quarta-feira, março 11, 2026

Nóssis (Antologia Palatina, 9, 332)

Ἐλθοῖσαι ποτὶ ναὸν ἰδώμεθα τᾶς Ἀφροδίτας 
τὸ βρέτας, ὡς χρυσῷ διαδαλόεν τελέθει. 
 εἵσατό μιν Πολυαρχίς, ἐπαυρομένα μάλα πολλὰν
 κτῆσιν ἀπ᾽ οἰκείου σώματος ἀγλαΐας.

Viemos ao templo ver a estátua 
    de Afrodite, como é forjada em ouro.
 Poliácris a ergueu e desfrutou de muitos 
    bens, graças ao esplendor do corpo dela.

Tradução de Clara Sperb

Fonte: ANTUNES, CLB; BARACAT JR., J.C.; BRUNHARA, R. Cadernos de Tradução 44: Flores da Antologia Grega. Porto Alegre: RS, IL/UFRGS. 

terça-feira, março 10, 2026

Arquíloco, 128 W: Coração, Coração...

 θυμέ, θύμ’, ἀμηχάνοισι κήδεσιν κυκώμενε,
†ἀναδευ δυσμενῶν† δ’ ἀλέξεο προσβαλὼν ἐναντίον
στέρνον †ἐνδοκοισιν ἐχθρῶν πλησίον κατασταθεὶς
ἀσφαλέως· καὶ μήτε νικέων ἀμφάδην ἀγάλλεο,
μηδὲ νικηθεὶς ἐν οἴκωι καταπεσὼν ὀδύρεο,                              5
ἀλλὰ χαρτοῖσίν τε χαῖρε καὶ κακοῖσιν ἀσχάλα
μὴ λίην, γίνωσκε δ’ οἷος ῥυσμὸς ἀνθρώπους ἔχει.

Coração, coração, por lutos inelutáveis agitado,
levanta, protege-te dos oponentes, volvendo adverso
peito, nas emboscadas inimigas próximo postado
firme; e vencendo, não exultes abertamente,
nem vencido, em casa caído lamentes,                                     5
mas com alegrias alegra-te e deplora males,
sem excesso: aprende que ritmo rege a humanidade.


Tradução: Rafael Brunhara

Fonte: Brunhara, R.; Ragusa, G. Elegia Grega Arcaica: uma antologia. São Paulo: Mnema/Ateliê, 2021. 

segunda-feira, março 09, 2026

Inspiração

 "Onde até na força do verão havia
tempestades de ventos e frios de
crudelíssimo inverno."

Fr. Luís de Sousa

São Paulo! comoção de minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original!...
Arlequinal!...Traje de losangos...Cinza e ouro...
Luz e bruma...Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paris...Arys!
Bofetadas líricas no Trianon...Algodoal!...

São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América! 

Mário de Andrade in: Pauliceia Desvairada, 1922. 

domingo, março 08, 2026

Paul Valéry - O Vinho Perdido (Trad. Nelson Ascher)

 Homenageando o nada ao léu,
joguei, malgrado mal lembrar
quando é que foi ou sob qual céu,
gotas de vinho raro ao mar.


Quem quis, licor, ver-te desfeito?
Seguia eu ordens do adivinho?
Talvez o anseio que, em meu peito,
sonhava sangue ao verter vinho?

Um vapor róseo ergueu-se até
que, pura, o mar reouve tal qual
sua transparência habitual:

perdido o vinho, ébria a maré!...
Vi no ar amargo mais e mais
formas lançarem-se abissais...

Tradução de Nelson Ascher in "Um Pouco de Tudo". Link: Folha de S.Paulo - Nelson Ascher: Um Pouco de Tudo - 11/09/2006. [Acessado em 27 de fevereiro de 2026]

sábado, março 07, 2026

Biodiversidade - Paulo Henriques Britto

 Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,
que não requerem prática, oficina, suor.
Maneiras mais simpáticas de pagar mico
e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor.

Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo,
como há quem não se vexe de ler e decifrar
essas palavras bestas estrebuchando inúteis,
cágados com as quatro patas viradas pro ar.

Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,
de repente é mais que isso, é uma voz, talvez,
do outro lado da linha formigando de estática,
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,

câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,
incapazes de reassumir a posição natural,
não são na verdade uma outra forma de vida,
tipo um ramo alternativo do reino animal?

Fonte: Britto, Paulo Henriques. Macau. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 

sexta-feira, março 06, 2026

Animula Vagula Blandula - Tradução de Ivan P. de Arruda Campos

Anímula vágula blândula hóspede e 
amiga corpórea para onde agora?
lugares pálidos gélidos lunares...e
não mais nos dás logojogos.

 Animula, vagula, blandula
Hospes comesque corporis
Quae nunc abibis in loca
 Pallidula, rigida, nudula,
 Nec, ut soles, dabis iocos.

(14/07/2004)

Fonte: Carvalhal, T.F.; Rebello, L. Ferreira, E.F.C. (org.) Transcriações - Teorias e Práticas. Porto Alegre: Evangraf, 2004. 

quinta-feira, março 05, 2026

OP.CIT., PP.164-165 (Paulo Henriques Britto)

 ""No poema moderno, é sempre nítida
uma tensão entre a necessidade
de exprimir-se uma subjetividade
numa personalíssima voz lírica

e, de outro lado, a consciência crítica
de um sujeito que se inventa e evade,
ao mesmo tempo ressaltando o que há de 
falso em si próprio -- uma postura cínica, 

talvez, porém honesta, pois de boa-
fé o autor desconstrói seu artífício
desmistifica-se para o "leitor-

irmão..." Hm. Pode ser. Mas o Pessoa,
em doze heptassílabos, já disse o 
mesmo -- não, disse mais -- muito melhor. 

Fonte: BRITTO, Paulo Henriques. Tarde. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.