Armas, em ritmo grave, e guerras violentas,
matéria afim ao metro, ia cantar.
O verso seguinte era igual; Cupido rindo
- dizem -, porém, surrupiou-lhe um pé.
“Quem te deu poder sobre o canto, atroz menino?
Vate das Musas sou, não de teu séquito.
Vestisse Vênus armas da loura Minerva,
tochas acesas esta brandiria?
Quem aprova que Ceres reine em altas selvas
e os campos sigam leis da arqueira virgem?
Quem, a Febo de bela coma, em lança aguda,
e a Marte, em lira aônia, instruiria?
Menino, os teus domínios são demasiados,
para que ambicionas novos feitos?
Acaso, tudo é teu? Até o vale do Hélicon?
Febo, a custo, é senhor de sua lira.
Mal o primeiro verso aponta em nova página,
O seguinte extenua as minhas forças.
E me falta matéria pra ritmos ligeiros,
moço ou moça de longa cabeleira”.
Me lamentava, quando o tal, abrindo a aljava,
pegou os dardos pronto a me ferir,
o curvo arco retesou sobre o joelho
e disse: “eis, vate, assunto pra cantares!”
Ai de Mim! Certas são as setas do menino!
Ardo, e no peito vago reina Amor.
Com seis pés vem-me o verso, com cinco se abranda!
Adeus, guerras; adeus, ritmos de ferro!
Com mirto litorâneo cinge as louras têmporas,
Musa, a ser modulada em onze pés.
Fonte: CARVALHO, Raimundo. Metamorfoses em Tradução. Relatório de pós-doutoramento. São Paulo: DLCV/FFLCH/USP, 2010.