domingo, junho 28, 2026
Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro - Cecília Meireles
sábado, junho 27, 2026
Telefonema para João Ângelo
Hoje pensei o dia inteiro em te ligar
porque tive vontade de te ouvir
a sua pressa, a sua ansiedade e a sua urgência
ao telefone, e claro, você,
o que está fazendo e tal,
e as lições do professor de poesia, a quem
sempre releva perguntar o que está lendo.
Porque você tem seu Catulo, seu Horácio,
seu Plínio Jovem,
a remediar -- e sejamos
positivos, preencher --
a vaga do tempo incompreensível.
E eu te contaria que andei lendo
a biografia de Petrarca.
E você, com seus livros,
com seus clássicos e urgência,
repõe as letras no sentido das coisas,
quando, amigo e professor,
traz os poetas da Roma velha e cansada
para passear nas ruas da Santa Cecília,
Angélica, Consolação.
E eu te diria que Petrarca,
tão alto poeta,
viveu mergulhado em ninharias, como nós,
doce consolo.
E minha amiga sempre diz
dos encontros que havia antes
e não há mais
-- e eu me lembro
de você
e de seu sonoro nome em minha agenda
e penso que estamos aqui
e também nos encontramos
e almoçamos na cidade poluída
defendendo nosso Horácio
no fundo do bolso.
Iuri Pereira
in: Parte de Tudo. São Paulo: Hedra, 2025.
domingo, junho 21, 2026
Otávio Guimarães Tavares
O que essa rua diz sobre a lua?
diz nada
diz correria
diz dessa luz estranha
que brilha no asfalto
besteiras
e ainda grita
sob o para-brisa dos carros
canções enevoadas
e apelos ao vento
dos corpos mecânicos
deixados pra trás
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O mundo
essa loucura que nos toca
tece trepa e joga
nosso cadáver pela vala
e acha
que ainda
em algum momento
devemos algum tipo de honraria
resta
pela esquina
sem pensar
jogar o mundo
devagar
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Fonte: Tavares, Otávio Guimarães. Entre Marés. Cotia: Urutau, 2025.
segunda-feira, março 16, 2026
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
Hilda Hist
I, Júbilo e Memória, Noviciado da Paixão
domingo, março 15, 2026
Hilda Hilst - XI, Trovas de Muito Amor para um Amado Senhor
Amor tão grande
Morrer não há de.
Mais cobiçado.
sábado, março 14, 2026
Hilda Hilst
As asas não se concretizam.
Terríveis e pequenas circunstâncias
Transformam claridades, asas, grito
Em labirinto de exígua ressonância.
Os solilóquios de amor não se eternizam.
E no entanto, refaço minhas asas
Cada dia. E no entanto, invento amor
Como as crianças inventam alegria.
[18, Roteiro do Silêncio]
sexta-feira, março 13, 2026
Porto Alegre Blues - Pedro Gonzaga
(...)
e não demora estou diante da igreja
de nossa senhora das dores --
inclino meu pescoço para cima
finco os pés no primeiro degrau
da escadaria que se estende feito um muro
erguido numa diagonal pixelada
e não tenho amparo contra sua beleza
e alguma coisa em mim
há muito contida
rompe minha valerosa armadura
e subo os degraus sozinho
(os cães se sabem desnecessários)
e isto não é apenas um blues --
meus olhos ardem e
alguma coisa feito um blues
feito umidade quente flui
extraída à força pelas arcadas brancas
pelo círculo ao topo da fachada
quero chamar de patético o soluço
mas o soluço é mais rápido que a retórica
meus pés sobem mais dois lances
e depois mais dois e talvez o erro
seja acreditar em um sentido
esperar por um milagre no refrão
quando os pés não esperam nada
ladeira abaixo na madrugada
escada acima agora eles fluem
em direção à balaustrada de pedra
até que desprovido de todas as preces usuais
aquele que era incapaz de crer
crê
na beleza que flui --
a beleza
e minhas lágrimas
finalmente
fluem.
sábado, março 07, 2026
Biodiversidade - Paulo Henriques Britto
Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,
que não requerem prática, oficina, suor.
Maneiras mais simpáticas de pagar mico
e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor.
Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo,
como há quem não se vexe de ler e decifrar
essas palavras bestas estrebuchando inúteis,
cágados com as quatro patas viradas pro ar.
Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,
de repente é mais que isso, é uma voz, talvez,
do outro lado da linha formigando de estática,
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,
câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,
incapazes de reassumir a posição natural,
não são na verdade uma outra forma de vida,
tipo um ramo alternativo do reino animal?
quinta-feira, março 05, 2026
OP.CIT., PP.164-165 (Paulo Henriques Britto)
uma tensão entre a necessidade
quarta-feira, fevereiro 25, 2026
Drummond - Apelo aos meus dessemelhantes em favor da paz
para ler, para corrigir, para louvar
Fonte: DRUMMOND, C.D.A. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Record, 2001.
sábado, fevereiro 21, 2026
Lenda - Orides Fontela
há um cristal: quem o fitar
ah, quem o fitar
com os olhos em sangue
com as mãos em sangue
com o sangue vivo
quem o fitar não dormirá
mas será cristal de espanto
--- ficará lúcido para sempre.
sexta-feira, fevereiro 20, 2026
Mário Quintana - Hai-Kais
Um copo de cristal
Sobre a mesa
Inventa as cores todas do arco-íris...
HOJE É OUTRO DIA
Quando abro cada manhã a janela do meu quarto
É como se abrisse o mesmo livro
QUEM SOMOS?
Esse estranho que mora no espelho
Olha-me de um jeito
De quem procura recordar quem sou...
A palavra andorinha
Rosa suntuosa e simples,
Não sabias?
Os grilos são os poetas mortos...
Rádios. Tevês.
Goooooooooooooooooooooooolo!!!!
Não acreditamos muito uns nos outros...
Basta de poemas para depois...
Nada conseguem dizer:
A morte é a libertação total:
Uma folha, ai,
O verso é um doido cantando sozinho.
quinta-feira, fevereiro 19, 2026
Orides Fontela
Kant (Relido)
cobrindo-me
e o estrelado céu
dentro de mim
Orides Fontela. Rosácea, 1986.
sábado, fevereiro 14, 2026
Bacanal - Manuel Bandeira
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!
Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada
A gargalhar em doudo assomo...
Evoé Momo!
Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
-- Cobras de lívidos venenos...
Evoé Vênus!
Se me perguntarem: que mais queres,
Além de versos e mulheres? ....
-- Vinhos! ...O vinho que é o meu fraco!
Evoé Baco!
O alfanje rútilo da lua
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que não domo!...
Evoé Momo!
A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoé Vênus!
sexta-feira, fevereiro 13, 2026
Jorge de Lima - Duas meninas de tranças pretas
Eram duas meninas de tranças pretas.
Veio uma febre levou as duas.
Foram as duas para o cemitério:
ambas ficaram na mesma cova.
Por sobre as pedras da sepultura
brotou bonina, brotou bonina,
nasceram plantas, nasceram mais plantas,
flores do mato, canas da várzea:
a sepultura virou canteiro.
Aves vieram cantar na plantas,
levaram sementes por sobre o mar.
Os peixes levaram estas sementes
até as Ilhas de Karakantá.
Ali brotaram flores estranhas.
Donde vieram flores tão raras?
Ah! só o poeta saberá.
Pois nesse mundo desconhecido
há casos desses que ninguém vê:
vieram insetos eijar as flores,
e um belo dia veio um poeta
pegar insetos para sua amada.
A borboleta mais rara que há
naquelas ilhas de Karakantá
é cor de amaranto com olhos azuis.
Mas heis de saber que a tal borboleta
contém veneno dentro dos olhos;
aí o poeta beijando tais olhos
ficou dormindo como um cadáver.
E então sonhou com as duas meninas:
que ambas dormiam na mesma cova,
que flores nasceram na sepultura,
que a sepultura virou canteiro,
que peixes levaram sementes da flores
para aquelas Ilhas de Karakantá.
O sonho do poeta o vento levou,
levou para um astro desconhecido.
E aí chegando tornou-se um mar:
a água do mar virou arco-íris.
Então uma deusa pegou o arco-íris
e fez um pente para se pentear.
E tanto se penteou a deusa do astro
que deu a luz duas meninas.
Sabeis quem são as duas meninas?
As duas meninas mais belas que há?
Ah! só o poeta saberá.
Jorge de Lima. A Túnica Inconsútil. Rio de Janeiro: Guanabara, 1938.
ais ou menos
(oração pela descrença)
Senhor,
peço poderes sobre o sono,
esse sol em que me ponho,
a sofrer meus ais ou menos,
sombra, quem sabe, dentro de um sonho.
Quero forças para o salto
do abismo onde me encontro
ao hiato onde me falto.
e, aos pés da pedra,
essa sombra, pedra que se esfalfa.
Pedra, letra, estrela à solta,
sim, quero viver sem fé,
levar a vida que falta
sem nunca saber quem é.
Paulo Leminski. ais ou menos. In: Toda Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
quarta-feira, fevereiro 11, 2026
O Tempo cobra o tributo (Marcelo Tápia)
Quem enfrenta sua velhice
o faz por não morrer jovem:
esse consolo se diz
para que o ancião se conforme.
Mas será melhor, por certo,
viver mais que partir cedo;
se outro mundo há, eterno,
que não se apresse o desfecho.
Foi-se a era dos heróis
que moços iam em glória;
hoje, com tudo o que dói,
prefere-se a longa história.
Sim, não falta dor à idade:
entre outras, essa sentença
sugere viver com arte,
e manter leve a consciência,
sem pesar demais os erros,
nem cultivar os remorsos,
e tampouco dar-se aos medos,
só aos riscos, com conforto.
Desprezar os maldizeres
convém a quem se quer bem;
nutrir amizades que restem
é o que a alegria retém.
Pensar no porvir se deve,
mas o agora sempre urge:
amanhã talvez me leve
a infalível foice a algures.
Fruir as coisas vividas,
mínimas de todo dia,
é ter a vida colhida
mesmo onde ela se escondia.
O tempo curto desdobra-se
em muitos se cada instante
é preenchido sem sobras,
seja ao depois, seja ao antes;
se os anos idos soçobram,
deixo o choro e sigo adiante.
Marcelo Tápia. Ascensões e Descensos. São Paulo: Editora Madamu, 2025.
domingo, fevereiro 08, 2026
Marcelo Tápia
VOZES
Aprendo por mim mesmo,
mas o Deus
plantou-me no imo
cantares diversos
De verdade anunciada
tenho o ambíguo;
se me é dado cantar,
diga-se no que digo.
o desígnio
de ser alheio e ser comigo
de se revelar
a voz do que imito,
o vão perdido
do elo divino.
Marcelo Tápia. Ascensões e Descensos. São Paulo: Editora Madamu, 2025.
quinta-feira, janeiro 29, 2026
andrômaca
não conheci troia
ruínas a mais ruínas a menos
também guardamos pedras aqui
do outro lado do oceano
tudo o que aprendi foi nesse alfabeto moderno
eis o momento apoteótico minha obsessão
nossos despojos é troia
minhas amigas encurraladas
na mesa do chefe é troia
a jovem saco preto no rosto
festa de luxo é troia
as baratas roendo o cu
da guerrilheira comunista é troia
é troia meu companheiro baleado no rosto
é troia os corpos desovados no mangue
as lideranças perseguidas é troia
as vítimas do feminicídio é troia
os milicos os fascistas os tiranos
disparam todos contra troia
a filosofia o direito o ocidente
nascem da devastação de troia
agora você entende por que voltei?
não conheci troia mas a entrevejo esplêndida
nas carícias clandestina durante os bombardeios
e gás de pimenta nas barricadas
nas clínicas de aborto nos abrigos
inusitados na desobediência
no canto sim no canto
eu não vou me entregar
você grita eu repito
através dos séculos
minha irmã
não há poemas para ti
nenhuma linha sobre cibele
onde perdemos o tino quando virou espetáculo
maldita literatura e seu panteão de vitórias
me abrace forte a explosão está próxima
ela há de vir
Luiza Romão in: Também guardamos pedras aqui. São Paulo: Editora Nós, 2021.
domingo, janeiro 18, 2026
Mário Faustino - Cavossonante Escudo Nosso
Entre nome e fenômeno balança