sábado, fevereiro 14, 2026

Bacanal - Manuel Bandeira

Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
           Evoé Baco! 

Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada 
A gargalhar em doudo assomo...
         Evoé Momo! 

Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
--  Cobras de lívidos venenos...
     Evoé Vênus! 

Se me perguntarem: que mais queres,
Além de versos e mulheres? ....
-- Vinhos! ...O vinho que é o meu fraco!
           Evoé Baco!

O alfanje rútilo da lua
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que não domo!...
      Evoé Momo!

A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
        Evoé Vênus! 

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Jorge de Lima - Duas meninas de tranças pretas

 Eram duas meninas de tranças pretas. 

Veio uma febre levou as duas.

Foram as duas para o cemitério:

ambas ficaram na mesma cova.

Por sobre as pedras da sepultura

brotou bonina, brotou bonina,

nasceram plantas, nasceram mais plantas, 

flores do mato, canas da várzea:

a sepultura virou canteiro. 

Aves vieram cantar na plantas,

levaram sementes por sobre o mar.

Os peixes levaram estas sementes

até as Ilhas de Karakantá.

Ali brotaram flores estranhas.

Donde vieram flores tão raras?

Ah! só o poeta saberá.

Pois nesse mundo desconhecido

há casos desses que ninguém vê:

vieram insetos eijar as flores,

e um belo dia veio um poeta

pegar insetos para sua amada.

A borboleta mais rara que há

naquelas ilhas de Karakantá

é cor de amaranto com olhos azuis.

Mas heis de saber que a tal borboleta

contém veneno dentro dos olhos;

aí o poeta beijando tais olhos

ficou dormindo como um cadáver.

E então sonhou com as duas meninas:

que ambas dormiam na mesma cova,

que flores nasceram na sepultura,

que a sepultura virou canteiro,

que peixes levaram sementes da flores

para aquelas Ilhas de Karakantá.

O sonho do poeta o vento levou,

levou para um astro desconhecido.

E aí chegando tornou-se um mar:

a água do mar virou arco-íris.

Então uma deusa pegou o arco-íris

e fez um pente para se pentear.

E tanto se penteou a deusa do astro

que deu a luz duas meninas.

Sabeis quem são as duas meninas?

As duas meninas mais belas que há?

Ah! só o poeta saberá. 


Jorge de Lima. A Túnica Inconsútil. Rio de Janeiro: Guanabara, 1938. 

ais ou menos

       (oração pela descrença) 

    Senhor, 

peço poderes sobre o sono,

   esse sol em que me ponho,

a sofrer meus ais ou menos,

    sombra, quem sabe, dentro de um sonho.

     Quero forças para o salto

do abismo onde me encontro

   ao hiato onde me falto.

e, aos pés da pedra,

    essa sombra, pedra que se esfalfa.

    Pedra, letra, estrela à solta,

sim, quero viver sem fé,

   levar a vida que falta

sem nunca saber quem é. 


Paulo Leminski. ais ou menos. In: Toda Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. 

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Agamêmnon de Ésquilo, versos 1331-1342 - Tradução de Jaa Torrano

 Coro:

A prosperidade brota insaciável

a todos os mortais. Por recusa

ninguém a repele de indigitados palácios

a dizer: "não entres mais aqui".

Os Venturosos deram a este homem

capturar o país de Príamo

e honrado por Deus retorna ao lar.

Se agora responder por sangue antigo

e morto pelas mortes cobrar punição

com outras mortes,

que mortal ouvindo isso alardearia

ter nascido com incólume destino? 


Fonte: TORRANO, Jaa. Ésquilo. Oresteia I: Agamêmnon. São Paulo: Iluminuras, 2004. 

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

O Tempo cobra o tributo (Marcelo Tápia)

 Quem enfrenta sua velhice

o faz por não morrer jovem:

esse consolo se diz

para que o ancião se conforme.


Mas será melhor, por certo,

viver mais que partir cedo;

se outro mundo há, eterno,

que não se apresse o desfecho.


Foi-se a era dos heróis

que moços iam em glória;

hoje, com tudo o que dói,

prefere-se a longa história.


Sim, não falta dor à idade:

entre outras, essa sentença

sugere viver com arte,

e manter leve a consciência,


sem pesar demais os erros,

nem cultivar os remorsos,

e tampouco dar-se aos medos,

só aos riscos, com conforto. 


Desprezar os maldizeres

convém a quem se quer bem;

nutrir amizades que restem

é o que a alegria retém.


Pensar no porvir se deve,

mas o agora sempre urge:

amanhã talvez me leve

a infalível foice a algures.


Fruir as coisas vividas,

mínimas de todo dia,

é ter a vida colhida

mesmo onde ela se escondia.


O tempo curto desdobra-se

em muitos se cada instante

é preenchido sem sobras,

seja ao depois, seja ao antes;


se os anos idos soçobram,

deixo o choro e sigo adiante. 


Marcelo Tápia. Ascensões e Descensos. São Paulo: Editora Madamu, 2025. 

terça-feira, fevereiro 10, 2026

Interrupção - Konstantinos Kaváfis

 A obra dos deuses, nós a interompemos -- entes 
somos da pressa e do momento, inexperientes.
No palácio de Elêusis e no de Ftia, eis
que iniciam Deméter e Tétis, em chamas
altas e fumo espesso envoltas, grandes obras. Mas
sempre foge Metanira aos aposentos do rei,
cabelos soltos, temerosa. Também
Peleu se atemoriza sempre e intervém.


Tradução de José Paulo Paes in: Konstantinos Kaváfis. Poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. 

segunda-feira, fevereiro 09, 2026

Horácio, Ode III. 30 - Tradução de Trajano Vieira

 Ergui um monumento mais perene

que o bronze, mais altivo que as pirâmides

nem a chuva voraz, nem sucessivos

anos o anulam, nem o árduo Áquilo.

Morro mas parcialmente e pouco vai

de mim a Libitina. Novo, os pósteros

só me farão crescer, enquanto suba

ao Capitólio o sumo padre, atrás

a virgem quieta. Onde o Ofanto estronda,

onde Dauno regeu a gente rude, 

na Apúlia árida, dirão: não mais

negligenciável, foi quem pôs o canto

eólio, pioneiro, em metro itálico.

Reivindica, Melpômene, a altivez

conquistada por méritos e cinge

minha cabeça com o louro délfico.

domingo, fevereiro 08, 2026

Marcelo Tápia

 VOZES


Aprendo por mim mesmo,

mas o Deus

plantou-me no imo

cantares diversos


De verdade anunciada

tenho o ambíguo;

se me é dado cantar,

diga-se no que digo.


o desígnio

de ser alheio e ser comigo

de se revelar

a voz do que imito,


o vão perdido

do elo divino.


Marcelo Tápia. Ascensões e Descensos. São Paulo: Editora Madamu, 2025. 

sábado, fevereiro 07, 2026

Anna Akhmátova

 A MUSA

Quando à noite eu espero a sua vinda, 
minha vida parece estar por um fio. 
Que valem honras, juventude, liberdade 
diante da doce amiga com a flauta na mão? 
Ei-la, chegou: lançando o manto para trás
deteve o olhar atento sobre mim.
“Foste tu” – lhe pergunto – “que ditaste a Dante 
as páginas do Inferno?” E ela: “Eu". 


 Tradução de Rafael Brunhara

sexta-feira, fevereiro 06, 2026

 Este é o tempo

Da selva mais obscura


Até o ar azul se tornou grades

E a luz do sol se tornou impura


Esta é a noite

Densa de chacais

Pesada de amargura


Este é o tempo em que os homens renunciam.


Sophia de Mello Breyner Andresen. Mar Novo, in Obra Poética. Rio de Janeiro: Tinta da China, 2018. 

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Horácio, Ode I, 38 - Tradução de Trajano Vieira

 Detesto aparatos persas, não

suporto, infante, a tília das guirlandas,

não queiras encontrar em que lugar

retarda a rosa extemporânea.


Não emprestes teu zelo a somar

algo que for, menino, ao simples mirto.

O mirto não humilha quem ministra 

o vinho, e a mim que o sorvo à sombra. 


Trajano Vieira. Catulo & Horácio: Uma Antologia. São Paulo, Cotia: Ateliê Editorial, 2025. 


Outra Tradução: Haroldo de Campos 

Horácio, Ode I.38 - Tradução de Raimundo Carvalho

 Rapaz, odeio pompas persas,

não me apraz coroa de tília,

não queiras saber onde a rosa

            brotou tardia.


Nada acresças ao simples mirto;

vigio; nem a ti, servindo-me,

mirto é vil, nem a mim, bebendo

           na espessa vide. 


Tradução de Raimundo Carvalho


Fonte: CARVALHO, R. Lira a Vapor - Poesia Reunida 1983-2025. São Paulo: Immensa Editorial, 2025. 

terça-feira, fevereiro 03, 2026

Byron: So we'll go no more a-roving

   Já não remaremos mais
tanto noite adentro, embora
   corações batam iguais
e o luar brilhe como outrora.
Pois a espada enfim desgasta
sua bainha e a alma, o peito,
corações dão-nos seu "basta"
e Amor quer pausa no leito.
Mesmo se o dia desfaz


brusco a noite própria a amar,
já não remaremos mais
tanto como outrora ao luar.


   So late into the night,
Though the heart be still as loving,
   And the moon be still as bright.

For the sword outwears its sheath,
   And the soul wears out the breast,
And the heart must pause to breathe,
   And love itself have rest.

Though the night was made for loving,
   And the day returns too soon,
Yet we'll go no more a roving
   By the light of the moon.

Tradução de Nelson Ascher in "Um Pouco de Tudo". Link: Folha de S.Paulo - Nelson Ascher: Um Pouco de Tudo - 11/09/2006. [Acessado em 25 de janeiro de 2026]

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Biografia - Sophia de Mello Breyner Andresen

 Tive amigos que morriam, amigos que partiam

Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.

Odiei o que era fácil

Procurei-me ver na luz, no mar, no vento.


Sophia de Mello Breyner Andresen Mar Novo. in:  Obra Completa. Rio de Janeiro: Tinta da China do Brasil, 2008.

domingo, fevereiro 01, 2026

Li Bai - Bebendo sozinho sob a lua (2 traduções)

 Em meio a flores a jarra de vinho
virar sozinho sem mais companhia
Erguer o copo à lua reluzente
e mais a sombra agora somos três
Contanto a lua não saiba beber
e em vão a sombra me devolva o corpo
por um momento seguem lua e sombra
Todo o prazer é só uma primavera
Eu canto e a lua flana tremulando
Danço e se soma a sombra redobrando-se
Despertos dividimos alegria
depois de ébrios cada qual um caminho
Até não mais, desfeitos nós se apartam
rever-se um dia pela Via Láctea 

Tradução de Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao in: Antologia de Poesia Clássica Chinesa - Dinastia Tang, São Paulo: Editora da Unesp. 2013

Ergo entre as flores um copo de vinho
e convido o luar
Acabo também por convidar
a minha sombra.
Mas a lua não sabe beber.
e a minha sombra não me consegue acompanhar.
Companheiros de um instante.
– a lua      a minha sombra e eu – vamos brindar.
à primavera..
Enquanto canto     a lua vagueia.
Enquanto danço  a minha sombra desespera.
Esqueçamos tudo enquanto estivermos a beber.
Que cada um se afaste.
quando o dia chegar.
Na longínqua Via Láctea.
mais cedo ou mais tarde.
nos voltaremos a encontrar.

Tradução de Pedro Belo Clara in: "7 poemas de Li Bai » Recanto do Poeta" [Acessado em 24.01.2026]

sábado, janeiro 31, 2026

Desejos - Konstantinos Kaváfis [1904] - 3 Traduções


Tradução de José Paulo Paes in: Konstantinos Kaváfis, Poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982

Belos corpos de mortos que nunca envelheceram,

com lágrimas sepultos em mausoléus brilhantes,

jasmim nos pés, cabeça circundada de rosas -- 

assim são os desejos que um dia feneceram

sem chegar a cumprir-se, sem conhecerem antes

o prazer de uma noite ou a manhã luminosa. 


Tradução de Ísis Borges da Fonseca in: Poemas de K.Kaváfis. São Paulo: Odysseus, 2006: 

Como belos corpos de mortos que não envelheceram

e foram encerrados, com lágrimas, em magnífico mausoléu,

com rosas na cabeça e jasmins nos pés -- 

assim se lhes assemelharam os desejos que passaram

sem se realizar, sem que nenhum

alcançasse uma noite de prazer, ou sua manhã luminosa.


Tradução de Trajano Vieira in: Konstantinos Kaváfis, 60 poemas. São Paulo: Perspectiva, 2007: 

Feito os corpos que morrem juvenis e belos,

chorados à clausura de um mausoléu magno,

com pétalas à testa, com jasmim nos pés,

assim transcorrem os desejos que abortam,

alheios à volúpia de uma noite única,

ao rútilo clarão do seu amanhecer. 



sexta-feira, janeiro 30, 2026

Difícil é o caminho (Li Bai)

 Bom vinho em cálice de ouro: dez mil cobres

Servido em jade o melhor prato: mais dez mil

Quietos talheres copos: finda-se o festim

Com a espada o coração dispara: cuido à volta

Rio Amarelo gela: não posso cruzá-lo

Monte Taihang com neve: quem pode escalar?

Tranquilo atiro a linha à pesca no riacho

e então em sonho rumo ao sol ajeito o barco

Difícil caminho   é difícil o caminho

o mundo dá voltas   e hoje onde estou

E quando a brisa traz bom tempo e acalma as ondas

Levanto vela às nuvens mares infinitos


Tradução de Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao in Antologia de poesia clássica chinesa - Dinastia Tang. São Paulo: Editora da UNESP, 2013. 

quinta-feira, janeiro 29, 2026

andrômaca

 não conheci troia

ruínas a mais ruínas a menos

também guardamos pedras aqui

do outro lado do oceano

tudo o que aprendi foi nesse alfabeto moderno

eis o momento apoteótico minha obsessão

nossos despojos é troia

minhas amigas encurraladas

na mesa do chefe é troia

a jovem saco preto no rosto

festa de luxo é troia

as baratas roendo o cu

da guerrilheira comunista é troia

é troia meu companheiro baleado no rosto

é troia os corpos desovados no mangue

as lideranças perseguidas é troia

as vítimas do feminicídio é troia

os milicos os fascistas os tiranos

disparam todos contra troia

a filosofia o direito o ocidente

nascem da devastação de troia

agora você entende por que voltei?

não conheci troia mas a entrevejo esplêndida

nas carícias clandestina durante os bombardeios

e gás de pimenta nas barricadas

nas clínicas de aborto nos abrigos

inusitados na desobediência

no canto sim no canto

eu não vou me entregar

você grita eu repito

através dos séculos

minha irmã

não há poemas para ti

nenhuma linha sobre cibele

onde perdemos o tino quando virou espetáculo

maldita literatura e seu panteão de vitórias

me abrace forte a explosão está próxima

ela há de vir


Luiza Romão in: Também guardamos pedras aqui. São Paulo: Editora Nós, 2021. 

terça-feira, janeiro 27, 2026

Li Bai - Duas Traduções

 Zombando de Du Fu
"Do arroz cozido", chamam esta colina.
Chapéu de palha enorme ao sol a pino,
Du Fu, ali rever, mofino e magro:
poesia é ofício desde sempre amargo. 


Tradução de Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao, in: Antologia de poesia Clássica chinesa - Dinastia Tang. São Paulo: Editora da Unesp, 2013.


Para Tu-Fu, com humor
Ei! És tu, no topo da montanha Fan-Ko,
com um enorme chapéu ao sol do meio dia? 
Quão magro, miseravelmente magro, tu estás!
Deves ter sofrido outra vez de poesia...


Tradução de Pedro Belo Clara a partir do inglês de Shigeyoshi Obata,  in: Oito poemas de Li Bai (Li Po), Blog Letras In.Verso e Re.Verso [Acessado em 23/01/2026].

Ezra Pound - Antiga Sabedoria, Um Tanto Cósmica

 So-shu sonhou,
E tendo sonhado que era um pássaro, uma abelha, e uma borboleta
Pensou com seus botões para que procurar sentir-se como qualquer outra coisa.

Daí sua satisfação.


Tradução de Mário Faustino


So-shu dreamed, 
And having dreamed that he was a bird, a bee, and a butterfly,
 He was uncertain why he should try to feel like anything else, 

 Hence his contentment. 



 in: Ezra Pound. Poesia. Introdução, Organização e Notas: Augusto de Campos. São Paulo: Cobalto, 2024. 

segunda-feira, janeiro 26, 2026

Simônides (Trad. Donaldo Schüler)

 Fragmento 521

Por seres homem, não digas o que sucederá amanhã.

Havendo alguém feliz, como prever por quanto tempo o será?

Pois rápida nem a da mosca asa-veloz

assim a mudança. 


Fonte: Schüler, Donaldo. Literatura Grega. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985. 


domingo, janeiro 25, 2026

Tirteu - Trad. Donaldo Schüler

 Fragmento 10 W, versos 1-14


Gloriosa é a morte nas primeiras linhas,

  do soldado que luta pelo torrão natal.

Não há vergonha maior que

    mendigar longe da pátria e dos férteis campos,

amargando o exílio com a mãe estremecida e o velho

    pai, os filhinhos, a esposa amada.

Tangido pela penúria, pela pobreza aviltante,

    esse verá o desprezo entre estranhos.

Infâmia será para sua gente, mancha de heroica

    imagem, arauto da covardia e do opróbrio.

Não há para o exilado nenhuma ajuda,

   nem respeito, nem conforto, nem dó.

Lutemos, portanto, com ânimo por esta terra.

    Enfrentemos a morte sem apego à vida.

Jovens, combatei unidos,

     sufocai o medo, bani a fuga vergonhosa.


Fonte: Schüler, Donaldo. Literatura Grega. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985. 

sábado, janeiro 24, 2026

Calino de Éfeso, Fragmento 1, Versos 1-4 (Trad. Donaldo Schüler)

 Fragmento 1, versos 1-4 (ed. West).


Até quando vocês vão ficar na cama?

Quando é que veremos em vocês ânimo guerreiro,

    meus jovens? Vocês não têm vergonha dos vizinhos,

com toda essa preguiça? Até parece que estamos entronizados 

     na paz, enquanto a guerra devasta a terra. 

sexta-feira, janeiro 23, 2026

Arquíloco - Traduções de Donaldo Schüler

 Fragmento 1 (ed. West)

Servidor eu sou do deus da Guerra

     e no amoroso dom das Musas eu versado me declaro. 


Fragmento 2 (ed. West)

A lança me dá vinho, a lança me dá pão,

     eu como, eu bebo com a lança na mão. 


Fragmento 5 (ed. West)

Um saio apoderou-se do meu escudo e se ri de mim,

   para meu pesar -- arma excelente -- a um matagal a joguei na fuga.

Mas salvei a minha vida. O que me interessa o escudo?

    Que se vá! Em breve terei outro igual.


Fragmento 11 (ed. West)

Nada melhorarei chorando, nada

    arruinarei no gozo e florescendo em festas.


Fragmento 177 (ed. West)

Ó Zeus, Zeus pai, teu é o poder nas alturas,

   as obras dos homens contemplas,

as criminosas e as praticadas na lei. Observas

   a soberba e a moderação de todos.


Fonte: Schüler, Donaldo. Literatura Grega. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985. 

quinta-feira, janeiro 22, 2026

Mimnermo fr. 1 - Trad. Donaldo Schüler

 Que é a vida? O que é gostoso longe da esplêndida Afrodite?
Quero morrer, quando cessar a fome
dos segredos do amor, dos suaves favores, do leito --
estas e não outras são as flores da juventude
de homens e mulheres. Sobrevindo dolorosa
a velhice, deformadora de homens formosos,
cuidados amargos roem as entranhas,
cessa a alegria da luz solar,
vem a repulsa dos jovens e o desprezo das mulheres.
Amarga fizeram a velhice os deuses. 

Fonte: Schüler, Donaldo. Literatura Grega. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985. 

quarta-feira, janeiro 21, 2026

William Blake: De Jerusalém (A Invocação do Capítulo I)

      Do Sono de Ulro! e da passagem através da 
Eterna Morte! e do despertar para a Vida Eterna. 

Este o tema que noite após noite me convoca no sono e cada manhã
Me desperta ao raiar do sol. Então avisto o Salvador sobre mim,
A esparzir os seus raios de amor e a ditar as palavras desta canção.

"Desperta! Desperta! Oh tu que dormes na terra das sombras, acorda! Expande-te!
Estou em ti e estás em mim, em mútuo amor divinal:
Fibras de amor de um humano por outro, na terra deleitosa de Álbion.
Em todo o escuro vale do Atlântico, para baixo das colinas do Surrey, 
Uma água negra se acumula. Retorna, Álbion! Retorna!
Chamam por ti teus irmãos, e teus pais, e teus filhos.
Tuas amas e tuas mães, tuas filhas e tuas irmãs
Choram pela enfermidade de tua alma. E a Divina Visão se escurece.
A tua Emanação, que exibia os seus folguedos perante tua face,
Regozijando-se com suas filhas no Divino seio...
A tua Emanação onde a ocultaste, a adorável Jerusalém?
Onde a ocultaste da visão e do fruir do Todo-Santo?
Eu não sou um Deus distante, sou um irmão e um amigo;
Dentro de vossos peitos resido, e vós residis em mim:
Eis! Somos Um, a perdoar todo Mal, sem esperar recompensa! 
Sois os meus membros, oh vós que dormis em Beúlas, a terra das sombras!" 

O Homem, porém, perturbado se afasta, a descer para os vãos escuros, 
Dizendo: "Não somos Um; somos muitos, oh enganosa
Aparição, criada pelo cérebro incendiado! Sombra de imortalidade,
Que não quer perder minh'alma, vítima do teu amor! Que prende
O homem ao próprio inimigo do homem por meio de ilusórias amizades!
Jerusalém não mais existe! Suas filhas são indefinidas:
Somente pelo raciocínio o homem pode viver, e não pela fé. 

As minhas montanhas são minhas, e para mim vou guardá-las:
Os montes Malvern e os Cheviots, os Wolds, Plinlimmon e Snowdon
São meus. Aqui, sobre eles, construirei minhas leis de Virtude Moral!
Não mais haverá a humanidade: apenas a guerra e o poder e a vitória!"

Assim falou Álbion, com ciosos temores, escondendo a sua Emanação
Sobre o Tâmisa e o Medway, rios de Beúlas; dissimulando
Seu ciúme diante do trono divino, gelado, sombrio! 

As nuvens recobrem as margens do Tâmisa! Os antigos pórticos de Álbion
Se escurecem! São arrastados através do espaço infinito, espalhados
Pelo Vácuo, em desespero incoerente! Cambridge e Oxford e Londres
São levadas com os Anéis estelares, espedaçadas e disseminadas
Em Penhascos e Abismos de dor, ampliados sem dimensão, terríveis.
Corre o sangue pelas montanhas de Álbion, os gritos de guerra e tumulto
Ressoam na noite que não tem limite; e toda a perfeição humana,
Montanhas, torrentes e cidades ficaram pequenas e secas e escuras. 



Of the Sleep of Ulro! and of the passage through 
Eternal Death! and of the awaking to Eternal Life. 

 This theme calls me in sleep night after night, & ev'ry morn 
Awakes me at sun−rise, then I see the Saviour over me 
Spreading his beams of love, & dictating the words of this mild song. 

"Awake! awake O sleeper of the land of shadows, wake! Expand! 
I am in you and you in me, mutual in love divine: 
Fibres of love from man to man thro Albion's pleasant land. 
In all the dark Atlantic vale down from the hills of Surrey
 A black water accumulates, return Albion! Return! 
Thy brethren call thee, and thy fathers, and thy sons,
 Thy nurses and thy mothers, thy sisters and thy daughters
 Weep at thy souls disease, and the Divine Vision is darken'd: 
Thy Emanation that was wont to play before thy face,
 Beaming forth with her daughters into the Divine bosom --
Where hast thou hidden thy Emanation lovely Jerusalem,
 From the vision and fruition of the Holy−one? 
I am not a God afar off, I am a brother and friend; 
Within your bosoms I reside, and you reside in me:
 Lo! we are One; forgiving all Evil; Not seeking recompense! 
Ye are my members O ye sleepers of Beulah, land of shades! 

 But the perturbed Man away turns down the valleys dark,
[Saying. We are not One: we are Many, thou most simulative
Phantom of the over heated brain! shadow of immortality!
 Seeking to keep my soul a victim to thy Love! which binds 
 Man the enemy of man into deceitful friendships: 
Jerusalem is not! her daughters are indefinite:
 By demonstration, man alone can live, and not by faith. 

My mountains are my own, and I will keep them to myself:
 The Malvern and the Cheviot, the Wolds Plinlimmon & Snowdon 
Are mine. here will I build my Laws of Moral Virtue! 
Humanity shall be no more: but war & princedom & victory!"

  So spoke Albion in jealous fears, hiding his Emanation
 Upon the Thames and Medway, rivers of Beulah: dissembling 
His jealousy before the throne divine, darkening, cold! 

 The banks of the Thames are clouded! the ancient porches of Albion are
 Darken'd! they are drawn thro' unbounded space, scatter'd upon
 The Void in incoherent despair! Cambridge & Oxford & London, 
Are driven among the starry Wheels, rent away and dissipated,
 In Chasms & Abysses of sorrow, enlarg'd without dimension, terrible.
 Albions mountains run with blood, the cries of war & of tumult 
Resound into the unbounded night, every Human perfection 
Of mountain & river & city, are small & wither'd & darken'd
 Cam is a little stream! Ely is almost swallowd up! 
Lincoln & Norwich stand trembling on the brink of Udan−Adan! 
Wales and Scotland shrink themselves to the west and to the north! 
Mourning for fear of the warriors in the Vale of Entuthon−Benython:
 Jerusalem is scatter'd abroad like a cloud of smoke thro' non−entity: 
Moab & Ammon & Amalek & Canaan & Egypt & Aram 
Recieve her little−ones for sacrifices and the delights of cruelty 

 Trembling I sit day and night, my friends are astonish'd at me. 
Yet they forgive my wanderings, I rest not from my great task! 
To open the Eternal Worlds, to open the immortal Eyes 
Of Man inwards into the Worlds of Thought: into Eternity 
Ever expanding in the Bosom of God. the Human Imagination

terça-feira, janeiro 20, 2026

A Koré (Sophia de Mello Breyner Andresen)

 Alta e solene mais alta do que a luz
A pesada palidez sagrada do Pártenon
Reina sobre o dia

Folhagens dançam movidas pelo vento

Na mesa ao lado a Koré de nariz direito e cabelo entrançado
Serve de intérprete e erguendo a sua taça
Brinda com os comerciantes tedescos que saquearam
A Grécia e a Europa quase toda
Mas que após a derrota de seus generais
Ganharam a guerra

O café tem pó -- relíquia dos turcos

Porém no vinho resinado no frescor da vinha
Na fina suave brisa nas pálidas colunas
Algo dos deuses súbito visita
A luz do instante 

Sophia de Mello Breyner Andresen. Ilhas. in Obra Poética. Rio de Janeiro: Tinta da China, 2018. 

segunda-feira, janeiro 19, 2026

William Blake - O Pequeno Vagabundo

 Oh mãe querida, mãe querida, a Igreja é fria,
Mas doce e quente e boa é a Cervejaria;
onde há bom trato ao certo sei dizer esperto,
E esse trato no Céu jamais irá dar certo. 

Mas se dessem cerveja a nós lá na Igreja,
E uma doce fogueira, às almas benfazeja,
Cantar e orar se iria quanto é longo o dia,
E da Igreja ninguém jamais se afastaria. 

O Padre então rezar, beber, cantar pudera,
Quais pássaros seríamos na primavera
E teria a Ilusão, na Igreja em prontidão,
Prole mais forte, sem jejum e sem bastão.

E como um pai radiante ao ver os filhos seus
Contentes e felizes tal como Ele, Deus,
Concedendo quartel ao Diabo, ou ao tonel,
Dar-lhe-ia um beijo, e mais bebida, e mais burel. 

Tradução de Paulo Vizioli 

Dear Mother, dear Mother, the Church is cold, 
But the Ale-house is healthy & pleasant & warm;
 Besides I can tell where I am use'd well,
 Such usage in heaven will never do well. 

 But if at the Church they would give us some ale, 
 And a pleasant fire, our souls to regale,
We'd sing and we'd pray, all the live-long day,
 Nor ever once wish from the Church to stray.

Then the Parson might preach & drink & sing. 
 And we'd be as happy as birds in the spring: 
 And modest Dame Lurch, who is always at Church, 
Would not have bandy children nor fasting nor birch. 

 And God like a father rejoicing to see, 
 His children as pleasant and happy as he: 
 Would have no more quarrel with the Devil or the barrel,
But kiss him & give him both drink and apparel.

in: William Blake - poesia e prosa selecionadas. Introdução, Tradução e Notas de Paulo Vizioli. São Paulo: Nova Alexandria, 1993. 

domingo, janeiro 18, 2026

Mário Faustino - Cavossonante Escudo Nosso

 Cavossonante escudo nosso
          palavra: panacéia
ornado de consolos e compensas
enquanto a seta-fado
nos envenena ambos tendões
                                 rachados
No sabuloso mar na salsa areia
alimento não cresce
                             cobras crescem
e nos impõe silêncio o bramir vero
do veado oceano
                        cio cio
verdade, matogrosso universal
viçosamente ouvida
                     não palavras pa
lavras
                   e do cosmo selvagem
recém recém tombada
AMOR
estrela  inominada   pedra  lava
escudo  panejante   panacéia
                                         (a cruz
se enfuna)
bólide trespassando chão-essência
peito-presença

                           AQUI

         estamos.
Entre nome e fenômeno balança
nunca meu coração:
                             ferido sangra
pelo rosto do ser e por seus rins,
indiferente, he le na, às sílabas
véus teu ventre disfar-farçando:
ele singra ela sangra ele roxo
           ....espuma...
pela forma da coisa por seu peso
e para de pulsar rugindo contra
o que serve de rocha e despedaça
a liberdade sétima -- tocar
a liberdade oitava -- penetrar
a liberdade inteira -- conhecer: 
 
                      COR  AÇÃO

o sopro do metal ressoa chama
para a luta real
                     (há remoinhos)
cavossonante escudo rebentamos
a fraga  estilhaçamos  nus  sem-pele
estrelorientados  rumo-nós
                               boiamos
ainda que parados:
                            mudos:
                 
                                      somos. 


Fonte: Mário Faustino. Poesia Completa e Poesia Traduzida. Introdução, Organização e Notas: Benedito Nunes.  São Paulo: Max Limonad, 1985. 

sábado, janeiro 17, 2026

Evohé Bakkhos

 Evohé deus que nos deste

A vida e o vinho

E nele os homens encontraram

O sabor do sol e da resina

E uma consciência múltipla e divina. 


Sophia de Mello Breyner Andresen


in: Obra Poética. Rio de Janeiro: Tinta da China, 2018. 

sexta-feira, janeiro 16, 2026

Guilherme de Almeida - Carta à Minha Alma

 Minha desconhecida
                                  Nós vivemos
num mundo tão pequeno para nós,
tão juntos - e ainda não nos conhecemos.
Você não sabe ainda a cor
dos meus olhos, nem a inflexão da minha voz,
nem o humano calor
das minhas pobres mãos de barro,
nem o perfume azul do meu cigarro...
Eu ainda não sei a altura do seu céu,
nem o vôo levíssimo do véu
dos seus sonhos e dos seus dedos,
nem o nível dos seus folguedos, 
nem o fundo dos seus segredos...
No entanto, um mesmo teto abençoa e agasalha
nossas vidas alheias
(como é um mesmo o que abriga o crente e a santa):
moramos paredes-meias,
como o homem triste que trabalha
e a menina boêmia que canta...
Nós somos dois anônimos vizinhos.
E, para sermos "dois" no mundo, para
sermos assim sozinhos
entre a nossa recíproca ignorância,
entre nós dois, há apenas a distância
da parede comum que nos separa.
Ela chama-se "Vida".
Só ela nos divide -- a opaca intrometida.
Contra essa intrusa, para disfarçá-la
eu, daqui do meu lado, ao longo desta sala,
estendi numa longa, longa estante
toda uma biblioteca anestesiante.
Do seu lado, ela deve estar vestida
com um chale de cachemira sobre o qual
ressona o oco de uma guitarra adormecida,
e fenece um retrato íntimo e antigo, a lápis,
com uma florzinha pálida dos Alpes
esmigalhada no cristal...
Assim tão juntos nós vivemos
e infelizmente nem sequer nos conhecemos. 
Hoje, não sei por que, 
tive vontade de escrever para você,
de perguntar baixinho ao seu ouvido:
- Diga! para que nós nos encontremos
será preciso, então, que algum ciclone
se abata sobre nós e desmorone
a parede comum que nos separa: a Vida?
Ou -- o que para mim será mais morte ainda -- 
minha linha imortal, minha alma linda,
será que alguma vez nós já nos encontramos
e, sem nos ver, sem nos reconhecer, passamos? ...

Fonte. Carlos Vogt (org.) Os Melhores Poemas de Guilherme de Almeida. São Paulo: Global, 1993. 

quinta-feira, janeiro 15, 2026

Ovídio - Amores 1.5 - 3 traduções

1. José Paulo Paes (1997)
Era intenso o calor, passava já do meio dia;
    Estendi-me na cama a repousar os membros.
Das janelas, em parte abertas, em parte cerradas,
   Vinha luz semelhante à que há dentro das matas,
À luz mortiça do crepúsculo, após Febo sumir,
  Ou de antes de a noite ir-se sem que seja dia.
A esta luz é que se hão de mostrar as jovens tímidas;
   Nela, o pudor medroso espera achar refúgio. 
Eis que chega Corina numa túnica ligeira, 
   Cobriam os cabelos seu alvo pescoço;
Assim entrava pela alcova a formosa Semíramis,
   Diz-se, e Laís, a quem tantos homens amaram.
Desvesti-lhe a túnica; de tão tênue, mal contava:
  Ela lutou, entanto, para cobrir-se com 
A túnica, mas sem nenhum empenho de vencer:
   Venceu-a, sem pesar, a sua traição.
Ficou em pé, sem roupa alguma, diante dos meus olhos.
  Não havia, em seu corpo, um único defeito.
Que ombros e que braços a mim foi dado ver, tocar!
  Os belos seios, que deleite comprimí-los!
Que ventre mais polido logo debaixo do peito!
  As ancas, que primor! Que juvenil a coxa!
Por que pormenorizar? Nada vi de não louvável! 
   E a nudez lhe estreitei contra o meu próprio corpo. 
Quem não sabe o resto? Exaustos, repousamos depois.
   Que mais outros meios-dias prósperos me sejam!

2. Lucy Ana de Bem (2010)
Fazia calor e o dia tinha cumprido a metade de suas horas;
Os membros a descansar no meio do leito repousei.
Parte da janela estava aberta, parte fechada,
Tais lumes costumam ter as selvas,
Tais os crepúsculos que pouco alumiam quando Febo foge,
Ou quando a noite parte sem, contudo, ter nascido o dia;
É a essa luz que a menina casta deve expor-se,
Onde o tímido pudor anseie encontrar abrigo.
Eis, Corina chega, coberta por uma túnica lassa,
Com os cabelos repartidos cobrindo o cândido colo;
Da forma como, dizem, a formosa Semíramis adentrou a alcova
  E Laís, amada por muitos homens.
Arranquei-lhe a túnica; transparente, não estorvava tanto,
Entretanto, ela lutava para cobrir-se;
Ela, que lutava como se não quisesse vencer, 
Sem dificuldade foi vencida por sua própria cumplicidade.
Quando se pôs de pé, deposta a veste, ante os meus olhos,
Por todo o corpo, em toda a parte, defeito algum havia. 
Que ombros, que braços, vi e toquei! 
A forma dos mamilos quão apta era ao toque!
Que ventre perfeito sob o rijo peito!
Que ancas fartas! Que coxa juvenil!
Para que entrar em detalhes? Nada vi não digno de elogio, 
E nua, abracei-a junto ao meu corpo.
Quem desconhece o restante? Rendidos, ambos repousamos.
Que me ocorram muitos meios-dias como esse!  

3. Carlos Ascenso André (2011) 
Fazia calor, e o dia já tinha cumprido metade das suas horas;
   pousei em cima da cama o corpo, para lhe dar descanso.
Uma parte da janela estava aberta, a outra parte fechada;
   assim era a luz, como a que os bosques costumam deixar entrever,
como a penumbra do crepúsculo, à hora em que o sol se esvai,
  ou quando a noite já se foi e não nasceu, ainda, o dia;
essa é a luz que deve amostrar-se a jovens recatadas;
   nela, a timidez e a vergonha encontram refúgio.
Eis que surge Corina, resguardada e envolta em sua túnica,
   os cabelos caídos de ambos os lados do colo resplandecente;
assim formosa entrava Semíramis no quarto,
  diz-se, e Laís, amada por tantos homens.
Arranquei-lhe a túnica; e não é que me estorvasse muito a sua quase transparência, 
   mas ela resistia por estar coberta daquela túnica;
pois que resistia assim como quem não quer vencer,
   foi vencida sem custo, com a sua própria ajuda.
Quando ela surgiu diante de meus olhos, o manto caído aos pés,
   no corpo inteiro nem uma só mácula se me mostrou:
Que ombros! Que braços eu vi e toquei!
  A beleza dos seios, como se pôs ao dispor dos meus afagos!
Como era liso, abaixo da linha do peito, o ventre!
   Que grandiosidade e perfeição nas coxas! Que frescura nas pernas!
Que mais minúcias direi? Nada vi que não mereça elogio,
    e foi a nudez do seu corpo que apertei contra o meu. 
O resto, quem não o sabe? Depois da fadiga, repousamos ambos.
  Assim possam correr muitas vezes as minhas tardes! 

Fontes
ASCENSO, C.A. Ovídio. Amores. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
DE BEM, L. Primeiro Livro dos Amores. São Paulo: Hedra, 2010. 
PAES, J.P. Poesia Erótica em Tradução. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

quarta-feira, janeiro 14, 2026

Condição (Jaa Torrano)

Cumprindo as instruções do pai
Hefesto moldou de terra e água
imagem símil a Deusas imortais
todos os Deuses lhe deram parte
das honras que na partilha têm,
provindos dessa mesma imagem
herdamos esta ambígua finitude.

Só dos Deuses, só dos varões
ser respiramos da mesma mãe,
mas todo poder discreto separa,
um não vale e o Céu permanece
brônzea sede irresvalável sempre,
ainda nos aproxima dos Imortais
a certeira intuição ou a natureza.

Sonho sombrio somos homens,
mas quando vem dom de Zeus
brilha límpida em nós a doce
graça da vida que em nós vive.

Jaa Torrano. Solidão Só Há de Sófocles. São Paulo: Ateliê, 2025. 

terça-feira, janeiro 13, 2026

Contra a Esperança - Carlos Nejar

É preciso esperar contra a esperança.
 Esperar, amar, criar
 contra a esperança
 e depois desesperar a esperança
mas esperar, enquanto
um fio de água, um remo,
peixes existem e sobrevivem
no meio dos litígios;
enquanto bater
a máquina de coser
e o dia dali sair
como um colete novo.

É preciso esperar
 por um pouco de vento,
um toque de manhãs.
E não se espera muito.
 Só um curto-circuito
 na lembrança. Os cabelos,
ninhos de andorinhas
e chuvas. A esperança,
 cachorro a correr
 sobre o campo
e uma pequena lebre
que a noite
em vão esconde.

 O universo é um telhado
com sua calha, tão baixo
e as estrelas, enxame
de abelhas na ponta.

É preciso esperar contra a esperança
 e ser a mão pousada
no leme de sua lança.

 E o peito da esperança
 é não chegar;
seu rosto é sempre mais.
 É preciso desesperar
a esperança
como um balde no mar.

Um balde a mais
na esperança
e sobre nós.

segunda-feira, janeiro 12, 2026

Dante - Lírica

 XXXIX

Dante da Maiano a diversos poetas

Vê bem, poeta, esta visão que tive
e dá-me, peço, o seu significado:
-- uma mulher, formosas e por quem vive
meu coração servil e dedicado,

traz-me um presente: flores que convivem
com ramos e folhagem bem somados;
logo depois, na blusa dela estive,
nela vestido e a ela conformado.

Aí então, amigo, me atrevi
a tomá-la em meus braços já sem medo.
E sem lutar, sorria, a minha bela!

No seu sorriso, em beijos me perdi:
não digo mais, que me pediu segrefo.
-- E minha mãe, já morta, ia com ela. 


XXXIX

 Dante da Maiano a diversi rimatori

 Provedi, saggio, ad esta visione, 
e per mercé ne trai vera sentenza.
Dico: una donna di bella fazone,
 di cu' el meo cor gradir molto s'agenza,

 mi fé d'una ghirlanda donagione, 
verde, fronzuta, con bella accoglienza:
 appresso mi trovai per vestigione
 camicia di suo dosso, a mia parvenza.

 Allor di tanto, amico, mi francai,
 che dolcemente presila abbracciare: 
non si contese, ma ridea la bella.

 Così, ridendo, molto la baciai:
 del più non dico, ché mi fé giurare.
 E morta, ch'è mia madre, era con ella. 


XL


Resposta de Dante Alighieri

Compete a ti julgar e não te esquives,
-- ó homem que és tão sábio, tão louvado.
Para não discutir sonhos que vives,
às palavras mais finas vou atado.

Desejo verdadeiro, chama viva,
que a beleza e o valor movem somados,
-- eis o que amiga opinião cultiva
sobre este dom que ao senso tens doado.

Da vestimenta, pelo que senti, 
se entende: a tua amada te quer bem,
como anteviu teu sonho tão perfeito.

É um começo, ocorre-me, o que vi,
e aquela que já morta sobrevém
é Firmeza que a amada tem no peito. 

XL

Risposta di Dante Alighieri

 Savete giudicar vostra ragione,
 O om che pregio di saver portate. 
 Per che, vitando aver con voi quistione,
Com so rispondo a le parole ornate.

Disio verace, u' rado fin si pone,
 Che mosse di valore o di bieltate,
 Imagina l'amica oppinione
 Significasse il don che pria narrate.

Lo vestimento, aggiate vera spene, 
 Che fia, da lei cui desiate, amore; 
 E 'n ciò provide vostro spirto bene:

 Dico, pensando l'ovra sua d'allore.
La figura che già morta sorvene; 
 È la fermezza ch'averà nel core.

Tradução de Jorge Wanderley in: Dante. Lírica. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996

domingo, janeiro 11, 2026

Numa Estação de Metrô (Ezra Pound, Trad. Augusto de Campos)

 

Suzuki Harunobu - Mulher admirando flores de ameixeira à noite (ca. 1766)

A visão          destas faces           dentre a turba   :

Pétalas         num ramo úmido,       escuro           .



Fonte. Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos, José Lino Grünewald, Mário Faustino. ezra pound - poesia. São Paulo: Cobalto, 2024. 

sábado, janeiro 10, 2026

O Jasmim (Giórgos Seféris)

 Quer anoiteça

quer faça luz

fica branco 

o jasmim.


Tradução de Joaquim Magalhães e Nikos Prastinis in Seféris, Poemas Escolhidos. 

sexta-feira, janeiro 09, 2026

Mitopeia (J.R.R.Tolkien)

 Mitopeia

A alguém que disse que mitos eram mentiras e, portanto, inúteis, ainda que "inspirados através da prata". 

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FILOMITO A MISOMITO

Você vê árvores, e as chama assim,
("árv'res são árv'res e crescem, enfim);
palmilha a terra e com solene passo
pisa um dos globos menores do Espaço:
'Strelas são 'strelas, matéria em bola
que em matemático trajeto rola:
regimentado, gélido Vazio
de átomos morrendo a sangue frio. 

Por uma Vontade, à qual nos dobramos
mas que nós só de longe captamos, 
grandes processos o Tempo completa
de início escuro a incerta meta; 
e em página reescrita sem pista,
de letra e margem vária já revista,
eis multidão de formas infindáveis,
sombrias, belas, bizarras ou frágeis,
cada qual diversa, mas num só rol
de germe, inseto, homem, pedra e sol. 
Deus fez pétreas rochas, arbóreas árvores,
terra térrea, estelas estelaresm
e os homens humanos, que andam no chão
e a quem luz e som causam comichão.
O remexer do mar, vento nos galhos,
desenxabidas vacas nos atalhos,
trovão e raio, aves a cantar,
limo escorrendo a viver e murchar,
cada qual é registrado e impresso
nas contorções do cérebro em recesso.

Mas "árv'res" só são "árv'res" nomeadas --
e só o foram quando captadas
por quem abriu o hálito da fala
eco do mundo numa escura sala, 
mas nem registro nem fotografia, 
sendo risada, juízo e profecia,
resposta dos que então sentiram dentro
profundo movimento cujo centro 
é o existir de planta, fera, estrela:
cativos que grade serram sem vê-la, 
cavando o sabido da experiência,
abrindo o espírito sem consciência.
Grande poder de si mesmo criaram,
e atrás de si os elfos contemplaram
que na forja sagaz d'alma andavam,
luz e treva em teia oculta bordava.

*****
Não vê estrelas quem não as vê primeiro
qual prata viva explodindo em chuveiro:
chama florida sob canção antiga
cujo eco mesmo de longa cantiga
o perseguiu. Não há um firmamento,
só vazio, se não tenda, paramento
por elfos desenhado; não há terra,
se não ventre de mãe que a vida encerra. 

Mentiras não compõem o peito humano,
que do único Sábio tira o seu plano,
e o recorda. Inda que alienado,
algo não se perdeu nem foi mudado. (55) 
Des-graçado está, mas não destronado.
trapos da nobreza em que foi trajado,
domínio do mundo por criação:
o deus Artefato não é quinhão,
homem, sub criador, luz refratada
em quem matiz Branca é despedaçada
para muitos tons, e recombinada, 
forma viva mente a mente passada. 
Se todas as cavas do mundo enchemos
com elfos e gobelins, se fizemos
deuses com casas de treva e de luz, 
se plantamos dragões, a nós conduz
um direito. E não foi revogado.
Criamos tal como fomos criados. 

Sim! Sonhos tecemos para enganar
os corações e o Fato derrotar! 
De onde o desejo e o poder para sonhar,
e as coisas belas ou feias julgar? 
Querer não é inútil, nem calor
procuramos em vão -- pois dor é dor,
não de ser desejada, mas perversa;
ou ceder a uma vontade adversa
ou resistir seria igual. E o Mal,
desse apenas isto é certo: É o Mal. 

Bendito o tímido que o mal odeia,
treme na sombra, e o portão cerceia;
que não quer trégua, e em seu solar, 
mesmo pequeno, num velho tear
tece pano dourado à luz do dia
sonhado por quem na Sombra porfia. 

Benditos os que de Noé descendem
e com suas arcas frágeis o mar fendem,
sob ventos contrários buscando sé,
rumor de um porto indicado por fé.

Benditos os que em rima fazem lenda
ao tempo não gravado dando emenda.
Não foram eles que a Noite esqueceram,
ou deleite organizado teceram,
ilhas de lótus, um céu financeiro,
perdendo a alma em beijo feiticeiro
(e, ademais, falsário, pré-produzido,
falaz sedução do já-seduzido). 

Tais ilhas veem ao longe, e outras mais  belas,
e os que os ouvem podem girar as velas.
Viram a Morte e a derrota final,
sem em desespero fugir do mal,
mas à vitória viraram a lira,
seus corações qual legendária pira,
iluminando o Agora e o Que-Tem-Sido
com brilhos de sóis por ninguém vivido.

Quisera com os menestréis cantarm
com minha harpa o não visto tocar.
Quisera navegar com os marinheiros
sobre tábuas em montes altaneiros
e viajar numa vaga demanda,  (110)
que alguns ao fabuloso Oeste manda.
Quisera entre os tolos ser sitiado,
que em remoto forte, de ouro guardado,
impuro e escasso, recriam leais
imagem tênue de pendões reais, (115)
ou em bandeiras tecem o brasão
fulgurante de não visto varão. 

Não seguirei seus símios progressivos,
eretos e sapientes. Caem vivos
nesse abismo ao qual seu progresso tende -- 
se por Deus o progresso um dia se emende
e não sem cessar revolva o batido
curso sem fruto com outro apelido. 
Não trilharei sua rota sem vacilo,
que a isto e aquilo chama isto e aquilo,
mundo imutável onde não tem parte
criadorzinho ou de criar a arte. 
Eu não me curvo à Coroa de Ferro,
nem meu cetrozinho dourado enterro.

                                    ****

No Paraíso pode o olho vagar
do Dia imorredouro contemplar,
a ver o que ele ilumina, e nova
Verdade ter com essa vera prova. 
Olhando a Terra Bendita verá
que tudo é como é, e livre será:
a Salvação não muda, nem destrói,
jardim, criança ou brinquedo corrói.
Mal não verá, pois ele deve estar
não no que Deus fez, mas no erro do olhar,
não na fonte, mas em escolha errada,
e não no som, mas na voz quebrantada.
O Paraíso a confusão desfaz;
pois se inda criam, já não mentem mais.
Criarão, não estão mortos, é certo,
poetas com halo de chamas perto,
e harpas que sem falta tocarão:
do Todo cada um terá quinhão. 

Tradução de Reinaldo José Lopes in TOLKIEN, J.R.R. - Árvore e Folha. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2020. 

Mythopoeia

To one who said that myths were lies and therefore worthless, even though 'breathed through silver'

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PHILOMYTHUS TO MISOMYTHOS

You look at trees and label them just so,
(for trees are 'trees', and growing is 'to grow');
you walk the earth and tread with solemn pace
one of the many minor globes of Space:
a star's a star, some matter in a ball
compelled to courses mathematical
amid the regimented, cold, inane,
where destined atoms are each moment slain.

At bidding of a Will, to which we bend
(and must), but only dimly apprehend,
great processes march on, as Time unrolls
from dark beginnings to uncertain goals;
and as on page o'er-written without clue,
with script and limning packed of various hue,
an endless multitude of forms appear,
some grim, some frail, some beautiful, some queer,
each alien, except as kin from one
remote Origo, gnat, man, stone, and sun.
God made the petreous rocks, the arboreal trees,
tellurian earth, and stellar stars, and these
homuncular men, who walk upon the ground
with nerves that tingle touched by light and sound.
The movements of the sea, the wind in boughs,
green grass, the large slow oddity of cows,
thunder and lightning, birds that wheel and cry,
slime crawling up from mud to live and die,
these each are duly registered and print
the brain's contortions with a separate dint.
Yet trees are not 'trees', until so named and seen
and never were so named, tifi those had been
who speech's involuted breath unfurled,
faint echo and dim picture of the world,
but neither record nor a photograph,
being divination, judgement, and a laugh
response of those that felt astir within
by deep monition movements that were kin
to life and death of trees, of beasts, of stars:
free captives undermining shadowy bars,
digging the foreknown from experience
and panning the vein of spirit out of sense.
Great powers they slowly brought out of themselves
and looking backward they beheld the elves
that wrought on cunning forges in the mind,
and light and dark on secret looms entwined.

He sees no stars who does not see them first
of living silver made that sudden burst
to flame like flowers bencath an ancient song,
whose very echo after-music long
has since pursued. There is no firmament,
only a void, unless a jewelled tent
myth-woven and elf-pattemed; and no earth,
unless the mother's womb whence all have birth.
The heart of Man is not compound of lies,
but draws some wisdom from the only Wise,
and still recalls him. Though now long estranged,
Man is not wholly lost nor wholly changed.
Dis-graced he may be, yet is not dethroned,
and keeps the rags of lordship once he owned,
his world-dominion by creative act:
not his to worship the great Artefact,
Man, Sub-creator, the refracted light
through whom is splintered from a single White
to many hues, and endlessly combined
in living shapes that move from mind to mind.
Though all the crannies of the world we filled
with Elves and Goblins, though we dared to build
Gods and their houses out of dark and light,
and sowed the seed of dragons, 'twas our right
(used or misused). The right has not decayed.
We make still by the law in which we're made.

Yes! 'wish-fulfilment dreams' we spin to cheat
our timid hearts and ugly Fact defeat!
Whence came the wish, and whence the power to dream,
or some things fair and others ugly deem?
All wishes are not idle, nor in vain
fulfilment we devise -- for pain is pain,
not for itself to be desired, but ill;
or else to strive or to subdue the will
alike were graceless; and of Evil this
alone is deadly certain: Evil is.

Blessed are the timid hearts that evil hate
that quail in its shadow, and yet shut the gate;
that seek no parley, and in guarded room,
though small and bate, upon a clumsy loom
weave tissues gilded by the far-off day
hoped and believed in under Shadow's sway.

Blessed are the men of Noah's race that build
their little arks, though frail and poorly filled,
and steer through winds contrary towards a wraith,
a rumour of a harbour guessed by faith.

Blessed are the legend-makers with their rhyme
of things not found within recorded time.
It is not they that have forgot the Night,
or bid us flee to organized delight,
in lotus-isles of economic bliss
forswearing souls to gain a Circe-kiss
(and counterfeit at that, machine-produced,
bogus seduction of the twice-seduced).
Such isles they saw afar, and ones more fair,
and those that hear them yet may yet beware.
They have seen Death and ultimate defeat,
and yet they would not in despair retreat,
but oft to victory have tuned the lyre
and kindled hearts with legendary fire,
illuminating Now and dark Hath-been
with light of suns as yet by no man seen.

I would that I might with the minstrels sing
and stir the unseen with a throbbing string.
I would be with the mariners of the deep
that cut their slender planks on mountains steep
and voyage upon a vague and wandering quest,
for some have passed beyond the fabled West.
I would with the beleaguered fools be told,
that keep an inner fastness where their gold,
impure and scanty, yet they loyally bring
to mint in image blurred of distant king,
or in fantastic banners weave the sheen
heraldic emblems of a lord unseen.

I will not walk with your progressive apes,
erect and sapient. Before them gapes
the dark abyss to which their progress tends
if by God's mercy progress ever ends,
and does not ceaselessly revolve the same
unfruitful course with changing of a name.
I will not treat your dusty path and flat,
denoting this and that by this and that,
your world immutable wherein no part
the little maker has with maker's art.
I bow not yet before the Iron Crown,
nor cast my own small golden sceptre down.

In Paradise perchance the eye may stray
from gazing upon everlasting Day
to see the day illumined, and renew
from mirrored truth the likeness of the True.
Then looking on the Blessed Land 'twill see
that all is as it is, and yet made free:
Salvation changes not, nor yet destroys,
garden nor gardener, children nor their toys.
Evil it will not see, for evil lies
not in God's picture but in crooked eyes,
not in the source but in malicious choice,
and not in sound but in the tuneless voice.
In Paradise they look no more awry;
and though they make anew, they make no lie.
Be sure they still will make, not being dead,
and poets shall have flames upon their head,
and harps whereon their faultless fingers fall:
there each shall choose for ever from the All.