ἐπᾷδεν;

ἀλλ' ἦς οὐδὲν ἐλαφρόν, ὁ δὲ χρόνος ἄνυτο φεύγων.

      

φράζεό μευ τὸν ἔρωθ' ὅθεν ἵκετο, πότνα Σελάνα.

      

χοὔτω τᾷ δώλᾳ τὸν ἀλαθέα μῦθον ἔλεξα·

’εἰ δ' ἄγε, Θεστυλί, μοι χαλεπᾶς νόσω εὑρέ τι μᾶχος.                                               95

πᾶσαν ἔχει με τάλαιναν ὁ Μύνδιος· ἀλλὰ μολοῖσα

τήρησον ποτὶ τὰν Τιμαγήτοιο παλαίστραν·

τηνεὶ γὰρ φοιτῇ, τηνεὶ δέ οἱ ἁδὺ καθῆσθαι.

      

φράζεό μευ τὸν ἔρωθ' ὅθεν ἵκετο, πότνα Σελάνα.

      

κἠπεί κά νιν ἐόντα μάθῃς μόνον, ἅσυχα νεῦσον,                                                      100

κεἴφ' ὅτι “Σιμαίθα τυ καλεῖ”, καὶ ὑφαγέο τεῖδε.’

ὣς ἐφάμαν· ἃ δ' ἦνθε καὶ ἄγαγε τὸν λιπαρόχρων

εἰς ἐμὰ δώματα Δέλφιν· ἐγὼ δέ νιν ὡς ἐνόησα

ἄρτι θύρας ὑπὲρ οὐδὸν ἀμειβόμενον ποδὶ κούφῳ –

 

φράζεό μευ τὸν ἔρωθ' ὅθεν ἵκετο, πότνα Σελάνα –                                               105

πᾶσα μὲν ἐψύχθην χιόνος πλέον, ἐκ δὲ μετώπω

ἱδρώς μευ κοχύδεσκεν ἴσον νοτίαισιν ἐέρσαις,

οὐδέ τι φωνῆσαι δυνάμαν, οὐδ' ὅσσον ἐν ὕπνῳ

κνυζεῦνται φωνεῦντα φίλαν ποτὶ ματέρα τέκνα·

ἀλλ' ἐπάγην δαγῦδι καλὸν χρόα πάντοθεν ἴσα.                                                    110

      

φράζεό μευ τὸν ἔρωθ' ὅθεν ἵκετο, πότνα Σελάνα.

      

καί μ' ἐσιδὼν ὥστοργος ἐπὶ χθονὸς ὄμματα πάξας

ἕζετ' ἐπὶ κλιντῆρι καὶ ἑζόμενος φάτο μῦθον·

’ἦ ῥά με, Σιμαίθα, τόσον ἔφθασας, ὅσσον ἐγώ θην

πρᾶν ποκα τὸν χαρίεντα τράχων ἔφθασσα Φιλῖνον,                                             115

ἐς τὸ τεὸν καλέσασα τόδε στέγος ἢ 'μὲ παρῆμεν.

      

φράζεό μευ τὸν ἔρωθ' ὅθεν ἵκετο, πότνα Σελάνα.

      

ἦνθον γάρ κεν ἐγώ, ναὶ τὸν γλυκὺν ἦνθον Ἔρωτα,

ἢ τρίτος ἠὲ τέταρτος ἐὼν φίλος αὐτίκα νυκτός,

μᾶλα μὲν ἐν κόλποισι Διωνύσοιο φυλάσσων,                                                        120

κρατὶ δ' ἔχων λεύκαν, Ἡρακλέος ἱερὸν ἔρνος,

πάντοθι πορφυρέαισι περὶ ζώστραισιν ἑλικτάν.

      

φράζεό μευ τὸν ἔρωθ' ὅθεν ἵκετο, πότνα Σελάνα.

      

καί κ', εἰ μέν μ' ἐδέχεσθε, τάδ' ἦς φίλα (καὶ γὰρ ἐλαφρός

καὶ καλὸς πάντεσσι μετ' ἠιθέοισι καλεῦμαι),                                                        125

εὗδόν τ', εἴ κε μόνον τὸ καλὸν στόμα τεῦς ἐφίλησα·

εἰ δ' ἄλλᾳ μ' ὠθεῖτε καὶ ἁ θύρα εἴχετο μοχλῷ,

πάντως κα πελέκεις καὶ λαμπάδες ἦνθον ἐφ' ὑμέας.

 

φράζεό μευ τὸν ἔρωθ' ὅθεν ἵκετο, πότνα Σελάνα.

 

νῦν δὲ χάριν μὲν ἔφαν τᾷ Κύπριδι πρᾶτον ὀφείλειν,                                            130

καὶ μετὰ τὰν Κύπριν τύ με δευτέρα ἐκ πυρὸς εἵλευ,  

ὦ γύναι, ἐσκαλέσασα τεὸν ποτὶ τοῦτο μέλαθρον

αὔτως ἡμίφλεκτον· Ἔρως δ' ἄρα καὶ Λιπαραίω

πολλάκις Ἁφαίστοιο σέλας φλογερώτερον αἴθει·

      

φράζεό μευ τὸν ἔρωθ' ὅθεν ἵκετο, πότνα Σελάνα.                                                135

      

σὺν δὲ κακαῖς μανίαις καὶ παρθένον ἐκ θαλάμοιο

καὶ νύμφαν ἐφόβησ' ἔτι δέμνια θερμὰ λιποῖσαν

ἀνέρος.’ ὣς ὃ μὲν εἶπεν· ἐγὼ δέ νιν ἁ ταχυπειθής

χειρὸς ἐφαψαμένα μαλακῶν ἔκλιν' ἐπὶ λέκτρων·

καὶ ταχὺ χρὼς ἐπὶ χρωτὶ πεπαίνετο, καὶ τὰ πρόσωπα                                        140

θερμότερ' ἦς ἢ πρόσθε, καὶ ἐψιθυρίσδομες ἁδύ.

ὡς καί τοι μὴ μακρὰ φίλα θρυλέοιμι Σελάνα,

ἐπράχθη τὰ μέγιστα, καὶ ἐς πόθον ἤνθομες ἄμφω.

κοὔτε τι τῆνος ἐμὶν ἀπεμέμψατο μέσφα τό γ' ἐχθές,

οὔτ' ἐγὼ αὖ τήνῳ. ἀλλ' ἦνθέ μοι ἅ τε Φιλίστας                                                    145

μάτηρ τᾶς ἁμᾶς αὐλητρίδος ἅ τε Μελιξοῦς

σάμερον, ἁνίκα πέρ τε ποτ' ὠρανὸν ἔτραχον ἵπποι

Ἀῶ τὰν ῥοδόεσσαν ἀπ' ὠκεανοῖο φέροισαι,

κεἶπέ μοι ἄλλα τε πολλὰ καὶ ὡς ἄρα Δέλφις ἔραται.

κεἴτε νιν αὖτε γυναικὸς ἔχει πόθος εἴτε καὶ ἀνδρός,                                            150

οὐκ ἔφατ' ἀτρεκὲς ἴδμεν, ἀτὰρ τόσον· αἰὲν Ἔρωτος

ἀκράτω ἐπεχεῖτο καὶ ἐς τέλος ᾤχετο φεύγων,

καὶ φάτο οἱ στεφάνοισι τὰ δώματα τῆνα πυκαξεῖν.

ταῦτά μοι ἁ ξείνα μυθήσατο, ἔστι δ' ἀλαθής.

ἦ γάρ μοι καὶ τρὶς καὶ τετράκις ἄλλοκ' ἐφοίτη,                                                      155

καὶ παρ' ἐμὶν ἐτίθει τὰν Δωρίδα πολλάκις ὄλπαν·

νῦν δέ τε δωδεκαταῖος ἀφ' ὧτέ νιν οὐδὲ ποτεῖδον.

ἦ ῥ' οὐκ ἄλλο τι τερπνὸν ἔχει, ἁμῶν δὲ λέλασται;

νῦν μὰν τοῖς φίλτροις καταδήσομαι· αἰ δ' ἔτι κά με  

λυπῇ, τὰν Ἀίδαο πύλαν, ναὶ Μοίρας, ἀραξεῖ·                                                            160

τοῖά οἱ ἐν κίστᾳ κακὰ φάρμακα φαμὶ φυλάσσειν,

Ἀσσυρίω, δέσποινα, παρὰ ξείνοιο μαθοῖσα.

ἀλλὰ τὺ μὲν χαίροισα ποτ' ὠκεανὸν τρέπε πώλως,

πότνι'· ἐγὼ δ' οἰσῶ τὸν ἐμὸν πόθον ὥσπερ ὑπέσταν.

χαῖρε, Σελαναία λιπαρόθρονε, χαίρετε δ' ἄλλοι                                                       165

ἀστέρες, εὐκάλοιο κατ' ἄντυγα Νυκτὸς ὀπαδοί.   




A edição do texto grego é de Gow, Theocritus: edited with a translation and a commentary (Cambridge, Cambridge University Press, 1973 [1 ed. 1950]. Segui, no entanto, algumas indicações outras presentes em seu aparato crítico, indicadas no texto grego. 

[1] As folhas de louro teriam a função de afastar o mal. Por sua vez, o jarro, preparado para a libação, é envolvido em lã vermelha como o próprio pré-requisito para enfeitiçar o amado, Délfis.

[2] Ou ginásio (ver v.80). Era um espaço de prática de esportes.  Délfis é um atleta.

[3] Hécate era a deusa das encruzilhadas, da magia e dos fantasmas. No tempo de Teócrito, já era assimilada à Lua e à Ártemis.

[4] Cães eram sacrificados a Hécate.

[5] O sangue de vítimas sacrificadas sobre os túmulos. 

[6] Três poderosas feiticeiras gregas.

[7] Aqui começa o encantamento, que é narrado até o verso 63. Iynx era um disco de madeira com dois furos no meio, por onde passava um cordão. O disco girava ao se afrouxar e tensionar alternadamente esse cordão.  Era usado para atrair um amante.

[8] O nome do amado infiel.

[9]  Os portais do mundo dos mortos são feitos de adamante – metal de excepcional dureza, comparável ao aço e ao diamante. 

[10] Délfis vem da Míndia, uma cidade costeira da Cária, defronte à ilha de Cós. É possível, portanto, que o cenário em que se passa a história seja a ilha de Cós.

[11] O rombo, ou bramadeira, é uma peça de madeira ou metal  atada a uma corda, que produz um barulho estrondoso quando girada.

[12] Dia é outro nome para Naxos. Teseu, depois de vencer o Minotauro com a ajuda de Ariadne, a abandona nessa ilha durante a sua fuga de Creta para Atenas.

[13] Do grego ”enlouquece-cavalos”.

[14] Os atletas passavam óleo em seus corpos antes de se exercitar.

[15] Objetos pessoais são lançados ao fogo para atrair a pessoa amada.

[16] O resultado do encantamento.

[17]  Um verso foi interpolado aqui: "estou, de coração, atada, mas ele não faz caso de mim" (ἐκ θυμῶ δέδεμαι· ὃ δέ μευ λόγον οὐδένα ποιεῖ) para dar sentido ao original, que parece ter sido corrompido. 

[18] A partir deste verso, Simeta explicará como se apaixonou.

[19] Do grego “portadora do cesto”; meninas que levavam em procissão cestos com oferendas que seriam sacrificadas aos deuses.

[20] Como deusa dos ermos, Ártemis é patrona das feras selvagens.

[21] As festividades religiosas eram uma das raras ocasiões em que mulheres podiam circular livremente pelas ruas. Clearista empresta um manto a Simeta para a procissão. 

[22] Possivelmente uma fazenda à meio do caminho. 

[23] Pequena árvore de flores amareladas.

[24] Filino era um famoso corredor de Cós, que teria sido cinco vezes vencedor nas Olímpiadas. Délfis está se gabando.

[25] Ou seja, ele viria durante o kômmos, uma típica procissão festiva  e desregrada de jovens que ocorre nas ruas depois do simpósio.

[26] Maçãs eram um presente comum às namoradas entre os antigos. Elas, aqui, pertencerem a Dioniso, podendo sugerir que Délfis viria do simpósio, durante o kômmos. 

[27] Héracles era o deus patrono dos atletas.

[28]  Outro nome de Afrodite, deusa nascida em Chipre.

[29] Ilhas à nordeste da Sicília. Lá havia um vulcão que se pensava ser a forja de Hefesto.

[30] A Aurora, o Sol, a Lua e a Noite são representados viajando pelo céu em carruagens puxadas por cavalos.

[31] Que ele utilizava para se untar de óleo na palestra. Dórico talvez se refira ao formato do frasco.

[31] Deusas que personificavam a morte e o destino.

[32] o sentido de "assírio" é aqui mais amplo. Talvez se refira aos babilônios, peritos em magia.