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quinta-feira, junho 04, 2026

À Maneira de G.S.

 Para onde quer que eu viaje, a Grécia me dói.

No Pélion em meio às castanheiras a camisa do Centauro
deslizava entre as folhas para vir enrolar-se no meu corpo
enquanto eu galgava a encosta e o mar me acompanhava
até chegarmos às águas da montanha. 
Em Santorini tocando eu ilhas que afundavam
escutando uma flauta soar algures entre as pedras-pomes
a mão pregou-me à amurada do navio
uma seta de súbito lançada
dos confins da esvanecida juventude.
Em Micenas ergui as grandes pedras e os tesouros dos Átridas
e junto deles me deitei no hotel "A Bela Helena de Menelau";
só desapareceram na alva ao canto da Cassandra
com um galo a lhe pender do colo negro.
Em Spetse em Míconos em Poros
enfadou-me ouvir as barcarolas.

Que pretendem esses todos quando dizem
que podem ser achados em Atenas ou no Pireu?
um vem de Salamina e quer saber de um outro se ele "vem da Omônia"

"Não, venho do Síntagma" responde ancho de si.
"Encontre o Yánnis e convidou-me a um sorvete."
No entrementes é a Grécia que viaja
não sabemos de nada não sabemos quem somos nós desembarcados
ignoramos a a amargura do porto quando os barcos todos já partiram
escarnecemos aqueles que ainda a sentem.

Estranha gente que pretende achar-se na Ática e não está em parte alguma;
compram confeitos de amêndoas quando vão casar
usam "loção para o cabelo" fotografam-se
o homem que hoje vi sentado em frente de um telão com flores e pombinhos
permitia que a velha mão do fotógrafo alisasse as rugas
que lhe deixaram na pele do rosto
os galos do céu.

No entrementes é a Grécia que viaja ela toda que viaja
e se "vemos o mar Egeu a florir de cadáveres"
são daqueles que quiseram tomar o grande barco nadando-lhe ao encontro
daqueles que cansaram de esperar navios que já não
parte o "Samotrácia" o "Elsie" o "Ambracia".
Apitam os navios agora que anoitece no Pireu
todos apitam todos mas não se move cabrestante 
algum corrente alguma que úmida cintile à luz agonizante
o capitão está ali de pedra em meio aos astros e os galões.

Para onde quer que eu viaje a Grécia me dói.
cadeias de montanhas, arquipélagos, grandes escalavrados.
O navio a viajar é o "Agonia 937".

A bordo da Aulide, à espera de zarpar.
Verão de 1936.


Tradução de José Paulo Paes. 

Όπου και να ταξιδέψω η Ελλάδα με πληγώνει.

Στο Πήλιο μέσα στις καστανιές το πουκάμισο του Κενταύρου
γλιστρούσε μέσα στα φύλλα για να τυλιχτεί στο κορμί μου
καθώς ανέβαινα την ανηφόρα κι η θάλασσα μ’ ακολουθούσε
ανεβαίνοντας κι αυτή σαν τον υδράργυρο θερμομέτρου
ώσπου να βρούμε τα νερά του βουνού.
Στη Σαντορίνη αγγίζοντας νησιά που βουλιάζαν
ακούγοντας να παίζει ένα σουραύλι κάπου στις αλαφρόπετρες
μου κάρφωσε το χέρι στην κουπαστή
μια σαΐτα τιναγμένη ξαφνικά
από τα πέρατα μιας νιότης βασιλεμένης.
Στις Μυκήνες σήκωσα τις μεγάλες πέτρες και τους θησαυρούς των Ατρειδών
και πλάγιασα μαζί τους στο ξενοδοχείο της «Ωραίας Ελένης του Μενελάου»·
χάθηκαν μόνο την αυγή που λάλησε η Κασσάντρα
μ’ έναν κόκορα κρεμασμένο στο μαύρο λαιμό της.
Στις Σπέτσες στον Πόρο και στη Μύκονο
με χτίκιασαν οι βαρκαρόλες.

Τί θέλουν όλοι αυτοί που λένε
πως βρίσκουνται στην Αθήνα ή στον Πειραιά;
Ο ένας έρχεται από τη Σαλαμίνα και ρωτάει τον άλλο μήπως «έρχεται εξ Ομονοίας»
«Όχι έρχομαι εκ Συντάγματος» απαντά κι είν’ ευχαριστημένος1
«βρήκα το Γιάννη και με κέρασε ένα παγωτό».
Στο μεταξύ η Ελλάδα ταξιδεύει
δεν ξέρουμε τίποτε δεν ξέρουμε πως είμαστε ξέμπαρκοι όλοι εμείς
δεν ξέρουμε την πίκρα του λιμανιού σαν ταξιδεύουν όλα τα καράβια·
περιγελάμε εκείνους που τη νιώθουν.

Παράξενος κόσμος που λέει πως βρίσκεται στην Αττική και δε βρίσκεται πουθενά·
αγοράζουν κουφέτα για να παντρευτούνε
κρατούν «σωσίτριχα» φωτογραφίζουνται
ο άνθρωπος πού ειδα σήμερα καθισμένος σ’ ένα φόντο με πιτσούνια και με λουλούδια
δέχουνταν το χέρι του γερο-φωτογράφου να του στρώνει τις ρυτίδες
που είχαν αφήσει στο πρόσωπό του
όλα τα πετεινά τ’ ουρανού.

Στο μεταξύ η Ελλάδα ταξιδεύει ολοένα ταξιδεύει
κι αν «ὁρῶμεν ἀνθοῦν πέλαγος Αἰγαῖον νεκροῖς»
είναι εκείνοι που θέλησαν να πιάσουν το μεγάλο καράβι με το κολύμπι
εκείνοι που βαρέθηκαν να περιμένουν τα καράβια που δεν μπορούν να κινήσουν
την ΕΛΣΗ τη ΣΑΜΟΘΡΑΚΗ τον ΑΜΒΡΑΚΙΚΟ.
Σφυρίζουν τα καράβια τώρα που βραδιάζει στον Πειραιά
σφυρίζουν ολοένα σφυρίζουν μα δεν κουνιέται κανένας αργάτης
καμιά αλυσίδα δεν έλαμψε βρεμένη στο στερνό φως που βασιλεύει
ο καπετάνιος μένει μαρμαρωμένος μες στ’ άσπρα και στα χρυσά.

Όπου και να ταξιδέψω η Ελλάδα με πληγώνει·
παραπετάσματα βουνών αρχιπέλαγα γυμνοί γρανίτες…
Το καράβι που ταξιδεύει το λένε ΑΓ ΩΝΙΑ 937.

Α/π Αυλίς, περιμένοντας να ξεκινήσει.
Καλοκαίρι 1936

 Poemas de Giorgos Seféris. Seleção, tradução, introdução e notas de José Paulo Paes. São Paulo, Nova Alexandria, 1995.  

terça-feira, março 24, 2026

O Primeiro Degrau - Konstantinos Kaváfis

A Teócrito queixava-se 
um dia o jovem poeta Êumenes: 
“Há dois anos que escrevo 
e fiz um idílio somente. 
É minha única obra acabada. 
Ai de mim, é alta, vejo-o, 
muito alta a escada da Poesia; 
e deste primeiro degrau em que estou 
jamais subirei, infeliz que sou”. 
Disse Teócrito: “Essas palavras 
são inadequadas e são blasfêmias.
E se estás no primeiro degrau, deves 
estar orgulhoso e feliz. 
Aqui aonde chegaste não é pouco; 
quanto fizeste, grande glória. 
E mesmo este primeiro degrau 
dista muito das pessoas comuns. 
Para que pises neste degrau
é preciso que sejas, de pleno direito, 
cidadão na cidade das ideias. 
E naquela cidade é difícil
e raro que te inscrevam como cidadão. 
Em sua ágora encontras Legisladores 
aos quais não engana nenhum aventureiro.
Aqui aonde chegaste não é pouco; 
quanto fizeste, grande glória.

Tradução de Ísis Borges da Fonseca


Foi a Teócrito queixar-se um dia
Eumene, poeta ainda jovem:
 “Faz dois anos que escrevo e até agora
 compus apenas um idílio. 
Esse, o meu único trabalho pronto. 
Pobre de mim! Pelo que vejo, é alta, 
deveras alta, a escada da Poesia. 
Estou no primeiro degrau: jamais, 
infeliz que sou, chegarei ao topo.”
 “Essas palavras”, respondeu Teócrito, 
“são um despropósito, blasfêmias. 
Se estás no primeiro degrau, 
cumpria te sentires feliz e envaidecido.
 Chegar onde chegaste não é pouco,
 nem é pequena glória o que fizeste.
 Do primeiro degrau da mesma escada
 está bem distante o comum das pessoas.
 Para pisar esse degrau de ingresso,
 necessário é que sejas, por direito, 
cidadão da cidade das ideias – 
um título difícil: raramente 
fazem-se ali naturalizações. 
De quantos na sua ágora legislam,
aventureiro algum pode zombar. 
Chegar onde chegaste não é pouco, 
nem é pequena glória o que fizeste.

Tradução de José Paulo Paes 

quarta-feira, março 11, 2026

Nóssis (Antologia Palatina, 9, 332)

Ἐλθοῖσαι ποτὶ ναὸν ἰδώμεθα τᾶς Ἀφροδίτας 
τὸ βρέτας, ὡς χρυσῷ διαδαλόεν τελέθει. 
 εἵσατό μιν Πολυαρχίς, ἐπαυρομένα μάλα πολλὰν
 κτῆσιν ἀπ᾽ οἰκείου σώματος ἀγλαΐας.

Viemos ao templo ver a estátua 
    de Afrodite, como é forjada em ouro.
 Poliácris a ergueu e desfrutou de muitos 
    bens, graças ao esplendor do corpo dela.

Tradução de Clara Sperb

Fonte: ANTUNES, CLB; BARACAT JR., J.C.; BRUNHARA, R. Cadernos de Tradução 44: Flores da Antologia Grega. Porto Alegre: RS, IL/UFRGS. 

terça-feira, março 10, 2026

Arquíloco, 128 W: Coração, Coração...

 θυμέ, θύμ’, ἀμηχάνοισι κήδεσιν κυκώμενε,
†ἀναδευ δυσμενῶν† δ’ ἀλέξεο προσβαλὼν ἐναντίον
στέρνον †ἐνδοκοισιν ἐχθρῶν πλησίον κατασταθεὶς
ἀσφαλέως· καὶ μήτε νικέων ἀμφάδην ἀγάλλεο,
μηδὲ νικηθεὶς ἐν οἴκωι καταπεσὼν ὀδύρεο,                              5
ἀλλὰ χαρτοῖσίν τε χαῖρε καὶ κακοῖσιν ἀσχάλα
μὴ λίην, γίνωσκε δ’ οἷος ῥυσμὸς ἀνθρώπους ἔχει.

Coração, coração, por lutos inelutáveis agitado,
levanta, protege-te dos oponentes, volvendo adverso
peito, nas emboscadas inimigas próximo postado
firme; e vencendo, não exultes abertamente,
nem vencido, em casa caído lamentes,                                     5
mas com alegrias alegra-te e deplora males,
sem excesso: aprende que ritmo rege a humanidade.


Tradução: Rafael Brunhara

Fonte: Brunhara, R.; Ragusa, G. Elegia Grega Arcaica: uma antologia. São Paulo: Mnema/Ateliê, 2021. 

sábado, fevereiro 28, 2026

[Platão] - Antologia Palatina

 CORPO CELESTE

Astro diurno que, em vida, ofuscava os mortais -
és, morto, o astro da tarde e deslumbras as sombras.



Tradução de Nelson Ascher in "Um Pouco de Tudo". Link: Folha de S.Paulo - Nelson Ascher: Um Pouco de Tudo - 11/09/2006. [Acessado em 21 de fevereiro de 2026]

sexta-feira, fevereiro 27, 2026

Atena louva Odisseu (Odisseia, 13, 291-301)


Deveria ser matreiro e ladino (até mesmo se fosse um Deus)
quem te excedesse nas tuas espertezas todas!
Safado! Rico na Astúcia, ávido por ardis, não pretendias,
Nem mesmo em tua terra, deixar de lado as ilusórias
palavras, as fraudes, tuas amigas do peito?
Mas não falemos mais nisso! Sabemos ambos
Artimanhas: dos mortais todos, és de longe o melhor
Na palavra e nos planos; entre os Deuses
também sou famosa pela astúcia e estratagemas;
Tu não me reconheceste? Sou Palas Atena, filha de Zeus.
Em todos os teus trabalhos, estou ao lado e te protejo"

Tradução de Rafael Brunhara (2010, inédita)

quinta-feira, fevereiro 26, 2026

"Troianos", Konstantinos Kaváfis - Trad. José Paulo Paes

 Nossos esforços -- nós, desventurados -- são
nossos esforços, como os dos troianos.
Algum êxito obtido, alguma empresa
assumida, e eis que começamos
a encher-nos de esperanças, de coragem.

Algo surge, porém, que nos irá deter.
Emerge Aquiles da trincheira à nossa frente
e com seus gritos de assustar põe-nos em fuga.

Nossos esforços são os dos troianos.
Cremos que, com audácia e decisão,
da sorte mudaremos a animosidade,
e vamos para fora, para a luta.

Mas quando o instante decisivo chega,
desertam-nos astúcia e decisão;
nosso ânimo fraqueja, paralisa-se,
e à volta dos muros corremos,
procurando, na fuga, a nossa salvação.

Nossa ruína é inevitável, porém. Sobre
os muros já começam os lamentos.
Choram as nossas lembranças, nossos sentimentos.
Amargamente por nós chora Príamo e Hécuba. 

domingo, fevereiro 22, 2026

Anacreontea - Traduções de Tadeu Andrade

 6

Eu tecia uma coroa
E entre as rosas vi o Amor;
Agarrei as suas asas,
Mergulhei-o no meu vinho,
E depois eu o bebi.
Mas agora, aqui no peito,
Elas fazem coceguinha.

7
As mulheres já me dizem:
“Você é um velho, Anacreonte!
Pega o espelho e vê se enxerga:
Não lhe sobram mais cabelos,
Sua cuca está pelada!”
Já eu, quanto ao meu cabelo,
Se ele existe ou já se foi,
Nada sei, mas isto eu sei:
Que convém tão mais ao velho
Se entreter com o prazer,
Quanto a Morte lhe é mais próxima.

8
Não me importa o que é de Giges 1,
Que reinou na antiga Sardes,
Não me tem qualquer cobiça,
Nem invejo os grandes reis.
Só me importa mergulhar
No perfume a minha barba,
Só me importa coroar
Com as rosas minha fronte.
O hoje é aquilo que me importa,
O amanhã quem é que sabe?
E, por isso, enquanto é dia,
Vá beber, lançar os dados,
Vá libar a Dioniso,
Pra doença não dizer
(Se vier): “Você não pode!”

 1Rei da Lídia, poderoso reino da Ásia Menor conhecido por suas riquezas. Sua capital era Sardes.

9
Deixe, pelo amor dos deuses,
Eu beber, beber sem conta,
Quero, eu quero enlouquecer!
Alcmeão enlouqueceu
E também o claro Orestes 1
Por matarem suas mães.
Eu, que não matei ninguém,
De beber o vinho rubro
Quero, eu quero enlouquecer.
Héracles enlouqueceu
Atirando as cruas flechas
Com o arco que era de Ífito 2.
Ájax enlouqueceu
Sobre o escudo se imolando
Com a espada de Heitor 3.
Quanto a mim, com este copo,
Nos cabelos a coroa,
Quero, eu quero enlouquecer.

 1 Tanto Alcmeão como Orestes mataram suas mães para vingarem seus pais. Como punição, ambos foram perseguidos com loucura pelas Erínias, deusas da vingança que punem crimes de sangue.

 2 Héracles matou Ífito, filho de Eurito, e tomou seu arco. Com esse mesmo arco, por um acesso de loucura que Hera lhe enviou, Héracles matou suas esposa, Mégara, e seus filhos.

 3 Na guerra de Tróia, Ájax, melhor dos gregos depois de Aquiles, depois de um duelo inconclusivo com Heitor, líder dos troianos, recebeu dele uma espada numa troca de presentes. Com essa mesma espada, Ájax se matou por vergonha de um acesso de loucura.

10
Que você deseja agora?
Que, matraca de andorinha?
Quer que as suas asas leves
Eu me ponha a tesourar?
Ou prefere que essa língua,
Como outrora fez Tereu 1,
Eu decida cortar fora?
Pra que foi dos belos sonhos,
Com seus cantos matutinos,
Saquear o meu Batilo?

 1 Tereu era um rei da Trácia que, apaixonado por Filomela, irmã de sua esposa, a estuprou, fazendo-a cativa e cortando-lhe a língua para evitar que contasse a alguém. Quando, Procne, sua esposa, descobriu, vingou-se servindo-lhe a carne do próprio filho num banquete. Quando Tereu perseguia as irmãs para matá-las, os deuses os transformaram em pássaros: tereu em uma poupa, Procne em um rouxinol e Filomela em uma andorinha, de onde vem a referência no poema.

11
Um Amor feito de cera
Um rapaz pôs-se a vender,
E eu, parando do seu lado,
Perguntei: “Quanto que custa
Este seu artesanato?”
E ele disse em fala dórica 1:
“Leve! Pague o que quiser!
Pra falar bem a verdade,
Eu não faço obras de cera,
Só não quero mais viver
Com o Amor, esse pilantra”.
“Vende-o! Vende-o! Pago bem!
Minha cama o acolherá”.
Vem, Amor, não se demore,
Incendeie-me, se não,
Para o fogo irá você.

 1 Um dos dialetos do grego. Talvez trate-se de uma referência à poesia dórica arcaica, que raramente cantava o amor. Seu autor mais famoso é Píndaro.

12
Alguns dizem que, gritando
À belíssima Cibele,
Átis, semi-feminino,
Na montanha enlouquecia 1.
Uns no píncaro do Claro,
Em que reina Febo Apolo,
Ao beber água falante
Enlouquecem, lançam gritos 2.
Quanto a mim, de Dioniso,
De perfume saciado,
E da minha companheira,
Quero, eu quero enlouquecer.

 1 Mortal por quem a deusa Cibele se apaixonara. Em pleno casamento dele, Cibele apareceu em sua forma divina e Átis, enlouquecido, se castrou, tornando-se o primeiro dos coribantes, sacerdotes eunucos da deusa.

 2 Referência ao oráculo de Apolo perto de Colofão, na Ásia Menor. Seu poço dava inspiração divina ao sacerdote.

13
Quero, quero, eu quero amar.
Eis que o Amor mandou amar,
Mas eu tive um pensamento
Tolo e desobedeci.
Ele então ergueu o arco
E as douradas flechas suas
E chamou-me para a a briga.
E eu tomando sobre os ombros
A armadura, como Aquiles,
Minha lança e meu escudo,
Com o Amor pus-me a lutar.
Ele vinha, eu fugia,
Logo lhe faltaram flechas
E ele se prostrou. Então
Atirou-se como um dardo,
E no meio do meu peito
Mergulhou e me desfez.
De que me serviu o escudo?
Que vou eu fazer por fora
Quando a luta é por dentro?

Fonte: "À moda de Anacreonte" in: À moda de Anacreonte | Tadeu Andrade

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Simônides - Elegia 8 (Tradução de Tadeu Andrade)

 Coisa mais bela disse o homem quio:
“Como das folhas são as gerações dos homens”.
Pouquíssimos mortais, como a escutassem,
Puseram-na no peito, pois atém-se a espera
Ao homem, já nascida n’alma jovem.
Quando um mortal possui da mocidade a flor,
No surdo engenho pensa o inatingível
E não espera que virá velhice ou morte,
Nem, se saudável, pensa na doença.
É tolo quem assim cogita, e desconhece
Que à juventude e à vida é pouco o tempo
Dos homens. E, se o aprendes, rumo ao fim da vida,
Na alma degustando os bens, suporta.

Fonte: tadeuandrade.wordpress.com  (Acessado em 11.02.2026).

segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Meleagro de Gádara - Antologia Grega 12,119

 Tomarei, Baco, a tua coragem. Comanda a festa,

     inicia, deus que segura as rédeas do coração mortal.

Nascido do fogo, tu amas a chama de Eros

   e após me prenderes de novo, me conduzes como teu suplicante.

És traidor e desleal, ordenas que se esconda teus mistérios,

    mas os meus agora desejas revelar. 

Tradução de Flávia Vasconcellos Amaral in: A Guirlanda de sua Guirlanda, Epigramas de Meleagro de Gádara: Tradução e Estudo. São Paulo: FFLCH/DLCV/USP. Dissertação de Mestrado. 2009. 


Suportarei em teu nome, Baco, a tua ousadia! Vamos,

   dirige a festa! Um deus dirige o meu coração mortal.

Porque no fogo foste gerado, amas a chama que há em Eros

    e, aprisionando-me de novo, arrastas-me como suplicante.

Como és traidor e falso! Mandas ocultar os teus mistérios,

    mas fazes questão de desvendar agora os meus.


Tradução de Carlos Jesus in: Antologia Grega: A Musa dos Rapazes (Livro XII). Coimbra: Coimbra University Press. 2017.  



Οἴσω, ναὶ μὰ σέ, Βάκχε, τὸ σὸν θράσος· ἁγέο, κώμων 
     ἄρχε· θεὸς θνατὰν ἁνιόχει κραδίαν·
ἐν πυρὶ γενναθεὶς στέργεις φλόγα τὰν ἐν Ἔρωτι
    καί με πάλιν δήσας τὸν σὸν ἄγεις ἱκέτην
 ἦ προδότας κἄπιστος ἔφυς, τεὰ δ' ὄργια κρύπτειν
      αὐδῶν ἐκφαίνειν τἀμὰ σὺ νῦν ἐθέλεις

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Agamêmnon de Ésquilo, versos 1331-1342 - Tradução de Jaa Torrano

 Coro:

A prosperidade brota insaciável

a todos os mortais. Por recusa

ninguém a repele de indigitados palácios

a dizer: "não entres mais aqui".

Os Venturosos deram a este homem

capturar o país de Príamo

e honrado por Deus retorna ao lar.

Se agora responder por sangue antigo

e morto pelas mortes cobrar punição

com outras mortes,

que mortal ouvindo isso alardearia

ter nascido com incólume destino? 


Fonte: TORRANO, Jaa. Ésquilo. Oresteia I: Agamêmnon. São Paulo: Iluminuras, 2004. 

terça-feira, fevereiro 10, 2026

Interrupção - Konstantinos Kaváfis

 A obra dos deuses, nós a interompemos -- entes 
somos da pressa e do momento, inexperientes.
No palácio de Elêusis e no de Ftia, eis
que iniciam Deméter e Tétis, em chamas
altas e fumo espesso envoltas, grandes obras. Mas
sempre foge Metanira aos aposentos do rei,
cabelos soltos, temerosa. Também
Peleu se atemoriza sempre e intervém.


Tradução de José Paulo Paes in: Konstantinos Kaváfis. Poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. 

sábado, janeiro 31, 2026

Desejos - Konstantinos Kaváfis [1904] - 3 Traduções


Tradução de José Paulo Paes in: Konstantinos Kaváfis, Poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982

Belos corpos de mortos que nunca envelheceram,

com lágrimas sepultos em mausoléus brilhantes,

jasmim nos pés, cabeça circundada de rosas -- 

assim são os desejos que um dia feneceram

sem chegar a cumprir-se, sem conhecerem antes

o prazer de uma noite ou a manhã luminosa. 


Tradução de Ísis Borges da Fonseca in: Poemas de K.Kaváfis. São Paulo: Odysseus, 2006: 

Como belos corpos de mortos que não envelheceram

e foram encerrados, com lágrimas, em magnífico mausoléu,

com rosas na cabeça e jasmins nos pés -- 

assim se lhes assemelharam os desejos que passaram

sem se realizar, sem que nenhum

alcançasse uma noite de prazer, ou sua manhã luminosa.


Tradução de Trajano Vieira in: Konstantinos Kaváfis, 60 poemas. São Paulo: Perspectiva, 2007: 

Feito os corpos que morrem juvenis e belos,

chorados à clausura de um mausoléu magno,

com pétalas à testa, com jasmim nos pés,

assim transcorrem os desejos que abortam,

alheios à volúpia de uma noite única,

ao rútilo clarão do seu amanhecer. 



segunda-feira, janeiro 26, 2026

Simônides (Trad. Donaldo Schüler)

 Fragmento 521

Por seres homem, não digas o que sucederá amanhã.

Havendo alguém feliz, como prever por quanto tempo o será?

Pois rápida nem a da mosca asa-veloz

assim a mudança. 


Fonte: Schüler, Donaldo. Literatura Grega. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985. 


domingo, janeiro 25, 2026

Tirteu - Trad. Donaldo Schüler

 Fragmento 10 W, versos 1-14


Gloriosa é a morte nas primeiras linhas,

  do soldado que luta pelo torrão natal.

Não há vergonha maior que

    mendigar longe da pátria e dos férteis campos,

amargando o exílio com a mãe estremecida e o velho

    pai, os filhinhos, a esposa amada.

Tangido pela penúria, pela pobreza aviltante,

    esse verá o desprezo entre estranhos.

Infâmia será para sua gente, mancha de heroica

    imagem, arauto da covardia e do opróbrio.

Não há para o exilado nenhuma ajuda,

   nem respeito, nem conforto, nem dó.

Lutemos, portanto, com ânimo por esta terra.

    Enfrentemos a morte sem apego à vida.

Jovens, combatei unidos,

     sufocai o medo, bani a fuga vergonhosa.


Fonte: Schüler, Donaldo. Literatura Grega. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985. 

sábado, janeiro 24, 2026

Calino de Éfeso, Fragmento 1, Versos 1-4 (Trad. Donaldo Schüler)

 Fragmento 1, versos 1-4 (ed. West).


Até quando vocês vão ficar na cama?

Quando é que veremos em vocês ânimo guerreiro,

    meus jovens? Vocês não têm vergonha dos vizinhos,

com toda essa preguiça? Até parece que estamos entronizados 

     na paz, enquanto a guerra devasta a terra. 

sexta-feira, janeiro 23, 2026

Arquíloco - Traduções de Donaldo Schüler

 Fragmento 1 (ed. West)

Servidor eu sou do deus da Guerra

     e no amoroso dom das Musas eu versado me declaro. 


Fragmento 2 (ed. West)

A lança me dá vinho, a lança me dá pão,

     eu como, eu bebo com a lança na mão. 


Fragmento 5 (ed. West)

Um saio apoderou-se do meu escudo e se ri de mim,

   para meu pesar -- arma excelente -- a um matagal a joguei na fuga.

Mas salvei a minha vida. O que me interessa o escudo?

    Que se vá! Em breve terei outro igual.


Fragmento 11 (ed. West)

Nada melhorarei chorando, nada

    arruinarei no gozo e florescendo em festas.


Fragmento 177 (ed. West)

Ó Zeus, Zeus pai, teu é o poder nas alturas,

   as obras dos homens contemplas,

as criminosas e as praticadas na lei. Observas

   a soberba e a moderação de todos.


Fonte: Schüler, Donaldo. Literatura Grega. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985. 

quarta-feira, janeiro 14, 2026

Condição (Jaa Torrano)

Cumprindo as instruções do pai
Hefesto moldou de terra e água
imagem símil a Deusas imortais
todos os Deuses lhe deram parte
das honras que na partilha têm,
provindos dessa mesma imagem
herdamos esta ambígua finitude.

Só dos Deuses, só dos varões
ser respiramos da mesma mãe,
mas todo poder discreto separa,
um não vale e o Céu permanece
brônzea sede irresvalável sempre,
ainda nos aproxima dos Imortais
a certeira intuição ou a natureza.

Sonho sombrio somos homens,
mas quando vem dom de Zeus
brilha límpida em nós a doce
graça da vida que em nós vive.

Jaa Torrano. Solidão Só Há de Sófocles. São Paulo: Ateliê, 2025. 

sexta-feira, janeiro 02, 2026

As Jarras de Zeus (Ilíada, Canto 24, Versos 522-551) - 7 traduções

Tradução de André Malta (2024)

"Mas vamos, senta-te ao trono: § deixemos, de todo modo,
que as dores repousem no ânimo, § ainda que desgostosos,
porque ganho algum provém § do gélido prantear.
Pois isto os deuses fiaram § para os míseros mortais:
que vivam a penar - eles § próprios são sem aflições.
Sobre a soleira de Zeus § estão postas duas jarras
com dádivas que dá: uma § de más, e a outra de boas.
Pra quem as dá misturadas § o desfruta-raio Zeus,
esse então ora com males § cruza, ora então com venturas;
mas pra quem dá tão somente § horrendas, põe-no afrontado:
a maligna fome sobre § a terra divina o move,
e ele vaga desonrado § por deuses e por mortais. 
Assim a Peleu os deuses § deram esplêndidas dádivas,
desde o nascimento: sobre- § pujando a todos os homens
em riqueza mais fortuna, § reinava sobre os mirmídones,
e, embora mortal, fizeram § de uma deusa sua esposa.
Mas até mesmo para ele § o deus pôs um mal, pois não
lhe nasceu prole de filhos § soberanos no palácio:
gerou um só, prematuro § em sua morte. E agora não 
o amparo enquanto envelhece, § já que, tão longe da pátria,
demoro-me em Troia, a ti § e a teus filhos afligindo.
Tu também, ouvimos que eras § afortunado, ancião:
quanto delimitam Lesbos, § sede de Mácar, embaixo,
e, de cima para baixo, § a Frígia e o Helesponto infindo,
aí dizem que em riqueza § e prole sobrepujavas.
Depois, porém, que os Celestes § te deram tal sofrimento,
sempre em torno da cidade § há combates e matanças.
Mas suporta, e no teu ânimo § não lamentes sem cessar,
pois tu não ganharás nada § com penar pelo teu filho:
não o levantarás antes § de padecer outro mal" 

Tradução de Leonardo Antunes (2022):

Mas chega disso. Vem aqui sentar-te
sobre este trono. Deixemos de lado
a tristeza nos nossos corações,
por mais angustiados que estejamos.
Não há nada que possa ser ganhado
agora com o luto congelante,
pois foi assim que a vida foi tecida
 pelos deuses aos pobres dos mortais,
para viverem sempre angustiados —
e eles próprios não têm preocupações.
É sabido que existem duas urnas
postas ao lado dos umbrais de Zeus.
Os presentes que dão são diferentes:
uma dá males e a outra dá bênçãos.
Quando Zeus que se apraz com os trovões,
depois de misturar das duas urnas,
concede seus presentes para os homens,
 ora dá males, ora dá benesses.
Mas, quando ele resolve conceder
apenas os dons lúgubres a alguém,
faz um homem tristíssimo, que vaga
com fome horrível pelo chão sagrado,
sem nunca receber nenhuma honra
nem entre os deuses nem entre os mortais.
Foram tais os esplêndidos presentes
que os deuses concederam a Peleu
no dia em que nasceu, pois se tornou
eminente entre todos os humanos,
tanto em ventura quanto na riqueza.
Reinava sobre os homens mirmidões
e, sendo apenas humano, mortal,
recebeu uma deusa em casamento.
Porém o deus também lhe concedeu
a desgraça, pois ele inda carece
de uma estirpe de filhos poderosos
para encher o salão de seu palácio.
Teve somente um único rebento,
 de vida curta, que nem poderá
lhe dar cuidados conforme envelhece —
pois permaneço ainda muito longe
da terra pátria, acampado em Troia,
causando só tristezas aos teus filhos
e a ti mesmo, ancião, que ouvi dizer
ter sido próspero em tempos passados.
De fato, tanto em Lesbos, lá no assento
de Mácar, e também mais para o norte,
quanto também na Frígia, desde cima,
e por todo o Helesponto interminável —
em todas essas partes, velho, falam
de ti com muitos filhos e riquezas.
Porém agora, como as divindades
celestes te trouxeram a desgraça,
em torno à tua cidadela há sempre
batalhas e matanças de guerreiros.
Ainda assim, resiste! Não te doas
demasiadamente o coração,
pois não há nada mais a ser ganhado
 lamentando o destino de teu filho,
nem poderás fazer com que reviva.
É mais fácil sofreres outro mal.”

Tradução de Christian Werner (2018)

"Pois senta na poltrona, e, apesar de tudo, as aflições
deixemos descansar no ânimo, embora angustiados.
De nada adianta o lamento gelado. 
Isto os deuses fiaram para os pobres mortais:
viver angustiado. Despreocupados são eles próprios.
Dois tipos de cântaro estão no chão de Zeus
com dons que ele dá, males num, bens no outro.
A quem Zeus prazer-no-raio der uma mistura,
este ora obtém algo ruim, ora algo bom;
a quem der só coisas funestas, torna-o desprezível, 
danosa fome canina impele-o sobre a terra divinal,
e vaga nem honrado pelos deuses nem pelos mortais. 
Assim também a Peleu os deuses deram dons radiantes
desde o nascimento: entre todos os homens exceleu
na fortuna e na riqueza, rege os mirmidões
e, para ele, um mortal, fizeram de uma deusa sua esposa.
Mas também a ele o deus impôs um mal: que não
houvesse, em sua casa, progênie de filhos senhoris,
e gerou um só, vítima da morte não sazonal; dele,
envelhecendo, não cuido, pois, bem longe da pátria,
quedo-me em Troia, afligindo a ti e a teus filhos. 
Ouvimos que também tu, velho, antes era afortunado:
tanto quanto concentram Lesbos, assento de Ditoso,
a Frígia terra adentro e o ilimitado Helesponto,
a esses, velho, dizem que em riqueza e filhos superas.
Porém, desde que os Celestes te trouxeram essa desgraça,
em volta da cidade há sempre combates e carnificinas.
Aguenta e não lamentes sem cessar em teu ânimo;
nada realizarás, atormentando-te por teu filho,
nem o ressuscitarás, antes de sofreres outro mal" 

Tradução de Frederico Lourenço (2003/2013/2019)

Mas agora senta-te num trono; nossas tristezas deixaremos
que jazam tranquilas no coração, por muito que soframos.
Pois não há proveito a tirar do frígido lamento.
Foi isto que fiaram os deuses para os pobres mortais:
que vivessem no sofrimento. Mas eles próprios vivem sem cuidados.
Pois dois são os jarros que foram depostos no chão de Zeus,
jarros de dons: de um deles, dá os males; do outro, as bênçãos.
Àquele a quem Zeus que com o trovão se deleita mistura a dádiva,
 esse homem encontra tanto o que é mau como o que é bom.
Mas àquele a quem dá só males, fá-lo amaldiçoado,
e a terrível demência o arrasta pela terra divina
e vagueia sem ser honrado quer por deuses, quer por mortais.
Assim, também a Peleu os deuses deram gloriosos dons
535 desde o nascimento: a todos os homens sobrelevava
em ventura e riqueza e era rei dos Mirmidões;
sendo mortal, deram-lhe uma deusa como esposa.
Mas além disto lhe deram os deuses o mal, porque
não foi gerada no palácio uma progénie de filhos vigorosos,
 mas só teve um filho, fadado para uma vida breve. E eu
nem o acompanho na sua velhice, visto que bem longe da pátria
estou aqui sentado em Troia, atormentando-te a ti e aos teus filhos.
Mas também de ti, ó ancião, ouvimos dizer que outrora foste feliz
Tudo o que até Lesbos, sede de Mácaro, está compreendido,
545 e lá para cima, para a Frígia, assim como o amplo Helesponto:
dizem que entre estes povos eras distinto pela riqueza e pelos filhos.
Mas desde que os celestiais Olímpios te trouxeram esta desgraça,
sempre em torno da tua cidade há combates e morticínios.
Mas aguenta: não chores continuamente no teu coração.
550 Pois de nada te aproveitará lamentares o teu filho,
nem o trarás à vida, antes de teres já sofrido outro mal.»

Tradução de Haroldo de Campos (2003)

Mas senta agora neste trono: aflitos ambos,
deixemos que serene a dor no coração,
pois do pranto glacial não deriva nenhum
proveito. Assim os deuses urdem o fadário 
dos infaustos mortais: um viver agoniado,
sendo os numes incólumes; pois há dois cântaros
nos umbrais de Zeus, cheios de dons que ele nos dá,
um de ruins, de bons o outro. Mescla-os Zeus fulmíneo
e os versa: ora o mal, ora o bem, deparará 
quem os receba; quando maldosos opróbrios
apenas colha, malsinado vagará
pela terra divina, famélico, menos-
-prezado por mortais e deuses. A Peleu,
os deuses, com preciosos dons, lhe galardoaram 
desde o berço: excedia a todos mais em bens
e ventura; era rei dos Mirmidões; mortal,
de uma imortal se fez esposo. Um pesadume
o nume lhe infligiu: uma prole de príncipes
não gerou no palácio, salvo um, morituro - 
eu -, que dele não posso cuidar na velhice,
pois estou longe, em Troia, danando a ti e aos teus
filhos. Sênior, ouvimos que já foste muito
venturoso, excedendo em bens e prole a todos
nos limites de Lesbos, do rei Mácar, mar 
alto e, no plaino acima, a Frígia e o Helesponto, ainda,
infindo. Desde quando os Urânios te enviaram
malefícios, batalhas e carnagem cercam-te
a urbe. Sofre-os, paciente, e deixa de lamurias;
por teu filho agoniar-te, não fará com que ele 
ressuscite, mas outro mal pode advir-te, antes.”

Tradução de Carlos Alberto Nunes (1941)

"Vamos assenta-te agora no trono; apesar de angustiados
é conveniente deixar que as tristezas no peito se aplaquem.
Nada o homem lucra em deixar-se invadir pelo gélido pranto.
Sempre viver em tristeza: eis a sorte que os deuses eternos
de descuidada existência aos mortais infelizes dotaram.
Sobre os umbrais do palácio de Zeus dois tonéis se acham postos
de suas dádivas; um só de males; de bens o outro cheio.
Se misturando-as Zeus grande senhor dos trovões as derrama
quem as recebe ora goza ora males por sorte lhe tocam;
mas o que dele recolhe somente infortúnios escárnio
vivo se torna; em extrema miséria na terra divina
é condenado a vagar desprezado por homens e deuses.
Ao nascimento também de Peleu os eternos lhe deram
dons inefáveis: riquezas sem conta dos homens a estima
e o incontestado governo dos fortes guerreiros Mirmídones.
Mais: apesar de mortal como esposa uma deusa lhe cedem.
Grande infortúnio porém concederam-lhe os deuses negando-lhe
filhos que o mando pudessem herdar-lhe no belo palácio;
540 a mim somente gerou destinado a morrer muito cedo.
Longe da pátria não posso cercar de cuidados o velho
pois me acho em Tróia causando-te e aos filhos desditas sem conta.
Tu também velho já foste feliz pelo que me contaram.
Quantos guerreiros existem de Lesbos na sede de Mácar
até para o norte da Frígia nos lindes do vasto Helesponto
já dominaste abençoado com filhos e bens infindáveis.
Mas desde o instante em que os deuses celestes tal praga te enviaram
guerra somente e homicídios em torno dos muros te soam.
Vamos suporta! Não deves à dor excruciante entregar-te.
Nada consegues chorando teu filho com tantos encómios;
não ressuscita e além disso outro mal poderias causar-te.”

Tradução de Odorico Mendes (1874) 

Senta-te; ao luto agora devemos tréguas.
Viver sempre em tristeza é lote humano:
Existir sem cuidados é dos deuses.
Há dois tonéis ao limiar de Jove
De males e de bens: se misturados
Os derrama o Tonante, o que os recebe
Ora sofre e ora goza; mas, se entorna
Somente males, em penúria o triste
Vaga de pesadume em pesadume,
Dos imortais ludíbrio e dos mundanos.
Assim teve Peleu mil dons celestes,
Brilho, opulência, império e uma deidade
Por consorte; mas Júpiter negou-lhe
Ao trono sucessor, porque imaturo
Devo longe acabar, sem que de arrimo
Lhe seja na velhice, em Tróia estando
Para desgraça dela e teu flagelo.
Também lograste já de quanto abrange
Lesbos ao sul, de Macaris morada,
A Frígia eoa e amplíssimo Helesponto;
Brilhaste, velho, em filhos e riquezas;
Mas, dês que o Céu mandou-te a crua guerra,
Geme Ílio de matança e horror cingida.
A alma em luto perpétuo não consumas;
Com te afligir Heitor não ressuscitas;
Quiçá maiores danos te ameaçam.”

domingo, dezembro 21, 2025

Receita Caseira (Jaa Torrano)

 Os poetas de minha terra

na idade da suspicácia

não pensam que se faça

poesia com sabedoria,

mas com raios à espreita

atrás das imprevisíveis

curvas de cada verso.


Jaa Torrano, in: Divino Gibi, Crítica da Razão Sapiencial in: Solidão Só Há de Sófocles. São Paulo, Cotia: Ateliê Editorial, 2025.