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quinta-feira, junho 04, 2026

À Maneira de G.S.

 Para onde quer que eu viaje, a Grécia me dói.

No Pélion em meio às castanheiras a camisa do Centauro
deslizava entre as folhas para vir enrolar-se no meu corpo
enquanto eu galgava a encosta e o mar me acompanhava
até chegarmos às águas da montanha. 
Em Santorini tocando eu ilhas que afundavam
escutando uma flauta soar algures entre as pedras-pomes
a mão pregou-me à amurada do navio
uma seta de súbito lançada
dos confins da esvanecida juventude.
Em Micenas ergui as grandes pedras e os tesouros dos Átridas
e junto deles me deitei no hotel "A Bela Helena de Menelau";
só desapareceram na alva ao canto da Cassandra
com um galo a lhe pender do colo negro.
Em Spetse em Míconos em Poros
enfadou-me ouvir as barcarolas.

Que pretendem esses todos quando dizem
que podem ser achados em Atenas ou no Pireu?
um vem de Salamina e quer saber de um outro se ele "vem da Omônia"

"Não, venho do Síntagma" responde ancho de si.
"Encontre o Yánnis e convidou-me a um sorvete."
No entrementes é a Grécia que viaja
não sabemos de nada não sabemos quem somos nós desembarcados
ignoramos a a amargura do porto quando os barcos todos já partiram
escarnecemos aqueles que ainda a sentem.

Estranha gente que pretende achar-se na Ática e não está em parte alguma;
compram confeitos de amêndoas quando vão casar
usam "loção para o cabelo" fotografam-se
o homem que hoje vi sentado em frente de um telão com flores e pombinhos
permitia que a velha mão do fotógrafo alisasse as rugas
que lhe deixaram na pele do rosto
os galos do céu.

No entrementes é a Grécia que viaja ela toda que viaja
e se "vemos o mar Egeu a florir de cadáveres"
são daqueles que quiseram tomar o grande barco nadando-lhe ao encontro
daqueles que cansaram de esperar navios que já não
parte o "Samotrácia" o "Elsie" o "Ambracia".
Apitam os navios agora que anoitece no Pireu
todos apitam todos mas não se move cabrestante 
algum corrente alguma que úmida cintile à luz agonizante
o capitão está ali de pedra em meio aos astros e os galões.

Para onde quer que eu viaje a Grécia me dói.
cadeias de montanhas, arquipélagos, grandes escalavrados.
O navio a viajar é o "Agonia 937".

A bordo da Aulide, à espera de zarpar.
Verão de 1936.


Tradução de José Paulo Paes. 

Όπου και να ταξιδέψω η Ελλάδα με πληγώνει.

Στο Πήλιο μέσα στις καστανιές το πουκάμισο του Κενταύρου
γλιστρούσε μέσα στα φύλλα για να τυλιχτεί στο κορμί μου
καθώς ανέβαινα την ανηφόρα κι η θάλασσα μ’ ακολουθούσε
ανεβαίνοντας κι αυτή σαν τον υδράργυρο θερμομέτρου
ώσπου να βρούμε τα νερά του βουνού.
Στη Σαντορίνη αγγίζοντας νησιά που βουλιάζαν
ακούγοντας να παίζει ένα σουραύλι κάπου στις αλαφρόπετρες
μου κάρφωσε το χέρι στην κουπαστή
μια σαΐτα τιναγμένη ξαφνικά
από τα πέρατα μιας νιότης βασιλεμένης.
Στις Μυκήνες σήκωσα τις μεγάλες πέτρες και τους θησαυρούς των Ατρειδών
και πλάγιασα μαζί τους στο ξενοδοχείο της «Ωραίας Ελένης του Μενελάου»·
χάθηκαν μόνο την αυγή που λάλησε η Κασσάντρα
μ’ έναν κόκορα κρεμασμένο στο μαύρο λαιμό της.
Στις Σπέτσες στον Πόρο και στη Μύκονο
με χτίκιασαν οι βαρκαρόλες.

Τί θέλουν όλοι αυτοί που λένε
πως βρίσκουνται στην Αθήνα ή στον Πειραιά;
Ο ένας έρχεται από τη Σαλαμίνα και ρωτάει τον άλλο μήπως «έρχεται εξ Ομονοίας»
«Όχι έρχομαι εκ Συντάγματος» απαντά κι είν’ ευχαριστημένος1
«βρήκα το Γιάννη και με κέρασε ένα παγωτό».
Στο μεταξύ η Ελλάδα ταξιδεύει
δεν ξέρουμε τίποτε δεν ξέρουμε πως είμαστε ξέμπαρκοι όλοι εμείς
δεν ξέρουμε την πίκρα του λιμανιού σαν ταξιδεύουν όλα τα καράβια·
περιγελάμε εκείνους που τη νιώθουν.

Παράξενος κόσμος που λέει πως βρίσκεται στην Αττική και δε βρίσκεται πουθενά·
αγοράζουν κουφέτα για να παντρευτούνε
κρατούν «σωσίτριχα» φωτογραφίζουνται
ο άνθρωπος πού ειδα σήμερα καθισμένος σ’ ένα φόντο με πιτσούνια και με λουλούδια
δέχουνταν το χέρι του γερο-φωτογράφου να του στρώνει τις ρυτίδες
που είχαν αφήσει στο πρόσωπό του
όλα τα πετεινά τ’ ουρανού.

Στο μεταξύ η Ελλάδα ταξιδεύει ολοένα ταξιδεύει
κι αν «ὁρῶμεν ἀνθοῦν πέλαγος Αἰγαῖον νεκροῖς»
είναι εκείνοι που θέλησαν να πιάσουν το μεγάλο καράβι με το κολύμπι
εκείνοι που βαρέθηκαν να περιμένουν τα καράβια που δεν μπορούν να κινήσουν
την ΕΛΣΗ τη ΣΑΜΟΘΡΑΚΗ τον ΑΜΒΡΑΚΙΚΟ.
Σφυρίζουν τα καράβια τώρα που βραδιάζει στον Πειραιά
σφυρίζουν ολοένα σφυρίζουν μα δεν κουνιέται κανένας αργάτης
καμιά αλυσίδα δεν έλαμψε βρεμένη στο στερνό φως που βασιλεύει
ο καπετάνιος μένει μαρμαρωμένος μες στ’ άσπρα και στα χρυσά.

Όπου και να ταξιδέψω η Ελλάδα με πληγώνει·
παραπετάσματα βουνών αρχιπέλαγα γυμνοί γρανίτες…
Το καράβι που ταξιδεύει το λένε ΑΓ ΩΝΙΑ 937.

Α/π Αυλίς, περιμένοντας να ξεκινήσει.
Καλοκαίρι 1936

 Poemas de Giorgos Seféris. Seleção, tradução, introdução e notas de José Paulo Paes. São Paulo, Nova Alexandria, 1995.  

terça-feira, março 24, 2026

O Primeiro Degrau - Konstantinos Kaváfis

A Teócrito queixava-se 
um dia o jovem poeta Êumenes: 
“Há dois anos que escrevo 
e fiz um idílio somente. 
É minha única obra acabada. 
Ai de mim, é alta, vejo-o, 
muito alta a escada da Poesia; 
e deste primeiro degrau em que estou 
jamais subirei, infeliz que sou”. 
Disse Teócrito: “Essas palavras 
são inadequadas e são blasfêmias.
E se estás no primeiro degrau, deves 
estar orgulhoso e feliz. 
Aqui aonde chegaste não é pouco; 
quanto fizeste, grande glória. 
E mesmo este primeiro degrau 
dista muito das pessoas comuns. 
Para que pises neste degrau
é preciso que sejas, de pleno direito, 
cidadão na cidade das ideias. 
E naquela cidade é difícil
e raro que te inscrevam como cidadão. 
Em sua ágora encontras Legisladores 
aos quais não engana nenhum aventureiro.
Aqui aonde chegaste não é pouco; 
quanto fizeste, grande glória.

Tradução de Ísis Borges da Fonseca


Foi a Teócrito queixar-se um dia
Eumene, poeta ainda jovem:
 “Faz dois anos que escrevo e até agora
 compus apenas um idílio. 
Esse, o meu único trabalho pronto. 
Pobre de mim! Pelo que vejo, é alta, 
deveras alta, a escada da Poesia. 
Estou no primeiro degrau: jamais, 
infeliz que sou, chegarei ao topo.”
 “Essas palavras”, respondeu Teócrito, 
“são um despropósito, blasfêmias. 
Se estás no primeiro degrau, 
cumpria te sentires feliz e envaidecido.
 Chegar onde chegaste não é pouco,
 nem é pequena glória o que fizeste.
 Do primeiro degrau da mesma escada
 está bem distante o comum das pessoas.
 Para pisar esse degrau de ingresso,
 necessário é que sejas, por direito, 
cidadão da cidade das ideias – 
um título difícil: raramente 
fazem-se ali naturalizações. 
De quantos na sua ágora legislam,
aventureiro algum pode zombar. 
Chegar onde chegaste não é pouco, 
nem é pequena glória o que fizeste.

Tradução de José Paulo Paes 

quinta-feira, fevereiro 26, 2026

"Troianos", Konstantinos Kaváfis - Trad. José Paulo Paes

 Nossos esforços -- nós, desventurados -- são
nossos esforços, como os dos troianos.
Algum êxito obtido, alguma empresa
assumida, e eis que começamos
a encher-nos de esperanças, de coragem.

Algo surge, porém, que nos irá deter.
Emerge Aquiles da trincheira à nossa frente
e com seus gritos de assustar põe-nos em fuga.

Nossos esforços são os dos troianos.
Cremos que, com audácia e decisão,
da sorte mudaremos a animosidade,
e vamos para fora, para a luta.

Mas quando o instante decisivo chega,
desertam-nos astúcia e decisão;
nosso ânimo fraqueja, paralisa-se,
e à volta dos muros corremos,
procurando, na fuga, a nossa salvação.

Nossa ruína é inevitável, porém. Sobre
os muros já começam os lamentos.
Choram as nossas lembranças, nossos sentimentos.
Amargamente por nós chora Príamo e Hécuba. 

terça-feira, fevereiro 10, 2026

Interrupção - Konstantinos Kaváfis

 A obra dos deuses, nós a interompemos -- entes 
somos da pressa e do momento, inexperientes.
No palácio de Elêusis e no de Ftia, eis
que iniciam Deméter e Tétis, em chamas
altas e fumo espesso envoltas, grandes obras. Mas
sempre foge Metanira aos aposentos do rei,
cabelos soltos, temerosa. Também
Peleu se atemoriza sempre e intervém.


Tradução de José Paulo Paes in: Konstantinos Kaváfis. Poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. 

sábado, janeiro 31, 2026

Desejos - Konstantinos Kaváfis [1904] - 3 Traduções


Tradução de José Paulo Paes in: Konstantinos Kaváfis, Poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982

Belos corpos de mortos que nunca envelheceram,

com lágrimas sepultos em mausoléus brilhantes,

jasmim nos pés, cabeça circundada de rosas -- 

assim são os desejos que um dia feneceram

sem chegar a cumprir-se, sem conhecerem antes

o prazer de uma noite ou a manhã luminosa. 


Tradução de Ísis Borges da Fonseca in: Poemas de K.Kaváfis. São Paulo: Odysseus, 2006: 

Como belos corpos de mortos que não envelheceram

e foram encerrados, com lágrimas, em magnífico mausoléu,

com rosas na cabeça e jasmins nos pés -- 

assim se lhes assemelharam os desejos que passaram

sem se realizar, sem que nenhum

alcançasse uma noite de prazer, ou sua manhã luminosa.


Tradução de Trajano Vieira in: Konstantinos Kaváfis, 60 poemas. São Paulo: Perspectiva, 2007: 

Feito os corpos que morrem juvenis e belos,

chorados à clausura de um mausoléu magno,

com pétalas à testa, com jasmim nos pés,

assim transcorrem os desejos que abortam,

alheios à volúpia de uma noite única,

ao rútilo clarão do seu amanhecer. 



quinta-feira, janeiro 15, 2026

Ovídio - Amores 1.5 - 3 traduções

1. José Paulo Paes (1997)
Era intenso o calor, passava já do meio dia;
    Estendi-me na cama a repousar os membros.
Das janelas, em parte abertas, em parte cerradas,
   Vinha luz semelhante à que há dentro das matas,
À luz mortiça do crepúsculo, após Febo sumir,
  Ou de antes de a noite ir-se sem que seja dia.
A esta luz é que se hão de mostrar as jovens tímidas;
   Nela, o pudor medroso espera achar refúgio. 
Eis que chega Corina numa túnica ligeira, 
   Cobriam os cabelos seu alvo pescoço;
Assim entrava pela alcova a formosa Semíramis,
   Diz-se, e Laís, a quem tantos homens amaram.
Desvesti-lhe a túnica; de tão tênue, mal contava:
  Ela lutou, entanto, para cobrir-se com 
A túnica, mas sem nenhum empenho de vencer:
   Venceu-a, sem pesar, a sua traição.
Ficou em pé, sem roupa alguma, diante dos meus olhos.
  Não havia, em seu corpo, um único defeito.
Que ombros e que braços a mim foi dado ver, tocar!
  Os belos seios, que deleite comprimí-los!
Que ventre mais polido logo debaixo do peito!
  As ancas, que primor! Que juvenil a coxa!
Por que pormenorizar? Nada vi de não louvável! 
   E a nudez lhe estreitei contra o meu próprio corpo. 
Quem não sabe o resto? Exaustos, repousamos depois.
   Que mais outros meios-dias prósperos me sejam!

2. Lucy Ana de Bem (2010)
Fazia calor e o dia tinha cumprido a metade de suas horas;
Os membros a descansar no meio do leito repousei.
Parte da janela estava aberta, parte fechada,
Tais lumes costumam ter as selvas,
Tais os crepúsculos que pouco alumiam quando Febo foge,
Ou quando a noite parte sem, contudo, ter nascido o dia;
É a essa luz que a menina casta deve expor-se,
Onde o tímido pudor anseie encontrar abrigo.
Eis, Corina chega, coberta por uma túnica lassa,
Com os cabelos repartidos cobrindo o cândido colo;
Da forma como, dizem, a formosa Semíramis adentrou a alcova
  E Laís, amada por muitos homens.
Arranquei-lhe a túnica; transparente, não estorvava tanto,
Entretanto, ela lutava para cobrir-se;
Ela, que lutava como se não quisesse vencer, 
Sem dificuldade foi vencida por sua própria cumplicidade.
Quando se pôs de pé, deposta a veste, ante os meus olhos,
Por todo o corpo, em toda a parte, defeito algum havia. 
Que ombros, que braços, vi e toquei! 
A forma dos mamilos quão apta era ao toque!
Que ventre perfeito sob o rijo peito!
Que ancas fartas! Que coxa juvenil!
Para que entrar em detalhes? Nada vi não digno de elogio, 
E nua, abracei-a junto ao meu corpo.
Quem desconhece o restante? Rendidos, ambos repousamos.
Que me ocorram muitos meios-dias como esse!  

3. Carlos Ascenso André (2011) 
Fazia calor, e o dia já tinha cumprido metade das suas horas;
   pousei em cima da cama o corpo, para lhe dar descanso.
Uma parte da janela estava aberta, a outra parte fechada;
   assim era a luz, como a que os bosques costumam deixar entrever,
como a penumbra do crepúsculo, à hora em que o sol se esvai,
  ou quando a noite já se foi e não nasceu, ainda, o dia;
essa é a luz que deve amostrar-se a jovens recatadas;
   nela, a timidez e a vergonha encontram refúgio.
Eis que surge Corina, resguardada e envolta em sua túnica,
   os cabelos caídos de ambos os lados do colo resplandecente;
assim formosa entrava Semíramis no quarto,
  diz-se, e Laís, amada por tantos homens.
Arranquei-lhe a túnica; e não é que me estorvasse muito a sua quase transparência, 
   mas ela resistia por estar coberta daquela túnica;
pois que resistia assim como quem não quer vencer,
   foi vencida sem custo, com a sua própria ajuda.
Quando ela surgiu diante de meus olhos, o manto caído aos pés,
   no corpo inteiro nem uma só mácula se me mostrou:
Que ombros! Que braços eu vi e toquei!
  A beleza dos seios, como se pôs ao dispor dos meus afagos!
Como era liso, abaixo da linha do peito, o ventre!
   Que grandiosidade e perfeição nas coxas! Que frescura nas pernas!
Que mais minúcias direi? Nada vi que não mereça elogio,
    e foi a nudez do seu corpo que apertei contra o meu. 
O resto, quem não o sabe? Depois da fadiga, repousamos ambos.
  Assim possam correr muitas vezes as minhas tardes! 

Fontes
ASCENSO, C.A. Ovídio. Amores. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
DE BEM, L. Primeiro Livro dos Amores. São Paulo: Hedra, 2010. 
PAES, J.P. Poesia Erótica em Tradução. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

quinta-feira, setembro 07, 2023

José Paulo Paes




GRÉCIA: A ACRÓPOLE DE ATENAS

 1. 

 Corroídas pela emanação das fábricas e automóveis de atenas
 as cariátides mal suportam agora o peso da eternidade.

2. 
na calada da noite o poder público manda espalhar pelo re-
 -cinto da acrópole uma boa provisão de cascalho para que 
no outro dia cada turista possa levar para casa um frag- 
mento autêntico do propileu do partenon do templo de 
 atenas ou do erectéion. 

 MONUMENTO A BYRON

 pela independência da Grécia
 ele deixou a vida 
em missolongui
 mas a Inglaterra acabou fazendo um bom negócio:
 levou em troca 
o friso do partenon 

 CABO SOUNION

 com tanto céu e sol e mar à vista 
por que o olho de Posídon iria deter-se
 nos nomes de byron ravel ou centenas de outros bárbaros 
gravados nas colunas de seu templo? 

 RUÍNAS DE CORINTO 

"do alto destes degraus 
s.paulo pregava ao povo de corinto" 

 olho o degrau: nenhum rastro de sandália 
ouço o vento: nenhum rumor de prédica 

 o tempo sabe fazer as suas contas

sábado, dezembro 19, 2015

José Paulo Paes - "Do Evangelho de São Jerônimo"

A tradução -- dizem com desprezo -- não é a mesma coisa que o original.
Talvez porque tradutor e autor não sejam a mesma pessoa.
Se fossem, teriam a mesma língua, o mesmo nome, a mesma mulher, o mesmo cachorro.
O que, convenhamos, havia de ser supinamente monótono.
Para evitar tal monotonia, o bom Deus dispôs, já no dia da Criação, que tradução e original nunca fossem exatamente a mesma coisa.
Glória, pois, a Ele nas alturas, e paz, sob a terra, aos leitores de má vontade.

JOSÉ PAULO PAES. Poesia Completa. São Paulo: Companhia das Letras. 2008

sábado, dezembro 12, 2009

'Safo': Antologia Grega

1. (7.489)

Eis as cinzas de Timas: morta pouco antes de casar-se,
Perséfone a acolheu em seu quarto sombrio.
Assim que ela morreu, as amigas, tão jovens quanto ela,
cortaram-se os cabelos com ferro afiado.

2. (7.505)

Menisco, pai de Pelagon, pescador, deixou-lhe na tumba
rede e remo, mementos de sua vida mísera.

Tradução: José Paulo Paes. in: Poemas da Antologia Grega ou Palatina. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

'Simônides' - Antologia Grega

1. (7.24)

Videira, mãe da uva e do vinho que tudo apaziguas,
possa a teia de tuas gavinhas tortuosas
florescer, exuberante, no chão fino e coroar
a estela da tumba do teano Anacreonte,
para que ele, festeiro e ébrio do vinho a que é tão dado,
tangendo sua lira amante de rapazes
noite afora, sob a terra, tenha acima da cabeça
os galhos com o esplêndido racimo maduro,
e que possa umedecê-lo sempre o sereno da noite
que sua boca de ancião tão doce respirava.

2. (7.249)

Vai dizer, passante, aos lacedemônios que nós aqui
jazemos em obediência a suas leis.

3. (7.250)

Aqui jazemos por ter salvo com nossas próprias vidas
a Grécia toda posta sobre o fio da navalha.

4. (7.442)

Lembremos, nestas tumbas, os lanceiros que em luta aberta
morreram pela sua cidade, Tegéia,
tão rica de ovelhas, para que a Grécia não lhes tirasse
das frontes mortas o laurel da liberdade.

5. (7.507a)

Homem, o que vês é não a tumba de Creso, mas a cova
de um pobre artesão, para mim o bastante.

6. (7.512)

Graças à coragem destes homens, os fumos do incêndio
de Tegéia não chegaram nunca ao céu;
para deixar aos filhos uma cidade livre e próspera,
eles tombaram na frente de batalha.

Tradução
: José Paulo Paes

Fonte: Poemas da Antologia Grega ou Palatina. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

sexta-feira, dezembro 11, 2009

'Anacreonte' - Antologia grega

1

Eis a tumba do resoluto Timócrito;
a guerra poupa os covardes, não os bravos. (7.160)

2

A cidade inteira aclamou, sobre a pira funerária,
o forte Agaton que morreu por Abdera.
A outro jovem igual não matou o sanguinário Ares
no torvelinho odioso da batalha. (7.226)


3

Pastor, pasce teu gado longe daqui, não leves junto
a novilha de Míron, pensando que está viva. (9.715)

4

A velhice, não o forno, tornou bronze a novilha que Míron
pretendia ser obra de suas próprias mãos. (9.716)

5

Eu te lamento, Aristoclides, o mais bravo dos amigos:
morreste jovem para que não fosse a pátria escrava. (13.4)

Crinágoras: Antologia Grega

7.371

Terra era o nome de minha mãe, e me cobre a terra, agora
que estou morto. Uma não é pior que a outra.
Nesta ficarei longo tempo; do seio de minha mãe,
roubou-me a ardência do sol abrasador.
E eis-me jacente sob uma pedra, em terra estranha, eu Inaco,
um servo obediente e muito lamentado.

9.284

Que habitantes, e em lugar de quais outros, recebeste,
pobre cidade? Que infortúnio, Grécia!
Prouvera jazesses, Corinto, mais baixa que o chão
e mais deserta que as areias líbias,
em vez de envergonhares, ocupada por escravos,
os ossos dos teus Báquidas de outrora.

Tradução: José Paulo Paes.

Automédon: Antologia Grega

5.129

Louvo a bailarina da Ásia que com seus gestos lascivos
suavemente ondula desde a ponta dos dedos.
Não a louvo porque exprima todas as paixões movendo,
assim com tanta graça, os braços graciosos,
mas porque sabe dançar à volta de uma vara exânime,
sem que a ponham em fuga as rugas da velhice.
Excita, abraça, beija: com sua língua e suas pernas,
faz qualquer vara erguer-se, nem que seja do Hades.

11.46

De tarde, bebendo, homens: mas ao nascer do dia,
feras despertas, umas contra as outras.

Tradução de José Paulo Paes.
Fonte: Poemas da Antologia Grega ou Palatina., São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Antípatros de Sídon - Antologia Grega

Bito ofertou a Atena seu sonoro pente de tear,
instrumento de um ofício de penúrias,
dizendo: "Salve, Deusa, e toma: eu, viúva de quarenta anos,
teus dons recuso e me entrego doravante
aos trabalhos da Cípria; mais que a bela juventude, vejo-o
vale estar sempre bem-disposta para eles".(6.47)

-
Ao arauto dos feitos dos heróis, intérprete dos deuses,
segundo sol da vida grega, luz
das Musas, voz nunca velha do mundo inteiro, a Homero cobre,
ó estrangeiro, a terra que o mar bate. (7.6)

Alceu de Messênia - Antologia grega

1. (5.10)
Odeio Amor. Por que, pesado, não investe contra
feras em vez de alvejar-me o coração?
De que adianta a um deus queimar um homem: que alto prêmio
poderá obter pela minha cabeça?

2. (6.218)

Um sacerdote de Cíbele, esmoleiro e castrado,
andava pelas florestas do monte Ida
quando encontrou um enorme leão que escancarava
a goela feroz, como se faminto.
Com medo de ser morto pela fera cruel, ele
percutiu o tambor do bosque sagrado.
O leão fechou a boca assssina e cheio de
divino furor pôs-se a rodar a juba.
O salvo de feia morte ofertou a Réia então
a fera que por si lhe aprendera a dança.

3. (9.518)

Faz mais altos os teus muros, Zeus Olímpico: Filipe
galga tudo: cerra bem as brônzeas portas
dos deuses. Terra e mar jazem sob o cetro de Filipe:
só falta agora o caminho para o Olimpo.


4. (9.519)

Bebo, ó deus do vinho, bem mais do que bebia o Ciclope
após encher a pança com a carne de homens.
Bebo, mas quem me dera romper a cabeça inimiga
de Filipe e esvaziar seu crânio até o fim.
Esse Filipe saboreia a morte dos amigos
quando lhes envenena a cratera de vinho.

5. (Anônimo) 9.520

Eis a tumba de Alceu: matou-o, filho da terra, o rábano
de folhas largas, punidor dos adúlteros.


Tradução de José Paulo Paes. Fonte: Poemas da Antologia Grega ou Palatina. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Lêonidas de Tarento - Antologia Grega

Eis as ferramentas do carpinteiro Leôntico: as limas
dentadas que devoram rápido a madeira,
os cordões de medir, os potes de ocre e, ao lado, os martelos
de dúplice cabeça, as réguas sujas de ocre,
as verrumas, a raspadeira e, soberano do ofício,
o machado de peso com seu cabo longo,
as puas que giram com presteza, as verrumas penetrantes,
além dos quatro furadores de cavilhas
e da enxó dupla - são uma oferenda à Atena protetora
do mesmo ofício que ele acaba de deixar. (6.205)

-

Infinito era o tempo, ó homem, antes de seres dado
à luz, e infinito o que te espera no Hades.
Que parcela de vida te cabe a não ser esse instante
diminuto, pouco menos de um minuto?
Sequer desfrutas tua pequena vida de aflições,
pois te é mais odiosa que a morte inimiga.
Eis a armação de ossos de que são formados os mortais;
no entanto, eles se erguem para o ar e para as nuvens.
Vês, homem, quão inútil: postado na ponta do fio
por urdir a veste, há um verme que a faz
logo num crânio calvo, em algo muito mais detestável
do que a múmia ressequida de uma aranha.
Manhã após manhã busca, ó homem, tua fortaleza:
que possas na vida simples repousar,
lembrado sempre, do fundo da alma, enquanto estejas
entre os vivos, de que palha tu és feito.


Tradução de José Paulo Paes. Fonte: Poemas da Antologia Grega ou Palatina. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Dioscúrides - Antologia grega

1.(5.54)

Se prenha, não te inclines sobre o leito para, frente a frente,
a desfrutar em amor procriativo.
No seio da vaga imensa, não te será empresa fácil
remar balouçando de um para outro lado.
Fá-la voltar-te as róseas nádegas e ensina tua esposa
a ser desfrutada em amor masculino.

2. (5.55)

Estendida sobre o leito, Dóris, a de róseas nádegas,
me fez imortal na sua carne em flor.
Tendo-me preso entre as pernas magníficas, completou
com firmeza o longo percurso de Chipre,
a olhar-me com olhos langorosos: eles tremiam
e cintilavam como folhas ao vento,
até que, vertida a branca seiva de nós dois, os membros
de Dóris por sua vez enlanguesceram.


3. (12.42)

Vai, de mãos cheias ver Hermógenes; talvez então consigas
desse menino-corvo aquilo com que sonhas
e se desanuvie a tua fronte. Se fores porém
pescar jogando às ondas cana sem anzol,
vais tirar só água da baía: não tem pudor algum
nem compaixão um puto assim dispendioso.


Tradução de José Paulo Paes. Fonte: Poemas da Antologia Grega ou Palatina. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Teócrito - Antologia Grega

1. (9.338)
Dormes fatigado, Dafne, no chão juncado de folhas,
redes presas a estacas no alto da colina.
Mas caçam-te Pã e Priapo, cuja bela cabeça
é entretecida de heras de cor de açafrão;
os dois agora penetram na caverna. Vamos, Dafne,
expulsa a letargia do sono e foge, foge.

2. (9.433)

Queres, pelo amor das Musas, tocar-me algo de prazenteiro
na flauta dupla? que eu, erguendo a lira, a irei
tanger, enquanto ao lado o guardador do gado, Dafne, vai
soprando sua flauta grudada com cera.
Juntos de pé, dentro da caverna, cuidemos de privar
de sono o hirsuto cobridor de cabras, Pã.

3 (9.599)

Olha para esta estátua, ó forasteiro,
atentamente e diz, de regresso à pátria:
"Eu vi em Teos a estátua de Anacreonte,
que entre os antigos foi excelente aedo".
Ah, e do seu pendor por rapazes não
te esqueças, para dizer o homem todo.


Tradução de José Paulo Paes. Fonte: Poemas da Antologia Grega ou Palatina. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Nóssis- Antologia Grega

Nada mais doce que o amor: tudo quanto haja de ditoso
lhe fica atrás e eu cuspo da boca até o mel.
Eis o que diz Nóssis; aquela a quem a Cípria não beijou.
essa não sabe sequer que flores são as rosas. (5.170)

-

Se fores estrangeiro, à Mitilene de formosas danças,
a qual fez Safo, a flor das graças, consumir-se,
diz que a terra locriana produziu, dileta das Musas,
alguém que lhe é igual, de nome Nóssis. Vai!


Tradução de José Paulo Paes. Fonte: Poemas da Antologia Grega ou Palatina. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Antologia Grega: Lucílio e Nicarco

Lucílio

1.

Alguns dizem, Nícila, que pintas o cabelo,
mas o compraste assim negro no mercado. (11.68)

2.

Marco, o pequeno, perfurou certa vez com a cabeça
um dos átomos de Epicuro e atravessou-o. (11.93)

3.

O barbeiro não acha a cabeça do peludo Hermógenes
para a tosquiar: ele é todo igual a ela (11.190)

4.

O pintor Êutico foi pai de vinte filhos:
nenhum deles tem qualquer parecença. (11.215)

5.

Tens a riqueza dos ricos, mas a alma de pobre, ó tu que és
rico para teus herdeiros, pobre para ti mesmo. (11.294)

Nicarco

6.

O clínico Marcos tocou ontem uma estátua de Zeus;
mesmo sendo pedra e Zeus, foi sepultada hoje. (11.113)

7.

O canto da coruja traz a morte, mas quando canta
Demófilo, é a própria coruja quem morre. (11.186)


Tradução de José Paulo Paes.

Fonte. Poemas da Antologia Grega ou Palatina. Seleção, tradução e posfácio de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras. 1995