terça-feira, fevereiro 17, 2026

Haikais de Bashô - Traduções de Olga Savary

 Ainda que morrendo
o canto das cigarras
nada revela!

***

Por nuvens separados
os patos selvagens
se dizem adeus....

***

Chuva cinzenta:
hoje é um dia feliz
mesmo com o Fuji invisível.

***

Ah, kankodori:
tu aprofundas
minha solidão! 

****

Move-te, ó tumba!
Meu pranto
é o vento do outono

***

Sobre o telhado
flores de castanheiro
ignoradas.

***

Sobre o tanque morto
um ruído de rã
submergindo.

***

A cada brisa
a borboleta muda de lugar
sobre o salgueiro

***

Pequeno cuco cinzento:
canta e canta, voa e voa.
Muito há o que fazer! 

***

Estendidos ao sol
os quimonos: a manga
do menino morto. 

***

Chuva estival,
torna transparente
a ponte de Sete!

***

Imensa calma.
Penetrando as rochas
o canto das cigarras.

***

Sobre o mar, a tarde:
Voz de pato vem
vagamente branca...

***

Vamo-nos, vejamos
a neve caindo 
de fadiga.

***

De que árvore florida
chega? Não sei.
Mas é seu perfume...

***

Molhadas,
inclinadas:
peônias sob a chuva

***

Ruídos nas ramas.
Trêmulo, meu coração detem-se
e chora na noite...

***

Nesta noite
ninguém pode deitar-se:
lua cheia.

***

Nem flores nem lua.
E ele tomando sakê
sozinho!

***

Já não me importa
o horto de camélias
mas ver de novo o Fuji.

***

Entre Sado
e o mar agitado,
a Via Láctea.

***

Viagem de anciões,
cabelos brancos, bastões,
visita às tumbas...

***

Este caminho!
sem ninguém nele,
escuridão de outono.

***

A calhandra canta
sem deter-se em nada...
E que longo dia!

***

Nuvens de flores...
E um sino...o de Ueno?
Ou o de Asakusa?

***

O azeite de minha lâmpada
consumido. Na noite,
pela minha janela, a lua. 

***

Para minha fadiga
um albergue...Mas, oh,
estas glicínias!

***

Primeira nevada
própria para dobrar as folhas
dos junquilhos.

***

Cerros com tíbias sendas.
Sobre os cedros, o crepúsculo.
Ao longe, sinos.

***

Lua cheia:
vago através da noite
em torno do poço...

***

Relvas de verão
sob as quais guerreiros
sonham.

***

Brisa leve:
a sombra da glicínia
estremece apenas...

***

Varrendo o jardim
a neve é olvidada
pelo ancinho...

***

Canto e morte
da cigarra
na mesa paisagem.

***

Belo ainda na manhã
o velho cavalo
sobre a neve.

***

Sem sequer um galho
longe do mundo, vive
o nenúfar.

***

Porta fechada,
deito-me no silêncio.
Prazer da solidão.

***

A água gelada
e, apenas adormecida,
a gaivota.

***

Jogos e risos
que cessam:
lua de outono.

***

Pintando sobre o biombo
um pinheiro dourado:
interior de inverno.

***

Necessita o rouxinol
um farol de papel
para seguir alerta?

***

Desenhada sobre o cavalo
minha sombra parece
congelada.

***

Relâmpago
e na sombra
o ruído vibrante da garça

***

Sopra o vento de inverno
os olhos do gato
pestanejam.

***

Um doce ruído
interrompe meu sonho:
gotas de chuva sobre a folhagem.

***

Cebola branca
recém-lavada:
impressão de frio.

***

Galho morto
e, nele pousado, um corvo:
tarde de outono.

***

O crepúsculo:
ervas que seguem o rastro
dos rebanhos retornando.

***

Até uma choça com teto de palha
neste mundo louco se transforma
em casa de bonecas. 

Fonte: O Livro dos Hai-Kais. São Paulo: Massao Ohno, 1980. 

segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Meleagro de Gádara - Antologia Grega 12,119

 Tomarei, Baco, a tua coragem. Comanda a festa,

     inicia, deus que segura as rédeas do coração mortal.

Nascido do fogo, tu amas a chama de Eros

   e após me prenderes de novo, me conduzes como teu suplicante.

És traidor e desleal, ordenas que se esconda teus mistérios,

    mas os meus agora desejas revelar. 

Tradução de Flávia Vasconcellos Amaral in: A Guirlanda de sua Guirlanda, Epigramas de Meleagro de Gádara: Tradução e Estudo. São Paulo: FFLCH/DLCV/USP. Dissertação de Mestrado. 2009. 


Suportarei em teu nome, Baco, a tua ousadia! Vamos,

   dirige a festa! Um deus dirige o meu coração mortal.

Porque no fogo foste gerado, amas a chama que há em Eros

    e, aprisionando-me de novo, arrastas-me como suplicante.

Como és traidor e falso! Mandas ocultar os teus mistérios,

    mas fazes questão de desvendar agora os meus.


Tradução de Carlos Jesus in: Antologia Grega: A Musa dos Rapazes (Livro XII). Coimbra: Coimbra University Press. 2017.  



Οἴσω, ναὶ μὰ σέ, Βάκχε, τὸ σὸν θράσος· ἁγέο, κώμων 
     ἄρχε· θεὸς θνατὰν ἁνιόχει κραδίαν·
ἐν πυρὶ γενναθεὶς στέργεις φλόγα τὰν ἐν Ἔρωτι
    καί με πάλιν δήσας τὸν σὸν ἄγεις ἱκέτην
 ἦ προδότας κἄπιστος ἔφυς, τεὰ δ' ὄργια κρύπτειν
      αὐδῶν ἐκφαίνειν τἀμὰ σὺ νῦν ἐθέλεις

sábado, fevereiro 14, 2026

Bacanal - Manuel Bandeira

Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
           Evoé Baco! 

Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada 
A gargalhar em doudo assomo...
         Evoé Momo! 

Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
--  Cobras de lívidos venenos...
     Evoé Vênus! 

Se me perguntarem: que mais queres,
Além de versos e mulheres? ....
-- Vinhos! ...O vinho que é o meu fraco!
           Evoé Baco!

O alfanje rútilo da lua
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que não domo!...
      Evoé Momo!

A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
        Evoé Vênus! 

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Jorge de Lima - Duas meninas de tranças pretas

 Eram duas meninas de tranças pretas. 

Veio uma febre levou as duas.

Foram as duas para o cemitério:

ambas ficaram na mesma cova.

Por sobre as pedras da sepultura

brotou bonina, brotou bonina,

nasceram plantas, nasceram mais plantas, 

flores do mato, canas da várzea:

a sepultura virou canteiro. 

Aves vieram cantar na plantas,

levaram sementes por sobre o mar.

Os peixes levaram estas sementes

até as Ilhas de Karakantá.

Ali brotaram flores estranhas.

Donde vieram flores tão raras?

Ah! só o poeta saberá.

Pois nesse mundo desconhecido

há casos desses que ninguém vê:

vieram insetos eijar as flores,

e um belo dia veio um poeta

pegar insetos para sua amada.

A borboleta mais rara que há

naquelas ilhas de Karakantá

é cor de amaranto com olhos azuis.

Mas heis de saber que a tal borboleta

contém veneno dentro dos olhos;

aí o poeta beijando tais olhos

ficou dormindo como um cadáver.

E então sonhou com as duas meninas:

que ambas dormiam na mesma cova,

que flores nasceram na sepultura,

que a sepultura virou canteiro,

que peixes levaram sementes da flores

para aquelas Ilhas de Karakantá.

O sonho do poeta o vento levou,

levou para um astro desconhecido.

E aí chegando tornou-se um mar:

a água do mar virou arco-íris.

Então uma deusa pegou o arco-íris

e fez um pente para se pentear.

E tanto se penteou a deusa do astro

que deu a luz duas meninas.

Sabeis quem são as duas meninas?

As duas meninas mais belas que há?

Ah! só o poeta saberá. 


Jorge de Lima. A Túnica Inconsútil. Rio de Janeiro: Guanabara, 1938. 

ais ou menos

       (oração pela descrença) 

    Senhor, 

peço poderes sobre o sono,

   esse sol em que me ponho,

a sofrer meus ais ou menos,

    sombra, quem sabe, dentro de um sonho.

     Quero forças para o salto

do abismo onde me encontro

   ao hiato onde me falto.

e, aos pés da pedra,

    essa sombra, pedra que se esfalfa.

    Pedra, letra, estrela à solta,

sim, quero viver sem fé,

   levar a vida que falta

sem nunca saber quem é. 


Paulo Leminski. ais ou menos. In: Toda Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. 

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Agamêmnon de Ésquilo, versos 1331-1342 - Tradução de Jaa Torrano

 Coro:

A prosperidade brota insaciável

a todos os mortais. Por recusa

ninguém a repele de indigitados palácios

a dizer: "não entres mais aqui".

Os Venturosos deram a este homem

capturar o país de Príamo

e honrado por Deus retorna ao lar.

Se agora responder por sangue antigo

e morto pelas mortes cobrar punição

com outras mortes,

que mortal ouvindo isso alardearia

ter nascido com incólume destino? 


Fonte: TORRANO, Jaa. Ésquilo. Oresteia I: Agamêmnon. São Paulo: Iluminuras, 2004. 

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

O Tempo cobra o tributo (Marcelo Tápia)

 Quem enfrenta sua velhice

o faz por não morrer jovem:

esse consolo se diz

para que o ancião se conforme.


Mas será melhor, por certo,

viver mais que partir cedo;

se outro mundo há, eterno,

que não se apresse o desfecho.


Foi-se a era dos heróis

que moços iam em glória;

hoje, com tudo o que dói,

prefere-se a longa história.


Sim, não falta dor à idade:

entre outras, essa sentença

sugere viver com arte,

e manter leve a consciência,


sem pesar demais os erros,

nem cultivar os remorsos,

e tampouco dar-se aos medos,

só aos riscos, com conforto. 


Desprezar os maldizeres

convém a quem se quer bem;

nutrir amizades que restem

é o que a alegria retém.


Pensar no porvir se deve,

mas o agora sempre urge:

amanhã talvez me leve

a infalível foice a algures.


Fruir as coisas vividas,

mínimas de todo dia,

é ter a vida colhida

mesmo onde ela se escondia.


O tempo curto desdobra-se

em muitos se cada instante

é preenchido sem sobras,

seja ao depois, seja ao antes;


se os anos idos soçobram,

deixo o choro e sigo adiante. 


Marcelo Tápia. Ascensões e Descensos. São Paulo: Editora Madamu, 2025.