quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Drummond - Apelo aos meus dessemelhantes em favor da paz

 Ah, não me tragam originais
para ler, para corrigir, para louvar
sobretudo, para louvar.
Não sou leitor do mundo nem espelho
de figuras que amam refletir-se
no outro
à falta de retrato interior.
Sou o Velho Cansado
que adora o seu cansaço e não o quer
submisso ao vão comércio da palavra.
Poupem-me, por favor ou por desprezo,
se não querem poupar-me por amor.
Não leio mais, não posso, que este tempo
a mim distribuído
cai do ramo e azuleja o chão varrido,
chão tão limpo da ambição
que minha só leitura é ler o chão.
Nem sequer li os textos das pirâmides,
os textos dos sarcófagos,
estou atrasadíssimo nos gregos,
não conheço os Anais de Assurbanipal,
como é que vou -
                            mancebos,
                            senhoritas,
- chegar à poesia de vanguarda
e às glórias do 2000 que telefonam?
Passam gênios talvez entre as acácias
sinto estátuas futuras se moldando
sem precisão de mim
que quando jovem (fui-o A. C., believe it or not)
nunca pulei muro de jardim
para exigir do morador tranquilo
a canonização do meu estilo.
Sirvam-se de exonerar este macróbio
do penoso exercício literário.
Não exijam prefácios e posfácios
ao ancião que mais fala quando cala.
Brotos de coxa flava e verso manco,
poetas de barba-colar e velutínea
calça puída, verde: tá!
Outoniços, crepusculinos, matronas, contumazes:
tá!
O senhor saiu. Hora que volta? Nunca.
Nunca de corvo, nunca de São Nunca.
Saiu para não voltar.
Tudo esqueceu: responder
cartas; sorrir
cumplicemente; agradecer
dedicatórias; retribuir
boas-festas; ir ao coquetel e à noite
de autógrafos-com-pastorinhas.
Ficou assim: o cacto de Manuel
é uma suavidade perto dele.
Respeitem a fera. Triste, sem presas, é fera.
Na jaula do mundo passeia a pata aplastante,
cuidado com ela!
Vocês, garotos de colégio, não perguntem ao poeta
quando nasceu.
Ele não nasceu.
Não vai nascer mais.
Desistiu de nascer quando viu que o esperavam garotos de colégio
de lápis em punho
com professores na retaguarda comandando: Cacem o urso-polar,
tragam-no vivo para fazer uma conferência.
Repórteres de vespertinos, não tentem entrevistá-lo.
Não lhe, não me peçam opinião
que é impublicável qualquer que seja o fato do dia
e contraditória e louca antes de formulada.
Fotógrafos: não adianta
pedir pose junto ao oratório de Cocais
nem folheando o álbum de Portinari
nem tomando banho de chuveiro.
Sou contra Niepce, Daguerre, contra principalmente minha imagem.
Não quero oferecer minha cara como verônica nas revistas.
Quero a paz das estepes
a paz dos descampados
a paz do pico de Itabira quando havia pico de Itabira
a paz de cima das Agulhas Negras
a paz de muito abaixo da mina mais funda e esboroada de Morro Velho
a paz
da
paz.


Fonte: DRUMMOND, C.D.A. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Record, 2001. 

terça-feira, fevereiro 24, 2026

Yosa Buson - Traduções de Olga Savary

 Em rincões e esquinas
frios cadáveres:
flores de ameixeira.

***

Vou-me embora
e tu ficas:
dois outonos.

***

Oh cruel vendaval!
Um bando de pequenos pardais
agarra-se à relva.

***

Chuva de primavera:
na carruagem compartilhada
minha bem amada suspira.

***

Os dias são lentos:
há ecos que se escutam
em algum lugar de Kyo*

*Nota da Tradutora (N.T). Kyo ou Kyoto era a antiga capital imperial. O poeta alude aqui ao sentimento do passado que se advinha ou parece escutar-se através dos velhos muros da cidade.

***

Lento dia:
um faisão
repousando sobre a fonte

 N.T. Imagem impressionista na qual o símbolo do faisão implica tanto em tranquilidade como em certa monotonia.

***

Halo de lua:
não é o aroma da ameixeira florida
nascendo no céu?

N.T.Versão de Blyth. Henderson transcreve:

Da ameixeira em flor
flutua esta fragrância?
Há um halo em torno da lua.

Preferimos a do primeiro porque a sugestão -- quase mágica -- é maior. 

***

Menina muda,
convertida em mulher
já se perfuma.

***

Sob a folhagem amarela
o mundo repousa enterrado...
Exceto o Fuji.

***

Sobre o sino do templo
repousa e dorme
a borboleta*

N.T. A borboleta se transforma em sinônimo de ingenuidade e pureza através deste poema. O grande sino parece indicar o contraste. 

***

Ar matinal:
a penugem das erucas
ondula.

***

Chuva de primavera
e os ventres das espigas
não se molharam ainda.

***

Aqui e acolá
som de cascatas:
folhas tenras a esmo.

***

Frio na alcova
ao pisar teu pente,
minha esposa morta.

***

Faisão da montanha,
o sol da primavera
pisa sua cauda.

N.T. O verdadeiro sentido deste poema tem sido muito discutido. A imagem, no entanto, tem uma clara vitalidade poética. 

***
Vou até às cerejeiras,
dormir sob seus capulhos,
sem deveres.

N.T. Sentimento contemplativo diante da natureza. 

***

Um caranguejo:
no mesmo lugar 
que o céu de ontem.

N.T. O tempo aparece para nós como que parado, eternizado, através da visão do caranguejo imóvel sobre o céu sem nuvens.

***

Nada se move,
nem uma folha: inquietante
jaz o bosque no verão. 

***
Lavrando o campo:
do templo aos cumes
o canto do galo.

N.T. Enfoque melancólico ao fim do dia.

***
O uguisu está cantando,
sua pequena boca 
aberta. 

***
Indiferente e lânguido
queimo incenso:
anoitecer de primavera.

***

As flores me enlouqueceram:
e retorno à casa
enfastiado de cortesãos.

N.T. A beleza da natureza supera os artifícios da corte.

***
Estação chuvosa:
com uma lanterna de papel na mão
caminho ao longo do pórtico.

N.T. Sugestão de espera.

***

O lutador, na velhice,
conta à sua mulher o combate
que não devia ter perdido.

***

Casal de patos.
Mas o tanque é velho e a doninha
os vigia.

N.T. Os patos mandarins são símbolos de felicidade conjugal. Este poema é fatalista.

***

Um rouxinol!...
E na hora do jantar
a família reunida. 

***

Sob a chuva primaveril
absortos num diálogo
a capa de palha e o guarda-chuva. 

N.T. Este célebre hai-kai de Buson destacou-se especialmente tanto por seu humor como pela sugestão que se desprende da imagem final. Adivinham-se dois caminhantes - talvez enamorados - por seus implementos contra a chuva. 

***

O crisântemo amarelo
sob a luz da lanterna de mão
perde sua cor.

***

Chegado para ver as flores,
sobre elas dormirei
sem sentir o tempo.

***

Ontem um vôo,
hoje outro: os gansos selvagens
não estarão aqui esta noite.

***

Peônias
numa região celestial
do grande jardim.

***

Lavrando o campo
a nuvem imóvel
se foi.

N.T. Visão do tempo arrastando-se monotonamente. Persistência do céu como fundo desse mesmo tempo. 

***

A cerejeira florida
desapareceu entre as árvores
em templo convertida.

N.T.  Este hai-kai tem influência budista em seu conteúdo. A contemplação da natureza exalta e transforma as coisas. 

***

Em círculo rodam
os gansos selvagens; ao pé da colina
a lua é um selo. 

N.T. Poema que se visualiza pictoricamente pela forma com que localiza os elementos.

***

Uma baleia!
Nadando sob a água mais e mais
assoma sua cauda.

***

Olhai a boca de Emma O!
Parece que vai cuspir
uma peônia!

N.T. Emma O é o dono do inferno. Não se conseguiu estabelecer com exatidão se a peônia é usada como analogia da boca ou vice-versa. 

***

Amarelas couves em flor
Do lado leste, a lua,
e o sol se pondo.

N.T.

***

O ruído
de um rato sobre o prato
como resulta frio!

N.T. o animal raspando e resvalando sobre o prato branco e frio produz no poeta uma desagradável impressão de desespero. 

***

Melancolicamente
subo a colina
de sarças em flor.

***

Armazéns e atrás um caminho
onde as andorinhas
vêm e vão.

***

Capulhos na pereira
e uma mulher à luz da luz
lendo uma carta.

***

Primavera que parte
e botões de cerejeira
ainda irresolutos.

***

Florescente espinheiro
tão parecido aos caminhos
onde nasci!

***

Sinto um agudo frio:
no embarcadouro ainda resta
um filete de lua. 

***
Curta noite
perto de mim, junto ao travesseiro
um biombo de prata.

***

A noite passou rápida:
sobre a peluda eruca
contas de orvalho.

N.T. Estes três últimos hai-kais sobre o mesmo tema constituem um tríptico conhecido por sua força lírica. 

segunda-feira, fevereiro 23, 2026

Canções de Bilítis, Pierre Louÿs - Tradução de Guilherme de Almeida

 




CANTO PASTORAL

Devo cantar um canto pastoral, invocar Pan, deus dos ventos do estio. Guardo o meu rebanho, e Selenis o seu, à sombra redonda de uma oliveira trêmula.

Selenis está deitada na relva. Ela ergue-se e corre, ou procura cigarras, ou colhe flores e verduras, ou lava o rosto na água fresca do regato. 

Arranco a lã ao dorso louro dos carneiros, para prover à minha roca -- e fio. As horas são lentas. Uma águia passa no céu.

A sombra gira; mudemos de lugar o cabaz de flores e a jarra de leite. Devo cantar um canto pastoral, invocar Pan, deus dos ventos do estio.

CHANT PASTORAL 

Il faut chanter un chant pastoral, invoquer Pan, dieu du vent d’été. Je garde mon troupeau et Sélénis le sien, à l’ombre ronde d’un olivier qui tremble. 

Sélénis est couchée sur le pré. Elle se lève et court, ou cherche des cigales, ou cueille des fleurs avec des herbes, ou lave son visage dans l’eau fraîche du ruisseau. 

Moi, j’arrache la laine au dos blond des moutons pour en garnir ma quenouille, et je file. Les heures sont lentes. Un aigle passe dans le ciel.

L’ombre tourne : changeons de place la corbeille de figues et la jarre de lait. Il faut chanter un chant pastoral, invoquer Pan, dieu du vent d’été.

***


PALAVRAS MATERNAIS

Minha mãe banha-me no escuro, veste-me ao sol a pino e penteia-me na luz; mas quando saio ao luar, ela aperta-me o cinto e faz um nó duplo.

Ela me diz: "Brinca com as virgens, dansa com as criancinhas; não olhes pela janela; evita a palavra dos rapazes e teme o conselho das viúvas.

"Uma noite, alguém, como acontece a todas, virá buscar-te à soleira da porta, com um grande cortejo de tímpanos sonoros e flautas amorosas.

"Nessa noite, quando partires, Bilítis, tu me deixarás três odres de fel: um para a manhã, outro para o meio-dia, e o terceiro -- o mais amargo -- o terceiro para os dias de festa". 


PAROLES MATERNELLES

Ma mère me baigne dans l’obscurité, elle m’habille au grand soleil et me coiffe dans la lumière ; mais si je sors au clair de lune, elle serre ma ceinture et fait un double nœud.

 Elle me dit : « Joue avec les vierges, danse avec les petits enfants ; ne regarde pas par la fenêtre ; fuis la parole des jeunes hommes et redoute le conseil des veuves.

 « Un soir, quelqu’un, comme pour toutes, te viendra prendre sur le seuil au milieu d’un grand cortège de tympanons sonores et de flûtes amoureuses.

 « Ce soir-là, quand tu t’en iras, Bilitô, tu me laisseras trois gourdes de fiel : une pour le matin, une pour le midi, et la troisième, la plus amère, la troisième pour les jours de fête. »

***

OS PÉS DESCALÇOS

Tenho cabelos negros, soltos pelas costas, e um pequeno barrete redondo. Minha camisa é de lã branca. Minhas pernas firmes tisnam-se ao sol. 

Se eu morasse na cidade, teria jóias de ouro, e camisas douradas, e sapatos de prata...Olho para meus pés nus, calçados de poeira.

Psophis! vem cá, minha pobrezinha! leva-me até as fontes, lava-me os pés nas tuas mãos, e esmaga olivas com violetas para perfumá-los sobre as flores.

Hoje, serás minha escrava. Hás de seguir-me e servir-me, e ao fim do dia dar-te-ei lentilhas do jardim de minha mãe, para a tua. 

LES PIEDS NUS 

J’ai les cheveux noirs, le long de mon dos, et une petite calotte ronde. Ma chemise est de laine blanche. Mes jambes fermes brunissent au soleil.

 Si j’habitais la ville, j’aurais des bijoux d’or, et des chemises dorées et des souliers d’argent… Je regarde mes pieds nus, dans leurs souliers de poussière.

 Psophis ! viens ici, petite pauvre ! porte-moi jusqu’aux sources, lave mes pieds dans tes mains et presse des olives avec des violettes pour les parfumer sur les fleurs. 

 Tu seras aujourd’hui mon esclave ; tu me suivras et tu me serviras, et à la fin de la journée je te donnerai, pour ta mère, des lentilles du jardin de la mienne. 


 Fonte: Guilherme de Almeida (trad.) Pierre Louÿs. O Amor de Bilítis. Rio de Janeiro: José Olympio, 1948

domingo, fevereiro 22, 2026

Anacreontea - Traduções de Tadeu Andrade

 6

Eu tecia uma coroa
E entre as rosas vi o Amor;
Agarrei as suas asas,
Mergulhei-o no meu vinho,
E depois eu o bebi.
Mas agora, aqui no peito,
Elas fazem coceguinha.

7
As mulheres já me dizem:
“Você é um velho, Anacreonte!
Pega o espelho e vê se enxerga:
Não lhe sobram mais cabelos,
Sua cuca está pelada!”
Já eu, quanto ao meu cabelo,
Se ele existe ou já se foi,
Nada sei, mas isto eu sei:
Que convém tão mais ao velho
Se entreter com o prazer,
Quanto a Morte lhe é mais próxima.

8
Não me importa o que é de Giges 1,
Que reinou na antiga Sardes,
Não me tem qualquer cobiça,
Nem invejo os grandes reis.
Só me importa mergulhar
No perfume a minha barba,
Só me importa coroar
Com as rosas minha fronte.
O hoje é aquilo que me importa,
O amanhã quem é que sabe?
E, por isso, enquanto é dia,
Vá beber, lançar os dados,
Vá libar a Dioniso,
Pra doença não dizer
(Se vier): “Você não pode!”

 1Rei da Lídia, poderoso reino da Ásia Menor conhecido por suas riquezas. Sua capital era Sardes.

9
Deixe, pelo amor dos deuses,
Eu beber, beber sem conta,
Quero, eu quero enlouquecer!
Alcmeão enlouqueceu
E também o claro Orestes 1
Por matarem suas mães.
Eu, que não matei ninguém,
De beber o vinho rubro
Quero, eu quero enlouquecer.
Héracles enlouqueceu
Atirando as cruas flechas
Com o arco que era de Ífito 2.
Ájax enlouqueceu
Sobre o escudo se imolando
Com a espada de Heitor 3.
Quanto a mim, com este copo,
Nos cabelos a coroa,
Quero, eu quero enlouquecer.

 1 Tanto Alcmeão como Orestes mataram suas mães para vingarem seus pais. Como punição, ambos foram perseguidos com loucura pelas Erínias, deusas da vingança que punem crimes de sangue.

 2 Héracles matou Ífito, filho de Eurito, e tomou seu arco. Com esse mesmo arco, por um acesso de loucura que Hera lhe enviou, Héracles matou suas esposa, Mégara, e seus filhos.

 3 Na guerra de Tróia, Ájax, melhor dos gregos depois de Aquiles, depois de um duelo inconclusivo com Heitor, líder dos troianos, recebeu dele uma espada numa troca de presentes. Com essa mesma espada, Ájax se matou por vergonha de um acesso de loucura.

10
Que você deseja agora?
Que, matraca de andorinha?
Quer que as suas asas leves
Eu me ponha a tesourar?
Ou prefere que essa língua,
Como outrora fez Tereu 1,
Eu decida cortar fora?
Pra que foi dos belos sonhos,
Com seus cantos matutinos,
Saquear o meu Batilo?

 1 Tereu era um rei da Trácia que, apaixonado por Filomela, irmã de sua esposa, a estuprou, fazendo-a cativa e cortando-lhe a língua para evitar que contasse a alguém. Quando, Procne, sua esposa, descobriu, vingou-se servindo-lhe a carne do próprio filho num banquete. Quando Tereu perseguia as irmãs para matá-las, os deuses os transformaram em pássaros: tereu em uma poupa, Procne em um rouxinol e Filomela em uma andorinha, de onde vem a referência no poema.

11
Um Amor feito de cera
Um rapaz pôs-se a vender,
E eu, parando do seu lado,
Perguntei: “Quanto que custa
Este seu artesanato?”
E ele disse em fala dórica 1:
“Leve! Pague o que quiser!
Pra falar bem a verdade,
Eu não faço obras de cera,
Só não quero mais viver
Com o Amor, esse pilantra”.
“Vende-o! Vende-o! Pago bem!
Minha cama o acolherá”.
Vem, Amor, não se demore,
Incendeie-me, se não,
Para o fogo irá você.

 1 Um dos dialetos do grego. Talvez trate-se de uma referência à poesia dórica arcaica, que raramente cantava o amor. Seu autor mais famoso é Píndaro.

12
Alguns dizem que, gritando
À belíssima Cibele,
Átis, semi-feminino,
Na montanha enlouquecia 1.
Uns no píncaro do Claro,
Em que reina Febo Apolo,
Ao beber água falante
Enlouquecem, lançam gritos 2.
Quanto a mim, de Dioniso,
De perfume saciado,
E da minha companheira,
Quero, eu quero enlouquecer.

 1 Mortal por quem a deusa Cibele se apaixonara. Em pleno casamento dele, Cibele apareceu em sua forma divina e Átis, enlouquecido, se castrou, tornando-se o primeiro dos coribantes, sacerdotes eunucos da deusa.

 2 Referência ao oráculo de Apolo perto de Colofão, na Ásia Menor. Seu poço dava inspiração divina ao sacerdote.

13
Quero, quero, eu quero amar.
Eis que o Amor mandou amar,
Mas eu tive um pensamento
Tolo e desobedeci.
Ele então ergueu o arco
E as douradas flechas suas
E chamou-me para a a briga.
E eu tomando sobre os ombros
A armadura, como Aquiles,
Minha lança e meu escudo,
Com o Amor pus-me a lutar.
Ele vinha, eu fugia,
Logo lhe faltaram flechas
E ele se prostrou. Então
Atirou-se como um dardo,
E no meio do meu peito
Mergulhou e me desfez.
De que me serviu o escudo?
Que vou eu fazer por fora
Quando a luta é por dentro?

Fonte: "À moda de Anacreonte" in: À moda de Anacreonte | Tadeu Andrade

sábado, fevereiro 21, 2026

Lenda - Orides Fontela

 Na raiz cega deste espanto
há um cristal: quem o fitar

ah, quem o fitar
com os olhos em sangue
com as mãos em sangue
com o sangue vivo

quem o fitar não dormirá
mas será cristal de espanto 

--- ficará lúcido para sempre. 

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

Mário Quintana - Hai-Kais

 AMANHECE

Um copo de cristal
Sobre a mesa
Inventa as cores todas do arco-íris...

HOJE É OUTRO DIA

Quando abro cada manhã a janela do meu quarto
É como se abrisse o mesmo livro
Numa página nova...

QUEM SOMOS?

Esse estranho que mora no espelho
Olha-me de um jeito
De quem procura recordar quem sou...

A OFERENDA

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos...
Trago-te estas mãos vazias
Que vão tomando a forma do teu seio.

VERÃO

Quando os sapatos ringem
         - quem diria?
São os teus pés que estão cantando! 

O TÚNEL

Às vezes
O longo túnel do sono é iluminado, apenas,
Pelos olhos verdes dos fantasmas...

HAI-KAI DA PALAVRA ANDORINHA

A palavra andorinha
Freme devagarinho
E somo em silêncio...

HAI-KAI

Rosa suntuosa e simples,
como podes estar tão vestida
e ao mesmo tempo inteiramente nua? 

OS GRILOS

Eles cantam a noite inteira!
Não sabias?
Os grilos são os poetas mortos...

ELEGIA URBANA

Rádios. Tevês.
Goooooooooooooooooooooooolo!!!!
(o domingo é um cachorro escondido debaixo da cama.)

ESTRANHEZA

Os vivos e os mortos
Sempre tivemos uma coisa em comum:
Não acreditamos muito uns nos outros...

CONVITE

Basta de poemas para depois...
Ó vida, e se nós dois
Vivêssemos juntos?

HAI-KAI

Silenciosamente
sem um cacarejo
a Noite põe o ovo da lua...

HAI-KAI DE OUTONO

Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?

ARTE POÉTICA

Esses poetas que tudo dizem
Nada conseguem dizer:
Estão fazendo apenas relatórios...

LIBERTAÇÃO

A morte é a libertação total:
A morte é quando a gente pode, afinal,
Estar deitado de sapatos...

HAI-KAI DE OUTONO

Uma folha, ai,
melancolicamente
                   cai! 

O VERSO

O verso é um doido cantando sozinho.
Seu assunto é o caminho. E nada mais!
O caminho que ele próprio inventa...


Fonte: Polito, R. (org.) Mário Quintana. O Livro dos Haicais. Ilustrações de Roberto Negreiros; posfácio de Paulo Franchetti. São Paulo: Globo, 2009. 

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Orides Fontela

 Kant (Relido)


Duas coisas admiro: a dura lei
cobrindo-me
e o estrelado céu
dentro de mim


Orides Fontela. Rosácea, 1986.