sexta-feira, fevereiro 20, 2026

Mário Quintana - Hai-Kais

 AMANHECE

Um copo de cristal
Sobre a mesa
Inventa as cores todas do arco-íris...

HOJE É OUTRO DIA

Quando abro cada manhã a janela do meu quarto
É como se abrisse o mesmo livro
Numa página nova...

QUEM SOMOS?

Esse estranho que mora no espelho
Olha-me de um jeito
De quem procura recordar quem sou...

A OFERENDA

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos...
Trago-te estas mãos vazias
Que vão tomando a forma do teu seio.

VERÃO

Quando os sapatos ringem
         - quem diria?
São os teus pés que estão cantando! 

O TÚNEL

Às vezes
O longo túnel do sono é iluminado, apenas,
Pelos olhos verdes dos fantasmas...

HAI-KAI DA PALAVRA ANDORINHA

A palavra andorinha
Freme devagarinho
E somo em silêncio...

HAI-KAI

Rosa suntuosa e simples,
como podes estar tão vestida
e ao mesmo tempo inteiramente nua? 

OS GRILOS

Eles cantam a noite inteira!
Não sabias?
Os grilos são os poetas mortos...

ELEGIA URBANA

Rádios. Tevês.
Goooooooooooooooooooooooolo!!!!
(o domingo é um cachorro escondido debaixo da cama.)

ESTRANHEZA

Os vivos e os mortos
Sempre tivemos uma coisa em comum:
Não acreditamos muito uns nos outros...

CONVITE

Basta de poemas para depois...
Ó vida, e se nós dois
Vivêssemos juntos?

HAI-KAI

Silenciosamente
sem um cacarejo
a Noite põe o ovo da lua...

HAI-KAI DE OUTONO

Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?

ARTE POÉTICA

Esses poetas que tudo dizem
Nada conseguem dizer:
Estão fazendo apenas relatórios...

LIBERTAÇÃO

A morte é a libertação total:
A morte é quando a gente pode, afinal,
Estar deitado de sapatos...

HAI-KAI DE OUTONO

Uma folha, ai,
melancolicamente
                   cai! 

O VERSO

O verso é um doido cantando sozinho.
Seu assunto é o caminho. E nada mais!
O caminho que ele próprio inventa...


Fonte: Polito, R. (org.) Mário Quintana. O Livro dos Haicais. Ilustrações de Roberto Negreiros; posfácio de Paulo Franchetti. São Paulo: Globo, 2009. 

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Orides Fontela

 Kant (Relido)


Duas coisas admiro: a dura lei
cobrindo-me
e o estrelado céu
dentro de mim


Orides Fontela. Rosácea, 1986. 

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Simônides - Elegia 8 (Tradução de Tadeu Andrade)

 Coisa mais bela disse o homem quio:
“Como das folhas são as gerações dos homens”.
Pouquíssimos mortais, como a escutassem,
Puseram-na no peito, pois atém-se a espera
Ao homem, já nascida n’alma jovem.
Quando um mortal possui da mocidade a flor,
No surdo engenho pensa o inatingível
E não espera que virá velhice ou morte,
Nem, se saudável, pensa na doença.
É tolo quem assim cogita, e desconhece
Que à juventude e à vida é pouco o tempo
Dos homens. E, se o aprendes, rumo ao fim da vida,
Na alma degustando os bens, suporta.

Fonte: tadeuandrade.wordpress.com  (Acessado em 11.02.2026).

terça-feira, fevereiro 17, 2026

Haikais de Bashô - Traduções de Olga Savary

 Ainda que morrendo
o canto das cigarras
nada revela!

***

Por nuvens separados
os patos selvagens
se dizem adeus....

Nota da tradutora (N.T.) Escrito na ocasião de partir -- para perambular por seus caminhos -- na idade de 23 anos, depois de perder seu primeiro mestre. 
***

Chuva cinzenta:
hoje é um dia feliz
mesmo com o Fuji invisível.

***

Ah, kankodori:
tu aprofundas
minha solidão! 

Nota da tradutora (N.T.) O kankodori é um pássaro que vive nas montanhas. Seu canto triste, ouvido à distância, assemelha-se ao do uirapuru. 

****

Move-te, ó tumba!
Meu pranto
é o vento do outono

***

Sobre o telhado
flores de castanheiro
ignoradas.

***

Sobre o tanque morto
um ruído de rã
submergindo.

***

A cada brisa
a borboleta muda de lugar
sobre o salgueiro

***

Pequeno cuco cinzento:
canta e canta, voa e voa.
Muito há o que fazer! 

N.T. Escrito em 1687, este hai-kai tenta aprisionar a vivaz domesticidade da ave, assim como a mesma felicidade que emana de seu trabalho. 

***

Estendidos ao sol
os quimonos: a manga
do menino morto. 

***

Chuva estival,
torna transparente
a ponte de Seta!

N.T. A "Longa Ponte" de Seta é uma das famosas "OITO VISTAS DO LAGO OMI". A visão é singular parecidade a que nos apresenta o mestre da gravura Hiroshige, através da qual uma chuva fina delineia tenuemente os contornos da ponta. 



***

Imensa calma.
Penetrando as rochas
o canto das cigarras.

N.T. Usou-se também: Filtrando pela rocha/o ruído das cigarras. De qualquer maneira, esta imagem resulta tão imprevista como feliz. 

***

Sobre o mar, a tarde:
Voz de pato vem
vagamente branca...

***

Vamo-nos, vejamos
a neve caindo 
de fadiga.

***

De que árvore florida
chega? Não sei.
Mas é seu perfume...

N.T. Escrito em 1688. O poema alude ao grande templo de Amaterasu Omikami, a Deusa do Sol, em Ise, e à sugestão de um perfume que pode ter emanado não necessariamente nesse instante. 

***

Molhadas,
inclinadas:
peônias sob a chuva

***

Ruídos nas ramas.
Trêmulo, meu coração detem-se
e chora na noite...

***

Nesta noite
ninguém pode deitar-se:
lua cheia.

***

Nem flores nem lua.
E ele tomando sakê
sozinho!

N.T. Escrito em 1689. Essa "pintura de um bebedor de sakê" reflete a exteema solidão e abstração em que se acha o homem, impassível inclusive ante a natureza. 

***

Já não me importa
o horto de camélias
mas ver de novo o Fuji.

***

Entre Sado
e o mar agitado,
a Via Láctea.

***

Viagem de anciões,
cabelos brancos, bastões,
visita às tumbas...

N.T. Escrito em 1694. Talvez uma triste rememoração dos familiares do poeta. Em todo o caso, a visão é tão piedosa como fatalista. 

***

Este caminho!
sem ninguém nele,
escuridão de outono.

N.T. Escritos no ano da morte de Bashô e conhecido como "o caminho de Bashô". 

***

A calhandra canta
sem deter-se em nada...
E que longo dia!

***

Nuvens de flores...
E um sino...o de Ueno?
Ou o de Asakusa?

N.T. A estação é a primavera, sinônimo de flores de cerejeira. Os sinos pertencem aos templos de Kaneiji, em Ueno,a Sensoji, em Asakusa, ambos dentro da atual cidade de Tóquio. Provavelmente Bashô o compôs às margens do rio Sumida e toda a quietude e o mistério que emanam do ambiente, tornam ainda mais mágico o som longínquo no meio da noite. 

***

O azeite de minha lâmpada
consumido. Na noite,
pela minha janela, a lua. 

***

Para minha fadiga
um albergue...Mas, oh,
estas glicínias!

***

Primeira nevada
própria para dobrar as folhas
dos junquilhos.

***

Cerros com tíbias sendas.
Sobre os cedros, o crepúsculo.
Ao longe, sinos.

***

Lua cheia:
vago através da noite
em torno do poço...

N.T. A lua na água do tanque faz esquecer o sono. 

***

Relvas de verão
sob as quais guerreiros
sonham.

***

Brisa leve:
a sombra da glicínia
estremece apenas...

***

Varrendo o jardim
a neve é olvidada
pelo ancinho...

N.T. De maneira indireta aparecem neste hai-kai os elementos zen-budistas ou o que se chama "sabor zen" ou zen-mi. É aguda a percepção do poeta ao dar-nos uma imagem que resulta imponderável, apesar da fortaleza do implemento. 
***

Canto e morte
da cigarra
na mesa paisagem.

N.T. Intenção zen-budista da relatividade da vida. 

***

Belo ainda na manhã
o velho cavalo
sobre a neve.

***

Sem sequer um galho
longe do mundo, vive
o nenúfar.

***

Porta fechada,
deito-me no silêncio.
Prazer da solidão.

***

A água gelada
e, apenas adormecida,
a gaivota.

***

Jogos e risos
que cessam:
lua de outono.

***

Pintando sobre o biombo
um pinheiro dourado:
interior de inverno.

N.T. A contemplação da natureza na pintura ajuda a suportar o inverno.  

***

Necessita o rouxinol
um farol de papel
para seguir alerta?

***

Desenhada sobre o cavalo
minha sombra parece
congelada.

***

Relâmpago
e na sombra
o ruído vibrante da garça

***

Sopra o vento de inverno
os olhos do gato
pestanejam.

***

Um doce ruído
interrompe meu sonho:
gotas de chuva sobre a folhagem.

***

Cebola branca
recém-lavada:
impressão de frio.

***

Galho morto
e, nele pousado, um corvo:
tarde de outono.

N.T. Escrito aproximadamente em 1679 e possivelmente um dos primeiros hai-kais do "estilo novo". Este poema tem sido considerado cmo um dos mais audazes do poeta e contém, além disso, "o princípio da comparação interna". De qualquer maneira, a visão não pode ser mais comprometedoramente desolada. 

***

O crepúsculo:
ervas que seguem o rastro
dos rebanhos retornando.

***

Até uma choça com teto de palha
neste mundo louco se transforma
em casa de bonecas. 

Fonte: O Livro dos Hai-Kais. São Paulo: Massao Ohno, 1980. 

segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Meleagro de Gádara - Antologia Grega 12,119

 Tomarei, Baco, a tua coragem. Comanda a festa,

     inicia, deus que segura as rédeas do coração mortal.

Nascido do fogo, tu amas a chama de Eros

   e após me prenderes de novo, me conduzes como teu suplicante.

És traidor e desleal, ordenas que se esconda teus mistérios,

    mas os meus agora desejas revelar. 

Tradução de Flávia Vasconcellos Amaral in: A Guirlanda de sua Guirlanda, Epigramas de Meleagro de Gádara: Tradução e Estudo. São Paulo: FFLCH/DLCV/USP. Dissertação de Mestrado. 2009. 


Suportarei em teu nome, Baco, a tua ousadia! Vamos,

   dirige a festa! Um deus dirige o meu coração mortal.

Porque no fogo foste gerado, amas a chama que há em Eros

    e, aprisionando-me de novo, arrastas-me como suplicante.

Como és traidor e falso! Mandas ocultar os teus mistérios,

    mas fazes questão de desvendar agora os meus.


Tradução de Carlos Jesus in: Antologia Grega: A Musa dos Rapazes (Livro XII). Coimbra: Coimbra University Press. 2017.  



Οἴσω, ναὶ μὰ σέ, Βάκχε, τὸ σὸν θράσος· ἁγέο, κώμων 
     ἄρχε· θεὸς θνατὰν ἁνιόχει κραδίαν·
ἐν πυρὶ γενναθεὶς στέργεις φλόγα τὰν ἐν Ἔρωτι
    καί με πάλιν δήσας τὸν σὸν ἄγεις ἱκέτην
 ἦ προδότας κἄπιστος ἔφυς, τεὰ δ' ὄργια κρύπτειν
      αὐδῶν ἐκφαίνειν τἀμὰ σὺ νῦν ἐθέλεις

sábado, fevereiro 14, 2026

Bacanal - Manuel Bandeira

Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
           Evoé Baco! 

Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada 
A gargalhar em doudo assomo...
         Evoé Momo! 

Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
--  Cobras de lívidos venenos...
     Evoé Vênus! 

Se me perguntarem: que mais queres,
Além de versos e mulheres? ....
-- Vinhos! ...O vinho que é o meu fraco!
           Evoé Baco!

O alfanje rútilo da lua
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que não domo!...
      Evoé Momo!

A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
        Evoé Vênus! 

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Jorge de Lima - Duas meninas de tranças pretas

 Eram duas meninas de tranças pretas. 

Veio uma febre levou as duas.

Foram as duas para o cemitério:

ambas ficaram na mesma cova.

Por sobre as pedras da sepultura

brotou bonina, brotou bonina,

nasceram plantas, nasceram mais plantas, 

flores do mato, canas da várzea:

a sepultura virou canteiro. 

Aves vieram cantar na plantas,

levaram sementes por sobre o mar.

Os peixes levaram estas sementes

até as Ilhas de Karakantá.

Ali brotaram flores estranhas.

Donde vieram flores tão raras?

Ah! só o poeta saberá.

Pois nesse mundo desconhecido

há casos desses que ninguém vê:

vieram insetos eijar as flores,

e um belo dia veio um poeta

pegar insetos para sua amada.

A borboleta mais rara que há

naquelas ilhas de Karakantá

é cor de amaranto com olhos azuis.

Mas heis de saber que a tal borboleta

contém veneno dentro dos olhos;

aí o poeta beijando tais olhos

ficou dormindo como um cadáver.

E então sonhou com as duas meninas:

que ambas dormiam na mesma cova,

que flores nasceram na sepultura,

que a sepultura virou canteiro,

que peixes levaram sementes da flores

para aquelas Ilhas de Karakantá.

O sonho do poeta o vento levou,

levou para um astro desconhecido.

E aí chegando tornou-se um mar:

a água do mar virou arco-íris.

Então uma deusa pegou o arco-íris

e fez um pente para se pentear.

E tanto se penteou a deusa do astro

que deu a luz duas meninas.

Sabeis quem são as duas meninas?

As duas meninas mais belas que há?

Ah! só o poeta saberá. 


Jorge de Lima. A Túnica Inconsútil. Rio de Janeiro: Guanabara, 1938.