quarta-feira, março 04, 2026

Ovídio - Amores 1, 1 - Tradução de Raimundo Carvalho

Armas, em ritmo grave, e guerras violentas, 
 matéria afim ao metro, ia cantar. 
O verso seguinte era igual; Cupido rindo 
- dizem -, porém, surrupiou-lhe um pé. 
“Quem te deu poder sobre o canto, atroz menino? 
 Vate das Musas sou, não de teu séquito. 
Vestisse Vênus armas da loura Minerva, 
tochas acesas esta brandiria? 
Quem aprova que Ceres reine em altas selvas 
e os campos sigam leis da arqueira virgem? 
 Quem, a Febo de bela coma, em lança aguda, 
e a Marte, em lira aônia, instruiria? 
 Menino, os teus domínios são demasiados, 
para que ambicionas novos feitos? 
 Acaso, tudo é teu? Até o vale do Hélicon?
 Febo, a custo, é senhor de sua lira. 
Mal o primeiro verso aponta em nova página,
 O seguinte extenua as minhas forças. 
E me falta matéria pra ritmos ligeiros, 
 moço ou moça de longa cabeleira”. 
Me lamentava, quando o tal, abrindo a aljava, 
pegou os dardos pronto a me ferir, 
 o curvo arco retesou sobre o joelho 
 e disse: “eis, vate, assunto pra cantares!” 
 Ai de Mim! Certas são as setas do menino! 
Ardo, e no peito vago reina Amor. 
Com seis pés vem-me o verso, com cinco se abranda! 
 Adeus, guerras; adeus, ritmos de ferro! 
Com mirto litorâneo cinge as louras têmporas, 
Musa, a ser modulada em onze pés.

Fonte: CARVALHO, Raimundo. Metamorfoses em Tradução. Relatório de pós-doutoramento. São Paulo: DLCV/FFLCH/USP, 2010. 

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