sexta-feira, janeiro 16, 2026

Guilherme de Almeida - Carta à Minha Alma

 Minha desconhecida
                                  Nós vivemos
num mundo tão pequeno para nós,
tão juntos - e ainda não nos conhecemos.
Você não sabe ainda a cor
dos meus olhos, nem a inflexão da minha voz,
nem o humano calor
das minhas pobres mãos de barro,
nem o perfume azul do meu cigarro...
Eu ainda não sei a altura do seu céu,
nem o vôo levíssimo do véu
dos seus sonhos e dos seus dedos,
nem o nível dos seus folguedos, 
nem o fundo dos seus segredos...
No entanto, um mesmo teto abençoa e agasalha
nossas vidas alheias
(como é um mesmo o que abriga o crente e a santa):
moramos paredes-meias,
como o homem triste que trabalha
e a menina boêmia que canta...
Nós somos dois anônimos vizinhos.
E, para sermos "dois" no mundo, para
sermos assim sozinhos
entre a nossa recíproca ignorância,
entre nós dois, há apenas a distância
da parede comum que nos separa.
Ela chama-se "Vida".
Só ela nos divide -- a opaca intrometida.
Contra essa intrusa, para disfarçá-la
eu, daqui do meu lado, ao longo desta sala,
estendi numa longa, longa estante
toda uma biblioteca anestesiante.
Do seu lado, ela deve estar vestida
com um chale de cachemira sobre o qual
ressona o oco de uma guitarra adormecida,
e fenece um retrato íntimo e antigo, a lápis,
com uma florzinha pálida dos Alpes
esmigalhada no cristal...
Assim tão juntos nós vivemos
e infelizmente nem sequer nos conhecemos. 
Hoje, não sei por que, 
tive vontade de escrever para você,
de perguntar baixinho ao seu ouvido:
- Diga! para que nós nos encontremos
será preciso, então, que algum ciclone
se abata sobre nós e desmorone
a parede comum que nos separa: a Vida?
Ou -- o que para mim será mais morte ainda -- 
minha linha imortal, minha alma linda,
será que alguma vez nós já nos encontramos
e, sem nos ver, sem nos reconhecer, passamos? ...

Fonte. Carlos Vogt (org.) Os Melhores Poemas de Guilherme de Almeida. São Paulo: Global, 1993. 

Nenhum comentário: