quinta-feira, junho 04, 2026

À Maneira de G.S.

 Para onde quer que eu viaje, a Grécia me dói.

No Pélion em meio às castanheiras a camisa do Centauro
deslizava entre as folhas para vir enrolar-se no meu corpo
enquanto eu galgava a encosta e o mar me acompanhava
até chegarmos às águas da montanha. 
Em Santorini tocando eu ilhas que afundavam
escutando uma flauta soar algures entre as pedras-pomes
a mão pregou-me à amurada do navio
uma seta de súbito lançada
dos confins da esvanecida juventude.
Em Micenas ergui as grandes pedras e os tesouros dos Átridas
e junto deles me deitei no hotel "A Bela Helena de Menelau";
só desapareceram na alva ao canto da Cassandra
com um galo a lhe pender do colo negro.
Em Spetse em Míconos em Poros
enfadou-me ouvir as barcarolas.

Que pretendem esses todos quando dizem
que podem ser achados em Atenas ou no Pireu?
um vem de Salamina e quer saber de um outro se ele "vem da Omônia"

"Não, venho do Síntagma" responde ancho de si.
"Encontre o Yánnis e convidou-me a um sorvete."
No entrementes é a Grécia que viaja
não sabemos de nada não sabemos quem somos nós desembarcados
ignoramos a a amargura do porto quando os barcos todos já partiram
escarnecemos aqueles que ainda a sentem.

Estranha gente que pretende achar-se na Ática e não está em parte alguma;
compram confeitos de amêndoas quando vão casar
usam "loção para o cabelo" fotografam-se
o homem que hoje vi sentado em frente de um telão com flores e pombinhos
permitia que a velha mão do fotógrafo alisasse as rugas
que lhe deixaram na pele do rosto
os galos do céu.

No entrementes é a Grécia que viaja ela toda que viaja
e se "vemos o mar Egeu a florir de cadáveres"
são daqueles que quiseram tomar o grande barco nadando-lhe ao encontro
daqueles que cansaram de esperar navios que já não
parte o "Samotrácia" o "Elsie" o "Ambracia".
Apitam os navios agora que anoitece no Pireu
todos apitam todos mas não se move cabrestante 
algum corrente alguma que úmida cintile à luz agonizante
o capitão está ali de pedra em meio aos astros e os galões.

Para onde quer que eu viaje a Grécia me dói.
cadeias de montanhas, arquipélagos, grandes escalavrados.
O navio a viajar é o "Agonia 937".

A bordo da Aulide, à espera de zarpar.
Verão de 1936.


Tradução de José Paulo Paes. 

Όπου και να ταξιδέψω η Ελλάδα με πληγώνει.

Στο Πήλιο μέσα στις καστανιές το πουκάμισο του Κενταύρου
γλιστρούσε μέσα στα φύλλα για να τυλιχτεί στο κορμί μου
καθώς ανέβαινα την ανηφόρα κι η θάλασσα μ’ ακολουθούσε
ανεβαίνοντας κι αυτή σαν τον υδράργυρο θερμομέτρου
ώσπου να βρούμε τα νερά του βουνού.
Στη Σαντορίνη αγγίζοντας νησιά που βουλιάζαν
ακούγοντας να παίζει ένα σουραύλι κάπου στις αλαφρόπετρες
μου κάρφωσε το χέρι στην κουπαστή
μια σαΐτα τιναγμένη ξαφνικά
από τα πέρατα μιας νιότης βασιλεμένης.
Στις Μυκήνες σήκωσα τις μεγάλες πέτρες και τους θησαυρούς των Ατρειδών
και πλάγιασα μαζί τους στο ξενοδοχείο της «Ωραίας Ελένης του Μενελάου»·
χάθηκαν μόνο την αυγή που λάλησε η Κασσάντρα
μ’ έναν κόκορα κρεμασμένο στο μαύρο λαιμό της.
Στις Σπέτσες στον Πόρο και στη Μύκονο
με χτίκιασαν οι βαρκαρόλες.

Τί θέλουν όλοι αυτοί που λένε
πως βρίσκουνται στην Αθήνα ή στον Πειραιά;
Ο ένας έρχεται από τη Σαλαμίνα και ρωτάει τον άλλο μήπως «έρχεται εξ Ομονοίας»
«Όχι έρχομαι εκ Συντάγματος» απαντά κι είν’ ευχαριστημένος1
«βρήκα το Γιάννη και με κέρασε ένα παγωτό».
Στο μεταξύ η Ελλάδα ταξιδεύει
δεν ξέρουμε τίποτε δεν ξέρουμε πως είμαστε ξέμπαρκοι όλοι εμείς
δεν ξέρουμε την πίκρα του λιμανιού σαν ταξιδεύουν όλα τα καράβια·
περιγελάμε εκείνους που τη νιώθουν.

Παράξενος κόσμος που λέει πως βρίσκεται στην Αττική και δε βρίσκεται πουθενά·
αγοράζουν κουφέτα για να παντρευτούνε
κρατούν «σωσίτριχα» φωτογραφίζουνται
ο άνθρωπος πού ειδα σήμερα καθισμένος σ’ ένα φόντο με πιτσούνια και με λουλούδια
δέχουνταν το χέρι του γερο-φωτογράφου να του στρώνει τις ρυτίδες
που είχαν αφήσει στο πρόσωπό του
όλα τα πετεινά τ’ ουρανού.

Στο μεταξύ η Ελλάδα ταξιδεύει ολοένα ταξιδεύει
κι αν «ὁρῶμεν ἀνθοῦν πέλαγος Αἰγαῖον νεκροῖς»
είναι εκείνοι που θέλησαν να πιάσουν το μεγάλο καράβι με το κολύμπι
εκείνοι που βαρέθηκαν να περιμένουν τα καράβια που δεν μπορούν να κινήσουν
την ΕΛΣΗ τη ΣΑΜΟΘΡΑΚΗ τον ΑΜΒΡΑΚΙΚΟ.
Σφυρίζουν τα καράβια τώρα που βραδιάζει στον Πειραιά
σφυρίζουν ολοένα σφυρίζουν μα δεν κουνιέται κανένας αργάτης
καμιά αλυσίδα δεν έλαμψε βρεμένη στο στερνό φως που βασιλεύει
ο καπετάνιος μένει μαρμαρωμένος μες στ’ άσπρα και στα χρυσά.

Όπου και να ταξιδέψω η Ελλάδα με πληγώνει·
παραπετάσματα βουνών αρχιπέλαγα γυμνοί γρανίτες…
Το καράβι που ταξιδεύει το λένε ΑΓ ΩΝΙΑ 937.

Α/π Αυλίς, περιμένοντας να ξεκινήσει.
Καλοκαίρι 1936

 Poemas de Giorgos Seféris. Seleção, tradução, introdução e notas de José Paulo Paes. São Paulo, Nova Alexandria, 1995.  

sábado, maio 30, 2026

Robert Bolaño - Dois Poemas para Lautaro Bolaño

LEE A LOS VIEJOS POETAS 

 Lee a los viejos poetas, hijo mío
y no te arrepentirás
Entre las telarañas y las maderas podridas
 de barcos varados en el Purgatorio
 allí están ellos
¡cantando!
¡ridículos y heroicos!
Los viejos poetas
Palpitantes en sus ofrendas
Nómades abiertos en canal y ofrecidos.
a la Nada
(pero ellos no viven en la Nada
sino en los Sueños)
Lee a los viejos poetas
 y cuida sus libros
 Es uno de los pocos consejos
que te puede dar tu padre

 BIBLIOTECA 

 Libros que compro
Entre las extrañas lluvias
 Y el calor
 De 1992
 Y que ya he leído
 O que nunca leeré
Libros para que lea mi hijo
La biblioteca de Lautaro
 Que deberá resistir
Otras lluvias
Y otros calores infernales
 –Así pues, la consigna es ésta:
Resistid queridos libritos
Atravesad los días como caballeros medievales
Y cuidad de mi hijo
En los años venideros


 LEIA OS VELHOS POETAS

Leia os velhos poetas, meu filho
 e não se arrependerá
Entre as teias de aranha e as madeiras podres
de barcos encalhados no Purgatório
lá estão eles
 cantando!
ridículos e heroicos!
Os velhos poetas
 Palpitantes em suas oferendas
 Nômades abertos de cima a baixo e oferecidos
 ao Nada
 (mas eles não vivem no Nada,
 e sim nos Sonhos)
 Leia os velhos poetas
e cuide de seus livros
 É um dos poucos conselhos
que seu pai pode lhe dar

BIBLIOTECA 

 Livros que compro
Entre as chuvas estranhas
 E o calor
De 1992
 E que já li
Ou que nunca lerei
Livros para meu filho ler
A biblioteca de Lautaro
Que deverá suportar
 Outras chuvas
E outros calores infernais
 – Dessa forma, a ordem é esta:
Resistam, queridos livrinhos 
Atravessem os dias como cavaleiros medievais
E cuidem de meu filho
Nos anos vindouros

Tradução de Josely Vianna Baptista

sexta-feira, maio 29, 2026

Li Bai - Adeus a Meng Haoran

 A oeste do pavilhão da Grua Amarela,

   despedimo-nos, velho amigo.

Entre as flores e a bruma de março,

   desces rumo à aldeia de Yang. 

A vaga silhueta em tua solitária vela

   desaparece no espaço esmeralda,

e só resta o Grande Rio

    a correr para os confins do céu. 


Tradução de Sérgio Capparelli e Sun Yuqi. in: Poemas Clássicos Chineses. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2016. 

segunda-feira, abril 20, 2026

Poema de Morte - Yukio Mishima (Trad. Renan Kenji Sales Hayashi)


Venta a tormenta,
Que antecipar o cair
Do mundo e também do humano
Que tanto temem partir
É a essência da flor 

Fonte: LENTZ, G., SULIS, M.; MENEZES, R. (eds.) Revista Nota do Tradutor, n.23. 

terça-feira, março 24, 2026

O Primeiro Degrau - Konstantinos Kaváfis

A Teócrito queixava-se 
um dia o jovem poeta Êumenes: 
“Há dois anos que escrevo 
e fiz um idílio somente. 
É minha única obra acabada. 
Ai de mim, é alta, vejo-o, 
muito alta a escada da Poesia; 
e deste primeiro degrau em que estou 
jamais subirei, infeliz que sou”. 
Disse Teócrito: “Essas palavras 
são inadequadas e são blasfêmias.
E se estás no primeiro degrau, deves 
estar orgulhoso e feliz. 
Aqui aonde chegaste não é pouco; 
quanto fizeste, grande glória. 
E mesmo este primeiro degrau 
dista muito das pessoas comuns. 
Para que pises neste degrau
é preciso que sejas, de pleno direito, 
cidadão na cidade das ideias. 
E naquela cidade é difícil
e raro que te inscrevam como cidadão. 
Em sua ágora encontras Legisladores 
aos quais não engana nenhum aventureiro.
Aqui aonde chegaste não é pouco; 
quanto fizeste, grande glória.

Tradução de Ísis Borges da Fonseca


Foi a Teócrito queixar-se um dia
Eumene, poeta ainda jovem:
 “Faz dois anos que escrevo e até agora
 compus apenas um idílio. 
Esse, o meu único trabalho pronto. 
Pobre de mim! Pelo que vejo, é alta, 
deveras alta, a escada da Poesia. 
Estou no primeiro degrau: jamais, 
infeliz que sou, chegarei ao topo.”
 “Essas palavras”, respondeu Teócrito, 
“são um despropósito, blasfêmias. 
Se estás no primeiro degrau, 
cumpria te sentires feliz e envaidecido.
 Chegar onde chegaste não é pouco,
 nem é pequena glória o que fizeste.
 Do primeiro degrau da mesma escada
 está bem distante o comum das pessoas.
 Para pisar esse degrau de ingresso,
 necessário é que sejas, por direito, 
cidadão da cidade das ideias – 
um título difícil: raramente 
fazem-se ali naturalizações. 
De quantos na sua ágora legislam,
aventureiro algum pode zombar. 
Chegar onde chegaste não é pouco, 
nem é pequena glória o que fizeste.

Tradução de José Paulo Paes 

quinta-feira, março 19, 2026

Shakespeare - Soneto 116

 Não tenha eu restrições ao casamento
De almas sinceras, pois não é amor
O amor que muda ao sabor do momento
E se move e remove em desamor.
Oh, não, o amor é marca mais constante
Que enfrenta a tempestade e não balança,
É a estrela-guia dos batéis errantes,
Cujo valor lá no alto não se alcança.
O amor não é o bufão do Tempo, embora
Sua foice vá ceifando a face a fundo
O amor não muda com o passar das horas,
Mas se sustenta até o final do mundo.
Se é engano meu, e assim provado for,
Nunca escrevi, ninguém jamais amou.
 
 
Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove.
O no, it is an ever fixed mark
That looks on tempests and is never shaken;
It is the star to every wand’ring bark,
Whose worth’s unknown although his height be taken.
Love’s not Time’s fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle’s compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to edge of doom.
If this be error and upon me proved,
O never writ, nor no man ever loved.


Tradução de Geraldo Carneiro

Fonte: Carneiro, Geraldo. O Discurso do Amor Rasgado: Poemas, Cenas e Fragmentos de Shakespeare. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017. 

quarta-feira, março 18, 2026

Rainer Maria Rilke - O Poeta


 Já te despedes de mim, Hora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
 Só: da boca o que faço agora?
Que faço do dia, da noite?
 Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
 fica mais rico e me devora.

Du entfernst dich von mir, du Stunde,
Wunden schlägt mir dein Flügelschlag.
Allein: was soll ich mit meinem Munde?
mit meiner Nacht? mit meinem Tag?

Ich habe keine Geliebte, kein Haus,
 keine Stelle, auf der ich lebe,
 Alle Dinge, an die ich mich gebe,
 werden reich und geben mich aus.


Tradução: Augusto de Campos

Fonte: CAMPOS, Augusto. Coisas e Anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2020