sábado, março 07, 2026
Biodiversidade - Paulo Henriques Britto
Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,
Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo,
Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,
câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,
sexta-feira, março 06, 2026
Animula Vagula Blandula - Tradução de Ivan P. de Arruda Campos
amiga corpórea para onde agora?
lugares pálidos gélidos lunares...e
não mais nos dás logojogos.
quinta-feira, março 05, 2026
OP.CIT., PP.164-165 (Paulo Henriques Britto)
uma tensão entre a necessidade
quarta-feira, março 04, 2026
Ovídio - Amores 1, 1 - Tradução de Raimundo Carvalho
Fonte: CARVALHO, Raimundo. Metamorfoses em Tradução. Relatório de pós-doutoramento. São Paulo: DLCV/FFLCH/USP, 2010.
terça-feira, março 03, 2026
George Trakl - "O Sol"
O SOL
Serra acima o sol diário surge fulvo.
Formoso é o bosque, a fera escura,
E, cace ou pastoreie, o homem.
O peixe da água verde assoma rubro.
Debaixo do céu côncavo,
O pescador, num barco azul, desliza.
A uva sazona, e o trigo.
Conforme o dia plácido se encerra,
Algo de bom se engendra e algo de ruim.
Chegada a noite,
O forasteiro soergue pálpebras pesadas;
Sombrio abismo afora o sol irrompe.
segunda-feira, março 02, 2026
Catulo 3 - Trad. Trajano Vieira
Morreu o pássaro de minha amiga,
Não se afastava de seu colo, mas
Pobre pardal! Agora os olhinhos
domingo, março 01, 2026
Catulo, 2 - Trad. Trajano Vieira
Pássaro, distração do meu amor,
Fonte: Catulo e Horácio, uma Antologia. São Paulo: Ateliê, 2025.
sábado, fevereiro 28, 2026
[Platão] - Antologia Palatina
CORPO CELESTE
Astro diurno que, em vida, ofuscava os mortais -és, morto, o astro da tarde e deslumbras as sombras.
sexta-feira, fevereiro 27, 2026
Atena louva Odisseu (Odisseia, 13, 291-301)
quinta-feira, fevereiro 26, 2026
"Troianos", Konstantinos Kaváfis - Trad. José Paulo Paes
nossos esforços, como os dos troianos.
Algum êxito obtido, alguma empresa
assumida, e eis que começamos
a encher-nos de esperanças, de coragem.
Algo surge, porém, que nos irá deter.
Emerge Aquiles da trincheira à nossa frente
Mas quando o instante decisivo chega,
quarta-feira, fevereiro 25, 2026
Drummond - Apelo aos meus dessemelhantes em favor da paz
para ler, para corrigir, para louvar
Fonte: DRUMMOND, C.D.A. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Record, 2001.
terça-feira, fevereiro 24, 2026
Yosa Buson - Traduções de Olga Savary
Um bando de pequenos pardais
Chuva de primavera:
Há um halo em torno da lua.
Preferimos a do primeiro porque a sugestão -- quase mágica -- é maior.
Menina muda,
Sobre o sino do templo
Aqui e acolá
Um caranguejo:
N.T. O tempo aparece para nós como que parado, eternizado, através da visão do caranguejo imóvel sobre o céu sem nuvens.
Lavrando o campo:
As flores me enlouqueceram:
N.T. A beleza da natureza supera os artifícios da corte.
Casal de patos.
O crisântemo amarelo
Chegado para ver as flores,
Ontem um vôo,
Lavrando o campo
A cerejeira florida
N.T. Este hai-kai tem influência budista em seu conteúdo. A contemplação da natureza exalta e transforma as coisas.
Em círculo rodam
Nadando sob a água mais e mais
Amarelas couves em flor
O ruído
Armazéns e atrás um caminho
Capulhos na pereira
Primavera que parte
Sinto um agudo frio:
A noite passou rápida:
N.T. Estes três últimos hai-kais sobre o mesmo tema constituem um tríptico conhecido por sua força lírica.
segunda-feira, fevereiro 23, 2026
Canções de Bilítis, Pierre Louÿs - Tradução de Guilherme de Almeida
CANTO PASTORAL
Devo cantar um canto pastoral, invocar Pan, deus dos ventos do estio. Guardo o meu rebanho, e Selenis o seu, à sombra redonda de uma oliveira trêmula.
Selenis está deitada na relva. Ela ergue-se e corre, ou procura cigarras, ou colhe flores e verduras, ou lava o rosto na água fresca do regato.
Arranco a lã ao dorso louro dos carneiros, para prover à minha roca -- e fio. As horas são lentas. Uma águia passa no céu.
A sombra gira; mudemos de lugar o cabaz de flores e a jarra de leite. Devo cantar um canto pastoral, invocar Pan, deus dos ventos do estio.
CHANT PASTORAL
Il faut chanter un chant pastoral, invoquer Pan, dieu du vent d’été. Je garde mon troupeau et Sélénis le sien, à l’ombre ronde d’un olivier qui tremble.
Sélénis est couchée sur le pré. Elle se lève et court, ou cherche des cigales, ou cueille des fleurs avec des herbes, ou lave son visage dans l’eau fraîche du ruisseau.
Moi, j’arrache la laine au dos blond des moutons pour en garnir ma quenouille, et je file. Les heures sont lentes. Un aigle passe dans le ciel.
L’ombre tourne : changeons de place la corbeille de figues et la jarre de lait. Il faut chanter un chant pastoral, invoquer Pan, dieu du vent d’été.
***
PALAVRAS MATERNAIS
Minha mãe banha-me no escuro, veste-me ao sol a pino e penteia-me na luz; mas quando saio ao luar, ela aperta-me o cinto e faz um nó duplo.
Ela me diz: "Brinca com as virgens, dansa com as criancinhas; não olhes pela janela; evita a palavra dos rapazes e teme o conselho das viúvas.
"Uma noite, alguém, como acontece a todas, virá buscar-te à soleira da porta, com um grande cortejo de tímpanos sonoros e flautas amorosas.
"Nessa noite, quando partires, Bilítis, tu me deixarás três odres de fel: um para a manhã, outro para o meio-dia, e o terceiro -- o mais amargo -- o terceiro para os dias de festa".
PAROLES MATERNELLES
Ma mère me baigne dans l’obscurité, elle m’habille au grand soleil et me coiffe dans la lumière ; mais si je sors au clair de lune, elle serre ma ceinture et fait un double nœud.
Elle me dit : « Joue avec les vierges, danse avec les petits enfants ; ne regarde pas par la fenêtre ; fuis la parole des jeunes hommes et redoute le conseil des veuves.
« Un soir, quelqu’un, comme pour toutes, te viendra prendre sur le seuil au milieu d’un grand cortège de tympanons sonores et de flûtes amoureuses.
« Ce soir-là, quand tu t’en iras, Bilitô, tu me laisseras trois gourdes de fiel : une pour le matin, une pour le midi, et la troisième, la plus amère, la troisième pour les jours de fête. »
***
OS PÉS DESCALÇOS
Tenho cabelos negros, soltos pelas costas, e um pequeno barrete redondo. Minha camisa é de lã branca. Minhas pernas firmes tisnam-se ao sol.
Se eu morasse na cidade, teria jóias de ouro, e camisas douradas, e sapatos de prata...Olho para meus pés nus, calçados de poeira.
Psophis! vem cá, minha pobrezinha! leva-me até as fontes, lava-me os pés nas tuas mãos, e esmaga olivas com violetas para perfumá-los sobre as flores.
Hoje, serás minha escrava. Hás de seguir-me e servir-me, e ao fim do dia dar-te-ei lentilhas do jardim de minha mãe, para a tua.
LES PIEDS NUS
J’ai les cheveux noirs, le long de mon dos, et une petite calotte ronde. Ma chemise est de laine blanche. Mes jambes fermes brunissent au soleil.
Si j’habitais la ville, j’aurais des bijoux d’or, et des chemises dorées et des souliers d’argent… Je regarde mes pieds nus, dans leurs souliers de poussière.
Psophis ! viens ici, petite pauvre ! porte-moi jusqu’aux sources, lave mes pieds dans tes mains et presse des olives avec des violettes pour les parfumer sur les fleurs.
Tu seras aujourd’hui mon esclave ; tu me suivras et tu me serviras, et à la fin de la journée je te donnerai, pour ta mère, des lentilles du jardin de la mienne.
Fonte: Guilherme de Almeida (trad.) Pierre Louÿs. O Amor de Bilítis. Rio de Janeiro: José Olympio, 1948.
domingo, fevereiro 22, 2026
Anacreontea - Traduções de Tadeu Andrade
6
Eu tecia uma coroa
E entre as rosas vi o Amor;
Agarrei as suas asas,
Mergulhei-o no meu vinho,
E depois eu o bebi.
Mas agora, aqui no peito,
Elas fazem coceguinha.
7
As mulheres já me dizem:
“Você é um velho, Anacreonte!
Pega o espelho e vê se enxerga:
Não lhe sobram mais cabelos,
Sua cuca está pelada!”
Já eu, quanto ao meu cabelo,
Se ele existe ou já se foi,
Nada sei, mas isto eu sei:
Que convém tão mais ao velho
Se entreter com o prazer,
Quanto a Morte lhe é mais próxima.
8
Não me importa o que é de Giges 1,
Que reinou na antiga Sardes,
Não me tem qualquer cobiça,
Nem invejo os grandes reis.
Só me importa mergulhar
No perfume a minha barba,
Só me importa coroar
Com as rosas minha fronte.
O hoje é aquilo que me importa,
O amanhã quem é que sabe?
E, por isso, enquanto é dia,
Vá beber, lançar os dados,
Vá libar a Dioniso,
Pra doença não dizer
(Se vier): “Você não pode!”
1Rei da Lídia, poderoso reino da Ásia Menor conhecido por suas riquezas. Sua capital era Sardes.
9
Deixe, pelo amor dos deuses,
Eu beber, beber sem conta,
Quero, eu quero enlouquecer!
Alcmeão enlouqueceu
E também o claro Orestes 1
Por matarem suas mães.
Eu, que não matei ninguém,
De beber o vinho rubro
Quero, eu quero enlouquecer.
Héracles enlouqueceu
Atirando as cruas flechas
Com o arco que era de Ífito 2.
Ájax enlouqueceu
Sobre o escudo se imolando
Com a espada de Heitor 3.
Quanto a mim, com este copo,
Nos cabelos a coroa,
Quero, eu quero enlouquecer.
1 Tanto Alcmeão como Orestes mataram suas mães para vingarem seus pais. Como punição, ambos foram perseguidos com loucura pelas Erínias, deusas da vingança que punem crimes de sangue.
2 Héracles matou Ífito, filho de Eurito, e tomou seu arco. Com esse mesmo arco, por um acesso de loucura que Hera lhe enviou, Héracles matou suas esposa, Mégara, e seus filhos.
3 Na guerra de Tróia, Ájax, melhor dos gregos depois de Aquiles, depois de um duelo inconclusivo com Heitor, líder dos troianos, recebeu dele uma espada numa troca de presentes. Com essa mesma espada, Ájax se matou por vergonha de um acesso de loucura.
10
Que você deseja agora?
Que, matraca de andorinha?
Quer que as suas asas leves
Eu me ponha a tesourar?
Ou prefere que essa língua,
Como outrora fez Tereu 1,
Eu decida cortar fora?
Pra que foi dos belos sonhos,
Com seus cantos matutinos,
Saquear o meu Batilo?
1 Tereu era um rei da Trácia que, apaixonado por Filomela, irmã de sua esposa, a estuprou, fazendo-a cativa e cortando-lhe a língua para evitar que contasse a alguém. Quando, Procne, sua esposa, descobriu, vingou-se servindo-lhe a carne do próprio filho num banquete. Quando Tereu perseguia as irmãs para matá-las, os deuses os transformaram em pássaros: tereu em uma poupa, Procne em um rouxinol e Filomela em uma andorinha, de onde vem a referência no poema.
11
Um Amor feito de cera
Um rapaz pôs-se a vender,
E eu, parando do seu lado,
Perguntei: “Quanto que custa
Este seu artesanato?”
E ele disse em fala dórica 1:
“Leve! Pague o que quiser!
Pra falar bem a verdade,
Eu não faço obras de cera,
Só não quero mais viver
Com o Amor, esse pilantra”.
“Vende-o! Vende-o! Pago bem!
Minha cama o acolherá”.
Vem, Amor, não se demore,
Incendeie-me, se não,
Para o fogo irá você.
1 Um dos dialetos do grego. Talvez trate-se de uma referência à poesia dórica arcaica, que raramente cantava o amor. Seu autor mais famoso é Píndaro.
12
Alguns dizem que, gritando
À belíssima Cibele,
Átis, semi-feminino,
Na montanha enlouquecia 1.
Uns no píncaro do Claro,
Em que reina Febo Apolo,
Ao beber água falante
Enlouquecem, lançam gritos 2.
Quanto a mim, de Dioniso,
De perfume saciado,
E da minha companheira,
Quero, eu quero enlouquecer.
1 Mortal por quem a deusa Cibele se apaixonara. Em pleno casamento dele, Cibele apareceu em sua forma divina e Átis, enlouquecido, se castrou, tornando-se o primeiro dos coribantes, sacerdotes eunucos da deusa.
2 Referência ao oráculo de Apolo perto de Colofão, na Ásia Menor. Seu poço dava inspiração divina ao sacerdote.
13
Quero, quero, eu quero amar.
Eis que o Amor mandou amar,
Mas eu tive um pensamento
Tolo e desobedeci.
Ele então ergueu o arco
E as douradas flechas suas
E chamou-me para a a briga.
E eu tomando sobre os ombros
A armadura, como Aquiles,
Minha lança e meu escudo,
Com o Amor pus-me a lutar.
Ele vinha, eu fugia,
Logo lhe faltaram flechas
E ele se prostrou. Então
Atirou-se como um dardo,
E no meio do meu peito
Mergulhou e me desfez.
De que me serviu o escudo?
Que vou eu fazer por fora
Quando a luta é por dentro?
Fonte: "À moda de Anacreonte" in: À moda de Anacreonte | Tadeu Andrade
sábado, fevereiro 21, 2026
Lenda - Orides Fontela
há um cristal: quem o fitar
ah, quem o fitar
com os olhos em sangue
com as mãos em sangue
com o sangue vivo
quem o fitar não dormirá
mas será cristal de espanto
--- ficará lúcido para sempre.
sexta-feira, fevereiro 20, 2026
Mário Quintana - Hai-Kais
Um copo de cristal
Sobre a mesa
Inventa as cores todas do arco-íris...
HOJE É OUTRO DIA
Quando abro cada manhã a janela do meu quarto
É como se abrisse o mesmo livro
QUEM SOMOS?
Esse estranho que mora no espelho
Olha-me de um jeito
De quem procura recordar quem sou...
A palavra andorinha
Rosa suntuosa e simples,
Não sabias?
Os grilos são os poetas mortos...
Rádios. Tevês.
Goooooooooooooooooooooooolo!!!!
Não acreditamos muito uns nos outros...
Basta de poemas para depois...
Nada conseguem dizer:
A morte é a libertação total:
Uma folha, ai,
O verso é um doido cantando sozinho.
quinta-feira, fevereiro 19, 2026
Orides Fontela
Kant (Relido)
cobrindo-me
e o estrelado céu
dentro de mim
Orides Fontela. Rosácea, 1986.
quarta-feira, fevereiro 18, 2026
Simônides - Elegia 8 (Tradução de Tadeu Andrade)
“Como das folhas são as gerações dos homens”.
Pouquíssimos mortais, como a escutassem,
Puseram-na no peito, pois atém-se a espera
Ao homem, já nascida n’alma jovem.
Quando um mortal possui da mocidade a flor,
No surdo engenho pensa o inatingível
E não espera que virá velhice ou morte,
Nem, se saudável, pensa na doença.
É tolo quem assim cogita, e desconhece
Que à juventude e à vida é pouco o tempo
Dos homens. E, se o aprendes, rumo ao fim da vida,
Na alma degustando os bens, suporta.
terça-feira, fevereiro 17, 2026
Haikais de Bashô - Traduções de Olga Savary
o canto das cigarras
nada revela!
***
Por nuvens separados
os patos selvagens
se dizem adeus....
***
Chuva cinzenta:
hoje é um dia feliz
mesmo com o Fuji invisível.
***
Ah, kankodori:
tu aprofundas
minha solidão!
****
Move-te, ó tumba!
Meu pranto
é o vento do outono
***
Sobre o telhado
flores de castanheiro
ignoradas.
***
Sobre o tanque morto
um ruído de rã
submergindo.
***
A cada brisa
a borboleta muda de lugar
sobre o salgueiro
***
Pequeno cuco cinzento:
canta e canta, voa e voa.
Muito há o que fazer!
***
os quimonos: a manga
do menino morto.
Molhadas,
Trêmulo, meu coração detem-se
Já não me importa
Entre Sado
A calhandra canta
Ou o de Asakusa?
Cerros com tíbias sendas.
Sobre os cedros, o crepúsculo.
Varrendo o jardim
A água gelada
Pintando sobre o biombo
Necessita o rouxinol
Sopra o vento de inverno
Um doce ruído
Até uma choça com teto de palha
segunda-feira, fevereiro 16, 2026
Meleagro de Gádara - Antologia Grega 12,119
Tomarei, Baco, a tua coragem. Comanda a festa,
inicia, deus que segura as rédeas do coração mortal.
Nascido do fogo, tu amas a chama de Eros
e após me prenderes de novo, me conduzes como teu suplicante.
És traidor e desleal, ordenas que se esconda teus mistérios,
mas os meus agora desejas revelar.
Tradução de Flávia Vasconcellos Amaral in: A Guirlanda de sua Guirlanda, Epigramas de Meleagro de Gádara: Tradução e Estudo. São Paulo: FFLCH/DLCV/USP. Dissertação de Mestrado. 2009.
Suportarei em teu nome, Baco, a tua ousadia! Vamos,
dirige a festa! Um deus dirige o meu coração mortal.
Porque no fogo foste gerado, amas a chama que há em Eros
e, aprisionando-me de novo, arrastas-me como suplicante.
Como és traidor e falso! Mandas ocultar os teus mistérios,
mas fazes questão de desvendar agora os meus.
Tradução de Carlos Jesus in: Antologia Grega: A Musa dos Rapazes (Livro XII). Coimbra: Coimbra University Press. 2017.
sábado, fevereiro 14, 2026
Bacanal - Manuel Bandeira
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!
Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada
A gargalhar em doudo assomo...
Evoé Momo!
Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
-- Cobras de lívidos venenos...
Evoé Vênus!
Se me perguntarem: que mais queres,
Além de versos e mulheres? ....
-- Vinhos! ...O vinho que é o meu fraco!
Evoé Baco!
O alfanje rútilo da lua
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que não domo!...
Evoé Momo!
A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoé Vênus!
sexta-feira, fevereiro 13, 2026
Jorge de Lima - Duas meninas de tranças pretas
Eram duas meninas de tranças pretas.
Veio uma febre levou as duas.
Foram as duas para o cemitério:
ambas ficaram na mesma cova.
Por sobre as pedras da sepultura
brotou bonina, brotou bonina,
nasceram plantas, nasceram mais plantas,
flores do mato, canas da várzea:
a sepultura virou canteiro.
Aves vieram cantar na plantas,
levaram sementes por sobre o mar.
Os peixes levaram estas sementes
até as Ilhas de Karakantá.
Ali brotaram flores estranhas.
Donde vieram flores tão raras?
Ah! só o poeta saberá.
Pois nesse mundo desconhecido
há casos desses que ninguém vê:
vieram insetos eijar as flores,
e um belo dia veio um poeta
pegar insetos para sua amada.
A borboleta mais rara que há
naquelas ilhas de Karakantá
é cor de amaranto com olhos azuis.
Mas heis de saber que a tal borboleta
contém veneno dentro dos olhos;
aí o poeta beijando tais olhos
ficou dormindo como um cadáver.
E então sonhou com as duas meninas:
que ambas dormiam na mesma cova,
que flores nasceram na sepultura,
que a sepultura virou canteiro,
que peixes levaram sementes da flores
para aquelas Ilhas de Karakantá.
O sonho do poeta o vento levou,
levou para um astro desconhecido.
E aí chegando tornou-se um mar:
a água do mar virou arco-íris.
Então uma deusa pegou o arco-íris
e fez um pente para se pentear.
E tanto se penteou a deusa do astro
que deu a luz duas meninas.
Sabeis quem são as duas meninas?
As duas meninas mais belas que há?
Ah! só o poeta saberá.
Jorge de Lima. A Túnica Inconsútil. Rio de Janeiro: Guanabara, 1938.
ais ou menos
(oração pela descrença)
Senhor,
peço poderes sobre o sono,
esse sol em que me ponho,
a sofrer meus ais ou menos,
sombra, quem sabe, dentro de um sonho.
Quero forças para o salto
do abismo onde me encontro
ao hiato onde me falto.
e, aos pés da pedra,
essa sombra, pedra que se esfalfa.
Pedra, letra, estrela à solta,
sim, quero viver sem fé,
levar a vida que falta
sem nunca saber quem é.
Paulo Leminski. ais ou menos. In: Toda Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
quinta-feira, fevereiro 12, 2026
Agamêmnon de Ésquilo, versos 1331-1342 - Tradução de Jaa Torrano
Coro:
A prosperidade brota insaciável
a todos os mortais. Por recusa
ninguém a repele de indigitados palácios
a dizer: "não entres mais aqui".
Os Venturosos deram a este homem
capturar o país de Príamo
e honrado por Deus retorna ao lar.
Se agora responder por sangue antigo
e morto pelas mortes cobrar punição
com outras mortes,
que mortal ouvindo isso alardearia
ter nascido com incólume destino?
Fonte: TORRANO, Jaa. Ésquilo. Oresteia I: Agamêmnon. São Paulo: Iluminuras, 2004.
quarta-feira, fevereiro 11, 2026
O Tempo cobra o tributo (Marcelo Tápia)
Quem enfrenta sua velhice
o faz por não morrer jovem:
esse consolo se diz
para que o ancião se conforme.
Mas será melhor, por certo,
viver mais que partir cedo;
se outro mundo há, eterno,
que não se apresse o desfecho.
Foi-se a era dos heróis
que moços iam em glória;
hoje, com tudo o que dói,
prefere-se a longa história.
Sim, não falta dor à idade:
entre outras, essa sentença
sugere viver com arte,
e manter leve a consciência,
sem pesar demais os erros,
nem cultivar os remorsos,
e tampouco dar-se aos medos,
só aos riscos, com conforto.
Desprezar os maldizeres
convém a quem se quer bem;
nutrir amizades que restem
é o que a alegria retém.
Pensar no porvir se deve,
mas o agora sempre urge:
amanhã talvez me leve
a infalível foice a algures.
Fruir as coisas vividas,
mínimas de todo dia,
é ter a vida colhida
mesmo onde ela se escondia.
O tempo curto desdobra-se
em muitos se cada instante
é preenchido sem sobras,
seja ao depois, seja ao antes;
se os anos idos soçobram,
deixo o choro e sigo adiante.
Marcelo Tápia. Ascensões e Descensos. São Paulo: Editora Madamu, 2025.
terça-feira, fevereiro 10, 2026
Interrupção - Konstantinos Kaváfis
somos da pressa e do momento, inexperientes.
No palácio de Elêusis e no de Ftia, eis
que iniciam Deméter e Tétis, em chamas
altas e fumo espesso envoltas, grandes obras. Mas
sempre foge Metanira aos aposentos do rei,
cabelos soltos, temerosa. Também
Peleu se atemoriza sempre e intervém.
Tradução de José Paulo Paes in: Konstantinos Kaváfis. Poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
segunda-feira, fevereiro 09, 2026
Horácio, Ode III. 30 - Tradução de Trajano Vieira
Ergui um monumento mais perene
que o bronze, mais altivo que as pirâmides
nem a chuva voraz, nem sucessivos
anos o anulam, nem o árduo Áquilo.
Morro mas parcialmente e pouco vai
de mim a Libitina. Novo, os pósteros
só me farão crescer, enquanto suba
ao Capitólio o sumo padre, atrás
a virgem quieta. Onde o Ofanto estronda,
onde Dauno regeu a gente rude,
na Apúlia árida, dirão: não mais
negligenciável, foi quem pôs o canto
eólio, pioneiro, em metro itálico.
Reivindica, Melpômene, a altivez
conquistada por méritos e cinge
minha cabeça com o louro délfico.
domingo, fevereiro 08, 2026
Marcelo Tápia
VOZES
Aprendo por mim mesmo,
mas o Deus
plantou-me no imo
cantares diversos
De verdade anunciada
tenho o ambíguo;
se me é dado cantar,
diga-se no que digo.
o desígnio
de ser alheio e ser comigo
de se revelar
a voz do que imito,
o vão perdido
do elo divino.
Marcelo Tápia. Ascensões e Descensos. São Paulo: Editora Madamu, 2025.
sábado, fevereiro 07, 2026
Anna Akhmátova
Quando à noite eu espero a sua vinda,
minha vida parece estar por um fio.
Que valem honras, juventude, liberdade
diante da doce amiga com a flauta na mão?
Ei-la, chegou: lançando o manto para trás
deteve o olhar atento sobre mim.
“Foste tu” – lhe pergunto – “que ditaste a Dante
as páginas do Inferno?” E ela: “Eu".
sexta-feira, fevereiro 06, 2026
quarta-feira, fevereiro 04, 2026
Horácio, Ode I, 38 - Tradução de Trajano Vieira
Detesto aparatos persas, não
suporto, infante, a tília das guirlandas,
não queiras encontrar em que lugar
retarda a rosa extemporânea.
Não emprestes teu zelo a somar
algo que for, menino, ao simples mirto.
O mirto não humilha quem ministra
o vinho, e a mim que o sorvo à sombra.
Trajano Vieira. Catulo & Horácio: Uma Antologia. São Paulo, Cotia: Ateliê Editorial, 2025.
Outra Tradução: Haroldo de Campos
Horácio, Ode I.38 - Tradução de Raimundo Carvalho
Rapaz, odeio pompas persas,
não me apraz coroa de tília,
não queiras saber onde a rosa
brotou tardia.
Nada acresças ao simples mirto;
vigio; nem a ti, servindo-me,
mirto é vil, nem a mim, bebendo
na espessa vide.
Tradução de Raimundo Carvalho
Fonte: CARVALHO, R. Lira a Vapor - Poesia Reunida 1983-2025. São Paulo: Immensa Editorial, 2025.
terça-feira, fevereiro 03, 2026
Byron: So we'll go no more a-roving
tanto noite adentro, embora
corações batam iguais
e o luar brilhe como outrora.
Pois a espada enfim desgasta
sua bainha e a alma, o peito,
corações dão-nos seu "basta"
e Amor quer pausa no leito.
Mesmo se o dia desfaz
brusco a noite própria a amar,
já não remaremos mais
tanto como outrora ao luar.


