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domingo, dezembro 14, 2025

Eu sou trezentos...

 (7.VI.21929)


Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

As sensações renascem de si mesmas sem repouso,

Oh espelhos, ôh! Pireneus! ôh caiçaras!

Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!


Abraço no meu leito as milhores palavras,

E os suspiros que dou são violinos alheios;

Eu piso a terra como quem descobre a furto

Nas esquinas, nos taxís, nas camarinhas seus próprios beijos!


Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

Mas um dia afinal eu toparei comigo...

Tenhamos paciência, andorinhas curtas,

Só o esquecimento é que condensa,

E então minha alma servirá de abrigo. 


Mário de Andrade. Poesias Completas. São Paulo: Martins; Brasília: INL, 1972. 

domingo, fevereiro 13, 2022

Mário de Andrade - 1922 (Tarsila do Amaral)

 

Quando eu morrer quero ficar,

Não contem aos meus inimigos,

Sepultado em minha cidade,

            Saudade.


Meus pés enterrem na rua Aurora,

No Paiçandu deixem meu sexo,

Na Lopes Chaves a cabeça

               Esqueçam.


No Pátio do Colégio afundem

  O meu coração paulistano:

Um coração vivo e um defunto

            bem juntos.


Escondam no Correio o ouvido

Direito, o esquerdo nos Telégrafos,

  Quero saber da vida alheia,

              Sereia. 


O nariz guardem nos rosais,

A língua no alto do Ipiranga


Para cantar a liberdade.

               Saudade...


Os olhos lá no Jaraguá

Assistirão ao que há-de vir,

O joelho na Universidade,

            Saudade...


As mãos atirem por aí,

Que desvivam como viveram,

As tripas atirem pro Diabo,

Que o espírito será de Deus.

             Adeus. 

terça-feira, abril 28, 2020

Mário de Andrade/Amy Lowell - "Delfim na água azul"

Vai! Murmulhando salta!
Água azul
Água rósea
Turbilhona, pincha, flutua
focinha no vácuo da vaga
mergulha, volteia
encurva por baixo
por cima
Corte de navalha e se afunda
rola, revira
erecta-se e espirra no céu
todo rosadas, flamantes gotinhas
Anela-se no fundo
pingo
focinho para baixo
curva
cauda
mergulha
e se vai
Como bolhas leves de água azulada
leve, oleoso cobalto
coleante, líquido lápis-lazúli
cambiantes esmeraldinas
pinceladas de róseo e amarelo
escorregões prismáticos
sob o céu de ventania...

Tradução de Mário de Andrade (in: A Escrava que não é Isaura, 1928)

Hey! Crackerjack—jump!
Blue water,
Pink water,
Swirl, flick, flitter;
Snout into a wave-trough,
Plunge, curl.
Bow over,
Under,
Razor-cut and tumble.
Roll, turn—
Straight—and shoot at the sky,
All rose-flame drippings.
Down ring,
Drop,
Nose under,
Hoop,
Tail,
Dive,
And gone;
With smooth over-swirlings of blue water,
Oil-smooth cobalt,
Slipping, liquid lapis lazuli,
Emerald shadings,
Tintings of pink and ochre.
Prismatic slidings
Underneath a windy sky.

sábado, janeiro 19, 2019

Heine em tradução - Gonçalves Dias, Manuel Bandeira, Mário de Andrade

Du schönes Fischermädchen
Treibe das Kahn ans land;
Komm zu mir und setze dich nieder,
Wir kosen, Hand in Hand.

Leg'an mein Herz dein Kopfchen
Und furcht dich nicht so sehr
Vertraust du dich doch sorglos
Täglich dem wilden Meer!

Mein Herz gleicht dem Meere,
Hat Sturm und Ebb und Flut,
Und mache schöne Perle
I seiner Tiefe ruht.

Tradução de Gonçalves Dias:

Vem, ó bela gondoleira!
Ferra a vela, - junto a mim
Te assenta...Quero as mãos dadas,
E conversemos assim.

Põe ao meu peito a cabeça.
Não tens de que recear.
Que sem temor, cada dia,
Te fias do crespo mar!

Minha alma semelha o pego,
Tem maré, tormenta e onda;
Mas finas pérolas encontra
Nos seus abismos a sonda.

Tradução de Manuel Bandeira:

Vem, linda peixeirinha,
Trégua aos anzóis e aos remos!
Senta-te aqui comigo,
Mãos dadas conversemos.

Inclina a cabecinha
E não temas assim:
Não te fias do oceano?
Pois fia-te de mim!

Minh'alma, como o oceano,
Tem tufões, correntezas,
E muitas lindas pérolas
Jazem nas profundezas.


Tradução de Mário de Andrade:

Peixeira linda,
do barco vem;
Senta a meu lado,
Chega-te bem.

Ouves meus peito?
Porque assustar!
Pois não te fias
Ao diário mar?

Como ele, eu tenho
Maré e tufão,
Mas fundas pérolas
No coração.