sexta-feira, março 06, 2026

Animula Vagula Blandula - Tradução de Ivan P. de Arruda Campos

Anímula vágula blândula hóspede e 
amiga corpórea para onde agora?
lugares pálidos gélidos lunares...e
não mais nos dás logojogos.

 Animula, vagula, blandula
Hospes comesque corporis
Quae nunc abibis in loca
 Pallidula, rigida, nudula,
 Nec, ut soles, dabis iocos.

(14/07/2004)

Fonte: Carvalhal, T.F.; Rebello, L. Ferreira, E.F.C. (org.) Transcriações - Teorias e Práticas. Porto Alegre: Evangraf, 2004. 

quinta-feira, março 05, 2026

OP.CIT., PP.164-165 (Paulo Henriques Britto)

 ""No poema moderno, é sempre nítida
uma tensão entre a necessidade
de exprimir-se uma subjetividade
numa personalíssima voz lírica

e, de outro lado, a consciência crítica
de um sujeito que se inventa e evade,
ao mesmo tempo ressaltando o que há de 
falso em si próprio -- uma postura cínica, 

talvez, porém honesta, pois de boa-
fé o autor desconstrói seu artífício
desmistifica-se para o "leitor-

irmão..." Hm. Pode ser. Mas o Pessoa,
em doze heptassílabos, já disse o 
mesmo -- não, disse mais -- muito melhor. 

Fonte: BRITTO, Paulo Henriques. Tarde. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 

quarta-feira, março 04, 2026

Ovídio - Amores 1, 1 - Tradução de Raimundo Carvalho

Armas, em ritmo grave, e guerras violentas, 
 matéria afim ao metro, ia cantar. 
O verso seguinte era igual; Cupido rindo 
- dizem -, porém, surrupiou-lhe um pé. 
“Quem te deu poder sobre o canto, atroz menino? 
 Vate das Musas sou, não de teu séquito. 
Vestisse Vênus armas da loura Minerva, 
tochas acesas esta brandiria? 
Quem aprova que Ceres reine em altas selvas 
e os campos sigam leis da arqueira virgem? 
 Quem, a Febo de bela coma, em lança aguda, 
e a Marte, em lira aônia, instruiria? 
 Menino, os teus domínios são demasiados, 
para que ambicionas novos feitos? 
 Acaso, tudo é teu? Até o vale do Hélicon?
 Febo, a custo, é senhor de sua lira. 
Mal o primeiro verso aponta em nova página,
 O seguinte extenua as minhas forças. 
E me falta matéria pra ritmos ligeiros, 
 moço ou moça de longa cabeleira”. 
Me lamentava, quando o tal, abrindo a aljava, 
pegou os dardos pronto a me ferir, 
 o curvo arco retesou sobre o joelho 
 e disse: “eis, vate, assunto pra cantares!” 
 Ai de Mim! Certas são as setas do menino! 
Ardo, e no peito vago reina Amor. 
Com seis pés vem-me o verso, com cinco se abranda! 
 Adeus, guerras; adeus, ritmos de ferro! 
Com mirto litorâneo cinge as louras têmporas, 
Musa, a ser modulada em onze pés.

Fonte: CARVALHO, Raimundo. Metamorfoses em Tradução. Relatório de pós-doutoramento. São Paulo: DLCV/FFLCH/USP, 2010. 

terça-feira, março 03, 2026

George Trakl - "O Sol"

 O SOL


Serra acima o sol diário surge fulvo.
Formoso é o bosque, a fera escura,
E, cace ou pastoreie, o homem.

O peixe da água verde assoma rubro.
Debaixo do céu côncavo,
O pescador, num barco azul, desliza.

A uva sazona, e o trigo.
Conforme o dia plácido se encerra,
Algo de bom se engendra e algo de ruim.

Chegada a noite,
O forasteiro soergue pálpebras pesadas;
Sombrio abismo afora o sol irrompe.


Tradução de Nelson Ascher in "Um Pouco de Tudo". Link: Folha de S.Paulo - Nelson Ascher: Um Pouco de Tudo - 11/09/2006. [Acessado em 27 de fevereiro de 2026]

segunda-feira, março 02, 2026

Catulo 3 - Trad. Trajano Vieira

 Chorai, Amores, Vênus e quem for
sensível à beleza neste mundo.
Morreu o pássaro de minha amiga,
o deleite de minha amiga, o pássaro,
a quem amava mais que aos próprios olhos.
Ele era um mel e conhecia a dona
tão bem quanto uma filha à própria mãe.
Não se afastava de seu colo, mas
de um lado e de outro saltitava, só
pipiando aos ouvidos da senhora.
Agora segue a via tenebrosa,
lugar sem volta -- como nos afirmam.
Devoradoras da beleza, trevas
malditas, vos amaldiçoo! Belíssimo
pardal me arrebatastes! Que desgraça!
Pobre pardal! Agora os olhinhos
inchados da minha menina estão
vermelhos de chorar e és o motivo.

Fonte: Catulo e Horácio, Uma Antologia. São Paulo: Ateliê, 2025. 

domingo, março 01, 2026

Catulo, 2 - Trad. Trajano Vieira

Versão 1

Pardal, prazer da minha namorada,
que a entretém retido em seu peito,
a quem destina a ponta de um dos dedos
a fim de que o biques cruelmente,
quando ela, meu desejo fulgurante,
ama brincar com algo agradável,
alívio paliativo à sua dor,
querendo (creio) apaziguar o ardor,
pudesse me distrair como ela faz
contigo, sem turvar-me o triste afã.

---

Versão 2

Pássaro, distração do meu amor,
lúdico passatempo em seu colo,
ao teu ataque oferta o ponto extremo
do dedo, objeto de bicadas acres,
quando à fulguração do meu querer
apraz brincar com algo que encarece
e traga algum alívio à sua dor,
quem sabe acalmar o ardor do amor,
pudera me entreter como tua dona,
tornar mais leve o afã que abate a ânima. 

Fonte: Catulo e Horácio, uma Antologia. São Paulo: Ateliê, 2025. 

sábado, fevereiro 28, 2026

[Platão] - Antologia Palatina

 CORPO CELESTE

Astro diurno que, em vida, ofuscava os mortais -
és, morto, o astro da tarde e deslumbras as sombras.



Tradução de Nelson Ascher in "Um Pouco de Tudo". Link: Folha de S.Paulo - Nelson Ascher: Um Pouco de Tudo - 11/09/2006. [Acessado em 21 de fevereiro de 2026]