domingo, dezembro 31, 2023

Será que 80 vai dar pé pra mim? (Chacal)

 q vou andar de disco voador

q terei o metal infernal afinal

q reencontrarei os seres do meu planeta de origem

q vou ter um automóvel

q fará ninho em mim uma paixão terrível

q publicarei um livro com letras iluminadas para se ler no escuro

o futuro esse mistério 


Chacal, Olhos Vermelhos, 1979

Soneto Profético - Antonio Carlos Secchin


A bola de cristal é opaca e preta,
Nela pouco se vê ou se pressente,
Porém por meio de ardilosa greta
Consigo entrada, sorrateiramente.
Antevejo um plantio da semente
Incapaz de dar paz a este planeta,
Pois você, o jasmim e a violeta
Florescem contra mim feito serpente.
Enxergo nada além desse horizonte,
Onde ao escuro sucede o mais escuro.
O certo é não prever nenhuma ponte
Que possa me levar ao seu futuro.
Na bola opaca eu leio, transtornado:
Seremos bem felizes no passado.

terça-feira, novembro 28, 2023

Esses poetas - Alcides Villaça

Esse tem um plano, e já se aplaude.

Esse arde em memória, lembra e sopra.

Esse quer ter saudade, abre e morde.

Esse tem mistério, solta e fecha.

Esse faz humor, diz que desdiz.

Esse tem traçados, pesos, balanças.

Esse faz versinhos, chuleia em casa.

Esse faz história, borda pra fora.

Esse é rapsodo, come de tudo.

Esse é noctívago, retoca olheiras.

Esse é sonâmbulo, vive em sacadas.

Esse é pintor, usa dedos de água.

Esse é diabético, requer penínsulas.

Esse é ingênuo, dá o braço a virgílio.

Esse é irônico, quase não confessa.

Esse é dramático, cospe a própria máscara.

Esse é profundo, nunca vem à tona.

Esse é tão casto, toca luvas na harpa.

Esse é sem norte, sem sul, sem sorte.

Esse é tão seco, ninguém tem saco.

Esse é tão sutil, dedilha anagramas.

Esse é tão ambíguo, versos tão bimembres.

Esse é tão puro, tão puro, tão puro. 


Alcides Villaça in: Ondas Curtas. São Paulo: Cosac&Naify, 2014. 

sábado, novembro 04, 2023

Giuseppe Ungaretti - "Sono una criatura" (3 traduções)


Valloncello di Cima Quattro il 5 agosto 1916 

Come questa pietra
del S. Michele
così fredda
così dura
così prosciugata
così refrattaria
così totalmente
disanimata

Come questa pietra
 è il mio pianto
che non si vede

La morte
si sconta
vivendo


Tradução de Jorge de Sena (1971)

 Como esta pedra
do S. Miguel
assim fria
assim dura
assim enxuta
assim refratária
assim totalmente
 desanimada

 como esta pedra
é o meu pranto
 que não se vê

 A morte
 desconta-se
 vivendo.

 Tradução de Haroldo de Campos (1998) 

 Como esta pedra
de São Miguel
tão fria
tão dura
tão ressecada
 tão refratária
 tão totalmente
 exânime

 Como esta pedra
é o meu pranto
que não se vê

A morte
desconta-se
 vivendo

 Traduçao de Geraldo Holanda Cavalcanti (2022)

Como esta pedra
de S. Michele
tão fria
tão dura
tão seca
tão indiferente 
tão completamente 
sem ânimo 

 Como esta pedra
 é meu pranto
que não se vê 

 A morte
se expia
vivendo 

 Fontes: 
CAMPOS, Haroldo de. "Haroldo de Campos transcria Ungaretti" in Revista USP 37 (Março-Maio 1998) 
CAVALCANTI, Geraldo Holanda (trad.) Giuseppe Ungaretti: poemas. São Paulo: Edusp, 2022.
SENA, Jorge de. Poesia do Século XX. Porto: Editorial Inova, 1971. 

terça-feira, outubro 31, 2023

Cecília Meireles - Epigrama nº 7

 A tua raça de aventura
quis ter a terra, o céu, o mar.

Na minha, há uma delícia obscura
em não querer, em não ganhar…

A tua raça quer partir,
guerrear, sofrer, vencer, voltar.

A minha, não quer ir nem vir.
A minha raça quer passar.

in: Viagem (1939)

Drummond: A Bruxa

Nesta cidade do Rio,
 de dois milhões de habitantes,
estou sozinho no quarto,
 estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído
 anunciou vida ao meu lado.
Certo não é vida humana,
mas é vida. E sinto a bruxa
presa na zona de luz.

De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto…
Precisava de um amigo,
 desses calados, distantes,
 que leem verso de Horácio
 mas secretamente influem
na vida, no amor, na carne.
 Estou só, não tenho amigo,
 e a essa hora tardia
 como procurar amigo?

E nem precisava tanto.
Precisava de mulher
que entrasse nesse minuto,
recebesse este carinho,
salvasse do aniquilamento
um minuto e um carinho loucos
que tenho para oferecer.

Em dois milhões de habitantes,
quantas mulheres prováveis
interrogam-se no espelho
medindo o tempo perdido
 até que venha a manhã
 trazer leite, jornal e calma.
 Porém a essa hora vazia
 como descobrir mulher?

Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
conheço vozes de bichos,
sei os beijos mais violentos,
viajei, briguei, aprendi.
Estou cercado de olhos,
de mãos, afetos, procuras.
Mas se tento comunicar-me
o que há é apenas a noite
 e uma espantosa solidão.

Companheiros, escutai-me!
Essa presença agitada
querendo romper a noite
não é simplesmente a bruxa.
É antes a confidência
exalando-se de um homem.

in: José [1942].Carlos Drummond de Andrade, Nova Reunião - 23 livros de Poesia. São Paulo: Companhhia das Letras, 2015. 

Drummond: Aparição Amorosa

 Doce fantasma, por que me visitas

como em outros tempos nossos corpos se visitavam?

Tua transparência roça-me a pele, convida

a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca

um beijo recebeu de rosto consumido.


Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,

mesma voz, mesmo timbre,

mesmas leves sílabas,

e aquele mesmo longo arquejo

em que te esvaías de prazer,

e nosso final descanso de camurça.


Então, convicto,

ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve

e continua existindo, puro som.

Aperto...o quê? A massa de ar em que te converteste

e beijo, beijo intensamente o nada.


Amado ser destruído, por que voltas

e és tão real assim ilusório?

Já nem distingo mais se és sombra

ou sombra sempre foste, e nossa história

invenção de livro soletrado

sob pestanas sonolentas.

Terei um dia conhecido

teu vero corpo como hoje o sei

de enlaçar o vapor como se enlaça

uma ideia platônica no espaço? 


O desejo perdura em ti que já não és,

querida ausente, a perseguir-me, suave?

Nunca pensei que os mortos 

o mesmo ardor tivessem de outros dias

e no-lo transmitissem com chupadas

de fogo aceso e gelo matizados.


Tua visita ardente me consola.

Tua visita ardente me desola.

Tua visita, apenas uma esmola. 


in: Farewell [1996] Carlos Drummond de Andrade, Nova Reunião - 23 livros de Poesia. São Paulo: Companhhia das Letras, 2015. 

A uma passante (Baudelaire) - Trad. Tina Muniz Nogueira


 Uivava em desordem a rua em meu entorno.

Alta e discreta, e em luto - a dor majestosa - ,

Uma moça passou, com sua mão pomposa

Solevando da veste a bainha e abanando o orno;


Ágil era, embora a perna um mármore muso.

Já eu bebia -- fito feito um vagabundo 

Em céu-olho seu, terra azulada do tornado --, 

Um doce fascinante e o falecer gostoso.


Que luz...e então, fez-se breu! Ó, beldade fugaz,

Com cujo olhar fez-me renascido de vez, 

Te verei apenas na eternidade e não mais?


Alhures, a léguas daqui - ou nunca, talvez!

Pois pouco sei onde fostes, e tu também, creio.

Ai, o meu amar-te -- cujo sabíeis, em teu seio! 


La rue assourdissante autour de moi hurlait. 
 Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse, 
 Une femme passa, d’une main fastueuse
 Soulevant, balançant le feston et l’ourlet ; ​

 Agile et noble, avec sa jambe de statue. 
 Moi, je buvais, crispé comme un extravagant, 
 Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan, 
 La douceur qui fascine et le plaisir qui tue. ​

 Un éclair … puis la nuit ! – Fugitive beauté 
 Dont le regard m’a fait soudainement renaître,
 Ne te verrai-je plus que dans l’éternité ?

 ​Ailleurs, bien loin d’ici! trop tard! jamais peut-être ! 
 Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais, 
 O toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais ! ​

domingo, outubro 29, 2023

Sobre a Medusa de Leonardo da Vinci numa Galeria Florentina (Shelley) - Tradução de Paulo Martins

A Medusa de Caravaggio (c.1597), que, diz-se, teria sido inspirada na homônima pintura perdida de Leonardo da Vinci. 

 Olhando para o céu da noite, jaz
Inerte sobre o gris topo dum monte,
Baixo vê-se distante terra trêmula.
Seu horror, seu encanto são divinos.
Sobre seus lábios e pálpebras jazem 
Beleza como a sombra donde brilham 
Quentes e cruéis, no fundo lutando,
As agonias da angústia e da morte.

Agora, menos horror do que graça
Que torna em pedra a alma do olhar;
Onde o delinear da face morta
Está gravado até que nela a forma 
Cresça e nada a mente possa trilhar;
é a música do encanto lançada
contra às trevas e ao esplendor da dor,
que humaniza e harmoniza a tensão.

De sua cabeça, como corpo único,
Brotam qual vergéis de úmida pedra, 
Víperas cabeleiras que ora torcem, 
Ora se esticam em seu maranhado
Preso e exposto com nós infinitos,
Radia da malha como que zombou, 
Por dentro a tortura, a morte, e viu
o sólido ar com bocas disformes.

Perto em lapa, um sardão peçonhento
Olha ocioso nos olhos gorgôneos,
Enquanto no ar medonho morcego,
sem rumo, voa contra uma caverna
com louco susto que a luz espantosa 
fendeu. Ele vem rápido tal traça
atrás da vela. Céu da meia-noite
brilha com luz mais terrível que o breu.

É o revolto encanto do terror:
Das serpentes fulge um brônzeo olhar,
Aceso nesse enredado errar,
Cria um fogo-fátuo emocionante,
Rompe um eterno espelho de toda a
Beleza e de todo o terror de lá – 
Face de mulher de vípera crina,
Das rochas úmidas no céu vê a morte.

It lieth, gazing on the midnight sky,
Upon the cloudy mountain peak supine;
 Below, far lands are seen tremblingly;
 Its horror and its beauty are divine.
Upon its lips and eyelids seems to lie
 Loveliness like a shadow, from which shine,
Fiery and lurid, struggling underneath,
 The agonies of anguish and of death. 

 Yet it is less the horror than the grace
Which turns the gazer's spirit into stone;
Whereon the lineaments of that dead face
Are graven, till the characters be grown
Into itself, and thought no more can trace;
'Tis the melodious hue of beauty thrown
Athwart the darkness and the glare of pain,
Which humanize and harmonize the strain.

 And from its head as from one body grow,
As [ ] grass out of a watery rock,
 Hairs which are vipers, and they curl and flow
And their long tangles in each other lock,
And with unending involutions shew
Their mailed radiance, as it were to mock
The torture and the death within, and saw
The solid air with many a ragged jaw.

And from a stone beside, a poisonous eft.
Peeps idly into those Gorgonian eyes;
Whilst in the air a ghastly bat, bereft
Of sense, has flitted with a mad surprise
Out of the cave this hideous light had cleft,
And he comes hastening like a moth that hies
After a taper; and the midnight sky
Flares, a light more dread than obscurity.

'Tis the tempestuous loveliness of terror;
For from the serpents gleams a brazen glare
Kindled by that inextricable error,
Which makes a thrilling vapour of the air
Become a [ ] and ever-shifting mirror
Of all the beauty and the terror there-
A woman's countenance, with serpent locks,
Gazing in death on heaven from those wet rocks.


Percy Bysse Shelley (1792- 1822) 
Tradução de Paulo Martins

sexta-feira, outubro 27, 2023

35 Proêmios da Eneida e mais um pouco (por Beethoven Alvarez)

 Beethoven Alvarez (UFF)

 

Fuga di Enea da Troia. Frederico Barocci. 1598

Tento aqui reunir a mais completa possível coleção de traduções para o português do proêmio da Eneida de Virgílio, ou seja, dos versos 1-11 em que se encontram a proposição temática e invocação às musas. Primeiro, faço uma coletânea de informações sobre as traduções disponíveis na forma de uma lista (as integrais em verso, as integrais em prosa e depois as avulsas que incluem os versos iniciais) e, em seguida, apresento a transcrição dos proêmios dessas traduções (que datam de 1638 a 2023). No final, acrescento notícias, trechos e imagens de adaptações variadas.

quinta-feira, outubro 26, 2023

Balanços - II

 Antídoto contra a vida 

e sua graça nefasta:

fugir de todo desejo,

buscar a alegria casta


das abstrações que ostentam

porte másculo e maiúsculo,

que explicam todo o universo

e cabem num magro opúsculo.


Paulo Henriques Britto. Tarde. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 

sexta-feira, outubro 13, 2023

Paladas de Alexandria - Antologia Grega 9.72 e 9.169

 De Paladas de Alexandria nos restaram aproximadamente 151 epigramas na Antologia Grega. Estabelece-se seu período de atuação no século IV d.C. Sua poesia mostra a figura de um professor de letras (grammatistés) resignado, o último dos pagãos numa cidade cristã.

Traduções: Rafael Brunhara

quinta-feira, outubro 12, 2023

O Mapa - Mário Quintana


O mapa 

 Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...

(E nem que fosse o meu corpo!)

 Sinto uma dor infinita
 Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...

 Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...

Quando eu for, um dia desses,
 Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
 Serei um pouco do nada
 Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
 Suave mistério amoroso,
 Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...

quarta-feira, outubro 11, 2023

Alceu da Messênia - Epigramas

 Alceu da Messênia atuou entre 219 e 198 a.C., durante o reinado de Filipe V da Macedônia sobre a Grécia. Dele nos restaram diversos poemas de ataque a Filipe, o que nos permite datar sua obra com relativa precisão. Mas dos 22 epigramas que nos restaram, parte considerável é de natureza erótica. Segundo o célebre filólogo alemão Ulrich von Wilamowitz-Moellendorf, Alceu representava o último poeta helenístico a demonstrar uma verdadeira originalidade. O poeta Meleagro de Gádara (séc I d.C.) diz que Alceu é um "jacinto falador": o jacinto, entendido pelos gregos com uma flor que simbolizava a dor, poderia ser uma alusão aos poemas políticos contra Filipe, que relevam um tom melancólico. Entretanto, como seus poemas são muito mais diversos do que isso, talvez a comparação seja apenas fortuita. 


Traduções: Rafael Brunhara

sexta-feira, outubro 06, 2023

Paulo Silenciário - Epigramas Eróticos

 *Paulo Silenciário (575 d.C ou 585 d.C.) foi um poeta grego de Constantinopla. Compôs entre outros epigramas, uma écfrase da igreja de Hagia Sofia. Mas sua obra é mais conhecida por seus poemas eróticos, cerca de oitenta, que foram conservados pela Antologia Palatina.

Traduções: Rafael Brunhara

quinta-feira, outubro 05, 2023

Madrigal - Paulo Henriques Britto

Desista: não vai dar certo.
O mundo é o mesmo de sempre,
desejo é uma coisa cega.
Desista, enquanto é tempo.

As mãos não sabem o que pegam,
os pés vão aonde não sabem.
As cartas estão marcadas:
vai dar desgraça na certa.

O mundo é sempre a esmo,
desejo é uma porta aberta.
Desista, que a vida é incerta.
Ou insista. Dá no mesmo.

in Paulo Henriques Britto. Formas do Nada. São Paulo: Cia das Letras, 2012. 

domingo, outubro 01, 2023

Iniciação - Fernando Pessoa

Não dormes sob os ciprestes, 
 Pois não há sono no mundo. 

 ...... 

 O corpo é a sombra das vestes 
 Que encobrem teu ser profundo. 

 Vem a noite, que é a morte 
 E a sombra acabou sem ser. 
 Vais na noite só recorte,
 Igual a ti sem querer. 

 Mas na Estalagem do Assombro 
 Tiram-te os Anjos a capa. 
 Segues sem capa no ombro, 
 Com o pouco que te tapa. 

 Então Arcanjos da Estrada
 Despem-te e deixam-te nu. 
 Não tens vestes, não tens nada:
 Tens só teu corpo, que és tu. 

 Por fim, na funda caverna, 
 Os Deuses despem-te mais. 
 Teu corpo cessa, alma externa, 
 Mas vês que são teus iguais. 

 ......

 A sombra das tuas vestes
 Ficou entre nós na Sorte.

 Não estás morto, entre ciprestes.

 ...... 

 Neófito, não há morte.

sexta-feira, setembro 22, 2023

O poema - João Cabral de Melo Neto

 A tinta e a lápis

escrevem-se todos

os versos do mundo.


Que monstros existem

nadando no poço

negro e fecundo?


Como o ser vivo

que é um verso,

um organismo


com sangue e sopro,

pode brotar

de germes mortos?


O papel nem sempre

é branco como

a primeira manhã.


É muitas vezes

o pardo e o pobre

papel de embrulho;


é de outras vezes

de carta aérea,

leve de nuvem.


Mas é no papel,

no branco asséptico,

que o verso rebenta.


Como um ser vivo

pode brotar

de um chão mineral? 


O Engenheiro (1942-1945) in: SECCHIN, A.C. (org.) João Cabral de Melo Neto - Poesia Completa, Rio de Janeiro: Alfaguara, 2020. 

segunda-feira, setembro 18, 2023

Catulo, 9 - QuatroTraduções

Verani, omnibus e meis amicis
antistans mihi milibus trecentis,
venistine domum ad tuos penates
fratresque unanimos anumque matrem?
venisti. o mihi nuntii beati!
visam te incolumem audiamque Hiberum
narrantem loca, facta nationes,
ut mos est tuus, applicansque collum
iucundum os oculosque suaviabor.
o quantum est hominum beatiorum,
quid me laetius est beatiusve?

Verânio, dos amigos o primeiro,
de todos os trezentos mil que tenho,
voltaste a tua casa, a teus Penates,
irmãos (um coração) e idosa mãe?
Voltaste. Ah, que notícia tão feliz!
Vou te ver são e salvo e ouvir contares
feitos, lugares, povos lá da Ibéria
com teu jeito e, chegando a ti meu rosto,
teu lábios belos vou beijar e os olhos.
Ó quantos homens vivam tão felizes,
quem mais que eu é alegre ou feliz?

[Tradução de João Angelo Oliva Neto in O Livro de Catulo, São Paulo: Edusp, 1996]


Verânio, que de todos os meus trezentos mil
amigos és o primeiro,
regressaste tu a casa, aos teus Penates,
aos teus adoráveis irmãos e à tua velha mãe?
Regressaste! Ó felizes novas!
Visitar-te-ei são e salvo, e ouvir-te-ei falar
dos lugares, dos feitos, das gentes iberas,
como é teu uso, e tomando-te o pescoço,
a boca alegre e os olhos te beijarei.
Ó, de todos os homens felizes do mundo,
há algum mais alegre e feliz do que eu?

[Tradução de José Pedro Moreira e André Simões in Catulo. Carmina. Lisboa: Cotovia, 2012]

Verânio, dos amigos todos meus, 
Acima estando duns trezentos mil, 
Tu voltaste à casa, aos penates teus,
 Aos irmãos em alma, e à anosa mãe? 
Voltaste! Oh, que notícia mais feliz! 
Vou te ver com saúde e ouvir do ibero
 Povo, feitos, terras, as narrativas, 
Como costumas; e, inclinando o rosto, 
A linda face e os olhos vou beijar. 
Ó, quantos homens haverá felizes 
Mais contentes do que eu ou mais felizes?

[Tradução de Beethoven Alvarez, 2018]

Devo ter uns trezentos mil amigos,
Verânio. Para mim, és o primeiro.
Voltaste a tua casa, ao teu larário,
a tua mãe senil, a teus irmãos
uniconcordes? Sim! Que bom saber!
Hei de rever-te firme e forte, ouvir
por onde andaste, o que fizeste, a gente
ibérica, no teu estilo. Arcando
o colo, beijo os belos lábios, olhos.
Quantos homens conheçam a alegria,
nenhum conhecerá como me alegro. 

[Tradução de Trajano Vieira in Catulo, 20 Poemas. Londrina: Galileu Edições, 2022]



domingo, setembro 17, 2023

Catulo, 96 - três traduções

Si quicquam mutis gratum acceptumve sepulcris
 accidere a nostro, Calve, dolore potest,
 quo desiderio veteres renovamus amores 
atque olim missas flemus amicitias, 
certe non tanto mors immatura dolori est 
Quintiliae, quantum gaudet amore tuo.


Se à muda cinza algum carinho e agrado, ó Calvo,

     pode dar nossa dor -- esta saudade

com que nós renovamos antigos amores 

    e choramos perdidas amizades, 

certo Quintília já não sofre pela morte

    tão precoce, mas goza teu amor.


[Tradução de João Angelo Oliva Neto in O Livro de Catulo, São Paulo: Edusp, 1996]


Se alguma coisa de bom ou estimado mudas tumbas

pode tocar, Calvo, com a nossa dor, 

com essa saudade velhos amores renovamos

e outrora perdidas amizades choramos,

então não se dói tanto com a morte precoce

Quintília, quanto se alegra com o teu amor. 


[Tradução de José Pedro Moreira e André Simões in Catulo. Carmina. Lisboa: Cotovia, 2012]


Caso a tumba silente possa receber

a dor que seja grata -- e a saudade

remova amores do passado, Calvo, e o pranto

amizades que o tempo dissipou --, 

Quintília já não padece a morte prematura,

tanto quanto sorri com teu amor. 

[Tradução de Trajano Vieira in Catulo, 20 Poemas. Londrina: Galileu Edições, 2022]

A educação pela pedra (João Cabral de Melo Neto)

 


Uma educação pela pedra: por lições;

para aprender da pedra, frequentá-la; 

captar sua voz inenfática, impessoal

(pela de dicção ela começa as aulas). 

A lição de moral, sua resistência fria

 ao que flui e a fluir, a ser maleada; 

a de poética, sua carnadura concreta;

a de economia, seu adensar-se compacta:

lições da pedra (de fora para dentro,

cartilha muda), para quem soletrá-la.


*


Outra educação pela pedra: no Sertão

(de dentro para fora, e pré-didática).

No Sertão a pedra não sabe lecionar,

e, se lecionasse, não ensinaria nada;

lá não se aprende a pedra: lá a pedra, 

uma pedra de nascença, entranha a alma.


A Educação pela Pedra in: SECCHIN, A.C. (org.) João Cabral de Melo Neto - Poesia Completa, Rio de Janeiro: Alfaguara, 2020. 

O mar e o canavial (João Cabral de Melo Neto)

 O que o mar sim aprende do canavial:
a elocução horizontal de seu verso
a geórgica de cordel, ininterrupta, 
narrada em voz e silêncio paralelos. 
O que o mar não aprende do canavial:
a veemência passional da preamar; 
a mão de pilão das ondas na areia,
moída e miúda, pilada do que pilar

*

O que o canavial sim aprende do mar:
o avançar em linha rasteira da onda;
o espraiar-se minucioso, de líquido, 
alagando cova a cova onde se alonga. 
O que o canavial não aprende do mar: 
o desmedido do derramar-se da cana;
o comedimento do latifúndio do mar, 
que menos lastradamente se derrama. 

A Educação pela Pedra in: SECCHIN, A.C. (org.) João Cabral de Melo Neto - Poesia Completa, Rio de Janeiro: Alfaguara, 2020. 

sábado, setembro 09, 2023

Pasolini, "Eu sou uma força do Passado"


Eu sou uma força do Passado
Somente na tradição está o meu amor
Venho das ruínas, das igrejas
dos retábulos, das aldeias
abandonadas dos Apeninos ou Pré-Alpes
onde habitavam os irmãos
Vago pela Tuscolana como um louco,
pela Ápia como um cão sem dono.
Vejo os crepúsculos, as manhãs
de Roma, da Ciociaria, do mundo,
como os primeiros atos da Pós-História,
que testemunho, por conta da idade,
da borda extrema de qualquer época
sepulta. As vísceras de uma mulher morta
pariram um ser Monstruoso.
E eu, feto adulto, vagueio
mais moderno que todos os demais
a procurar irmãos, que não existem mais.

Tradução de Régis Bonvicino (2019) Fonte: https://sibila.com.br/poemas/os-primeiros-atos-da-pos-historia/13621

Io sono una forza del Passato.
Solo nella tradizione è il mio amore. 
Vengo dai ruderi, dalle chiese, 
dalle pale d'altare, dai borghi 
abbandonati sugli Appennini o le Prealpi, 
dove sono vissuti i fratelli. 
Giro per la Tuscolana come un pazzo,
 per l'Appia come un cane senza padrone. 
O guardo i crepuscoli, le mattine 
su Roma, sulla Ciociaria, sul mondo, 
come i primi atti della Dopostoria, 
cui io assisto, per privilegio d'anagrafe, 
dall'orlo estremo di qualche 
età sepolta. Mostruoso è chi è nato
 dalle viscere di una donna morta.
 E io, feto adulto, mi aggiro
 più moderno di ogni moderno
 a cercare fratelli che non sono più.


Essere una forza del Passato 

Essere una forza del Passato significa percepire la parte più vitale della nostra Memoria, sede dei nostri Ricordi e dei nostri Conflitti. Non aver capito il proprio Passato significa riviverlo, ma vivere il Passato in forma lapidea significa togliere ad esso la parte vitale. La parola Forza esprime un concetto presente di dinamismo non necessariamente legato al movimento, quindi io non mi identifico nel Passato e non provengo dal passato, piuttosto vivo al presente sollecitato da forze multiformi. Io non mi identifico nel Passato, ma rivedo i suoi riti e i suoi cicli umani, gesti ripetuti nelle epoche che raccolgono i sentimenti di generazioni, e sento che il mio amore di oggi ha radici profonde in quel Passato. 

 Vengo direttamente dai ruderi dei casolari abbandonati o distrutti dalle bombe, dalle chiese che costellano ogni nostra regione, dalle pale d'altare che pure ho studiato, analizzato, ammirato, dai borghi degli Appennini o dalle Prealpi, in cui la vita muore lasciandovi niente altro che pochi abitanti che si aggirano come fantasmi. Là sono vissuti i nostri fratelli, quelli che coltivavano il grano e aravano i campi secondo le fasi della luna, tra una carestia, una guerra o un padrone prepotente. Quello è il nostro Passato. 

 E mi ritrovo oggi, sulla via Tuscolana, quell'antica via che da Porta San Giovanni portava a Tusculum, la moderna Frascati. Ma in quale punto della Tuscolana giro come un pazzo? Che paesaggio è quello che ho attorno? Vedo case moderne, palazzoni fitti come alveari, tutti uguali ed io che giro con un cane randagio per l'Appia. Perchè devi sapere che la via Tuscolana per un certo tratto corre quasi parallela alla via Appia Nuova, sono strade vicine che comunicano. Io ora vivo qui, questi sono i nuovi paesaggi della nuova era, mi guardo intorno smarrito, sempre stupito e con in gola un nodo che non si scioglie.

 Eppure guardo i tramonti e le mattine su Roma, perché chi non ha mai osservato un crepuscolo o un'alba romana almeno una volta, provato sulla pelle il calore di quei raggi solari così luminosi e potenti, è ben difficile che riesca a capire ciò di cui sto parlando. Assisto alle albe e ai tramonti da Roma, dalla Ciociaria e poi sul resto del mondo, al margine di una civiltà sepolta il primo agitarsi di una nuova era primitiva. Il tutto per il solo privilegio anagrafico di esservi piovuto, niente di speciale.

 All'improvviso realizzo che io sono frutto di questo Passato ormai morto e mi percepisco come un essere mostruoso, al pari di chi è nato dal cadavere di una donna morta. Sono piovuto su questa terra senza possibilità di governare il mio destino, inconsapevole e fragile come un feto, ma vecchio di mille e mille secoli, mi aggiro saldato alla nostra epoca, inesorabilmente legato al nostro tempo, a cercare i fratelli che non sono più. Il perché di questa ricerca è motivato dall'esigenza di non perdere le nostre radici, per far sì che questo Dopostoria perda la sua anonimità, il solo modo per trovare nuovi linguaggi e nuove identità.(Pasolini) 

quinta-feira, setembro 07, 2023

José Paulo Paes




GRÉCIA: A ACRÓPOLE DE ATENAS

 1. 

 Corroídas pela emanação das fábricas e automóveis de atenas
 as cariátides mal suportam agora o peso da eternidade.

2. 
na calada da noite o poder público manda espalhar pelo re-
 -cinto da acrópole uma boa provisão de cascalho para que 
no outro dia cada turista possa levar para casa um frag- 
mento autêntico do propileu do partenon do templo de 
 atenas ou do erectéion. 

 MONUMENTO A BYRON

 pela independência da Grécia
 ele deixou a vida 
em missolongui
 mas a Inglaterra acabou fazendo um bom negócio:
 levou em troca 
o friso do partenon 

 CABO SOUNION

 com tanto céu e sol e mar à vista 
por que o olho de Posídon iria deter-se
 nos nomes de byron ravel ou centenas de outros bárbaros 
gravados nas colunas de seu templo? 

 RUÍNAS DE CORINTO 

"do alto destes degraus 
s.paulo pregava ao povo de corinto" 

 olho o degrau: nenhum rastro de sandália 
ouço o vento: nenhum rumor de prédica 

 o tempo sabe fazer as suas contas

terça-feira, julho 18, 2023

Drummond: Discurso

Eternidade:
os morituros te saúdam.

Valeu a pena farejar-te
na traça dos livros
e nos chamados instantes inesquecíveis.

Agônico
em êxtase
em pânico
em paz
o mundo-de-cada-um dilata-se até as lindes
do acabamento perfeito.

Eternidade:
existe a palavra,
deixa-se possuir, na treva tensa.

Incomunicável
o que deciframos de ti
e nem a nós mesmos confessamos.

Teu sorriso não era de fraude
Não cintilas como é costume dos astros.
Não és responsável pelo que bordam em tua corola
os passageiros da presiganga.

Eternidade,
os morituros te beijaram. 

in: A falta que ama (1968)

Drummond: O deus mal Informado

 



No caminho onde pisou um deus
há tanto tempo que o tempo não lembra
resta o sonho dos pés
                             sem peso
                             sem desenho.

Quem passe ali, na fração de segundo,
em deus se erige, insciente, deus faminto,
saudoso de existência.

Vai seguindo em demanda de seu rastro,
é um tremor radioso, uma opulência
de impossíveis, casulo do possível.

Mas a estrada se parte, se milparte,
a seta não aponta
destino algum, e o traço ausente
ao homem torna homem, novamente. 

in: A Falta que ama (1968)

domingo, julho 16, 2023

Mário Faustino: "E nos irados olhos das bacantes..."


Bacchantes overtaking Orpheus. Douglas Strachan (1875-1950)


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E nos irados olhos das bacantes
Finalmente descubro quem procuro.
Não eras tu, Poesia, meras armas,
Pura consolação de minha luta.
Nem eras tu, Amor, meu camarada,
Às costas me levando, após a luta. 
Procurava-me a mim, e ora me encontro
Em meu reflexo, nos olhares duros
De ébrios que me fuzilam contra o muro
E o perdão de meu canto. Sobre as nuvens
Defronte mãos escrevem numa estranha
Antiquíssima língua estas palavras
Que afinal compreendo: toda vida
É perfeita. E pungente, e raro, e breve
É o tempo que me dão para viver-me,
Achado e precioso. Mas saúdo
Em mim a minha paz final. Metade
Infame de homem beija os pés da outra
Diva metade, enquanto esta se curva
E retribui, humilde, a reverência.
A serpente tritura a própria cauda,
O círculo de fogo se devora, 
Arrasta-se o cadáver bem ferido
Para fora do palco:
                                este cevado
Bezerro justifica minha vida. 

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