Quem enfrenta sua velhice
o faz por não morrer jovem:
esse consolo se diz
para que o ancião se conforme.
Mas será melhor, por certo,
viver mais que partir cedo;
se outro mundo há, eterno,
que não se apresse o desfecho.
Foi-se a era dos heróis
que moços iam em glória;
hoje, com tudo o que dói,
prefere-se a longa história.
Sim, não falta dor à idade:
entre outras, essa sentença
sugere viver com arte,
e manter leve a consciência,
sem pesar demais os erros,
nem cultivar os remorsos,
e tampouco dar-se aos medos,
só aos riscos, com conforto.
Desprezar os maldizeres
convém a quem se quer bem;
nutrir amizades que restem
é o que a alegria retém.
Pensar no porvir se deve,
mas o agora sempre urge:
amanhã talvez me leve
a infalível foice a algures.
Fruir as coisas vividas,
mínimas de todo dia,
é ter a vida colhida
mesmo onde ela se escondia.
O tempo curto desdobra-se
em muitos se cada instante
é preenchido sem sobras,
seja ao depois, seja ao antes;
se os anos idos soçobram,
deixo o choro e sigo adiante.
Marcelo Tápia. Ascensões e Descensos. São Paulo: Editora Madamu, 2025.