segunda-feira, março 09, 2026

Inspiração

 "Onde até na força do verão havia
tempestades de ventos e frios de
crudelíssimo inverno."

Fr. Luís de Sousa

São Paulo! comoção de minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original!...
Arlequinal!...Traje de losangos...Cinza e ouro...
Luz e bruma...Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paris...Arys!
Bofetadas líricas no Trianon...Algodoal!...

São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América! 

Mário de Andrade in: Pauliceia Desvairada, 1922. 

domingo, março 08, 2026

Paul Valéry - O Vinho Perdido (Trad. Nelson Ascher)

 Homenageando o nada ao léu,
joguei, malgrado mal lembrar
quando é que foi ou sob qual céu,
gotas de vinho raro ao mar.


Quem quis, licor, ver-te desfeito?
Seguia eu ordens do adivinho?
Talvez o anseio que, em meu peito,
sonhava sangue ao verter vinho?

Um vapor róseo ergueu-se até
que, pura, o mar reouve tal qual
sua transparência habitual:

perdido o vinho, ébria a maré!...
Vi no ar amargo mais e mais
formas lançarem-se abissais...

Tradução de Nelson Ascher in "Um Pouco de Tudo". Link: Folha de S.Paulo - Nelson Ascher: Um Pouco de Tudo - 11/09/2006. [Acessado em 27 de fevereiro de 2026]

sábado, março 07, 2026

Biodiversidade - Paulo Henriques Britto

 Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,
que não requerem prática, oficina, suor.
Maneiras mais simpáticas de pagar mico
e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor.

Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo,
como há quem não se vexe de ler e decifrar
essas palavras bestas estrebuchando inúteis,
cágados com as quatro patas viradas pro ar.

Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,
de repente é mais que isso, é uma voz, talvez,
do outro lado da linha formigando de estática,
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,

câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,
incapazes de reassumir a posição natural,
não são na verdade uma outra forma de vida,
tipo um ramo alternativo do reino animal?

Fonte: Britto, Paulo Henriques. Macau. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 

sexta-feira, março 06, 2026

Animula Vagula Blandula - Tradução de Ivan P. de Arruda Campos

Anímula vágula blândula hóspede e 
amiga corpórea para onde agora?
lugares pálidos gélidos lunares...e
não mais nos dás logojogos.

 Animula, vagula, blandula
Hospes comesque corporis
Quae nunc abibis in loca
 Pallidula, rigida, nudula,
 Nec, ut soles, dabis iocos.

(14/07/2004)

Fonte: Carvalhal, T.F.; Rebello, L. Ferreira, E.F.C. (org.) Transcriações - Teorias e Práticas. Porto Alegre: Evangraf, 2004. 

quinta-feira, março 05, 2026

OP.CIT., PP.164-165 (Paulo Henriques Britto)

 ""No poema moderno, é sempre nítida
uma tensão entre a necessidade
de exprimir-se uma subjetividade
numa personalíssima voz lírica

e, de outro lado, a consciência crítica
de um sujeito que se inventa e evade,
ao mesmo tempo ressaltando o que há de 
falso em si próprio -- uma postura cínica, 

talvez, porém honesta, pois de boa-
fé o autor desconstrói seu artífício
desmistifica-se para o "leitor-

irmão..." Hm. Pode ser. Mas o Pessoa,
em doze heptassílabos, já disse o 
mesmo -- não, disse mais -- muito melhor. 

Fonte: BRITTO, Paulo Henriques. Tarde. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 

quarta-feira, março 04, 2026

Ovídio - Amores 1, 1 - Tradução de Raimundo Carvalho

Armas, em ritmo grave, e guerras violentas, 
 matéria afim ao metro, ia cantar. 
O verso seguinte era igual; Cupido rindo 
- dizem -, porém, surrupiou-lhe um pé. 
“Quem te deu poder sobre o canto, atroz menino? 
 Vate das Musas sou, não de teu séquito. 
Vestisse Vênus armas da loura Minerva, 
tochas acesas esta brandiria? 
Quem aprova que Ceres reine em altas selvas 
e os campos sigam leis da arqueira virgem? 
 Quem, a Febo de bela coma, em lança aguda, 
e a Marte, em lira aônia, instruiria? 
 Menino, os teus domínios são demasiados, 
para que ambicionas novos feitos? 
 Acaso, tudo é teu? Até o vale do Hélicon?
 Febo, a custo, é senhor de sua lira. 
Mal o primeiro verso aponta em nova página,
 O seguinte extenua as minhas forças. 
E me falta matéria pra ritmos ligeiros, 
 moço ou moça de longa cabeleira”. 
Me lamentava, quando o tal, abrindo a aljava, 
pegou os dardos pronto a me ferir, 
 o curvo arco retesou sobre o joelho 
 e disse: “eis, vate, assunto pra cantares!” 
 Ai de Mim! Certas são as setas do menino! 
Ardo, e no peito vago reina Amor. 
Com seis pés vem-me o verso, com cinco se abranda! 
 Adeus, guerras; adeus, ritmos de ferro! 
Com mirto litorâneo cinge as louras têmporas, 
Musa, a ser modulada em onze pés.

Fonte: CARVALHO, Raimundo. Metamorfoses em Tradução. Relatório de pós-doutoramento. São Paulo: DLCV/FFLCH/USP, 2010. 

terça-feira, março 03, 2026

George Trakl - "O Sol"

 O SOL


Serra acima o sol diário surge fulvo.
Formoso é o bosque, a fera escura,
E, cace ou pastoreie, o homem.

O peixe da água verde assoma rubro.
Debaixo do céu côncavo,
O pescador, num barco azul, desliza.

A uva sazona, e o trigo.
Conforme o dia plácido se encerra,
Algo de bom se engendra e algo de ruim.

Chegada a noite,
O forasteiro soergue pálpebras pesadas;
Sombrio abismo afora o sol irrompe.


Tradução de Nelson Ascher in "Um Pouco de Tudo". Link: Folha de S.Paulo - Nelson Ascher: Um Pouco de Tudo - 11/09/2006. [Acessado em 27 de fevereiro de 2026]