terça-feira, março 24, 2026

O Primeiro Degrau - Konstantinos Kaváfis

A Teócrito queixava-se 
um dia o jovem poeta Êumenes: 
“Há dois anos que escrevo 
e fiz um idílio somente. 
É minha única obra acabada. 
Ai de mim, é alta, vejo-o, 
muito alta a escada da Poesia; 
e deste primeiro degrau em que estou 
jamais subirei, infeliz que sou”. 
Disse Teócrito: “Essas palavras 
são inadequadas e são blasfêmias.
E se estás no primeiro degrau, deves 
estar orgulhoso e feliz. 
Aqui aonde chegaste não é pouco; 
quanto fizeste, grande glória. 
E mesmo este primeiro degrau 
dista muito das pessoas comuns. 
Para que pises neste degrau
é preciso que sejas, de pleno direito, 
cidadão na cidade das ideias. 
E naquela cidade é difícil
e raro que te inscrevam como cidadão. 
Em sua ágora encontras Legisladores 
aos quais não engana nenhum aventureiro.
Aqui aonde chegaste não é pouco; 
quanto fizeste, grande glória.

Tradução de Ísis Borges da Fonseca


Foi a Teócrito queixar-se um dia
Eumene, poeta ainda jovem:
 “Faz dois anos que escrevo e até agora
 compus apenas um idílio. 
Esse, o meu único trabalho pronto. 
Pobre de mim! Pelo que vejo, é alta, 
deveras alta, a escada da Poesia. 
Estou no primeiro degrau: jamais, 
infeliz que sou, chegarei ao topo.”
 “Essas palavras”, respondeu Teócrito, 
“são um despropósito, blasfêmias. 
Se estás no primeiro degrau, 
cumpria te sentires feliz e envaidecido.
 Chegar onde chegaste não é pouco,
 nem é pequena glória o que fizeste.
 Do primeiro degrau da mesma escada
 está bem distante o comum das pessoas.
 Para pisar esse degrau de ingresso,
 necessário é que sejas, por direito, 
cidadão da cidade das ideias – 
um título difícil: raramente 
fazem-se ali naturalizações. 
De quantos na sua ágora legislam,
aventureiro algum pode zombar. 
Chegar onde chegaste não é pouco, 
nem é pequena glória o que fizeste.

Tradução de José Paulo Paes 

quinta-feira, março 19, 2026

Shakespeare - Soneto 116

 Não tenha eu restrições ao casamento
De almas sinceras, pois não é amor
O amor que muda ao sabor do momento
E se move e remove em desamor.
Oh, não, o amor é marca mais constante
Que enfrenta a tempestade e não balança,
É a estrela-guia dos batéis errantes,
Cujo valor lá no alto não se alcança.
O amor não é o bufão do Tempo, embora
Sua foice vá ceifando a face a fundo
O amor não muda com o passar das horas,
Mas se sustenta até o final do mundo.
Se é engano meu, e assim provado for,
Nunca escrevi, ninguém jamais amou.
 
 
Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove.
O no, it is an ever fixed mark
That looks on tempests and is never shaken;
It is the star to every wand’ring bark,
Whose worth’s unknown although his height be taken.
Love’s not Time’s fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle’s compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to edge of doom.
If this be error and upon me proved,
O never writ, nor no man ever loved.


Tradução de Geraldo Carneiro

Fonte: Carneiro, Geraldo. O Discurso do Amor Rasgado: Poemas, Cenas e Fragmentos de Shakespeare. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017. 

quarta-feira, março 18, 2026

Rainer Maria Rilke - O Poeta


 Já te despedes de mim, Hora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
 Só: da boca o que faço agora?
Que faço do dia, da noite?
 Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
 fica mais rico e me devora.

Du entfernst dich von mir, du Stunde,
Wunden schlägt mir dein Flügelschlag.
Allein: was soll ich mit meinem Munde?
mit meiner Nacht? mit meinem Tag?

Ich habe keine Geliebte, kein Haus,
 keine Stelle, auf der ich lebe,
 Alle Dinge, an die ich mich gebe,
 werden reich und geben mich aus.


Tradução: Augusto de Campos

Fonte: CAMPOS, Augusto. Coisas e Anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2020

terça-feira, março 17, 2026

Ricardo Reis

Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,
Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá.
Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?
Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?
Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
Na noite e ao fim da estrada.
Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mal as olhaste.
Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.

segunda-feira, março 16, 2026

 Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.


Hilda Hist

I, Júbilo e Memória, Noviciado da Paixão

domingo, março 15, 2026

Hilda Hilst - XI, Trovas de Muito Amor para um Amado Senhor

 Tenho sofrido
Penas menores.
Maiores
só as de agora:
Amor tão grande
Tão exaltado
Que se não morre
Também não sabe
Viver calado.

Morrer não há de.
Calar não pode.
Sabe morrer
Quem morre
Se não nos vê?
Sabe calar
A que nasceu
Somente
P'ra vos cantar?

Tenho sofrido
Porque de amor
Tenho vivido.
Amor tão grande
Tão exaltado
Que se o perdesse
Nada seria
Mais cobiçado.

Hilda Hilst
[XI, Trovas de muito amor para um amado senhor]

sábado, março 14, 2026

Hilda Hilst

 As asas não se concretizam.

Terríveis e pequenas circunstâncias

Transformam claridades, asas, grito

Em labirinto de exígua ressonância.


Os solilóquios de amor não se eternizam.


E no entanto, refaço minhas asas

Cada dia. E no entanto, invento amor

Como as crianças inventam alegria.


[18, Roteiro do Silêncio]