Ainda que morrendo
o canto das cigarras
nada revela!
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Por nuvens separados
os patos selvagens
se dizem adeus....
Nota da tradutora (N.T.) Escrito na ocasião de partir -- para perambular por seus caminhos -- na idade de 23 anos, depois de perder seu primeiro mestre.
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Chuva cinzenta:
hoje é um dia feliz
mesmo com o Fuji invisível.
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Ah, kankodori:
tu aprofundas
minha solidão!
Nota da tradutora (N.T.) O kankodori é um pássaro que vive nas montanhas. Seu canto triste, ouvido à distância, assemelha-se ao do uirapuru.
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Move-te, ó tumba!
Meu pranto
é o vento do outono
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Sobre o telhado
flores de castanheiro
ignoradas.
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Sobre o tanque morto
um ruído de rã
submergindo.
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A cada brisa
a borboleta muda de lugar
sobre o salgueiro
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Pequeno cuco cinzento:
canta e canta, voa e voa.
Muito há o que fazer!
N.T. Escrito em 1687, este hai-kai tenta aprisionar a vivaz domesticidade da ave, assim como a mesma felicidade que emana de seu trabalho.
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Estendidos ao sol
os quimonos: a manga
do menino morto.
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Chuva estival,
torna transparente
a ponte de Seta!
N.T. A "Longa Ponte" de Seta é uma das famosas "OITO VISTAS DO LAGO OMI". A visão é singular parecidade a que nos apresenta o mestre da gravura Hiroshige, através da qual uma chuva fina delineia tenuemente os contornos da ponta.
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Imensa calma.
Penetrando as rochas
o canto das cigarras.
N.T. Usou-se também: Filtrando pela rocha/o ruído das cigarras. De qualquer maneira, esta imagem resulta tão imprevista como feliz.
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Sobre o mar, a tarde:
Voz de pato vem
vagamente branca...
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Vamo-nos, vejamos
a neve caindo
de fadiga.
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De que árvore florida
chega? Não sei.
Mas é seu perfume...
N.T. Escrito em 1688. O poema alude ao grande templo de Amaterasu Omikami, a Deusa do Sol, em Ise, e à sugestão de um perfume que pode ter emanado não necessariamente nesse instante.
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Molhadas,
inclinadas:
peônias sob a chuva
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Ruídos nas ramas.
Trêmulo, meu coração detem-se
e chora na noite...
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Nesta noite
ninguém pode deitar-se:
lua cheia.
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Nem flores nem lua.
E ele tomando sakê
sozinho!
N.T. Escrito em 1689. Essa "pintura de um bebedor de sakê" reflete a exteema solidão e abstração em que se acha o homem, impassível inclusive ante a natureza.
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Já não me importa
o horto de camélias
mas ver de novo o Fuji.
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Entre Sado
e o mar agitado,
a Via Láctea.
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Viagem de anciões,
cabelos brancos, bastões,
visita às tumbas...
N.T. Escrito em 1694. Talvez uma triste rememoração dos familiares do poeta. Em todo o caso, a visão é tão piedosa como fatalista.
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Este caminho!
sem ninguém nele,
escuridão de outono.
N.T. Escritos no ano da morte de Bashô e conhecido como "o caminho de Bashô".
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A calhandra canta
sem deter-se em nada...
E que longo dia!
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Nuvens de flores...
E um sino...o de Ueno?
Ou o de Asakusa?
N.T. A estação é a primavera, sinônimo de flores de cerejeira. Os sinos pertencem aos templos de Kaneiji, em Ueno,a Sensoji, em Asakusa, ambos dentro da atual cidade de Tóquio. Provavelmente Bashô o compôs às margens do rio Sumida e toda a quietude e o mistério que emanam do ambiente, tornam ainda mais mágico o som longínquo no meio da noite.
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O azeite de minha lâmpada
consumido. Na noite,
pela minha janela, a lua.
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Para minha fadiga
um albergue...Mas, oh,
estas glicínias!
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Primeira nevada
própria para dobrar as folhas
dos junquilhos.
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Cerros com tíbias sendas.
Sobre os cedros, o crepúsculo.
Ao longe, sinos.
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Lua cheia:
vago através da noite
em torno do poço...
N.T. A lua na água do tanque faz esquecer o sono.
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Relvas de verão
sob as quais guerreiros
sonham.
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Brisa leve:
a sombra da glicínia
estremece apenas...
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Varrendo o jardim
a neve é olvidada
pelo ancinho...
N.T. De maneira indireta aparecem neste hai-kai os elementos zen-budistas ou o que se chama "sabor zen" ou zen-mi. É aguda a percepção do poeta ao dar-nos uma imagem que resulta imponderável, apesar da fortaleza do implemento.
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Canto e morte
da cigarra
na mesa paisagem.
N.T. Intenção zen-budista da relatividade da vida.
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Belo ainda na manhã
o velho cavalo
sobre a neve.
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Sem sequer um galho
longe do mundo, vive
o nenúfar.
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Porta fechada,
deito-me no silêncio.
Prazer da solidão.
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A água gelada
e, apenas adormecida,
a gaivota.
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Jogos e risos
que cessam:
lua de outono.
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Pintando sobre o biombo
um pinheiro dourado:
interior de inverno.
N.T. A contemplação da natureza na pintura ajuda a suportar o inverno.
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Necessita o rouxinol
um farol de papel
para seguir alerta?
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Desenhada sobre o cavalo
minha sombra parece
congelada.
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Relâmpago
e na sombra
o ruído vibrante da garça
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Sopra o vento de inverno
os olhos do gato
pestanejam.
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Um doce ruído
interrompe meu sonho:
gotas de chuva sobre a folhagem.
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Cebola branca
recém-lavada:
impressão de frio.
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Galho morto
e, nele pousado, um corvo:
tarde de outono.
N.T. Escrito aproximadamente em 1679 e possivelmente um dos primeiros hai-kais do "estilo novo". Este poema tem sido considerado cmo um dos mais audazes do poeta e contém, além disso, "o princípio da comparação interna". De qualquer maneira, a visão não pode ser mais comprometedoramente desolada.
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O crepúsculo:
ervas que seguem o rastro
dos rebanhos retornando.
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Até uma choça com teto de palha
neste mundo louco se transforma
em casa de bonecas.
Fonte: O Livro dos Hai-Kais. São Paulo: Massao Ohno, 1980.