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sexta-feira, setembro 22, 2023

O poema - João Cabral de Melo Neto

 A tinta e a lápis

escrevem-se todos

os versos do mundo.


Que monstros existem

nadando no poço

negro e fecundo?


Como o ser vivo

que é um verso,

um organismo


com sangue e sopro,

pode brotar

de germes mortos?


O papel nem sempre

é branco como

a primeira manhã.


É muitas vezes

o pardo e o pobre

papel de embrulho;


é de outras vezes

de carta aérea,

leve de nuvem.


Mas é no papel,

no branco asséptico,

que o verso rebenta.


Como um ser vivo

pode brotar

de um chão mineral? 


O Engenheiro (1942-1945) in: SECCHIN, A.C. (org.) João Cabral de Melo Neto - Poesia Completa, Rio de Janeiro: Alfaguara, 2020. 

domingo, setembro 17, 2023

A educação pela pedra (João Cabral de Melo Neto)

 


Uma educação pela pedra: por lições;

para aprender da pedra, frequentá-la; 

captar sua voz inenfática, impessoal

(pela de dicção ela começa as aulas). 

A lição de moral, sua resistência fria

 ao que flui e a fluir, a ser maleada; 

a de poética, sua carnadura concreta;

a de economia, seu adensar-se compacta:

lições da pedra (de fora para dentro,

cartilha muda), para quem soletrá-la.


*


Outra educação pela pedra: no Sertão

(de dentro para fora, e pré-didática).

No Sertão a pedra não sabe lecionar,

e, se lecionasse, não ensinaria nada;

lá não se aprende a pedra: lá a pedra, 

uma pedra de nascença, entranha a alma.


A Educação pela Pedra in: SECCHIN, A.C. (org.) João Cabral de Melo Neto - Poesia Completa, Rio de Janeiro: Alfaguara, 2020. 

O mar e o canavial (João Cabral de Melo Neto)

 O que o mar sim aprende do canavial:
a elocução horizontal de seu verso
a geórgica de cordel, ininterrupta, 
narrada em voz e silêncio paralelos. 
O que o mar não aprende do canavial:
a veemência passional da preamar; 
a mão de pilão das ondas na areia,
moída e miúda, pilada do que pilar

*

O que o canavial sim aprende do mar:
o avançar em linha rasteira da onda;
o espraiar-se minucioso, de líquido, 
alagando cova a cova onde se alonga. 
O que o canavial não aprende do mar: 
o desmedido do derramar-se da cana;
o comedimento do latifúndio do mar, 
que menos lastradamente se derrama. 

A Educação pela Pedra in: SECCHIN, A.C. (org.) João Cabral de Melo Neto - Poesia Completa, Rio de Janeiro: Alfaguara, 2020. 

terça-feira, outubro 28, 2014

O Artista Inconfessável

Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não, fazer para esquecer
que é inútil: nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e dificil-
mente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.

(João Cabral de Melo Neto)