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domingo, junho 28, 2026

Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro - Cecília Meireles

Eles vieram felizes, como
para grandes jogos atléticos,
 com um largo sorriso no rosto,
 com forte esperança no peito,
– porque eram jovens e eram belos.

Marte, porém, soprava fogo
 por estes campos e estes ares.
 E agora estão na calma terra,
 sob estas cruzes e estas flores,
 cercados por montanhas suaves.

São como um grupo de meninos
num dormitório sossegado,
com lençóis de nuvens imensas,
e um longo sono sem suspiros,
de profundíssimo cansaço.

 Suas armas foram partidas
ao mesmo tempo que seu corpo.
E, se acaso sua alma existe,
 com melancolia recorda
o entusiasmo de cada morto.

Este cemitério tão puro
é um dormitório de meninos:
 e as mães de muito longe chamam,
entre as mil cortinas do tempo
cheias de lágrimas, seus filhos.

 Chamam por seus nomes, escritos
nas placas destas cruzes brancas.
Mas, com seus ouvidos quebrados,
com seus lábios gastos de morte,
que hão de responder estas crianças?

 E as mães esperam que ainda acordem,
como foram, fortes e belos,
depois deste rude exercício,
desta metralha e deste sangue,
destes falsos jogos atléticos.

Entretanto, céu, terra, flores,
é tudo horizontal silêncio.
O que foi chaga, é seiva e aroma,
 – do que foi sonho não se sabe –
e a dor vai longe, no vento...

sábado, junho 27, 2026

Telefonema para João Ângelo

 Hoje pensei o dia inteiro em te ligar

porque tive vontade de te ouvir

a sua pressa, a sua ansiedade e a sua urgência

ao telefone, e claro, você,

o que está fazendo e tal,

e as lições do professor de poesia, a quem

sempre releva perguntar o que está lendo.


Porque você tem seu Catulo, seu Horácio,

seu Plínio Jovem,

a remediar -- e sejamos

positivos, preencher -- 

a vaga do tempo incompreensível.

E eu te contaria que andei lendo

a biografia de Petrarca.


E você, com seus livros,

com seus clássicos e urgência,

repõe as letras no sentido das coisas,

quando, amigo e professor,

traz os poetas da Roma velha e cansada

para passear nas ruas da Santa Cecília,

Angélica, Consolação.


E eu te diria que Petrarca,

tão alto poeta,

viveu mergulhado em ninharias, como nós,

doce consolo.


E minha amiga sempre diz

dos encontros que havia antes

e não há mais

-- e eu me lembro

de você

e de seu sonoro nome em minha agenda

e penso que estamos aqui

e também nos encontramos

e almoçamos na cidade poluída

defendendo nosso Horácio

no fundo do bolso. 


Iuri Pereira


in: Parte de Tudo. São Paulo: Hedra, 2025. 

domingo, junho 21, 2026

Otávio Guimarães Tavares

O que essa rua diz sobre a lua?

diz nada

diz correria

diz dessa luz estranha

            que brilha no asfalto

besteiras

e ainda grita

sob o para-brisa dos carros

canções enevoadas

e apelos ao vento

dos corpos mecânicos

deixados pra trás


--------


O mundo

            essa loucura que nos toca

tece trepa e joga

nosso cadáver pela vala

e acha

             que ainda

em algum momento

devemos algum tipo de honraria


resta

                  pela esquina

            sem pensar

jogar o mundo

                 devagar 

--------------


Fonte: Tavares, Otávio Guimarães. Entre Marés. Cotia: Urutau, 2025. 

segunda-feira, março 16, 2026

 Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.


Hilda Hist

I, Júbilo e Memória, Noviciado da Paixão

domingo, março 15, 2026

Hilda Hilst - XI, Trovas de Muito Amor para um Amado Senhor

 Tenho sofrido
Penas menores.
Maiores
só as de agora:
Amor tão grande
Tão exaltado
Que se não morre
Também não sabe
Viver calado.

Morrer não há de.
Calar não pode.
Sabe morrer
Quem morre
Se não nos vê?
Sabe calar
A que nasceu
Somente
P'ra vos cantar?

Tenho sofrido
Porque de amor
Tenho vivido.
Amor tão grande
Tão exaltado
Que se o perdesse
Nada seria
Mais cobiçado.

Hilda Hilst
[XI, Trovas de muito amor para um amado senhor]

sábado, março 14, 2026

Hilda Hilst

 As asas não se concretizam.

Terríveis e pequenas circunstâncias

Transformam claridades, asas, grito

Em labirinto de exígua ressonância.


Os solilóquios de amor não se eternizam.


E no entanto, refaço minhas asas

Cada dia. E no entanto, invento amor

Como as crianças inventam alegria.


[18, Roteiro do Silêncio]

sexta-feira, março 13, 2026

Porto Alegre Blues - Pedro Gonzaga

 (...) 

e não demora estou diante da igreja

de nossa senhora das dores --

inclino meu pescoço para cima

finco os pés no primeiro degrau

da escadaria que se estende feito um muro

erguido numa diagonal pixelada

e não tenho amparo contra sua beleza

e alguma coisa em mim

há muito contida

rompe minha valerosa armadura

e subo os degraus sozinho

(os cães se sabem desnecessários)

e isto não é apenas um blues -- 

meus olhos ardem e 

alguma coisa feito um blues

feito umidade quente flui 

extraída à força pelas arcadas brancas

pelo círculo ao topo da fachada

quero chamar de patético o soluço

mas o soluço é mais rápido que a retórica

meus pés sobem mais dois lances

e depois mais dois e talvez o erro

seja acreditar em um sentido

esperar por um milagre no refrão

quando os pés não esperam nada

ladeira abaixo na madrugada

escada acima agora eles fluem

em direção à balaustrada de pedra

até que desprovido de todas as preces usuais

aquele que era incapaz de crer

crê

na beleza que flui --

a beleza

e minhas lágrimas

finalmente

fluem. 

sábado, março 07, 2026

Biodiversidade - Paulo Henriques Britto

 Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,
que não requerem prática, oficina, suor.
Maneiras mais simpáticas de pagar mico
e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor.

Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo,
como há quem não se vexe de ler e decifrar
essas palavras bestas estrebuchando inúteis,
cágados com as quatro patas viradas pro ar.

Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,
de repente é mais que isso, é uma voz, talvez,
do outro lado da linha formigando de estática,
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,

câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,
incapazes de reassumir a posição natural,
não são na verdade uma outra forma de vida,
tipo um ramo alternativo do reino animal?

Fonte: Britto, Paulo Henriques. Macau. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 

quinta-feira, março 05, 2026

OP.CIT., PP.164-165 (Paulo Henriques Britto)

 ""No poema moderno, é sempre nítida
uma tensão entre a necessidade
de exprimir-se uma subjetividade
numa personalíssima voz lírica

e, de outro lado, a consciência crítica
de um sujeito que se inventa e evade,
ao mesmo tempo ressaltando o que há de 
falso em si próprio -- uma postura cínica, 

talvez, porém honesta, pois de boa-
fé o autor desconstrói seu artífício
desmistifica-se para o "leitor-

irmão..." Hm. Pode ser. Mas o Pessoa,
em doze heptassílabos, já disse o 
mesmo -- não, disse mais -- muito melhor. 

Fonte: BRITTO, Paulo Henriques. Tarde. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 

quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Drummond - Apelo aos meus dessemelhantes em favor da paz

 Ah, não me tragam originais
para ler, para corrigir, para louvar
sobretudo, para louvar.
Não sou leitor do mundo nem espelho
de figuras que amam refletir-se
no outro
à falta de retrato interior.
Sou o Velho Cansado
que adora o seu cansaço e não o quer
submisso ao vão comércio da palavra.
Poupem-me, por favor ou por desprezo,
se não querem poupar-me por amor.
Não leio mais, não posso, que este tempo
a mim distribuído
cai do ramo e azuleja o chão varrido,
chão tão limpo da ambição
que minha só leitura é ler o chão.
Nem sequer li os textos das pirâmides,
os textos dos sarcófagos,
estou atrasadíssimo nos gregos,
não conheço os Anais de Assurbanipal,
como é que vou -
                            mancebos,
                            senhoritas,
- chegar à poesia de vanguarda
e às glórias do 2000 que telefonam?
Passam gênios talvez entre as acácias
sinto estátuas futuras se moldando
sem precisão de mim
que quando jovem (fui-o A. C., believe it or not)
nunca pulei muro de jardim
para exigir do morador tranquilo
a canonização do meu estilo.
Sirvam-se de exonerar este macróbio
do penoso exercício literário.
Não exijam prefácios e posfácios
ao ancião que mais fala quando cala.
Brotos de coxa flava e verso manco,
poetas de barba-colar e velutínea
calça puída, verde: tá!
Outoniços, crepusculinos, matronas, contumazes:
tá!
O senhor saiu. Hora que volta? Nunca.
Nunca de corvo, nunca de São Nunca.
Saiu para não voltar.
Tudo esqueceu: responder
cartas; sorrir
cumplicemente; agradecer
dedicatórias; retribuir
boas-festas; ir ao coquetel e à noite
de autógrafos-com-pastorinhas.
Ficou assim: o cacto de Manuel
é uma suavidade perto dele.
Respeitem a fera. Triste, sem presas, é fera.
Na jaula do mundo passeia a pata aplastante,
cuidado com ela!
Vocês, garotos de colégio, não perguntem ao poeta
quando nasceu.
Ele não nasceu.
Não vai nascer mais.
Desistiu de nascer quando viu que o esperavam garotos de colégio
de lápis em punho
com professores na retaguarda comandando: Cacem o urso-polar,
tragam-no vivo para fazer uma conferência.
Repórteres de vespertinos, não tentem entrevistá-lo.
Não lhe, não me peçam opinião
que é impublicável qualquer que seja o fato do dia
e contraditória e louca antes de formulada.
Fotógrafos: não adianta
pedir pose junto ao oratório de Cocais
nem folheando o álbum de Portinari
nem tomando banho de chuveiro.
Sou contra Niepce, Daguerre, contra principalmente minha imagem.
Não quero oferecer minha cara como verônica nas revistas.
Quero a paz das estepes
a paz dos descampados
a paz do pico de Itabira quando havia pico de Itabira
a paz de cima das Agulhas Negras
a paz de muito abaixo da mina mais funda e esboroada de Morro Velho
a paz
da
paz.


Fonte: DRUMMOND, C.D.A. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Record, 2001. 

sábado, fevereiro 21, 2026

Lenda - Orides Fontela

 Na raiz cega deste espanto
há um cristal: quem o fitar

ah, quem o fitar
com os olhos em sangue
com as mãos em sangue
com o sangue vivo

quem o fitar não dormirá
mas será cristal de espanto 

--- ficará lúcido para sempre. 

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

Mário Quintana - Hai-Kais

 AMANHECE

Um copo de cristal
Sobre a mesa
Inventa as cores todas do arco-íris...

HOJE É OUTRO DIA

Quando abro cada manhã a janela do meu quarto
É como se abrisse o mesmo livro
Numa página nova...

QUEM SOMOS?

Esse estranho que mora no espelho
Olha-me de um jeito
De quem procura recordar quem sou...

A OFERENDA

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos...
Trago-te estas mãos vazias
Que vão tomando a forma do teu seio.

VERÃO

Quando os sapatos ringem
         - quem diria?
São os teus pés que estão cantando! 

O TÚNEL

Às vezes
O longo túnel do sono é iluminado, apenas,
Pelos olhos verdes dos fantasmas...

HAI-KAI DA PALAVRA ANDORINHA

A palavra andorinha
Freme devagarinho
E somo em silêncio...

HAI-KAI

Rosa suntuosa e simples,
como podes estar tão vestida
e ao mesmo tempo inteiramente nua? 

OS GRILOS

Eles cantam a noite inteira!
Não sabias?
Os grilos são os poetas mortos...

ELEGIA URBANA

Rádios. Tevês.
Goooooooooooooooooooooooolo!!!!
(o domingo é um cachorro escondido debaixo da cama.)

ESTRANHEZA

Os vivos e os mortos
Sempre tivemos uma coisa em comum:
Não acreditamos muito uns nos outros...

CONVITE

Basta de poemas para depois...
Ó vida, e se nós dois
Vivêssemos juntos?

HAI-KAI

Silenciosamente
sem um cacarejo
a Noite põe o ovo da lua...

HAI-KAI DE OUTONO

Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?

ARTE POÉTICA

Esses poetas que tudo dizem
Nada conseguem dizer:
Estão fazendo apenas relatórios...

LIBERTAÇÃO

A morte é a libertação total:
A morte é quando a gente pode, afinal,
Estar deitado de sapatos...

HAI-KAI DE OUTONO

Uma folha, ai,
melancolicamente
                   cai! 

O VERSO

O verso é um doido cantando sozinho.
Seu assunto é o caminho. E nada mais!
O caminho que ele próprio inventa...


Fonte: Polito, R. (org.) Mário Quintana. O Livro dos Haicais. Ilustrações de Roberto Negreiros; posfácio de Paulo Franchetti. São Paulo: Globo, 2009. 

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Orides Fontela

 Kant (Relido)


Duas coisas admiro: a dura lei
cobrindo-me
e o estrelado céu
dentro de mim


Orides Fontela. Rosácea, 1986. 

sábado, fevereiro 14, 2026

Bacanal - Manuel Bandeira

Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
           Evoé Baco! 

Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada 
A gargalhar em doudo assomo...
         Evoé Momo! 

Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
--  Cobras de lívidos venenos...
     Evoé Vênus! 

Se me perguntarem: que mais queres,
Além de versos e mulheres? ....
-- Vinhos! ...O vinho que é o meu fraco!
           Evoé Baco!

O alfanje rútilo da lua
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que não domo!...
      Evoé Momo!

A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
        Evoé Vênus! 

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Jorge de Lima - Duas meninas de tranças pretas

 Eram duas meninas de tranças pretas. 

Veio uma febre levou as duas.

Foram as duas para o cemitério:

ambas ficaram na mesma cova.

Por sobre as pedras da sepultura

brotou bonina, brotou bonina,

nasceram plantas, nasceram mais plantas, 

flores do mato, canas da várzea:

a sepultura virou canteiro. 

Aves vieram cantar na plantas,

levaram sementes por sobre o mar.

Os peixes levaram estas sementes

até as Ilhas de Karakantá.

Ali brotaram flores estranhas.

Donde vieram flores tão raras?

Ah! só o poeta saberá.

Pois nesse mundo desconhecido

há casos desses que ninguém vê:

vieram insetos eijar as flores,

e um belo dia veio um poeta

pegar insetos para sua amada.

A borboleta mais rara que há

naquelas ilhas de Karakantá

é cor de amaranto com olhos azuis.

Mas heis de saber que a tal borboleta

contém veneno dentro dos olhos;

aí o poeta beijando tais olhos

ficou dormindo como um cadáver.

E então sonhou com as duas meninas:

que ambas dormiam na mesma cova,

que flores nasceram na sepultura,

que a sepultura virou canteiro,

que peixes levaram sementes da flores

para aquelas Ilhas de Karakantá.

O sonho do poeta o vento levou,

levou para um astro desconhecido.

E aí chegando tornou-se um mar:

a água do mar virou arco-íris.

Então uma deusa pegou o arco-íris

e fez um pente para se pentear.

E tanto se penteou a deusa do astro

que deu a luz duas meninas.

Sabeis quem são as duas meninas?

As duas meninas mais belas que há?

Ah! só o poeta saberá. 


Jorge de Lima. A Túnica Inconsútil. Rio de Janeiro: Guanabara, 1938. 

ais ou menos

       (oração pela descrença) 

    Senhor, 

peço poderes sobre o sono,

   esse sol em que me ponho,

a sofrer meus ais ou menos,

    sombra, quem sabe, dentro de um sonho.

     Quero forças para o salto

do abismo onde me encontro

   ao hiato onde me falto.

e, aos pés da pedra,

    essa sombra, pedra que se esfalfa.

    Pedra, letra, estrela à solta,

sim, quero viver sem fé,

   levar a vida que falta

sem nunca saber quem é. 


Paulo Leminski. ais ou menos. In: Toda Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. 

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

O Tempo cobra o tributo (Marcelo Tápia)

 Quem enfrenta sua velhice

o faz por não morrer jovem:

esse consolo se diz

para que o ancião se conforme.


Mas será melhor, por certo,

viver mais que partir cedo;

se outro mundo há, eterno,

que não se apresse o desfecho.


Foi-se a era dos heróis

que moços iam em glória;

hoje, com tudo o que dói,

prefere-se a longa história.


Sim, não falta dor à idade:

entre outras, essa sentença

sugere viver com arte,

e manter leve a consciência,


sem pesar demais os erros,

nem cultivar os remorsos,

e tampouco dar-se aos medos,

só aos riscos, com conforto. 


Desprezar os maldizeres

convém a quem se quer bem;

nutrir amizades que restem

é o que a alegria retém.


Pensar no porvir se deve,

mas o agora sempre urge:

amanhã talvez me leve

a infalível foice a algures.


Fruir as coisas vividas,

mínimas de todo dia,

é ter a vida colhida

mesmo onde ela se escondia.


O tempo curto desdobra-se

em muitos se cada instante

é preenchido sem sobras,

seja ao depois, seja ao antes;


se os anos idos soçobram,

deixo o choro e sigo adiante. 


Marcelo Tápia. Ascensões e Descensos. São Paulo: Editora Madamu, 2025. 

domingo, fevereiro 08, 2026

Marcelo Tápia

 VOZES


Aprendo por mim mesmo,

mas o Deus

plantou-me no imo

cantares diversos


De verdade anunciada

tenho o ambíguo;

se me é dado cantar,

diga-se no que digo.


o desígnio

de ser alheio e ser comigo

de se revelar

a voz do que imito,


o vão perdido

do elo divino.


Marcelo Tápia. Ascensões e Descensos. São Paulo: Editora Madamu, 2025. 

quinta-feira, janeiro 29, 2026

andrômaca

 não conheci troia

ruínas a mais ruínas a menos

também guardamos pedras aqui

do outro lado do oceano

tudo o que aprendi foi nesse alfabeto moderno

eis o momento apoteótico minha obsessão

nossos despojos é troia

minhas amigas encurraladas

na mesa do chefe é troia

a jovem saco preto no rosto

festa de luxo é troia

as baratas roendo o cu

da guerrilheira comunista é troia

é troia meu companheiro baleado no rosto

é troia os corpos desovados no mangue

as lideranças perseguidas é troia

as vítimas do feminicídio é troia

os milicos os fascistas os tiranos

disparam todos contra troia

a filosofia o direito o ocidente

nascem da devastação de troia

agora você entende por que voltei?

não conheci troia mas a entrevejo esplêndida

nas carícias clandestina durante os bombardeios

e gás de pimenta nas barricadas

nas clínicas de aborto nos abrigos

inusitados na desobediência

no canto sim no canto

eu não vou me entregar

você grita eu repito

através dos séculos

minha irmã

não há poemas para ti

nenhuma linha sobre cibele

onde perdemos o tino quando virou espetáculo

maldita literatura e seu panteão de vitórias

me abrace forte a explosão está próxima

ela há de vir


Luiza Romão in: Também guardamos pedras aqui. São Paulo: Editora Nós, 2021. 

domingo, janeiro 18, 2026

Mário Faustino - Cavossonante Escudo Nosso

 Cavossonante escudo nosso
          palavra: panacéia
ornado de consolos e compensas
enquanto a seta-fado
nos envenena ambos tendões
                                 rachados
No sabuloso mar na salsa areia
alimento não cresce
                             cobras crescem
e nos impõe silêncio o bramir vero
do veado oceano
                        cio cio
verdade, matogrosso universal
viçosamente ouvida
                     não palavras pa
lavras
                   e do cosmo selvagem
recém recém tombada
AMOR
estrela  inominada   pedra  lava
escudo  panejante   panacéia
                                         (a cruz
se enfuna)
bólide trespassando chão-essência
peito-presença

                           AQUI

         estamos.
Entre nome e fenômeno balança
nunca meu coração:
                             ferido sangra
pelo rosto do ser e por seus rins,
indiferente, he le na, às sílabas
véus teu ventre disfar-farçando:
ele singra ela sangra ele roxo
           ....espuma...
pela forma da coisa por seu peso
e para de pulsar rugindo contra
o que serve de rocha e despedaça
a liberdade sétima -- tocar
a liberdade oitava -- penetrar
a liberdade inteira -- conhecer: 
 
                      COR  AÇÃO

o sopro do metal ressoa chama
para a luta real
                     (há remoinhos)
cavossonante escudo rebentamos
a fraga  estilhaçamos  nus  sem-pele
estrelorientados  rumo-nós
                               boiamos
ainda que parados:
                            mudos:
                 
                                      somos. 


Fonte: Mário Faustino. Poesia Completa e Poesia Traduzida. Introdução, Organização e Notas: Benedito Nunes.  São Paulo: Max Limonad, 1985.