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quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Agamêmnon de Ésquilo, versos 1331-1342 - Tradução de Jaa Torrano

 Coro:

A prosperidade brota insaciável

a todos os mortais. Por recusa

ninguém a repele de indigitados palácios

a dizer: "não entres mais aqui".

Os Venturosos deram a este homem

capturar o país de Príamo

e honrado por Deus retorna ao lar.

Se agora responder por sangue antigo

e morto pelas mortes cobrar punição

com outras mortes,

que mortal ouvindo isso alardearia

ter nascido com incólume destino? 


Fonte: TORRANO, Jaa. Ésquilo. Oresteia I: Agamêmnon. São Paulo: Iluminuras, 2004. 

quarta-feira, janeiro 14, 2026

Condição (Jaa Torrano)

Cumprindo as instruções do pai
Hefesto moldou de terra e água
imagem símil a Deusas imortais
todos os Deuses lhe deram parte
das honras que na partilha têm,
provindos dessa mesma imagem
herdamos esta ambígua finitude.

Só dos Deuses, só dos varões
ser respiramos da mesma mãe,
mas todo poder discreto separa,
um não vale e o Céu permanece
brônzea sede irresvalável sempre,
ainda nos aproxima dos Imortais
a certeira intuição ou a natureza.

Sonho sombrio somos homens,
mas quando vem dom de Zeus
brilha límpida em nós a doce
graça da vida que em nós vive.

Jaa Torrano. Solidão Só Há de Sófocles. São Paulo: Ateliê, 2025. 

domingo, dezembro 21, 2025

Receita Caseira (Jaa Torrano)

 Os poetas de minha terra

na idade da suspicácia

não pensam que se faça

poesia com sabedoria,

mas com raios à espreita

atrás das imprevisíveis

curvas de cada verso.


Jaa Torrano, in: Divino Gibi, Crítica da Razão Sapiencial in: Solidão Só Há de Sófocles. São Paulo, Cotia: Ateliê Editorial, 2025. 

terça-feira, dezembro 16, 2025

Odysseia

Pesam os meus dias os remoinhos de Posídon,

vigílias em terras inimigas e os caminhos úmidos.

Paz em Ítaca que ainda não tive

deve ser algo terrível.


Como suportaria a paz pré-tumular em meu lar,

banido do convívio com o inimigo

e exilado das regiões que os meus olhos jamais viram?


Ainda que a Deusa me desse ambrosia

e vida imortal para eu gozar o seu amor

no umbigo do mar,


que alegria eu teria

se não mais visse

o dia que até o ver o desconhecia?


Jaa Torrano. A Esfera e os Dias. In: Solidão Só Há de Sófocles. São Paulo: Ateliê Editorial, 2025.  

quinta-feira, junho 20, 2019

Sófocles: Antígona, Ode ao Homem (vv.332-375) - 9 traduções

Πολλὰ τὰ δεινὰ κοὐδὲν ἀν-
θρώπου δεινότερον πέλει·
τοῦτο καὶ πολιοῦ πέραν
πόντου χειμερίῳ νότῳ
χωρεῖ, περιβρυχίοισιν
περῶν ὑπ' οἴδμασιν, θεῶν
τε τὰν ὑπερτάταν, Γᾶν
ἄφθιτον, ἀκαμάταν, ἀποτρύεται,
ἰλλομένων ἀρότρων ἔτος εἰς ἔτος,
ἱππείῳ γένει πολεύων.


Κουφονόων τε φῦλον ὀρ-
νίθων ἀμφιβαλὼν ἄγει,
καὶ θηρῶν ἀγρίων ἔθνη
πόντου τ' εἰναλίαν φύσιν
σπείραισι δικτυοκλώστοις
περιφραδὴς ἀνήρ· κρατεῖ
δὲ μηχαναῖς ἀγραύλου
θηρὸς ὀρεσσιβάτα, λασιαύχενά θ'
ἵππον <ὑπ>άξεται ἀμφίλοφον ζυγὸν
οὔρειόν τ' ἀκμῆτα ταῦρον.


Καὶ φθέγμα καὶ ἀνεμόεν
φρόνημα καὶ ἀστυνόμους
ὀργὰς ἐδιδάξατο, καὶ δυσαύλων
πάγων <ἐν>αίθρεια καὶ
δύσομβρα φεύγειν βέλη
παντοπόρος· ἄπορος ἐπ' οὐδὲν ἔρχεται
τὸ μέλλον· Ἅιδα μόνον
φεῦξιν οὐκ ἐπάξεται, νό-
σων δ' ἀμηχάνων φυγὰς
ξυμπέφρασται.

Σοφόν τι τὸ μηχανόεν
τέχνας ὑπὲρ ἐλπίδ' ἔχων,
τοτὲ μὲν κακόν, ἄλλοτ' ἐπ' ἐσθλὸν ἕρπει,
νόμους παρείρων χθονὸς
θεῶν τ' ἔνορκον δίκαν
ὑψίπολις· ἄπολις ὅτῳ τὸ μὴ καλὸν
ξύνεστι τόλμας χάριν·
μήτ' ἐμοὶ παρέστιος γέ-
νοιτο μήτ' ἴσον φρονῶν
ὃς τάδ' ἔρδοι.

Trad. Jaa Torrano (2019)
Muitos os terrores e nenhum
mais terrível do que o homem.
Ele além do mar grisalho
vai ao vento tempestuoso
através dos vagalhões
fragorosos e extenua
a suprema dos Deuses
Terra imortal infatigável
volvendo ano após ano
o arado com o equino.

Ele circunda e captura
o bando de aves leves,
a grei de feras agrestes
e a salina fauna marinha
nas dobras urdidas da rede,
prudente varão: domina
com perícia a selvagem
fera montesa, mantém
crinudo equino sob jugo
e indômito touro montês.

Aprendeu a palavra,
a inteligência volátil,
as urbanas maneiras,
a fuga da geada inóspita
do céu e das intempéries,
multívio, ínvio a nenhum
porvir. Somente de Hades
não saberá fugir,
dos males impossíveis
descobriu a fuga.

Por hábil perícia de arte
além da expectativa
vai ora mal, ora bem;
venerando leis da terra
e jurada justiça dos Deuses,
alto na urbe; sem urbe
se por audácia não bem.
Não seja meu conviva
nem pense igual a mim
quem age assim!


Trad. Márcio Mauá Chaves (2014)

Há muitos prodígios, mas nada
é mais prodigioso que o homem.
Mesmo através do mar grisalho,
por Noto invernal impelido,
ele vai, cruzando-o sob fundos
vagalhões ao redor, e a Terra,
dentre os deuses a suprema,
inexaurível, imortal, ele consome,
num ir e vir dos arados ano após ano,
revolvendo-a com espécie equestre.

A tribo das aves levianas,
a raça das feras agrestes,
e a prole marinha do ponto
faz ele cativas cercando-as
nas tramas de rede tecidas,
homem de engenho; com suas artes
domina a fera selvagem
nas montanhas, e com jugo em torno à cerviz
doma não só o cavalo de longas crineiras
mas touro montês incansável.

Palavras e ágeis pensamentos,
e a índole para ordenar
as cidades ensinou-se, e a fugir
do ar livre em montes inóspitos
e dos dardos tempestuosos -
pleno é de meios, sem meios a porvir algum
ele vai; da Morte apenas
não terá como escapar,
mas de moléstias intratáveis
concebe a fuga.

Com tal aparato das artes,
um saber além do esperado,
vai ora para o mal, ora para o bem.
Honrando as normas da terra
e a Lei jurada por deuses,
alto é na pólis; da pólis um pária o que ao mal
se coliga por audácia.
Do meu lar não compartilhe,
tampouco de meus pensamentos,
o que age assim.

Trad. Trajano Vieira (2009)
Somam-se os assombros,
mas o homem ensombra o próprio assombro.
A rajada sul o açula
e ele singra o oceano cinza,
sub
adentra ondas amplirrumorejantes,
Ano a ano,
consome, com manobras
do arado que a raça eqüina arrasta,
a Terra,
imorredoura, infatigável,
hipercelestial.

Arresta às aves, laivos leves,
ao tropel de feras infrenes,
à prole marinha
enreda na trama que entreteceu,
o homem hiperlúcido.
Não carece de mecanismos para dominar,
a céu aberto,
na grimpa,
a fera arisca;
subjuga o corcel de crina hirta
e o touro torvo nos píncaros.

Aprende a linguagem,
o que é pensar: um sopro;
o afã das leis que civilizam,
a fuga ao gelo que fustiga
quando tempestua.
Nem a aporia do porvir poria em apuro
o sem-apuro em sua busca.
Apenas do Hades
ignora como evadir,
apesar da descoberta paliativa
às moléstias mais renitentes.

Seu domínio dos meandros da arte
transcende o esperável;
ora ao vil,
ora ao sutil
se encaminha.
Paladino das leis locais
e da justiça que jura aos numes,
encabeça a pólis; um sem-pólis,
se, truculento,
comete o não-belo.
Longe da lareira do meu lar,
não divida comigo um único pensamento!


Trad. Lawrence Flores Pereira (2006)

Há muitos assombros,
mas nada tão assombroso
quanto o homem. É ele que,
sobre o branco do mar,
por entre os vórtices das vagas,
foge ao tempestuoso vento sul.
E a maior dentre as deusas, a terra
indestrutível e infatigável, ele gasta
indo e vindo o arado ano a ano,
lavrando com a estirpe eqüina.

E o povo dos voadores pássaros
o homem destro em rastros, com redes
bem tramadas, após emboscá-lo
o caça, e a tribo da animalha bruta,
e a prole que do sal do mar se nutre,
e enreda com trapas as feras rudes
que rondam nos penhascos,
e o cavalo de lombo hirsuto
ele o prende, jugando a nuca,
e o indomável touro das montanhas.

E a palavra e o pensamento alado
e o elã que governa a cidade
aprendeu, e a fugir das borrascosas
flechas e dos granizos
dos inóspitos climas:
pleno de tramas, preso nas tramas
de nada que está por vir. Só não sabe
fugir ao sítio dos mortos,
mas contra as insanáveis pragas
um remédio ele urdiu.

Tendo algo do sábio e dos ardis
da arte bem mais que o esperado,
um dia alcança o mal, no outro, o bem.
Urdindo nas leis da terra
e na justiça jurada aos deuses,
é um grande na pátria, pária na pátria
se na audácia lhe escapa o bem.
Jamais partilhe meu Fogo
nem meus pensares
quem assim age.

Trad. Sueli de Regino (2004)
Muitos são os prodígios, no entanto,
nada é mais prodigioso do que o homem,
esse que estendeu o seu poder sobre as ondas
do mar cinzento e, sob o impulso de Noto,
o tempestuoso, atravessou abismos revoltos.
Também a divina Gaia, incansável, imperecível,
ele a revolve com o arado, ano após ano,
ajudado pela força da raça dos cavalos.

A raça das aves ligeiras,
ele captura e aprisiona;
a raça dos animais selvagens,
assim como a dos seres do mar,
é colhida nas malhas das redes
do engenhoso homem.
Com habilidade ele persegue
os animais que vagueiam
pelas matas. Nas montanhas,
domina o cavalo, de longas crinas,
envolvendo-lhe o pescoço
com o jugo das rédeas. Nos montes,
submete o incansável touro.

E a palavra, o espírito ligeiro,
as leis que protegem a vida na pólis,
tudo isso ele aprendeu por si mesmo.
E ainda, as grandes tempestades,
que arremetem geladas setas,
ele também soube enfrentar.
Somente de Hades, certamente,
ele não pode escapar, embora,
quando bem aconselhado,
saiba enfrentar as doenças.

Sua habilidade e inventividade,
ora o levam ao mal, ora ao bem.
Quando honra as leis da terra
e acredita na justiça dos deuses,
recebe elevadas honras na pólis,
porém, se por atrevimento,
ousar insultá-la, será desterrado.
Nesse caso, que se afaste
dos altares do meu lar
e dos meus pensamentos,
todo aquele que assim proceder.


Trad. Donaldo Schüler (1999)

De tantas maravilhas,
mais maravilhoso de todas é o homem.
O espumante mar nos ímpetos dos ventos austrais
sulca, bramantes
ondas fende,
e cultiva a dos deuses mãe, a Terra,
imortal, incansável,
revolvendo-a ano após ano
com arados movidos por força equina.

A linhagem das leves aves
leva capturadas
e as raças das feras agrestes,
peixes em penca prende
nas malhas das redes
o homem perspicaz;
engenhoso persegue a fera
fauna dos montes,
doma corcéis,
ao duro jugo
sujeita touros sanhudos.

A voz, o pensar
volátil e as urbanas leis
das assembleias ele as ensinou
a si mesmo, fugiu
da áspera agressão do frio
e dos dardos das tempestades.
Aparelhado, desaparelhado, não acata nada
do que lhe advém; só da morte
fuga não lhe acena,
ainda que de indômitas moléstias
alcance escape.

De saber fecundo, move recursos inesperados
ora ao bem, ora ao mal.
Una as leis da terra
à justiça jurada
dos deuses, e amuralhado será;
desamuralhado
se saiba, porém,
atrevendo-se a insultá-las.
De meus altares
não se aproxime
nem perturbe meu pensar quem assim procede.


Trad. Mário da Gama Kury (1989)

Há muitas maravilhas, mas nenhuma
é tão maravilhosa quanto o homem.
Ele atravessa, ousado, o mar grisalho,
impulsionado pelo vento sul
tempestuoso, indiferente às vagas
enormes na iminência de abismá-lo;
e exaure a terra eterna, infatigável,
deusa suprema, abrindo-a com o arado
em sua ida e volta, ano após ano,
auxiliado pela espécie equina.
Ele captura a grei das aves lépidas
e as gerações dos animais selvagens:
e prende a fauna dos profundos mares
nas redes envolventes que produz,
homem de engenho e artes inesgotáveis.
Com suas armadilhas ele prende
a besta agreste nos caminhos íngremes;
e doma o potro de abundante crina,
pondo-lhe na cerviz o mesmo jugo
que amansa o fero touro das montanhas.
Soube aprender sozinho a usar a fala
e o pensamento mais veloz que o vento
e as leis que disciplinam as cidades,
e a proteger-se das nevascas gélidas,
duras de suportar a céu aberto,
e das adversas chuvas fustigantes;
ocorrem-lhe recursos para tudo
e nada o surpreende sem amparo;
somente contra a morte clamará
em vão por um socorro, embora saiba
fugir até de males intratáveis.
Sutil de certo modo na inventiva
além do que seria de se esperar,
e na argúcia, que o desvia às vezes
para a maldade, às vezes para o bem,
se é reverente às leis da sua terra
e segue sempre os rumos da justiça
jurada pelos deuses ele eleva
à máxima grandeza a sua pátria.
Nem pátria tem aquele que, ao contrário,
adere temerariamente ao mal;
jamais quem age assim seja acolhido
em minha casa e pense igual a mim!


Trad. Guilherme de Almeida (2003 [1952 1a ed.])

Muitos milagres há, mas o mais portentoso é o homem.
Ele, que singra o mar sorrindo ao tempestuoso Noto,
galgando vagalhões
que escancaram em torno o abismo;
e que a deusa suprema, a Terra,
a eterna infatigável,
ano após ano, rasga a arado e pisa com cavalos.
E da espécie dos pássaros volúveis faz sua presa,
e à raça das bestas-feras,
e à nadante no oceano
estende as malhas que teceu
e, destro, as aprisiona;
e com artifícios doma a agreste
fera do monte, e laça o cavalo
de farta crina,
e o touro incansável das montanhas.
Palavras e pensamentos,
fugazes como o ar, e leis
a si mesmo ensinou; e do gelo
e da chuva inóspitos,
de tudo se defende; e, assim armado,
nada do que pode acontecer receia.
Somente à morte
não sabe como fugir,
embora às piores doenças saiba achar remédio.
Senhor de arte e de engenho que ultrapassam qualquer sonho,
pode preferir tanto o mal como o bem.
Quando respeita as leis
e os juramentos dos deuses,
é digno da pátria; mas é sem pátria
o que por orgulho a conduz ao mal:
esse não entre em minha casa
nem comigo tenha um pensamento igual.

J.B.Mello e Souza (1950)

Numerosas são as maravilhas da natureza, mas de todas a maior é o Homem! Singrando os mares espumosos, impelido pelos ventos do sul, ele avança, e arrosta as vagas imensas que rugem ao redor! Gêm, a suprema divindade, que a todas as mais supera, na sua eternidade, ele a corta com suas charruas que, de ano em ano, vão e vêm, revolvendo e fertilizando o solo, graças à força das alimárias!
A tribo dos pássaros ligeiros, ele a captura, ele a domina; as hordas de animais selvagemns, e de viventes das águas do mar, o Homem imaginoso as prende nas malhas de suas redes. E amansa, igualmente, o animal agreste, bem como o dócil cavalo, que o conduzirá, sob o jugo e os freios, que o prendem dos dois lados; bem assim o touro bravio das campinas.
E a língua, o pensamento alado, e os costumes moralizados, tudo isso ele aprendeu! E também, a evitar as intempéries e os rigores da natureza! Fecundo em seus recursos, ele realiza sempre o ideal a que aspira! Só a Morte, ele não encontrará nunca, o meio de evitar! Embora de muitas doenças, contra as quais nada se podia fazer outrora, já se descobriu remédio eficaz para a cura.
Industrioso e hábil, ele se dirige, ora para o bem...ora para o mal...Confundindo as leis da natureza, e também as leis divinas a que jurou obedecer, quando está à frente de uma cidade, muita vez se torna indigno, e pratica o mal, audaciosamente! Oh! Que nunca transponha a minha soleira, nem repouso junto a meu fogo, quem não pense como eu, e proceda de modo tão infame!

Barão de Paranapiacaba (1909)

Entre os muitos prodígios do mundo,
O homem forma o prodígio maior;
Ele doma o oceano profundo,
Que, espumante, lhe muge em redor,
       Ao sopro dos nimbosos
       Nótos impetuosos.

       Volve, do arado ao gume,
        Em annual semeio
        Da Terra, antigo Nume,
       O inexhaurível seio.
       Tem, para auxilial-o,
       A força do cavallo.

Para as aves, que giram na esphera,
Dispõe visco, gaiola e boiz;
Arma laços nos bosques á féra
E nas agoas aos peixes subtis.
         Com rêde, facho e engodo
         Cardumes colhe, a rôdo.

         Da opaca selva tira
         Cavallo de amplas crinas
         E o touro, que respira
         Ar flammeo das narinas;
         A'quelle um freio ageita,
         Ao jugo este sujeita.

Fala; e tem altas cousas expresso;
Dá leis sábias e povos dirige;
Contra os riscos ha feito recesso
Nas seguras moradas, que erige.
         
         Dalli um desafio
         Arroja ao vento, ao frio.
         E firme na insistencia
         De tudo prevenir
         Estende a providencia
         Aos males ]do porvir.
        E, sem que a morte vença,
        Dá golpes na doença

Engenhoso da industria no invento,
Habil, destro, qual não se imagina,
Ora, ao bem elle applica o talento,
Ora, a força do mal o domina;
        E abusa do poder
        Para as leis corromper.

Si é chefe e as leis arrostra,
De crimes polluido
Seja eloquente amostra
De um rei destituido.
Mas nunca o mesmo abrigo
Comparta elle comsigo.*

[*Nota do TradutorLiteralmente: "Grande ao Estado, ajuntando a esta industria as leis de sua patria e o direito sagrado dos Deoses, mas indigno do nome de cidadão é aquelle a quem o que não é bello se prende por causa de sua audacia. Jamais o que pratica estas cousas, se assentará ao mesmo lar, nem pensará como eu.


FONTES:
ALMEIDA, G; VIEIRA, T. Três Tragédias Gregas. São Paulo: Perspectiva, 2003.
CHAVES, M.M. Os Cantos de Sófocles: tradução e análise de gênero e metro das passagens líricas d'As traquínias, Ájax e Antígona. Dissertação de Mestrado. São Paulo: DLCV/FFLCH/USP.
KURY, M. (trad.) Sófocles. A Trilogia Tebana: Édipo Rei, Édipo em Colono, Antígona. Rio de Janeiro: Zahar, 1989.
MELLO E SOUZA, J.B. (trad.) Teatro Grego. São Paulo: W.M. Jackson Editores. 1950
PEREIRA, L.F. (trad.) SÓFOCLES. Antígona. São Paulo: Topbooks, 2006.
SCHÜLER, D. (trad.). SÓFOCLES. Antígone. Porto Alegre: L&PM. 1999.
SERRA, O. REGINO, S de. (trad.). SÓFOCLES. Édipo Rei, Antígona. Sâo Paulo: Martin Claret, 2015.
TORRANO, J. Mito e Imagens Míticas. São Paulo: Córrego, 2019.
VIEIRA, T. (trad.) Antígone de Sófocles. São Paulo: Perspectiva, 2009.

domingo, maio 28, 2017

Jaa Torrano - Divino Gibi: Crítica da Razão Sapiencial

A TRADUÇÃO DA TRAGÉDIA
Por ser tão bela
clara verdadeira ilatente
numinosa - e por que não? - 
divina a tradução da tragédia,
acribia e ícone se veem.
Por ser tão bela
em sentido originário
o leitor comum se torna
contemporâneo dos Deuses.


TRANSCRIAÇÃO
Entre transgressão e classicismo
pelas simples e múltiplas
vias do equívoco.

Torrano, Jaa. Divino Gibi. Crítica da Razão Sapiencial. São Paulo: Annablume, 2017. 

quarta-feira, novembro 23, 2011

Eumênides, vv. 1-33

Pítia:

Primeiro dos Deuses nesta prece venero
Terra, primeira adivinha. Dela provém
Têmis, essa após a mãe sentava-se neste
oráculo, como contam. No terceiro sorteio,
porque ela anuiu, e não por violência,
outra Titânida filha da Terra teve assento,
Febe, e essa o doa, natalícia dádiva,
a Febo. Ele tem de Febe o cognome.
Deixou a lagoa e o penhasco délio,
aportou nas costas navegáveis de Palas
e veio a esta terra e sede do Parnaso.
Abrindo caminho os filhos de Hefesto
fazem-lhe escolta, prestam-lhe culto,
sendo amansadores de terra bravia.
Delfo, o rei timoneiro desta região,
e o povo muito honram sua chegada.
Zeus o torna pleno de divina arte
e põe quarto adivinho no trono,
e Lóxias é profeta de Zeus pai.
Por esses Deuses preludio a prece.
Palas Pronaia precede no preito.
Venero as ninfas da côncava pedra
Corícia, grata às aves, morada de Numes.
Brômio tem a área, não deslembro,
daí o Deus conduziu tropa de Bacas
tramando morte de lebre a Penteu.
Invoco águas de Plisto, poder de Posídon,
invoco o perfectivo e supremo Zeus,
depois adivinha me sento no trono.
Dêem-me hoje lograr a melhor entrada
que antes. Se há gregos presentes,
venham, segundo sorteio, como só ser.
Vaticino como Deus vai conduzindo.

Tradução: Jaa Torrano

domingo, maio 08, 2011

Bacantes, 1114-1152: Massacre de Penteu

Primeiro a mãe sacerdotisa inicia a matança
e ataca-o. Ele tira a mitra da cabeleira
para reconhecê-lo e não massacrá-lo
a triste Agave. Ele toca-lhe a face
e diz: "Sou eu, mãe, sou o teu filho
"Penteu, pariste-me no palácio de Equíon,
"tem-me piedade, ó mãe, e pelos meus
"desacertos, não massacres o teu filho!"
Ela escumava saliva e girava pupilas
reviradas, não sabia o devido saber,
possessa de Baco, e não a persuadia.
Ela agarra com as mãos o braço esquerdo
ao ir ante os flancos do de mau Nume,
e arranca-lhe o ombro, não por força,
mas o Deus lhe dava facilidade às mãos.
Ino pelo outro lado completava a ação
rasgando carnes, Autônoe e todo o bando
de Bacas atacava, o grito era uníssono?
ele a gemer quanto calhava ter fôlego,
elas a alaridear. Uma trazia um braço,
outra o pé com a mesma bota. Desnudavam-se
costelas por lacerações. Mãos sangrentas,
todas jogavam bola com a carne de Penteu.
Jaz disperso o corpo, ora em abruptas
pedras, ora na densa folhagem da floresta,
não é fácil de achar. A cabeça é prêmio
que a mãe por acaso recebe nas mãos,
presa na ponta do tirso como a de leão
montês ela a transporta pelo Citéron,
e deixa as irmãs nos coros das Loucas.
Corre alegre com a caça de maligna sorte
para dentro dos muros, evocando Báquio
o parceiro de caça, co-autor da captura,
o belo vencedor. Sua vitória será pranto.
Eu desembaraçado desta conjuntura
partire antes de Agave ir ao palácio.
A prudência e a veneração dos Deuses
é o mais belo e, creio, o mais sábio
modo de ser dos mortais que assim são.

Tradução de Jaa Torrano.

TORRANO, Jaa. Eurípides. Bacas. São Paulo: Hucitec, 1993

segunda-feira, outubro 18, 2010

Prometeu Prisioneiro, vv.1-87 - Quatro traduções

Tradução de Jaime Bruna

(A cena é o pico duma montanha deserta. Chegam Poder e Vigor, que trazem preso Prometeu; segue-os, coxeando, Hefesto, carregando correntes, cravos e malha.)

Poder. Eis-nos chegados a um solo longínquo da terra, caminho da Cítia, deserto ínvio. Hefesto, é mister te desincumbas das ordens enviadas por teu pai, acorrentando este celerado, com liames inquebráveis de cadeias de aço, aos rochedos de escarpas abruptas. Ele roubou uma flor que era tua, o brilho do fogo, vital em todas as artes, e deu-a de presente aos mortais; é preciso que pague aos deuses a pena desse crime, para aprender a acatar o poder real de Zeus e renunciar o mau vezo de querer bem à humanidade.

Hefesto. Poder e Vigor, a incumbência de Zeus para vós está terminada; nada mais vos embarga. Eu, porém, não me animo a agrilhoar à força um deus meu parente a um píncaro aberto às intempéries. Todavia, é imperioso criar essa coragem; é grave negligenciar as ordens de meu pai. Filho de Têmis bem avisada, cheio de ousados intentos, vou, mau grado meu, mau grado teu, prender-te com cravos de bronze impossíveis de arrancar a este penhasco deserto, onde não ouvirás a voz nem verás o vulto de nenhum mortal. Crestado pela chama ardente do sol, perderás o viço da pele; o manto matizado da noite, para teu gáudio, virá cobrir a luz, e o sol dissipará de novo as brumas da aurora, mas serás triturado pelo acabrunhamento da desgraça, presente sempre, porque ainda está para nascer o teu libertador. Eis o que te rendeu o vezo de querer bem à humanidade. Tu, um deus, não te encolheste de medo à cólera dos deuses e entregaste, com violação da justiça, as suas prerrogativas aos mortais; em paga, montarás guarda a este penhasco desprazível, de pé, sem dormir, sem dobrar os joelhos. Debalde exalarás gemidos e ais sem fim, porque inexorável é o coração de Zeus; todo poder recente é implacável.

Poder.
Basta! Para que te atardares em lástimas perdidas? Por que não abominas o deus mais odioso aos deuses, que entregou aos mortais um privilégio teu?
Hefesto. O parentesco e a amizade são forças formidáveis.
Poder. Concordo, mas como se podem transgredir as ordens do teu pai? Isso não te infunde medo?
Hefesto. Tu és sempre cruel e audacioso.
Poder. Lamentos não curam os seus males; não te canses à toa em lástimas ineficaves.
Hefesto. Oh! Que ofício detestável!
Poder Detestável por quê? Tua arte, francamente, culpa nenhuma tem nestas aflições.
Hefesto. Ainda assim, oxalá fosse ela o quinhão dalgum outro.
Poder. Todos os quinhões foram negociados, menos o de comandar os deuses; ninguém é livre, senão Zeus.
Hefesto. Bem sei. A isso não posso replicar.
Poder. Então, mãos à obra! Envolve-o nas cadeias; que teu pai não te aviste parado.
Hefesto. Ele pode ver-me com as correntes na mão.
Poder. Põe-lhe as cadeias em torno dos braços, martela com toda a força e prega-o na rocha.
Hefesto. O trabalho avança e sai a contento.
Poder. Bate mais forte, aperta, não deixes folga. ele é hábil em descobrir saídas até onde não existem.
Hefesto. Este braço está preso, de não se poder soltar.
Poder. Fixa também este solidamente, para ele aprender que sua astúcia não é tão ágil como a de Zeus.
Hefesto. Ninguém poderá reclamar com razão de meu trabalho, exceto ele.
Poder. Agora, finca-lhe firmemente no peito o dente duro duma cunha de aço.
Hefesto. Ai! Prometeu, gemo baixinho por teus sofrimentos.
Poder. Estás outra vez remanchando e lastimando um inimigo de Zeus? Cuidado, não venhas um dia a chorar por ti mesmo!
Hefesto. Não estás vendo um espetáculo triste de ver?
Poder. Eu o vejo receber o que merece. Vamos, passa-lhe um cinto em torno dos flancos.
Hefesto. Não posso evitar de fazê-lo. Não precisas exortar-me.
Poder. Pois não só te exortarei, mas até instarei contigo. Desce e mete-lhe à força umas grilhetas nas pernas.
Hefesto. Pronto. Não deu muito trabalho.
Poder. Crava-lhe agora fortemente umas peias penetrantes; quem fiscaliza a obra é rigoroso.
Hefesto. Tua linguagem afina-se com tua figura.
Poder. Sê brando tu, mas não censures minha rigidez e a crueza de minha índole.
Hefesto. Podemos ir. Seus membros já estão amarrados.
Poder (a Prometeu). Abusa, agora! Furta aos deuses seus privilégios para entregá-los aos seres efêmeros. Que alívio te podem dar deste suplício os mortais? Errados andaram os deuses em te chamarem Prometeu; tu mesmo precisas de alguém que te prometa um meio de safar-te destes hábeis liames! (Retiram-se Poder, Vigor e Hefesto).

Tradução: Jaa Torrano

Poder:
Chegamos a longínquo e limítrofe chão
da terra, sendeiro cita, imortal solidão.
Hefesto, incumbe-te cuidar da missão
que o Pai te impôs: nestas pedras
precípites, dominar este facínora,
com infrágeis peias de cadeias de aço.
Teu adorno, brilho de artificioso fogo,
ele furtou e outorgou aos mortais. Por
um erro tal, ele deve pagar aos Deuses,
para aprender a anuir à tirania de Zeus
e abster-se de ser amigos de humanos.

Hefesto:
Poder e Violência, as ordens de Zeus
vós cumpristes, e nada vos retém,
mas eu não ouso prender, com Violência,
congênere Deus a precipício tempestuoso.
Mas isto é de toda necessidade que ouse,
pois descuidar das palavras do Pai é grave.
Filho de abrupto pensar da Lei de reto conselho,
contra mim e contra ti, com insolúveis bronzes
agrilhôo-te neste penedo longe dos homens,
onde voz nem forma de nenhum mortal
verás, e tostado por fúlgido fulgor do Sol
trocarás a flor da pele. E para teu júbilo
a Noite de variáveis vestes cobrirá a luz.
O sol de manhã espalhará geada de novo.
Sempre o peso da presente miséria há de
esgotar-te, pois o libertador ainda não surgiu.
Tal é tua colheita da amizade por humanos.
Sem te esquivares à ira dos Deuses, Deus
outorgaste aos mortais honras além do justo,
pelas qais sem prazer vigiarás esta pedra,
de pé, insone e sem curvar os joelhos.
Muitos prantos e lamúrias inúteis
balbuciarás, inexorável o ânimo de Zeus.
Todo áspero é quem tem recente o poder.

Poder:
Eia! Por que demoras e lamurias em vão,
e não abominas ao Deus inimigo dos Deuses,
que entregou aos mortais o teu privilégio?

Hefesto:
Terrível é o vínculo fraterno e o convívio.

Poder:
Concordo. E não ouvir as palavras do Pai
é possível? não tens disso maior temor?

Hefesto:
Sempre sem dó e cheio de ousadia és tu.

Poder:
Remédio nenhum é lamuriá-lo. Não te
fadigues em vão a serviço de nada.

Hefesto:
Ó muitas vezes odiada perícia das mãos!

Poder:
Por que a abominas? Pois, a bem dizer,
a arte não é a causa dos presentes males.

Hefesto:
Todavia,outro devesse tê-la no sorteio.

Poder:
Só não há ônus em ser rei de Deuses,
pois ninguém é livre, além de Zeus.

Hefesto:
Estou ciente, e nada tenho a replicar.

Poder:
Apressa-te a lançar sobre ele cadeias,
para que o Pai não te veja em repouso.

Hefesto:
Podem-se ver já prontos estes freios.

Poder:
Põe em volta dos punhos com potente força,
bate com martelo e crava nas pedras.

Hefesto:
Conclui-se este trabalho, e não em vão.

Poder:
Bate mais forte, aperta, não afrouxes.
Ele sae achar saída até do inextricável.

Hefesto:
Está fixo este braço, sem que se solte.

Poder:
Agora prega o outro, irresvalável, que
sofista se perceba mais lerdo que Zeus.

Hefesto:
Exceto ele, ninguém me faria justa censura.

Poder:
Agora crava a mandíbula obstinada
da cunha de aço firme através do peito.

Hefesto:
Aiaî, Prometeu, gemo por tuas dores!

Poder:
Tu hesitas e choras por inimigos de Zeus?
Cuida que o teu pranto não seja por ti!

Hefesto:
Vês esta visão insuportável aos olhos.

Poder:
Vejo que este alcança o merecimento.
Eia! Põe a cilha ao redor dos flancos.

Hefesto:
Fazer isso é fatal, não mandes demais.

Poder:
Sim, quero mandar e açular a mais.
Desce e prende pernas com Violência.

Hefesto:
Está feito o trabalho sem longo esforço.

Poder:
Agora bate com ímpeto perfurantes peias,
pois o supervisor do trabalho é severo.

Hefesto:
Símil à tua forma soa a tua língua.

Poder:
Agora aí transgride, e privilégios de Deuses
rouba e dá aos efêmeros. Que alívio
destas dores podem os mortais te trazer?
Falso nome os Numes te dão de Prometeu
pois precisas tu mesmo de um Prometeu
com jeito que te desenrole deste artifício.


Tradução: Ramiz Galvão

A FORÇA - Aos términos da terra enfim chegamos,
à Cítia - inacessível soledade.
Das ordens de teu pai, Hefesto, cuida,
e o criminoso prende às escarpadas
rochas co'algemas de aço, que não quebrem;
pois deu aos homens a tua flor - o fogo
omnipresente, que furtara. Cumpre
que tal delito expie feito aos deuses,
pra que saiba acatar de Zeus a força,
e o sestro deixe de ajudar os homens.

HEFESTO - Força e Violência, está por vós cumprido
o mandado de Zeus e nada resta.
falta-me contudo o ânimo de atá-lo,
um deus parente, à rocha procelosa.
Todavia é forçoso que me atreva,
pois grave é descurar paternas ordens,
Ó filho pensador da sábia Têmis,
pregar-te-ei nesta rocha desabrida,
onde não vejas voz nem forma humana,
crestado pelo sol na viva chama,
a tez mimosa fanarás; ansioso
pela noite de estrelas recamada,
que a luz te robe aos olhos; desejando
o sol, que funde as geadas matutinas.
Do mal presente a dor curtirás sempre,
pois inda não nasceu quem te liberte.
De tanto amar os homens tens o fruto.
Nume, a col'ra dos numes afrontando,
por honrar aos mortais além do justo
guardarás o penhasco pavoroso,
de pé, insone, sem curvar o joelho,
a soltar crebros ais e vãos gemidos;
que Zeus se não aplaca facilmente.
Rigor é próprio de imperantes novos.

A FORÇA - Pois bem; porque a demora e vãos lamentos?
Porque o deus mais odiado pelos deuses
não detestas, se aos homens deu teu lume?

HEFESTO - Muito podem o sangue e a convivência.

A FORÇA - Sim; mas como do Pai furta-te às ordens?
Deste Delito mais não te arreceias?

HEFESTO - És sempre inexorável e audaciosa!

A FORÇA - Lástimas nada curam; não porfies
em dó inútil, que de nada serve.

HEFESTO - Ó quanto te aborreço, ingrato ofício!

A FORÇA - Porque execrá-lo? Tua arte, certamente,
dos males que ora vemos não foi causa.

HEFESTO - A qualquer outro a sorte o cometesse!

A FORÇA - Tudo aos numes foi dado exceto o mando;
Ninguém é, senão Zeus, independente.

HEFESTO - Sei disto, e para opor-lhe nada tenho.

A FORÇA - Porque, pois, não te apressas a encadeá-lo,
pra que o Pai te não veja titubeante ?

HEFESTO - Dos braços os anéis aqui'stão prontos.

A FORÇA - À obra! Os pulsos cinge-lhe e, com malho
vigoroso, na rocha prega-os ambos.

HEFESTO - 'Stá feito, e não é vão o meu trabalho.

A FORÇA - Bate mais rijo, aperta, não afrouxes;
que ao astuto não faltam expedientes.

HEFESTO - Um braço está bem preso.

A FORÇA - E outro agora
liga seguro, para que ele aprenda
que Zeus mais vale.

HEFESTO - Com razão, só ele,
ninguém mais, censurar-me poderia.

A FORÇA - Agora enterra-lhje, por sobre os peitos,
da cunha de aço os arrogantes dentes.

HEFESTO - Ai! Prometeu, teu padecer deploro.

A FORÇA - Hesitas outra vez? Os inimigos
de Zeus lastimas ? Oxalá que um dia
a ti próprio não venhas lastimar-te.

HEFESTO - Vês horrendo espetáculo!

A FORÇA - Sim, vejo-o
punido qual merece; mas as cintas
de aço lança-lhe em torno das costelas.

HEFESTO - Força é cumpri-lo, porém basta de ordens.

A FORÇA - Mandarei sempre, excitar-te-ei com gritos:
Pra baixo! As pernas co'os anéis constringe.

HEFESTO - Está feito, e o esforço não foi grande.

A FORÇA - Agora com vigor crava as algemas;
que é severo quem julga teu trabalho.

HEFESTO - É rude o teu falar como o teu senho.

A FORÇA - Fraco sê tu, mas minha pertinácia
e da índole a rudeza não me increpes.

HEFESTO - Partamos; tem os membros enleados.

A FORÇA - Ultraja agora, e furta o dom divino
para dá-lo aos mortais. De que te valem
os homens pra aliviar-te os sofrimentos?
Errado nome - Prometeu - te deram
os deuses, quando um Prometeu precisas
tu próprio para livrar-te destas malhas.

Tradução de Trajano Vieira

(Entram Hefesto, Poder e Força, conduzindo Prometeu)

PODER - Termina o mundo e chega a terra cita.
homem nenhum, deserto inacessível.
Deves cumprir à risca, Hefesto, o édito
paterno: aprisionar o criminoso
com fortes cabos de aço no rochedo
íngreme. Ele roubou a tua flor
- brilho ígneo, matriz de toda técnica -,
passou-o a mãos humanas. Tal afronta
aos imortais requer castigo duro.
Que aprenda a dar valor à voz de Zeus
e refreie seus gestos filantrópicos.

HEFESTO - Poder e Força, o que Zeus vos ordena
termina aqui, sem outro contratempo.
Pregar no precipício um deus parente
exige uma coragem que eu não tenho.
Mas como pôr em xeque o Necessário?
Desdém à voz paterna é falha grave.
Filho da sábia Têmis, mente audaz:
contra nós dois, o bronze indissolúvel
te imobiliza nno penedo inóspito,
de onde não vês nem voz nem cor humana.
O sol aceso troca a flor da pele
queimada. Para teu alívio, a noite
encobre o lume com seu manto rútilo.
Um novo sol dissipa logo a bruma
e o mesmo fardo desta agrura volta:
não vive ainda quem te dê alívio.
Eis o fruto dos gestos filantrópicos.
Um deus desteme a ira de outros deuses,
honrando além do justo o ser humano.
Por isso velas sobre a rocha odiosa,
de pé, desperto, com os joelhos retos.
Não surtirão efeito os teus lamentos;
o coração de Zeus, nada o comove:
é duro quem exerce poder novo.

PODER - Por que demoras com lamúrias vãs?
Afagas quem os deuses mais odeiam?
Quem deu para os mortais a tua insígnia?

HEFESTO - Convívio e parentesco me constrangem.

PODER - Certo. Mas desprezas as decisões
do pai não traz mais riscos? Não te aflige?

HEFESTO - Não cabe nunca dó em tua audácia.

PODER - Não há remédio no lamento. Evita
gastar inultimente tua energia.

HEFESTO - Como odeio a perícia dos meus dedos!

PODER - Rancor estranho. O mal que sobre ti
se abate tem a ver com tua arte?

HEFESTO - Que fosse entregue a outro esse dote!

PODER - Os deuses tudo provam, salvo o mando;
somente Zeus conhece o livre arbítrio.

HEFESTO - Bem sei. É irrefutável esse fato.

PODER - Sem mais delonga, abraça-o com amarras.
Que o pai não presencie o teu marasmo.

HEFESTO - Em minhas mãos já vês as rédeas prontas.

PODER - Com toda a força envolve bem os punhos;
bate o martelo, prende-o firme às pedras.

HEFESTO - Pronto. Não falta nada à minha obra.

PODER - Não deixes nada frouxo, vai!, mais forte;
ele desfaz o emaranhado cego.

HEFESTO - Este braço duvido que desate.

PODER - Então ao outro. A rapidez sofística 
- saiba - jamais alcançará o Cronida.

HEFESTO - Só ele poderia criticar-me.

PODER - No meio o seu peito encrava agora
o dente afiado desta cunha de aço.

HEFESTO - Ai, Prometeu, deploro a tua pena.

PODER - De novo hesitas? Choras o inimigo
de Zeus? Não caia sobre ti teu pranto;

HEFESTO - A cena que tu vês corrói a vista.

PODER - Não. Vejo-o recebendo o merecido.
Aperta mais a cinta em torno aos rins.

HEFESTO - Sei bem o meu papel; não me pressiones.

PODER - Minha voz tem o timbre de um açoite.
Embaixo! Cinge com vigor a coxa.

HEFESTO - Missão cumprida e sem maior fadiga.

PODER - Perfura os pés com arrebites!
Quem avalia teu labor é duro.

HEFESTO - Tua língua repercute em tua figura.

PODER - Frouxo, não venhas reprovar-me a fibra,
tampouco meu temperamento cáustico.

HEFESTO - Vamos! Não movimenta mais os membros.

PODER - Insulta agora do alto! Furta prêmios
divinos e transfere-os aos efêmeros!
Abrandam os mortais a tua pena?
Os numes se equivocam no teu nome:
Prometeu? Quem te fez a vã promessa
de desatar o nó que te tolheu?

sábado, março 20, 2010

Hino a Hécate (Teogonia, vv.404-452)

Febe entrou no amoroso leito de Coios
e fecundou a Deusa o Deus em amor,
ela gerou Leto de negro véu, a sempre doce,
boa aos homens e aos Deuses imortais,
doce dês o começo, a mais suave no Olimpo.
Gerou Astéria de propício nome, que Perses
conduziu um dia a seu palácio e desposou,
e fecundada pariu Hécate a quem mais
Zeus Cronida honrou e concedeu esplêndidos dons,
ter parte na terra e no mar infecundo.
Ela também do Céu constelado partilhou a honra
e é muito honrada entre os Deuses imortais.
Hoje ainda, se algum homem sobre a terra
com belos sacrifícios conforme os ritos propicia
e invoca Hécate, muita honra o acompanha
facilmente, a quem a Deusa propensa acolhe a prece;
De quantos nasceram da Terra e do Céu
e receberam honra, de todos obteve um lote;
nem o Cronida violou nem a despojou
do que recebeu entre os antigos Deuses Titãs,
e ela tem como primeiro no começo houve a partilha.
Nem porque filha única menos partilhou de honra
e de privilégio na terra e no céu e no mar
mas ainda mais, porque honra-a Zeus.
A quem quer, grandemente dá auxílio e ajuda,
no tribunal senta-se junto aos reis venerandos,
na assembléia entre o povo distingue a quem quer,
e quando se armam para o combate homicida
os homens, aí a Deusa assiste a quem quer
e propícia concede vitória e oferece-lhe glória.
Diligente quando os homens lutam nos jogos
aí também a Deusa lhe dá auxílio e ajuda,
e vencendo pela força e vigor, leva belo prêmio
facilmente, com alegria, e aos pais dá a glória.
Diligente entre os cavaleiros assiste a quem quer,
e aos que lavram o mar de ínvios caminhos
e suplicam a Hécate e ao troante Treme-terra,
fácil a gloriosa Deusa concede muita pesca
ou surge e arranca-a, se o quer no seu ânimo.
Diligente no estábulo com Hermes aumenta
o rebanho de bois e a larga tropa de cabras
e a de ovelhas lanosas, se o quer no seu ânimo,
de pouco avoluma-os e de muitos faz menores.
Assim, apesar de ser a única filha de sua mãe,
entre imortais é honrada com todos os privilégios.
O Cronida a fez nutriz de jovens que depois dela
com os olhos viram a luz da multividente Aurora.
Assim dês o começo é nutriz de jovens e estas as honras.

Tradução de Jaa Torrano

Fonte: Teogonia, a origem dos Deuses. São Paulo: Iluminuras, 2006.

sexta-feira, agosto 28, 2009

Hino Homérico XXV: Às Musas e Apolo

Que pelas Musas eu comece e por Apolo e Zeus.
Pelas Musas e pelo flechicerteiro Apolo
homens aedos sobre a terra há e citaristas
e por Zeus reis. Feliz quem as Musas
amam: doce lhes flui da boca a voz.
Salve, filhas de Zeus, e honrai minha canção
Depois eu vos lembrarei também em outra canção.

Tradução: Rafael Brunhara

Os versos 2-5 encontram-se também na Teogonia de Hesíodo, vv. 94-97, na tradução de Jaa Torrano:

Pelas Musas e pelo golpeante Apolo
há cantores e citaristas sobre a terra,
e por Zeus, reis. Feliz é quem as Musas
amam, doce de sua boca flui a voz.

(Tradução de Jaa Torrano, in:
Teogonia. A origem dos Deuses. São Paulo Iluminuras, 2006)

quinta-feira, agosto 27, 2009

Píndaro, 8º Pítica, 135- 137

Por dia, que é quem e que ninguém? Sonho de sombra
o homem, mas quando claridade por Zeus dada vem
límpido brilho há nos homens e doce é a vida.

Tradução: Jaa Torrano.

Fonte: TORRANO, J. O Sentido de Zeus. São Paulo: Iluminuras. 1996.

Ilíada VIII, 1-27

Tradução de Jaa Torrano:

Aurora de cróceo manto espalha-se por toda a terra.
Zeus fez a reunião dos Deuses jubiloso do raio
no altíssimo vértice do multicimoso Olimpo.
Ele mesmo lhes falou, os Deuses todos escutaram:
- Ouvi-me, todos os Deuses e todas as Deusas,
que eu diga o que o ânimo no peito me impele:
nenhum Deus feminino nem nenhum masculino
tente cortar minha palavra, mas juntos todos
atendei para que rápido eu perfaça estas ações.
Quem eu perceber longe dos Deuses com intenção
de ir em socorro ou de troianos ou de dânaos,
golpeado não em ordem retornará ao Olimpo
ou agarro e arremesso-o ao Tártaro nevoento,
muito longe, onde mais fundo sob o chão é precipício,
onde são férreas as portas e brônzea a soleira,
tão abaixo de Hades quanto Céu é longe da Terra:
saberá então quanto sou supremo dos Deuses todos.
Eia! tentai já, Deuses, para o conhecerdes todos:
áurea cadeia desde o Céu ponde suspensa
e todos os Deuses pendei-vos e todas as Deusas
mas não puxaríeis desde o Céu para o chão
a Zeus sumo mestre nem se muito vos fatigásseis;
mas quando também eu árdego anuísse a puxar
com a terra mesma puxaria e com e mar mesmo,
a cadeia então ao redor do pico do Olimpo
eu ataria e tudo aliás ficaria nas alturas,
tanto sou superior a Deuses e superior a homens.

Fonte: TORRANO, J. O Sentido de Zeus. São Paulo: Iluminuras, 1996.

Tradução de Haroldo de Campos


A Aurora abrira o peplo amarelo-açafrão
por sobre toda a terra. Zeus Fulgurador
convoca em assembléia os numes no mais alto
cimo do Olimpo, multiescarpado. Ele fala
e,submissos, os outros o escutam: "Ouvi-me,
deuses e deusas,vou dizer-lhes o que manda
meu coração; ninguém, deus ou deusa,descumpra
meu ditame, antes, todos me obedeçam, para
que eu possa dar um termo rápido a esta empresa;
aquele que, afastado dos demais, eu veja
vivamente voltado a socorrer os Tróicos
ou os Dânaos, ao céu olímpio voltará
sob aguilhão, em mau estado, se eu ao fosco
Tártaro não decida, de pronto, arrojá-lo,
no fundo mais profundo onde se abisma o báratro
sob a terra; onde o férreo portal e o limiar
de bronze distam do Hades tanto quanto o céu
da terra. Vereis quão grande é o meu poder. Caso
queirais fazer a prova, suspendei do céu
uma corrente de ouro. Pendurados dela,
tentai, deuses e deusas juntos, das alturas
puxar Zeus soberano para a terra. Mesmo
com todo o esforço, não conseguireis fazê-lo,
enquanto, se eu quiser, a todos puxarei
e ainda, de arrasto, levo a terra e o mar talásseo.
Num píncaro do Olimpo prendendo a cadeia
áurea, farei que tudo fique à solta no ar,
pênsil meteoro. Tanto excedo deuses e homens!"

FONTE: CAMPOS, H. Ilíada de Homero. São Paulo: Arx. 2002.

sexta-feira, agosto 21, 2009

Hino Homérico XXVI - A Dioniso

Hederícrine Dioniso magnifremente começo a cantar
de Zeus e de Sêmele magnissigne o esplêndido filho
que nutriam as Ninfas de belos cabelos que do Rei Pai
acolheram-no em seus seios e cuidadosas criavam
nos vales do Jovem e ele cresceu por vontade do Pai
em bem olente gruta conumerário entre os imortais
e quando as Deusas o nutriram multi-hineado
então pervagava através de arborosas moradas
na hera e na laurácea condensado. Elas seguem juntas
Ninfas, ele as guia e fremente tem a inefável selva.
Tu, assim te saudamos, ó multicacheado Dioniso,
dá-nos por te saudarmos, às Sazões outra vez virmos
e das Sazões outra vez nos múltiplos círculos.

Tradução de Jaa Torrano

FONTE: TORRANO, J. O Sentido de Zeus, o Mito do Mundo e o Modo Mítico de Ser no Mundo. Iluminuras, 1996.

quinta-feira, agosto 20, 2009

Prólogo de Bacas, vv. 01 - 63 - Três traduções

Dioniso:

Venho a esta terra tebana, filho de Zeus,
Dioniso, que nasce da filha de Cadmo,
Sêmele, partejada por relampeado fogo.
Troquei a forma de Deus pela humana,
presente às águas de Dirce e às de Ismeno.
Vejo monumento à minha mãe fulminada
lá perto das casas e ruínas do palácio
a fumarem chama ainda viva do fogo de Zeus,
imortal agressão de Hera à minha mãe.
Louvo Cadmo que tornou intocável este chão,
o recinto da filha; eu o cobri todo
ao redor com o cacheado verdor da videira

Deixei auríferos hectares lídios e frígios
percorri planaltos pérsios sob forte sol,
muralhas báctrias, a terra tempestuosa
dos medos, a Arábia de bom Nume
e toda a Ásia deitada à beira do salso mar
com as suas bem torreadas cidades
cheios de gregos e bárbaros mesclados,
e vim a esta cidade dos gregos primeiro.

Também lá fiz coros e instituí mistérios
meus, para manifestar-me Nume aos mortais.
Primeiro em Tebas nesta terra grega
alarideei e atei a nébrida ao corpo
e nas mãos pus o tirso, hederoso dardo;
pois irmãs de minha mãe, as que menos deviam,
diziam que Dioniso não surgiu de Zeus,
que Sêmele, feita mulher por algum mortal,
atribuiu a Zeus o desacerto com o leito,
sofismas de Cadmo, assim Zeus a matou
porque mentiu núpcias, alardeavam elas.
Por isso, de suas casas eu as aguilhoei
com a loucura e habitam a montanha aturdidas.
Obriguei-as a ter paramentos de meus trabalhos,
e toda a fêmea semente, quantas cadméias
havia, enlouqueci em seus lares:
junto com as filhas de Cadmo misturadas
sob verdes abetos correm por pedras sem teto.
Deve esta cidade saberm ainda que não queira,
que não está iniciada em meus Baqueumas,
e devo pronunciar a defesa de mãe Sêmele
manifesto aos mortais Nume que ela deu a Zeus.
Cadmo outorga o privilégio e o poder
a Penteu, rebento de sua filha Agave.
Este combate o Deus em mim e repele-me
das libações, nem de mim se lembra nas preces.
Por isso mostrar-lhe-ei que Deus nasci
e aos tebanos todos. Após bem me pôr aqui
voltarei o pé para uma outra terra
a mostrar-me. E se a cidade tebana irada
tentar com armas expulsar da montanha
as Bacas, atacarei chefiando as Loucas.
Por isso alterado tenho aspecto de mortal
e minha forma transmutei em ser humano.
Ó vós que deixastes Tmolo abrigo da Lídia,
eia! Tíaso meu, mulheres que dos bárbaros
conduzi sequazes das pousadas e percursos,
erguei os tamborins nativos da cidade
dos frígios, invenção de mãe Réia e minha,
vinde ao redor do régio palácio de Penteu
e percuti, para que o povo de Cadmo veja.
Eu com as Bacas às dobras do Citéron
irei onde estão e participarei dos coros.

Tradução de Jaa Torrano

Fonte: EURÍPIDES. Bacas. Tradução e estudo de Jaa Torrano. São Paulo: Hucitec, 1993.


Dioniso:

Deus, filho de Zeus, chego a Tebas ctônia,
Dioniso. Deu-me à luz Semele cádmia.
O raio - Zeus porta-fogo - fez-me o parto.
Deus em mortal transfigurado, achego-me
ao rio Ismeno, ao minadouro dírceo.
Avisto o memorial de minha mãe
relampejada junto ao paço. Escombros
de sua morada esfumam com o fogo,
ainda flâmeo, de Zeus, ultraje eterno
de Hera contra Semele. Louvo Cadmo:
sagrou à filha o espaço não-pisado,
que circum-ocultei com verdes vinhas
em cachos. Deixo Lídia e Frígia pluri-
-áureas; plainos da Pérsia calcinados;
Báctria emurada; a Média, terra gélida;
Arábia venturosa; pleniaberta
ao mar salino, a Ásia, onde, em tantas urbes
de torres multilindas, grego e bárbaro
compunham gigantesco aglomerado.
Na Grécia, por aqui me introduzi.
Fundei meu rito em coros dançarinos:
um deus-demônio, ao homem manifesto.
À trra dos tebanos vim primeiro.
A pele nébrida ajustei aos corpos
sobreululando, o tirso e o dardo de hera
dei-lhes. Me denegriu quem não devia,
as minhas tias maternas: "Não é deus
Dioniso! Não é filho de Zeus! Grávida
de outro qualquer, Semele o inculpou pela
própria falta." Sofismam, como Cadmo:
a mãe falsária, Zeus, então, matara-me!
Eis a razão de eu, para o monte, atraí-las,
maníacas de furor, fêmeas frenéticas.
Fêmeas tebanas portam, todas elas
forçadas, paramentos para a orgia,
tresloucadas, dos lares, todas, extra-
-ditadas, turba entremesclada às Cádmias,
sob o cloroso abeto, sobre as pedras.
Malgrado seu, aprenda a cidadela
não ter sido iniciada em meus baqueus.
Da mãe Semele faço a apologia:
mostro-me um deus-demônio, o sêmen nela
de Zeus. Cadmo a Penteu, filho de uma outra
filha, outorga o apanágio de tirano-
-rei. Contra mim, Penteu move uma teo-
-maquia: libações me nega e preces.
Por isso eu lhe indigito minha origem
divina e a Tebas toda. Implanto aqui
o rito, e os pés, alhures, logo movo
em minha epifania. Mas se em furor
de hoplita a pólis planejar tirá-las
do pico, eu lutarei, chefiando as loucas.
Por isso, num mortal me transfiguro,
a forma antiga em natureza humana.
Atrás de nós ficou a serra tmólia,
baluarte lídio, ó fêmeas do meu tíaso,
companheiras de périplo e repouso!
Alçando frígios tímpanos, ó bárbaras,
invento de Mãe-Réia, meu próprio invento,
circundai a morada basiléia,
ressoai - que o presencie a pólis de Cadmo!
Assim, voltando ao Ptýks, reentrância do
Citero, me reintegro ao coro báquico.

Tradução de Trajano Vieira

Fonte: VIEIRA, T. As Bacantes de Eurípides. São Paulo: Perspectiva. 2003.


Diôniso

Estou aqui, chegando à terra dos tebanos,
eu, o próprio Diôniso, filho de Zeus,
que há muitos anos a filha do antigo Cadmo,
Semele, trouxe ao mundo graças ao fulgor
de um divino relâmpago vindo das nuvens.
Tomei a forma humana para freqüentar
as nascentes de Dirce e as águas do Ismeno.
Já posso ver junto ao palácio a sepultura
de minha mãe - pobre Semele! - fulminada
por um raio e as ruínas de sua morada
ainda fumegantes do fogo de Zeus,
testemunho perene da vingança de Hera
e um violento insulto à minha amada mãe.
É meu dever também agradecer a Cadmo
por haver feito deste solo, inviolável
aos passos dos mortais, o altar de sua filha,
que vim cercar de videiras cheias de uvas.
Cruzei a Lídia e sua terra aurífera
e as planícies da Frígia e viajei
para os ensolarados planaltos da Pérsia,
e a Bactriana com suas muralhas altaneiras,
e a Média, gelada durante o inverno,
e até o extremo da Arábia Feliz,
e toda a Ásia, enfim, cujo limite
são as ondas salgadas, com suas cidades
cercadas por belas muralhas, onde gregos
se misturaram com diversas raças bárbaras.
A primeira cidade grega que visito
é esta aqui. Em muitas regiões distantes
organizei meus coros, implantei meus ritos,
para manifestar-me aos homens como um deus.
A minha preferida entre as cidades gregas
é Tebas, onde já se ouviram meus clamores.
As mulheres tebanas, mais fiéis a mim,
já se dispõem a vestir peles de corças,
e pus em suas mãos o tirso, este dardo
ornado com ramos de hera sempre verdes.
De fato, as irmãs de minha querida mãe,
que em primeiro lugar deviam poupar-me
de tal insulto, declararam que eu, Diôniso,
não sou filho do grande Zeus e que Semele,
ludibriada por um amante mortal
e mal aconselhada pelo próprio Cadmo,
havia atribuído seu pecado ao deus.
Em altos brados elas proclamavam que,
se Zeus a fulminou, foi para castigá-la
por ter tido a idéia de vangloriar-se
de amores com um deus. Por isso compeli
todas as mulheres de Tebas a deixarem
seus lares sob o aguilhão do meu delírio.
E agora, vítimas de mente transtornada,
elas passaram a morar nos altos montes,
usando apenas a roupagem orgiástica.
Longe de suas casas e como dementes,
elas misturam-se com as filhas de Cadmo
em cima dos rochedos e sob os pinheiros
perenemente verdes. Mesmo constrangida,
esta cidade terá de reconhecer
a grande falta que lhe fazem minhas danças
e meus mistérios, para que eu possa vingar
a honra de Semele, minha amada mãe,
aparecendo aqui a todos os mortais
como o deus que ela um dia concebeu e teve,
depois de unir-se a Zeus. E Cadmo transmitiu
suas reais prerrogativas a Penteu,
filho de sua filha, que faz contra mim
guerra constante à minha condição divina.
Ele sempre me exclui de suas libações
e nunca diz meu santo nome em suas preces.
Mas poderei provar-lhe e provar aos tebanos
que fui realmente gerado por um deus.
Depois de acertar tudo como quero aqui,
dirigirei meus passos a outros lugares
e me darei a conhecer por toda a parte.
Mas se a cidade dos tebanos, tresloucada,
tentar trazer do cume dos montes mais altos
minhas Bacantes recorrendo à força bruta
e às armas, então marcharei com minhas tropas
de Mênades enfurecidas contra Tebas.
Com esta intenção apareci aqui
como se fosse um dos mortais e transformei
em corpo humano minha condição divina.
Vamos, vós, que preferistes deixar o Tmolo,
a muralha da Lídia, vós, componentes
de meu cortejo, minhas queridas mulheres
que me acompanham sempre desde as terras bárbaras,
vós todas que morais e caminhais comigo,
vós que agitai os tamborins feitos na Frígia
(uma invenção de Réa, a Grande Mãe, e minha).
Vinde e ficai junto ao palácio de Penteu,
tocando-os para atrair sobre vós mesmas
a curiosidade de Tebas Cadméia,
enquanto, sempre ao lado de nossas Bacantes,
conduzirei seus coros até o sopé
do altíssimo Citéron, onde ficaremos.


Tradução de Mário da Gama Kury


Fonte: EURÍPIDES. Ifigênia em Áulis, As Fenícias, As Bacantes. Tradução de Mário da Gama Kury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editora, 1993.

Persas 384-432: A Batalha de Salamina

A noite avançava, e o exército dos gregos
não tentava nenhuma escapada furtiva.
Quando, porém, o dia de brilhantes potros
cobriu a terra toda, radioso a quem vê,
primeiro a ecoar o clamor dos gregos
inaugurava cantando, e com estrídulo
alarido respondeu o eco do rochedo
da ilha. O pavor veio a todos os bárbaros
frustrados da expectativa, pois não em fuga
os gregos então hineava o solene peã,
mas em marcha de guerra com viva audácia
o clarim a gritar vibrava em todos ao redor.
Logo, batendo junto aos remos rumorosos,
golpearam fundo o mar, cadenciados,
e rápido todos surgiram visíveis.
A ala direita primeiro em seus postos
movia-se em ordem, depois a frota toda
avançava, e simultâneo podia-se ouvir
vasto canto: "Ó filhos de gregos, ide,
libertai vossa pátria, libertai os vossos
filhos, mulheres, templos de Deuses pátrios,
e túmulos dos pais, por todos é o combate."
De nossa parte, o rumor da língua persa
vai de encontro, não era mais hora de hesitar.
Logo navio contra navio bate o aríete
brônzeo, dá início ao combate o navio
grego, e quebra a proa do navio fenício
toda, um contra outro dirige a nave.
Primeiro a torrente do exército persa
resistia, mas como muitos navios atulhavam
o estreito, não se davam recíproco auxílio,
uns com outros colidiam suas brônzeas
proas, quebravam todo o renque de remos;
e os navios gregos, não sem perícia,
em círculo ao redor vulneram e reviram
cascos de navios, não mais se via o mar,
coberto de naufrágios e de morte de mortais,
pontais e recifes estavam cheios de mortos,
remavam em fuga sem ordem todos os navios,
quantos pertenciam ao exército bárbaro.
Como se fossem atuns ou redada de peixes,
com lascas de remos e pedaços de paus
golpeavam, espetavam, e a lamentação
clamorosa cobria a planície do mar,
até que o olho da negra noite removesse.
Tantos males, nem se por dez dias
eu os narrasse, poderia contar todos.
Bem saibas que nunca num único dia
tão numerosa multidão de homens morreu

Tradução de Jaa Torrano in: Letras Clássicas, v. 6, São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP, 2002.

quarta-feira, junho 17, 2009

Agamêmnon: Prólogo (vv. 1- 35)

Aos Deuses peço: afastem estas fadigas,
a vigilância de longo ano, quando deitado
nos tetos dos Atridas como um cão
conheço a ágora dos astros noturnos
e os que dão inverno e verão aos mortais,
claros príncipes a brilhar no firmamento,
astros, ao desaparecerem e ascedentes.
Agora aguardo o sinal do lampejo,
a luz do fogo a trazer voz de Tróia
e notícia da captura, tal é o poder
do viril coração expectante da mulher.
Quando tenho o meu leito noctívago
e orvalhado sem a visita de sonhos
pois o pavor em vez do sono assiste
sem fechar pálpebras firmes no sono,
choro e gemo a conjuntura desta casa
não como antes a mais bem servida.
Agora seja feliz afastamento de fadigas,
ao surgir nas trevas o fogo mensageiro.
Salve, ó luzeiro da noite, anúncio
de diurna claridade e de muitos coros
compostos em Argos por esta conjuntura
Ioú, Ioú,
assinalo claro à mulher de Agamêmnon:
ergue-te do leito e já eleva pelo palácio
o alarido alácre por este lampejo,
se está capturada a fortaleza de Ílion
como o clarão se mostra mensageiro.
Por mim mesmo dançarei o prelúdio
pois farei os bons lances dos soberanos
quando o clarão me deu triplos seis.
Que possa na vinda tomar nesta mão
a mão amigga do senhor do palácio!
O mais calo. Grande boi na língua
pisou. A casa mesma, se tivesse voz,
falaria bem claro como eu adrede
a quem sabe falo e aos outros oculto.

Tradução de Jaa Torrano

ÉSQUILO. Orestéia I: Agamêmnon. Estudo e tradução: Jaa Torrano. São Paulo, Iluminuras, 2004.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Hino Homérico a Dioniso (tradução de Jaa Torrano)

Em volta de Dioniso, de Sêmele magnissigne o filho
lembrar-me-ei como luziu na praia do sal infatigável
sobre o quebra-mar na imagem de jovem homem
no primeiro viço e bela circunvolvia a cabeleira
sombria e manto sobre fortes ombros ele tinha
purpúreo e rápido da nau de bons bancos homens
piratas adiantaram-se velozes sobre o víneo mar,
eram tirsenos, levou-os maligno lote, quando o viram,
acenaram entre si, rápido saltaram, de súbito agarraram,
puseram-no em sua nau, jubilosos em seu coração.
parecia-lhes ser filho dos nutridos por Zeus reis
e assim quiseram prendê-lo com cadeias dolorosas
e não o seguravam cadeias, vimes de longe caíam
das mãos e dos pés, ele com doce sorriso contemplava
com olhos sombrios, mas o piloto, quando o notou,
já aos seus companheiros conclamou e assim falou:
- Numinosos, a que Deus aqui agarrastes e prendestes
poderoso? Nem pode o navio vos levar benéfico
pois ou Zeus é este, ou o de argênteo arco Apolo,
ou Poseidáon, porque não aos mortais homens
é símil, mas aos Deuses que têm o palácio Olímpio.
Eia! deixemo-lo sobre a firme terra negra
já e não lanceis mão sobre ele que não por cólera
suscite sobre nós dolorosos ventos e múltiplo tufão.
Assim falou e o chefe disse em hedionda palavra:
- Numinoso, vê o vento e iça as velas do navio,
tomadas todas as armas, isto aliás é para homens,
pretendo partir ou para o Egito ou para Chipre,
ou para os Hiperbóreos, ou para mais longe e por fim
dirá um dia amigos dele e todos os seus bens
e seus irmãos, quando o lançou em nós o Nume.
Assim disse e vela e vela içaram-se do navio,
soprou o vento o meio da vela e em volta as armas
retesaram-se e logo luziram-lhes mirados atos:
vinho primeiro através do veloz navio negro
suavipotável soniflui bem olente e erguia-se odor
imortal e a miração pegou a todos os nautas ao virem
e já no ápice da vela estendeu-se toda
a videira aqui e ali e suspendiam-se muitos
cachos e em volta da vela enrolou-se a negra hera
luxuriosa de flores e gracioso o fruto sobre-ergueu-se
e todas as cavilhas tinham coroas e quando viram
o navio já então doravante mandavam o piloto
levar para a terra e ele leão se lhes fez no navio
terrível sobre a proa e grandibramia e no meio deles
ursa ele fez do pescoço veloso ao luzir os sinais
e ela estacou-se ardente e leão sobre o alto banco
terrível suspicaz olhante e para a popa fugiram
e em volta do piloto que prudente espiríto tinha
estacaram-se aturdidos, ele rápido ergueu-se
e agarrou o chefe e para fora ao evitarem a má parte
todos à uma pularam, quando viram, no sal divino
e golfinhos nasceram, mas do piloto teve piedade
e deteve-se e fê-lo ser todo feliz e disse palavra:
- Coragem!, divino guia, grato ao meu ânimo,
sou eu Dioniso magnifremente que gerou mãe
Cadméia Sêmele de Zeus em amor desposada.
- Saudações, filho de Sêmele formosa, nem há como
de ti esquecido com doçura mundificar-se o cantar.


Fonte:

Palco e Platéia, São Paulo,n.1. Dezembro de 1986. (p.4-5)

sexta-feira, abril 25, 2008

Teogonia, vv.1-115 - O Hino às Musas

Pelas Musas heliconíades comecemos a cantar.
Elas têm grande e divino o monte Hélicon,
em volta da fonte violácea com pés suaves
dançam e do altar do bem forte filho de Crono.
Banharam a tenra pele no Permesso
ou na fonte do Cavalo ou no Olmo divino
e irrompendo com os pés fizeram coros
belos ardentes no ápice do Hélicon.
Daí precipitando-se ocultas por muita névoa
vão em renques noturnos lançando belíssima voz,
hineando Zeus porta-égide, a soberana Hera
de Argos calçada de belas sandálias,
Atena de olhos glaucos virgem de Zeus porta-égide,
o luminoso Apolo, Ártemis verte-flechas,
Posídon que sustém e treme a terra,
Têmis veneranda, Afrodite de olhos ágeis,
Hebe de áurea coroa, a bela Dione,
Aurora, o grande Sol, a Lua brilhante,
Leto, Jápeto, Crono de curvo pensar,
Terra, o grande Oceno, a Noite negra
e o sagrado ser dos outros imortais sempre vivos.
Elas um dia a Hesíodo ensinaram belo canto
quando pastoreava ovelhas ao pé do Hélicon divino.
Esta palavra primeiro disseram-me as Deusas
Musas olimpíades, virgens de Zeus porta-égide:
"Pastores agrestes, vis infâmias e ventres só,
sabemos muitas mentiras dizer símeis aos fatos
e sabemos, se queremos, dar a ouvir revelações".
Assim falaram as virgens do grande Zeus verídicas,
por cetro deram-me um ramo, a um loureiro viçoso
colhendo-o admirável,e inspiraram-me um canto
divino para que eu glorie o futuro e o passado,
impeliram-me a hinear o ser dos imortais sempre-vivos
e a elas primeiro e por último sempre cantar.
Mas por que me vem isto de carvalho e de pedra?
Eia!pelas musas comecemos, elas a Zeus Pai
hineando alegram o grande espírito no Olimpo,
dizendo o presente, o passado e o futuro
vozes aliando. Infatigável flui o som
das bocas, suave. Brilha o palácio do pai
Zeus troante quando as vozes liriais das Deusas
espalha-se, ecoa a cabeça do Olimpo nevado
e o palácio dos imortais. Lançando voz imperecível
o ser venerando dos Deuses primeiro gloriam no canto
dês o começo: os que a Terra e o Céu amplo geraram
e os deles nascidos Deuses doadores de bens,
depois Zeus pai dos Deuses e dos homens,
no começo e fim do canto hineiam as Deusas
o mais forte dos Deuses e maior em poder,
e ainda o ser dos homens e dos poderosos gigantes.
Hineando alegram o espírito de Zeus no Olimpo
Musas olímpiades virgens de Zeus porta-égide.
Na Piéria gerou-as, da união do Pai Cronida,
Memória rainha nas colinas de Eleutera,
para oblívio dos males e pausa para aflições.
Nove noites teve uniões com ela o sábio Zeus,
longe dos imortais subindo ao sagrado leito.
Quando girou o ano e retornaram as estações
com as mínguas das luas e muitos dias findaram,
ela pariu nove moças concordes que dos cantares
têm o desvelo no peito e não-triste ânimo,
perto do ápice altíssimo do nevoso Olimpo,
aí os seus coros luzentes e belo palácio.
Junto a elas as Graças e o Desejo têm morada
nas festas, pelas bocas amável voz lançando,
dançam e gloriam a partilha e os hábitos nobres
de todos os imortais, voz bem amável lançando.
Elas iam ao Olimpo exultantes com a bela voz,
imperecível dança. Em torno gritava a terra negra
ao hinearem, dos pés amável ruído erguia-se
ao irem ao seu pai. Ele reina no Céu
tendo consigo o trovão e o raio flamante,
venceu no poder o pai Crono, e aos imortais
bem distribuiu e indicou cada honra;
isto as Musas cantavam, tendo o palácio olímpio,
nove filhas nascidas do grande Zeus:
Glória, Alegria, Festa, Dançarina,
Alegra-coro, Amorosa, Hinária, Celeste
e Belavoz, que dentre todas vem à frente.
Ela é que acompanha os reis venerandos.
A quem honram as virgens do grande Zeus
e dentre os reis sustentados por Zeus vêem nascer,
elas lhe vertem sobre a língua o doce orvalho,
e palavras de mel fluem da sua boca. Todas
as gentes o olham decidir as sentenças
com reta justiça e ele firme falando na ágora
logo à grande discórdia cônscio põe fim,
pois os reis têm prudência quando às gentes
violadas na ágora perfazem as reparações
facilmente, a persuadir com brandas palavras.
Indo à assembléia, como a um Deus o propiciam
pelo doce honor e nas reuniões se distingue.
Tal das musas o sagrado dom aos homens.
Pelas Musas e pelo golpeante Apolo
há cantores e citaristas sobre a terra,
e por Zeus, reis. Feliz é quem as Musas
amam, doce de sua boca flui a voz.
Se com angústia no ânimo recém-ferido
alguém aflito mirra o coração e se o cantor
servo das musas hineia a glória dos antigos
e os venturosos Deuses que têm o Olimpo,
logo esquece os pesares e de nenhuma aflição
se lembra, já os desviaram os dons das Deusas.
Alegrai, filhas de Zeus, dai ardente canto,
gloriai o sagrado ser dos imortais sempre vivos,
os que nasceram da Terra e do Céu constelado,
os da Noite trevosa, os que o salgado Mar criou.
Dizei como no começo Deuses e Terra nasceram,
os Rios, o Mar infinito impetuoso de ondas,
os Astros brilhantes e o Céu amplo em cima.
Os deles nascidos deuses doadores de bens
como dividiram a opulência e repartiram as honras,
e como no começo tiveram o rugoso Olimpo.
Dizei-me isto, ó Musas que tendes o palácio olímpio,
dês o começo e quem dentre eles primeiro nasceu.

Tradução: J.A.A.Torrano in: HESÍODO.Teogonia, a Origem dos Deuses.Estudo e tradução: J.A.A.Torrano. Iluminuras,2006.

sábado, outubro 20, 2007

Teogonia 116-122

Sim bem primeiro nasceu Caos, depois também
Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre,
dos imortais que têm a cabeça no Olimpo nevado,
e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias,
e Eros: o mais belo entre Deuses imortais,
solta-membros, dos Deuses todos e dos homens todos
ele doma no peito o espírito e a prudente vontade.

[Tradução de Jaa Torrano]