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sexta-feira, janeiro 02, 2026

As Jarras de Zeus (Ilíada, Canto 24, Versos 522-551) - 7 traduções

Tradução de André Malta (2024)

"Mas vamos, senta-te ao trono: § deixemos, de todo modo,
que as dores repousem no ânimo, § ainda que desgostosos,
porque ganho algum provém § do gélido prantear.
Pois isto os deuses fiaram § para os míseros mortais:
que vivam a penar - eles § próprios são sem aflições.
Sobre a soleira de Zeus § estão postas duas jarras
com dádivas que dá: uma § de más, e a outra de boas.
Pra quem as dá misturadas § o desfruta-raio Zeus,
esse então ora com males § cruza, ora então com venturas;
mas pra quem dá tão somente § horrendas, põe-no afrontado:
a maligna fome sobre § a terra divina o move,
e ele vaga desonrado § por deuses e por mortais. 
Assim a Peleu os deuses § deram esplêndidas dádivas,
desde o nascimento: sobre- § pujando a todos os homens
em riqueza mais fortuna, § reinava sobre os mirmídones,
e, embora mortal, fizeram § de uma deusa sua esposa.
Mas até mesmo para ele § o deus pôs um mal, pois não
lhe nasceu prole de filhos § soberanos no palácio:
gerou um só, prematuro § em sua morte. E agora não 
o amparo enquanto envelhece, § já que, tão longe da pátria,
demoro-me em Troia, a ti § e a teus filhos afligindo.
Tu também, ouvimos que eras § afortunado, ancião:
quanto delimitam Lesbos, § sede de Mácar, embaixo,
e, de cima para baixo, § a Frígia e o Helesponto infindo,
aí dizem que em riqueza § e prole sobrepujavas.
Depois, porém, que os Celestes § te deram tal sofrimento,
sempre em torno da cidade § há combates e matanças.
Mas suporta, e no teu ânimo § não lamentes sem cessar,
pois tu não ganharás nada § com penar pelo teu filho:
não o levantarás antes § de padecer outro mal" 

Tradução de Leonardo Antunes (2022):

Mas chega disso. Vem aqui sentar-te
sobre este trono. Deixemos de lado
a tristeza nos nossos corações,
por mais angustiados que estejamos.
Não há nada que possa ser ganhado
agora com o luto congelante,
pois foi assim que a vida foi tecida
 pelos deuses aos pobres dos mortais,
para viverem sempre angustiados —
e eles próprios não têm preocupações.
É sabido que existem duas urnas
postas ao lado dos umbrais de Zeus.
Os presentes que dão são diferentes:
uma dá males e a outra dá bênçãos.
Quando Zeus que se apraz com os trovões,
depois de misturar das duas urnas,
concede seus presentes para os homens,
 ora dá males, ora dá benesses.
Mas, quando ele resolve conceder
apenas os dons lúgubres a alguém,
faz um homem tristíssimo, que vaga
com fome horrível pelo chão sagrado,
sem nunca receber nenhuma honra
nem entre os deuses nem entre os mortais.
Foram tais os esplêndidos presentes
que os deuses concederam a Peleu
no dia em que nasceu, pois se tornou
eminente entre todos os humanos,
tanto em ventura quanto na riqueza.
Reinava sobre os homens mirmidões
e, sendo apenas humano, mortal,
recebeu uma deusa em casamento.
Porém o deus também lhe concedeu
a desgraça, pois ele inda carece
de uma estirpe de filhos poderosos
para encher o salão de seu palácio.
Teve somente um único rebento,
 de vida curta, que nem poderá
lhe dar cuidados conforme envelhece —
pois permaneço ainda muito longe
da terra pátria, acampado em Troia,
causando só tristezas aos teus filhos
e a ti mesmo, ancião, que ouvi dizer
ter sido próspero em tempos passados.
De fato, tanto em Lesbos, lá no assento
de Mácar, e também mais para o norte,
quanto também na Frígia, desde cima,
e por todo o Helesponto interminável —
em todas essas partes, velho, falam
de ti com muitos filhos e riquezas.
Porém agora, como as divindades
celestes te trouxeram a desgraça,
em torno à tua cidadela há sempre
batalhas e matanças de guerreiros.
Ainda assim, resiste! Não te doas
demasiadamente o coração,
pois não há nada mais a ser ganhado
 lamentando o destino de teu filho,
nem poderás fazer com que reviva.
É mais fácil sofreres outro mal.”

Tradução de Christian Werner (2018)

"Pois senta na poltrona, e, apesar de tudo, as aflições
deixemos descansar no ânimo, embora angustiados.
De nada adianta o lamento gelado. 
Isto os deuses fiaram para os pobres mortais:
viver angustiado. Despreocupados são eles próprios.
Dois tipos de cântaro estão no chão de Zeus
com dons que ele dá, males num, bens no outro.
A quem Zeus prazer-no-raio der uma mistura,
este ora obtém algo ruim, ora algo bom;
a quem der só coisas funestas, torna-o desprezível, 
danosa fome canina impele-o sobre a terra divinal,
e vaga nem honrado pelos deuses nem pelos mortais. 
Assim também a Peleu os deuses deram dons radiantes
desde o nascimento: entre todos os homens exceleu
na fortuna e na riqueza, rege os mirmidões
e, para ele, um mortal, fizeram de uma deusa sua esposa.
Mas também a ele o deus impôs um mal: que não
houvesse, em sua casa, progênie de filhos senhoris,
e gerou um só, vítima da morte não sazonal; dele,
envelhecendo, não cuido, pois, bem longe da pátria,
quedo-me em Troia, afligindo a ti e a teus filhos. 
Ouvimos que também tu, velho, antes era afortunado:
tanto quanto concentram Lesbos, assento de Ditoso,
a Frígia terra adentro e o ilimitado Helesponto,
a esses, velho, dizem que em riqueza e filhos superas.
Porém, desde que os Celestes te trouxeram essa desgraça,
em volta da cidade há sempre combates e carnificinas.
Aguenta e não lamentes sem cessar em teu ânimo;
nada realizarás, atormentando-te por teu filho,
nem o ressuscitarás, antes de sofreres outro mal" 

Tradução de Frederico Lourenço (2003/2013/2019)

Mas agora senta-te num trono; nossas tristezas deixaremos
que jazam tranquilas no coração, por muito que soframos.
Pois não há proveito a tirar do frígido lamento.
Foi isto que fiaram os deuses para os pobres mortais:
que vivessem no sofrimento. Mas eles próprios vivem sem cuidados.
Pois dois são os jarros que foram depostos no chão de Zeus,
jarros de dons: de um deles, dá os males; do outro, as bênçãos.
Àquele a quem Zeus que com o trovão se deleita mistura a dádiva,
 esse homem encontra tanto o que é mau como o que é bom.
Mas àquele a quem dá só males, fá-lo amaldiçoado,
e a terrível demência o arrasta pela terra divina
e vagueia sem ser honrado quer por deuses, quer por mortais.
Assim, também a Peleu os deuses deram gloriosos dons
535 desde o nascimento: a todos os homens sobrelevava
em ventura e riqueza e era rei dos Mirmidões;
sendo mortal, deram-lhe uma deusa como esposa.
Mas além disto lhe deram os deuses o mal, porque
não foi gerada no palácio uma progénie de filhos vigorosos,
 mas só teve um filho, fadado para uma vida breve. E eu
nem o acompanho na sua velhice, visto que bem longe da pátria
estou aqui sentado em Troia, atormentando-te a ti e aos teus filhos.
Mas também de ti, ó ancião, ouvimos dizer que outrora foste feliz
Tudo o que até Lesbos, sede de Mácaro, está compreendido,
545 e lá para cima, para a Frígia, assim como o amplo Helesponto:
dizem que entre estes povos eras distinto pela riqueza e pelos filhos.
Mas desde que os celestiais Olímpios te trouxeram esta desgraça,
sempre em torno da tua cidade há combates e morticínios.
Mas aguenta: não chores continuamente no teu coração.
550 Pois de nada te aproveitará lamentares o teu filho,
nem o trarás à vida, antes de teres já sofrido outro mal.»

Tradução de Haroldo de Campos (2003)

Mas senta agora neste trono: aflitos ambos,
deixemos que serene a dor no coração,
pois do pranto glacial não deriva nenhum
proveito. Assim os deuses urdem o fadário 
dos infaustos mortais: um viver agoniado,
sendo os numes incólumes; pois há dois cântaros
nos umbrais de Zeus, cheios de dons que ele nos dá,
um de ruins, de bons o outro. Mescla-os Zeus fulmíneo
e os versa: ora o mal, ora o bem, deparará 
quem os receba; quando maldosos opróbrios
apenas colha, malsinado vagará
pela terra divina, famélico, menos-
-prezado por mortais e deuses. A Peleu,
os deuses, com preciosos dons, lhe galardoaram 
desde o berço: excedia a todos mais em bens
e ventura; era rei dos Mirmidões; mortal,
de uma imortal se fez esposo. Um pesadume
o nume lhe infligiu: uma prole de príncipes
não gerou no palácio, salvo um, morituro - 
eu -, que dele não posso cuidar na velhice,
pois estou longe, em Troia, danando a ti e aos teus
filhos. Sênior, ouvimos que já foste muito
venturoso, excedendo em bens e prole a todos
nos limites de Lesbos, do rei Mácar, mar 
alto e, no plaino acima, a Frígia e o Helesponto, ainda,
infindo. Desde quando os Urânios te enviaram
malefícios, batalhas e carnagem cercam-te
a urbe. Sofre-os, paciente, e deixa de lamurias;
por teu filho agoniar-te, não fará com que ele 
ressuscite, mas outro mal pode advir-te, antes.”

Tradução de Carlos Alberto Nunes (1941)

"Vamos assenta-te agora no trono; apesar de angustiados
é conveniente deixar que as tristezas no peito se aplaquem.
Nada o homem lucra em deixar-se invadir pelo gélido pranto.
Sempre viver em tristeza: eis a sorte que os deuses eternos
de descuidada existência aos mortais infelizes dotaram.
Sobre os umbrais do palácio de Zeus dois tonéis se acham postos
de suas dádivas; um só de males; de bens o outro cheio.
Se misturando-as Zeus grande senhor dos trovões as derrama
quem as recebe ora goza ora males por sorte lhe tocam;
mas o que dele recolhe somente infortúnios escárnio
vivo se torna; em extrema miséria na terra divina
é condenado a vagar desprezado por homens e deuses.
Ao nascimento também de Peleu os eternos lhe deram
dons inefáveis: riquezas sem conta dos homens a estima
e o incontestado governo dos fortes guerreiros Mirmídones.
Mais: apesar de mortal como esposa uma deusa lhe cedem.
Grande infortúnio porém concederam-lhe os deuses negando-lhe
filhos que o mando pudessem herdar-lhe no belo palácio;
540 a mim somente gerou destinado a morrer muito cedo.
Longe da pátria não posso cercar de cuidados o velho
pois me acho em Tróia causando-te e aos filhos desditas sem conta.
Tu também velho já foste feliz pelo que me contaram.
Quantos guerreiros existem de Lesbos na sede de Mácar
até para o norte da Frígia nos lindes do vasto Helesponto
já dominaste abençoado com filhos e bens infindáveis.
Mas desde o instante em que os deuses celestes tal praga te enviaram
guerra somente e homicídios em torno dos muros te soam.
Vamos suporta! Não deves à dor excruciante entregar-te.
Nada consegues chorando teu filho com tantos encómios;
não ressuscita e além disso outro mal poderias causar-te.”

Tradução de Odorico Mendes (1874) 

Senta-te; ao luto agora devemos tréguas.
Viver sempre em tristeza é lote humano:
Existir sem cuidados é dos deuses.
Há dois tonéis ao limiar de Jove
De males e de bens: se misturados
Os derrama o Tonante, o que os recebe
Ora sofre e ora goza; mas, se entorna
Somente males, em penúria o triste
Vaga de pesadume em pesadume,
Dos imortais ludíbrio e dos mundanos.
Assim teve Peleu mil dons celestes,
Brilho, opulência, império e uma deidade
Por consorte; mas Júpiter negou-lhe
Ao trono sucessor, porque imaturo
Devo longe acabar, sem que de arrimo
Lhe seja na velhice, em Tróia estando
Para desgraça dela e teu flagelo.
Também lograste já de quanto abrange
Lesbos ao sul, de Macaris morada,
A Frígia eoa e amplíssimo Helesponto;
Brilhaste, velho, em filhos e riquezas;
Mas, dês que o Céu mandou-te a crua guerra,
Geme Ílio de matança e horror cingida.
A alma em luto perpétuo não consumas;
Com te afligir Heitor não ressuscitas;
Quiçá maiores danos te ameaçam.”

sábado, dezembro 12, 2015

Brasileidas, vv. 1- 50 - Poema Épico de Carlos Alberto Nunes

Musa, canta-me a régia poranduba
das bandeiras, os feitos sublimados
dos heróis que o Brasil plasmar souberam
través do Pindorama, demarcando
nos sertões a conquista e as esperanças.
Dá que em versos eu fixe os fundamentos
históricos e míticos da pátria
brasileira, deixando-os perpetuados
na memória de todos os teus filhos:
a luta dos Titãs, os novos deuses,
as Amazonas varonis e a raça
que o Gigante de pedra fêz do solo
surgir, robusta e bela, idéias novas
de grandeza forçando à eternidade.
Sobe, imaginação! Abre os arcanos
das lendas ameríndias, e dos Andes
me facilita os penetrais augustos.
Deixa ficar meu verso como o rio
das famosas guerreiras, quando as águas
aos tálamos da luz solene guia:
caudal e majestoso. Não menores
imagens me concede, altos remígios
aos feitos adequados, porque eu canto
do Brasil a excelência, na aristia
do férreo bandeirante celebrada.
Muito peregrinou Rapôso invicto,
por todo o Tapuirama, correntezas
em seu curso transpondo inumeráveis.
Longe os fortes paulistas arrebata,
léguas grandes à pátria incorporando.
Na direção do ocaso os lindes pátrios
afastou, sempre à frente de seus homens,
desde a Serra do Mar, desde a corrente
sagrada do Anhembi, por tôda a costa
que o grande abalador bramando açoita.
Já dos Andes retorna; já, nas águas
do grande mar de dentro, as Amazonas
belicosas procura, que tão grande
terror sabiam despertar em tôdas
as tribos aguerridas do mar doce.
Loucas! Pois intentaram revoltar-se
contra o poder dos Andes, como os nobres
Titãs, vindo por isso a ser entregues
aos deuses catactônios. Mas a glória
das Amazonas não baixou nas águas
que lhes tragou o império; em fascinantes
visões revive agora, inseparável
da do maior dos sertanistas pátrios,
e eternizada neste canto que há de
ser ouvido por todo o Pindorama.

Carlos Alberto Nunes. Os Brasileidas. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1962.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

O reconhecimento de Penélope - Odisséia, XXIII. 173- 240

Disse-lhe,então, em resposta, Penélope muito sensata:
"Homem estranho! Não sinto desprezo, nem sou orgulhosa,
nem em excesso te admiro, pois bem sei que traços tu tinhas
antes de te ires desta ilha em navios de remos compridos.
Mas enfim, seja! Euricléia, prepara-lhe o sólido leito
fora do quarto de bela feitura construído por ele.
A cama, pois, lhe prepara do lado de fora e recobre
com boas peles e mantos e colchoas de linha esplendente."
Isso disse ela, com o fim de provar o marido. Odisseu
muito indignado se vira e responde à consorte prudente:
"Essas palavras, mulher, me excruciam, realmente, o imo peito.
Quem pôde o leito tirar do lugar? Mui difícil se-lo-ia
para qualquer dos mortais, embora hábil. Só mesmo um dos deuses
conseguiria, sem grande trabalho, mudá-lo de sítio.
Mas nenhum homem que vive da terra, conquanto mui forte,
o poderia abalar facilmente; um sinal tinha outrora,
particular, esse leito bem-feito, que eu próprio construíra.
Uma oliveira de espessa folhagem no pátio crescera;
como coluna era o tronco maciço depois de florido.
À volta dele elevei minha câmara, até vê-la pronta,
toda de filas de pedras e um teto bem-feito por cima.
Sólidas portas lhe pus, trabalhadas com muito carinho.
Só depois disso cortei a folhagem da grande oliveira,
e o tronco todo lavrei, desde baixo, alisando-o com bronze,
muito hablilmente, tomando as medidas de tudo com fio,
para em um pé transformá-lo, da cama, furando-o com trado.
Desse começo construí toda a cama, até vê-la concluída,
pondo-lhe vários enfeites de prata, marfim e ouro puro,
e distendendo umas tiras de couro, de brilho purpúreo.
Eis o sinal que me apraz revelar-te. No entanto, ora ignoro
se ainda está firme o meu leito no mesmo lugar, ou se acaso
tendo cortado bem cerce a oliveira, dali o removeram."
Isso disse ele; abalou-se-lhe o peito, fraquearam-lhe os joelhos,
reconhecendo o sinal que Odisseu, tão preciso, dissera.
Logo para ele, direita, correu, lacrimosa, e passando-lhe
os braços pelo pescoço, beijou-lhe a cabeça e lhe disse:
"Não te enraiveças comigo, Odisseu, visto seres dos homens
o mais sensato. Infortúnios bastantes os deuses nos deram,
não consentindo que, juntos, viver aqui sempre pudéssemos
e a juventude gozar, té não ser a velhice chegada.
Não fiques, pois, agastado, nem faças nenhuma censura
por não te haver, no primeiro momento, corrido a abraçar-te.
O coração no imo peito se achava em constante receio
de que pudesse alguém vir enganar-me com ditos falazes,
pois muitos homens, realmente, meditam maldosos desígnios.
A própria Helena da Argólida, filha de Zeus poderoso,
jamais ao leito de um homem de fora teria subido
se, porventura, pudesse saber que os Aqueus belicosos
para o palácio de novo a trariam, à terra nativa.
Um deus, sem dúvida, a fez praticar tal ação vergonhosa,
sem que tivesse, realmente, no espírito a culpa funesta
premeditado, que a origem nos foi de tão grande infortúnio.
Ora, porém, que mostrasse saber o sinal evidente
do nosso leito, que nunca mortal jamais teve ante aos olhos,
a não ser nós e uma serva somente, entre todas as fâmulas,
a filha de Áctor, que, ao vir para aqui, por meu pai foi dada,
e nos guardou sempre as portas do tálamo forte e bem-feito,
o coração convenceste-me, embora receoso estivesse."
Essas palavras no herói despertaram o pranto incontido;
e a soluçar apertava nos braços a esposa querida.
Tal como a vista da terra distante é agradável aos náufragos,
quando, em mar alto, o navio de boa feitura Posido
faz soçobrar, sob o impulso dos ventos e de ondas furiosas;
poucos conseguem chegar até o firme, nadando nas ondas
de cor escura, com os membros cobertos de espessa salsugem,
e ledos pisam a praia, enfim tendo da Morte escapado;
do mesmo modo a Penélope a vista do esposo era cara,
sem que pudesse dos cândidos braços, enfim,desprendê-lo.

Tradução de Carlos Alberto Nunes

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Odisséia, XI,470-491: O discurso de Aquiles

Reconheceu-me a alma logo de Aquiles, de pés muito rápidos,
e, com sentidos queixumes,me diz as palavras aladas:
"Filho de Laertes, de origem divina, Odisseu engenhoso,
que nova empresa, infeliz, mais ousada que as outras concebes?
Como até o Hades ousaste baixar, onde os mortos se encontram,
de consciências privados, quais vão simulacros dos homens?"
Isso me disse; em resposta, lhe torno as seguintes palavras:
"Ó nobre filho do Eácida, Aquiles, primeiro entre os Dânaos!
Vim por me ser necessário pedir um conselho a Tirésias
sobre a maneira de em Ítaca alpestre chegar de tornada.
Ainda ao país dos Aqueus não fui ter, nem à pátria querida;
sim, continuo a vagar e sofrer. Mas ninguém, nobre Aquiles,
é tão feliz como tu, no passado e nos tempos vindouros.
Enquanto vivo, os Argivos te honrávamos, qual se um deus fosses;
ora que te achas no meio dos mortos, sobre eles exerces
mando inconteste; Não podes queixar-te da Morte, ó Pelida!"
Isso lhe disse; ele, logo, me volve as seguintes palavras:
"Ora não me venhas, solerte Odisseu, consolar-me da morte,
pois preferira viver empregado em trabalhos do campo
sob um senhor sem recursos, ou mesmo de parcos haveres,
a dominar deste modo nos mortos aqui consumidos."

[Tradução: Carlos Alberto Nunes]

sexta-feira, maio 11, 2007

Épica

"A ira, Deusa, celebra do Peleio Aquiles,
o irado desvario, que aos Aqueus tantas penas
trouxe, e incontáveis almas arrojou no Hades
de valentes, de heróis, espólio para os cães,
pasto de aves rapaces: fez-se a lei de Zeus;
desde que primeiro a discórdia apartou
o Atreide, chefe de homens, e o divino Aquiles."
(Ilíada, I, vv.1-7, tradução de Haroldo de Campos).

"Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso que muito
peregrinou, dês que esfez as muralhas sagradas de Tróia;
muitas cidades dos homens viajou, conheceu seus costumes,
como no mar padeceu sofrimentos inúmeros na alma,
para que a vida salvasse e a de seus companheiros a volta."
(Odisséia, vv.1-5, tradução de Carlos Alberto Nunes)

Armas canto, e o varão que, lá de Tróia
Prófugo, à Itália e de Lavino às praias
Trouxe-o primeiro o fado. Em mar e em terra
Muito o agitou violenta mão suprema,
E o lembrado rancor da seva Juno;
Muito em guerras sofreu, na Ausônia quando
Funda a cidade e lhe introduz os deuses:
Donde a nação latina e albanos padres,
E os muros vêm da sublimada Roma.
Musa, as causas me aponta, o ofenso nume,
Ou por que mágoa a soberana deia
Compeliu na piedade o herói famoso
A lances tais passar, volver tais casos.
(Eneida I, vv.1-15, Trad. de Manuel Odorico Mendes).

As armas e os barões assinalados
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana
E entre gente remota edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram;

E também às memórias gloriosas
Daqueles reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando
- Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram,
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Netuno e Marte obedeceram;
Cesse tudo que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
(Os Lusíadas I, vv.1-24)