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domingo, julho 26, 2026

33 Proêmios da Odisseia


Por Rafael Brunhara




Reúno aqui 33 traduções do início da Odisseia de Homero em língua portuguesa, trazendo tudo feito em nossa língua, extraídos das traduções integrais do poema e de coletâneas, livros, artigos e ensaios em que a passagem é citada.

A primeira tradução da Odisseia em língua portuguesa foi a de João Félix Pereira (1822-1891), polímata português que também teria traduzido a Ilíada. São poucas as menções a essa tradução e são incertas mesmo notícias a respeito de sua data de publicação e  de como foi a sua recepção. A entrada sob seu nome no Dicionário Bibiográfico Português, Tomo Décimo, de 1883, menciona que a tradução era em prosa e supostamente estaria concluída à essa época. Antes de 1883, portanto, não podemos dizer que tínhamos Homero completo em português, e basta ver nesse sentido a agonia e mau humor do polêmico José Agostinho de Macedo (1761-1830) por não conseguir lê-lo em vernáculo...

 Segundo a pesquisadora Tâmara Kovacs, que transcreve o trecho do proêmio em "Ensaios e Experiências de Tradução da Ilíada no Oitocentismo Português" (2013, p.11, n.6) a tradução de João Félix Pereira não era em prosa, mas em versos decassílabos. O  exemplar consultado pela pesquisadora, na Biblioteca da Unicamp, data de 1891. Deste trabalho que extraímos a passagem que se lerá abaixo. 

 Parecia muito popular no XIX as traduções dos dois poemas para o latim feitas por Samuel Clarke (1729) e traduções parciais em vernáculo, com intenção de apresentar Homero ao leitor de língua portuguesa. A primeira de que tenho notícia é a de Antônio José Viale (1806-1889), que apresenta, traduz e anota o primeiro canto da Odisseia em sua Miscelânea Helênico-Literária (1868). Viale, que foi o primeiro professor da cadeira de Literatura Grega e Latina do Curso Superior de Letras de Lisboa, o compôs para fins didáticos -- como se nota no subtítulo da obra ("oferecida aos estudantes da 2a cadeira do curso superior de Letras"). No entanto, não descuida do apuro poético, vertendo Homero em decassílabos (usando aproximadamente dois decassílabos para cada hexâmetro homérico).

Mas a primeira tradução integral a circular amplamente foi a de Manuel Odorico Mendes (1799-1864). Depois da empreitada de traduzir todo o Virgílio (1858), sabe-se que o poeta maranhense já trabalhava nas suas versões das duas epopeias de Homero. Elas, porém, só vieram à luz postumamente: a Ilíada em 1874 e a Odisseia apenas em 1928. 

Outro poeta maranhense, Carlos Alberto Nunes (1897-1990) também traduziu os dois poemas de Homero. Já foi o tradutor mais popular de Homero no Brasil, e ainda é reeditado até hoje (algumas editoras que o publicaram: Melhoramentos, 1962; Tecnoprint, 1997; Ediouro, 2001; Hedra, 2011; Nova Fronteira, 2015). Muito disso se deve, em parte,  porque só teríamos novas traduções em verso a partir dos anos 2000. Por muitos anos foi objeto de debate a data da primeira edição da tradução  de Nunes, mas, recentemente, a pesquisadora Tatiana Alvarenga Chanoca, em sua dissertação de mestrado (2017), revela que a Odisseia de Nunes saiu originalmente pela  Editora  Atena em 1941. 

As próximas traduções do poema serão em prosa. Há duas em 1960: a de  G.D.Leoni e Neyde Ramos de Assis, ex-professores de latim da Pontifícia Universidade Católica de SP (São Paulo: Editora Atena, 1a ed: 1960; 2a ed.1973) e a de Antônio Pinto de Carvalho (1901-1963), ex-professor de Letras da Universidade de Lisboa. Esta teve grande circulação no Brasil, sendo primeiramente publicada na Coleção Clássicos Garnier da Difusão Europeia do Livro (1960) e depois muito republicada em diversas coleções populares, como a da Editora Abril Cultural (1979, 1981, 1986) e Nova Cultural (2002). Não pude rastrear se a tradução de Pinto de Carvalho foi também publicada em Portugal.

A terceira tradução em prosa é de Jaime Bruna, ex-professor de latim da Universidade de São Paulo, que a publica na coleção Clássicos Cultrix da Editora Cultrix (1a edição em 1968, 2a edição em 1976 e 3a edição em 2013). Em 1970, a Ediouro publica também Odisseia (em forma narrativa), uma tradução bastante parafrástica e em prosa, em sua coleção Clássicos de Ouro.

A partir dos anos 2000, começa a predominância das traduções de Homero vindas da academia. Em 2003 é lançada em Portugal uma nova tradução da Odisseia, feita em versos livres por Frederico Lourenço (1963-), professor de grego na Universidade de Coimbra (Lisboa: Editora Cotovia). Esta tradução alcançaria grande popularidade também no Brasil, sendo republicada pelo selo Penguin da Companhia das Letras em 2011.

 Em 2007, Donaldo Schüler (1932-), professor emérito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, publica sua tradução em versos livres, em 3 volumes, pelo selo L&PM Pocket (Porto Alegre: L&PM editores). Também em 2011, Trajano Vieira, professor de grego da Unicamp, publica a sua tradução pela Editora 34. Em 2014, Christian Werner (1970-), professor de grego da Universidade de São Paulo, publica a sua tradução pela Editora Cosac Naify. Sua tradução seria republicada em 2018, juntamente com a Ilíada, pela Editora Ubu. Ainda em 2018, Frederico Lourenço revê sua primeira tradução da Odisseia e a relança em Portugal pela Editora Quetzal. Esta é a mais recente tradução integral em português do poema. 

Mas, para além destas traduções integrais, o trecho que nos interessa foi muito traduzido. Registro em ordem cronológica os autores dessas traduções: a primeira é da ex-professora emérita da Universidade de Coimbra Maria Helena da Rocha Pereira (1925-2017) que traduziu o trecho para a sua obra Hélade: Antologia de Cultura Grega (1a edição: 1959). A tradução das ex-professoras de grego da UNESP Maria Helena da Moura Neves e Daisi Malhadas também vem de uma coletânea, a Antologia de Poetas Gregos, de Homero a Píndaro (Araraquara: UNESP, 1976).

Em 2001, o professor de grego da USP Jaa Torrano (1946-) traduz para o periódico Letras Clássicas n.5, da Universidade de São Paulo, todo o primeiro canto da Odisseia. Breno Sebastiani, professor de grego da Universidade de São Paulo, traduz os 21 primeiros versos do poema em artigo da Revista de tradução Modelo, da UNESP, em 2002. Transcrevo uma tradução inédita de Antônio Medina Rodrigues (1940-2013), ex-professor de grego a Universidade de São Paulo, que circulava entre seus alunos no início dos anos 2000.  Na obra Antiga Musa: Arqueologia da Ficção, de 2005, reeditada em 2015, Jacyntho Lins Brandão (1952 -), professor emérito da UFMG, escritor membro da Academia Mineira de Letras, analisa o trecho e oferece uma tradução de sua própria lavra. Em 2018, o professor de grego da USP André Malta (1970 -) publica seu estudo da Odisseia, a obra Astúcia de Ninguém - Ser e não Ser na Odisseia, que traz 8 cantos traduzidos, dentre eles o Canto 1. No artigo "O Homem Complicado" (2019),  Rodrigo Tadeu Gonçalves, professor de latim da UFPR, dá uma tradução dos primeiros versos de Homero a partir da celebrada versão inglesa de Emily Wilson. Pude acessar, ainda, uma tradução inédita do poeta e professor de latim da UFPR Guilherme Gontijo Flores (1984 -),  uma do professor de latim da UFPB e escritor, membro da Academia Paraibana de Letras Milton Marques Júnior, e uma do poeta, tradutor e crítico literário Matheus de Souza Oliveira Almeida, autor do blog Formas Fixas.  Acrescento a tradução do professor da Universidade de São Paulo Adriano Aprigliano, recentemente publicada na página da Editora Syrinx. Também agradeço ao Prof. Fábio P. Cairolli, por me indicar a tradução de Fernando C. de Araújo.

*Atualização: Agradeço à tradutora Denise Bottman por me indicar a tradução de João Félix Pereira e a data de sua tradução (1891). Agradeço à Patrícia Reis Braga pela tradução de Medina. 

*Atualização (02/08/2021): incluída a tradução de Leonardo Antunes (2021), professor de Língua e Literatura Grega na UFRGS. 

*Atualização (04/08/2021): incluída a tradução de Sophía de Delos, que verte o hexâmetro dactílico homérico em duplo heptassílabo. A tradução integral do primeiro canto será publicada em breve com o título de Cordel Homérico 

*Atualização (26/07/2026) incluída a tradução de Layla de Oliveira, que verte em decassílabos a tradução de Emily Wilson; a tradução de Giuliana Ragusa, presente no Guia de Leitura da Odisseia, publicado pela Editora Mnema em 2025; uma nova versão de Guilherme Gontijo Flores, publicada na Revista Ao Avesso, da UFSC.

*Atualização (17/08/2026): incluída a tradução de Adriel Teixeira, Christiano Sensi, Leonardo Augusto e Raquel Siphone, publicada pela Editora Excelsior, em 2026. Trata-se de tradução indireta, feita a partir do inglês. 

1. Antônio José Viale (1868)
Musa, os trabalhos a cantar me ensina
Do ardiloso varão, que longo tempo,
Agitado, vagou, depois que os muros
Da sagrada Ilión lançou por terra;
Que de distantes e mui vários povos
Viu as cidades, os costumes soube,
E magoas mil curtiu, a propria vida
Por salvar forcejando, e os companheiros
Reconduzir buscando ao pátrio ninho;
Mas por salvá-los se esforçou debalde:
Morte lhes foi seu próprio desatino.
Loucos! a fome, sôfregos, fartaram
No, consagrado ao sol, bovino armento:
Do arrojo em punição, o irado nume
Negou-lhes do regresso o fausto dia.
Parte ao menos de tantas aventuras
Conta-me, ó filho do supremo Jove.

2. João Félix Pereira (1891)
Ó Musa, fala do varão astuto,
que errante andou, após haver prostrado
os sacrossantos muros de Dardânia,
que muitos povos viu e de seus usos
Tomou conhecimento. Mil desgostos
Também sofreu nos mares, ansiando
salvar a vida e assegurar a volta
dos companheiros seus; mas não o alcança,
sem embargo de bons desejos ter.
Morreram vítimas da própria inépcia.
Loucos! dos bois do Sol se alimentaram;
e o mesmo Sol lhes denegou o dia,
em que deviam regressar. Ó deusa, faze
exposição d’algumas destas coisas.

3. Odorico Mendes (1928)
Canta, ó Musa, o varão que astucioso,
Rasa Ílion santa, errou de clima em clima,
Viu de muitas nações costumes vários.
Mil transes padeceu no equóreo ponto,
Por segurar a vida e aos seus a volta;
Baldo afã! Pereceram, tendo, insanos,
Ao claro Hiperiônio os bois comido,
Que não quis para a pátria alumiá-los.
Tudo, ó prole Dial, me aponta e lembra.

4. Eusébio Dias Palmeira e Manoel Alves Corrêa (1938)
Ó Musa, fala-me do solerte varão que, depois de ter destruído a cidade sagrada de Tróia, andou errante por muitas terras, viu as cidades de numerosas gentes e conheceu-lhes os costumes; e, por sobre o mar, sofreu no seu coração aflições sem conta, no intento de salvar a sua vida e de conseguir o regresso dos companheiros. Mas, não obstante o seu desejo, não os salvou, pois pereceram por desatino próprio os insensatos, que devoraram as vacas do sol, filho de Hiperíone, pelo que este não os deixou ver o dia do regresso. Deusa, filha de Zeus, conta-nos a nós também algumas destas empresas, começando por qualquer delas.

5.Carlos Alberto Nunes (1941)
Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso que muito
peregrinou, dês que esfez as muralhas sagradas de Troia;
muitas cidades dos homens viajou, conheceu seus costumes,
como no mar padeceu sofrimentos inúmeros na alma,
para que a vida salvasse e de seus companheiros a volta.
Os companheiros, porém, não salvou, muito embora o tentasse,
pois pereceram por culpa das próprias ações insensatas.
Loucos! que as vacas sagradas do Sol Hiperiônio comeram.
Ele, por isso, do dia feliz os privou do retorno.
Deusa nascida de Zeus, de algum ponto nos conta o que queiras.

6. Maria Helena da Rocha Pereira (1959)
Canta-me, ó Musa, o homem fértil em expedientes, que muito vagueou,
depois que destruiu a cidadela sagrada de Tróia,
que viu as cidades de muitos homens e conheceu o seu espírito,
que padeceu, sobre as ondas, muitas dores no seu coração,
em luta pela vida e pelo regresso dos seus companheiros.
Mas a estes não pôde salvá-los, a despeito de seus esforços.
Esses pereceram pela sua própria insensatez
-- loucos! que foram devorar os bois consagrados a Hipérion,
o Sol! Por isso o deus os privou do dia do regresso.
Sobre estes feitos, ó deusa, filha de Zeus, fala-nos,
a nós também, principiando em qualquer altura.

7. G.D.Leoni e Neyde Ramos de Assis (1960)
Fala-me, ó Musa, do homem de talento multiforme que tanto vagueou após haver destruído a sagrada fortaleza de Tróia, viu numerosas cidades, conheceu a índole de homens vários, e muito sofreu sôbre o mar quando buscava o meio pelo qual êle e os companheiros poderiam manter-se vivos e voltar à pátria. Mas êles, insensatos, comeram os bois do Sol Hiperônio, que lhes dificultou o dia do regresso. 
Ó Deusa, filha de Zeus, narra também a mim estes fatos, e começa por onde tu quiseres. 

8. Antônio Pinto de Carvalho (1960)
Canta para mim, ó Musa, o varão industrioso que, depois de haver saqueado a cidadela sagrada de Tróade, vagueou errante por inúmeras regiões, visitou cidades e conheceu o espírito de tantos homens; o varão que sobre o mar sofreu em seu íntimo tormentos sem conta, lutando por sua vida e pelo regresso dos companheiros. Mas, ai! nem assim logrou satisfazer seu desejo de salvá-los: pereceram, em consequência de sua cegueira, os insensatos que devoraram os bois de Hélio Hipérion. O qual os privou do dia do regresso. Deusa, filha de Zeus, conta-nos, a nós também, algumas destas façanhas, começando onde quiseres.

9. Jaime Bruna (1968)
Musa, narra-me as aventuras do herói engenhoso, que após saquear a sagrada fortaleza de Troia, errou por tantíssimos lugares vendo as cidades e conhecendo o pensamento de tantos povos e, no mar, sofreu tantas angústias no coração, tentando preservar a sua vida e o repatriamento de seus companheiros, sem, contudo, salvá-los, mau grado seu; eles perderam-se por seu próprio desatino; imbecis, devoraram as vacas de Hélio, filho de Hipérion, e ele os privou do dia do regresso. Começa por onde te apraz, deusa, filha de Zeus, e conta-as a nós também.

10. Fernando C. de Araújo (1970)
Eis a história de um homem que jamais se deixou vencer. Viajou pelos confins do mundo, depois da tomada de Tróia, a impávida fortaleza. Conheceu muitas cidades e aprendeu a compreender o espírito dos homens. Enfrentou muitas lutas e dificuldades, no esfôrço de salvar a própria vida e levar de volta os companheiros aos seu lares. Fêz o que pôde, mas não consegui salvá-los. Pereceram devido à sua própria loucura, por terem matado e devorado os bois de Hiperion, o Deus-Sol, e este diligenciou para que êles jamais vissem de nôvo seus lares. Ao começar a história, (...)

11. Maria Helena da Moura Neves e Daisi Malhadas (1976)
A vida conta-me, ó Musa, do varão industrioso que tanto
andou errante, depois que a cidadela sagrada de Tróia saqueou,
e de muitos homens visitou as cidades e o espírito conheceu;
que, sobre o mar, angústias sem conta sofreu no coração,
lutando pela própria vida e pelo retorno dos companheiros,
mas nem assim os companheiros salvou, por mais que desejasse;
pois por seu próprio desvario eles pereceram,
os loucos, que os bois de Hélio Hiperião
comeram; e foi este que os privou do dia do retorno.
Desses fatos, a partir de qualquer ponto, ó deusa, filha de Zeus, fala-nos também.

12. Jaa Torrano (2001) 
O varão, diz-me, ó Musa, multívio, que por muitas vias
Vagou, após destruir a sacra fortaleza de Tróia;
De muitos homens viu cidades e conheceu a mente,
Muitas dores no alto mar padeceu em seu ânimo,
Agarrado à sua vida e ao regresso dos companheiros;
Mas nem assim salvou os companheiros, querendo-o
Pois por sua estultícia deles mesmos perecerem,
Néscios, que devoraram as vacas do supereunte Sol
E este por sua vez lhes arrebatou o regressário dia.
Disto nos conta, ó Deusa, filha de Zeus, também a nós.

13. Breno Sebastiani (2002)
Narra-me o homem, ó Musa, de muitas facetas, que demasiadamente
vagou, depois que arrasou a sagrada cidadela de Tróia,
e que de muitos homens viu as praças e conheceu a inteligência;
no mar, muitas dores no ânimo ele sofreu
esforçando-se por garantir sua vida e o retorno dos companheiros.
Eles, pois, perecerem por sua própria presunção,
fracalhões que devoraram os bois de Hélio
Hipérion, o qual em seguida privou-os do dia do retorno.
De qualquer dessas coisas, ó deusa filha de Zeus, narra também a nós.

14. Antônio Medina Rodrigues (2003)
Canta-me, ó Musa, o destro herói que andou demais
Depois de arrasar Tróia, excelsa cidadela,
Vilas viu de mil homens, na alma conheceu-os,
No mar sofreu seu coração mágoas sem conta,
Por garantir sua vida e a volta dos amigos.
Não salvou estes, entretanto, embora ousasse,
Pois que morreram por suas próprias impiedades,
Coitados, ao comerem os bois do Hiperiônio 
Sol que lhes tirou, por isso, o dia da volta.
De casos assim, deusa de Zeus filha, conta-nos! 

15.Frederico Lourenço 1a versão (2003/2011)
Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou,
depois que de Tróia destruiu a cidadela sagrada.
Muitos foram os povos cujas cidades observou,
cujos espíritos conheceu; e foram muitos no mar
os sofrimentos por que passou para salvar a vida,
para conseguir o retorno dos companheiros a suas casas.
Mas a eles, embora o quisesse, não logrou salvar.
Não, pereceram devido à sua loucura,
insensatos, que devoraram o gado sagrado de Hipérion,
o Sol - e assim lhes negou o dia do retorno.
Destas coisas fala-nos agora, ó deusa, filha de Zeus.

16. Jacyntho Lins Brandão (2005/2015)
O guerreiro diz-me, Musa, ardiloso, que muitíssimo
vagou, desde que, de Troia, a sacra cidadela pilhou,
e de muitos homens viu as cidades e o espírito conheceu --
e muitas dores ele, no mar, sofreu em seu ânimo,
lutando por sua vida e pelo retorno dos companheiros --
mas nem assim os companheiros salvou como queria,
pois eles, pela própria insensatez, pereceram,
tolos, que os bois do filho de Hipérion, o sol,
comeram, logo este lhes tirou o dia do retorno.
Disso, desde algum ponto, deusa, filha de Zeus, fala também a nós.

17. Haroldo de Campos (2006)
Do homem poliengenhoso, Musa, dá-me conta, 
do que perambulou por muitas partes, desde 
que saqueou Tróia, urbe sagrada. Profusão 
de povos e de pólis viu e desvendou;
padeceu profusão de penas sobre o pélago,
 para salvar-se e garantir a volta aos seus.
 Aos companheiros, não logrou poupá-los, mesmo 
querendo. Por si próprios perderam-se. Loucos, 
predando os bois do Sol, do retorno privaram-se.
 Começa de onde queiras, Deusa, a nos contar. 

18. Donaldo Schüller (2007)
O homem canta-me, ó Musa, o multifacetado, que muitos
males padeceu, depois de arrasar Tróia, cidadela sacra.
Viu cidades e conheceu costumes de muitos mortais. No
mar, inúmeras dores feriram-lhe o coração, empenhado em
salvar a vida e garantir o regresso dos companheiros. Mas
não conseguiu contê-los, ainda que abnegado. Pereceram,
vítimas de suas presunçosas loucuras. Crianções! Forraram
a pança com a carne das vacas de Hélio Hipérion. Este os
privou, por isso, do dia do regresso. Das muitas façanha,
Deusa, filha de Zeus, conta-nos algumas a teu critério.

19.Trajano Vieira (2011) 
O homem multiversátil, Musa, canta, as muitas
errâncias, destruída Troia, pólis sacra,
as muitas urbes que mirou e mentes de homens
que escrutinou, as muitas dores amargadas
no mar a fim de preservar o próprio alento
e a volta aos sócios. Mas seu sobre-empenho não
os preservou: pueris, a insensatez vitima-os,
pois Hélio Hiperiônio lhes recusa o dia
da volta, morto o gado seu que eles comeram.
Filha de Zeus, começa o canto de algum ponto!

20. Christian Werner (2014/2018)
Do varão me narra, Musa, do muitas-vias, que muito
vagou após devastar a sacra cidade de Troia.
De muitos homens viu urbes e a mente conheceu,
e muitas aflições sofreu ele no mar, em seu ânimo,
tentando garantir sua vida e o retorno dos companheiros.
Nem assim os companheiros socorreu, embora ansiasse:
por iniquidade própria, a deles, pereceram,
tolos, que as vacas de Sol Hipérion
devoraram. Esse, porém, tirou-lhes o dia do retorno.
De um ponto daí, deusa, filha de Zeus, fala também a nós.

21. André Malta (2018)
O varão me evoca, Musa || multiforme, que muitíssimo
vagou, depois de pilhar || a sacra pólis de Troia,
e de muitos homens viu || cidades e soube a mente,
e muitas dores no mar || em seu ânimo sofreu,
almejando sua vida || e a volta dos companheiros.
Mas nem assim os salvou,|| apesar de se empenhar,
pois pereceram por causa || dos próprios atrevimentos,
os tolos, que devoraram || vacas do sobrepassante
Sol -- que deles então re-||tirou o dia da volta!
Disso a partir de algo, deusa|| de Zeus, nos fala também.

22. Frederico Lourenço 2a versão (2019)
Fala-me, Musa, do homem versátil que tanto vagueou,
depois que de Tróia destruiu a cidadela sagrada.
De muitos homens viu as cidades e a mente conheceu;
e foram muitas no mar as dores que sofreu em seu coração
para salvar a vida e o regresso dos companheiros.
Mas nem os companheiros salvou, embora o quisesse.
Pereceram devido às suas próprias loucuras,
tolos, que o gado de Hiperíon, o Sol,
comeram; e este lhes negou o dia do regresso.
Destas coisas, a partir de um ponto qualquer,
ó deusa, filha de Zeus, fala-nos também a nós.

23. Guilherme Gontijo Flores (2019)
O homem conta-me, Musa, do multimodal que por muitos
males passou, arrasando a santa muralha de Troia,
vendo e sabendo de muitas cidades e mentes humanas,
muitas dores sofrendo no mar e dentro do peito
ao proteger seu alento e o retorno de seus companheiros,
sem conseguir salvá-los, por mais que assim desejasse:
pois se perderam pela própria perversidade –
tão pueris que comeram o gado do Sol Hiperônio,
e este por isso então lhes tomou o dia da volta.
Deusa filha de Zeus, começa por um desses pontos.

24. Emily Wilson via Rodrigo Tadeu Gonçalves (2019)
Me conta sobre um homem complicado.
Musa, me conta como ele vagou
perdido, devastando a sacra Troia,
pra onde foi, quem encontrou, a dor
sofrida sobre os mares, e os trabalhos
pra os seus trazer pra casa e se salvar.
Falhou, e eles morreram por seus erros.
Comeram o gado do deus Sol, e o deus
os afastou de casa. Agora, Deusa,
conta essa história para os nossos tempos.
Encontre o início.

25. Milton Marques Júnior (s.d.)
Reconta-me, Musa, sobre o homem de muitas voltas, que em extremo
Errou, depois que destruiu a cidadela sagrada de Troia:
Viu as cidades de muitos homens e conheceu seu pensamento,
Que, sobre o mar, muitas dores sofreu no coração,
Lutando pela sua vida e pelo retorno dos companheiros.
Mas não salvou os companheiros, embora desejando:
Pois pela própria louca presunção deles mesmos pereceram,
Tolos! Os bois do Sol de Hipérion comeram:
Em seguida, o dia do retorno daqueles foi destruído.
Estas coisas, de algum ponto, narra-nos também, Deusa, filha de Zeus.

26. Matheus Oliveira (2020)
O homem, o muitos-atalhos, que passa por muito
tendo pilhado as sagradas muralhas de Tróia,
conta-me, Musa: as cidades e os muitos costumes,
muitos suplícios que no íntimo pena à deriva
salvaguardando o seu ser e o regresso dos sócios.
Quanto esforçasse é em vão, pois não chega a salvá-los:
visto que a própria imprudência aniquila os parceiros,
tão pueris, que o rebanho de Hélio Hiperônio
comem: e assim o deus Sol os afasta de casa.
De onde quiseres, ó Deusa, nos conta também.

27. Adriano Aprigliano (2020)
Varão me canta, Musa, viajado,
o qual vagou deveras, Troia santa,
depois de devastá-la; viu cidades
e a mente soube a muitos homens; vária
sofreu no mar e n'alma dor, a vida
afim de que guardasse e a volta aos sócios.
Porém não salva os sócios, que ansiava:
da própria insensateza pereceram,
sandeus, pois que do Sol que sobrepassa
as vacas devoraram; surrupia
de volta o dia o Sol a eles. Deusa,
de Zeus ó filha,  a nós dalgures fala. 


28. Sophía de Delos (2021) 

Canta pra gente, mãe Musa,

                                               Macho solerte erradio

 

Sofrente, pós destruir

                                               Sacro forte Tróia ingente.

 

De muitos homens viu centros

                                               E os sentidos conheceu,

 

Muitas dores no imo peito

                                               Padeceu no Ponto mar,

 

Por lhe salvar a viv’alma

                                               E a volta ânsia dos seus                     (05)

 

Companheiros, qual socorro

                                               Não conseguiu, bem tentou,

 

Em sandices absortos,

                                               Por própria ação pereceram,

 

Pois comeram, insensatos,

                                               Do sol Hipérion o gado

 

E este por fim lhes privou

                                               Do dia mãe do retorno.

 

De um ponto, nume, da história,                                    

                                               Filha de Zeus, diz conosco.                  (10)

 

29. Leonardo Antunes (2025) 

Sobre o guerreiro de muitos encontros, 
musa, me conta — que muitas e tantas 
voltas trilhou, depois de ter pilhado 
a cidadela sagrada de Troia. 
(Muitas cidades de seres humanos 
ele viu; conheceu seus pensamentos. 
Muitos foram também os sofrimentos 
que no alto-mar seu coração sofreu,
 tentando resguardar a própria vida 
e a volta à casa para os companheiros. 
Mas nem assim foi capaz de salvar 
os companheiros, por mais que tentasse,
 pois eles foram todos destruídos 
por causa de sua própria petulância.
 Tolos! Eles ousaram devorar
 os bois sagrados do filho de Hipérion,
 os bois do Sol, que por isso os privou
 do dia do retorno para casa.)
Sobre essas coisas, de algum ponto, deusa,
 filha de Zeus, agora nos reconta! 

30. Emily Wilson via Layla de Oliveira (2025) 

Me conta sobre um homem complicado.
Musa, me conta como ele vagou
perdido ao destruir a sacra Troia
e pra onde foi, com quem topou, que dores
sofreu no mar, e como ele tentou
se salvar e trazer de volta os seus.
Falhou, e por seus erros pereceram.
O Deus Sol os deteve do lar, pois
devoraram seus bois. Deusa, de Zeus
nascida, conta a velha história aos nossos
tempos modernos. Desde o início. Todos (...)

31. Giuliana Ragusa (2025)

O homem reconta-me, ó Musa, o multivoltas por muito
forçado a vagar, após a sacra cidadela de Troia destruir;
de muitos homens viu urbes e mentes conheceu,
e muitas dores no mar sofreu no peito,
lutando pela vida e pelo retorno dos sócios. 
Mas os sócios ele não salvou, embora o quisesse,
pois a própria insensatez deles os arruinou –
néscios! Que os bois de Hélio Heperionida 
comeram; mas ele lhes tirou o dia do retorno 
Deste ou doutro ponto, ó deusa filha de Zeus, fala a nós.

32. Guilherme Gontijo Flores 2a versão (2026)

Do homem me conte, Musa, o Muita-Volta, que muitas 
coisas passou, depois de arrasar com Troia sagrada, 
muitos humanos viu, conheceu cidadelas e mentes, 
muito mal sofreu no mar e dentro do peito, 
quando buscava alento e retorno aos seus companheiros.
 Não salvou os parceiros, embora tanto tentasse, 
pois pereceram graças à sua própria maldade, 
tão infantis, por comerem o gado do Sol, ou Hipérion; 
de Hélio que assim lhes tomou o saudoso dia da volta.
   Donde quiser, ô Filha de Zeus, comece pra gente. 

33. Adriel Teixeira, Christiano Sensi, Leonardo Augusto e Raquel Siphone (2026) 

Canta-me, ó Musa, o homem de mil ardis,
que vagando sofreu de muitos males
desde que conquistou a sacra cidade de Troia.
Muitas cidades viu e mentes de homens conheceu
no mar, muitas dores atingiram-lhe o coração
lutando pela vida e retorno dos companheiros.
Vão esforço, não os pôde salvar
da ruína da própria desmesura,
comer o rebanho do Sol, desvario,
e do retorno ao lar, Hélio os proibiu.
Canta-nos, ó Musa, filha de Zeus,
começando de onde convier. 



REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Jacyntho Lins. A Antiga Musa: Arqueologia da Ficção. Belo Horizonte: Relicário, 2015.
CAMPOS, Haroldo de. Odisséia de Homero: fragmentos. Tradução: Haroldo de Campos. Organização: Ivan de Campos e Marcelo Tápia. Apresentação: Trajano Vieira. São Paulo: Olavobrás, 2006.
CHANOCA, Tatiana Alvarenga. O texto pelo avesso: gênese das traduções em português da Ilíada. Dissertação de Mestrado. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2017.
DELOS, Sophía de. Cordel Homérico. Juazeiro do Norte: Editora Perin, 2021. 
FLORES, Guilherme Gontijo. Aedos, rapsodos, poetas e outras veríssimas mentiras. Avesso, 4. Florianópolis: UFSC, 2026. Disponível em: https://aocontrario.paginas.ufsc.br/files/2026/06/avesso04.pdf (Acesso em: 20.07.2026). 
GONÇALVES, R.T. "Homem Complicado" in Helena, uma revista de ideias, arte e cultura, n.11. Disponível em: http://www.bpp.pr.gov.br/Helena/Noticia/O-homem-complicado (Acesso em 17.07.2020).
HOMERO. Odisseia. Tradução de Antônio Pinto de Carvalho. São Paulo: Difel, 1960.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição e Apresentação de Antônio Medina Rodrigues. São Paulo: EDUSP, 1996.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Frederico Lourenço. Lisboa: Cotovia, 2003.
HOMERO. Odisséia I: Telemaquia..Tradução, introdução e análise de Donaldo Schüler. Porto Alegre, RS: L&PM, 2007.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Frederico Lourenço. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Trajano Vieira. São Paulo: Editora 34, 2011.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 2013.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Christian Werner. São Paulo: Cosac&Naify, 2014.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Christian Werner. São Paulo: Ubu, 2018.
HOMERO. Odisseia. Tradução, introdução e notas de Frederico Lourenço. Lisboa: Quetzal, 2018.
HOMERO. Odisseia em Decassílabos Duplos. Tradução de Leonardo Antunes. Araçoiaba da Serra/São Paulo: Mnema, 2025. 
HOMERO. A Odisseia - Edição de Luxo. Tradução de Adriel Teixeira, Christiano Sensi, Leonardo Augusto e Raquel Siphone. São Paulo: Excelsior, 2026. 
KOVACS, Tâmara. Ensaios e Experiências de Tradução da Ilíada no Oitocentismo Português. Trabalho de conclusão de curso. São Paulo: FFLCH/USP. 2013.
MALHADAS, Daisi; NEVES, Maria Helena da Moura. Antologia de Poetas Gregos: de Homero a Píndaro. Araraquara: Editora da UNESP, 1976.
MALTA, André. Astúcia de Ninguém - Ser e não Ser na Odisseia. Belo Horizonte: Impressões de Minas, 2018. 
OLIVEIRA, Layla de. Aos nossos tempos modernos: uma proposta de tradução da Odisseia de Emily Wilson. Cadernos de Literatura em Tradução, 30, 424-443. Disponível em: https://revistas.usp.br/clt/pt_BR/article/view/243101 (Acesso em 26.07.2026). 
RAGUSA, Giuliana. Odisseia: Guia de Leitura. Araçoiaba da Serra/São Paulo: Mnema, 2025. 
SEBASTIANI, B. B.. Uma experiência de leitura e tradução: Odisséia, I, 1-21. Modelo 19, São Paulo, v. 13, p. 92-94, 2002.
PEREIRA, Maria Helena da Rocha. Hélade: Antologia de Cultura Grega. Guimarães Editores, 2009.
SILVA, Francisco Inocêncio da. Dicionário bibliográfico português. Tomo Décimo. Lisboa:Imprensa Nacional, 1883. 

TORRANO, JAA. "Odisseia, Canto I". in Letras Clássicas, vol. 5. São Paulo: Humanitas/ FFLCH/ USP/ DLCV. 2001.
VIALE, Antônio José. Miscelânea Helênico-Literária. Lisboa: Imprensa Nacional. 1868.

sexta-feira, fevereiro 27, 2026

Atena louva Odisseu (Odisseia, 13, 291-301)


Deveria ser matreiro e ladino (até mesmo se fosse um Deus)
quem te excedesse nas tuas espertezas todas!
Safado! Rico na Astúcia, ávido por ardis, não pretendias,
Nem mesmo em tua terra, deixar de lado as ilusórias
palavras, as fraudes, tuas amigas do peito?
Mas não falemos mais nisso! Sabemos ambos
Artimanhas: dos mortais todos, és de longe o melhor
Na palavra e nos planos; entre os Deuses
também sou famosa pela astúcia e estratagemas;
Tu não me reconheceste? Sou Palas Atena, filha de Zeus.
Em todos os teus trabalhos, estou ao lado e te protejo"

Tradução de Rafael Brunhara (2010, inédita)

sexta-feira, janeiro 02, 2026

As Jarras de Zeus (Ilíada, Canto 24, Versos 522-551) - 7 traduções

Tradução de André Malta (2024)

"Mas vamos, senta-te ao trono: § deixemos, de todo modo,
que as dores repousem no ânimo, § ainda que desgostosos,
porque ganho algum provém § do gélido prantear.
Pois isto os deuses fiaram § para os míseros mortais:
que vivam a penar - eles § próprios são sem aflições.
Sobre a soleira de Zeus § estão postas duas jarras
com dádivas que dá: uma § de más, e a outra de boas.
Pra quem as dá misturadas § o desfruta-raio Zeus,
esse então ora com males § cruza, ora então com venturas;
mas pra quem dá tão somente § horrendas, põe-no afrontado:
a maligna fome sobre § a terra divina o move,
e ele vaga desonrado § por deuses e por mortais. 
Assim a Peleu os deuses § deram esplêndidas dádivas,
desde o nascimento: sobre- § pujando a todos os homens
em riqueza mais fortuna, § reinava sobre os mirmídones,
e, embora mortal, fizeram § de uma deusa sua esposa.
Mas até mesmo para ele § o deus pôs um mal, pois não
lhe nasceu prole de filhos § soberanos no palácio:
gerou um só, prematuro § em sua morte. E agora não 
o amparo enquanto envelhece, § já que, tão longe da pátria,
demoro-me em Troia, a ti § e a teus filhos afligindo.
Tu também, ouvimos que eras § afortunado, ancião:
quanto delimitam Lesbos, § sede de Mácar, embaixo,
e, de cima para baixo, § a Frígia e o Helesponto infindo,
aí dizem que em riqueza § e prole sobrepujavas.
Depois, porém, que os Celestes § te deram tal sofrimento,
sempre em torno da cidade § há combates e matanças.
Mas suporta, e no teu ânimo § não lamentes sem cessar,
pois tu não ganharás nada § com penar pelo teu filho:
não o levantarás antes § de padecer outro mal" 

Tradução de Leonardo Antunes (2022):

Mas chega disso. Vem aqui sentar-te
sobre este trono. Deixemos de lado
a tristeza nos nossos corações,
por mais angustiados que estejamos.
Não há nada que possa ser ganhado
agora com o luto congelante,
pois foi assim que a vida foi tecida
 pelos deuses aos pobres dos mortais,
para viverem sempre angustiados —
e eles próprios não têm preocupações.
É sabido que existem duas urnas
postas ao lado dos umbrais de Zeus.
Os presentes que dão são diferentes:
uma dá males e a outra dá bênçãos.
Quando Zeus que se apraz com os trovões,
depois de misturar das duas urnas,
concede seus presentes para os homens,
 ora dá males, ora dá benesses.
Mas, quando ele resolve conceder
apenas os dons lúgubres a alguém,
faz um homem tristíssimo, que vaga
com fome horrível pelo chão sagrado,
sem nunca receber nenhuma honra
nem entre os deuses nem entre os mortais.
Foram tais os esplêndidos presentes
que os deuses concederam a Peleu
no dia em que nasceu, pois se tornou
eminente entre todos os humanos,
tanto em ventura quanto na riqueza.
Reinava sobre os homens mirmidões
e, sendo apenas humano, mortal,
recebeu uma deusa em casamento.
Porém o deus também lhe concedeu
a desgraça, pois ele inda carece
de uma estirpe de filhos poderosos
para encher o salão de seu palácio.
Teve somente um único rebento,
 de vida curta, que nem poderá
lhe dar cuidados conforme envelhece —
pois permaneço ainda muito longe
da terra pátria, acampado em Troia,
causando só tristezas aos teus filhos
e a ti mesmo, ancião, que ouvi dizer
ter sido próspero em tempos passados.
De fato, tanto em Lesbos, lá no assento
de Mácar, e também mais para o norte,
quanto também na Frígia, desde cima,
e por todo o Helesponto interminável —
em todas essas partes, velho, falam
de ti com muitos filhos e riquezas.
Porém agora, como as divindades
celestes te trouxeram a desgraça,
em torno à tua cidadela há sempre
batalhas e matanças de guerreiros.
Ainda assim, resiste! Não te doas
demasiadamente o coração,
pois não há nada mais a ser ganhado
 lamentando o destino de teu filho,
nem poderás fazer com que reviva.
É mais fácil sofreres outro mal.”

Tradução de Christian Werner (2018)

"Pois senta na poltrona, e, apesar de tudo, as aflições
deixemos descansar no ânimo, embora angustiados.
De nada adianta o lamento gelado. 
Isto os deuses fiaram para os pobres mortais:
viver angustiado. Despreocupados são eles próprios.
Dois tipos de cântaro estão no chão de Zeus
com dons que ele dá, males num, bens no outro.
A quem Zeus prazer-no-raio der uma mistura,
este ora obtém algo ruim, ora algo bom;
a quem der só coisas funestas, torna-o desprezível, 
danosa fome canina impele-o sobre a terra divinal,
e vaga nem honrado pelos deuses nem pelos mortais. 
Assim também a Peleu os deuses deram dons radiantes
desde o nascimento: entre todos os homens exceleu
na fortuna e na riqueza, rege os mirmidões
e, para ele, um mortal, fizeram de uma deusa sua esposa.
Mas também a ele o deus impôs um mal: que não
houvesse, em sua casa, progênie de filhos senhoris,
e gerou um só, vítima da morte não sazonal; dele,
envelhecendo, não cuido, pois, bem longe da pátria,
quedo-me em Troia, afligindo a ti e a teus filhos. 
Ouvimos que também tu, velho, antes era afortunado:
tanto quanto concentram Lesbos, assento de Ditoso,
a Frígia terra adentro e o ilimitado Helesponto,
a esses, velho, dizem que em riqueza e filhos superas.
Porém, desde que os Celestes te trouxeram essa desgraça,
em volta da cidade há sempre combates e carnificinas.
Aguenta e não lamentes sem cessar em teu ânimo;
nada realizarás, atormentando-te por teu filho,
nem o ressuscitarás, antes de sofreres outro mal" 

Tradução de Frederico Lourenço (2003/2013/2019)

Mas agora senta-te num trono; nossas tristezas deixaremos
que jazam tranquilas no coração, por muito que soframos.
Pois não há proveito a tirar do frígido lamento.
Foi isto que fiaram os deuses para os pobres mortais:
que vivessem no sofrimento. Mas eles próprios vivem sem cuidados.
Pois dois são os jarros que foram depostos no chão de Zeus,
jarros de dons: de um deles, dá os males; do outro, as bênçãos.
Àquele a quem Zeus que com o trovão se deleita mistura a dádiva,
 esse homem encontra tanto o que é mau como o que é bom.
Mas àquele a quem dá só males, fá-lo amaldiçoado,
e a terrível demência o arrasta pela terra divina
e vagueia sem ser honrado quer por deuses, quer por mortais.
Assim, também a Peleu os deuses deram gloriosos dons
535 desde o nascimento: a todos os homens sobrelevava
em ventura e riqueza e era rei dos Mirmidões;
sendo mortal, deram-lhe uma deusa como esposa.
Mas além disto lhe deram os deuses o mal, porque
não foi gerada no palácio uma progénie de filhos vigorosos,
 mas só teve um filho, fadado para uma vida breve. E eu
nem o acompanho na sua velhice, visto que bem longe da pátria
estou aqui sentado em Troia, atormentando-te a ti e aos teus filhos.
Mas também de ti, ó ancião, ouvimos dizer que outrora foste feliz
Tudo o que até Lesbos, sede de Mácaro, está compreendido,
545 e lá para cima, para a Frígia, assim como o amplo Helesponto:
dizem que entre estes povos eras distinto pela riqueza e pelos filhos.
Mas desde que os celestiais Olímpios te trouxeram esta desgraça,
sempre em torno da tua cidade há combates e morticínios.
Mas aguenta: não chores continuamente no teu coração.
550 Pois de nada te aproveitará lamentares o teu filho,
nem o trarás à vida, antes de teres já sofrido outro mal.»

Tradução de Haroldo de Campos (2003)

Mas senta agora neste trono: aflitos ambos,
deixemos que serene a dor no coração,
pois do pranto glacial não deriva nenhum
proveito. Assim os deuses urdem o fadário 
dos infaustos mortais: um viver agoniado,
sendo os numes incólumes; pois há dois cântaros
nos umbrais de Zeus, cheios de dons que ele nos dá,
um de ruins, de bons o outro. Mescla-os Zeus fulmíneo
e os versa: ora o mal, ora o bem, deparará 
quem os receba; quando maldosos opróbrios
apenas colha, malsinado vagará
pela terra divina, famélico, menos-
-prezado por mortais e deuses. A Peleu,
os deuses, com preciosos dons, lhe galardoaram 
desde o berço: excedia a todos mais em bens
e ventura; era rei dos Mirmidões; mortal,
de uma imortal se fez esposo. Um pesadume
o nume lhe infligiu: uma prole de príncipes
não gerou no palácio, salvo um, morituro - 
eu -, que dele não posso cuidar na velhice,
pois estou longe, em Troia, danando a ti e aos teus
filhos. Sênior, ouvimos que já foste muito
venturoso, excedendo em bens e prole a todos
nos limites de Lesbos, do rei Mácar, mar 
alto e, no plaino acima, a Frígia e o Helesponto, ainda,
infindo. Desde quando os Urânios te enviaram
malefícios, batalhas e carnagem cercam-te
a urbe. Sofre-os, paciente, e deixa de lamurias;
por teu filho agoniar-te, não fará com que ele 
ressuscite, mas outro mal pode advir-te, antes.”

Tradução de Carlos Alberto Nunes (1941)

"Vamos assenta-te agora no trono; apesar de angustiados
é conveniente deixar que as tristezas no peito se aplaquem.
Nada o homem lucra em deixar-se invadir pelo gélido pranto.
Sempre viver em tristeza: eis a sorte que os deuses eternos
de descuidada existência aos mortais infelizes dotaram.
Sobre os umbrais do palácio de Zeus dois tonéis se acham postos
de suas dádivas; um só de males; de bens o outro cheio.
Se misturando-as Zeus grande senhor dos trovões as derrama
quem as recebe ora goza ora males por sorte lhe tocam;
mas o que dele recolhe somente infortúnios escárnio
vivo se torna; em extrema miséria na terra divina
é condenado a vagar desprezado por homens e deuses.
Ao nascimento também de Peleu os eternos lhe deram
dons inefáveis: riquezas sem conta dos homens a estima
e o incontestado governo dos fortes guerreiros Mirmídones.
Mais: apesar de mortal como esposa uma deusa lhe cedem.
Grande infortúnio porém concederam-lhe os deuses negando-lhe
filhos que o mando pudessem herdar-lhe no belo palácio;
540 a mim somente gerou destinado a morrer muito cedo.
Longe da pátria não posso cercar de cuidados o velho
pois me acho em Tróia causando-te e aos filhos desditas sem conta.
Tu também velho já foste feliz pelo que me contaram.
Quantos guerreiros existem de Lesbos na sede de Mácar
até para o norte da Frígia nos lindes do vasto Helesponto
já dominaste abençoado com filhos e bens infindáveis.
Mas desde o instante em que os deuses celestes tal praga te enviaram
guerra somente e homicídios em torno dos muros te soam.
Vamos suporta! Não deves à dor excruciante entregar-te.
Nada consegues chorando teu filho com tantos encómios;
não ressuscita e além disso outro mal poderias causar-te.”

Tradução de Odorico Mendes (1874) 

Senta-te; ao luto agora devemos tréguas.
Viver sempre em tristeza é lote humano:
Existir sem cuidados é dos deuses.
Há dois tonéis ao limiar de Jove
De males e de bens: se misturados
Os derrama o Tonante, o que os recebe
Ora sofre e ora goza; mas, se entorna
Somente males, em penúria o triste
Vaga de pesadume em pesadume,
Dos imortais ludíbrio e dos mundanos.
Assim teve Peleu mil dons celestes,
Brilho, opulência, império e uma deidade
Por consorte; mas Júpiter negou-lhe
Ao trono sucessor, porque imaturo
Devo longe acabar, sem que de arrimo
Lhe seja na velhice, em Tróia estando
Para desgraça dela e teu flagelo.
Também lograste já de quanto abrange
Lesbos ao sul, de Macaris morada,
A Frígia eoa e amplíssimo Helesponto;
Brilhaste, velho, em filhos e riquezas;
Mas, dês que o Céu mandou-te a crua guerra,
Geme Ílio de matança e horror cingida.
A alma em luto perpétuo não consumas;
Com te afligir Heitor não ressuscitas;
Quiçá maiores danos te ameaçam.”

domingo, março 01, 2020

Lendo Homero em tradução no século XIX


José Agostinho de Macedo*, Motim Literário em Forma de Solilóquios, Lisboa: Tipografia José da Rocha, 1841, p.44-45.


“O peso e a autoridade dos séculos nunca me pode mover, eu não conheço nestas coisas de sua natureza frívolas (e que importam versos) outro tribunal mais que o da razão. Para julgar por mim mesmo, capitulei com a minha paciência, que ela aturaria de fio a pavio a leitura do eterno Homero, que devoraria a Ilíada e Odisseia sem lhe faltar um jota: assim sucedeu, e como eu não sei Grego, li a tradução de Clark em Latim, mais zangado fiquei, mais aborrecido, que é tão literal e tão chã, que provoca a cada instante a vômito, cada página são oito grãos de tártaro emético. Lancei mão de Dacier, a mais fanática de todos os panegiristas do pai Homero, eis aqui uma verdade, a minha paciência esteve para ser francesa, quebrantando logo a capitulação, apenas pude aturar de cabo a rabo a sonolentíssima leitura do narcótico Homero. Talvez isso seja uma blasfêmia aos olhos do pai Apolo. Mas porque motivo este nume dos glosadores não me quer favorecer, com suas benignas influências, quando leio o pai Homero? Por que não escalda minha imaginação e a faz ferver em ponto de poder sentir e gostar todas as belezas da divina Ilíada, que tantos povos, e tantos homenzarrões sábios e taludos têm admirado há quase três mil anos?”


* José Agostinho de Macedo (1761-1830) foi um padre e poeta português. Autor de vasta obra e figura bastante controversa em seu tempo, ficou na verdade mais conhecido como intenso crítico de Camões, ao qual tentou corrigir com seu próprio poema épico, Oriente (1814) e uma alentada Censura das Lusíadas (1820).




quarta-feira, janeiro 06, 2016

Ilíada IV. 473-487 - Ájax mata Simoésio (Tradução: Frederico Lourenço)

Então atingiu Ájax, filho de Télamon, o filho de Antémion —
o florescente Simoésio, ainda solteiro, que outrora a mãe
dera à luz junto às correntes do Simoente, quando descia do Ida;
pois aí se dirigira com os pais para ver os rebanhos.
Por essa razão lhe puseram o nome de Simoésio; mas aos pais
não restituiu o que gastaram ao criá-lo, pois breve foi a sua vida,
subjugado como foi pela lança do magnânimo Ájax.
Enquanto avançava entre os primeiros foi atingido no peito,
junto ao mamilo direito; e completamente lhe trespassou
o ombro a lança de bronze. No chão caiu como o álamo
que cresceu nas terras baixas de uma grande pradaria,
liso, mas com ramos viçosos na parte de cima —
álamo que com o ferro fulgente o homem fazedor de carros
cortou para com ele fabricar um lindíssimo carro,
e que deixou a secar, jazente, na ribeira de um rio.

HOMERO. Ilíada. Tradução de Frederico Lourenço. São Paulo: Cia. das Letras. 2012.

quarta-feira, junho 08, 2011

Ilíada 2.212-277: Tersites

Só Tersites crocita, corvo boquirroto,
a cabeça atulhada de frases sem ordem,
sem tino, desatinos, farpas contra os reis,
tudo para atiçar o riso dos Aqueus.
Era o homem mais feio jamais vindo a Ílion:
vesgo, manco de um pé, ombros curvos em arco,
esquálido, cabeça pontiaguda, calva
à mostra, odioso para Aquiles e Odisseu,
que a ambos insultava e que agora ao divino
Agamêmnon afronta com sua voz estrídula
(os Aqueus, contra o rei, andavam ressentidos,
o coração roído de um rancor enorme).
Ele, vociferando, vitupera o Atreide:
"Filho de Atreu, de que reclamas, que te falta?
Tendas plenas de bronze, repletas de escravas,
fina flor, que os Aqueus te dão primazia
de escolha, quando às mãos nos tomba uma cidade.
Careces de mais ouro, que um Troiano, doma-
-corcéis, te traga de Ílion, resgate do filho,
apresado por mim ou presa de outro Aqueu?
Queres outra cativa, para, a teu prazer
apartá-la, possuí-la? Não te cabe, chefe
dos filhos dos Aqueus, cumulá-los de males!
Ó bando de adamados, não Aqueus, Aquéias,
voltemos para casa com as naus. Larguemos
esse um; que coma a sós, em Tróia, os seus despojos
e veja se lhe somos úteis ou inúteis.
Esse que agora mesmo, desfeiteando Aquiles --
melhor do que ele em tudo -- rapinou-lhe o prêmio.
Ao coração de Aquiles, brando, faltou fel,
senão seria, Atreide, o teu último ultraje.

Contra o pastor-de-povos, Agamêmnon, rei,
assim falou Tersites. Odisseu divino
se acerca dele, olhar escuro, fala dura:
"Tersites, língua fátua, no arengar sonora,
segura-te, não queiras guerrear com reis.
Homem nenhum, pior que tu, chegou a Ílion
com os filhos de Atreu. É o que digo. Não ponhas
nomes de reis na boca ao proferir arengas.
Cala os insultos. Não te ocupes do retorno.
Não sabemos ao certo o fim de nossa empresa,
se os filhos dos Aqueus, bem ou mal, voltarão.
No entanto, fustigando Agamêmnon Atreide,
pastor-de-povos, eis que o culpas pelos dons
copiosos que lhe doaram destemidos Dânaos.
Arengas impropérios. Pois agora escuta:
prometo (e o cumprirei) se te pilho de novo
desvairando, a cabeça em meus ombros, ereta
eu, Odisseu, não mais terei, nem mais Telêmaco
há de ser filho meu, se não te apanho e dispo
da túnica e do manto, roupas que tu prezas,
dos panos que resguardam teu pudor, e às leves
naus te devolvo, aos trancos, humilhado, em prantos".

Falou e com o cetro deu-lhe nos costados
e ombros. Ele dobrou-se, de olho lacrimoso.
Um vermelho vergão sangrou-lhe o lombo curvo,
golpe do cetro de ouro. Então sentou-se trêmulo,
olhos em branco, moído, enxugando-se as lágrimas.
Ressentidos embora, os Aqueus gargalharam,
uns aos outros dizendo divertidamente:
"Ó deuses! Odisseu já cumpriu mil façanhas,
príncipe em bons conselhos, ardiloso em guerra.
Feito nenhum, porém, entre os Aqueus melhor
do que este realizou, calando a logorréia
ao boquirroto de ânimo arrogante. Certo,
nunca mais este insano afrontará os reis".

domingo, abril 17, 2011

Ilíada, XXI, 73-110 - Aquiles e Licáon

Então Licáon com uma mão tocou-lhe os joelhos em súplica,
enquanto com a outra agarrava a lança afiada e não a largava.
E falando-lhe proferiu palavras apetrechadas de asas:

"Peço-te pelos teus joelhos, ó Aquiles. Respeita-me e tem pena
de mim. Perante ti, ó tu criado por Zeus, sou suplicante venerando.
Pois foi à tua mesa que primeiro comi o cereal de Deméter,
no dia em que me tomaste no bem cuidado pomar;
depois levaste-me para longe do meu pai e dos meus amigos,
para a sacra Lemnos; lá te fiz lucrar o preço de cem bois.
Agora ganhei a liberdade por ter pago três vezes o meu preço;
e esta é a minha décima segunda aurora, desque que regressei
a Ílion depois de tudo que sofri. Agora de novo nas tuas mãos
me pôs o fado malévolo. Sou decerto detestado por Zeus pai,
que me dá novamente a ti. Para uma vida curta me deu à luz
minha mãe, Laótoa, filha de Altes, o ancião -
Altes, que é rei dos belicosos Léleges,
senhor do íngreme Pédaso no Satnioente.
Príamo desposou sua filha, assim como muitas outras;
mas dele nós dois nascemos, e tu matar-nos-ás aos dois.
Ao outro tu mataste entre os peões dianteiros,
ao divino Polidoro, com uma estocada da tua lança.
Agora ao meu encontro virá a morte. Pois não creio
que escaparei às tuas mãos, visto que nelas me pôs um deus.
Mas outra coisa te direi e tu guarda-a no teu espírito:
não me mates, pois não nasci do útero donde nasceu Heitor
que matou o teu companheiro, tão bondoso e valente.

Assim lhe falou o glorioso filho de Príamo com palavras
de súplica; mas não foi voz branda que ouviu em resposta:

"Tolo! Não me ofereças resgates nem regateies comigo.
Antes de a Pátroclo ter sobrevindo o dia do seu destino,
sempre me era mais agradável ao espírito poupar
os Troianos; e muitos levei eu vivos para vender noutro lado.
Mas agora nem um fugirá à morte, de todos os que o deus
me lançar nas mãos à frente das muralhas de Ílion:
nem um dentre todos os Troianos, muito menos os filhos de Príamo.
Não, querido amigo: morre tu também. Por que choras para nada?
E não olhas para mim e não vês como sou alto e belo?
Homem nobre é meu pai e deusa é a mãe que me gerou.
Mas também para mim virá a morte e o fado inelutável.
Chegará a aurora, a tarde ou então o meio-dia
em que em combate alguém me privará da vida,
quer atirando a lança ou disparando uma flecha."

Tradução de Frederico Lourenço

sábado, abril 09, 2011

Ilíada, 5, 711-868: Diomedes fere Ares

(...)
Mas Hera, braços-brancos, viu como os Aqueus
na luta cruel estavam sendo trucidados.
A Atena então profere palavras aladas:
"Filha de Zeus que porta-o-escudo, ó Infatigável!
Será vã a promessa feita a Menelau
por nós, de que, destruída Tróia bem-murada,
retornaria aos seus, se nós deixarmos Ares
enfurecer funesto. Lembremo-nos, ambas,
de nosso ímpeto bélico. Avante". Falou.
Não dissentiu a olhicerúlea, enquanto
Hera, augusta Croníade, os seus cavalos de áureo
frontal ia aprestando. Hebe ao carro adapta
rodas de bronze curvo eixo férreo, oito raios;
pinas de ouro maciço, lâminas de bronze
justas nas órbitas externas: maravilha!,
Em fina prata os cubos de rodas, girando,
de ambos os lados. Tiras feitas de ouro e prata
formam tensas o corpo do carro de dúplice
parapeito; dali sai o timão prateado,
à cuja ponta firma-se um jugo belíssimo
de ouro e peitorais aurilindos; sob o jugo
Hera os corcéis conduz, com gritos de combate.
Atena, por seu turno, filha de Zeus porta-
-escudo, deixa cair sobre o piso paterno
o peplo de polícromo bordado, urdido
por suas próprias mãos. Veste o arnês de Zeus, ajunta-
-nuvens, e cinge as armas para a lacrimosa
guerra. Põe nas espáduas a égide franjada,
pavorosa, que ostenta em coroa o Terror,
Fobos; Éris, Discórdia; Alké, Violência; Ioké,
glacial Perseguição; e a cabeça gorgônea,
monstruosa, obra de Zeus, espavento e prodígio.
A deusa coloca o elmo de cimeira dupla,
tetracórnio, dourado, com friso de heróis
de cem cidades. Sobe então ao carro flâmeo
e empunha a megalança, pesada, maciça,
com a qual, quando irada, a filha do fortíssimo
Pai dizima esquadrões de guerreiros, de heróis.
Hera fustigou rápida os corcéis. As portas
celestes por si mesmas rangeram, guardadas
pelas Horas, custódias do amplo céu urânio,
que abrem e fecham nuvens densas. Os corcéis,
picados, saem por elas. Longe dos demais
numes, Zeus, no mais alto píncaro do Olimpo
multiescarpado, senta-se. Hera, a dos  braços-
-brancos, sofreia então so cavalos, dizendo:
"Pai, não te indignas vendo os torpes feitos de Ares,
que às cegas, em desordem, extermina os Gregos?
Eu sofro, enquanto a Cípria e o arquiargênteo Apolo
gzam com os demandos do demente infrene
que atiçaram. Tua cólera despertarei,
Zeus Pai, se eu castigar Ares com o rigor
devido e o afastar do campo de batalha?"
Volta-se e lhe responde Zeus ajunta-nuvens:
"Mais valerá que incites de encontro a ele Atena
predadora; ninguém melhor para puní-lo".
Disse. E assentiu a deusa braços-brancos, Hera.
Fustigou os corcéis que de bom grado voam
entre a terra e o estelário. Quanto abarca a vista,
a perder-se na bruma, de quem, de um mirante,
contempla o oceano roxo, cor-de-vinho, tanto
os cavalos das deusas num arranco avançam,
altíssonos, nitrindo. Quando aos tróicos plainos
chegaram, ao ponto aonde confluem as correntes
dos dois rios, Escamandro e Simoente, Hera, braços-
-brancos, parou o carro, soltou os cavalos
e em torno espargiu densa névoa. Do Simoente
jorrou para os cavalos pasto ambrosíaco. Elas,
as deusas, seguem, pombas tímidas no andar,
sequiosas de ajudar os Gregos. Aonde mais
- e mais forte - o combate se adensa, as duas divas
acorrem. Em redor de Diomedes, o doma-
-corcéis, se apinha a chusma - leões carnivorazes
ou javalis fortíssimos. Hera, estacando,
emite um berro, símile no vulto a Estêntor,
animoso, voz bronzirreboante, só igual
ao clamor de cinqüenta: "Que vergonha, Aqueus,
só no aspecto notáveis! Presente à refrega
o divo Aquiles, Tróico nenhum aos dardânios
portais jamais surgiu, temendo-lhe o arremesso.
Agora, é vê-los. Lutam juntos às naves côncavas!"
Disse. E pôs-se a incitar o ânimo grego e a fúria.
Atena, olhos-azuis, busca o Tideide. O príncipe,
junto aos corcéis e ao carro, amainava a ferida
que Pândaro, flecheiro, lhe fizera. O suor,
por so o largo bálteo do broquel redondo,
o afligia. Exaurido, o braço já lhe pesa;
mas afasta a correia e limpa o sangue negro-
-nuvioso. A deusa o jugo os corcéis lhe toma,
dizendo-lhe: "Ó Tideide, ao pai não se assemelha.
De pequena estatura, Tideu era um bravo.
Certa vez o proibi de lutar, de ostentar
seu brilho. Como núncio, apartado dos Gregos,
fora a Tebas, perante Cadmeios sem conta;
impus-lhe banquetear-se nos salões tranqüilo.
Mas ele, de coração fogoso, com sempre,
pôs-se a reptar os jovens cádmios e os bateu
nos vários jogos (facilmente: eu ao seu lado).
Eu, agora, te amparo e guardo e, toda zelos,
te instigo a combater os Troianos. Opresso
de fadiga ou de frio temor descorajoso,
tu não pareces filho de Tideu, flamante-
-coração, da linhagem ilustre de Eneu."
O intrépido Diomedes volta-se e responde:
"Reconheço-te, deusa, filha de Zeus, porta-
-escudo. De boa mente falo, nada oculto.
Descoragem medrosa ou tibieza não travam
meu ímpeto.Recordo apenas teu ditame:
não afrontar jamais deuses no combate;
issso ensinaste a mim e aos outros; Afrodite,
somente, poderia eu ferir com meu bronze.
Eis porque retirei-me e concitei os meus
a reunir-se aqui, junto de mim, pois notei
Ares, em meio aos Tróicos, senhoreando a guerra".
Então, olhos-azuis, a deusa Atena diz-lhe:
Ó Diomedes Tideide, meu dileto no íntimo:
não te arreceies de Ares nem de qualquer outro
imortal. Estarei ao teu lado, incitando-te.
Lança os cavalos unicascos de encontro a Ares,
acomete-o de perto, sem temer-lhe a fúria:
é um insano de má-morte, um falso, um duas caras:
a Hera e a mim, não há muito, se declarou
inimigo dos Tróicos e a favor dos Gregos.
Agora, deslembrado, junta-se aos Troianos".
Assim falando, a deusa afasta o auriga Estênelo
do carro com a mão (este salta, obediente)
e sobe à biga ao lado do árdego Diomedes.
Estala o eixo de faia sob o peso de ambos,
uma deusa terrível e um herói fortíssimo.
Palas Atena empunha o látego e o bridão
e arremessa os corcéis unicascos de encontro
a Ares. Este espoliava o enorme Perifante
o mais valente etólio, progênie de Oquésio.
Despia-o da armadura o deus sanguinolento.
Atena põe (e faz-se invisível) o escuro
elmo de Hades. Invisa, Ares só vê Diomedes.
O matador de gente-larga Perifante,
enorme, ali mesmo onde, exânime, tombou
e se atira Diomedes, cavaleiro exímio.
E quando os dois se enfrentam, cara contra cara,
Ares, por sobre o jugo e as rédeas, pronto, o bronze
desfere, rapace, ávido por desalmar
o Tideide. A deusa, olhos-azuis, com a mão
o empolga e o faz voar no vazio, lançado longe,
além da biga. Então Diomedes, voz altíssima,
arroja o pique brônzeo. Atena o endereça
aos baixos, onde aperta o cinturão do deus.
Ali o fere e punge. A pele fina rasga-lhe
e a lança extrai do ferimento. Ares, o brônzeo,
berra, com um bramido de nove ou dez mil
homens, lutando a mando do nume da guerra.
Troianos e Aqueus tremem aterrorizados,
tão grande o urro de Ares belicoso. Assim
como um vapor das nuvens, tenebroso, exala-se
em tempo de calor, quando o vento colérico
tempestua, assim viu Diomedes o brônzeo Ares
subir, a par das nuvens, para a vastidão
do urânio céu. (...)

Tradução de Haroldo de Campos  

terça-feira, julho 13, 2010

Da Nékuia - Odisséia 11, 1-136 - Tradução de Haroldo de Campos

Foi assim que baixamos para a nau, mirando
o mar; antes, porém, lançamos o navio
ao sacro sal aquoso, o mastro e as velas todas
fazendo arborescer no barco escuro; então,
embarcamos carneiros e ovelhas. Subimos
a bordo, corações-cortados, todo-lágrimas.
Um vento enfuna-velas, favorável, ótimo
sócio, a deusa de belas tranças, poderosa,
claravoz, Circe, envia-nos, impulso à nau
de proa azul-cianuro. Após os faticosos
aprestos, nos sentamos, o piloto ao leme.
Transnavegamos, velas pandas, todo o dia.
O sol no ocaso, tudo escureceu: confins
do oceano fundo-fluente, povo e país cimérios,
circum-nevoentos, fosco-núveos, nunca o sol
radioso os afogueia, nem quando às estrelas
sobe, nem quando à terra baixa: noite lúgubre
sobre mortais sem sorte. Aproamos o navio
à costa; os animais foram trazidos para
fora, à praia; também nós, ao longo do oceano
fluescente, fomos todos seguindo, no afã
de conferir o sítio proferido por
Circe no seu aviso. Lá os dois, Perimedes
e Euríloco, aferraram as vítimas, eu
saquei da espada aguda, presa à minha coxa;
escavei uma fossa, um cúbito de lado,
vertendo libações para todos os mortos;
por primeiro, aquamel; depois o vinho doce;
água a terceira vez; alvíssima farinha
sobrespargi; roguei muito então às cabeças
vácuas dos mortos: a Ítaca tornando, estéril
novilha imolarei no paço, a melhor delas;
pira plena de dons, para Tirésias, só
para ele, todanegra, sineira, um ovelha.
Exconjurado assim o povo morto, as vítimas
dessangrei e na fossa negrejou o cruor.
Formas defuntas, psico-fantasmais, do Érebo,
moças e moços, multissofridos anciãos;
recém-morridas, tenras virgens que arrefecem;
muitos, bronzialanceados, caídos em combate,
de armas ensanguentadas; qual turba, ao redor
da fossa, inumeráveis, acorriam, daqui,
dali, em fragoroso tropel; um pavor
cloroso-pálido eis que me tomava todo.
Então aos companheiros conclamei: ovelhas,
que o bronze fero degolara, esfolem, grelhem-nas,
as carnes ofertando aos Sempiternos deuses,
ao forte Hades, à atroz Perséfone; do flanco
sacando a espada aguda, sentei-me impedindo
as vácuas testas de achegar-se ao sangue, enquanto
eu a Tirésias não tivesse ouvido. Veio
primeiro Elpénor, sombra-psiquê do finado
companheiro, insepulto ainda no ctônio chão
multívio seu cadáver, que no círceo paço
deixáramos sem pranto, sem jazigo, pois
outros afãs urgiam. Contristado ao vê-lo,
estas palavras-asas dirigi-lhe: "Elpénor,
como chegaste aqui sob o trevor nubloso?
A pé, ultrapassando minha nave negra?"
Tornou-me, suspiroso: "Odisseu Laercíade,
demonizou-me - ó multiastuto - o fado adverso;
fez-me dormir o vinho na mansão de Circe;
descuidei-me da volta, de baixar ao longo
das escadas; do topo caí, partindo a nuca,
as vértebras, desceu-me a ânima ao Hades!
Agora, pelos teus que na pátria ficaram;
por tua esposa; por teu pai que te nutriu;
por Telêmaco, só no teu solar, imploro
(pois sei que ao deixar este reino fosco irás
com tua nau bem-torneada rumo à ínsula Eéa)
que de mim não te olvides (lá chegando), ó rei!
Não fique eu para trás, sem pranto, sem jazigo,
ao léu enquanto a nau navega para longe;
não chames sobre ti a cólera dos deuses.
Ao fogo os meus despojos, armas, o que é meu.
Ergue-me a tumba às orlas da grisalha escuma:
Um homem sem fortuna, no futuro um nome,
e planta nela o remo que entre os meus vibrei."
Falou. De minha parte, respondi-lhe: "Elpénor,
ó sem ventura, tudo que rogas farei
e perfarei por ti." Sentados conversamos
nesse tom, tristemente; eu, gládio em guarda ao sangue
de um lado; ele, do lado oposto, discorrendo,
o ícone dele, e a fossa aberta entre nós ambos.
Veio a seguir a sombra-mãe, psiquê da Autólica
augusta Anticléia, mãe que eu deixara com vida,
vindo à Tróia. Chorei lágrimas consternadas.
Nem assim, mesmo aflito, permiti-lhe o acesso
à sanguinosa fossa, antes de vir Tirésias.
Veio, por fim, a sombra-psiquê do tebano
Tirésias, cetro-de-ouro. Conheceu-me e disse:
"Odisseu Laercíade, multiastucioso,
ó sem-ventura, por que vieste, de Hélios-Sol
fugindo à luz, aos mortos e à sua atroz necrópole?
Afasta dessa fossa o gládio agudo, que eu,
bebendo o sangue, coisas veras te direi."
Falou. Eu me arredei, remetendo à bainha
a argênteo-cravejada espada. De anegrado
sangue saciado, o imáculo adivinho, então,
proferiu seu prognóstico: "Odisseu glorioso,
buscas o mel-delícia do retorno; um deus,
ao invés, se empenhará em dar-te o fel difícil:
ao Tremeterra não creio que escapes; de ânimo
iroso, não esquece que o filho dileto
lhe cegaste. Sofrendo coisas ruins embora,
poderás regressar ainda, caso teu íntimo
domes e o dos teus homens. Ao aproar a nau
à ilha Tridêntea, após vencer o mar violeta,
as novilhas verás pastando e as bem-fornidas
ovelhas de Hélios-Sol, o deus onividente,
o oniescutante. Caso as deixes em paz, fixo
no regresso, intocadas, voltarás embora
sofrendo coisas ruins. Se lhes fizeres dano,
a ti, aos teus, à nau eu predigo infortúnio.
Mesmo que escapes, mesmo assim, só muito tarde
voltarás, velho, sobre nau alheia, sem
companheiros. Em casa, amargura: filáucia
de príncipes, comendo tua comida, todos
assediando tua esposa quase-deusa, dando-lhe
dons de bodas. De volta, tu lhes punirás
os malfeitos. Da astúcia oblíqua ou do fio nu
do bronze mortos todos os rivais, irás
com teu remo até onde um povo nada saiba
do mar, nem coma sal, nem tenha visto nunca
naves púrpuro-cavas, nem os remos-asas
das naus. Dou-te um sinal claro, uma senha-guia:
quando um outro viajor, contigo se cruzando,
disser que sobre a espádua resplendente levas
um joeirador de grãos, então finca na terra
o remo bem-lavrado, sacrifica ao rei
Posêidon um carneiro e um touro, e um javali
garanhão de javardas; volta à casa e oferta
hecatombes aos numes do urânio-céu, todos,
segundo a ordem prescrita. Do talásseo mar,
então, te provirá a morte, a mais doce, tal
que te colha avançado na idade, cercado
de um povo feliz. É o que eu falo e é verdade."


Tradução de Haroldo de Campos

Fonte: Revista de Estudos Clássicos - Phaos nº1

segunda-feira, dezembro 07, 2009

O Funeral de Sarpédon

Kaváfis ("O funeral de Sárpedon")

Grande dor sente Zeus. Pátroclo
matou Sárpedon; e agora se lançam
Menecíades e os aqueus para arrebatar
e aviltar o corpo.

Mas Zeus não concorda absolutamente com isso.
Ao seu filho amado - a quem deixou
morrer: tal era a Lei -
pelo menos o honrará depois de morto.
E eis que envia Febo à planície, lá embaixo,
instruído em como cuidar do corpo.

O cadáver do herói, com respeito e com pesar
Febo levanta-o e leva-o ao rio.
Lava-o da poeira e do sangue;
fecha as horríveis feridas, não deixando
aparecer nenhum vestígi; verte
os aromas de ambrosia sobre ele; com magníficos
trajes olímpicos veste-o.
Branqueia sua pele e com pente
de pérolas penteia seus negríssimos cabelos.
Os belos membros ajeita e estende.

Agora se assemelha a um rei auriga -
em seus vinte e cinco, em seus vinte e seis anos -
que repousa depois que ganhou,
com um carro de ouro e velocíssimos cavalos,
em uma famosa corrida o prêmio.

Assim, quando Febo terminou
sua missão, chamou os dois irmãos
Hipnos e Tânatos, ordenando-lhes
levar o corpo para a Lícia, rica região.

E por aquela rica região, a Lícia,
caminharam esses dois irmãos,
Hipnos e Tânatos, e quando enfim chegaram
à porta da casa real
entregaram o glorioso corpo,
e retornaram aos seus cuidados e trabalhos.

E quando o receberam ali, na casa, começou
com procissões, honras e lamentos,
e com abundantes libações de crateras sagradas,
e com tudo o que é adequado, o triste sepultamento;
e depois, hábeis artesãos da cidade,
e famosos artífices de pedra,
vieram erguer o túmulo e a estela.

Tradução de Ísis B. da Fonseca.

Ilíada, XVI. 666-684

A Apolo disse então o ajunta-nuvens Zeus:
"Do sangue escuro, Febo dileto, depura
Sarpédon, arredando-o das flechas; levando-o
bem longe, lava-o na água de uma corrente; unge-o
de ambrosia e o reveste de imortais roupagens;
depois, a portadores velozes o entrega,
aos gêmeos Sono e Morte, que o conduzirão
ao opulento e vasto país dos Lícios, onde
os parentes e amigos lhe darão sepulcro
e estela, privilégios e pompas da morte."
Falou. E Apolo não deixou de ouvir o Pai.
Baixa dos altos do Ida à batalha feroz.
Das flechadas arreda o divino Sarpédon.
Leva-o bem longe; lava-o na água corente; unge-o
de ambrosia e o reveste de imortais roupagens;
depois, a portadores velozes, o entrega,
aos gêmeos Sono e Morte, que o conduzem presto
ao opulento e vasto país do povo lício.

Tradução de Haroldo de Campos.