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terça-feira, março 10, 2026

Arquíloco, 128 W: Coração, Coração...

 θυμέ, θύμ’, ἀμηχάνοισι κήδεσιν κυκώμενε,
†ἀναδευ δυσμενῶν† δ’ ἀλέξεο προσβαλὼν ἐναντίον
στέρνον †ἐνδοκοισιν ἐχθρῶν πλησίον κατασταθεὶς
ἀσφαλέως· καὶ μήτε νικέων ἀμφάδην ἀγάλλεο,
μηδὲ νικηθεὶς ἐν οἴκωι καταπεσὼν ὀδύρεο,                              5
ἀλλὰ χαρτοῖσίν τε χαῖρε καὶ κακοῖσιν ἀσχάλα
μὴ λίην, γίνωσκε δ’ οἷος ῥυσμὸς ἀνθρώπους ἔχει.

Coração, coração, por lutos inelutáveis agitado,
levanta, protege-te dos oponentes, volvendo adverso
peito, nas emboscadas inimigas próximo postado
firme; e vencendo, não exultes abertamente,
nem vencido, em casa caído lamentes,                                     5
mas com alegrias alegra-te e deplora males,
sem excesso: aprende que ritmo rege a humanidade.


Tradução: Rafael Brunhara

Fonte: Brunhara, R.; Ragusa, G. Elegia Grega Arcaica: uma antologia. São Paulo: Mnema/Ateliê, 2021. 

sexta-feira, fevereiro 27, 2026

Atena louva Odisseu (Odisseia, 13, 291-301)


Deveria ser matreiro e ladino (até mesmo se fosse um Deus)
quem te excedesse nas tuas espertezas todas!
Safado! Rico na Astúcia, ávido por ardis, não pretendias,
Nem mesmo em tua terra, deixar de lado as ilusórias
palavras, as fraudes, tuas amigas do peito?
Mas não falemos mais nisso! Sabemos ambos
Artimanhas: dos mortais todos, és de longe o melhor
Na palavra e nos planos; entre os Deuses
também sou famosa pela astúcia e estratagemas;
Tu não me reconheceste? Sou Palas Atena, filha de Zeus.
Em todos os teus trabalhos, estou ao lado e te protejo"

Tradução de Rafael Brunhara (2010, inédita)

sábado, fevereiro 07, 2026

Anna Akhmátova

 A MUSA

Quando à noite eu espero a sua vinda, 
minha vida parece estar por um fio. 
Que valem honras, juventude, liberdade 
diante da doce amiga com a flauta na mão? 
Ei-la, chegou: lançando o manto para trás
deteve o olhar atento sobre mim.
“Foste tu” – lhe pergunto – “que ditaste a Dante 
as páginas do Inferno?” E ela: “Eu". 


 Tradução de Rafael Brunhara

quarta-feira, janeiro 07, 2026

Ono no Komachi, Izumi Shikibu, Safo

Ono no Komachi 
 
O meu desejo de ti 
é forte para contê-lo -- 
assim ninguém vai culpar-me
se à noite for ter contigo
pela estrada de meus sonhos.

Tradução de Luísa Freire in  O Japão no Feminino I: Tanka. Poesia dos séculos IX a XI. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2025. 

***

Izumi Shikibu

nem meu travesseiro
desconfia de nós 
não conte a ninguém
de nosso encontro em sonho
em uma noite de primavera

Tradução de Andrei Cunha in: Poemas do Japão Medieval - seleções do Shinkokin'wakashû. Porto Alegre: Bestiário, 2024.

*** 

Safo - Fragmento 134 

Falava-te em <meus> sonhos, ó Ciprígena*...

Tradução de Rafael Brunhara (inédita) 

* A nascida em Chipre, isto é, Afrodite, deusa do amor e do sexo. 


sexta-feira, novembro 19, 2021

Catulo, Poema 1

 


Este poema poderia ser entendido como uma abertura a um livro de poemas de Catulo. Entretanto, não sabemos ao certo como tal livro estava estruturado e ao que o poeta estava se referindo com a palavra libellus (livrinho). Os poemas que nos restaram podem ser divididos em três grandes grupos: os de metros variados (1-60); os poemas longos (61-68) e os poemas elegíacos (69-118). Pode-se pensar, então, que a coleção de que dispomos hoje seria a reunião de três libelli distintos. 


Pra quem dedico charmoso e novo livrinho

com seca pedra-pomes polido há pouco?

Pra você, Cornélio, pois você costumava

ver alguma coisa nas minhas ninharias,

mesmo quando ousou, único na Itália,  [5]

 explicar toda a história em três volumes

bem doutos e –meu Deus!– tão trabalhosos.

Por isso, toma pra você um mero livrinho,

qual seja seu valor;  Virgem Patrona,

que ele dure sem fim por mais de um século! [10]

[trad. Rafael Brunhara]


Cui dono lepidum novum libellum

arida modo pumice expolitum?

Corneli, tibi: namque tu solebas

meas esse aliquid putare nugas.

Iam tum, cum ausus es unus Italorum

omne aevum tribus explicare cartis . . .

Doctis, Iuppiter, et laboriosis!

Quare habe tibi quidquid hoc libelli—

qualecumque, quod, o patrona virgo,

plus uno maneat perenne saeclo!


1. lepidum novuum (“charmoso novo”) .  Palavras-chave da poética catuliana.  O poeta não está falando só da aparência do livro, mas também do conteúdo dos poemas, repletos de lepos (charme, sagacidade, elegância) e  de inovações em relação às tradições poéticas pregressas. Libellum (“livrinho”): o poeta se vale constantemente de aliterações e diminutivos. Também é palavra programática: sugere a ideia não só do formato e tamanho do livro, mas de sua brevidade.

2. "com seca pedra-pomes polido há pouco":  o livro era escrito em folhas de papiro.  Como uma folha de papiro se costurava à outra para formar o livro, havia pequenas irregularidades e era necessário lixá-lo com a pedra-pomes a fim de formar o rolo.

3. Cornélio: Cornélio Nepos, autor de poemas breves e de uma história do mundo, sucinta, em apenas três volumes (hoje perdida). Catulo teria admirado a erudição e estilo de Cornélio.

4. ninharias: traduz nugas ( nuga, -ae). Catulo é adepto de uma poética da brevidade, herdeira de uma tradição helenística. Irônico, Catulo designa aqui a ligeireza de seus versos, que se opõe ao tom grave de outros poetas. 

6. volumes: traduz Cartis (carta, -ae). Uma folha do papiro egípcio. O plural sugere várias folhas reunidas, daí a tradução por volumes.  

7. meu deus: no original, Iuppiter (Júpiter). 

9. Virgem patrona: esta é a Musa ou Palas Atena. 

10. "que ele dure sem fim por mais de um século!":   Note que a ironia se desvela aqui: ao “livrinho”, à “ninharia”, o poeta vislumbra um destino grandioso: se manter perene por mais de um século.