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quarta-feira, maio 28, 2008

Tomás Antonio Gonzaga - Lira XXVII

Alexandre, Marília, qual o rio
que engrossando no Inverno tudo arrasa,
na frente das coortes
cerca, vence, abrasa
as cidades mais fortes;
foi na glória das armas o primeiro;
morreu na flor dos anos e já tinha
vencido o mundo inteiro.

Mas este bom soldado, cujo nome
não há poder algum que não abata,
foi, Marília, somente
um ditoso pirata,
um salteador valente:
Se não tem uma fama baixa e escura,
foi por se pôr ao lado da injustiça
a insolente ventura.

O grande César, cujo nome voa,
à sua mesma pátria a fé quebranta;
na mão a espada toma.
oprime-lhe a garganta,
Já senhores a Roma.
Consegue ser herói por um delito:
se acaso não vencesse, então seria
um vil traidor proscrito.

O ser herói, Marília, não consiste
em queimar os impérios: move a guerra,
espalha o sangue humano
e despovoa a terra
também o mau tirano.
Consiste o ser herói em viver justo:
e tanto pode ser herói o pobre
como o maior Augusto.

Eu é que sou herói, Marília bela,
seguindo da virtude a honrosa estrada:
ganhei, ganhei um trono:
ah! não manchei a espada,
não o roubei ao dono!
Ergui-o no teu peito e nos teus braços,
e valem muito mais que o mundo inteiro
uns tão ditosos laços.

Aos bárbaros, injustos vencedores
atormentam remorsos e cuidados;
nem descansam seguros
nos palácios, cercados
de tropa e de altos muros.
E a quantos nos não mostra a sábia História,
a quem mudou o fado em negro opróbio
a mal ganhada glória!

Eu vivo, minha bela, sim, eu vivo
nos braços do descanso e mais do gosto:
quando estou acordado
contemplo no teu rosto,
de graças adornado;
se durmo, logo sonho e ali te vejo.
Ah! Nem desperto nem dormindo sobe
a mais o meu desejo!

sábado, maio 10, 2008

Tomás Antônio Gonzaga

Marília de Dirceu [1]

Pintam, Marília, os poetas
a um menino vendado,
com uma aljava de setas,
arco empunhado na mão;
ligeiras asas nos ombros,
o tenro corpo despido,
e de Amor ou de Cupido
são os nomes que lhe dão.

Porém eu, Marília, nego,
que assim seja Amor,pois ele
nem é moço nem é cego,
nem setas nem asas tem.
Ora pois, eu vou formar-lhe
um retrato mais perfeito,
que ele já feriu meu peito:
por isso o conheço bem.

Os seus compridos cabelos,
que sobre as costas ondeiam,
são que os de Apolo mais belos,
mas de loura cor não são.
Têm a cor da negra noite;
e com o branco do rosto
fazem, Marília, um composto
da mais formosa união.

Tem redonda e lisa testa,
arqueadas sobrancelhas,
e seus olhos são uns sóis.
Aqui vence Amor ao Céu:
que no dia luminoso
o Céu tem um sol formoso,
e o travesso Amor tem dois.

Na sua face mimosa,
Marília, estão misturadas
púrpureas folhas de rosa,
brancas folhas de jasmim.
Dos rubins mais preciosos
os seus beiços são formados;
os seus dentes delicados
são pedaços de marfim.

Mal vi seu rosto perfeito,
dei logo um suspiro, e ele
conheceu haver-me feito
estrago no coração.
Punha em mim os olhos, quando
entendia eu não olhava;
vendo que o via, baixava
a modesta vista ao chão.

Chamei-lhe um dia formoso;
ele, ouvindo seus louvores,
com um modo desdenhoso
se sorriu e não falou.
Pintei-lhe outra vez o estado,
em que estava esta alma posta;
não me deu também resposta,
constrangeu-se e suspirou.

Conheço os sinais; e logo,
animado de esperança,
busco dar um desafogo
ao cansado coração.
Pego em seus dedos nevados,
e querendo dar-lhe um beijo,
cobriu-se todo de pejo
e fugiu-me com a mão.

Tu, Marília, agora vendo
de Amor o lindo retrato,
contigo estarás dizendo
que é este o retrato teu.
Sim, Marília, a cópia é tua,
que Cupido é deus suposto:
se há Cupido, é só teu rosto,
que foi ele quem me venceu.