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quinta-feira, junho 20, 2019

Sófocles: Antígona, Ode ao Homem (vv.332-375) - 9 traduções

Πολλὰ τὰ δεινὰ κοὐδὲν ἀν-
θρώπου δεινότερον πέλει·
τοῦτο καὶ πολιοῦ πέραν
πόντου χειμερίῳ νότῳ
χωρεῖ, περιβρυχίοισιν
περῶν ὑπ' οἴδμασιν, θεῶν
τε τὰν ὑπερτάταν, Γᾶν
ἄφθιτον, ἀκαμάταν, ἀποτρύεται,
ἰλλομένων ἀρότρων ἔτος εἰς ἔτος,
ἱππείῳ γένει πολεύων.


Κουφονόων τε φῦλον ὀρ-
νίθων ἀμφιβαλὼν ἄγει,
καὶ θηρῶν ἀγρίων ἔθνη
πόντου τ' εἰναλίαν φύσιν
σπείραισι δικτυοκλώστοις
περιφραδὴς ἀνήρ· κρατεῖ
δὲ μηχαναῖς ἀγραύλου
θηρὸς ὀρεσσιβάτα, λασιαύχενά θ'
ἵππον <ὑπ>άξεται ἀμφίλοφον ζυγὸν
οὔρειόν τ' ἀκμῆτα ταῦρον.


Καὶ φθέγμα καὶ ἀνεμόεν
φρόνημα καὶ ἀστυνόμους
ὀργὰς ἐδιδάξατο, καὶ δυσαύλων
πάγων <ἐν>αίθρεια καὶ
δύσομβρα φεύγειν βέλη
παντοπόρος· ἄπορος ἐπ' οὐδὲν ἔρχεται
τὸ μέλλον· Ἅιδα μόνον
φεῦξιν οὐκ ἐπάξεται, νό-
σων δ' ἀμηχάνων φυγὰς
ξυμπέφρασται.

Σοφόν τι τὸ μηχανόεν
τέχνας ὑπὲρ ἐλπίδ' ἔχων,
τοτὲ μὲν κακόν, ἄλλοτ' ἐπ' ἐσθλὸν ἕρπει,
νόμους παρείρων χθονὸς
θεῶν τ' ἔνορκον δίκαν
ὑψίπολις· ἄπολις ὅτῳ τὸ μὴ καλὸν
ξύνεστι τόλμας χάριν·
μήτ' ἐμοὶ παρέστιος γέ-
νοιτο μήτ' ἴσον φρονῶν
ὃς τάδ' ἔρδοι.

Trad. Jaa Torrano (2019)
Muitos os terrores e nenhum
mais terrível do que o homem.
Ele além do mar grisalho
vai ao vento tempestuoso
através dos vagalhões
fragorosos e extenua
a suprema dos Deuses
Terra imortal infatigável
volvendo ano após ano
o arado com o equino.

Ele circunda e captura
o bando de aves leves,
a grei de feras agrestes
e a salina fauna marinha
nas dobras urdidas da rede,
prudente varão: domina
com perícia a selvagem
fera montesa, mantém
crinudo equino sob jugo
e indômito touro montês.

Aprendeu a palavra,
a inteligência volátil,
as urbanas maneiras,
a fuga da geada inóspita
do céu e das intempéries,
multívio, ínvio a nenhum
porvir. Somente de Hades
não saberá fugir,
dos males impossíveis
descobriu a fuga.

Por hábil perícia de arte
além da expectativa
vai ora mal, ora bem;
venerando leis da terra
e jurada justiça dos Deuses,
alto na urbe; sem urbe
se por audácia não bem.
Não seja meu conviva
nem pense igual a mim
quem age assim!


Trad. Márcio Mauá Chaves (2014)

Há muitos prodígios, mas nada
é mais prodigioso que o homem.
Mesmo através do mar grisalho,
por Noto invernal impelido,
ele vai, cruzando-o sob fundos
vagalhões ao redor, e a Terra,
dentre os deuses a suprema,
inexaurível, imortal, ele consome,
num ir e vir dos arados ano após ano,
revolvendo-a com espécie equestre.

A tribo das aves levianas,
a raça das feras agrestes,
e a prole marinha do ponto
faz ele cativas cercando-as
nas tramas de rede tecidas,
homem de engenho; com suas artes
domina a fera selvagem
nas montanhas, e com jugo em torno à cerviz
doma não só o cavalo de longas crineiras
mas touro montês incansável.

Palavras e ágeis pensamentos,
e a índole para ordenar
as cidades ensinou-se, e a fugir
do ar livre em montes inóspitos
e dos dardos tempestuosos -
pleno é de meios, sem meios a porvir algum
ele vai; da Morte apenas
não terá como escapar,
mas de moléstias intratáveis
concebe a fuga.

Com tal aparato das artes,
um saber além do esperado,
vai ora para o mal, ora para o bem.
Honrando as normas da terra
e a Lei jurada por deuses,
alto é na pólis; da pólis um pária o que ao mal
se coliga por audácia.
Do meu lar não compartilhe,
tampouco de meus pensamentos,
o que age assim.

Trad. Trajano Vieira (2009)
Somam-se os assombros,
mas o homem ensombra o próprio assombro.
A rajada sul o açula
e ele singra o oceano cinza,
sub
adentra ondas amplirrumorejantes,
Ano a ano,
consome, com manobras
do arado que a raça eqüina arrasta,
a Terra,
imorredoura, infatigável,
hipercelestial.

Arresta às aves, laivos leves,
ao tropel de feras infrenes,
à prole marinha
enreda na trama que entreteceu,
o homem hiperlúcido.
Não carece de mecanismos para dominar,
a céu aberto,
na grimpa,
a fera arisca;
subjuga o corcel de crina hirta
e o touro torvo nos píncaros.

Aprende a linguagem,
o que é pensar: um sopro;
o afã das leis que civilizam,
a fuga ao gelo que fustiga
quando tempestua.
Nem a aporia do porvir poria em apuro
o sem-apuro em sua busca.
Apenas do Hades
ignora como evadir,
apesar da descoberta paliativa
às moléstias mais renitentes.

Seu domínio dos meandros da arte
transcende o esperável;
ora ao vil,
ora ao sutil
se encaminha.
Paladino das leis locais
e da justiça que jura aos numes,
encabeça a pólis; um sem-pólis,
se, truculento,
comete o não-belo.
Longe da lareira do meu lar,
não divida comigo um único pensamento!


Trad. Lawrence Flores Pereira (2006)

Há muitos assombros,
mas nada tão assombroso
quanto o homem. É ele que,
sobre o branco do mar,
por entre os vórtices das vagas,
foge ao tempestuoso vento sul.
E a maior dentre as deusas, a terra
indestrutível e infatigável, ele gasta
indo e vindo o arado ano a ano,
lavrando com a estirpe eqüina.

E o povo dos voadores pássaros
o homem destro em rastros, com redes
bem tramadas, após emboscá-lo
o caça, e a tribo da animalha bruta,
e a prole que do sal do mar se nutre,
e enreda com trapas as feras rudes
que rondam nos penhascos,
e o cavalo de lombo hirsuto
ele o prende, jugando a nuca,
e o indomável touro das montanhas.

E a palavra e o pensamento alado
e o elã que governa a cidade
aprendeu, e a fugir das borrascosas
flechas e dos granizos
dos inóspitos climas:
pleno de tramas, preso nas tramas
de nada que está por vir. Só não sabe
fugir ao sítio dos mortos,
mas contra as insanáveis pragas
um remédio ele urdiu.

Tendo algo do sábio e dos ardis
da arte bem mais que o esperado,
um dia alcança o mal, no outro, o bem.
Urdindo nas leis da terra
e na justiça jurada aos deuses,
é um grande na pátria, pária na pátria
se na audácia lhe escapa o bem.
Jamais partilhe meu Fogo
nem meus pensares
quem assim age.

Trad. Sueli de Regino (2004)
Muitos são os prodígios, no entanto,
nada é mais prodigioso do que o homem,
esse que estendeu o seu poder sobre as ondas
do mar cinzento e, sob o impulso de Noto,
o tempestuoso, atravessou abismos revoltos.
Também a divina Gaia, incansável, imperecível,
ele a revolve com o arado, ano após ano,
ajudado pela força da raça dos cavalos.

A raça das aves ligeiras,
ele captura e aprisiona;
a raça dos animais selvagens,
assim como a dos seres do mar,
é colhida nas malhas das redes
do engenhoso homem.
Com habilidade ele persegue
os animais que vagueiam
pelas matas. Nas montanhas,
domina o cavalo, de longas crinas,
envolvendo-lhe o pescoço
com o jugo das rédeas. Nos montes,
submete o incansável touro.

E a palavra, o espírito ligeiro,
as leis que protegem a vida na pólis,
tudo isso ele aprendeu por si mesmo.
E ainda, as grandes tempestades,
que arremetem geladas setas,
ele também soube enfrentar.
Somente de Hades, certamente,
ele não pode escapar, embora,
quando bem aconselhado,
saiba enfrentar as doenças.

Sua habilidade e inventividade,
ora o levam ao mal, ora ao bem.
Quando honra as leis da terra
e acredita na justiça dos deuses,
recebe elevadas honras na pólis,
porém, se por atrevimento,
ousar insultá-la, será desterrado.
Nesse caso, que se afaste
dos altares do meu lar
e dos meus pensamentos,
todo aquele que assim proceder.


Trad. Donaldo Schüler (1999)

De tantas maravilhas,
mais maravilhoso de todas é o homem.
O espumante mar nos ímpetos dos ventos austrais
sulca, bramantes
ondas fende,
e cultiva a dos deuses mãe, a Terra,
imortal, incansável,
revolvendo-a ano após ano
com arados movidos por força equina.

A linhagem das leves aves
leva capturadas
e as raças das feras agrestes,
peixes em penca prende
nas malhas das redes
o homem perspicaz;
engenhoso persegue a fera
fauna dos montes,
doma corcéis,
ao duro jugo
sujeita touros sanhudos.

A voz, o pensar
volátil e as urbanas leis
das assembleias ele as ensinou
a si mesmo, fugiu
da áspera agressão do frio
e dos dardos das tempestades.
Aparelhado, desaparelhado, não acata nada
do que lhe advém; só da morte
fuga não lhe acena,
ainda que de indômitas moléstias
alcance escape.

De saber fecundo, move recursos inesperados
ora ao bem, ora ao mal.
Una as leis da terra
à justiça jurada
dos deuses, e amuralhado será;
desamuralhado
se saiba, porém,
atrevendo-se a insultá-las.
De meus altares
não se aproxime
nem perturbe meu pensar quem assim procede.


Trad. Mário da Gama Kury (1989)

Há muitas maravilhas, mas nenhuma
é tão maravilhosa quanto o homem.
Ele atravessa, ousado, o mar grisalho,
impulsionado pelo vento sul
tempestuoso, indiferente às vagas
enormes na iminência de abismá-lo;
e exaure a terra eterna, infatigável,
deusa suprema, abrindo-a com o arado
em sua ida e volta, ano após ano,
auxiliado pela espécie equina.
Ele captura a grei das aves lépidas
e as gerações dos animais selvagens:
e prende a fauna dos profundos mares
nas redes envolventes que produz,
homem de engenho e artes inesgotáveis.
Com suas armadilhas ele prende
a besta agreste nos caminhos íngremes;
e doma o potro de abundante crina,
pondo-lhe na cerviz o mesmo jugo
que amansa o fero touro das montanhas.
Soube aprender sozinho a usar a fala
e o pensamento mais veloz que o vento
e as leis que disciplinam as cidades,
e a proteger-se das nevascas gélidas,
duras de suportar a céu aberto,
e das adversas chuvas fustigantes;
ocorrem-lhe recursos para tudo
e nada o surpreende sem amparo;
somente contra a morte clamará
em vão por um socorro, embora saiba
fugir até de males intratáveis.
Sutil de certo modo na inventiva
além do que seria de se esperar,
e na argúcia, que o desvia às vezes
para a maldade, às vezes para o bem,
se é reverente às leis da sua terra
e segue sempre os rumos da justiça
jurada pelos deuses ele eleva
à máxima grandeza a sua pátria.
Nem pátria tem aquele que, ao contrário,
adere temerariamente ao mal;
jamais quem age assim seja acolhido
em minha casa e pense igual a mim!


Trad. Guilherme de Almeida (2003 [1952 1a ed.])

Muitos milagres há, mas o mais portentoso é o homem.
Ele, que singra o mar sorrindo ao tempestuoso Noto,
galgando vagalhões
que escancaram em torno o abismo;
e que a deusa suprema, a Terra,
a eterna infatigável,
ano após ano, rasga a arado e pisa com cavalos.
E da espécie dos pássaros volúveis faz sua presa,
e à raça das bestas-feras,
e à nadante no oceano
estende as malhas que teceu
e, destro, as aprisiona;
e com artifícios doma a agreste
fera do monte, e laça o cavalo
de farta crina,
e o touro incansável das montanhas.
Palavras e pensamentos,
fugazes como o ar, e leis
a si mesmo ensinou; e do gelo
e da chuva inóspitos,
de tudo se defende; e, assim armado,
nada do que pode acontecer receia.
Somente à morte
não sabe como fugir,
embora às piores doenças saiba achar remédio.
Senhor de arte e de engenho que ultrapassam qualquer sonho,
pode preferir tanto o mal como o bem.
Quando respeita as leis
e os juramentos dos deuses,
é digno da pátria; mas é sem pátria
o que por orgulho a conduz ao mal:
esse não entre em minha casa
nem comigo tenha um pensamento igual.

J.B.Mello e Souza (1950)

Numerosas são as maravilhas da natureza, mas de todas a maior é o Homem! Singrando os mares espumosos, impelido pelos ventos do sul, ele avança, e arrosta as vagas imensas que rugem ao redor! Gêm, a suprema divindade, que a todas as mais supera, na sua eternidade, ele a corta com suas charruas que, de ano em ano, vão e vêm, revolvendo e fertilizando o solo, graças à força das alimárias!
A tribo dos pássaros ligeiros, ele a captura, ele a domina; as hordas de animais selvagemns, e de viventes das águas do mar, o Homem imaginoso as prende nas malhas de suas redes. E amansa, igualmente, o animal agreste, bem como o dócil cavalo, que o conduzirá, sob o jugo e os freios, que o prendem dos dois lados; bem assim o touro bravio das campinas.
E a língua, o pensamento alado, e os costumes moralizados, tudo isso ele aprendeu! E também, a evitar as intempéries e os rigores da natureza! Fecundo em seus recursos, ele realiza sempre o ideal a que aspira! Só a Morte, ele não encontrará nunca, o meio de evitar! Embora de muitas doenças, contra as quais nada se podia fazer outrora, já se descobriu remédio eficaz para a cura.
Industrioso e hábil, ele se dirige, ora para o bem...ora para o mal...Confundindo as leis da natureza, e também as leis divinas a que jurou obedecer, quando está à frente de uma cidade, muita vez se torna indigno, e pratica o mal, audaciosamente! Oh! Que nunca transponha a minha soleira, nem repouso junto a meu fogo, quem não pense como eu, e proceda de modo tão infame!

Barão de Paranapiacaba (1909)

Entre os muitos prodígios do mundo,
O homem forma o prodígio maior;
Ele doma o oceano profundo,
Que, espumante, lhe muge em redor,
       Ao sopro dos nimbosos
       Nótos impetuosos.

       Volve, do arado ao gume,
        Em annual semeio
        Da Terra, antigo Nume,
       O inexhaurível seio.
       Tem, para auxilial-o,
       A força do cavallo.

Para as aves, que giram na esphera,
Dispõe visco, gaiola e boiz;
Arma laços nos bosques á féra
E nas agoas aos peixes subtis.
         Com rêde, facho e engodo
         Cardumes colhe, a rôdo.

         Da opaca selva tira
         Cavallo de amplas crinas
         E o touro, que respira
         Ar flammeo das narinas;
         A'quelle um freio ageita,
         Ao jugo este sujeita.

Fala; e tem altas cousas expresso;
Dá leis sábias e povos dirige;
Contra os riscos ha feito recesso
Nas seguras moradas, que erige.
         
         Dalli um desafio
         Arroja ao vento, ao frio.
         E firme na insistencia
         De tudo prevenir
         Estende a providencia
         Aos males ]do porvir.
        E, sem que a morte vença,
        Dá golpes na doença

Engenhoso da industria no invento,
Habil, destro, qual não se imagina,
Ora, ao bem elle applica o talento,
Ora, a força do mal o domina;
        E abusa do poder
        Para as leis corromper.

Si é chefe e as leis arrostra,
De crimes polluido
Seja eloquente amostra
De um rei destituido.
Mas nunca o mesmo abrigo
Comparta elle comsigo.*

[*Nota do TradutorLiteralmente: "Grande ao Estado, ajuntando a esta industria as leis de sua patria e o direito sagrado dos Deoses, mas indigno do nome de cidadão é aquelle a quem o que não é bello se prende por causa de sua audacia. Jamais o que pratica estas cousas, se assentará ao mesmo lar, nem pensará como eu.


FONTES:
ALMEIDA, G; VIEIRA, T. Três Tragédias Gregas. São Paulo: Perspectiva, 2003.
CHAVES, M.M. Os Cantos de Sófocles: tradução e análise de gênero e metro das passagens líricas d'As traquínias, Ájax e Antígona. Dissertação de Mestrado. São Paulo: DLCV/FFLCH/USP.
KURY, M. (trad.) Sófocles. A Trilogia Tebana: Édipo Rei, Édipo em Colono, Antígona. Rio de Janeiro: Zahar, 1989.
MELLO E SOUZA, J.B. (trad.) Teatro Grego. São Paulo: W.M. Jackson Editores. 1950
PEREIRA, L.F. (trad.) SÓFOCLES. Antígona. São Paulo: Topbooks, 2006.
SCHÜLER, D. (trad.). SÓFOCLES. Antígone. Porto Alegre: L&PM. 1999.
SERRA, O. REGINO, S de. (trad.). SÓFOCLES. Édipo Rei, Antígona. Sâo Paulo: Martin Claret, 2015.
TORRANO, J. Mito e Imagens Míticas. São Paulo: Córrego, 2019.
VIEIRA, T. (trad.) Antígone de Sófocles. São Paulo: Perspectiva, 2009.

quinta-feira, agosto 20, 2009

Prólogo de Bacas, vv. 01 - 63 - Três traduções

Dioniso:

Venho a esta terra tebana, filho de Zeus,
Dioniso, que nasce da filha de Cadmo,
Sêmele, partejada por relampeado fogo.
Troquei a forma de Deus pela humana,
presente às águas de Dirce e às de Ismeno.
Vejo monumento à minha mãe fulminada
lá perto das casas e ruínas do palácio
a fumarem chama ainda viva do fogo de Zeus,
imortal agressão de Hera à minha mãe.
Louvo Cadmo que tornou intocável este chão,
o recinto da filha; eu o cobri todo
ao redor com o cacheado verdor da videira

Deixei auríferos hectares lídios e frígios
percorri planaltos pérsios sob forte sol,
muralhas báctrias, a terra tempestuosa
dos medos, a Arábia de bom Nume
e toda a Ásia deitada à beira do salso mar
com as suas bem torreadas cidades
cheios de gregos e bárbaros mesclados,
e vim a esta cidade dos gregos primeiro.

Também lá fiz coros e instituí mistérios
meus, para manifestar-me Nume aos mortais.
Primeiro em Tebas nesta terra grega
alarideei e atei a nébrida ao corpo
e nas mãos pus o tirso, hederoso dardo;
pois irmãs de minha mãe, as que menos deviam,
diziam que Dioniso não surgiu de Zeus,
que Sêmele, feita mulher por algum mortal,
atribuiu a Zeus o desacerto com o leito,
sofismas de Cadmo, assim Zeus a matou
porque mentiu núpcias, alardeavam elas.
Por isso, de suas casas eu as aguilhoei
com a loucura e habitam a montanha aturdidas.
Obriguei-as a ter paramentos de meus trabalhos,
e toda a fêmea semente, quantas cadméias
havia, enlouqueci em seus lares:
junto com as filhas de Cadmo misturadas
sob verdes abetos correm por pedras sem teto.
Deve esta cidade saberm ainda que não queira,
que não está iniciada em meus Baqueumas,
e devo pronunciar a defesa de mãe Sêmele
manifesto aos mortais Nume que ela deu a Zeus.
Cadmo outorga o privilégio e o poder
a Penteu, rebento de sua filha Agave.
Este combate o Deus em mim e repele-me
das libações, nem de mim se lembra nas preces.
Por isso mostrar-lhe-ei que Deus nasci
e aos tebanos todos. Após bem me pôr aqui
voltarei o pé para uma outra terra
a mostrar-me. E se a cidade tebana irada
tentar com armas expulsar da montanha
as Bacas, atacarei chefiando as Loucas.
Por isso alterado tenho aspecto de mortal
e minha forma transmutei em ser humano.
Ó vós que deixastes Tmolo abrigo da Lídia,
eia! Tíaso meu, mulheres que dos bárbaros
conduzi sequazes das pousadas e percursos,
erguei os tamborins nativos da cidade
dos frígios, invenção de mãe Réia e minha,
vinde ao redor do régio palácio de Penteu
e percuti, para que o povo de Cadmo veja.
Eu com as Bacas às dobras do Citéron
irei onde estão e participarei dos coros.

Tradução de Jaa Torrano

Fonte: EURÍPIDES. Bacas. Tradução e estudo de Jaa Torrano. São Paulo: Hucitec, 1993.


Dioniso:

Deus, filho de Zeus, chego a Tebas ctônia,
Dioniso. Deu-me à luz Semele cádmia.
O raio - Zeus porta-fogo - fez-me o parto.
Deus em mortal transfigurado, achego-me
ao rio Ismeno, ao minadouro dírceo.
Avisto o memorial de minha mãe
relampejada junto ao paço. Escombros
de sua morada esfumam com o fogo,
ainda flâmeo, de Zeus, ultraje eterno
de Hera contra Semele. Louvo Cadmo:
sagrou à filha o espaço não-pisado,
que circum-ocultei com verdes vinhas
em cachos. Deixo Lídia e Frígia pluri-
-áureas; plainos da Pérsia calcinados;
Báctria emurada; a Média, terra gélida;
Arábia venturosa; pleniaberta
ao mar salino, a Ásia, onde, em tantas urbes
de torres multilindas, grego e bárbaro
compunham gigantesco aglomerado.
Na Grécia, por aqui me introduzi.
Fundei meu rito em coros dançarinos:
um deus-demônio, ao homem manifesto.
À trra dos tebanos vim primeiro.
A pele nébrida ajustei aos corpos
sobreululando, o tirso e o dardo de hera
dei-lhes. Me denegriu quem não devia,
as minhas tias maternas: "Não é deus
Dioniso! Não é filho de Zeus! Grávida
de outro qualquer, Semele o inculpou pela
própria falta." Sofismam, como Cadmo:
a mãe falsária, Zeus, então, matara-me!
Eis a razão de eu, para o monte, atraí-las,
maníacas de furor, fêmeas frenéticas.
Fêmeas tebanas portam, todas elas
forçadas, paramentos para a orgia,
tresloucadas, dos lares, todas, extra-
-ditadas, turba entremesclada às Cádmias,
sob o cloroso abeto, sobre as pedras.
Malgrado seu, aprenda a cidadela
não ter sido iniciada em meus baqueus.
Da mãe Semele faço a apologia:
mostro-me um deus-demônio, o sêmen nela
de Zeus. Cadmo a Penteu, filho de uma outra
filha, outorga o apanágio de tirano-
-rei. Contra mim, Penteu move uma teo-
-maquia: libações me nega e preces.
Por isso eu lhe indigito minha origem
divina e a Tebas toda. Implanto aqui
o rito, e os pés, alhures, logo movo
em minha epifania. Mas se em furor
de hoplita a pólis planejar tirá-las
do pico, eu lutarei, chefiando as loucas.
Por isso, num mortal me transfiguro,
a forma antiga em natureza humana.
Atrás de nós ficou a serra tmólia,
baluarte lídio, ó fêmeas do meu tíaso,
companheiras de périplo e repouso!
Alçando frígios tímpanos, ó bárbaras,
invento de Mãe-Réia, meu próprio invento,
circundai a morada basiléia,
ressoai - que o presencie a pólis de Cadmo!
Assim, voltando ao Ptýks, reentrância do
Citero, me reintegro ao coro báquico.

Tradução de Trajano Vieira

Fonte: VIEIRA, T. As Bacantes de Eurípides. São Paulo: Perspectiva. 2003.


Diôniso

Estou aqui, chegando à terra dos tebanos,
eu, o próprio Diôniso, filho de Zeus,
que há muitos anos a filha do antigo Cadmo,
Semele, trouxe ao mundo graças ao fulgor
de um divino relâmpago vindo das nuvens.
Tomei a forma humana para freqüentar
as nascentes de Dirce e as águas do Ismeno.
Já posso ver junto ao palácio a sepultura
de minha mãe - pobre Semele! - fulminada
por um raio e as ruínas de sua morada
ainda fumegantes do fogo de Zeus,
testemunho perene da vingança de Hera
e um violento insulto à minha amada mãe.
É meu dever também agradecer a Cadmo
por haver feito deste solo, inviolável
aos passos dos mortais, o altar de sua filha,
que vim cercar de videiras cheias de uvas.
Cruzei a Lídia e sua terra aurífera
e as planícies da Frígia e viajei
para os ensolarados planaltos da Pérsia,
e a Bactriana com suas muralhas altaneiras,
e a Média, gelada durante o inverno,
e até o extremo da Arábia Feliz,
e toda a Ásia, enfim, cujo limite
são as ondas salgadas, com suas cidades
cercadas por belas muralhas, onde gregos
se misturaram com diversas raças bárbaras.
A primeira cidade grega que visito
é esta aqui. Em muitas regiões distantes
organizei meus coros, implantei meus ritos,
para manifestar-me aos homens como um deus.
A minha preferida entre as cidades gregas
é Tebas, onde já se ouviram meus clamores.
As mulheres tebanas, mais fiéis a mim,
já se dispõem a vestir peles de corças,
e pus em suas mãos o tirso, este dardo
ornado com ramos de hera sempre verdes.
De fato, as irmãs de minha querida mãe,
que em primeiro lugar deviam poupar-me
de tal insulto, declararam que eu, Diôniso,
não sou filho do grande Zeus e que Semele,
ludibriada por um amante mortal
e mal aconselhada pelo próprio Cadmo,
havia atribuído seu pecado ao deus.
Em altos brados elas proclamavam que,
se Zeus a fulminou, foi para castigá-la
por ter tido a idéia de vangloriar-se
de amores com um deus. Por isso compeli
todas as mulheres de Tebas a deixarem
seus lares sob o aguilhão do meu delírio.
E agora, vítimas de mente transtornada,
elas passaram a morar nos altos montes,
usando apenas a roupagem orgiástica.
Longe de suas casas e como dementes,
elas misturam-se com as filhas de Cadmo
em cima dos rochedos e sob os pinheiros
perenemente verdes. Mesmo constrangida,
esta cidade terá de reconhecer
a grande falta que lhe fazem minhas danças
e meus mistérios, para que eu possa vingar
a honra de Semele, minha amada mãe,
aparecendo aqui a todos os mortais
como o deus que ela um dia concebeu e teve,
depois de unir-se a Zeus. E Cadmo transmitiu
suas reais prerrogativas a Penteu,
filho de sua filha, que faz contra mim
guerra constante à minha condição divina.
Ele sempre me exclui de suas libações
e nunca diz meu santo nome em suas preces.
Mas poderei provar-lhe e provar aos tebanos
que fui realmente gerado por um deus.
Depois de acertar tudo como quero aqui,
dirigirei meus passos a outros lugares
e me darei a conhecer por toda a parte.
Mas se a cidade dos tebanos, tresloucada,
tentar trazer do cume dos montes mais altos
minhas Bacantes recorrendo à força bruta
e às armas, então marcharei com minhas tropas
de Mênades enfurecidas contra Tebas.
Com esta intenção apareci aqui
como se fosse um dos mortais e transformei
em corpo humano minha condição divina.
Vamos, vós, que preferistes deixar o Tmolo,
a muralha da Lídia, vós, componentes
de meu cortejo, minhas queridas mulheres
que me acompanham sempre desde as terras bárbaras,
vós todas que morais e caminhais comigo,
vós que agitai os tamborins feitos na Frígia
(uma invenção de Réa, a Grande Mãe, e minha).
Vinde e ficai junto ao palácio de Penteu,
tocando-os para atrair sobre vós mesmas
a curiosidade de Tebas Cadméia,
enquanto, sempre ao lado de nossas Bacantes,
conduzirei seus coros até o sopé
do altíssimo Citéron, onde ficaremos.


Tradução de Mário da Gama Kury


Fonte: EURÍPIDES. Ifigênia em Áulis, As Fenícias, As Bacantes. Tradução de Mário da Gama Kury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editora, 1993.