domingo, julho 26, 2026

32 Proêmios da Odisseia


Por Rafael Brunhara




Reúno aqui 28 traduções do início da Odisseia de Homero em língua portuguesa, trazendo tudo feito em nossa língua, extraídos das traduções integrais do poema e de coletâneas, livros, artigos e ensaios em que a passagem é citada.

A primeira tradução da Odisseia em língua portuguesa foi a de João Félix Pereira (1822-1891), polímata português que também teria traduzido a Ilíada. São poucas as menções a essa tradução e são incertas mesmo notícias a respeito de sua data de publicação e  de como foi a sua recepção. A entrada sob seu nome no Dicionário Bibiográfico Português, Tomo Décimo, de 1883, menciona que a tradução era em prosa e supostamente estaria concluída à essa época. Antes de 1883, portanto, não podemos dizer que tínhamos Homero completo em português, e basta ver nesse sentido a agonia e mau humor do polêmico José Agostinho de Macedo (1761-1830) por não conseguir lê-lo em vernáculo...

 Segundo a pesquisadora Tâmara Kovacs, que transcreve o trecho do proêmio em "Ensaios e Experiências de Tradução da Ilíada no Oitocentismo Português" (2013, p.11, n.6) a tradução de João Félix Pereira não era em prosa, mas em versos decassílabos. O  exemplar consultado pela pesquisadora, na Biblioteca da Unicamp, data de 1891. Deste trabalho que extraímos a passagem que se lerá abaixo. 

 Parecia muito popular no XIX as traduções dos dois poemas para o latim feitas por Samuel Clarke (1729) e traduções parciais em vernáculo, com intenção de apresentar Homero ao leitor de língua portuguesa. A primeira de que tenho notícia é a de Antônio José Viale (1806-1889), que apresenta, traduz e anota o primeiro canto da Odisseia em sua Miscelânea Helênico-Literária (1868). Viale, que foi o primeiro professor da cadeira de Literatura Grega e Latina do Curso Superior de Letras de Lisboa, o compôs para fins didáticos -- como se nota no subtítulo da obra ("oferecida aos estudantes da 2a cadeira do curso superior de Letras"). No entanto, não descuida do apuro poético, vertendo Homero em decassílabos (usando aproximadamente dois decassílabos para cada hexâmetro homérico).

Mas a primeira tradução integral a circular amplamente foi a de Manuel Odorico Mendes (1799-1864). Depois da empreitada de traduzir todo o Virgílio (1858), sabe-se que o poeta maranhense já trabalhava nas suas versões das duas epopeias de Homero. Elas, porém, só vieram à luz postumamente: a Ilíada em 1874 e a Odisseia apenas em 1928. 

Outro poeta maranhense, Carlos Alberto Nunes (1897-1990) também traduziu os dois poemas de Homero. Já foi o tradutor mais popular de Homero no Brasil, e ainda é reeditado até hoje (algumas editoras que o publicaram: Melhoramentos, 1962; Tecnoprint, 1997; Ediouro, 2001; Hedra, 2011; Nova Fronteira, 2015). Muito disso se deve, em parte,  porque só teríamos novas traduções em verso a partir dos anos 2000. Por muitos anos foi objeto de debate a data da primeira edição da tradução  de Nunes, mas, recentemente, a pesquisadora Tatiana Alvarenga Chanoca, em sua dissertação de mestrado (2017), revela que a Odisseia de Nunes saiu originalmente pela  Editora  Atena em 1941. 

As próximas traduções do poema serão em prosa. Há duas em 1960: a de  G.D.Leoni e Neyde Ramos de Assis, ex-professores de latim da Pontifícia Universidade Católica de SP (São Paulo: Editora Atena, 1a ed: 1960; 2a ed.1973) e a de Antônio Pinto de Carvalho (1901-1963), ex-professor de Letras da Universidade de Lisboa. Esta teve grande circulação no Brasil, sendo primeiramente publicada na Coleção Clássicos Garnier da Difusão Europeia do Livro (1960) e depois muito republicada em diversas coleções populares, como a da Editora Abril Cultural (1979, 1981, 1986) e Nova Cultural (2002). Não pude rastrear se a tradução de Pinto de Carvalho foi também publicada em Portugal.

A terceira tradução em prosa é de Jaime Bruna, ex-professor de latim da Universidade de São Paulo, que a publica na coleção Clássicos Cultrix da Editora Cultrix (1a edição em 1968, 2a edição em 1976 e 3a edição em 2013). Em 1970, a Ediouro publica também Odisseia (em forma narrativa), uma tradução bastante parafrástica e em prosa, em sua coleção Clássicos de Ouro.

A partir dos anos 2000, começa a predominância das traduções de Homero vindas da academia. Em 2003 é lançada em Portugal uma nova tradução da Odisseia, feita em versos livres por Frederico Lourenço (1963-), professor de grego na Universidade de Coimbra (Lisboa: Editora Cotovia). Esta tradução alcançaria grande popularidade também no Brasil, sendo republicada pelo selo Penguin da Companhia das Letras em 2011.

 Em 2007, Donaldo Schüler (1932-), professor emérito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, publica sua tradução em versos livres, em 3 volumes, pelo selo L&PM Pocket (Porto Alegre: L&PM editores). Também em 2011, Trajano Vieira, professor de grego da Unicamp, publica a sua tradução pela Editora 34. Em 2014, Christian Werner (1970-), professor de grego da Universidade de São Paulo, publica a sua tradução pela Editora Cosac Naify. Sua tradução seria republicada em 2018, juntamente com a Ilíada, pela Editora Ubu. Ainda em 2018, Frederico Lourenço revê sua primeira tradução da Odisseia e a relança em Portugal pela Editora Quetzal. Esta é a mais recente tradução integral em português do poema. 

Mas, para além destas traduções integrais, o trecho que nos interessa foi muito traduzido. Registro em ordem cronológica os autores dessas traduções: a primeira é da ex-professora emérita da Universidade de Coimbra Maria Helena da Rocha Pereira (1925-2017) que traduziu o trecho para a sua obra Hélade: Antologia de Cultura Grega (1a edição: 1959). A tradução das ex-professoras de grego da UNESP Maria Helena da Moura Neves e Daisi Malhadas também vem de uma coletânea, a Antologia de Poetas Gregos, de Homero a Píndaro (Araraquara: UNESP, 1976).

Em 2001, o professor de grego da USP Jaa Torrano (1946-) traduz para o periódico Letras Clássicas n.5, da Universidade de São Paulo, todo o primeiro canto da Odisseia. Breno Sebastiani, professor de grego da Universidade de São Paulo, traduz os 21 primeiros versos do poema em artigo da Revista de tradução Modelo, da UNESP, em 2002. Transcrevo uma tradução inédita de Antônio Medina Rodrigues (1940-2013), ex-professor de grego a Universidade de São Paulo, que circulava entre seus alunos no início dos anos 2000.  Na obra Antiga Musa: Arqueologia da Ficção, de 2005, reeditada em 2015, Jacyntho Lins Brandão (1952 -), professor emérito da UFMG, escritor membro da Academia Mineira de Letras, analisa o trecho e oferece uma tradução de sua própria lavra. Em 2018, o professor de grego da USP André Malta (1970 -) publica seu estudo da Odisseia, a obra Astúcia de Ninguém - Ser e não Ser na Odisseia, que traz 8 cantos traduzidos, dentre eles o Canto 1. No artigo "O Homem Complicado" (2019),  Rodrigo Tadeu Gonçalves, professor de latim da UFPR, dá uma tradução dos primeiros versos de Homero a partir da celebrada versão inglesa de Emily Wilson. Pude acessar, ainda, uma tradução inédita do poeta e professor de latim da UFPR Guilherme Gontijo Flores (1984 -),  uma do professor de latim da UFPB e escritor, membro da Academia Paraibana de Letras Milton Marques Júnior, e uma do poeta, tradutor e crítico literário Matheus de Souza Oliveira Almeida, autor do blog Formas Fixas.  Acrescento a tradução do professor da Universidade de São Paulo Adriano Aprigliano, recentemente publicada na página da Editora Syrinx. Também agradeço ao Prof. Fábio P. Cairolli, por me indicar a tradução de Fernando C. de Araújo.

*Atualização: Agradeço à tradutora Denise Bottman por me indicar a tradução de João Félix Pereira e a data de sua tradução (1891). Agradeço à Patrícia Reis Braga pela tradução de Medina. 

*Atualização (02/08/2021): incluída a primeira versão da tradução de Leonardo Antunes (2021), professor de Língua e Literatura Grega na UFRGS. 

*Atualização (04/08/2021): incluída a tradução de Sophía de Delos, que verte o hexâmetro dactílico homérico em duplo heptassílabo. A tradução integral do primeiro canto será publicada em breve com o título de Cordel Homérico 

*Atualização (26/07/2026) incluída a tradução de Layla de Oliveira, que verte em decassílabos a tradução de Emily Wilson; a tradução de Giuliana Ragusa, presente no Guia de Leitura da Odisseia, publicado pela Editora Mnema em 2025; uma nova versão de Guilherme Gontijo Flores, publicada na Revista Ao Avesso, da UFSC. 

1. Antônio José Viale (1868)
Musa, os trabalhos a cantar me ensina
Do ardiloso varão, que longo tempo,
Agitado, vagou, depois que os muros
Da sagrada Ilión lançou por terra;
Que de distantes e mui vários povos
Viu as cidades, os costumes soube,
E magoas mil curtiu, a propria vida
Por salvar forcejando, e os companheiros
Reconduzir buscando ao pátrio ninho;
Mas por salvá-los se esforçou debalde:
Morte lhes foi seu próprio desatino.
Loucos! a fome, sôfregos, fartaram
No, consagrado ao sol, bovino armento:
Do arrojo em punição, o irado nume
Negou-lhes do regresso o fausto dia.
Parte ao menos de tantas aventuras
Conta-me, ó filho do supremo Jove.

2. João Félix Pereira (1891)
Ó Musa, fala do varão astuto,
que errante andou, após haver prostrado
os sacrossantos muros de Dardânia,
que muitos povos viu e de seus usos
Tomou conhecimento. Mil desgostos
Também sofreu nos mares, ansiando
salvar a vida e assegurar a volta
dos companheiros seus; mas não o alcança,
sem embargo de bons desejos ter.
Morreram vítimas da própria inépcia.
Loucos! dos bois do Sol se alimentaram;
e o mesmo Sol lhes denegou o dia,
em que deviam regressar. Ó deusa, faze
exposição d’algumas destas coisas.

3. Odorico Mendes (1928)
Canta, ó Musa, o varão que astucioso,
Rasa Ílion santa, errou de clima em clima,
Viu de muitas nações costumes vários.
Mil transes padeceu no equóreo ponto,
Por segurar a vida e aos seus a volta;
Baldo afã! Pereceram, tendo, insanos,
Ao claro Hiperiônio os bois comido,
Que não quis para a pátria alumiá-los.
Tudo, ó prole Dial, me aponta e lembra.

4. Eusébio Dias Palmeira e Manoel Alves Corrêa (1938)
Ó Musa, fala-me do solerte varão que, depois de ter destruído a cidade sagrada de Tróia, andou errante por muitas terras, viu as cidades de numerosas gentes e conheceu-lhes os costumes; e, por sobre o mar, sofreu no seu coração aflições sem conta, no intento de salvar a sua vida e de conseguir o regresso dos companheiros. Mas, não obstante o seu desejo, não os salvou, pois pereceram por desatino próprio os insensatos, que devoraram as vacas do sol, filho de Hiperíone, pelo que este não os deixou ver o dia do regresso. Deusa, filha de Zeus, conta-nos a nós também algumas destas empresas, começando por qualquer delas.

5.Carlos Alberto Nunes (1941)
Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso que muito
peregrinou, dês que esfez as muralhas sagradas de Troia;
muitas cidades dos homens viajou, conheceu seus costumes,
como no mar padeceu sofrimentos inúmeros na alma,
para que a vida salvasse e de seus companheiros a volta.
Os companheiros, porém, não salvou, muito embora o tentasse,
pois pereceram por culpa das próprias ações insensatas.
Loucos! que as vacas sagradas do Sol Hiperiônio comeram.
Ele, por isso, do dia feliz os privou do retorno.
Deusa nascida de Zeus, de algum ponto nos conta o que queiras.

6. Maria Helena da Rocha Pereira (1959)
Canta-me, ó Musa, o homem fértil em expedientes, que muito vagueou,
depois que destruiu a cidadela sagrada de Tróia,
que viu as cidades de muitos homens e conheceu o seu espírito,
que padeceu, sobre as ondas, muitas dores no seu coração,
em luta pela vida e pelo regresso dos seus companheiros.
Mas a estes não pôde salvá-los, a despeito de seus esforços.
Esses pereceram pela sua própria insensatez
-- loucos! que foram devorar os bois consagrados a Hipérion,
o Sol! Por isso o deus os privou do dia do regresso.
Sobre estes feitos, ó deusa, filha de Zeus, fala-nos,
a nós também, principiando em qualquer altura.

7. G.D.Leoni e Neyde Ramos de Assis (1960)
Fala-me, ó Musa, do homem de talento multiforme que tanto vagueou após haver destruído a sagrada fortaleza de Tróia, viu numerosas cidades, conheceu a índole de homens vários, e muito sofreu sôbre o mar quando buscava o meio pelo qual êle e os companheiros poderiam manter-se vivos e voltar à pátria. Mas êles, insensatos, comeram os bois do Sol Hiperônio, que lhes dificultou o dia do regresso. 
Ó Deusa, filha de Zeus, narra também a mim estes fatos, e começa por onde tu quiseres. 

8. Antônio Pinto de Carvalho (1960)
Canta para mim, ó Musa, o varão industrioso que, depois de haver saqueado a cidadela sagrada de Tróade, vagueou errante por inúmeras regiões, visitou cidades e conheceu o espírito de tantos homens; o varão que sobre o mar sofreu em seu íntimo tormentos sem conta, lutando por sua vida e pelo regresso dos companheiros. Mas, ai! nem assim logrou satisfazer seu desejo de salvá-los: pereceram, em consequência de sua cegueira, os insensatos que devoraram os bois de Hélio Hipérion. O qual os privou do dia do regresso. Deusa, filha de Zeus, conta-nos, a nós também, algumas destas façanhas, começando onde quiseres.

9. Jaime Bruna (1968)
Musa, narra-me as aventuras do herói engenhoso, que após saquear a sagrada fortaleza de Troia, errou por tantíssimos lugares vendo as cidades e conhecendo o pensamento de tantos povos e, no mar, sofreu tantas angústias no coração, tentando preservar a sua vida e o repatriamento de seus companheiros, sem, contudo, salvá-los, mau grado seu; eles perderam-se por seu próprio desatino; imbecis, devoraram as vacas de Hélio, filho de Hipérion, e ele os privou do dia do regresso. Começa por onde te apraz, deusa, filha de Zeus, e conta-as a nós também.

10. Fernando C. de Araújo (1970)
Eis a história de um homem que jamais se deixou vencer. Viajou pelos confins do mundo, depois da tomada de Tróia, a impávida fortaleza. Conheceu muitas cidades e aprendeu a compreender o espírito dos homens. Enfrentou muitas lutas e dificuldades, no esfôrço de salvar a própria vida e levar de volta os companheiros aos seu lares. Fêz o que pôde, mas não consegui salvá-los. Pereceram devido à sua própria loucura, por terem matado e devorado os bois de Hiperion, o Deus-Sol, e este diligenciou para que êles jamais vissem de nôvo seus lares. Ao começar a história, (...)

11. Maria Helena da Moura Neves e Daisi Malhadas (1976)
A vida conta-me, ó Musa, do varão industrioso que tanto
andou errante, depois que a cidadela sagrada de Tróia saqueou,
e de muitos homens visitou as cidades e o espírito conheceu;
que, sobre o mar, angústias sem conta sofreu no coração,
lutando pela própria vida e pelo retorno dos companheiros,
mas nem assim os companheiros salvou, por mais que desejasse;
pois por seu próprio desvario eles pereceram,
os loucos, que os bois de Hélio Hiperião
comeram; e foi este que os privou do dia do retorno.
Desses fatos, a partir de qualquer ponto, ó deusa, filha de Zeus, fala-nos também.

12. Jaa Torrano (2001) 
O varão, diz-me, ó Musa, multívio, que por muitas vias
Vagou, após destruir a sacra fortaleza de Tróia;
De muitos homens viu cidades e conheceu a mente,
Muitas dores no alto mar padeceu em seu ânimo,
Agarrado à sua vida e ao regresso dos companheiros;
Mas nem assim salvou os companheiros, querendo-o
Pois por sua estultícia deles mesmos perecerem,
Néscios, que devoraram as vacas do supereunte Sol
E este por sua vez lhes arrebatou o regressário dia.
Disto nos conta, ó Deusa, filha de Zeus, também a nós.

13. Breno Sebastiani (2002)
Narra-me o homem, ó Musa, de muitas facetas, que demasiadamente
vagou, depois que arrasou a sagrada cidadela de Tróia,
e que de muitos homens viu as praças e conheceu a inteligência;
no mar, muitas dores no ânimo ele sofreu
esforçando-se por garantir sua vida e o retorno dos companheiros.
Eles, pois, perecerem por sua própria presunção,
fracalhões que devoraram os bois de Hélio
Hipérion, o qual em seguida privou-os do dia do retorno.
De qualquer dessas coisas, ó deusa filha de Zeus, narra também a nós.

14. Antônio Medina Rodrigues (2003)
Canta-me, ó Musa, o destro herói que andou demais
Depois de arrasar Tróia, excelsa cidadela,
Vilas viu de mil homens, na alma conheceu-os,
No mar sofreu seu coração mágoas sem conta,
Por garantir sua vida e a volta dos amigos.
Não salvou estes, entretanto, embora ousasse,
Pois que morreram por suas próprias impiedades,
Coitados, ao comerem os bois do Hiperiônio 
Sol que lhes tirou, por isso, o dia da volta.
De casos assim, deusa de Zeus filha, conta-nos! 

15.Frederico Lourenço 1a versão (2003/2011)
Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou,
depois que de Tróia destruiu a cidadela sagrada.
Muitos foram os povos cujas cidades observou,
cujos espíritos conheceu; e foram muitos no mar
os sofrimentos por que passou para salvar a vida,
para conseguir o retorno dos companheiros a suas casas.
Mas a eles, embora o quisesse, não logrou salvar.
Não, pereceram devido à sua loucura,
insensatos, que devoraram o gado sagrado de Hipérion,
o Sol - e assim lhes negou o dia do retorno.
Destas coisas fala-nos agora, ó deusa, filha de Zeus.

16. Jacyntho Lins Brandão (2005/2015)
O guerreiro diz-me, Musa, ardiloso, que muitíssimo
vagou, desde que, de Troia, a sacra cidadela pilhou,
e de muitos homens viu as cidades e o espírito conheceu --
e muitas dores ele, no mar, sofreu em seu ânimo,
lutando por sua vida e pelo retorno dos companheiros --
mas nem assim os companheiros salvou como queria,
pois eles, pela própria insensatez, pereceram,
tolos, que os bois do filho de Hipérion, o sol,
comeram, logo este lhes tirou o dia do retorno.
Disso, desde algum ponto, deusa, filha de Zeus, fala também a nós.

17. Haroldo de Campos (2006)
Do homem poliengenhoso, Musa, dá-me conta, 
do que perambulou por muitas partes, desde 
que saqueou Tróia, urbe sagrada. Profusão 
de povos e de pólis viu e desvendou;
padeceu profusão de penas sobre o pélago,
 para salvar-se e garantir a volta aos seus.
 Aos companheiros, não logrou poupá-los, mesmo 
querendo. Por si próprios perderam-se. Loucos, 
predando os bois do Sol, do retorno privaram-se.
 Começa de onde queiras, Deusa, a nos contar. 

18. Donaldo Schüller (2007)
O homem canta-me, ó Musa, o multifacetado, que muitos
males padeceu, depois de arrasar Tróia, cidadela sacra.
Viu cidades e conheceu costumes de muitos mortais. No
mar, inúmeras dores feriram-lhe o coração, empenhado em
salvar a vida e garantir o regresso dos companheiros. Mas
não conseguiu contê-los, ainda que abnegado. Pereceram,
vítimas de suas presunçosas loucuras. Crianções! Forraram
a pança com a carne das vacas de Hélio Hipérion. Este os
privou, por isso, do dia do regresso. Das muitas façanha,
Deusa, filha de Zeus, conta-nos algumas a teu critério.

19.Trajano Vieira (2011) 
O homem multiversátil, Musa, canta, as muitas
errâncias, destruída Troia, pólis sacra,
as muitas urbes que mirou e mentes de homens
que escrutinou, as muitas dores amargadas
no mar a fim de preservar o próprio alento
e a volta aos sócios. Mas seu sobre-empenho não
os preservou: pueris, a insensatez vitima-os,
pois Hélio Hiperiônio lhes recusa o dia
da volta, morto o gado seu que eles comeram.
Filha de Zeus, começa o canto de algum ponto!

20. Christian Werner (2014/2018)
Do varão me narra, Musa, do muitas-vias, que muito
vagou após devastar a sacra cidade de Troia.
De muitos homens viu urbes e a mente conheceu,
e muitas aflições sofreu ele no mar, em seu ânimo,
tentando garantir sua vida e o retorno dos companheiros.
Nem assim os companheiros socorreu, embora ansiasse:
por iniquidade própria, a deles, pereceram,
tolos, que as vacas de Sol Hipérion
devoraram. Esse, porém, tirou-lhes o dia do retorno.
De um ponto daí, deusa, filha de Zeus, fala também a nós.

21. André Malta (2018)
O varão me evoca, Musa || multiforme, que muitíssimo
vagou, depois de pilhar || a sacra pólis de Troia,
e de muitos homens viu || cidades e soube a mente,
e muitas dores no mar || em seu ânimo sofreu,
almejando sua vida || e a volta dos companheiros.
Mas nem assim os salvou,|| apesar de se empenhar,
pois pereceram por causa || dos próprios atrevimentos,
os tolos, que devoraram || vacas do sobrepassante
Sol -- que deles então re-||tirou o dia da volta!
Disso a partir de algo, deusa|| de Zeus, nos fala também.

22. Frederico Lourenço 2a versão (2019)
Fala-me, Musa, do homem versátil que tanto vagueou,
depois que de Tróia destruiu a cidadela sagrada.
De muitos homens viu as cidades e a mente conheceu;
e foram muitas no mar as dores que sofreu em seu coração
para salvar a vida e o regresso dos companheiros.
Mas nem os companheiros salvou, embora o quisesse.
Pereceram devido às suas próprias loucuras,
tolos, que o gado de Hiperíon, o Sol,
comeram; e este lhes negou o dia do regresso.
Destas coisas, a partir de um ponto qualquer,
ó deusa, filha de Zeus, fala-nos também a nós.

23. Guilherme Gontijo Flores (2019)
O homem conta-me, Musa, do multimodal que por muitos
males passou, arrasando a santa muralha de Troia,
vendo e sabendo de muitas cidades e mentes humanas,
muitas dores sofrendo no mar e dentro do peito
ao proteger seu alento e o retorno de seus companheiros,
sem conseguir salvá-los, por mais que assim desejasse:
pois se perderam pela própria perversidade –
tão pueris que comeram o gado do Sol Hiperônio,
e este por isso então lhes tomou o dia da volta.
Deusa filha de Zeus, começa por um desses pontos.

24. Emily Wilson via Rodrigo Tadeu Gonçalves (2019)
Me conta sobre um homem complicado.
Musa, me conta como ele vagou
perdido, devastando a sacra Troia,
pra onde foi, quem encontrou, a dor
sofrida sobre os mares, e os trabalhos
pra os seus trazer pra casa e se salvar.
Falhou, e eles morreram por seus erros.
Comeram o gado do deus Sol, e o deus
os afastou de casa. Agora, Deusa,
conta essa história para os nossos tempos.
Encontre o início.

25. Milton Marques Júnior (s.d.)
Reconta-me, Musa, sobre o homem de muitas voltas, que em extremo
Errou, depois que destruiu a cidadela sagrada de Troia:
Viu as cidades de muitos homens e conheceu seu pensamento,
Que, sobre o mar, muitas dores sofreu no coração,
Lutando pela sua vida e pelo retorno dos companheiros.
Mas não salvou os companheiros, embora desejando:
Pois pela própria louca presunção deles mesmos pereceram,
Tolos! Os bois do Sol de Hipérion comeram:
Em seguida, o dia do retorno daqueles foi destruído.
Estas coisas, de algum ponto, narra-nos também, Deusa, filha de Zeus.

26. Matheus Oliveira (2020)
O homem, o muitos-atalhos, que passa por muito
tendo pilhado as sagradas muralhas de Tróia,
conta-me, Musa: as cidades e os muitos costumes,
muitos suplícios que no íntimo pena à deriva
salvaguardando o seu ser e o regresso dos sócios.
Quanto esforçasse é em vão, pois não chega a salvá-los:
visto que a própria imprudência aniquila os parceiros,
tão pueris, que o rebanho de Hélio Hiperônio
comem: e assim o deus Sol os afasta de casa.
De onde quiseres, ó Deusa, nos conta também.

27. Adriano Aprigliano (2020)
Varão me canta, Musa, viajado,
o qual vagou deveras, Troia santa,
depois de devastá-la; viu cidades
e a mente soube a muitos homens; vária
sofreu no mar e n'alma dor, a vida
afim de que guardasse e a volta aos sócios.
Porém não salva os sócios, que ansiava:
da própria insensateza pereceram,
sandeus, pois que do Sol que sobrepassa
as vacas devoraram; surrupia
de volta o dia o Sol a eles. Deusa,
de Zeus ó filha,  a nós dalgures fala. 


28. Sophía de Delos (2021) 

Canta pra gente, mãe Musa,

                                               Macho solerte erradio

 

Sofrente, pós destruir

                                               Sacro forte Tróia ingente.

 

De muitos homens viu centros

                                               E os sentidos conheceu,

 

Muitas dores no imo peito

                                               Padeceu no Ponto mar,

 

Por lhe salvar a viv’alma

                                               E a volta ânsia dos seus                     (05)

 

Companheiros, qual socorro

                                               Não conseguiu, bem tentou,

 

Em sandices absortos,

                                               Por própria ação pereceram,

 

Pois comeram, insensatos,

                                               Do sol Hipérion o gado

 

E este por fim lhes privou

                                               Do dia mãe do retorno.

 

De um ponto, nume, da história,                                    

                                               Filha de Zeus, diz conosco.                  (10)

 

29. Leonardo Antunes (2025) 

Sobre o guerreiro de muitos encontros, 
musa, me conta — que muitas e tantas 
voltas trilhou, depois de ter pilhado 
a cidadela sagrada de Troia. 
(Muitas cidades de seres humanos 
ele viu; conheceu seus pensamentos. 
Muitos foram também os sofrimentos 
que no alto-mar seu coração sofreu,
 tentando resguardar a própria vida 
e a volta à casa para os companheiros. 
Mas nem assim foi capaz de salvar 
os companheiros, por mais que tentasse,
 pois eles foram todos destruídos 
por causa de sua própria petulância.
 Tolos! Eles ousaram devorar
 os bois sagrados do filho de Hipérion,
 os bois do Sol, que por isso os privou
 do dia do retorno para casa.)
Sobre essas coisas, de algum ponto, deusa,
 filha de Zeus, agora nos reconta! 

30. Emily Wilson via Layla de Oliveira 

Me conta sobre um homem complicado.
Musa, me conta como ele vagou
perdido ao destruir a sacra Troia
e pra onde foi, com quem topou, que dores
sofreu no mar, e como ele tentou
se salvar e trazer de volta os seus.
Falhou, e por seus erros pereceram.
O Deus Sol os deteve do lar, pois
devoraram seus bois. Deusa, de Zeus
nascida, conta a velha história aos nossos
tempos modernos. Desde o início. Todos (...)

31. Giuliana Ragusa (2025)

O homem reconta-me, ó Musa, o multivoltas  por muito
forçado a vagar, após a sacra cidadela de Troia destruir;
de muitos homens viu urbes e mentes conheceu,
e muitas dores no mar sofreu no peito,
lutando pela vida e pelo retorno dos sócios. 
Mas os sócios ele não salvou, embora o quisesse,
pois a própria insensatez deles os arruinou –
néscios! Que os bois de Hélio Heperionida 
comeram; mas ele lhes tirou o dia do retorno 
Deste ou doutro ponto, ó deusa filha de Zeus, fala a nós.

32. Guilherme Gontijo Flores 2a versão (2026)

Do homem me conte, Musa, o Muita-Volta, que muitas 
coisas passou, depois de arrasar com Troia sagrada, 
muitos humanos viu, conheceu cidadelas e mentes, 
muito mal sofreu no mar e dentro do peito, 
quando buscava alento e retorno aos seus companheiros.
 Não salvou os parceiros, embora tanto tentasse, 
pois pereceram graças à sua própria maldade, 
tão infantis, por comerem o gado do Sol, ou Hipérion; 
de Hélio que assim lhes tomou o saudoso dia da volta.
   Donde quiser, ô Filha de Zeus, comece pra gente. 

REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Jacyntho Lins. A Antiga Musa: Arqueologia da Ficção. Belo Horizonte: Relicário, 2015.
CAMPOS, Haroldo de. Odisséia de Homero: fragmentos. Tradução: Haroldo de Campos. Organização: Ivan de Campos e Marcelo Tápia. Apresentação: Trajano Vieira. São Paulo: Olavobrás, 2006.
CHANOCA, Tatiana Alvarenga. O texto pelo avesso: gênese das traduções em português da Ilíada. Dissertação de Mestrado. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2017.
DELOS, Sophía de. Cordel Homérico. Juazeiro do Norte: Editora Perin, 2021. 
FLORES, Guilherme Gontijo. Aedos, rapsodos, poetas e outras veríssimas mentiras. Avesso, 4. Florianópolis: UFSC, 2026. Disponível em: https://aocontrario.paginas.ufsc.br/files/2026/06/avesso04.pdf (Acesso em: 20.07.2026). 
GONÇALVES, R.T. "Homem Complicado" in Helena, uma revista de ideias, arte e cultura, n.11. Disponível em: http://www.bpp.pr.gov.br/Helena/Noticia/O-homem-complicado (Acesso em 17.07.2020).
HOMERO. Odisseia. Tradução de Antônio Pinto de Carvalho. São Paulo: Difel, 1960.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição e Apresentação de Antônio Medina Rodrigues. São Paulo: EDUSP, 1996.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Frederico Lourenço. Lisboa: Cotovia, 2003.
HOMERO. Odisséia I: Telemaquia..Tradução, introdução e análise de Donaldo Schüler. Porto Alegre, RS: L&PM, 2007.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Frederico Lourenço. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Trajano Vieira. São Paulo: Editora 34, 2011.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 2013.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Christian Werner. São Paulo: Cosac&Naify, 2014.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Christian Werner. São Paulo: Ubu, 2018.
HOMERO. Odisseia. Tradução, introdução e notas de Frederico Lourenço. Lisboa: Quetzal, 2018.
HOMERO. Odisseia em Decassílabos Duplos. Tradução de Leonardo Antunes. Araçoiaba da Serra/São Paulo: Mnema, 2025. 
KOVACS, Tâmara. Ensaios e Experiências de Tradução da Ilíada no Oitocentismo Português. Trabalho de conclusão de curso. São Paulo: FFLCH/USP. 2013.
MALHADAS, Daisi; NEVES, Maria Helena da Moura. Antologia de Poetas Gregos: de Homero a Píndaro. Araraquara: Editora da UNESP, 1976.
MALTA, André. Astúcia de Ninguém - Ser e não Ser na Odisseia. Belo Horizonte: Impressões de Minas, 2018. 
OLIVEIRA, Layla de. Aos nossos tempos modernos: uma proposta de tradução da Odisseia de Emily Wilson. Cadernos de Literatura em Tradução, 30, 424-443. Disponível em: https://revistas.usp.br/clt/pt_BR/article/view/243101 (Acesso em 26.07.2026). 
RAGUSA, Giuliana. Odisseia: Guia de Leitura. Araçoiaba da Serra/São Paulo: Mnema, 2025. 
SEBASTIANI, B. B.. Uma experiência de leitura e tradução: Odisséia, I, 1-21. Modelo 19, São Paulo, v. 13, p. 92-94, 2002.
PEREIRA, Maria Helena da Rocha. Hélade: Antologia de Cultura Grega. Guimarães Editores, 2009.
SILVA, Francisco Inocêncio da. Dicionário bibliográfico português. Tomo Décimo. Lisboa:Imprensa Nacional, 1883. 

TORRANO, JAA. "Odisseia, Canto I". in Letras Clássicas, vol. 5. São Paulo: Humanitas/ FFLCH/ USP/ DLCV. 2001.
VIALE, Antônio José. Miscelânea Helênico-Literária. Lisboa: Imprensa Nacional. 1868.

domingo, junho 28, 2026

Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro - Cecília Meireles

Eles vieram felizes, como
para grandes jogos atléticos,
 com um largo sorriso no rosto,
 com forte esperança no peito,
– porque eram jovens e eram belos.

Marte, porém, soprava fogo
 por estes campos e estes ares.
 E agora estão na calma terra,
 sob estas cruzes e estas flores,
 cercados por montanhas suaves.

São como um grupo de meninos
num dormitório sossegado,
com lençóis de nuvens imensas,
e um longo sono sem suspiros,
de profundíssimo cansaço.

 Suas armas foram partidas
ao mesmo tempo que seu corpo.
E, se acaso sua alma existe,
 com melancolia recorda
o entusiasmo de cada morto.

Este cemitério tão puro
é um dormitório de meninos:
 e as mães de muito longe chamam,
entre as mil cortinas do tempo
cheias de lágrimas, seus filhos.

 Chamam por seus nomes, escritos
nas placas destas cruzes brancas.
Mas, com seus ouvidos quebrados,
com seus lábios gastos de morte,
que hão de responder estas crianças?

 E as mães esperam que ainda acordem,
como foram, fortes e belos,
depois deste rude exercício,
desta metralha e deste sangue,
destes falsos jogos atléticos.

Entretanto, céu, terra, flores,
é tudo horizontal silêncio.
O que foi chaga, é seiva e aroma,
 – do que foi sonho não se sabe –
e a dor vai longe, no vento...

sábado, junho 27, 2026

Telefonema para João Ângelo

 Hoje pensei o dia inteiro em te ligar

porque tive vontade de te ouvir

a sua pressa, a sua ansiedade e a sua urgência

ao telefone, e claro, você,

o que está fazendo e tal,

e as lições do professor de poesia, a quem

sempre releva perguntar o que está lendo.


Porque você tem seu Catulo, seu Horácio,

seu Plínio Jovem,

a remediar -- e sejamos

positivos, preencher -- 

a vaga do tempo incompreensível.

E eu te contaria que andei lendo

a biografia de Petrarca.


E você, com seus livros,

com seus clássicos e urgência,

repõe as letras no sentido das coisas,

quando, amigo e professor,

traz os poetas da Roma velha e cansada

para passear nas ruas da Santa Cecília,

Angélica, Consolação.


E eu te diria que Petrarca,

tão alto poeta,

viveu mergulhado em ninharias, como nós,

doce consolo.


E minha amiga sempre diz

dos encontros que havia antes

e não há mais

-- e eu me lembro

de você

e de seu sonoro nome em minha agenda

e penso que estamos aqui

e também nos encontramos

e almoçamos na cidade poluída

defendendo nosso Horácio

no fundo do bolso. 


Iuri Pereira


in: Parte de Tudo. São Paulo: Hedra, 2025. 

domingo, junho 21, 2026

Otávio Guimarães Tavares

O que essa rua diz sobre a lua?

diz nada

diz correria

diz dessa luz estranha

            que brilha no asfalto

besteiras

e ainda grita

sob o para-brisa dos carros

canções enevoadas

e apelos ao vento

dos corpos mecânicos

deixados pra trás


--------


O mundo

            essa loucura que nos toca

tece trepa e joga

nosso cadáver pela vala

e acha

             que ainda

em algum momento

devemos algum tipo de honraria


resta

                  pela esquina

            sem pensar

jogar o mundo

                 devagar 

--------------


Fonte: Tavares, Otávio Guimarães. Entre Marés. Cotia: Urutau, 2025. 

sexta-feira, junho 05, 2026

Li Bai - Bebendo sozinho sob a lua (3 traduções)

 Em meio a flores a jarra de vinho
virar sozinho sem mais companhia
Erguer o copo à lua reluzente
e mais a sombra agora somos três
Contanto a lua não saiba beber
e em vão a sombra me devolva o corpo
por um momento seguem lua e sombra
Todo o prazer é só uma primavera
Eu canto e a lua flana tremulando
Danço e se soma a sombra redobrando-se
Despertos dividimos alegria
depois de ébrios cada qual um caminho
Até não mais, desfeitos nós se apartam
rever-se um dia pela Via Láctea 

Tradução de Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao in: Antologia de Poesia Clássica Chinesa - Dinastia Tang, São Paulo: Editora da Unesp. 2013

Ergo entre as flores um copo de vinho
e convido o luar
Acabo também por convidar
a minha sombra.
Mas a lua não sabe beber.
e a minha sombra não me consegue acompanhar.
Companheiros de um instante.
– a lua      a minha sombra e eu – vamos brindar.
à primavera..
Enquanto canto     a lua vagueia.
Enquanto danço  a minha sombra desespera.
Esqueçamos tudo enquanto estivermos a beber.
Que cada um se afaste.
quando o dia chegar.
Na longínqua Via Láctea.
mais cedo ou mais tarde.
nos voltaremos a encontrar.

Tradução de Pedro Belo Clara in: "7 poemas de Li Bai » Recanto do Poeta" [Acessado em 24.01.2026]

Entre as flores,
     um jarro de vinho:
     bebo sozinho.
Ergo o copo,
     convido a lua;
ela, minha sombra e eu
     já somos três.
Mesmo que a lua
   não saiba beber
e que minha sombra
    em vão me acompanhe,
alegro-me
    festejando a primavera
    neste instante.

Eu canto, 
    a lua me acompanha.
Eu danço,
    e minha sombra tropeça
    e me estende o braço.
Ainda estou sóbrio:
     que a festa prossiga!
Bêbados,
      cada um pelo seu caminho!
Ligados para sempre,
    simples amigos,
na Via Láctea
    uns aos outros
no reencontraremos. 


Tradução de Sérgio Capparelli e Sun Yuqi. in: Poemas Clássicos Chineses. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2016. 

quinta-feira, junho 04, 2026

À Maneira de G.S.

 Para onde quer que eu viaje, a Grécia me dói.

No Pélion em meio às castanheiras a camisa do Centauro
deslizava entre as folhas para vir enrolar-se no meu corpo
enquanto eu galgava a encosta e o mar me acompanhava
até chegarmos às águas da montanha. 
Em Santorini tocando eu ilhas que afundavam
escutando uma flauta soar algures entre as pedras-pomes
a mão pregou-me à amurada do navio
uma seta de súbito lançada
dos confins da esvanecida juventude.
Em Micenas ergui as grandes pedras e os tesouros dos Átridas
e junto deles me deitei no hotel "A Bela Helena de Menelau";
só desapareceram na alva ao canto da Cassandra
com um galo a lhe pender do colo negro.
Em Spetse em Míconos em Poros
enfadou-me ouvir as barcarolas.

Que pretendem esses todos quando dizem
que podem ser achados em Atenas ou no Pireu?
um vem de Salamina e quer saber de um outro se ele "vem da Omônia"

"Não, venho do Síntagma" responde ancho de si.
"Encontre o Yánnis e convidou-me a um sorvete."
No entrementes é a Grécia que viaja
não sabemos de nada não sabemos quem somos nós desembarcados
ignoramos a a amargura do porto quando os barcos todos já partiram
escarnecemos aqueles que ainda a sentem.

Estranha gente que pretende achar-se na Ática e não está em parte alguma;
compram confeitos de amêndoas quando vão casar
usam "loção para o cabelo" fotografam-se
o homem que hoje vi sentado em frente de um telão com flores e pombinhos
permitia que a velha mão do fotógrafo alisasse as rugas
que lhe deixaram na pele do rosto
os galos do céu.

No entrementes é a Grécia que viaja ela toda que viaja
e se "vemos o mar Egeu a florir de cadáveres"
são daqueles que quiseram tomar o grande barco nadando-lhe ao encontro
daqueles que cansaram de esperar navios que já não
parte o "Samotrácia" o "Elsie" o "Ambracia".
Apitam os navios agora que anoitece no Pireu
todos apitam todos mas não se move cabrestante 
algum corrente alguma que úmida cintile à luz agonizante
o capitão está ali de pedra em meio aos astros e os galões.

Para onde quer que eu viaje a Grécia me dói.
cadeias de montanhas, arquipélagos, grandes escalavrados.
O navio a viajar é o "Agonia 937".

A bordo da Aulide, à espera de zarpar.
Verão de 1936.


Tradução de José Paulo Paes. 

Όπου και να ταξιδέψω η Ελλάδα με πληγώνει.

Στο Πήλιο μέσα στις καστανιές το πουκάμισο του Κενταύρου
γλιστρούσε μέσα στα φύλλα για να τυλιχτεί στο κορμί μου
καθώς ανέβαινα την ανηφόρα κι η θάλασσα μ’ ακολουθούσε
ανεβαίνοντας κι αυτή σαν τον υδράργυρο θερμομέτρου
ώσπου να βρούμε τα νερά του βουνού.
Στη Σαντορίνη αγγίζοντας νησιά που βουλιάζαν
ακούγοντας να παίζει ένα σουραύλι κάπου στις αλαφρόπετρες
μου κάρφωσε το χέρι στην κουπαστή
μια σαΐτα τιναγμένη ξαφνικά
από τα πέρατα μιας νιότης βασιλεμένης.
Στις Μυκήνες σήκωσα τις μεγάλες πέτρες και τους θησαυρούς των Ατρειδών
και πλάγιασα μαζί τους στο ξενοδοχείο της «Ωραίας Ελένης του Μενελάου»·
χάθηκαν μόνο την αυγή που λάλησε η Κασσάντρα
μ’ έναν κόκορα κρεμασμένο στο μαύρο λαιμό της.
Στις Σπέτσες στον Πόρο και στη Μύκονο
με χτίκιασαν οι βαρκαρόλες.

Τί θέλουν όλοι αυτοί που λένε
πως βρίσκουνται στην Αθήνα ή στον Πειραιά;
Ο ένας έρχεται από τη Σαλαμίνα και ρωτάει τον άλλο μήπως «έρχεται εξ Ομονοίας»
«Όχι έρχομαι εκ Συντάγματος» απαντά κι είν’ ευχαριστημένος1
«βρήκα το Γιάννη και με κέρασε ένα παγωτό».
Στο μεταξύ η Ελλάδα ταξιδεύει
δεν ξέρουμε τίποτε δεν ξέρουμε πως είμαστε ξέμπαρκοι όλοι εμείς
δεν ξέρουμε την πίκρα του λιμανιού σαν ταξιδεύουν όλα τα καράβια·
περιγελάμε εκείνους που τη νιώθουν.

Παράξενος κόσμος που λέει πως βρίσκεται στην Αττική και δε βρίσκεται πουθενά·
αγοράζουν κουφέτα για να παντρευτούνε
κρατούν «σωσίτριχα» φωτογραφίζουνται
ο άνθρωπος πού ειδα σήμερα καθισμένος σ’ ένα φόντο με πιτσούνια και με λουλούδια
δέχουνταν το χέρι του γερο-φωτογράφου να του στρώνει τις ρυτίδες
που είχαν αφήσει στο πρόσωπό του
όλα τα πετεινά τ’ ουρανού.

Στο μεταξύ η Ελλάδα ταξιδεύει ολοένα ταξιδεύει
κι αν «ὁρῶμεν ἀνθοῦν πέλαγος Αἰγαῖον νεκροῖς»
είναι εκείνοι που θέλησαν να πιάσουν το μεγάλο καράβι με το κολύμπι
εκείνοι που βαρέθηκαν να περιμένουν τα καράβια που δεν μπορούν να κινήσουν
την ΕΛΣΗ τη ΣΑΜΟΘΡΑΚΗ τον ΑΜΒΡΑΚΙΚΟ.
Σφυρίζουν τα καράβια τώρα που βραδιάζει στον Πειραιά
σφυρίζουν ολοένα σφυρίζουν μα δεν κουνιέται κανένας αργάτης
καμιά αλυσίδα δεν έλαμψε βρεμένη στο στερνό φως που βασιλεύει
ο καπετάνιος μένει μαρμαρωμένος μες στ’ άσπρα και στα χρυσά.

Όπου και να ταξιδέψω η Ελλάδα με πληγώνει·
παραπετάσματα βουνών αρχιπέλαγα γυμνοί γρανίτες…
Το καράβι που ταξιδεύει το λένε ΑΓ ΩΝΙΑ 937.

Α/π Αυλίς, περιμένοντας να ξεκινήσει.
Καλοκαίρι 1936

 Poemas de Giorgos Seféris. Seleção, tradução, introdução e notas de José Paulo Paes. São Paulo, Nova Alexandria, 1995.  

sábado, maio 30, 2026

Robert Bolaño - Dois Poemas para Lautaro Bolaño

LEE A LOS VIEJOS POETAS 

 Lee a los viejos poetas, hijo mío
y no te arrepentirás
Entre las telarañas y las maderas podridas
 de barcos varados en el Purgatorio
 allí están ellos
¡cantando!
¡ridículos y heroicos!
Los viejos poetas
Palpitantes en sus ofrendas
Nómades abiertos en canal y ofrecidos.
a la Nada
(pero ellos no viven en la Nada
sino en los Sueños)
Lee a los viejos poetas
 y cuida sus libros
 Es uno de los pocos consejos
que te puede dar tu padre

 BIBLIOTECA 

 Libros que compro
Entre las extrañas lluvias
 Y el calor
 De 1992
 Y que ya he leído
 O que nunca leeré
Libros para que lea mi hijo
La biblioteca de Lautaro
 Que deberá resistir
Otras lluvias
Y otros calores infernales
 –Así pues, la consigna es ésta:
Resistid queridos libritos
Atravesad los días como caballeros medievales
Y cuidad de mi hijo
En los años venideros


 LEIA OS VELHOS POETAS

Leia os velhos poetas, meu filho
 e não se arrependerá
Entre as teias de aranha e as madeiras podres
de barcos encalhados no Purgatório
lá estão eles
 cantando!
ridículos e heroicos!
Os velhos poetas
 Palpitantes em suas oferendas
 Nômades abertos de cima a baixo e oferecidos
 ao Nada
 (mas eles não vivem no Nada,
 e sim nos Sonhos)
 Leia os velhos poetas
e cuide de seus livros
 É um dos poucos conselhos
que seu pai pode lhe dar

BIBLIOTECA 

 Livros que compro
Entre as chuvas estranhas
 E o calor
De 1992
 E que já li
Ou que nunca lerei
Livros para meu filho ler
A biblioteca de Lautaro
Que deverá suportar
 Outras chuvas
E outros calores infernais
 – Dessa forma, a ordem é esta:
Resistam, queridos livrinhos 
Atravessem os dias como cavaleiros medievais
E cuidem de meu filho
Nos anos vindouros

Tradução de Josely Vianna Baptista