terça-feira, janeiro 13, 2026

Contra a Esperança - Carlos Nejar

É preciso esperar contra a esperança.
 Esperar, amar, criar
 contra a esperança
 e depois desesperar a esperança
mas esperar, enquanto
um fio de água, um remo,
peixes existem e sobrevivem
no meio dos litígios;
enquanto bater
a máquina de coser
e o dia dali sair
como um colete novo.

É preciso esperar
 por um pouco de vento,
um toque de manhãs.
E não se espera muito.
 Só um curto-circuito
 na lembrança. Os cabelos,
ninhos de andorinhas
e chuvas. A esperança,
 cachorro a correr
 sobre o campo
e uma pequena lebre
que a noite
em vão esconde.

 O universo é um telhado
com sua calha, tão baixo
e as estrelas, enxame
de abelhas na ponta.

É preciso esperar contra a esperança
 e ser a mão pousada
no leme de sua lança.

 E o peito da esperança
 é não chegar;
seu rosto é sempre mais.
 É preciso desesperar
a esperança
como um balde no mar.

Um balde a mais
na esperança
e sobre nós.

Nenhum comentário: