terça-feira, fevereiro 10, 2026

Interrupção - Konstantinos Kaváfis

 A obra dos deuses, nós a interompemos -- entes 
somos da pressa e do momento, inexperientes.
No palácio de Elêusis e no de Ftia, eis
que iniciam Deméter e Tétis, em chamas
altas e fumo espesso envoltas, grandes obras. Mas
sempre foge Metanira aos aposentos do rei,
cabelos soltos, temerosa. Também
Peleu se atemoriza sempre e intervém.


Tradução de José Paulo Paes in: Konstantinos Kaváfis. Poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. 

segunda-feira, fevereiro 09, 2026

Horácio, Ode III. 30 - Tradução de Trajano Vieira

 Ergui um monumento mais perene

que o bronze, mais altivo que as pirâmides

nem a chuva voraz, nem sucessivos

anos o anulam, nem o árduo Áquilo.

Morro mas parcialmente e pouco vai

de mim a Libitina. Novo, os pósteros

só me farão crescer, enquanto suba

ao Capitólio o sumo padre, atrás

a virgem quieta. Onde o Ofanto estronda,

onde Dauno regeu a gente rude, 

na Apúlia árida, dirão: não mais

negligenciável, foi quem pôs o canto

eólio, pioneiro, em metro itálico.

Reivindica, Melpômene, a altivez

conquistada por méritos e cing

minha cabeça com o louro délfico.

domingo, fevereiro 08, 2026

Marcelo Tápia

 VOZES


Aprendo por mim mesmo,

mas o Deus

plantou-me no imo

cantares diversos


De verdade anunciada

tenho o ambíguo;

se me é dado cantar,

diga-se no que digo.


o desígnio

de ser alheio e ser comigo

de se revelar

a voz do que imito,


o vão perdido

do elo divino.


Marcelo Tápia. Ascensões e Descensos. São Paulo: Editora Madamu, 2025. 

sábado, fevereiro 07, 2026

Anna Akhmátova

 A MUSA

Quando à noite eu espero a sua vinda, 
minha vida parece estar por um fio. 
Que valem honras, juventude, liberdade 
diante da doce amiga com a flauta na mão? 
Ei-la, chegou: lançando o manto para trás
deteve o olhar atento sobre mim.
“Foste tu” – lhe pergunto – “que ditaste a Dante 
as páginas do Inferno?” E ela: “Eu". 


 Tradução de Rafael Brunhara

sexta-feira, fevereiro 06, 2026

 Este é o tempo

Da selva mais obscura


Até o ar azul se tornou grades

E a luz do sol se tornou impura


Esta é a noite

Densa de chacais

Pesada de amargura


Este é o tempo em que os homens renunciam.


Sophia de Mello Breyner Andresen. Mar Novo, in Obra Poética. Rio de Janeiro: Tinta da China, 2018. 

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Horácio, Ode I, 38 - Tradução de Trajano Vieira

 Detesto aparatos persas, não

suporto, infante, a tília das guirlandas,

não queiras encontrar em que lugar

retarda a rosa extemporânea.


Não emprestes teu zelo a somar

algo que for, menino, ao simples mirto.

O mirto não humilha quem ministra 

o vinho, e a mim que o sorvo à sombra. 


Trajano Vieira. Catulo & Horácio: Uma Antologia. São Paulo, Cotia: Ateliê Editorial, 2025. 


Outra Tradução: Haroldo de Campos 

Horácio, Ode I.38 - Tradução de Raimundo Carvalho

 Rapaz, odeio pompas persas,

não me apraz coroa de tília,

não queiras saber onde a rosa

            brotou tardia.


Nada acresças ao simples mirto;

vigio; nem a ti, servindo-me,

mirto é vil, nem a mim, bebendo

           na espessa vide. 


Tradução de Raimundo Carvalho


Fonte: CARVALHO, R. Lira a Vapor - Poesia Reunida 1983-2025. São Paulo: Immensa Editorial, 2025.