sexta-feira, fevereiro 06, 2026

 Este é o tempo

Da selva mais obscura


Até o ar azul se tornou grades

E a luz do sol se tornou impura


Esta é a noite

Densa de chacais

Pesada de amargura


Este é o tempo em que os homens renunciam.


Sophia de Mello Breyner Andresen. Mar Novo, in Obra Poética. Rio de Janeiro: Tinta da China, 2018. 

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Horácio, Ode I, 38 - Tradução de Trajano Vieira

 Detesto aparatos persas, não

suporto, infante, a tília das guirlandas,

não queiras encontrar em que lugar

retarda a rosa extemporânea.


Não emprestes teu zelo a somar

algo que for, menino, ao simples mirto.

O mirto não humilha quem ministra 

o vinho, e a mim que o sorvo à sombra. 


Trajano Vieira. Catulo & Horácio: Uma Antologia. São Paulo, Cotia: Ateliê Editorial, 2025. 


Outra Tradução: Haroldo de Campos 

Horácio, Ode I.38 - Tradução de Raimundo Carvalho

 Rapaz, odeio pompas persas,

não me apraz coroa de tília,

não queiras saber onde a rosa

            brotou tardia.


Nada acresças ao simples mirto;

vigio; nem a ti, servindo-me,

mirto é vil, nem a mim, bebendo

           na espessa vide. 


Tradução de Raimundo Carvalho


Fonte: CARVALHO, R. Lira a Vapor - Poesia Reunida 1983-2025. São Paulo: Immensa Editorial, 2025. 

terça-feira, fevereiro 03, 2026

Byron: So we'll go no more a-roving

   Já não remaremos mais
tanto noite adentro, embora
   corações batam iguais
e o luar brilhe como outrora.
Pois a espada enfim desgasta
sua bainha e a alma, o peito,
corações dão-nos seu "basta"
e Amor quer pausa no leito.
Mesmo se o dia desfaz


brusco a noite própria a amar,
já não remaremos mais
tanto como outrora ao luar.


   So late into the night,
Though the heart be still as loving,
   And the moon be still as bright.

For the sword outwears its sheath,
   And the soul wears out the breast,
And the heart must pause to breathe,
   And love itself have rest.

Though the night was made for loving,
   And the day returns too soon,
Yet we'll go no more a roving
   By the light of the moon.

Tradução de Nelson Ascher in "Um Pouco de Tudo". Link: Folha de S.Paulo - Nelson Ascher: Um Pouco de Tudo - 11/09/2006. [Acessado em 25 de janeiro de 2026]

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Biografia - Sophia de Mello Breyner Andresen

 Tive amigos que morriam, amigos que partiam

Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.

Odiei o que era fácil

Procurei-me ver na luz, no mar, no vento.


Sophia de Mello Breyner Andresen Mar Novo. in:  Obra Completa. Rio de Janeiro: Tinta da China do Brasil, 2008.

domingo, fevereiro 01, 2026

Li Bai - Bebendo sozinho sob a lua (2 traduções)

 Em meio a flores a jarra de vinho
virar sozinho sem mais companhia
Erguer o copo à lua reluzente
e mais a sombra agora somos três
Contanto a lua não saiba beber
e em vão a sombra me devolva o corpo
por um momento seguem lua e sombra
Todo o prazer é só uma primavera
Eu canto e a lua flana tremulando
Danço e se soma a sombra redobrando-se
Despertos dividimos alegria
depois de ébrios cada qual um caminho
Até não mais, desfeitos nós se apartam
rever-se um dia pela Via Láctea 

Tradução de Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao in: Antologia de Poesia Clássica Chinesa - Dinastia Tang, São Paulo: Editora da Unesp. 2013

Ergo entre as flores um copo de vinho
e convido o luar
Acabo também por convidar
a minha sombra.
Mas a lua não sabe beber.
e a minha sombra não me consegue acompanhar.
Companheiros de um instante.
– a lua      a minha sombra e eu – vamos brindar.
à primavera..
Enquanto canto     a lua vagueia.
Enquanto danço  a minha sombra desespera.
Esqueçamos tudo enquanto estivermos a beber.
Que cada um se afaste.
quando o dia chegar.
Na longínqua Via Láctea.
mais cedo ou mais tarde.
nos voltaremos a encontrar.

Tradução de Pedro Belo Clara in: "7 poemas de Li Bai » Recanto do Poeta" [Acessado em 24.01.2026]

sábado, janeiro 31, 2026

Desejos - Konstantinos Kaváfis [1904]

Tradução de Ísis Borges da Fonseca in: Poemas de K.Kaváfis. São Paulo: Odysseus, 2006: 

Como belos corpos de mortos que não envelheceram

e foram encerrados, com lágrimas, em magnífico mausoléu,

com rosas na cabeça e jasmins nos pés -- 

assim se lhes assemelharam os desejos que passaram

sem se realizar, sem que nenhum

alcançasse uma noite de prazer, ou sua manhã luminosa.


Tradução de Trajano Vieira in: Konstantinos Kaváfis, 60 poemas. São Paulo: Perspectiva, 2007: 

Feito os corpos que morrem juvenis e belos,

chorados à clausura de um mausoléu magno,

com pétalas à testa, com jasmim nos pés,

assim transcorrem os desejos que abortam,

alheios à volúpia de uma noite única,

ao rútilo clarão do seu amanhecer.