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sexta-feira, outubro 27, 2023

35 Proêmios da Eneida e mais um pouco (por Beethoven Alvarez)

 Beethoven Alvarez (UFF)

 

Fuga di Enea da Troia. Frederico Barocci. 1598

Tento aqui reunir a mais completa possível coleção de traduções para o português do proêmio da Eneida de Virgílio, ou seja, dos versos 1-11 em que se encontram a proposição temática e invocação às musas. Primeiro, faço uma coletânea de informações sobre as traduções disponíveis na forma de uma lista (as integrais em verso, as integrais em prosa e depois as avulsas que incluem os versos iniciais) e, em seguida, apresento a transcrição dos proêmios dessas traduções (que datam de 1638 a 2023). No final, acrescento notícias, trechos e imagens de adaptações variadas.

domingo, abril 28, 2019

O Epitáfio de Virgílio - Quatro traduções

Mantua me genuit, Calabri rapuere, tenet nunc
Parthenope; cecini pascua, rura, duces.

Mântua gerou-me,Calábria arrebatou-me; Ora tem-me
 Nápoles; Cantei pastagens, campos, líderes.
[Trad. Rafael Brunhara]


De origem Mantuana, a Calábria me adotou,
sou Napolitano agora, quando a morte me tomou .
Cantei pastos, cantei campos, cantei o herói Troiano,
em um verso lapidar, o ARMA VIRUMQUE CANO.

[Trad. Milton Marques Jr.]


De nascença mantuano,
De querença calabrês,
Eu morri napolitano
E que deixo pra vocês:
Canto o campo, o camponês,
E as vitórias do troiano.

[Trad. Fábio Paifer Cairolli]


Mântua gerou-me,
Calábria arrebatou-me,
Ora tem-me Nápoles.
Cantei pampas, campanhas e caudilhos.
[Trad. Rafael Brunhara]

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Eneias se reconhece: Eneida, vv. 466-497/ Eneida Brasileira, vv. 484-522

A lagrimar parou: "Que sítio ou clima
Cheio, Acates, não é dos nossos males?
Eis Príamo! o louvor tem cá seus prêmios,
Dói mágoa alheia e sobrevive o pranto.
Coragem! que em teu bem conspira a fama.
Disse, e em vãos quadros se apascenta e as faces
Gemebundo umedece em largo arroio.
Vê de Pérgamo em cerco a hoste Graia
Do Frígio ardor fugir, fugir a Teucra
Do instante carro do emplumado Aquiles.
Ai! perto a Reso por traição a Tidides,
No primo sono, arrasa as níveas tendas,
Da carnagem cruento, e os acres brutos
Volve ao seu campo, sem gostado haverem
De Tróia os pastos nem bebido o Xanto.
Além, nu de armas, o infeliz Troílo,
Que arremeteu menino ao próprio Aquiles,
É dos corcéis tirado, e ressupino,
Mas tendo os loros, do vazio carro
Pende, e a cerviz no pó, de rojo a coma,
Virada a lança hostil na areia escreve.
Em cabelo, as Ilíades aflitas
Ao templo iam também da iníqua Palas,
O peplo humildes ofertando e os peitos
A punhadas ferindo: aversa a déia
Olhos no chão pregava. A Heitor Pelide
Arastara em três voltas ante os muros,
De ouro a peso vendia-lhe o cadáver.
Do imo um forte gemido arranca Enéias,
No olhar o espólio, o coche, o amigo exânime,
E a Príamo estendendo as mãos inermes.
A arrostar no conflito os Gregos chefes
A si se reconhece, e Eoas turmas
E as do negro Memnon coiraça e cota.
À testa de milhares de Amazonas
Com lunados broquéis, Pentesiléia
Arde furente, belicosa atando
Sob a despida mama um cinto de ouro,
E virgem com varões brigar se atreve.

Tradução de Odorico Mendes

Namque videbat, uti bellantes Pergama circum
hac fugerent Graii, premeret Troiana iuventus,
hac Phryges, instaret curru cristatus Achilles.
Nec procul hinc Rhesi niveis tentoria velis
adgnoscit lacrimans, primo quae prodita somno
Tydides multa vastabat caede cruentus,
ardentisque avertit equos in castra, prius quam
pabula gustassent Troiae Xanthumque bibissent.
Parte alia fugiens amissis Troilus armis,
infelix puer atque impar congressus Achilli,
fertur equis, curruque haeret resupinus inani,
lora tenens tamen; huic cervixque comaeque trahuntur
per terram, et versa pulvis inscribitur hasta.
Interea ad templum non aequae Palladis ibant
crinibus Iliades passis peplumque ferebant,
suppliciter tristes et tunsae pectora palmis;
diva solo fixos oculos aversa tenebat.
Ter circum Iliacos raptaverat Hectora muros,
exanimumque auro corpus vendebat Achilles.
Tum vero ingentem gemitum dat pectore ab imo,
ut spolia, ut currus, utque ipsum corpus amici,
tendentemque manus Priamum conspexit inermis.
Se quoque principibus permixtum adgnovit Achivis,
Eoasque acies et nigri Memnonis arma.
Ducit Amazonidum lunatis agmina peltis
Penthesilea furens, mediisque in milibus ardet,
aurea subnectens exsertae cingula mammae,
bellatrix, audetque viris concurrere virgo.

sábado, setembro 06, 2008

Virgílio - 4º Bucólica

Ó Musas da Sicília, cantemos coisas mais elevadas.
Os arbustos e humildes tamarindos não agradam a todos.
Se cantamos florestas, que sejam as florestas dignas do cônsul.
Já chegou a última época da profecia de Cumas:
surge novamente a grande ordem da totalidade dos séculos.
A Virgem já está de volta, voltam os reinos de Saturno,
uma nova geração é enviada do alto do céu.
Tu, casta Lucina, favorece o menino que nasceu há pouco;
por causa dele, a época de ferro desaparecerá
e a geração de ouro surgirá no mundo. Apolo é quem reina agora.
Sendo tu, ó Polião, sendo tu o cônsul, a glória desta idade avançará,
e os grandes meses começarão a correr, sendo tu o chefe.
Se permanecem alguns vestígios de nossos crimes,
serão apagados e libertarão a terra de um pavor eterno.
Ele receberá a vida dos deuses e verá os heróis
misturados às divindades; ele próprio será visto entre elas
e regerá com as virtudes paternas o universo pacificado.
E para ti, criança, a terra produzirá, sem cultura alguma,
pequenos presentes: heras que vicejam aqui e ali como nardos,
colocásias misturadas ao alegre acanto.
As próprias cabrinhas trarão de volta ao lar os úberes retesados
de leite, e os rebanhos não temerão os grandes leões.
Os próprios berços produzirão para ti mimosas flores.
A serpente morrerá, e morrerá a erva enganadora do veneno;
O amomo assírio nascerá em toda parte.
E assim que puderes ler os louvores dos heróis
e os feitos de teus ancestrais, e saber o que é o valor,
aos poucos, o campo amarelará com espigas maduras,
as uvas vermelhas penderão dos espinhais incultos
e os rudes carvalhos destilarão úmidos méis.
Sobrarão, entretanto, alguns vestígios da maldade antiga,
capazes de ordenar que se afronte Tétis, com navios,
que se circundem as cidades com muros, que se abram sulcos na terra.
Haverá então outros Tífis e outra Argo que transportará
heróis escolhidos; e haverá também outras guerras
e mais uma vez um grande Aquiles será enviado a Tróia.
E então, quando a juventude já te tiver tornado um homem,
não só o comandante deixará o mar como também o pinho náutico
não mercadejará; a terra toda produzirá de tudo.
O solo não precisará suportar arados, nem as vinhas, foices;
e o labrador robusto desprenderá os jugos do touro;
a lã não aprenderá a imitar cores diversas:
o próprio carneiro, no prado, transformará seu velo
em púrpura vermelha ou em dourado açafrão;
o escarlate, espontaneamente, vestirá os cordeiros que pastam.
"Correi, séculos tais", disseram a seus fusos
as Parcas concordes com imutável desejo dos fados.
Ergue-te para as grandes honrarias - pois o tempo chegará -,
rebento querido dos Deuses, prole grandiosa de Júpiter.
Observa o universo oscilante em sua massa convexa,
as terras, as extensões do mar e o céu profundo.
Observa como tudo se alegra com o século que está por vir.
Que para mim se estenda a última parte de uma longa vida
e que o alento me seja suficiente para cantar teus feitos.
O trácio Orfeu não me venceria com suas canções
e Lino também não, embora a mãe assista àquele e o pai a este:
Calíope, a Orfeu; o formoso Apolo, a Lino.
Até mesmo Pã, se disputasse comigo, sendo a Arcádia o juiz,
até mesmo Pã, sendo a Arcádia o juiz, se declararia vencido.
Começa, pequena criança, a reconhecer tua mãe pelo sorriso
(os dez meses trouxeram longos incômodos a tua mãe);
começa, pequena criança: aquele a quem os pais não sorriram,
os Deuses não o consideram digno de sua mesa nem as Deusas de seu leito.


Tradução: Zélia de Almeida Cardoso ( NOVAK, M.L.& NERI, M.L.(org.) Poesia Lírica Latina. São Paulo: Martins Fontes. 2003)

sexta-feira, maio 11, 2007

Épica

"A ira, Deusa, celebra do Peleio Aquiles,
o irado desvario, que aos Aqueus tantas penas
trouxe, e incontáveis almas arrojou no Hades
de valentes, de heróis, espólio para os cães,
pasto de aves rapaces: fez-se a lei de Zeus;
desde que primeiro a discórdia apartou
o Atreide, chefe de homens, e o divino Aquiles."
(Ilíada, I, vv.1-7, tradução de Haroldo de Campos).

"Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso que muito
peregrinou, dês que esfez as muralhas sagradas de Tróia;
muitas cidades dos homens viajou, conheceu seus costumes,
como no mar padeceu sofrimentos inúmeros na alma,
para que a vida salvasse e a de seus companheiros a volta."
(Odisséia, vv.1-5, tradução de Carlos Alberto Nunes)

Armas canto, e o varão que, lá de Tróia
Prófugo, à Itália e de Lavino às praias
Trouxe-o primeiro o fado. Em mar e em terra
Muito o agitou violenta mão suprema,
E o lembrado rancor da seva Juno;
Muito em guerras sofreu, na Ausônia quando
Funda a cidade e lhe introduz os deuses:
Donde a nação latina e albanos padres,
E os muros vêm da sublimada Roma.
Musa, as causas me aponta, o ofenso nume,
Ou por que mágoa a soberana deia
Compeliu na piedade o herói famoso
A lances tais passar, volver tais casos.
(Eneida I, vv.1-15, Trad. de Manuel Odorico Mendes).

As armas e os barões assinalados
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana
E entre gente remota edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram;

E também às memórias gloriosas
Daqueles reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando
- Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram,
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Netuno e Marte obedeceram;
Cesse tudo que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
(Os Lusíadas I, vv.1-24)

Eneida I, vv. 1 - 15

Eu, que entoava na delgada avena
Rudes canções, e egresso das florestas,
Fiz que as vizinhas lavras contentassem
a avidez do colono, empresa grata
Aos aldeões; de Marte ora as horríveis
Armas canto, e o varão que, lá de Tróia
Prófugo, à Itália e de Lavino às praias
Trouxe-o primeiro o fado. Em mar e em terra
Muito o agitou violenta mão suprema,
E o lembrado rancor da seva Juno;
Muito em guerras sofreu, na Ausônia quando
Funda a cidade e lhe introduz os deuses:
Donde a nação latina e albanos padres,
E os muros vêm da sublimada Roma.
Musa, as causas me aponta, o ofenso nume,
Ou por que mágoa a soberana deia
Compeliu na piedade o herói famoso
A lances tais passar, volver tais casos.