sexta-feira, março 13, 2026

Porto Alegre Blues - Pedro Gonzaga

 (...) 

e não demora estou diante da igreja

de nossa senhora das dores --

inclino meu pescoço para cima

finco os pés no primeiro degrau

da escadaria que se estende feito um muro

erguido numa diagonal pixelada

e não tenho amparo contra sua beleza

e alguma coisa em mim

há muito contida

rompe minha valerosa armadura

e subo os degraus sozinho

(os cães se sabem desnecessários)

e isto não é apenas um blues -- 

meus olhos ardem e 

alguma coisa feito um blues

feito umidade quente flui 

extraída à força pelas arcadas brancas

pelo círculo ao topo da fachada

quero chamar de patético o soluço

mas o soluço é mais rápido que a retórica

meus pés sobem mais dois lances

e depois mais dois e talvez o erro

seja acreditar em um sentido

esperar por um milagre no refrão

quando os pés não esperam nada

ladeira abaixo na madrugada

escada acima agora eles fluem

em direção à balaustrada de pedra

até que desprovido de todas as preces usuais

aquele que era incapaz de crer

crê

na beleza que flui --

a beleza

e minhas lágrimas

finalmente

fluem. 

Nenhum comentário: