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domingo, dezembro 21, 2014

Píndaro, Ístmica 2


Para Xenócrates de Agrigento, vencedor na corrida de carros

Os homens do passado, Trasíbulo,
            que das Musas de laços de ouro
subiam a carruagem,
             ínclita lira com eles,
ágeis asseteavam com hinos dulcíssonos 
os meninos. Quem era belo tinha a mais doce flor
estival, a lembrança de Afrodite em trono.

Outrora a Musa não era gananciosa
ainda, por dinheiro não trabalhava:
não estavam à venda as doces 
              blandíloquas canções
de Terpsícore[1] voz-de-mel,
            para cobrir de prata a fronte.
Mas hoje nos ordena a defender Argivo
adágio,  (...) a um só passo da verdade:

“Dinheiro, o dinheiro faz o homem!” –
            Disse o que perdeu posses e amigos também.
Basta! Sois sábios. Não ignorais o que canto:
            Ístmica vitória com corcéis,
que concedeu Posídon a Xenócrates,
e enviou-lhe guirlanda de dórios
aipos para prender aos cabelos,

recompensa ao varão de bom carro,
            a luz para Agrigento!
Em Crisa viu-o estrênuo
Apolo, e infundiu-lhe o brilho
também ali; com ínclitas graças dos Erectidas[2] munido,
            na opima Atenas não recebeu censuras
o braço do ginete que guiou a carruagem,

Nicômaco, que as rédeas todas
            manejou competente:
até mesmo os arautos das estações, os Eléios
            portadores das tréguas[3] do Cronida
Zeus, o reconheceram, por provarem, alhures, de sua acolhida:
            saudaram-lhe com doce alento na voz,
quando ele se curvou a áurea Vitória,

em sua terra,
            que chamam de bosque sacro
de Zeus Olímpio. Lá os filhos de Enesídamo[4]
a honras imortais uniram-se.
De fato a tua casa não ignora,
Trasíbulo, amáveis cortejos,
nem canções de louvor doce mel,

pois não existem montes,
não existem estradas difíceis demais,
se para homens de boa fama
alguém leva os lauréis das Musas[5]
Lançado longe o disco, possa eu atirar meus dardos, tanto quanto
Xenócrates no doce ímpeto superava a todos!
Nas assembleias de cidadãos respeitado,

 acostumado ao trato de corcéis,
            tradição pan-helênica,
 todos os banquetes de Deuses
            abraçou! E jamais lufaram tantos ventos
que o fizeram colher as velas de sua mesa hóspede!
            Não, mas ele cruzava o Fásis no verão,
e no inverno vogava até as costas do Nilo!

Ora porque invejosas esperanças
pairam em torno do coração dos mortais,
que a virtude paterna o filho não emudeça,
nem estes hinos!  Não os lavrei
para serem imóveis.
Tudo isso comunica, Nicásipo,
a Trasíbulo, meu hóspede amigo querido.

[Tradução: Rafael Brunhara]

Αʹ Οἱ μὲν πάλαι, ὦ Θρασύβουλε,
φῶτες, οἳ χρυσαμπύκων
ἐς δίφρον Μοισᾶν ἔβαι-
νον κλυτᾷ φόρμιγγι συναντόμενοι,
ῥίμφα παιδείους ἐτόξευον μελιγάρυας ὕμνους,
ὅστις ἐὼν καλὸς εἶχεν Ἀφˈροδίτας
εὐθρόνου μνάστειραν ἁδίσταν ὀπώραν.(5)

ἁ Μοῖσα γὰρ οὐ φιλοκερδής
πω τότ' ἦν οὐδ' ἐργάτις·
οὐδ' ἐπέρναντο γˈλυκεῖ-
αι μελιφθόγγου ποτὶ Τερψιχόρας
ἀργυρωθεῖσαι πρόσωπα μαλθακόφωνοι ἀοιδαί.
νῦν δ' ἐφίητι <τὸ> τὠργείου φυλάξαι
ῥῆμ' ἀλαθείας <⏑–> ἄγχιστα βαῖνον, (10)


’χρήματα χρήματ' ἀνήρ’
ὃς φᾶ κτεάνων θ' ἅμα λειφθεὶς καὶ φίλων.
ἐσσὶ γὰρ ὦν σοφός· οὐκ ἄγˈνωτ' ἀείδω
Ἰσθμίαν ἵπποισι νίκαν,
τὰν Ξενοκˈράτει Ποσειδάων ὀπάσαις,
Δωρίων αὐτῷ στεφάνωμα κόμᾳ (15)
⸐πέμπεν ἀναδεῖσθαι σελίνων,


Βʹ εὐάρματον ἄνδρα γεραίρων,
Ἀκˈραγαντίνων φάος.
ἐν Κρίσᾳ δ' εὐρυσθενὴς
εἶδ' Ἀπόλλων νιν πόρε τ' ἀγˈλαΐαν
καὶ τόθι κˈλειναῖς <τ'> Ἐρεχθειδᾶν χαρίτεσσιν ἀραρώς
ταῖς λιπαραῖς ἐν Ἀθάναις, οὐκ ἐμέμφθη (20)
ῥυσίδιφˈρον χεῖρα πλαξίπποιο φωτός,

τὰν Νικόμαχος κατὰ καιρὸν
νεῖμ' ἁπάσαις ἁνίαις·
ὅν τε καὶ κάρυκες ὡ-
ρᾶν ἀνέγˈνον, σπονδοφόροι Κρονίδα
Ζηνὸς Ἀλεῖοι, παθόντες πού τι φιλόξενον ἔργον·
ἁδυπνόῳ τέ νιν ἀσπάζοντο φωνᾷ (25)
χρυσέας ἐν γούνασιν πίτˈνοντα Νίκας
γαῖαν ἀνὰ σφετέραν,


τὰν δὴ καλέοισιν Ὀλυμπίου Διός
ἄλσος· ἵν' ἀθανάτοις Αἰνησιδάμου
παῖδες ἐν τιμαῖς ἔμιχθεν.
καὶ γὰρ οὐκ ἀγνῶτες ὑμῖν ἐντὶ δόμοι (30)
⸐οὔτε κώμων, ὦ Θρασύβουλ', ἐρατῶν,
οὔτε μελικόμπων ἀοιδᾶν.

Γʹ οὐ γὰρ πάγος οὐδὲ προσάντης
ἁ κέλευθος γίνεται,
εἴ τις εὐδόξων ἐς ἀν-
δρῶν ἄγοι τιμὰς Ἑλικωνιάδων.
μακˈρὰ δισκήσαις ἀκοντίσσαιμι τοσοῦθ', ὅσον ὀργάν (35)
Ξεινοκράτης ὑπὲρ ἀνθρώπων γλυκεῖαν
⸏ἔσχεν. αἰδοῖος μὲν ἦν ἀστοῖς ὁμιλεῖν,
ἱπποτˈροφίας τε νομίζων
ἐν Πανελλάνων νόμῳ·
καὶ θεῶν δαῖτας προσέ-
πτυκτο πάσας· οὐδέ ποτε ξενίαν
οὖρος ἐμπνεύσαις ὑπέστειλ' ἱστίον ἀμφὶ τράπεζαν· (40)
ἀλλ' ἐπέρα ποτὶ μὲν Φᾶσιν θερείαις,
ἐν δὲ χειμῶνι πˈλέων Νείλου πρὸς ἀκτάν.
μή νυν, ὅτι φθονεραὶ


θνατῶν φρένας ἀμφικρέμανται ἐλπίδες,
μήτ' ἀρετάν ποτε σιγάτω πατρῴαν,
μηδὲ τούσδ' ὕμνους· ἐπεί τοι (45)
οὐκ ἐλινύσοντας αὐτοὺς ἐργασάμαν.
ταῦτα, Νικάσιππ', ἀπόνειμον, ὅταν
ξεῖνον ἐμὸν ἠθαῖον ἔλθῃς.


[1] Terpsícore é uma das nove Musas, associada à dança.
[2] Os descendentes de Erecteu, rei mítico de Atenas. Designa, portanto, os Atenienses.
[3] Os arautos de Élis, região que hospedava os jogos Olímpicos. Estes arautos proclamavam a trégua entre os gregos durante as competições, enviada por Zeus. Eram eles os responsáveis por anunciar os vencedores.
[4]Enesídamo: pai de Xenócrates. Ao mencionar que “os filhos de Enesídamo a honras imortais uniram-se” Píndaro certamente alude também a Terão, irmão de Xenócrates, vencedor na corrida de carros em Olímpia (ver Ol.2)
[5] No original, Heliconíades. As Musas habitavam o monte Hélicon. 



sábado, novembro 29, 2014

"Primeira Ode Olímpica" (Píndaro) - Tradução de Mário Faustino

I

Água: primeiro dos bens.
                                         Mas Ouro
(chama acesa na noite) ofusca os tesouros inteiros
da altiva opulência: queres,
alma minha, cantar os Jogos?
                                               De dia não busques
Além do sol no ar deserto estrêla
mais ardente nem liça mais gloriosa,
mais cantável que Olímpia:
de lá vem a canção que estica as cordas
nos corações peritos
em celebrar-te, filho de Cronos: e êles vêm
por todos os caminhos rumo à mesa
(repleta) de Hierão.

manejador do cetro da justiça
na Sicília fecunda
e ceifeiro de todas as virtudes
em seus caules mais altos
e que sabe crescer com sua fama
pelo esplendor da música
enquanto nos deleita em mesa amiga.
                                                           Anda!
tira do gancho a lira dórica
se ainda tens o coração domado
pela Cáris de Pisa – glória de Ferênicos,
quando êste disparou (sem chicote!) nas margens
do Alfeu, rumo à vitória
do rei de Siracusa, amador de cavalos;
                                                        seu renome
esplende nessa terra de homens fortes
onde Pélops, o Lídio, foi morar,
Pélops,
          por quem se apaixonou Posêidon (o
que cinge, firme, a terra) quando Clôto
o retirou do vaso puro, o ombro
marfim luzindo.
                         Grandes maravilhas
(e verdadeiras) estas, porém quantas
Fábulas enfeitadas de mentira
encantam nossas mentes
                                    para lá da verdade...

II

Cáris,
Cáris o gênio a graça a quem devemos
Tudo o que nos encanta
devolvendo-lhe as honras, quantas vêzes
transforma em verdadeiro o que é incrível
O futuro é a melhor testemunha – e mais seguro
é dizer bem dos deuses. Pois direi
assim, filho de Tântalo (ao contrário
do que dizem os velhos) direi que
quando teu pai retribuindo aos deuses
os convidou para impecável festa
sôbre o Sipilo – monte que êles amam –
nesse dia o senhor do luminoso
tridente arrebatou-te

o coração partido de paixão. Cavalos, carros de ouro,
levou-te ao céu de Zeus aonde mais
tarde iria Ganimedes
prestar ao próprio Zeus igual serviço.
Ao desapareceres, procurando-te
os homens de tua mãe sem descobrir-te
e voltando sem ti, alguém, vizinhos
inventaram – despeito – que, cortados
a faca, tuas pernas, braços (em
água fervendo) foram já no fim
do banquete servidos e comidos.

Chamar um deus de canibal? Eu nunca!
Quem escapa ao castigo da blasfêmia?
Se mortal houve honrado pelos donos
do Olimpo, êsse foi Tântalo; só que
lambuzou-se de mel, com tanta sorte; insaciável,
provocou monstruosa punição: a pedra
enorme que lhe ergueu o pai dos deuses
sobre a cabeça, êle esperando a queda
que nunca vem e o deixa um tanto triste ...

III

Quarto suplício, junto a mais três, é acima
de suas fôrças: só por ter roubado
o nétar, a ambrosia (com que os deuses
o fizeram imortal) para dar aos amigos!

Como se engana aquêle que procura
esconder algo aos deuses ...
                                         Foi por isso
que resolveram devolver-lhe o filho
à desgraçada sorte humana. E quando
à flor da idade descobriu que o buço
o queixo começava a escurecer-lhe,
sonhou ganhar a noiva mais à mão,

Hipodaméia (filha ilustre de um
soberano de Pisa): a sós à noite ao pé
do mar grisalho o deus chamou que faz
rugir o abismo, o do tridente: e face
a face êste surgiu-lhe
                                E disse Pélops:
“Escuta aqui, Posêidon, se tiveste
algum prazer com meu amor (presentes
deleitosos de Cípris), prende a lança
de bronze de Oinomáos, e cinge-me de fôrça
e leva-me à terra do Élis em teu carro mais rápido.
O homem já matou treze heróis, treze
pretendentes, para adiar o casamento

da filha! Quem é fraco nunca enfrenta
grande perigo: mas, se a morte é certa,
por que ficar sentado à sombra, à espera
duma velhice inglória? A mim correr
o risco; a ti dar-me o triunfo”.
Falou e não perdeu seu tempo: o deus
por sua glória deu-lhe um carro de ouro
e cavalos alados incansáveis.

IV

Tendo quebrado a fôrça de Oinomáos, levou a virgem
para o leito e houve dela seis
príncipes ardorosos.
                             Ao pé do Alfeu, agora
com os mortos potentes se mistura
lá onde as multidões cercam seu túmulo
perto do altar acima
de todos venerado; mas a glória
de Pélops olha de longe lá de Olímpia
sôbre as arenas onde a ligeireza
disputa a ligeireza, a fòrça a fôrça.
(E o vencedor a vida inteira saboreia
alegria mais doce do que o mel

- pelo menos os jogos não traíram seus votos –
alegria que o dia passa ao dia
bem supremo de um homem...)

                                           Quero eu
coroar esse rei no tom eqüestre
e no compasso eólio. Pois meu canto
em seu panejamento glorioso
jamais vestirá outro que reúna
o gôsto pelo belo
e a fôrça irresistível.
Hierão, algum deus por teus desígnios
vela: fique sempre a teu lado, que mais doce
a vitória te seja em carro agílimo.
Na colina de Cronos luminosa
irei buscar o veio de louvores
dignos de celebrá-la:
                                pois a musa
para mim forja o dardo mais potente
Há grandezas de várias excelências,
a mais alta é dos reis. Não busques mais.
Pisem teus pés os cimos sempre, enquanto
a teu lado farei brilhar meu gênio
por toda parte, na vanguarda helênica.

NOTAS DO TRADUTOR

- A tradução foi feita a partir da inglêsa de Richmond Lattimore (em verso livre) e da francesa de Aimé Pucch (em prosa). Sem saber grego e sem ser um “métricien”, o tradutor, a tentar o impossível (reproduzir em português o mais complicado dos versos gregos) preferiu traduzir Píndaro em linguagem e versificação as mais atuais a seu alcance. Foi adotada, por outro lado, a orientação de alguns tradutores, inclusive de Lattimore, segundo a qual há muito de irônico nesta ode de Píndaro, mais jocosa (foi cantada pela primeira vez num banquete em honra de Hierão: não foi encomendada por êste; a encomenda, no caso, coube a Baquílide) do que pensam outros.

- Algumas anotações para a melhor compreensão do poema: foi composto para celebrar, em geral, os jogos olímpicos (donde o aparecimento do tantálida Pélops como personagem central e exemplo dado a Hierão) e, em particular, Hierão de Siracusa e seu cavalo Ferênicos, vencedores da corrida de cavalos montados nas olimpíadas de 476 antes de Cristo, ano em que foi composta a ode. Faz-se alusão, no poema, a uma vitória anterior de Ferênicos. Hierão, mais tarde, realizaria o voto expresso por Píndaro no final da ode: tanto em 470  como em 468 a.C., venceu as corridas de quadrigas, as mais ambicionadas pelos atletas gregos Lembrar também as diversas versões dos mitos de Tântalo, de Pélops e de Ganimedes, estes dois últimos amados, respectivamente, por Posêidon e Zeus (mais ou menos o Netuno e o Júpiter romanos); lembrar, em particular, que Pélops, servido no banquete aos deuses, teve um ombro comido por Demeter, sendo após reconstituído, num vaso puro, por Clôto, sendo-lhe aposto um ombro de marfim. N.B. no início da terceira tríade, Píndaro refere-se, para nós zombeteiramente, às várias versões do suplício de Tântalo, a mais recente sendo a da pedra suspensa sôbre a cabeça do condenado, ameaçando cair a qualquer momento. Há quem interprete êsses versos de outra maneira: Tântalo seria o último de quatro condenados, sendo os outros Títios, Sísifo e Íxion.

- Pisa: antiga cidade da Élida, às margens do rio Alfeu, perto do Templo de Olímpia.

- Cípris: um dos cognomes de Afrodite (Vênus).

- A ode é composta de quatro tríades: quatro estrofes, quatro anti-estrofes, quatro epodos. Era acompanhada pela “forminx”, a “lira dórica”, mencionada no poema. O esquema de metros, como sempre acontece em Píndaro, é complicadíssimo, segundo os entendidos um verdadeiro “show” de virtuosismo.
- No princípio da segunda tríade, notar o tema da beleza-verdade, verdade-beleza, comum em clássicos e românticos. Cf., especialmente, a famosa carta de Keats a Bailey sôbre o “sonho de Adão”.

- Píndaro: 518-438 a.C. o mestre do lirismo coral na Grécia.


FONTE:
Jornal do Brasil, Suplemento Dominical (03/11/1957), p.05  (disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_07)

sábado, setembro 21, 2013

Píndaro, Ode Nemeia 6 (v. 01-07)

(Os Deuses e os homens)


 Ἓν ἀνδρῶν, ἓν θεῶν γένος· ἐκ μιᾶς δὲ πνέομεν
ματρὸς ἀμφότεροι· διείργει δὲ πᾶσα κεκριμένα
δύναμις, ὡς τὸ μὲν οὐδέν, ὁ δὲ
χάλκεος ἀσφαλὲς αἰὲν ἕδος
μένει οὐρανός. ἀλλά τι προσφέρομεν ἔμπαν ἢ μέγαν
νόον ἤτοι φύσιν ἀθανάτοις,
καίπερ ἐφαμερίαν οὐκ εἰδότες οὐδὲ μετὰ νύκτας
ἄμμε πότμος

Homens, Deuses, uma só raça: respiramos
de uma só mãe; mas separa-nos absoluto 
distinto poder: enquanto um nada é, o outro
mantém sempre irresvalável sede, o brônzeo 
céu. Mas algo aproxima-nos dos imortais 
ou a grandiosa mente 
ou então nosso corpo
embora sem saber, efêmero e na noite
qual é nosso destino. 

(Tradução: Rafael Brunhara)


sábado, outubro 13, 2012

Píndaro: 1ºOde Olímpica - A Hierão de Siracusa, Vencedor na Corrida de Carros (Tradução de Jacyntho Lins Brandão)

Excelente a água, e o
ouro inflamado fogo
enquanto esplende
na noite, superior a soberba riqueza.
Se vitórias ressoar
desejas, meu coração,
não mires, além do sol,
de dia, outro mais quente
e brilhante astro, no
céu deserto,
nem disputa melhor que as de
Olímpia proclamaremos.
Daí o famoso hino se ornamenta
com o engenho dos sábios, para celebrar
o filho de Crono vindos ao opulento
e feliz lar de Hierão,


que detém o justo
cetro na frutífera
Sicília, colhendo
o ápice de todas as virtudes.
E gloria-se também
com as primícias dos cantos
com que nos recreamos,
varões amiúde em torno da mesa amiga.
Mas a dória li-
ra do gancho
toma! Se, em algo, de Pisa
e de Ferênico a graça
subjugou-te o intelecto com dulcíssimas reflexões,
quando, junto do Alfeu, lançou o corpo,
não esporeado, no estádio apresentando-se,
e à vitória uniu seu dono,


de Siracusa o cavalei-
ro rei. Brilha-lhe a glória
na insigne co-
lônia do lídio Pelops.
Dele o poderoso sa-
cudidor da terra enamorou-se,
Posseidon, desde que a ele, da pura ba-
cia, retirou Cloto,
com marfim a brilhante espádua adornada.
Ah! muitas as maravilhas. E
talvez dos mortais
a fala ultrapasse o verdadeiro discurso:
entrelaçados com mentiras coloridas
enganam os mitos.


A Graça, que tudo cons-
trói de doce para os mortais,
trazendo hon-
ra, também o incrível maquina crível
ser muitas vezes.
Mas os dias vindouros
testemunhas sapientíssimas.
É ao varão conveniente dizer,
sobre deuses, belezas: me-
nor pois a culpa.
Filho de Tântalo! de ti, ao contrá-
rio dos predecessores, falarei:
quando convidou teu pai para a corretíssima
festa e para a amável Sípilo,
em retribuição aos deuses banquete oferecendo,
então o de brilhante tridente raptou-te,


domado no âmago pelo desejo,
e em áureos cavalos
para a altíssima mora-
da do honradíssimo Zeus te transportou.
Para aí, em tempo posterior,
foi também Ganimedes
com Zeus, para a mesma finalidade.
Como desaparecido estavas, nem
à mãe, procurando muito,
pessoa te trouxesse,
contou logo em segredo
algum dos invejosos vizinhos
que, em água, em fogo fervendo no máximo,
com faca te deceparam membro a membro
e à mesa, por fim, as carnes
tuas repartiram e comeram.


A mim impossível gulo-
so um bem-aventurado dizer. Abstenho-me.
Danos cabem amiúde aos caluniadores.
E se de fato algum varão
mortal os guardiães do Olimpo
honraram, este era Tântalo. Mas
então digerir
a grande ventura não pô-
de. Pela insolência recebeu
pena prepotente. Por sobre
ele o pai sus-
pendeu pesada pedra, sobre ele próprio,
a qual sempre desejando da cabeça afastar
distancia-se da alegria.


E leva esta vida sem
remédio, tortura incessante,
com três, quar-
to suplício, porque dos imortais roubando,
para os convivas da mesma idade,
néctar e ambrosia
deu, com que imperecível
o fizeram. E se a deus algum varão
espera ocultar o que
faz, erra.
Por isso devolveram seu filho
os imortais de volta,
para a efêmera raça dos varões, de novo.
Na flor da idade, quando
penugens o negro queixo lhe cobriam,
projetou o casamento preparado


em Pisa: junto do pai a i-
lustre Hipodâmia
obter. Perto che-
gando do branco mar, sozinho na escuridão,
invocou o tonitroante
Tridentino. E este a ele
bem junto dos pés apareceu.
A ele disse: "Dons amáveis
da Cípria trago. Se algo, Posei-
don, em graça
lhe cai, imobiliza a lança
brônzea de Enômao,
e a mim, sobre o mais veloz dos carros, transporta
à Élida, e à vitória conduz.
Após três e mais dez varões ter matado,
pretendentes, difere o casamento

da filha. O grande pe-
rigo débil homem não toma.
Mas morrer para eles inevitá-
vel. Por que alguém, anônima
velhice na sombra le-
vando, se consumiria em vão,
de todo belo privado? Mas para mim
é que esta disputa
será proposta. Tu o resulta-
do querido dá."
Assim falou; não em
vão aplicou-se
às palavras. A ele honrando, o deus
deu um carro áureo e ala-
dos infatigáveis cavalos.


Conquistou o forte Enômao
e a virgem por esposa.
Gerou príncipes
seis filhos zelosos das virtudes.
E agora com cruentas libações
magníficas está envolto
perto do Alfeu jazendo,
em túmulo freqüentado jun-
to do mais visitado, pelos estrangeiros, dos alta-
res. E a glória
de longe brilha das O-
limpíadas, no estádio
de Pelops, onde a velocidade dos pés se disputa
e o ápice da força persistente.
O vencedor, pelo resto da vida,
tem doce serenidade


por causa das vitórias. A sem-
pre diária excelência
suprema vem
para todos os mortais. Eu coroar
aquele com eqüestre modo,
em eólio canto,
é preciso. Mas sei um estrangeiro
por igual do belo
conhecedor e também em força
mais poderoso
dentre os de agora não haverem de ador-
nar com as gloriosas pregas dos hinos.
Um deus que é protetor com tuas coisas preocupa-se,
tendo este cuidado, Hierão,
com tuas inquietações. E se logo não te deixa,
ainda mais doce esperaria,


com o carro veloz, glo-
riar-te, achando corrente via de discurso,
indo junto da lumi-
nosa colina de Cronos. A mim pois
a Musa valorosíssi-
ma flecha, em auxílio, provê:
para uns, outros grandes - o su-
premo eleva-se
para reis. Jamais in-
vestigues além.
E a ti o cimo nes-
te tempo calcar,
e a mim assim com vencedores
estar, famoso pela sabedoria entre os he-
lenos sendo em tudo.


Fonte: http://web.archive.org/web/20091027010736/http://br.geocities.com/bibliotecaclassica/textos/pindaro.htm

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Píndaro - Fragmentos

Hiporquemas

Fragmento 108

Quando um Deus aponta o início
de cada ação, reto então é
o caminho para obter virtude,
mais belo é o fim.

Fragmento 142

Um Deus é capaz de evocar
da negra noite a imaculada luz
E em sombria turva nuvem
ocultar o puro esplendor
do dia.


Fragmentos Incertos

Fragmento 150

Dá teu augúrio, Musa! Serei teu profeta.

Fragmento 159

De homens justos o tempo é o salvador supremo.

[Tradução Rafael Brunhara]

quinta-feira, agosto 27, 2009

Píndaro, 8º Pítica, 135- 137

Por dia, que é quem e que ninguém? Sonho de sombra
o homem, mas quando claridade por Zeus dada vem
límpido brilho há nos homens e doce é a vida.

Tradução: Jaa Torrano.

Fonte: TORRANO, J. O Sentido de Zeus. São Paulo: Iluminuras. 1996.

sábado, dezembro 27, 2008

Píndaro - 2º Olímpica

Hinos, que a lira comandais! Que herói, que nume
Ou que varão celebraremos hoje? É Zeus,
Que reina em Pisa, e Hércules, que fez de Olímpia
o berço das competições, e também Térão,
Térão, primeiro na quadriga, de Agrigento,
Bravo, sensato campeão que honrou as almas

Daqueles ancestrais que após esforço ingente
Junto do rio uma cidade santa ergueram, foram
Sêmen da Sicília, e os protegeu destino
Aventurado,e em prol da raça e da virtude
Que tiveram, honra e ouro receberam!
Ó Crônio filho de Réia, alma dos torneios
De Olímpia e rio Alfeu, atento a esses cantares,
A cara pátria tu preserves aos que são
Seus descendentes, e do que já passou,
O fim das coisas, mal ou bem, não pode o Tempo
(É pai de tudo)invalidar, no esquecimento.
Contudo, a boa sina vai nascer pra nós,
E o nobre canto mata a dor que quer se alçar,

Quando a Moira do deus manda o bem, qual se deu
Com Cadmo e suas filhas tão sofridas,
Para quem todo mal veio a acabar-se um dia.
Morreu Semele de cabelos longos sob o divo
Raio, e entre as divinais viveu depois,já bem
Tratada por Atena, Zeus e pelo deus
Da parra, Dioniso,diz-se também
Que entre as Ninfas do oceano Ino tem
Vida piedosa, abençoada! Mal conhecem
Os varões o fim de sua carreira,
E nem se vão viver num dia estrito
O sol de uma ventura inigualável:
Por essas ondas onde a vida gira
No bem ou na tristeza erramos sempre.

Olhai a raça de um tal Térão: com mirífico
Destino a Graça aquinhoou seus ancestrais.
Desde que Laio, entanto, foi morrer às mãos
De um filho seu, virou horror o que era belo,
Apolo o quis assim, e assim bem se cumpriu.
Depois, a lâmina do olhar de Erínia fez
Se engalfinharem os dois filhos do rei Édipo,
Um, Polinice, ao perecer, deixou
O filho seu Tersandro, ilustre em juvenis
Competições, rebento derradeiro que susteve
A casa dos Adrástidas, de onde veio
A plêiade de heróis que nesta hora eu canto.

Do sangue desses todos veio Enesidemo,
A quem ora tributo o preito da poesia
E os sons da lira, após vencer jogos de Olímpia,
Enquanto aos dois irmãos cederam todas Graças
Lindo laurel de Delfos e dos jogos do Istmo,
Pois doze voltas deu em glória a sua quadriga.
E o amor da glória sempre vence a todo medo.
Quando a riqueza se coroa coa virtude,
A tudo enfim se enfrenta pois inspira ardor
Impetuoso e vivo a febre de vencer,
Astro flamante e labareda para os vivos!
Ouro e virtude quem possui sabe o vindouro.
Sabe também que as almas dos culpados são
Punidas, ao findarem esta vida, se hão
A Zeus muito ofendido, e têm seu júri no Hades,
E o duro tribunal enfim se pronuncia.

Os bons enxergam claros sóis em plena noite,
Como se dia fosse, e, livres da labuta,
Não se escalavram mãos e braços no lavrar
Da terra, ou de salgado mar, em rude cata
Aos alimentos, mas - ao revés - o que respeita
Aos mandamentos sempre vive sem chorar,
Por eleição de Zeus, enquanto que os perjuros
A presa vêm a ser de insanas aflições.
E três encarnações, após terem vivido,
Ou seja noutro mundo ou neste, e hajam assim
a força de viverem longe da injustiça,
Então vão percorrer de Zeus a bela estrada
E de Saturno, e à ilha recebidos são
De todos Bem-Aventurados, que das auras
Do mar se toucam, onde raiam flores de ouro,
As terrestres nas árvores, e ao seio de ondas,
Outras, todas se entrelaçando qual grinaldas,
Onde o frontal e os braços não se apartam mais.

Tais são as justas regiões de Radamanto,
A quem a honra de um assento cedeu Crono,
Pai dos divinos, cônjuge de Réia, que há
Sua sede acima de imortais, lá onde moram
Peleu e Cadmo e Aquileu, e este por Tétis
Conduzido, cujas preces hão dobrado a Zeus.
Aquiles, que abateu Heitor, bastião de Tróia,
Que não apenas Cicno leva à tumba, mas
Também ao filho etíope da Aurora, Mêmnon.
Tenho na minha espalda a aljava com as setas
Que têm a voz para quem possa compreender,
Se bem que o vulgo exige sempre explicações.
Talento tem o homem que por natureza
Sabe o que sabe, pois quem sabe pelo estudo
É qual voral abutre em vão berrando contra
O divo pássaro de Zeus! Ora, minha'alma,
Pega o teu arco e vai ao ponto. E aonde a Musa
Minha suas setas vai jogar, que rendem glória?
A Agrigento, certamente, e eu o direi
Por jura consumada que nenhuma urbe
Desde há cem anos produziu um tal varão
Que tenha um coração tão terno e devotado,
E a mão mais generosa que Térão, embora
A glória sua seja um alvo dos covardes.

Tradução de Antonio Medina Rodrigues

Fonte:Revista Cultura Vozes, Volume 91- nº2, ano 91. Petrópolis: Vozes. Março/Abril de 1997

quinta-feira, outubro 30, 2008

Píndaro - "O Sonho de uma Sombra" (8º pítica, excerto)

A sorte dos mortais
cresce num só momento
e um só momento basta
para a lançar por terra,
quando o cruel destino
a venha sacudir.

Efêmeros! que somos?
que não somos? O homem
é o sonho de uma sombra.
Mas quando os deuses lançam
sobre ele a sua luz,
claro esplendor o envolve
e doce é então a vida.

Tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos

Tradução integral da 8ºpítica por Trajano Vieira

Píndaro - "Vim para celebrar"

Vim para celebrar os filhos
de pais sublimes e de mães tebanas,
quando, ao abrir-se a câmara das Horas
dos véus de púrpura,
a primavera perfumada nos concede
toda uma floração tão doce como o néctar.
Pela terra imortal brotam então
os meigos tufos das violetas,
e de rosas enfeitam-se os cabelos,
enquanto a voz das frautas se une à das canções
e os coros se erguem para Sêmele
de fronte ornada por um diadema.

Tradução: Péricles E.S. Ramos

Píndaro - "Elísio"

Enquanto aqui é noite,
o sol fulgura vigoroso para eles
no mundo subterrâneo;
e diante da cidade,
pelos campos de rosas carmesins,o incenso
derrama a sua sombra,
e os ramos vergam-se com frutos de ouro.
Uns se divertem com cavalos ou lutando,
enquanto jogam outros, ou a lira tocam,
e entre eles a felicidade é como a árvore
que já cresceu de todo e se acha em flor.
Por essa terra amável
um doce aroma sem cessar se espalha:
nos altares dos deuses eles mesclam
arômatos de toda espécie
ao fogo que de longe brilha.

Denso negror expelem no outro lado
os lentos rios da sombria noite.


Tradução: Péricles E.S. Ramos

quinta-feira, outubro 23, 2008

Píndaro - "De Uma Só Raça"

De uma só raça, apenas uma,
nós somos, deuses e homens:
de uma só mãe tiramos nosso alento.
Separa-nos, porém,
o desigual poder: o homem é nada,
mas para os deuses
morada para sempre inabalável
é o céu de brônzeo piso.

Pela forma corpórea, ou no vigor do espírito,
somos no entanto como os imortais,
embora não saibamos onde,
no meio de que dias ou que noites,
o Destino escreveu que deveremos
findar nossa carreira.

Tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos

segunda-feira, outubro 06, 2008

Píndaro - III Pítica (excerto)

Melhor é desejar do céu
coisas que assentem a um espiríto mortal,
sabendo o que se encontra a nossos pés,
e qual a sorte para que nascemos.

Ó minh'alma, não aspires
a uma existência de imortal,
mas goza plenamente
tudo o que esteja ao teu alcance.

Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos

sexta-feira, março 28, 2008

Píndaro - Primeira Ode Pítica

Khryséa phórmincs

Lira de ouro, bem comum
de Apolo e das Musas de trança violeta:
os passos de dança, princípio de júbilo,
te escutam, os aedos
obedecem teu sinal
quando pulsas vibrada os primeiros compassos
dos prelúdios condutores de coros.
Consegues apagar o pontiagudo raio
de fogo semprefluente. Sobre o cetro de Zeus
adormece a águia,
que recolhe de um flanco e de outro suas asas rápidas,
rainha dos pássaros.
Toldas sua cabeça em gancho de uma névoa escura,
doce claustro das pálpebras; possuídas por teus sons
ela crispa no sono o dorso flexível.
E mesmo o violento Ares
rejeitando a rudeza das armas
arrefece o coração que dorme. Sábios,
teus dardos aplacam o íntimo da alma dos deuses
por arte do filho de Latona
e das Musas vestidas de dobras sinuosas.

Porém todos os que Zeus desamou
estremecem ouvindo o clamor
sonoro das Piérides
na terra ou no mar indomável.
Assim aos deuses adverso
Tífon o de cem-testas
jaz, no terrível Tártaro.
Nutriu-o outrora a cilícia
gruta polinome
e agora as escarpas que o mar rebatem
sobre Cumas
e a Sicília
esmagam-lhe o peito de saliente felpa.
O Etna, todo neve, nutriz dos gelos cortantes,
pilar do céu,
o detém.

Fontes de um fogo inacessível
puríssimas rebentam-lhe
da mais interna entranha.
E rios de dia vazam
abrasadas torrentes de fumaça.
E púrpura na treva
uma chama rolando
repulsa ao mar profundo
um tumulto de pedras.
O monstro ali está. Ele é quem jorra
os fachos de Hefesto, aterradores.
Prodígio de se ver. Prodígio ainda
senão de ver, de ouvir de quem já viu.
Assim no Etna entre o píncaro
(folhas negras) e o plaino
preso
ele jaz,
numa cama de pontas
descarnando as costas contrapostas.
Dá-nos, Zeus, a graça de agradarmos
a ti, dominador dessa montanha
fronte e frente de uma terra fértil:
a cidade vizinha um fundador ilustre
ilustrou-a em seu nome
e o arauto o proclamou na arena pítica
celebrando Híeron na corrida de carros
belo de vitória.
Ao navegante principiando a viagem
primeiro prêmio é um vento favorável
que ao cabo prenuncia um propício retorno.
Pensar no que passou promete a esta cidade
por igual um porvir glorioso de corcéis
e coroas de festa
e um nome renomeado em canoros triunfos.
Dono de Lícia e Delos, Febo,
amador da castália fonte do Parnaso,
que este augúrio te agrade e faças desta terra
um solo fértil de heróis.

Da máquina dos deuses
procedem as virtudes dos mortais:
ciência, vigor dos pulsos, fala fácil, tudo
eles engendram.
Meditando o louvor deste herói,
espero não lançar fora da liça
o dardo de brônzeo topo suspenso em minha mão,
mas no extenso arremesso ultrapassar os meus contrários.
Que o restante do tempo lhe promova
um próspero porvir, o pleno dom dos bens
e o olvido das penas.
Ele há de rever-se nas batalhas
- coração de coragem - resistindo,
e pela mão dos deuses vencedor.
Heleno algum colheu igual seara,
orgulhosa coroa de conquistas.
Agora segue o exemplo a Filoctetes
quando se lança à luta. No nó do necessário,
mesmo o soberbo suplica o seu favor.

Quase-deuses heróis (dizem) a Lemnos
vieram e levaram o filho de Póias,
o arqueiro, que uma chaga afligia.
E ele destruiu a cidade de Príamo,
pôs um fim aos trabalhos dos Dânaos:
o destino movia-lhe os membros malseguros.
Assim a divindade
dirija reto Híeron
pelos dias que avançam passo lento,
sempre a tempo lhe dando o que mais queira.
Atende, Musa, e junto a Dinomedes
vem celebrar a esplêndida quadriga
no prêmio de vitória.
Que não se alheia o filho ao júbilo paterno.
Vem, inventa comigo
um canto caro ao soberano de Etna.

Para ele Híeron fundou esta cidade
seguindo à risca os preceitos de Hilos,
com liberdade, divino edifício.
Dorianos,
os descendentes de Pânfilo,
e também os da estirpe de Hércules,
que habitam junto às penhas do Taígeto,
querem preservar perenes os princípios de Egímios.
Levantando-se do Pindo,
afortunados tomaram Amiclas,
agora - profundos de glória -
vizinhos dos Tindáridas de cavalos brancos.
E floresceu a fama da ponta de suas lanças!
Zeus,
perfazedor!
Junto às águas do Amenas,
que a palavra dos homens para sempre assegure
aos cidadãos e aos reis um tão nobre destino.
Com teu respaldo o príncipe
seguido pelo filho
na honra dirija o povo para a concorde paz.
Filho de Cronos,
eu te peço um aceno de cabeça:
aprova que o Fenício se aplaque em sua morada,
contém o alarido de guerra do Tírseno,
Lamentando navios por seu desplante,
eles revêem o infortúnio de Cumas.
Que revés!
Do alto dos navios de proa rápida,
seus jovens eram jogados ao mar,
domados pelo senhor de Siracusa
que redimia Hélade da servidão mais dura.
Meu salário será por Salamina
a glória dos Atenienses;
em Esparta cantarei a batalha de Citéron,
derrota para os Medas de arcos recurvos;
mas à margem do Hímera de águas copiosas
cumpro meu hino aos filhos de Dinomedes,
prêmio por seu valor
quando bateram o inimigo.

Se falas o justo no momento justo
e tens as cordas do muito retensas na curva do breve,
a censura dos homens pouco te persegue.
O tédio saciado embota a ávida espera.
No ouvido de cada um,
no coração calado,
pesa a demasia da ventura alheia.
Preferível porém o ciúme à compaixão:
por isso não te detenhas no curso do que é belo.
Preciso no leme, governa o povo,
forjando na bigorna da verdade uma linguagem de bronze.
Uma frívola faísca de nada
avulta, vinda de ti.
Árbitro de muitos, muitos,
- no bem ou no mal -
atestam fiéis os teus atos.

Guarda em beleza a flor do teu caráter.
Se amas sempre ouvir o que é doce de ouvir
não te canses de ser generoso:
como o bom piloto, livra a vela ao vento.
Amigo, não te iluda a isca do lucro fácil.
Aos oradores e poetas
somente o renome além-morte ressoando
revela os fatos dos que foram.
Cresus, alma aberta, não perece.
Mas Fálaris, coração cruel,
torrava suas vítimas no búfalo de cobre;
por toda a parte o ódio cerca sua memória.
Nenhuma lira sob os telhados
nenhuma o recorda,
para o suave acorde das vozes de crianças.
Primeiro bem: boa fortuna.
Segundo: bom nome.
O homem que a ambos recolhe,
colhe a suprema guirlanda.

Haroldo de Campos

quinta-feira, março 20, 2008

Píndaro - 8º Pítica

Para Aristómenes de Egina, vencedor na luta.

Serenidade, filha benévola da Justiça,
fonte da opulência urbana,
dona das chaves ilustres
em conselhos e guerras:
acolhe meu canto a Aristómenes,
vitorioso pítico.
Sabes o momento justo de propiciar o júbilo
e de prová-lo.

Mas quando alguém introduz no coração
o fel do rancor,
reages ríspida ao inimigo,
afogando a insolência no oceano turvo.
Porfírio provocou-te inadvertidamente,
cego à partilha do destino.
Quem traz da casa amiga o lucro consentido,
conquista prêmio ímpar.

Com o tempo, a violência arruína o arrogante.
Não soube evitá-la Tífon, centicéfalo cilício,
nem o rei dos gigantes;
abateu-os o raio e as flechas de Apolo,
alegre ao ver chegar de Cirra
o filho coroado de Xenarco,
folhas do Parnaso e pompa dórica.

A ilha
- cidade justa -
ganhou as cercanias das Graças,
conheceu a ilustre virtude eácida.
Desde sempre sua fama se perfaz.
Poemas repetem elogios ao berço
de seus heróis,
laureados em lutas esportivas,
conclusivos em rixas bélicas.

Entre cidadãos ela também fulgura.
Carente de ócio,
não levo a longa parlenda às cordas da lira,
nem às vozes sutis,
pois o tédio irrita os ouvintes.
Zeloso de meu débito,
o contexto preme:
teu feito mais recente, rapaz,
sobrevoe nas asas do meu engenho.

Na trilha de teus tios,
honras a glória de Teogneto, prêmio em Olímpia,
e a vitória de um corpo audaz, Clitômaco, no
Istmo.
Agigantas a família Midílida,
cumpres o dizer do filho de Ecleu,
palavras enigmáticas proferidas
quando viu na Tebas de sete portas
os filhos, ansiosos de lança.

Os Epígonos refaziam a campanha argiva.
O Ecleida pronunciou em plena guerra:
“É um feito da natura
o afã paterno brilhar nos filhos.
Vejo nítido Alcméon,
agitando o dragão cintilante
sobre o escudo rútilo,
destaque nos portais de Cadmo.

A ave de bom agouro surpreende agora Adrasto,
herói provado na expedição precedente.
Mas o revés dominará seu lar.
Na tropa dos dânaos,
só ele recolhe os ossos do filho morto.
Deuses decidem seu ingresso
pelas ruas largas de Abas,
com uma única baixa no exército.”

Calou Anfiarau.
Com igual enlevo,
guirlandas e a úmida aragem hínica
recubram Alcméon,
vizinho guardião dos meus haveres:
veio até mim
quando me dirigia ao ônfalo ínclito
- coração da terra -
e colocou-me no rol das profecias,
inatas à sua família.

Flechicerteiro,
senhor do templo ilustre,
abrigo nos vales de Pito,
cumulas de júbilo Aristómenes;
sua casa recebeu anteriormente
o prêmio almejado do pentatlo,
no âmbito de vossa festa:
dádiva tua.

Declina o olhar, Apolo,
acolhe o que traduzo em harmonia.
Dike preside a dança e o doce ritmo.
Aos deuses rogo eterno apuro
por vosso futuro, Xenarques.
Alguém atinge o píncaro sem muita fadiga
e a maioria então cogita:
é um sábio que, entre tolos,

nutre a vida com retos alvitres.
Mas isso foge à alçada humana;
um deus decide: ergue um,
sob o peso das mãos, derruba outro;
participa da porfia na medida.
Ganhaste em Mégara e nos campos de Maratona;
nos jogos de Juno, três vezes
vigorou tua força, Aristómenes.

Negros pensamentos,
encaraste quatro corpos caídos;
por anseio de Pito,
amargaram regresso contrário ao teu.
Nem o riso materno suscita regozijo
a seu redor.
Encolhidos nos becos, feridos pelo azar,
os batidos evitam desafetos.

Mas quem logra o novo louro,
pleno
alça o vôo da esperança
nas asas de seu feito.
Não cabe na riqueza a ambição do vencedor.
O prazer humano surge num átimo
e no mesmo hiato declina,
sob o sismo do querer adverso.

Criatura fugaz:
o que é alguém?
O que é ninguém?
Sonho de uma sombra: o homem.
Porém, quando o brilho divino desce,
sobreverbera a luz,
e a vida é doce.

Egina, mãe querida,
protege o livre curso da cidade,
com Zeus, com o rei Éaco,
com Peleu, com Télamon, intrépido, e com Aquiles.


Tradução: Trajano Vieira

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Píndaro - 11ºOlímpica

Aos homens há por vezes de ventos mais que tudo
precisão. E de celestes águas,
chuvosas filhas da nuvem.
Mas se com esforço alguém bem se
fez, melissonantes hinos,
começo de longa fama,
se perfazem, fiel penhor
de ingentes gestas.
Sem inveja, aos que vencem em Olímpia
esta loa se consagra. E tal é pasto de minha língua,
mas vem de deus homem em sábios
dons florescer. Se é assim,
sabe agora, Hagesidamo,
filho de Arquéstrato, por tuas pugnas, que
ornato à coroa de áurea oliva
um canto farei soar doce,
cuidando na raça dos Locros Zefírios. Tomai
parte, Musas, nesta festa, que garanto:
até vós ao encontro um povo
não virá hostil ao hóspede
nem avesso ao belo, mas
de agudo saber e lutar. Congênito,
rubra raposa e rugientes leões não vão permudar caráter.


[Tradução: João Angelo Oliva Neto]

domingo, dezembro 16, 2007

Píndaro - 1º Ode olímpica

Água é o melhor de tudo: o ouro incandescente
À noite brilha no exceder-se da riqueza.
Se os prélios, ó minh'alma, anseias celebrar,
Brilhante, mais que o sol, tu nada encontrarás,
Quando no céu se queima, encastelado, o dia.
Melhores prélios que os olímpios tu não cantas!
De lá desatam-se mil vozes,
A incitar o gênio dos artistas,
Para gáudio de Zeus, filho de Crono,alçando-se
Dos ricos tetos do herói Hierão,
Que na Sicília, prenhe de manadas, tem

Um cetro e colhe da virtude a fina essência,
E a si cultiva com deslumbres musicais,
Com que em sua mesa nós também somos honrados!
A dória lira enceta, se de Ferenico,
Em Pisa, o trote belo te empolgou,
Quando às margens do Alfeu,
Num solavanco, sem espora e sem chicote,
A seu senhor nessa carreira deu a taça.

Do cavaleiro rei de Siracusa, a glória
Rebrilha na colônia dos heróis, fundada
Por Pélops, a quem o Abala-terra amou,
Posídon, desde que viu Cloto retirá-lo
À mágica bacia, co'as espaldas lúcidas,
Ornato de marfim. Espanto há neste mundo,
Onde a saga dos homens se deturpa sempre,
E as narrativas mentirosas,
mesmo buriladas, sempre desanimam.

Ilude sempre o mel da graça o pensamento
Aos que estão vivos, o que é falso vira ser,
Veraz e costumeiro: só em vindouros dias
Os testemunhos confiáveis nos teremos.
Só coisas belas é veraz falar dos deuses,
Que assim menor vai ser a nossa culpa! Ó filho
De Tântalo, de ti, contra os antigos, vou
Falar: quando teu pai os deuses convidou
Para um banquete no alto da montanha, em Sípilo,
O lúcido senhor do garfo de três pontas
Te enlevou alucinado de desejo em seus
Corcéis de ouro para Zeus de amados paços,
Como depois também viria Ganimedes
Para honrar Zeus, e foi por isso que sumiste!
Contudo, à tua mãe, de mãos vazias voltam
Os que a buscar-te ela mandara, e então falaz
Vizinho por inveja diz que em flama ardente
E n'água borbulhante os membros co'uma faca
Te cortaram para seres pasto no banquete.

É impossível chamar-se um deus de canibal!
Eu me recuso! A impunidade não compensa
Esta calúnia.Ora, se alguém no Olimpo honrado
um dia foi, ninguém o foi melhor que Tântalo.
Mas conviver ele não soube com a glória.
A ganância foi levá-lo para a suma desventura,
Pois uma pedra Zeus lhe pôs sobre a cabeça,
Que ele tem sempre que afastar, pra sua inglória.

E a vida sob tal desgraça lhe foi dura,
Após o néctar ter roubado aos imortais,
E mais a ambrósia que confere a eterna vida,
E tê-los aos convivas dado num banquete.
Erra quem pensa se ocultar de um deus,
Ao praticar um mal. Por isso os deuses
O filho dele despediram para o mundo
Dos mortais, e quando em flor ao queixo
Lhe cobriu penugem negra, ele cuidou

Em Pisa se casar com Hipodâmia bela,
No escuro, vindo só, e o mar acinzentado,
E a Posídon-dos-Ruídos-Retumbantes invocou,
E o deus de pé lhe apareceu, e o herói
Lhe disse: "Se os dons de Vênus terna têm
Encanto, ó Posídon, a espada de Oinomao
Tu paralisa, e a mim me leva a Élis
No mais rápido corcel que tu tiveres,
Porque tal pai matou os treze que sua filha
Desejaram desposar, e assim vai retardando
Um casamento, mas um risco não arrasta
A um homem sem valor. Por que me iria consumir
Em vil velhice, à sombra recostado, em vão,
E sem provar da formosura? O prêmio eu tenho
À minha frente, a tua ajuda não me negues".
E as palavras que ele usou não foram vãs.
O deus lhe deu para ajudá-lo um áureo carro
Com corcéis que, alados, não se cansam nunca.

Com tal donzela ele casou, pois superou
Ao bravo pai, e dela teve filhos ínclitos,
Ao todo seis, a conduzir nações, e ao túmulo
Deitado junto ao rio Alfeu, exposto jaz
Pras santas libações, perto do altar que mais
Recebe visitantes, e alta brilha assim a glória
De Pelops nas disputas Olimpiais,
Seja no curso ou força bruta, e goza
O vencedor sua glória toda a vida, doce
Como a colmeia, cumulado de regalos,
Pois os dons que não se perdem são para sempre.
A mim compete coroar então ao grão patrono,
Ou quer na lira eólia ou síncope dos trotes,
Pois nunca irão louvar os hinos meus alguém
Que mais adoração demonstre ao grandioso
E ao belo como tu, Hierão, que um deus sempre te siga!
Mais doce a mim será te celebrar em teu triunfo,
Quando um carro vais de Cronos à colina,
Buscar razões mais dignas de encômios,
E as setas mais potentes guarda para mim
A musa, maiores umas do que as outras,
Porque são dos reis! Ao longe não me olhes,
Olhar ao céu é o que te cabe,
E a mim juntar-me aos vencedores,
E espalhar por Grécia toda a flama dos meus versos.


[Tradução: Antônio Medina Rodrigues]