terça-feira, março 24, 2026
O Primeiro Degrau - Konstantinos Kaváfis
quinta-feira, março 19, 2026
Shakespeare - Soneto 116
De almas sinceras, pois não é amor
O amor que muda ao sabor do momento
E se move e remove em desamor.
Oh, não, o amor é marca mais constante
Que enfrenta a tempestade e não balança,
É a estrela-guia dos batéis errantes,
Cujo valor lá no alto não se alcança.
O amor não é o bufão do Tempo, embora
Sua foice vá ceifando a face a fundo
O amor não muda com o passar das horas,
Mas se sustenta até o final do mundo.
Se é engano meu, e assim provado for,
Nunca escrevi, ninguém jamais amou.
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove.
O no, it is an ever fixed mark
That looks on tempests and is never shaken;
It is the star to every wand’ring bark,
Whose worth’s unknown although his height be taken.
Love’s not Time’s fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle’s compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to edge of doom.
If this be error and upon me proved,
O never writ, nor no man ever loved.
quarta-feira, março 18, 2026
Rainer Maria Rilke - O Poeta
Fonte: CAMPOS, Augusto. Coisas e Anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2020
terça-feira, março 17, 2026
Ricardo Reis
Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,
Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá.
Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?
Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?
Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
Na noite e ao fim da estrada.
Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mal as olhaste.
Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.
segunda-feira, março 16, 2026
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
Hilda Hist
I, Júbilo e Memória, Noviciado da Paixão
domingo, março 15, 2026
Hilda Hilst - XI, Trovas de Muito Amor para um Amado Senhor
Amor tão grande
Morrer não há de.
Mais cobiçado.
sábado, março 14, 2026
Hilda Hilst
As asas não se concretizam.
Terríveis e pequenas circunstâncias
Transformam claridades, asas, grito
Em labirinto de exígua ressonância.
Os solilóquios de amor não se eternizam.
E no entanto, refaço minhas asas
Cada dia. E no entanto, invento amor
Como as crianças inventam alegria.
[18, Roteiro do Silêncio]
sexta-feira, março 13, 2026
Porto Alegre Blues - Pedro Gonzaga
(...)
e não demora estou diante da igreja
de nossa senhora das dores --
inclino meu pescoço para cima
finco os pés no primeiro degrau
da escadaria que se estende feito um muro
erguido numa diagonal pixelada
e não tenho amparo contra sua beleza
e alguma coisa em mim
há muito contida
rompe minha valerosa armadura
e subo os degraus sozinho
(os cães se sabem desnecessários)
e isto não é apenas um blues --
meus olhos ardem e
alguma coisa feito um blues
feito umidade quente flui
extraída à força pelas arcadas brancas
pelo círculo ao topo da fachada
quero chamar de patético o soluço
mas o soluço é mais rápido que a retórica
meus pés sobem mais dois lances
e depois mais dois e talvez o erro
seja acreditar em um sentido
esperar por um milagre no refrão
quando os pés não esperam nada
ladeira abaixo na madrugada
escada acima agora eles fluem
em direção à balaustrada de pedra
até que desprovido de todas as preces usuais
aquele que era incapaz de crer
crê
na beleza que flui --
a beleza
e minhas lágrimas
finalmente
fluem.
quinta-feira, março 12, 2026
Lírica Trovadoresca Alemã
Tu és meu, sou tua também,
cuida disso e lembra bem.
No meu coração
permaneces trancado
-- perdida está a chavezinha,
de lá não serás livrado.
Canção Anônima Trovadoresca Alemã. Tradução de J.Carlos Teixeira in: O Ramo de Tília. Poesia Trovadoresca Alemã dos Séculos XII e XIII.
quarta-feira, março 11, 2026
Nóssis (Antologia Palatina, 9, 332)
Tradução de Clara Sperb
Fonte: ANTUNES, CLB; BARACAT JR., J.C.; BRUNHARA, R. Cadernos de Tradução 44: Flores da Antologia Grega. Porto Alegre: RS, IL/UFRGS.
terça-feira, março 10, 2026
Arquíloco, 128 W: Coração, Coração...
†ἀναδευ δυσμενῶν† δ’ ἀλέξεο προσβαλὼν ἐναντίον
στέρνον †ἐνδοκοισιν ἐχθρῶν πλησίον κατασταθεὶς
ἀσφαλέως· καὶ μήτε νικέων ἀμφάδην ἀγάλλεο,
μηδὲ νικηθεὶς ἐν οἴκωι καταπεσὼν ὀδύρεο, 5
ἀλλὰ χαρτοῖσίν τε χαῖρε καὶ κακοῖσιν ἀσχάλα
μὴ λίην, γίνωσκε δ’ οἷος ῥυσμὸς ἀνθρώπους ἔχει.
levanta, protege-te dos oponentes, volvendo adverso
peito, nas emboscadas inimigas próximo postado
firme; e vencendo, não exultes abertamente,
nem vencido, em casa caído lamentes, 5
mas com alegrias alegra-te e deplora males,
sem excesso: aprende que ritmo rege a humanidade.
Tradução: Rafael Brunhara
Fonte: Brunhara, R.; Ragusa, G. Elegia Grega Arcaica: uma antologia. São Paulo: Mnema/Ateliê, 2021.
segunda-feira, março 09, 2026
Inspiração
Os meus amores são flores feitas de original!...
Arlequinal!...Traje de losangos...Cinza e ouro...
Luz e bruma...Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paris...Arys!
Bofetadas líricas no Trianon...Algodoal!...
São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América!
Mário de Andrade in: Pauliceia Desvairada, 1922.
domingo, março 08, 2026
Paul Valéry - O Vinho Perdido (Trad. Nelson Ascher)
joguei, malgrado mal lembrar
quando é que foi ou sob qual céu,
gotas de vinho raro ao mar.
Quem quis, licor, ver-te desfeito?
Seguia eu ordens do adivinho?
Talvez o anseio que, em meu peito,
sonhava sangue ao verter vinho?
Um vapor róseo ergueu-se até
que, pura, o mar reouve tal qual
sua transparência habitual:
perdido o vinho, ébria a maré!...
Vi no ar amargo mais e mais
formas lançarem-se abissais...
Tradução de Nelson Ascher in "Um Pouco de Tudo". Link: Folha de S.Paulo - Nelson Ascher: Um Pouco de Tudo - 11/09/2006. [Acessado em 27 de fevereiro de 2026]
sábado, março 07, 2026
Biodiversidade - Paulo Henriques Britto
Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,
que não requerem prática, oficina, suor.
Maneiras mais simpáticas de pagar mico
e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor.
Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo,
como há quem não se vexe de ler e decifrar
essas palavras bestas estrebuchando inúteis,
cágados com as quatro patas viradas pro ar.
Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,
de repente é mais que isso, é uma voz, talvez,
do outro lado da linha formigando de estática,
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,
câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,
incapazes de reassumir a posição natural,
não são na verdade uma outra forma de vida,
tipo um ramo alternativo do reino animal?
sexta-feira, março 06, 2026
Animula Vagula Blandula - Tradução de Ivan P. de Arruda Campos
amiga corpórea para onde agora?
lugares pálidos gélidos lunares...e
não mais nos dás logojogos.
quinta-feira, março 05, 2026
OP.CIT., PP.164-165 (Paulo Henriques Britto)
uma tensão entre a necessidade
quarta-feira, março 04, 2026
Ovídio - Amores 1, 1 - Tradução de Raimundo Carvalho
Fonte: CARVALHO, Raimundo. Metamorfoses em Tradução. Relatório de pós-doutoramento. São Paulo: DLCV/FFLCH/USP, 2010.
terça-feira, março 03, 2026
George Trakl - "O Sol"
O SOL
Serra acima o sol diário surge fulvo.
Formoso é o bosque, a fera escura,
E, cace ou pastoreie, o homem.
O peixe da água verde assoma rubro.
Debaixo do céu côncavo,
O pescador, num barco azul, desliza.
A uva sazona, e o trigo.
Conforme o dia plácido se encerra,
Algo de bom se engendra e algo de ruim.
Chegada a noite,
O forasteiro soergue pálpebras pesadas;
Sombrio abismo afora o sol irrompe.
segunda-feira, março 02, 2026
Catulo 3 - Trad. Trajano Vieira
Morreu o pássaro de minha amiga,
Não se afastava de seu colo, mas
Pobre pardal! Agora os olhinhos
domingo, março 01, 2026
Catulo, 2 - Trad. Trajano Vieira
Pássaro, distração do meu amor,
Fonte: Catulo e Horácio, uma Antologia. São Paulo: Ateliê, 2025.
sábado, fevereiro 28, 2026
[Platão] - Antologia Palatina
CORPO CELESTE
Astro diurno que, em vida, ofuscava os mortais -és, morto, o astro da tarde e deslumbras as sombras.
sexta-feira, fevereiro 27, 2026
Atena louva Odisseu (Odisseia, 13, 291-301)
quinta-feira, fevereiro 26, 2026
"Troianos", Konstantinos Kaváfis - Trad. José Paulo Paes
nossos esforços, como os dos troianos.
Algum êxito obtido, alguma empresa
assumida, e eis que começamos
a encher-nos de esperanças, de coragem.
Algo surge, porém, que nos irá deter.
Emerge Aquiles da trincheira à nossa frente
Mas quando o instante decisivo chega,
quarta-feira, fevereiro 25, 2026
Drummond - Apelo aos meus dessemelhantes em favor da paz
para ler, para corrigir, para louvar
Fonte: DRUMMOND, C.D.A. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Record, 2001.
terça-feira, fevereiro 24, 2026
Yosa Buson - Traduções de Olga Savary
Um bando de pequenos pardais
Chuva de primavera:
Há um halo em torno da lua.
Preferimos a do primeiro porque a sugestão -- quase mágica -- é maior.
Menina muda,
Sobre o sino do templo
Aqui e acolá
Um caranguejo:
N.T. O tempo aparece para nós como que parado, eternizado, através da visão do caranguejo imóvel sobre o céu sem nuvens.
Lavrando o campo:
As flores me enlouqueceram:
N.T. A beleza da natureza supera os artifícios da corte.
Casal de patos.
O crisântemo amarelo
Chegado para ver as flores,
Ontem um vôo,
Lavrando o campo
A cerejeira florida
N.T. Este hai-kai tem influência budista em seu conteúdo. A contemplação da natureza exalta e transforma as coisas.
Em círculo rodam
Nadando sob a água mais e mais
Amarelas couves em flor
O ruído
Armazéns e atrás um caminho
Capulhos na pereira
Primavera que parte
Sinto um agudo frio:
A noite passou rápida:
N.T. Estes três últimos hai-kais sobre o mesmo tema constituem um tríptico conhecido por sua força lírica.
segunda-feira, fevereiro 23, 2026
Canções de Bilítis, Pierre Louÿs - Tradução de Guilherme de Almeida
CANTO PASTORAL
Devo cantar um canto pastoral, invocar Pan, deus dos ventos do estio. Guardo o meu rebanho, e Selenis o seu, à sombra redonda de uma oliveira trêmula.
Selenis está deitada na relva. Ela ergue-se e corre, ou procura cigarras, ou colhe flores e verduras, ou lava o rosto na água fresca do regato.
Arranco a lã ao dorso louro dos carneiros, para prover à minha roca -- e fio. As horas são lentas. Uma águia passa no céu.
A sombra gira; mudemos de lugar o cabaz de flores e a jarra de leite. Devo cantar um canto pastoral, invocar Pan, deus dos ventos do estio.
CHANT PASTORAL
Il faut chanter un chant pastoral, invoquer Pan, dieu du vent d’été. Je garde mon troupeau et Sélénis le sien, à l’ombre ronde d’un olivier qui tremble.
Sélénis est couchée sur le pré. Elle se lève et court, ou cherche des cigales, ou cueille des fleurs avec des herbes, ou lave son visage dans l’eau fraîche du ruisseau.
Moi, j’arrache la laine au dos blond des moutons pour en garnir ma quenouille, et je file. Les heures sont lentes. Un aigle passe dans le ciel.
L’ombre tourne : changeons de place la corbeille de figues et la jarre de lait. Il faut chanter un chant pastoral, invoquer Pan, dieu du vent d’été.
***
PALAVRAS MATERNAIS
Minha mãe banha-me no escuro, veste-me ao sol a pino e penteia-me na luz; mas quando saio ao luar, ela aperta-me o cinto e faz um nó duplo.
Ela me diz: "Brinca com as virgens, dansa com as criancinhas; não olhes pela janela; evita a palavra dos rapazes e teme o conselho das viúvas.
"Uma noite, alguém, como acontece a todas, virá buscar-te à soleira da porta, com um grande cortejo de tímpanos sonoros e flautas amorosas.
"Nessa noite, quando partires, Bilítis, tu me deixarás três odres de fel: um para a manhã, outro para o meio-dia, e o terceiro -- o mais amargo -- o terceiro para os dias de festa".
PAROLES MATERNELLES
Ma mère me baigne dans l’obscurité, elle m’habille au grand soleil et me coiffe dans la lumière ; mais si je sors au clair de lune, elle serre ma ceinture et fait un double nœud.
Elle me dit : « Joue avec les vierges, danse avec les petits enfants ; ne regarde pas par la fenêtre ; fuis la parole des jeunes hommes et redoute le conseil des veuves.
« Un soir, quelqu’un, comme pour toutes, te viendra prendre sur le seuil au milieu d’un grand cortège de tympanons sonores et de flûtes amoureuses.
« Ce soir-là, quand tu t’en iras, Bilitô, tu me laisseras trois gourdes de fiel : une pour le matin, une pour le midi, et la troisième, la plus amère, la troisième pour les jours de fête. »
***
OS PÉS DESCALÇOS
Tenho cabelos negros, soltos pelas costas, e um pequeno barrete redondo. Minha camisa é de lã branca. Minhas pernas firmes tisnam-se ao sol.
Se eu morasse na cidade, teria jóias de ouro, e camisas douradas, e sapatos de prata...Olho para meus pés nus, calçados de poeira.
Psophis! vem cá, minha pobrezinha! leva-me até as fontes, lava-me os pés nas tuas mãos, e esmaga olivas com violetas para perfumá-los sobre as flores.
Hoje, serás minha escrava. Hás de seguir-me e servir-me, e ao fim do dia dar-te-ei lentilhas do jardim de minha mãe, para a tua.
LES PIEDS NUS
J’ai les cheveux noirs, le long de mon dos, et une petite calotte ronde. Ma chemise est de laine blanche. Mes jambes fermes brunissent au soleil.
Si j’habitais la ville, j’aurais des bijoux d’or, et des chemises dorées et des souliers d’argent… Je regarde mes pieds nus, dans leurs souliers de poussière.
Psophis ! viens ici, petite pauvre ! porte-moi jusqu’aux sources, lave mes pieds dans tes mains et presse des olives avec des violettes pour les parfumer sur les fleurs.
Tu seras aujourd’hui mon esclave ; tu me suivras et tu me serviras, et à la fin de la journée je te donnerai, pour ta mère, des lentilles du jardin de la mienne.
Fonte: Guilherme de Almeida (trad.) Pierre Louÿs. O Amor de Bilítis. Rio de Janeiro: José Olympio, 1948.
domingo, fevereiro 22, 2026
Anacreontea - Traduções de Tadeu Andrade
6
Eu tecia uma coroa
E entre as rosas vi o Amor;
Agarrei as suas asas,
Mergulhei-o no meu vinho,
E depois eu o bebi.
Mas agora, aqui no peito,
Elas fazem coceguinha.
7
As mulheres já me dizem:
“Você é um velho, Anacreonte!
Pega o espelho e vê se enxerga:
Não lhe sobram mais cabelos,
Sua cuca está pelada!”
Já eu, quanto ao meu cabelo,
Se ele existe ou já se foi,
Nada sei, mas isto eu sei:
Que convém tão mais ao velho
Se entreter com o prazer,
Quanto a Morte lhe é mais próxima.
8
Não me importa o que é de Giges 1,
Que reinou na antiga Sardes,
Não me tem qualquer cobiça,
Nem invejo os grandes reis.
Só me importa mergulhar
No perfume a minha barba,
Só me importa coroar
Com as rosas minha fronte.
O hoje é aquilo que me importa,
O amanhã quem é que sabe?
E, por isso, enquanto é dia,
Vá beber, lançar os dados,
Vá libar a Dioniso,
Pra doença não dizer
(Se vier): “Você não pode!”
1Rei da Lídia, poderoso reino da Ásia Menor conhecido por suas riquezas. Sua capital era Sardes.
9
Deixe, pelo amor dos deuses,
Eu beber, beber sem conta,
Quero, eu quero enlouquecer!
Alcmeão enlouqueceu
E também o claro Orestes 1
Por matarem suas mães.
Eu, que não matei ninguém,
De beber o vinho rubro
Quero, eu quero enlouquecer.
Héracles enlouqueceu
Atirando as cruas flechas
Com o arco que era de Ífito 2.
Ájax enlouqueceu
Sobre o escudo se imolando
Com a espada de Heitor 3.
Quanto a mim, com este copo,
Nos cabelos a coroa,
Quero, eu quero enlouquecer.
1 Tanto Alcmeão como Orestes mataram suas mães para vingarem seus pais. Como punição, ambos foram perseguidos com loucura pelas Erínias, deusas da vingança que punem crimes de sangue.
2 Héracles matou Ífito, filho de Eurito, e tomou seu arco. Com esse mesmo arco, por um acesso de loucura que Hera lhe enviou, Héracles matou suas esposa, Mégara, e seus filhos.
3 Na guerra de Tróia, Ájax, melhor dos gregos depois de Aquiles, depois de um duelo inconclusivo com Heitor, líder dos troianos, recebeu dele uma espada numa troca de presentes. Com essa mesma espada, Ájax se matou por vergonha de um acesso de loucura.
10
Que você deseja agora?
Que, matraca de andorinha?
Quer que as suas asas leves
Eu me ponha a tesourar?
Ou prefere que essa língua,
Como outrora fez Tereu 1,
Eu decida cortar fora?
Pra que foi dos belos sonhos,
Com seus cantos matutinos,
Saquear o meu Batilo?
1 Tereu era um rei da Trácia que, apaixonado por Filomela, irmã de sua esposa, a estuprou, fazendo-a cativa e cortando-lhe a língua para evitar que contasse a alguém. Quando, Procne, sua esposa, descobriu, vingou-se servindo-lhe a carne do próprio filho num banquete. Quando Tereu perseguia as irmãs para matá-las, os deuses os transformaram em pássaros: tereu em uma poupa, Procne em um rouxinol e Filomela em uma andorinha, de onde vem a referência no poema.
11
Um Amor feito de cera
Um rapaz pôs-se a vender,
E eu, parando do seu lado,
Perguntei: “Quanto que custa
Este seu artesanato?”
E ele disse em fala dórica 1:
“Leve! Pague o que quiser!
Pra falar bem a verdade,
Eu não faço obras de cera,
Só não quero mais viver
Com o Amor, esse pilantra”.
“Vende-o! Vende-o! Pago bem!
Minha cama o acolherá”.
Vem, Amor, não se demore,
Incendeie-me, se não,
Para o fogo irá você.
1 Um dos dialetos do grego. Talvez trate-se de uma referência à poesia dórica arcaica, que raramente cantava o amor. Seu autor mais famoso é Píndaro.
12
Alguns dizem que, gritando
À belíssima Cibele,
Átis, semi-feminino,
Na montanha enlouquecia 1.
Uns no píncaro do Claro,
Em que reina Febo Apolo,
Ao beber água falante
Enlouquecem, lançam gritos 2.
Quanto a mim, de Dioniso,
De perfume saciado,
E da minha companheira,
Quero, eu quero enlouquecer.
1 Mortal por quem a deusa Cibele se apaixonara. Em pleno casamento dele, Cibele apareceu em sua forma divina e Átis, enlouquecido, se castrou, tornando-se o primeiro dos coribantes, sacerdotes eunucos da deusa.
2 Referência ao oráculo de Apolo perto de Colofão, na Ásia Menor. Seu poço dava inspiração divina ao sacerdote.
13
Quero, quero, eu quero amar.
Eis que o Amor mandou amar,
Mas eu tive um pensamento
Tolo e desobedeci.
Ele então ergueu o arco
E as douradas flechas suas
E chamou-me para a a briga.
E eu tomando sobre os ombros
A armadura, como Aquiles,
Minha lança e meu escudo,
Com o Amor pus-me a lutar.
Ele vinha, eu fugia,
Logo lhe faltaram flechas
E ele se prostrou. Então
Atirou-se como um dardo,
E no meio do meu peito
Mergulhou e me desfez.
De que me serviu o escudo?
Que vou eu fazer por fora
Quando a luta é por dentro?
Fonte: "À moda de Anacreonte" in: À moda de Anacreonte | Tadeu Andrade
sábado, fevereiro 21, 2026
Lenda - Orides Fontela
há um cristal: quem o fitar
ah, quem o fitar
com os olhos em sangue
com as mãos em sangue
com o sangue vivo
quem o fitar não dormirá
mas será cristal de espanto
--- ficará lúcido para sempre.
sexta-feira, fevereiro 20, 2026
Mário Quintana - Hai-Kais
Um copo de cristal
Sobre a mesa
Inventa as cores todas do arco-íris...
HOJE É OUTRO DIA
Quando abro cada manhã a janela do meu quarto
É como se abrisse o mesmo livro
QUEM SOMOS?
Esse estranho que mora no espelho
Olha-me de um jeito
De quem procura recordar quem sou...
A palavra andorinha
Rosa suntuosa e simples,
Não sabias?
Os grilos são os poetas mortos...
Rádios. Tevês.
Goooooooooooooooooooooooolo!!!!
Não acreditamos muito uns nos outros...
Basta de poemas para depois...
Nada conseguem dizer:
A morte é a libertação total:
Uma folha, ai,
O verso é um doido cantando sozinho.
quinta-feira, fevereiro 19, 2026
Orides Fontela
Kant (Relido)
cobrindo-me
e o estrelado céu
dentro de mim
Orides Fontela. Rosácea, 1986.
quarta-feira, fevereiro 18, 2026
Simônides - Elegia 8 (Tradução de Tadeu Andrade)
“Como das folhas são as gerações dos homens”.
Pouquíssimos mortais, como a escutassem,
Puseram-na no peito, pois atém-se a espera
Ao homem, já nascida n’alma jovem.
Quando um mortal possui da mocidade a flor,
No surdo engenho pensa o inatingível
E não espera que virá velhice ou morte,
Nem, se saudável, pensa na doença.
É tolo quem assim cogita, e desconhece
Que à juventude e à vida é pouco o tempo
Dos homens. E, se o aprendes, rumo ao fim da vida,
Na alma degustando os bens, suporta.
terça-feira, fevereiro 17, 2026
Haikais de Bashô - Traduções de Olga Savary
o canto das cigarras
nada revela!
***
Por nuvens separados
os patos selvagens
se dizem adeus....
***
Chuva cinzenta:
hoje é um dia feliz
mesmo com o Fuji invisível.
***
Ah, kankodori:
tu aprofundas
minha solidão!
****
Move-te, ó tumba!
Meu pranto
é o vento do outono
***
Sobre o telhado
flores de castanheiro
ignoradas.
***
Sobre o tanque morto
um ruído de rã
submergindo.
***
A cada brisa
a borboleta muda de lugar
sobre o salgueiro
***
Pequeno cuco cinzento:
canta e canta, voa e voa.
Muito há o que fazer!
***
os quimonos: a manga
do menino morto.
Molhadas,
Trêmulo, meu coração detem-se
Já não me importa
Entre Sado
A calhandra canta
Ou o de Asakusa?
Cerros com tíbias sendas.
Sobre os cedros, o crepúsculo.
Varrendo o jardim
A água gelada
Pintando sobre o biombo
Necessita o rouxinol
Sopra o vento de inverno
Um doce ruído
Até uma choça com teto de palha


