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domingo, outubro 01, 2023

Iniciação - Fernando Pessoa

Não dormes sob os ciprestes, 
 Pois não há sono no mundo. 

 ...... 

 O corpo é a sombra das vestes 
 Que encobrem teu ser profundo. 

 Vem a noite, que é a morte 
 E a sombra acabou sem ser. 
 Vais na noite só recorte,
 Igual a ti sem querer. 

 Mas na Estalagem do Assombro 
 Tiram-te os Anjos a capa. 
 Segues sem capa no ombro, 
 Com o pouco que te tapa. 

 Então Arcanjos da Estrada
 Despem-te e deixam-te nu. 
 Não tens vestes, não tens nada:
 Tens só teu corpo, que és tu. 

 Por fim, na funda caverna, 
 Os Deuses despem-te mais. 
 Teu corpo cessa, alma externa, 
 Mas vês que são teus iguais. 

 ......

 A sombra das tuas vestes
 Ficou entre nós na Sorte.

 Não estás morto, entre ciprestes.

 ...... 

 Neófito, não há morte.

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Natal

Nasce um Deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.
Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo Deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.


Fernando Pessoa

domingo, fevereiro 08, 2009

Mensagem

II. OS CASTELLOS

PRIMEIRO/ULYSSES

O Mytho é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mytho brilhante e mudo -
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos creou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade
E a fecundal-a decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

sexta-feira, novembro 21, 2008

Fernando Pessoa - Epithalamium

Open the windows and thee doors all wide
Lest aught of night abide,
Or, like a ship's trail in the sea, survive
What made it there to live!
She lies in bed half waiting that her wish
Grow bolder or more rich
To make her rise, or poorer, to oust fear,
And she rise as a common day were here.
That she would be a bride in bed with man
The parts where she is woman do insist
And send up messages that shame doth ban
From being dreamed but in a shapeless mist.
She open her eyes, the ceiling sees above
Shutting the small alcove,
And thinks, till she must shut her eyes again.
Another ceiling she this night will know,
Another house, another bed, she lain
In a way she half guesses; so
She shuts her eyes to see not the room she
Soon will no longer see.