sábado, maio 30, 2026

Robert Bolaño - Dois Poemas para Lautaro Bolaño

LEE A LOS VIEJOS POETAS 

 Lee a los viejos poetas, hijo mío
y no te arrepentirás
Entre las telarañas y las maderas podridas
 de barcos varados en el Purgatorio
 allí están ellos
¡cantando!
¡ridículos y heroicos!
Los viejos poetas
Palpitantes en sus ofrendas
Nómades abiertos en canal y ofrecidos.
a la Nada
(pero ellos no viven en la Nada
sino en los Sueños)
Lee a los viejos poetas
 y cuida sus libros
 Es uno de los pocos consejos
que te puede dar tu padre

 BIBLIOTECA 

 Libros que compro
Entre las extrañas lluvias
 Y el calor
 De 1992
 Y que ya he leído
 O que nunca leeré
Libros para que lea mi hijo
La biblioteca de Lautaro
 Que deberá resistir
Otras lluvias
Y otros calores infernales
 –Así pues, la consigna es ésta:
Resistid queridos libritos
Atravesad los días como caballeros medievales
Y cuidad de mi hijo
En los años venideros


 LEIA OS VELHOS POETAS

Leia os velhos poetas, meu filho
 e não se arrependerá
Entre as teias de aranha e as madeiras podres
de barcos encalhados no Purgatório
lá estão eles
 cantando!
ridículos e heroicos!
Os velhos poetas
 Palpitantes em suas oferendas
 Nômades abertos de cima a baixo e oferecidos
 ao Nada
 (mas eles não vivem no Nada,
 e sim nos Sonhos)
 Leia os velhos poetas
e cuide de seus livros
 É um dos poucos conselhos
que seu pai pode lhe dar

BIBLIOTECA 

 Livros que compro
Entre as chuvas estranhas
 E o calor
De 1992
 E que já li
Ou que nunca lerei
Livros para meu filho ler
A biblioteca de Lautaro
Que deverá suportar
 Outras chuvas
E outros calores infernais
 – Dessa forma, a ordem é esta:
Resistam, queridos livrinhos 
Atravessem os dias como cavaleiros medievais
E cuidem de meu filho
Nos anos vindouros

Tradução de Josely Vianna Baptista

sexta-feira, maio 29, 2026

Li Bai - Adeus a Meng Haoran

 A oeste do pavilhão da Grua Amarela,

   despedimo-nos, velho amigo.

Entre as flores e a bruma de março,

   desces rumo à aldeia de Yang. 

A vaga silhueta em tua solitária vela

   desaparece no espaço esmeralda,

e só resta o Grande Rio

    a correr para os confins do céu. 


Tradução de Sérgio Capparelli e Sun Yuqi. in: Poemas Clássicos Chineses. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2016. 

segunda-feira, abril 20, 2026

Poema de Morte - Yukio Mishima (Trad. Renan Kenji Sales Hayashi)


Venta a tormenta,
Que antecipar o cair
Do mundo e também do humano
Que tanto temem partir
É a essência da flor 

Fonte: LENTZ, G., SULIS, M.; MENEZES, R. (eds.) Revista Nota do Tradutor, n.23. 

terça-feira, março 24, 2026

O Primeiro Degrau - Konstantinos Kaváfis

A Teócrito queixava-se 
um dia o jovem poeta Êumenes: 
“Há dois anos que escrevo 
e fiz um idílio somente. 
É minha única obra acabada. 
Ai de mim, é alta, vejo-o, 
muito alta a escada da Poesia; 
e deste primeiro degrau em que estou 
jamais subirei, infeliz que sou”. 
Disse Teócrito: “Essas palavras 
são inadequadas e são blasfêmias.
E se estás no primeiro degrau, deves 
estar orgulhoso e feliz. 
Aqui aonde chegaste não é pouco; 
quanto fizeste, grande glória. 
E mesmo este primeiro degrau 
dista muito das pessoas comuns. 
Para que pises neste degrau
é preciso que sejas, de pleno direito, 
cidadão na cidade das ideias. 
E naquela cidade é difícil
e raro que te inscrevam como cidadão. 
Em sua ágora encontras Legisladores 
aos quais não engana nenhum aventureiro.
Aqui aonde chegaste não é pouco; 
quanto fizeste, grande glória.

Tradução de Ísis Borges da Fonseca


Foi a Teócrito queixar-se um dia
Eumene, poeta ainda jovem:
 “Faz dois anos que escrevo e até agora
 compus apenas um idílio. 
Esse, o meu único trabalho pronto. 
Pobre de mim! Pelo que vejo, é alta, 
deveras alta, a escada da Poesia. 
Estou no primeiro degrau: jamais, 
infeliz que sou, chegarei ao topo.”
 “Essas palavras”, respondeu Teócrito, 
“são um despropósito, blasfêmias. 
Se estás no primeiro degrau, 
cumpria te sentires feliz e envaidecido.
 Chegar onde chegaste não é pouco,
 nem é pequena glória o que fizeste.
 Do primeiro degrau da mesma escada
 está bem distante o comum das pessoas.
 Para pisar esse degrau de ingresso,
 necessário é que sejas, por direito, 
cidadão da cidade das ideias – 
um título difícil: raramente 
fazem-se ali naturalizações. 
De quantos na sua ágora legislam,
aventureiro algum pode zombar. 
Chegar onde chegaste não é pouco, 
nem é pequena glória o que fizeste.

Tradução de José Paulo Paes 

quinta-feira, março 19, 2026

Shakespeare - Soneto 116

 Não tenha eu restrições ao casamento
De almas sinceras, pois não é amor
O amor que muda ao sabor do momento
E se move e remove em desamor.
Oh, não, o amor é marca mais constante
Que enfrenta a tempestade e não balança,
É a estrela-guia dos batéis errantes,
Cujo valor lá no alto não se alcança.
O amor não é o bufão do Tempo, embora
Sua foice vá ceifando a face a fundo
O amor não muda com o passar das horas,
Mas se sustenta até o final do mundo.
Se é engano meu, e assim provado for,
Nunca escrevi, ninguém jamais amou.
 
 
Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove.
O no, it is an ever fixed mark
That looks on tempests and is never shaken;
It is the star to every wand’ring bark,
Whose worth’s unknown although his height be taken.
Love’s not Time’s fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle’s compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to edge of doom.
If this be error and upon me proved,
O never writ, nor no man ever loved.


Tradução de Geraldo Carneiro

Fonte: Carneiro, Geraldo. O Discurso do Amor Rasgado: Poemas, Cenas e Fragmentos de Shakespeare. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017. 

quarta-feira, março 18, 2026

Rainer Maria Rilke - O Poeta


 Já te despedes de mim, Hora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
 Só: da boca o que faço agora?
Que faço do dia, da noite?
 Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
 fica mais rico e me devora.

Du entfernst dich von mir, du Stunde,
Wunden schlägt mir dein Flügelschlag.
Allein: was soll ich mit meinem Munde?
mit meiner Nacht? mit meinem Tag?

Ich habe keine Geliebte, kein Haus,
 keine Stelle, auf der ich lebe,
 Alle Dinge, an die ich mich gebe,
 werden reich und geben mich aus.


Tradução: Augusto de Campos

Fonte: CAMPOS, Augusto. Coisas e Anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2020

terça-feira, março 17, 2026

Ricardo Reis

Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,
Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá.
Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?
Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?
Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
Na noite e ao fim da estrada.
Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mal as olhaste.
Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.