terça-feira, fevereiro 03, 2026

Byron: So we'll go no more a-roving

   Já não remaremos mais
tanto noite adentro, embora
   corações batam iguais
e o luar brilhe como outrora.
Pois a espada enfim desgasta
sua bainha e a alma, o peito,
corações dão-nos seu "basta"
e Amor quer pausa no leito.
Mesmo se o dia desfaz


brusco a noite própria a amar,
já não remaremos mais
tanto como outrora ao luar.


   So late into the night,
Though the heart be still as loving,
   And the moon be still as bright.

For the sword outwears its sheath,
   And the soul wears out the breast,
And the heart must pause to breathe,
   And love itself have rest.

Though the night was made for loving,
   And the day returns too soon,
Yet we'll go no more a roving
   By the light of the moon.

Tradução de Nelson Ascher in "Um Pouco de Tudo". Link: Folha de S.Paulo - Nelson Ascher: Um Pouco de Tudo - 11/09/2006. [Acessado em 25 de janeiro de 2026]

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Biografia - Sophia de Mello Breyner Andresen

 Tive amigos que morriam, amigos que partiam

Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.

Odiei o que era fácil

Procurei-me ver na luz, no mar, no vento.


Sophia de Mello Breyner Andresen Mar Novo. in:  Obra Completa. Rio de Janeiro: Tinta da China do Brasil, 2008.

domingo, fevereiro 01, 2026

Li Bai - Bebendo sozinho sob a lua (2 traduções)

 Em meio a flores a jarra de vinho
virar sozinho sem mais companhia
Erguer o copo à lua reluzente
e mais a sombra agora somos três
Contanto a lua não saiba beber
e em vão a sombra me devolva o corpo
por um momento seguem lua e sombra
Todo o prazer é só uma primavera
Eu canto e a lua flana tremulando
Danço e se soma a sombra redobrando-se
Despertos dividimos alegria
depois de ébrios cada qual um caminho
Até não mais, desfeitos nós se apartam
rever-se um dia pela Via Láctea 

Tradução de Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao in: Antologia de Poesia Clássica Chinesa - Dinastia Tang, São Paulo: Editora da Unesp. 2013

Ergo entre as flores um copo de vinho
e convido o luar
Acabo também por convidar
a minha sombra.
Mas a lua não sabe beber.
e a minha sombra não me consegue acompanhar.
Companheiros de um instante.
– a lua      a minha sombra e eu – vamos brindar.
à primavera..
Enquanto canto     a lua vagueia.
Enquanto danço  a minha sombra desespera.
Esqueçamos tudo enquanto estivermos a beber.
Que cada um se afaste.
quando o dia chegar.
Na longínqua Via Láctea.
mais cedo ou mais tarde.
nos voltaremos a encontrar.

Tradução de Pedro Belo Clara in: "7 poemas de Li Bai » Recanto do Poeta" [Acessado em 24.01.2026]

sábado, janeiro 31, 2026

Desejos - Konstantinos Kaváfis [1904]

Tradução de Ísis Borges da Fonseca in: Poemas de K.Kaváfis. São Paulo: Odysseus, 2006: 

Como belos corpos de mortos que não envelheceram

e foram encerrados, com lágrimas, em magnífico mausoléu,

com rosas na cabeça e jasmins nos pés -- 

assim se lhes assemelharam os desejos que passaram

sem se realizar, sem que nenhum

alcançasse uma noite de prazer, ou sua manhã luminosa.


Tradução de Trajano Vieira in: Konstantinos Kaváfis, 60 poemas. São Paulo: Perspectiva, 2007: 

Feito os corpos que morrem juvenis e belos,

chorados à clausura de um mausoléu magno,

com pétalas à testa, com jasmim nos pés,

assim transcorrem os desejos que abortam,

alheios à volúpia de uma noite única,

ao rútilo clarão do seu amanhecer. 

sexta-feira, janeiro 30, 2026

Difícil é o caminho (Li Bai)

 Bom vinho em cálice de ouro: dez mil cobres

Servido em jade o melhor prato: mais dez mil

Quietos talheres copos: finda-se o festim

Com a espada o coração dispara: cuido à volta

Rio Amarelo gela: não posso cruzá-lo

Monte Taihang com neve: quem pode escalar?

Tranquilo atiro a linha à pesca no riacho

e então em sonho rumo ao sol ajeito o barco

Difícil caminho   é difícil o caminho

o mundo dá voltas   e hoje onde estou

E quando a brisa traz bom tempo e acalma as ondas

Levanto vela às nuvens mares infinitos


Tradução de Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao in Antologia de poesia clássica chinesa - Dinastia Tang. São Paulo: Editora da UNESP, 2013. 

quinta-feira, janeiro 29, 2026

andrômaca

 não conheci troia

ruínas a mais ruínas a menos

também guardamos pedras aqui

do outro lado do oceano

tudo o que aprendi foi nesse alfabeto moderno

eis o momento apoteótico minha obsessão

nossos despojos é troia

minhas amigas encurraladas

na mesa do chefe é troia

a jovem saco preto no rosto

festa de luxo é troia

as baratas roendo o cu

da guerrilheira comunista é troia

é troia meu companheiro baleado no rosto

é troia os corpos desovados no mangue

as lideranças perseguidas é troia

as vítimas do feminicídio é troia

os milicos os fascistas os tiranos

disparam todos contra troia

a filosofia o direito o ocidente

nascem da devastação de troia

agora você entende por que voltei?

não conheci troia mas a entrevejo esplêndida

nas carícias clandestina durante os bombardeios

e gás de pimenta nas barricadas

nas clínicas de aborto nos abrigos

inusitados na desobediência

no canto sim no canto

eu não vou me entregar

você grita eu repito

através dos séculos

minha irmã

não há poemas para ti

nenhuma linha sobre cibele

onde perdemos o tino quando virou espetáculo

maldita literatura e seu panteão de vitórias

me abrace forte a explosão está próxima

ela há de vir


Luiza Romão in: Também guardamos pedras aqui. São Paulo: Editora Nós, 2021. 

terça-feira, janeiro 27, 2026

Li Bai - Duas Traduções

 Zombando de Du Fu
"Do arroz cozido", chamam esta colina.
Chapéu de palha enorme ao sol a pino,
Du Fu, ali rever, mofino e magro:
poesia é ofício desde sempre amargo. 


Tradução de Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao, in: Antologia de poesia Clássica chinesa - Dinastia Tang. São Paulo: Editora da Unesp, 2013.


Para Tu-Fu, com humor
Ei! És tu, no topo da montanha Fan-Ko,
com um enorme chapéu ao sol do meio dia? 
Quão magro, miseravelmente magro, tu estás!
Deves ter sofrido outra vez de poesia...


Tradução de Pedro Belo Clara a partir do inglês de Shigeyoshi Obata,  in: Oito poemas de Li Bai (Li Po), Blog Letras In.Verso e Re.Verso [Acessado em 23/01/2026].