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domingo, fevereiro 22, 2026

Anacreontea - Traduções de Tadeu Andrade

 6

Eu tecia uma coroa
E entre as rosas vi o Amor;
Agarrei as suas asas,
Mergulhei-o no meu vinho,
E depois eu o bebi.
Mas agora, aqui no peito,
Elas fazem coceguinha.

7
As mulheres já me dizem:
“Você é um velho, Anacreonte!
Pega o espelho e vê se enxerga:
Não lhe sobram mais cabelos,
Sua cuca está pelada!”
Já eu, quanto ao meu cabelo,
Se ele existe ou já se foi,
Nada sei, mas isto eu sei:
Que convém tão mais ao velho
Se entreter com o prazer,
Quanto a Morte lhe é mais próxima.

8
Não me importa o que é de Giges 1,
Que reinou na antiga Sardes,
Não me tem qualquer cobiça,
Nem invejo os grandes reis.
Só me importa mergulhar
No perfume a minha barba,
Só me importa coroar
Com as rosas minha fronte.
O hoje é aquilo que me importa,
O amanhã quem é que sabe?
E, por isso, enquanto é dia,
Vá beber, lançar os dados,
Vá libar a Dioniso,
Pra doença não dizer
(Se vier): “Você não pode!”

 1Rei da Lídia, poderoso reino da Ásia Menor conhecido por suas riquezas. Sua capital era Sardes.

9
Deixe, pelo amor dos deuses,
Eu beber, beber sem conta,
Quero, eu quero enlouquecer!
Alcmeão enlouqueceu
E também o claro Orestes 1
Por matarem suas mães.
Eu, que não matei ninguém,
De beber o vinho rubro
Quero, eu quero enlouquecer.
Héracles enlouqueceu
Atirando as cruas flechas
Com o arco que era de Ífito 2.
Ájax enlouqueceu
Sobre o escudo se imolando
Com a espada de Heitor 3.
Quanto a mim, com este copo,
Nos cabelos a coroa,
Quero, eu quero enlouquecer.

 1 Tanto Alcmeão como Orestes mataram suas mães para vingarem seus pais. Como punição, ambos foram perseguidos com loucura pelas Erínias, deusas da vingança que punem crimes de sangue.

 2 Héracles matou Ífito, filho de Eurito, e tomou seu arco. Com esse mesmo arco, por um acesso de loucura que Hera lhe enviou, Héracles matou suas esposa, Mégara, e seus filhos.

 3 Na guerra de Tróia, Ájax, melhor dos gregos depois de Aquiles, depois de um duelo inconclusivo com Heitor, líder dos troianos, recebeu dele uma espada numa troca de presentes. Com essa mesma espada, Ájax se matou por vergonha de um acesso de loucura.

10
Que você deseja agora?
Que, matraca de andorinha?
Quer que as suas asas leves
Eu me ponha a tesourar?
Ou prefere que essa língua,
Como outrora fez Tereu 1,
Eu decida cortar fora?
Pra que foi dos belos sonhos,
Com seus cantos matutinos,
Saquear o meu Batilo?

 1 Tereu era um rei da Trácia que, apaixonado por Filomela, irmã de sua esposa, a estuprou, fazendo-a cativa e cortando-lhe a língua para evitar que contasse a alguém. Quando, Procne, sua esposa, descobriu, vingou-se servindo-lhe a carne do próprio filho num banquete. Quando Tereu perseguia as irmãs para matá-las, os deuses os transformaram em pássaros: tereu em uma poupa, Procne em um rouxinol e Filomela em uma andorinha, de onde vem a referência no poema.

11
Um Amor feito de cera
Um rapaz pôs-se a vender,
E eu, parando do seu lado,
Perguntei: “Quanto que custa
Este seu artesanato?”
E ele disse em fala dórica 1:
“Leve! Pague o que quiser!
Pra falar bem a verdade,
Eu não faço obras de cera,
Só não quero mais viver
Com o Amor, esse pilantra”.
“Vende-o! Vende-o! Pago bem!
Minha cama o acolherá”.
Vem, Amor, não se demore,
Incendeie-me, se não,
Para o fogo irá você.

 1 Um dos dialetos do grego. Talvez trate-se de uma referência à poesia dórica arcaica, que raramente cantava o amor. Seu autor mais famoso é Píndaro.

12
Alguns dizem que, gritando
À belíssima Cibele,
Átis, semi-feminino,
Na montanha enlouquecia 1.
Uns no píncaro do Claro,
Em que reina Febo Apolo,
Ao beber água falante
Enlouquecem, lançam gritos 2.
Quanto a mim, de Dioniso,
De perfume saciado,
E da minha companheira,
Quero, eu quero enlouquecer.

 1 Mortal por quem a deusa Cibele se apaixonara. Em pleno casamento dele, Cibele apareceu em sua forma divina e Átis, enlouquecido, se castrou, tornando-se o primeiro dos coribantes, sacerdotes eunucos da deusa.

 2 Referência ao oráculo de Apolo perto de Colofão, na Ásia Menor. Seu poço dava inspiração divina ao sacerdote.

13
Quero, quero, eu quero amar.
Eis que o Amor mandou amar,
Mas eu tive um pensamento
Tolo e desobedeci.
Ele então ergueu o arco
E as douradas flechas suas
E chamou-me para a a briga.
E eu tomando sobre os ombros
A armadura, como Aquiles,
Minha lança e meu escudo,
Com o Amor pus-me a lutar.
Ele vinha, eu fugia,
Logo lhe faltaram flechas
E ele se prostrou. Então
Atirou-se como um dardo,
E no meio do meu peito
Mergulhou e me desfez.
De que me serviu o escudo?
Que vou eu fazer por fora
Quando a luta é por dentro?

Fonte: "À moda de Anacreonte" in: À moda de Anacreonte | Tadeu Andrade

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Simônides - Elegia 8 (Tradução de Tadeu Andrade)

 Coisa mais bela disse o homem quio:
“Como das folhas são as gerações dos homens”.
Pouquíssimos mortais, como a escutassem,
Puseram-na no peito, pois atém-se a espera
Ao homem, já nascida n’alma jovem.
Quando um mortal possui da mocidade a flor,
No surdo engenho pensa o inatingível
E não espera que virá velhice ou morte,
Nem, se saudável, pensa na doença.
É tolo quem assim cogita, e desconhece
Que à juventude e à vida é pouco o tempo
Dos homens. E, se o aprendes, rumo ao fim da vida,
Na alma degustando os bens, suporta.

Fonte: tadeuandrade.wordpress.com  (Acessado em 11.02.2026).

quarta-feira, outubro 11, 2017

As Rãs, versos 90-105 - Três traduções (Tadeu Andrade, Trajano Vieira, Junito Brandão)

Tradução de Tadeu Andrade (ANDRADE, T.B.C. A Arte de Aristófanes: estudo poético e tradução d'As Rãs. Dissertação de Mestrado. São Paulo: FFLCH/USP, 2014)

Hércules: Mas não há por essas bandas uma molecada nova
Escrevendo mil tragédias ou pra mais de dois milhões
E co'a língua cinco vezes mais comprida que a do Eurípides?

Dioniso: São a réstia da moléstia, uma corja de matracas,
Um coral todo de gralhas, que cagou na minha arte!
Uma vez tendo coberto a tragédia com seu mijo
Bem no dia que estrearam, saem fugidos e se escondem!
Nem buscando em todo o canto você acharia um poeta
Fértil que possa entoar um só verso de alta estirpe.

Hércules: E o que "fértil" quer dizer?

Dioniso: Fértil, oras, bem valente,
Que é capaz de recitar um verso que seja assim:
"O Éter, o quintal de Zeus" ou então "pé do Tempo"
Ou que " a mente não queria jurar pelo que é sagrado
Mas a língua fez perjúrio, sem sequer contar à mente".

Hércules: Isso aí é o que te agrada?

Dioniso: Isso me leva à loucura!

Hércules: Mas vai ter que admitir que é uma bela de uma bosta.

Tradução de Trajano Vieira
(VIEIRA, T. As Rãs. São Paulo: Cosac&Naify, 2014):

HÉRACLES Quer dizer que acabou a penca de janotas
escriturários de tragédia aos borbotões,
falantes pelos cotovelos mais que Eurípides?

DIONISO São uns uvoides, bons só no gogó, a musa
de quem corrompe a técnica é o papagaio.
Desaparecem ao paparem um só coro,
tendo urinado na tragédia uma vez.
Mas se o que buscas é um poeta original,
capaz de renovar a elocução, esquece!

HÉRACLES Original em que sentido?

DIONISO Que aceita o risco quando configura um verso,
algo do tipo: "Puxadinho do Cronida:
Éter!", senão: "o pé do Tempo". Eis outro exemplo:
"a mente recusando a jura sobre as vítimas,
perjura a língua que independe de sua mente"

HÉRACLES Caramba! Gostas dessa baboseira?

DIONISO Só de escutá-la, piro.

HÉRACLES Mas sabe que não passa de um efeito pífio.

Tradução de Junito Brandão
(BRANDÃO, J. Teatro Grego. Eurípides, Aristófanes. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1986)

HÉRACLES Não há por aqui outros jovens poetas, que compõem tragédias, cujo número excede a dez mil e que são infinitamente mais tagarelas que Eurípides?

BACO Tudo isso é rebotalho, mera tagarelice, música de andorinhas; corruptores da arte, que rapidamente se eclipsam, tão logo obtenham um coro, pelo simples prazer de terem mijado na musa trágica. Mas um poeta "inspirado" que nos faça ouvir expressões nobres ainda que o procures, não o encontrarás.

HÉRACLES Inspirado, como?

BACO: Sim, inspirado, como aquele que fosse capaz de inventar expressões atrevidas, do quilate de "Éter, pequenina mansão de Zeus" ou o "pé do tempo", ou ainda "o coração não quer jurar pelas vítimas, mas a língua perjura sem a cumplicidade do coração".

Héracles: Gostas dessas coisas?

BACO: Melhor seria dizer que estou mais do que louco por elas.

HÉRACLES: Em verdade são malabarismos e esta é também a tua opinião.