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terça-feira, janeiro 27, 2026

Ezra Pound - Antiga Sabedoria, Um Tanto Cósmica

 So-shu sonhou,
E tendo sonhado que era um pássaro, uma abelha, e uma borboleta
Pensou com seus botões para que procurar sentir-se como qualquer outra coisa.

Daí sua satisfação.


Tradução de Mário Faustino


So-shu dreamed, 
And having dreamed that he was a bird, a bee, and a butterfly,
 He was uncertain why he should try to feel like anything else, 

 Hence his contentment. 



 in: Ezra Pound. Poesia. Introdução, Organização e Notas: Augusto de Campos. São Paulo: Cobalto, 2024. 

domingo, janeiro 11, 2026

Numa Estação de Metrô (Ezra Pound, Trad. Augusto de Campos)

 

Suzuki Harunobu - Mulher admirando flores de ameixeira à noite (ca. 1766)

A visão          destas faces           dentre a turba   :

Pétalas         num ramo úmido,       escuro           .



Fonte. Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos, José Lino Grünewald, Mário Faustino. ezra pound - poesia. São Paulo: Cobalto, 2024. 

sábado, abril 06, 2024

Ezra Pound, Cantares, XLV - Com Usura - Tradução de Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Décio Pignatari



Com usura nenhum homem tem casa de boa pedra

blocos lisos e certos

que o desenho possa cobrir,

com usura

nenhum homem tem um paraíso pintado na parede de sua igreja

harpes et luz 

ou onde a virgem receba a mensagem

e um halo se irradie do entalhe,

com usura

ninguém vê Gonzaga seus herdeiros e concubinas

nenhum quadro é feito para durar e viver conosco,

mas para vender, vender depressa,

com usura, pecado contra a natureza,

teu pão é mais e mais feito de panos podres

teu pão é um papel seco,

sem trigo do monte, sem farinha pura

com usura o traço se torna espesso

com usura não há clara demarcação

e ninguém acha lugar para sua casa.

Quem lavra a pedra é afastado da pedra

o tecelão é afastado do tear

COM USURA

a lã não chega ao mercado

a ovelha não dá lucro com a usura

A usura é uma praga,

a usura embota a agulha dos dedos da donzela

tolhe a perícia da fiandeira. Pietro Lombardo

não veio da usura

Duccio não veio da usura

nem Pier della Francesca, nem Zuan Bellini veio

nem Usura pintou "La Callunia"

Angélico não veio da usura, Ambrogio Praedis não veio,

Nenhuma igreja de pedra lavrada, com a inscrição: Adamo me fecit

Nenhuma St. Trophime

Nenhuma St. Hilaire

Usura enferruja o cinzel

Enferruja a arte e o artesão

Rói o fio no tear

Mulher alguma aprende a urdir o ouro em sua trama;

A Usura é um câncer no azul; o carmesim não e bordado,

O esmeralda não encontra um Memling.

Usura mata a criança no ventre

Detém o galanteio do moço

Ela trouxe paralisia ao leito, jaz

entre noivo e noiva

                      CONTRA NATURAM

Putas para Elêusis

Cadáveres no banquete

a comando da Usura


Nota. Uma taxa pelo uso do poder de compra, cobrada sem levar em conta a produção, muitas vezes sem levar em conta as possibilidades de produção (daí o fracasso do banco Medici)


Fonte. AUGUSTO DE CAMPOS (Intr., org., notas) Ezra Pound: Cantares. São Paulo: Cobalto, 2024. 

segunda-feira, fevereiro 26, 2024

A Ilha Lacustre - Ezra Pound (Trad. Dirceu Villa)

 A ILHA LACUSTRE

Ó Deus, Ó Vênus, Mercúrio, senhor dos ladrões,
Me dêem na hora certa, eu imploro, uma pequena tabacaria
Com as caixinhas brilhantes
empilhadas com capricho nas prateleiras
E o cavendish de suave fragrância
o tabaco picado,
E o brilhante Virginia
avulso nas vitrines brilhantes,
E duas balanças sem muita gordura,
E as putas que chegam pra dois dedos de conversa, de passagem,
Pra jogar conversa fora, e dar um jeito no cabelo.
Ó Deus, Ó Vênus, Mercúrio, senhor dos ladrões,
Me emprestem uma pequena tabacaria,
ou me ponham em qualquer profissão
Salvo esta maldita de escrever,
onde é preciso ter miolos todo o tempo.

.

THE LAKE ISLE
O God, O Venus, O Mercury, patron of thieves,
Give me in due time, I beseech you, a little tobacco-shop,
With the little bright boxes
piled up neatly upon the shelves
And the loose fragrant cavendish
and the shag,
And the bright Virginia
loose under the bright glass cases,
And a pair of scales not too greasy,
And the whores dropping in for a word or two in passing,
For a flip word, and to tidy their hair a bit.
O God, O Venus, o Mercury, patron of thieves,
Lend me a little tobacco-shop,
or install me in any profession
Save this damn’d profession of writing,
where one needs one’s brains all the time.


VILLA, Dirceu. Ezra Pound. Lustra. São Paulo: Demônio Negro/Annablume, 2011. 


domingo, fevereiro 25, 2024

A água-furtada (Ezra Pound, trad. Mário Faustino)

 Vamos, lamentemos os que estão em  melhor

          situação que a nossa. 

Vamos, meu amigo, e lembra-te:

    os ricos têm mordomos e não têm amigos,

E nós temos amigos e não temos mordomos.

Vamos, lamentemos os casados e os solteiros.


A Aurora entra com pés pequenos,

    Pavlova dourada,

E estou perto do meu desejo.

E a vida não tem nada melhor

Que esta hora de claro frescor,

    a hora de acordar juntos. 


(LUSTRA, 1916) 


Fonte:

CAMPOS,A; CAMPOS, H.; FAUSTINO, M.; GRÜNEWALD, J.L. PIGNATARI, D. (org., trad.) Ezra Pound: Poesia. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora da UnB, 1983. 


sábado, outubro 24, 2015

Ezra Pound - Cantares, 81 - Fragmento. Tradução de Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos

O que amas de verdade permanece,
o resto é escória
O que amas de verdade não te será arrancado
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
Mundo de quem, meu ou deles
ou não é de ninguém?
Veio o visível primeiro, depois o palpável
Elísio, ainda que fosse nas câmaras do inferno,
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
O que amas de verdade não te será arrancado

A formiga é um centauro em seu mundo de dragões.
Abaixo tua vaidade, nem coragem
Nem ordem, nem graça são obras do homem,
Abaixo tua vaidade, eu digo abaixo.
Aprende com o mundo verde o teu lugar
Na escala da invenção ou arte verdadeira,
Abaixo tua vaidade,
Paquin, abaixo!
O elmo verde superou tua elegância.
"Domina-te e outros te suportarão"
Abaixo tua vaidade
Tu és um cão surrado e largado ao granizo,
Uma pega inchada sob o sol instável,
Metade branca, metade negra
E confundes a asa com a cauda
Abaixo tua vaidade
Que mesquinhos teus ódios
Nutridos na mentira,
Abaixo tua vaidade,
Ávido em destruir, avaro em caridade,
Abaixo tua vaidade,
Eu digo abaixo.

Mas ter feito em lugar de fazer
isto não é vaidade
Ter, com decência, batido
Para que um Blunt abrisse
Ter colhido no ar a tradição mais viva
ou num belo olho antigo a flama inconquistada
Isto não é vaidade.
Aqui, o erro todo consiste em não ter feito.
Todo: na timidez que vacilou.

[Tradução de Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Décio Pignatari in Ezra Pound, Poesia. Edição do centenário do nascimento de Ezra Pound. 2 ed. São Paulo: Hucitec, 1985]

What thou lovest well remains,
the rest is dross
What thou lov’st well shall not be reft from thee
What thou lov’st well is thy true heritage
Whose world, or mine or theirs
or is it of none?
First came the seen, then thus the palpable
Elysium, though it were in the halls of hell,
What thou lovest well is thy true heritage
What thou lov’st well shall not be reft from thee

The ant’s a centaur in his dragon world.
Pull down thy vanity, it is not man
Made courage, or made order, or made grace,
Pull down thy vanity, I say pull down.
Learn of the green world what can be thy place
In scaled invention or true artistry,
Pull down thy vanity,
Paquin pull down!
The green casque has outdone your elegance.

“Master thyself, then others shall thee beare”
Pull down thy vanity
Thou art a beaten dog beneath the hail,
A swollen magpie in a fitful sun,
Half black half white
Nor knowst’ou wing from tail
Pull down thy vanity
How mean thy hates
Fostered in falsity,
Pull down thy vanity,
Rathe to destroy, niggard in charity,
Pull down thy vanity,
I say pull down.

But to have done instead of not doing
this is not vanity
To have, with decency, knocked
That a Blunt should open
To have gathered from the air a live tradition
or from a fine old eye the unconquered flame
This is not vanity.
Here error is all in the not done,
all in the diffidence that faltered . . .