domingo, março 01, 2026

Catulo, 2 - Trad. Trajano Vieira

Versão 1

Pardal, prazer da minha namorada,
que a entretém retido em seu peito,
a quem destina a ponta de um dos dedos
a fim de que o biques cruelmente,
quando ela, meu desejo fulgurante,
ama brincar com algo agradável,
alívio paliativo à sua dor,
querendo (creio) apaziguar o ardor,
pudesse me distrair como ela faz
contigo, sem turvar-me o triste afã.

---

Versão 2

Pássaro, distração do meu amor,
lúdico passatempo em seu colo,
ao teu ataque oferta o ponto extremo
do dedo, objeto de bicadas acres,
quando à fulguração do meu querer
apraz brincar com algo que encarece
e traga algum alívio à sua dor,
quem sabe acalmar o ardor do amor,
pudera me entreter como tua dona,
tornar mais leve o afã que abate a ânima. 

Fonte: Catulo e Horácio, uma Antologia. São Paulo: Ateliê, 2025. 

sábado, fevereiro 28, 2026

[Platão] - Antologia Palatina

 CORPO CELESTE

Astro diurno que, em vida, ofuscava os mortais -
és, morto, o astro da tarde e deslumbras as sombras.



Tradução de Nelson Ascher in "Um Pouco de Tudo". Link: Folha de S.Paulo - Nelson Ascher: Um Pouco de Tudo - 11/09/2006. [Acessado em 21 de fevereiro de 2026]

sexta-feira, fevereiro 27, 2026

Atena louva Odisseu (Odisseia, 13, 291-301)


Deveria ser matreiro e ladino (até mesmo se fosse um Deus)
quem te excedesse nas tuas espertezas todas!
Safado! Rico na Astúcia, ávido por ardis, não pretendias,
Nem mesmo em tua terra, deixar de lado as ilusórias
palavras, as fraudes, tuas amigas do peito?
Mas não falemos mais nisso! Sabemos ambos
Artimanhas: dos mortais todos, és de longe o melhor
Na palavra e nos planos; entre os Deuses
também sou famosa pela astúcia e estratagemas;
Tu não me reconheceste? Sou Palas Atena, filha de Zeus.
Em todos os teus trabalhos, estou ao lado e te protejo"

Tradução de Rafael Brunhara (2010, inédita)

quinta-feira, fevereiro 26, 2026

"Troianos", Konstantinos Kaváfis - Trad. José Paulo Paes

 Nossos esforços -- nós, desventurados -- são
nossos esforços, como os dos troianos.
Algum êxito obtido, alguma empresa
assumida, e eis que começamos
a encher-nos de esperanças, de coragem.

Algo surge, porém, que nos irá deter.
Emerge Aquiles da trincheira à nossa frente
e com seus gritos de assustar põe-nos em fuga.

Nossos esforços são os dos troianos.
Cremos que, com audácia e decisão,
da sorte mudaremos a animosidade,
e vamos para fora, para a luta.

Mas quando o instante decisivo chega,
desertam-nos astúcia e decisão;
nosso ânimo fraqueja, paralisa-se,
e à volta dos muros corremos,
procurando, na fuga, a nossa salvação.

Nossa ruína é inevitável, porém. Sobre
os muros já começam os lamentos.
Choram as nossas lembranças, nossos sentimentos.
Amargamente por nós chora Príamo e Hécuba. 

quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Drummond - Apelo aos meus dessemelhantes em favor da paz

 Ah, não me tragam originais
para ler, para corrigir, para louvar
sobretudo, para louvar.
Não sou leitor do mundo nem espelho
de figuras que amam refletir-se
no outro
à falta de retrato interior.
Sou o Velho Cansado
que adora o seu cansaço e não o quer
submisso ao vão comércio da palavra.
Poupem-me, por favor ou por desprezo,
se não querem poupar-me por amor.
Não leio mais, não posso, que este tempo
a mim distribuído
cai do ramo e azuleja o chão varrido,
chão tão limpo da ambição
que minha só leitura é ler o chão.
Nem sequer li os textos das pirâmides,
os textos dos sarcófagos,
estou atrasadíssimo nos gregos,
não conheço os Anais de Assurbanipal,
como é que vou -
                            mancebos,
                            senhoritas,
- chegar à poesia de vanguarda
e às glórias do 2000 que telefonam?
Passam gênios talvez entre as acácias
sinto estátuas futuras se moldando
sem precisão de mim
que quando jovem (fui-o A. C., believe it or not)
nunca pulei muro de jardim
para exigir do morador tranquilo
a canonização do meu estilo.
Sirvam-se de exonerar este macróbio
do penoso exercício literário.
Não exijam prefácios e posfácios
ao ancião que mais fala quando cala.
Brotos de coxa flava e verso manco,
poetas de barba-colar e velutínea
calça puída, verde: tá!
Outoniços, crepusculinos, matronas, contumazes:
tá!
O senhor saiu. Hora que volta? Nunca.
Nunca de corvo, nunca de São Nunca.
Saiu para não voltar.
Tudo esqueceu: responder
cartas; sorrir
cumplicemente; agradecer
dedicatórias; retribuir
boas-festas; ir ao coquetel e à noite
de autógrafos-com-pastorinhas.
Ficou assim: o cacto de Manuel
é uma suavidade perto dele.
Respeitem a fera. Triste, sem presas, é fera.
Na jaula do mundo passeia a pata aplastante,
cuidado com ela!
Vocês, garotos de colégio, não perguntem ao poeta
quando nasceu.
Ele não nasceu.
Não vai nascer mais.
Desistiu de nascer quando viu que o esperavam garotos de colégio
de lápis em punho
com professores na retaguarda comandando: Cacem o urso-polar,
tragam-no vivo para fazer uma conferência.
Repórteres de vespertinos, não tentem entrevistá-lo.
Não lhe, não me peçam opinião
que é impublicável qualquer que seja o fato do dia
e contraditória e louca antes de formulada.
Fotógrafos: não adianta
pedir pose junto ao oratório de Cocais
nem folheando o álbum de Portinari
nem tomando banho de chuveiro.
Sou contra Niepce, Daguerre, contra principalmente minha imagem.
Não quero oferecer minha cara como verônica nas revistas.
Quero a paz das estepes
a paz dos descampados
a paz do pico de Itabira quando havia pico de Itabira
a paz de cima das Agulhas Negras
a paz de muito abaixo da mina mais funda e esboroada de Morro Velho
a paz
da
paz.


Fonte: DRUMMOND, C.D.A. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Record, 2001. 

terça-feira, fevereiro 24, 2026

Yosa Buson - Traduções de Olga Savary

 Em rincões e esquinas
frios cadáveres:
flores de ameixeira.

***

Vou-me embora
e tu ficas:
dois outonos.

***

Oh cruel vendaval!
Um bando de pequenos pardais
agarra-se à relva.

***

Chuva de primavera:
na carruagem compartilhada
minha bem amada suspira.

***

Os dias são lentos:
há ecos que se escutam
em algum lugar de Kyo*

*Nota da Tradutora (N.T). Kyo ou Kyoto era a antiga capital imperial. O poeta alude aqui ao sentimento do passado que se advinha ou parece escutar-se através dos velhos muros da cidade.

***

Lento dia:
um faisão
repousando sobre a fonte

 N.T. Imagem impressionista na qual o símbolo do faisão implica tanto em tranquilidade como em certa monotonia.

***

Halo de lua:
não é o aroma da ameixeira florida
nascendo no céu?

N.T.Versão de Blyth. Henderson transcreve:

Da ameixeira em flor
flutua esta fragrância?
Há um halo em torno da lua.

Preferimos a do primeiro porque a sugestão -- quase mágica -- é maior. 

***

Menina muda,
convertida em mulher
já se perfuma.

***

Sob a folhagem amarela
o mundo repousa enterrado...
Exceto o Fuji.

***

Sobre o sino do templo
repousa e dorme
a borboleta*

N.T. A borboleta se transforma em sinônimo de ingenuidade e pureza através deste poema. O grande sino parece indicar o contraste. 

***

Ar matinal:
a penugem das erucas
ondula.

***

Chuva de primavera
e os ventres das espigas
não se molharam ainda.

***

Aqui e acolá
som de cascatas:
folhas tenras a esmo.

***

Frio na alcova
ao pisar teu pente,
minha esposa morta.

***

Faisão da montanha,
o sol da primavera
pisa sua cauda.

N.T. O verdadeiro sentido deste poema tem sido muito discutido. A imagem, no entanto, tem uma clara vitalidade poética. 

***
Vou até às cerejeiras,
dormir sob seus capulhos,
sem deveres.

N.T. Sentimento contemplativo diante da natureza. 

***

Um caranguejo:
no mesmo lugar 
que o céu de ontem.

N.T. O tempo aparece para nós como que parado, eternizado, através da visão do caranguejo imóvel sobre o céu sem nuvens.

***

Nada se move,
nem uma folha: inquietante
jaz o bosque no verão. 

***
Lavrando o campo:
do templo aos cumes
o canto do galo.

N.T. Enfoque melancólico ao fim do dia.

***
O uguisu está cantando,
sua pequena boca 
aberta. 

***
Indiferente e lânguido
queimo incenso:
anoitecer de primavera.

***

As flores me enlouqueceram:
e retorno à casa
enfastiado de cortesãos.

N.T. A beleza da natureza supera os artifícios da corte.

***
Estação chuvosa:
com uma lanterna de papel na mão
caminho ao longo do pórtico.

N.T. Sugestão de espera.

***

O lutador, na velhice,
conta à sua mulher o combate
que não devia ter perdido.

***

Casal de patos.
Mas o tanque é velho e a doninha
os vigia.

N.T. Os patos mandarins são símbolos de felicidade conjugal. Este poema é fatalista.

***

Um rouxinol!...
E na hora do jantar
a família reunida. 

***

Sob a chuva primaveril
absortos num diálogo
a capa de palha e o guarda-chuva. 

N.T. Este célebre hai-kai de Buson destacou-se especialmente tanto por seu humor como pela sugestão que se desprende da imagem final. Adivinham-se dois caminhantes - talvez enamorados - por seus implementos contra a chuva. 

***

O crisântemo amarelo
sob a luz da lanterna de mão
perde sua cor.

***

Chegado para ver as flores,
sobre elas dormirei
sem sentir o tempo.

***

Ontem um vôo,
hoje outro: os gansos selvagens
não estarão aqui esta noite.

***

Peônias
numa região celestial
do grande jardim.

***

Lavrando o campo
a nuvem imóvel
se foi.

N.T. Visão do tempo arrastando-se monotonamente. Persistência do céu como fundo desse mesmo tempo. 

***

A cerejeira florida
desapareceu entre as árvores
em templo convertida.

N.T.  Este hai-kai tem influência budista em seu conteúdo. A contemplação da natureza exalta e transforma as coisas. 

***

Em círculo rodam
os gansos selvagens; ao pé da colina
a lua é um selo. 

N.T. Poema que se visualiza pictoricamente pela forma com que localiza os elementos.

***

Uma baleia!
Nadando sob a água mais e mais
assoma sua cauda.

***

Olhai a boca de Emma O!
Parece que vai cuspir
uma peônia!

N.T. Emma O é o dono do inferno. Não se conseguiu estabelecer com exatidão se a peônia é usada como analogia da boca ou vice-versa. 

***

Amarelas couves em flor
Do lado leste, a lua,
e o sol se pondo.

N.T.

***

O ruído
de um rato sobre o prato
como resulta frio!

N.T. o animal raspando e resvalando sobre o prato branco e frio produz no poeta uma desagradável impressão de desespero. 

***

Melancolicamente
subo a colina
de sarças em flor.

***

Armazéns e atrás um caminho
onde as andorinhas
vêm e vão.

***

Capulhos na pereira
e uma mulher à luz da luz
lendo uma carta.

***

Primavera que parte
e botões de cerejeira
ainda irresolutos.

***

Florescente espinheiro
tão parecido aos caminhos
onde nasci!

***

Sinto um agudo frio:
no embarcadouro ainda resta
um filete de lua. 

***
Curta noite
perto de mim, junto ao travesseiro
um biombo de prata.

***

A noite passou rápida:
sobre a peluda eruca
contas de orvalho.

N.T. Estes três últimos hai-kais sobre o mesmo tema constituem um tríptico conhecido por sua força lírica. 

segunda-feira, fevereiro 23, 2026

Canções de Bilítis, Pierre Louÿs - Tradução de Guilherme de Almeida

 




CANTO PASTORAL

Devo cantar um canto pastoral, invocar Pan, deus dos ventos do estio. Guardo o meu rebanho, e Selenis o seu, à sombra redonda de uma oliveira trêmula.

Selenis está deitada na relva. Ela ergue-se e corre, ou procura cigarras, ou colhe flores e verduras, ou lava o rosto na água fresca do regato. 

Arranco a lã ao dorso louro dos carneiros, para prover à minha roca -- e fio. As horas são lentas. Uma águia passa no céu.

A sombra gira; mudemos de lugar o cabaz de flores e a jarra de leite. Devo cantar um canto pastoral, invocar Pan, deus dos ventos do estio.

CHANT PASTORAL 

Il faut chanter un chant pastoral, invoquer Pan, dieu du vent d’été. Je garde mon troupeau et Sélénis le sien, à l’ombre ronde d’un olivier qui tremble. 

Sélénis est couchée sur le pré. Elle se lève et court, ou cherche des cigales, ou cueille des fleurs avec des herbes, ou lave son visage dans l’eau fraîche du ruisseau. 

Moi, j’arrache la laine au dos blond des moutons pour en garnir ma quenouille, et je file. Les heures sont lentes. Un aigle passe dans le ciel.

L’ombre tourne : changeons de place la corbeille de figues et la jarre de lait. Il faut chanter un chant pastoral, invoquer Pan, dieu du vent d’été.

***


PALAVRAS MATERNAIS

Minha mãe banha-me no escuro, veste-me ao sol a pino e penteia-me na luz; mas quando saio ao luar, ela aperta-me o cinto e faz um nó duplo.

Ela me diz: "Brinca com as virgens, dansa com as criancinhas; não olhes pela janela; evita a palavra dos rapazes e teme o conselho das viúvas.

"Uma noite, alguém, como acontece a todas, virá buscar-te à soleira da porta, com um grande cortejo de tímpanos sonoros e flautas amorosas.

"Nessa noite, quando partires, Bilítis, tu me deixarás três odres de fel: um para a manhã, outro para o meio-dia, e o terceiro -- o mais amargo -- o terceiro para os dias de festa". 


PAROLES MATERNELLES

Ma mère me baigne dans l’obscurité, elle m’habille au grand soleil et me coiffe dans la lumière ; mais si je sors au clair de lune, elle serre ma ceinture et fait un double nœud.

 Elle me dit : « Joue avec les vierges, danse avec les petits enfants ; ne regarde pas par la fenêtre ; fuis la parole des jeunes hommes et redoute le conseil des veuves.

 « Un soir, quelqu’un, comme pour toutes, te viendra prendre sur le seuil au milieu d’un grand cortège de tympanons sonores et de flûtes amoureuses.

 « Ce soir-là, quand tu t’en iras, Bilitô, tu me laisseras trois gourdes de fiel : une pour le matin, une pour le midi, et la troisième, la plus amère, la troisième pour les jours de fête. »

***

OS PÉS DESCALÇOS

Tenho cabelos negros, soltos pelas costas, e um pequeno barrete redondo. Minha camisa é de lã branca. Minhas pernas firmes tisnam-se ao sol. 

Se eu morasse na cidade, teria jóias de ouro, e camisas douradas, e sapatos de prata...Olho para meus pés nus, calçados de poeira.

Psophis! vem cá, minha pobrezinha! leva-me até as fontes, lava-me os pés nas tuas mãos, e esmaga olivas com violetas para perfumá-los sobre as flores.

Hoje, serás minha escrava. Hás de seguir-me e servir-me, e ao fim do dia dar-te-ei lentilhas do jardim de minha mãe, para a tua. 

LES PIEDS NUS 

J’ai les cheveux noirs, le long de mon dos, et une petite calotte ronde. Ma chemise est de laine blanche. Mes jambes fermes brunissent au soleil.

 Si j’habitais la ville, j’aurais des bijoux d’or, et des chemises dorées et des souliers d’argent… Je regarde mes pieds nus, dans leurs souliers de poussière.

 Psophis ! viens ici, petite pauvre ! porte-moi jusqu’aux sources, lave mes pieds dans tes mains et presse des olives avec des violettes pour les parfumer sur les fleurs. 

 Tu seras aujourd’hui mon esclave ; tu me suivras et tu me serviras, et à la fin de la journée je te donnerai, pour ta mère, des lentilles du jardin de la mienne. 


 Fonte: Guilherme de Almeida (trad.) Pierre Louÿs. O Amor de Bilítis. Rio de Janeiro: José Olympio, 1948