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terça-feira, janeiro 27, 2026

Ezra Pound - Antiga Sabedoria, Um Tanto Cósmica

 So-shu sonhou,
E tendo sonhado que era um pássaro, uma abelha, e uma borboleta
Pensou com seus botões para que procurar sentir-se como qualquer outra coisa.

Daí sua satisfação.


Tradução de Mário Faustino


So-shu dreamed, 
And having dreamed that he was a bird, a bee, and a butterfly,
 He was uncertain why he should try to feel like anything else, 

 Hence his contentment. 



 in: Ezra Pound. Poesia. Introdução, Organização e Notas: Augusto de Campos. São Paulo: Cobalto, 2024. 

domingo, janeiro 18, 2026

Mário Faustino - Cavossonante Escudo Nosso

 Cavossonante escudo nosso
          palavra: panacéia
ornado de consolos e compensas
enquanto a seta-fado
nos envenena ambos tendões
                                 rachados
No sabuloso mar na salsa areia
alimento não cresce
                             cobras crescem
e nos impõe silêncio o bramir vero
do veado oceano
                        cio cio
verdade, matogrosso universal
viçosamente ouvida
                     não palavras pa
lavras
                   e do cosmo selvagem
recém recém tombada
AMOR
estrela  inominada   pedra  lava
escudo  panejante   panacéia
                                         (a cruz
se enfuna)
bólide trespassando chão-essência
peito-presença

                           AQUI

         estamos.
Entre nome e fenômeno balança
nunca meu coração:
                             ferido sangra
pelo rosto do ser e por seus rins,
indiferente, he le na, às sílabas
véus teu ventre disfar-farçando:
ele singra ela sangra ele roxo
           ....espuma...
pela forma da coisa por seu peso
e para de pulsar rugindo contra
o que serve de rocha e despedaça
a liberdade sétima -- tocar
a liberdade oitava -- penetrar
a liberdade inteira -- conhecer: 
 
                      COR  AÇÃO

o sopro do metal ressoa chama
para a luta real
                     (há remoinhos)
cavossonante escudo rebentamos
a fraga  estilhaçamos  nus  sem-pele
estrelorientados  rumo-nós
                               boiamos
ainda que parados:
                            mudos:
                 
                                      somos. 


Fonte: Mário Faustino. Poesia Completa e Poesia Traduzida. Introdução, Organização e Notas: Benedito Nunes.  São Paulo: Max Limonad, 1985. 

domingo, fevereiro 25, 2024

A água-furtada (Ezra Pound, trad. Mário Faustino)

 Vamos, lamentemos os que estão em  melhor

          situação que a nossa. 

Vamos, meu amigo, e lembra-te:

    os ricos têm mordomos e não têm amigos,

E nós temos amigos e não temos mordomos.

Vamos, lamentemos os casados e os solteiros.


A Aurora entra com pés pequenos,

    Pavlova dourada,

E estou perto do meu desejo.

E a vida não tem nada melhor

Que esta hora de claro frescor,

    a hora de acordar juntos. 


(LUSTRA, 1916) 


Fonte:

CAMPOS,A; CAMPOS, H.; FAUSTINO, M.; GRÜNEWALD, J.L. PIGNATARI, D. (org., trad.) Ezra Pound: Poesia. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora da UnB, 1983. 


domingo, julho 16, 2023

Mário Faustino: "E nos irados olhos das bacantes..."


Bacchantes overtaking Orpheus. Douglas Strachan (1875-1950)


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E nos irados olhos das bacantes
Finalmente descubro quem procuro.
Não eras tu, Poesia, meras armas,
Pura consolação de minha luta.
Nem eras tu, Amor, meu camarada,
Às costas me levando, após a luta. 
Procurava-me a mim, e ora me encontro
Em meu reflexo, nos olhares duros
De ébrios que me fuzilam contra o muro
E o perdão de meu canto. Sobre as nuvens
Defronte mãos escrevem numa estranha
Antiquíssima língua estas palavras
Que afinal compreendo: toda vida
É perfeita. E pungente, e raro, e breve
É o tempo que me dão para viver-me,
Achado e precioso. Mas saúdo
Em mim a minha paz final. Metade
Infame de homem beija os pés da outra
Diva metade, enquanto esta se curva
E retribui, humilde, a reverência.
A serpente tritura a própria cauda,
O círculo de fogo se devora, 
Arrasta-se o cadáver bem ferido
Para fora do palco:
                                este cevado
Bezerro justifica minha vida. 

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sábado, novembro 29, 2014

"Primeira Ode Olímpica" (Píndaro) - Tradução de Mário Faustino

I

Água: primeiro dos bens.
                                         Mas Ouro
(chama acesa na noite) ofusca os tesouros inteiros
da altiva opulência: queres,
alma minha, cantar os Jogos?
                                               De dia não busques
Além do sol no ar deserto estrêla
mais ardente nem liça mais gloriosa,
mais cantável que Olímpia:
de lá vem a canção que estica as cordas
nos corações peritos
em celebrar-te, filho de Cronos: e êles vêm
por todos os caminhos rumo à mesa
(repleta) de Hierão.

manejador do cetro da justiça
na Sicília fecunda
e ceifeiro de todas as virtudes
em seus caules mais altos
e que sabe crescer com sua fama
pelo esplendor da música
enquanto nos deleita em mesa amiga.
                                                           Anda!
tira do gancho a lira dórica
se ainda tens o coração domado
pela Cáris de Pisa – glória de Ferênicos,
quando êste disparou (sem chicote!) nas margens
do Alfeu, rumo à vitória
do rei de Siracusa, amador de cavalos;
                                                        seu renome
esplende nessa terra de homens fortes
onde Pélops, o Lídio, foi morar,
Pélops,
          por quem se apaixonou Posêidon (o
que cinge, firme, a terra) quando Clôto
o retirou do vaso puro, o ombro
marfim luzindo.
                         Grandes maravilhas
(e verdadeiras) estas, porém quantas
Fábulas enfeitadas de mentira
encantam nossas mentes
                                    para lá da verdade...

II

Cáris,
Cáris o gênio a graça a quem devemos
Tudo o que nos encanta
devolvendo-lhe as honras, quantas vêzes
transforma em verdadeiro o que é incrível
O futuro é a melhor testemunha – e mais seguro
é dizer bem dos deuses. Pois direi
assim, filho de Tântalo (ao contrário
do que dizem os velhos) direi que
quando teu pai retribuindo aos deuses
os convidou para impecável festa
sôbre o Sipilo – monte que êles amam –
nesse dia o senhor do luminoso
tridente arrebatou-te

o coração partido de paixão. Cavalos, carros de ouro,
levou-te ao céu de Zeus aonde mais
tarde iria Ganimedes
prestar ao próprio Zeus igual serviço.
Ao desapareceres, procurando-te
os homens de tua mãe sem descobrir-te
e voltando sem ti, alguém, vizinhos
inventaram – despeito – que, cortados
a faca, tuas pernas, braços (em
água fervendo) foram já no fim
do banquete servidos e comidos.

Chamar um deus de canibal? Eu nunca!
Quem escapa ao castigo da blasfêmia?
Se mortal houve honrado pelos donos
do Olimpo, êsse foi Tântalo; só que
lambuzou-se de mel, com tanta sorte; insaciável,
provocou monstruosa punição: a pedra
enorme que lhe ergueu o pai dos deuses
sobre a cabeça, êle esperando a queda
que nunca vem e o deixa um tanto triste ...

III

Quarto suplício, junto a mais três, é acima
de suas fôrças: só por ter roubado
o nétar, a ambrosia (com que os deuses
o fizeram imortal) para dar aos amigos!

Como se engana aquêle que procura
esconder algo aos deuses ...
                                         Foi por isso
que resolveram devolver-lhe o filho
à desgraçada sorte humana. E quando
à flor da idade descobriu que o buço
o queixo começava a escurecer-lhe,
sonhou ganhar a noiva mais à mão,

Hipodaméia (filha ilustre de um
soberano de Pisa): a sós à noite ao pé
do mar grisalho o deus chamou que faz
rugir o abismo, o do tridente: e face
a face êste surgiu-lhe
                                E disse Pélops:
“Escuta aqui, Posêidon, se tiveste
algum prazer com meu amor (presentes
deleitosos de Cípris), prende a lança
de bronze de Oinomáos, e cinge-me de fôrça
e leva-me à terra do Élis em teu carro mais rápido.
O homem já matou treze heróis, treze
pretendentes, para adiar o casamento

da filha! Quem é fraco nunca enfrenta
grande perigo: mas, se a morte é certa,
por que ficar sentado à sombra, à espera
duma velhice inglória? A mim correr
o risco; a ti dar-me o triunfo”.
Falou e não perdeu seu tempo: o deus
por sua glória deu-lhe um carro de ouro
e cavalos alados incansáveis.

IV

Tendo quebrado a fôrça de Oinomáos, levou a virgem
para o leito e houve dela seis
príncipes ardorosos.
                             Ao pé do Alfeu, agora
com os mortos potentes se mistura
lá onde as multidões cercam seu túmulo
perto do altar acima
de todos venerado; mas a glória
de Pélops olha de longe lá de Olímpia
sôbre as arenas onde a ligeireza
disputa a ligeireza, a fòrça a fôrça.
(E o vencedor a vida inteira saboreia
alegria mais doce do que o mel

- pelo menos os jogos não traíram seus votos –
alegria que o dia passa ao dia
bem supremo de um homem...)

                                           Quero eu
coroar esse rei no tom eqüestre
e no compasso eólio. Pois meu canto
em seu panejamento glorioso
jamais vestirá outro que reúna
o gôsto pelo belo
e a fôrça irresistível.
Hierão, algum deus por teus desígnios
vela: fique sempre a teu lado, que mais doce
a vitória te seja em carro agílimo.
Na colina de Cronos luminosa
irei buscar o veio de louvores
dignos de celebrá-la:
                                pois a musa
para mim forja o dardo mais potente
Há grandezas de várias excelências,
a mais alta é dos reis. Não busques mais.
Pisem teus pés os cimos sempre, enquanto
a teu lado farei brilhar meu gênio
por toda parte, na vanguarda helênica.

NOTAS DO TRADUTOR

- A tradução foi feita a partir da inglêsa de Richmond Lattimore (em verso livre) e da francesa de Aimé Pucch (em prosa). Sem saber grego e sem ser um “métricien”, o tradutor, a tentar o impossível (reproduzir em português o mais complicado dos versos gregos) preferiu traduzir Píndaro em linguagem e versificação as mais atuais a seu alcance. Foi adotada, por outro lado, a orientação de alguns tradutores, inclusive de Lattimore, segundo a qual há muito de irônico nesta ode de Píndaro, mais jocosa (foi cantada pela primeira vez num banquete em honra de Hierão: não foi encomendada por êste; a encomenda, no caso, coube a Baquílide) do que pensam outros.

- Algumas anotações para a melhor compreensão do poema: foi composto para celebrar, em geral, os jogos olímpicos (donde o aparecimento do tantálida Pélops como personagem central e exemplo dado a Hierão) e, em particular, Hierão de Siracusa e seu cavalo Ferênicos, vencedores da corrida de cavalos montados nas olimpíadas de 476 antes de Cristo, ano em que foi composta a ode. Faz-se alusão, no poema, a uma vitória anterior de Ferênicos. Hierão, mais tarde, realizaria o voto expresso por Píndaro no final da ode: tanto em 470  como em 468 a.C., venceu as corridas de quadrigas, as mais ambicionadas pelos atletas gregos Lembrar também as diversas versões dos mitos de Tântalo, de Pélops e de Ganimedes, estes dois últimos amados, respectivamente, por Posêidon e Zeus (mais ou menos o Netuno e o Júpiter romanos); lembrar, em particular, que Pélops, servido no banquete aos deuses, teve um ombro comido por Demeter, sendo após reconstituído, num vaso puro, por Clôto, sendo-lhe aposto um ombro de marfim. N.B. no início da terceira tríade, Píndaro refere-se, para nós zombeteiramente, às várias versões do suplício de Tântalo, a mais recente sendo a da pedra suspensa sôbre a cabeça do condenado, ameaçando cair a qualquer momento. Há quem interprete êsses versos de outra maneira: Tântalo seria o último de quatro condenados, sendo os outros Títios, Sísifo e Íxion.

- Pisa: antiga cidade da Élida, às margens do rio Alfeu, perto do Templo de Olímpia.

- Cípris: um dos cognomes de Afrodite (Vênus).

- A ode é composta de quatro tríades: quatro estrofes, quatro anti-estrofes, quatro epodos. Era acompanhada pela “forminx”, a “lira dórica”, mencionada no poema. O esquema de metros, como sempre acontece em Píndaro, é complicadíssimo, segundo os entendidos um verdadeiro “show” de virtuosismo.
- No princípio da segunda tríade, notar o tema da beleza-verdade, verdade-beleza, comum em clássicos e românticos. Cf., especialmente, a famosa carta de Keats a Bailey sôbre o “sonho de Adão”.

- Píndaro: 518-438 a.C. o mestre do lirismo coral na Grécia.


FONTE:
Jornal do Brasil, Suplemento Dominical (03/11/1957), p.05  (disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_07)

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Horácio 4,7

Vão-se as neves e torna a grama aos campos
E as árvores as folhas;
O ano muda a terra,volta o rio
às margens, decrescendo.
graças e ninfas, gêmeas, ousam nuas
reger coros de dança.
Nada esperes do eterno, os anos fogem,
dias, horas te advertem.
Menos frios, mais zéfiros, Verão
expulsa primavera
por sua vez defunta às mãos do Outono,
que, com todos seus frutos,
pelo estéril Inverno é sucedido.
Céleres meses os celestes males
vão reparando; e nós
lá onde estão Enéias, Anco, Tulo...
Sombra e pó somos.
Mas quem sabe darão os deuses outro
tempo, esgotado o nosso?
-Ao menos salvarás de teus herdeiros
Torquato, o que gozaste:
Quando Minos esplêndido julgar-te
após morreres, não
te ressuscitarão tua eloquência,
tua estirpe, teus dotes:
Nem Diana do inferno arranca seu
Hipólito pudico,
Nem forças Teseu tem para livrar
seu Piritôo querido.

[Tradução: Mário Faustino]