domingo, janeiro 04, 2026

No fim do ano, triste por envelhecer (Izumi Shikibu) - Trad. Andrei Cunha

 se formos contar

os dias até o fim do ano

não tem nada mais

triste do que saber

que envelhecemos


Fonte: Andrei Cunha. Poemas do Japão Medieval - seleções do Shinkokin'wakashû. Porto Alegre: Bestiário, 2024. 

sábado, janeiro 03, 2026

Horácio, Livro I, Ode 4 - Sete Traduções

Soluitur acris hiems grata vice veris et Favoni
     trahuntque siccas machinae carinas,
ac neque iam stabulis gaudet pecus aut arator igni
     nec prata canis albicant pruinis.
Iam Cytherea choros ducit Venus imminente luna              
     iunctaeque Nymphis Gratiae decentes
alterno terram quatiunt pede, dum gravis Cyclopum
     Volcanus ardens visit officinas.
Nunc decet aut viridi nitidum caput impedire myrto
     aut flore, terrae quem ferunt solutae;               10
nunc et in umbrosis Fauno decet immolare lucis,
     seu poscat agna sive malit haedo.
Pallida Mors aequo pulsat pede pauperum tabernas
     regumque turris. O beate Sesti,
vitae summa brevis spem nos vetat inchoare longam.               
     Iam te premet nox fabulaeque Manes
et domus exilis Plutonia, quo simul mearis,
     nec regna vini sortiere talis
nec tenerum Lycidan mirabere, quo calet iuventus
     nunc omnis et mox virgines tepebunt.    
           

Tradução de Neyde Ramos de Assis (1962) 
Esvai-se o duro inverno ao grato retomar da primavera e as máquinas arrastam para o mar os navios em sêco; já não se alegra o gado em ficar nos estábulos e nem o lavrador em estar junto ao fogo, e a branca neve já não alveja os prados. Vênus, a Citeréia, dirige as danças à luz da lua e as belas Graças, junto com as Ninfas, batem a terra com um pé, com outro; e, enquanto isso nas fatigantes forjas dos Ciclopes, arde Vulcano.

Nesta ocasião convém cingirmos a cabeça luzente de perfumes com o verde mirto ou com as flôres que a terra produz, livre do gêlo; e imolarmos a Fauno, nos umbrosos bosques sagrados, uma ovelhinha ou um cabrito, como êle preferir. A pálida Morte pisa com o justo pé as cabanas dos pobres e os palácios dos reis. Ó afortunado Séstio, a breve duração da vida não permite que concebamos uma grande esperança. Logo te cobrirá a noite, a sombra da região dos manes, a exígua morada de Plutão; e,  quando ali chegares, não sortearás com os dados o rei do vinho nem fitarás o delicado Lícidas, por quem agora ardem os jovens e logo as moças se apaixonarão.

Tradução de Bento Prado de Almeida Ferraz (2003)

Brando se faz o rigoroso inverno,
pis já lá vêm Favônio e a primavera;
são levada ao mar as secas quilhas.
Já não se aquece o gado nos estábulos,
não goza o lavrador junto à lareira,
nem mais alveja o prado a branca geada.
Já, à clara lua, Vênus Citerea
dirige os coros, e as formosas Graças
juntas às Ninfas, batem, em cadência,
pés alternos, a terra; dos Ciclopes
Vulcano acende as duras oficinas.
Convém cingir agora a fronte ungida
do verde mirto ou das olentes flores,
que a mole terra reproduz fecunda
Convém agora que se imole a Fauno,
nos sagrados, sombrios bosques, anho
ou cabrito, conforme o seu desejo. 
Pálida, a morte, eqüitativa, bate
às cabanas dos pobres e aos palácios
dos ricos. Ó feliz Séstio, esta vida
breve não nos promete uma esperança
longa. Eis já aí a noite, e os fabulosos
manes e os reinos de Plutão vazios,
onde então, quando para lá partires,
não mais, com dados, tirarás a sorte
o reinado do vinho, como dantes,
nem mais admirarás o jovem Lícidas,
por quem ora se abrasa a juventude
e, logo mais, se abrasarão as virgens.

Tradução de Márcio Thamos (2006)

Desfaz-se o rude inverno com o retorno
da doce primavera e de Favônio,
e as máquinas arrastam quilhas secas.
Já não apraz ao gado estar no estábulo,
e nem ao lavrador sentar-se ao fogo:
não mais alveja o campo a branca neve.

Vem Vênus citereia já puxando
um cordão sob a lua sobranceira,
e as Graças, lindas, a dançar com as ninfas,
no ritmo dos seus pés a terra batem;
enquanto, grave e ardente, vai Vulcano
inspecionar as forjas dos ciclopes.

É hora de adornar a fronte clara
com o verdejante mirto ou com uma flor
que a terra, agora livre, nos oferta;
é hora de imolar, no umbroso bosque,
a Fauno a ovelhinha que ele exija,
ou um cabrito, caso ele prefira.

Com o mesmo passo adentra a Morte pálida
mesquinhas choças e soberbas torres.
Meu caro Séstio, a vida é muito breve,
nela não cabem longas esperanças.
De repente verás que já te cercam
a noite com seus manes espectrais
e a morada impalpável de Plutão.

Assim que lá chegares, dize adeus
a todos os prazeres deste mundo. 



Tradução de Pedro Braga Falcão (2008/2021) 

Dissolve-se o áspero inverno dando a bem-vinda vez à primavera e ao Favônio,
     as máquinas arrastam secas a quilhas,
e não mais se alegra o gado nos estábulos, nem o lavrador junto ao fogo,
     nem os campos alvejam com a ebúrnea geada.

Já Vênus Citereia seus coros conduz sob a luz que alteia,
     e as formosas Graças, junto com as Ninfas,
tocam na terra ora num pé, ora noutro, enquanto o refulgente Vulcano
     as imponentes forjas dos Ciclopes visita.

Agora é tempo de cingir a luzidia testa com o verde mirto,
     ou com a flor que a terra livre trouxe;
é hora de oferecer nos umbrosos bosques a Fauno sacrifícios;
    quer exija uma cordeira, quer prefira um cabrito.

A pálida Morte com imparcial pé bate à porta das cabanas dos pobres
     e dos palácios dos reis. Ó Séstio feliz,
a breve duração da vida impede-nos de encetar duradouras esperanças.
    Em breve te oprimirá a noite, e os Manes da lenda,

e a esquálida casa de Plutão; e assim que por lá vagares
    não mais te sairá nos dados a presidência do vinho,
nem admirarás o delicado Lícidas, por quem agora toda a juventude arde,
     e por quem em breve as virgens hão-de corar. 

Tradução de Frederico Lourenço (2023) 

O acre inverno é dissolvido pela mudança bem-vinda da primavera e do Favónio;
    e as máquinas arrastam as quilhas secas;
e já nem o gado se agrada com os estábulos nem o agricultor com o fogo;
    nem os prados com alvas geadas se branqueiam.
Já Vênus Citereia conduz as danças sob a lua sobranceira;
    e juntas com as Ninfas as Graças decorosas
percutem terra com pé alternado, enquanto Vulcano
   ardente visita as possantes oficinas dos Ciclopes. 
Agora fica bem ou a lustrosa cabeça atar com verde mirto, 
   ou atá-la com uma flor que as terras soltas oferecem.
Agora fica bem sacrificar a Fauno em bosques sombrios,
    quer ele exija uma cordeira, quer prefira um cabrito.
A pálida Morte atinge, com pé imparcial, casebres de pobres
    e torres de reis. Ó bem-aventurado Séstio,
o píncaro breve da vida impede-nos de dar início a uma esperança longa;
    já a noite oprime, assim como os Manes da fábula
e a casa insípida de Plutão. Assim que lá chegas,
    nem as soberanias do vinho sortearás com dados,
nem mirarás o jovem Licídas, com quem se escalda a rapaziada
    toda agora; e com quem, em breve, as virgens se vão encalorar. 

Tradução de Guilherme Gontijo Flores (2024)

Solvem-se o inverno amargo à feliz primavera e ao Favônio,
   roldanas correm sobre as quilhas secas,
gado não quer mais curral, lavrador não procura mais por fogo
   nem prados na geada então se alvejam.
Vênus Citérea guia seu coro por sob a lua clara, 
   acompanhando as Ninfas belas Graças
batem os pés alternados na terra e assim Vulcano ardente
    incita as oficinas dos Ciclopes.
Hoje convém coroar na cândida fronte murta verde
    ou flor que inculta terra florescera,
hoje à sombra dos sacros bosques convém sagrar a Fauno
    cabrito ou anho -- como assim prefere.
Pálida Morte idêntico pé baterá em casas pobres
   ou régias torres. Ó alegre Séstio,
esta brevíssima vida nos veta de longas esperanças,
  a noite já te oprime, os Manes (mitos)
e o ínfimo paço Plutônio; logo que para lá partires
   não tentarás no dado reinos víneos,
não mais verás o teu Lícidas tenro por quem se abrasam jovens
   e em breve as virgens todas viram fogo. 

Tradução de Trajano Vieira (2025)

O inverno acre cede, a primavera e o Zéfiro
tornam, carenas secas vão ao mar.
Alguém apaga o fogo, a rês já deixa o estábulo.
O gelo alvo não branqueia o prado.
Vênus conduz o coro, as Graças belas juntam-se
às Ninfas, cadenciando os pés à luz
da lua. Sob o auspício de Vulcano inflamam
as forjas na oficina dos Ciclopes.
Perfume o mirto verde as tranças dos cabelos,
a flor que espouca quando a terra se abre! 
No bosque umbroso impõe-se imolar a ovelha
ao Fauno, caso não se escolham cabras.
A morte branca pulsa o mesmo pé na torre
do rei e no casebre. Rico Séstio,
a vida breve barra a esperança longa.
A noite logo pesa e o lar esquálido
de Plutão, Manes fabulares. Quando partas,
dados não mais te elegem o ás da festa,
Licidas não admiras mais, por quem os jovens
ardem agora e, em breve, a moça inflama-se. 


    

sexta-feira, janeiro 02, 2026

As Jarras de Zeus (Ilíada, Canto 24, Versos 522-551) - 7 traduções

Tradução de André Malta (2024)

"Mas vamos, senta-te ao trono: § deixemos, de todo modo,
que as dores repousem no ânimo, § ainda que desgostosos,
porque ganho algum provém § do gélido prantear.
Pois isto os deuses fiaram § para os míseros mortais:
que vivam a penar - eles § próprios são sem aflições.
Sobre a soleira de Zeus § estão postas duas jarras
com dádivas que dá: uma § de más, e a outra de boas.
Pra quem as dá misturadas § o desfruta-raio Zeus,
esse então ora com males § cruza, ora então com venturas;
mas pra quem dá tão somente § horrendas, põe-no afrontado:
a maligna fome sobre § a terra divina o move,
e ele vaga desonrado § por deuses e por mortais. 
Assim a Peleu os deuses § deram esplêndidas dádivas,
desde o nascimento: sobre- § pujando a todos os homens
em riqueza mais fortuna, § reinava sobre os mirmídones,
e, embora mortal, fizeram § de uma deusa sua esposa.
Mas até mesmo para ele § o deus pôs um mal, pois não
lhe nasceu prole de filhos § soberanos no palácio:
gerou um só, prematuro § em sua morte. E agora não 
o amparo enquanto envelhece, § já que, tão longe da pátria,
demoro-me em Troia, a ti § e a teus filhos afligindo.
Tu também, ouvimos que eras § afortunado, ancião:
quanto delimitam Lesbos, § sede de Mácar, embaixo,
e, de cima para baixo, § a Frígia e o Helesponto infindo,
aí dizem que em riqueza § e prole sobrepujavas.
Depois, porém, que os Celestes § te deram tal sofrimento,
sempre em torno da cidade § há combates e matanças.
Mas suporta, e no teu ânimo § não lamentes sem cessar,
pois tu não ganharás nada § com penar pelo teu filho:
não o levantarás antes § de padecer outro mal" 

Tradução de Leonardo Antunes (2022):

Mas chega disso. Vem aqui sentar-te
sobre este trono. Deixemos de lado
a tristeza nos nossos corações,
por mais angustiados que estejamos.
Não há nada que possa ser ganhado
agora com o luto congelante,
pois foi assim que a vida foi tecida
 pelos deuses aos pobres dos mortais,
para viverem sempre angustiados —
e eles próprios não têm preocupações.
É sabido que existem duas urnas
postas ao lado dos umbrais de Zeus.
Os presentes que dão são diferentes:
uma dá males e a outra dá bênçãos.
Quando Zeus que se apraz com os trovões,
depois de misturar das duas urnas,
concede seus presentes para os homens,
 ora dá males, ora dá benesses.
Mas, quando ele resolve conceder
apenas os dons lúgubres a alguém,
faz um homem tristíssimo, que vaga
com fome horrível pelo chão sagrado,
sem nunca receber nenhuma honra
nem entre os deuses nem entre os mortais.
Foram tais os esplêndidos presentes
que os deuses concederam a Peleu
no dia em que nasceu, pois se tornou
eminente entre todos os humanos,
tanto em ventura quanto na riqueza.
Reinava sobre os homens mirmidões
e, sendo apenas humano, mortal,
recebeu uma deusa em casamento.
Porém o deus também lhe concedeu
a desgraça, pois ele inda carece
de uma estirpe de filhos poderosos
para encher o salão de seu palácio.
Teve somente um único rebento,
 de vida curta, que nem poderá
lhe dar cuidados conforme envelhece —
pois permaneço ainda muito longe
da terra pátria, acampado em Troia,
causando só tristezas aos teus filhos
e a ti mesmo, ancião, que ouvi dizer
ter sido próspero em tempos passados.
De fato, tanto em Lesbos, lá no assento
de Mácar, e também mais para o norte,
quanto também na Frígia, desde cima,
e por todo o Helesponto interminável —
em todas essas partes, velho, falam
de ti com muitos filhos e riquezas.
Porém agora, como as divindades
celestes te trouxeram a desgraça,
em torno à tua cidadela há sempre
batalhas e matanças de guerreiros.
Ainda assim, resiste! Não te doas
demasiadamente o coração,
pois não há nada mais a ser ganhado
 lamentando o destino de teu filho,
nem poderás fazer com que reviva.
É mais fácil sofreres outro mal.”

Tradução de Christian Werner (2018)

"Pois senta na poltrona, e, apesar de tudo, as aflições
deixemos descansar no ânimo, embora angustiados.
De nada adianta o lamento gelado. 
Isto os deuses fiaram para os pobres mortais:
viver angustiado. Despreocupados são eles próprios.
Dois tipos de cântaro estão no chão de Zeus
com dons que ele dá, males num, bens no outro.
A quem Zeus prazer-no-raio der uma mistura,
este ora obtém algo ruim, ora algo bom;
a quem der só coisas funestas, torna-o desprezível, 
danosa fome canina impele-o sobre a terra divinal,
e vaga nem honrado pelos deuses nem pelos mortais. 
Assim também a Peleu os deuses deram dons radiantes
desde o nascimento: entre todos os homens exceleu
na fortuna e na riqueza, rege os mirmidões
e, para ele, um mortal, fizeram de uma deusa sua esposa.
Mas também a ele o deus impôs um mal: que não
houvesse, em sua casa, progênie de filhos senhoris,
e gerou um só, vítima da morte não sazonal; dele,
envelhecendo, não cuido, pois, bem longe da pátria,
quedo-me em Troia, afligindo a ti e a teus filhos. 
Ouvimos que também tu, velho, antes era afortunado:
tanto quanto concentram Lesbos, assento de Ditoso,
a Frígia terra adentro e o ilimitado Helesponto,
a esses, velho, dizem que em riqueza e filhos superas.
Porém, desde que os Celestes te trouxeram essa desgraça,
em volta da cidade há sempre combates e carnificinas.
Aguenta e não lamentes sem cessar em teu ânimo;
nada realizarás, atormentando-te por teu filho,
nem o ressuscitarás, antes de sofreres outro mal" 

Tradução de Frederico Lourenço (2003/2013/2019)

Mas agora senta-te num trono; nossas tristezas deixaremos
que jazam tranquilas no coração, por muito que soframos.
Pois não há proveito a tirar do frígido lamento.
Foi isto que fiaram os deuses para os pobres mortais:
que vivessem no sofrimento. Mas eles próprios vivem sem cuidados.
Pois dois são os jarros que foram depostos no chão de Zeus,
jarros de dons: de um deles, dá os males; do outro, as bênçãos.
Àquele a quem Zeus que com o trovão se deleita mistura a dádiva,
 esse homem encontra tanto o que é mau como o que é bom.
Mas àquele a quem dá só males, fá-lo amaldiçoado,
e a terrível demência o arrasta pela terra divina
e vagueia sem ser honrado quer por deuses, quer por mortais.
Assim, também a Peleu os deuses deram gloriosos dons
535 desde o nascimento: a todos os homens sobrelevava
em ventura e riqueza e era rei dos Mirmidões;
sendo mortal, deram-lhe uma deusa como esposa.
Mas além disto lhe deram os deuses o mal, porque
não foi gerada no palácio uma progénie de filhos vigorosos,
 mas só teve um filho, fadado para uma vida breve. E eu
nem o acompanho na sua velhice, visto que bem longe da pátria
estou aqui sentado em Troia, atormentando-te a ti e aos teus filhos.
Mas também de ti, ó ancião, ouvimos dizer que outrora foste feliz
Tudo o que até Lesbos, sede de Mácaro, está compreendido,
545 e lá para cima, para a Frígia, assim como o amplo Helesponto:
dizem que entre estes povos eras distinto pela riqueza e pelos filhos.
Mas desde que os celestiais Olímpios te trouxeram esta desgraça,
sempre em torno da tua cidade há combates e morticínios.
Mas aguenta: não chores continuamente no teu coração.
550 Pois de nada te aproveitará lamentares o teu filho,
nem o trarás à vida, antes de teres já sofrido outro mal.»

Tradução de Haroldo de Campos (2003)

Mas senta agora neste trono: aflitos ambos,
deixemos que serene a dor no coração,
pois do pranto glacial não deriva nenhum
proveito. Assim os deuses urdem o fadário 
dos infaustos mortais: um viver agoniado,
sendo os numes incólumes; pois há dois cântaros
nos umbrais de Zeus, cheios de dons que ele nos dá,
um de ruins, de bons o outro. Mescla-os Zeus fulmíneo
e os versa: ora o mal, ora o bem, deparará 
quem os receba; quando maldosos opróbrios
apenas colha, malsinado vagará
pela terra divina, famélico, menos-
-prezado por mortais e deuses. A Peleu,
os deuses, com preciosos dons, lhe galardoaram 
desde o berço: excedia a todos mais em bens
e ventura; era rei dos Mirmidões; mortal,
de uma imortal se fez esposo. Um pesadume
o nume lhe infligiu: uma prole de príncipes
não gerou no palácio, salvo um, morituro - 
eu -, que dele não posso cuidar na velhice,
pois estou longe, em Troia, danando a ti e aos teus
filhos. Sênior, ouvimos que já foste muito
venturoso, excedendo em bens e prole a todos
nos limites de Lesbos, do rei Mácar, mar 
alto e, no plaino acima, a Frígia e o Helesponto, ainda,
infindo. Desde quando os Urânios te enviaram
malefícios, batalhas e carnagem cercam-te
a urbe. Sofre-os, paciente, e deixa de lamurias;
por teu filho agoniar-te, não fará com que ele 
ressuscite, mas outro mal pode advir-te, antes.”

Tradução de Carlos Alberto Nunes (1941)

"Vamos assenta-te agora no trono; apesar de angustiados
é conveniente deixar que as tristezas no peito se aplaquem.
Nada o homem lucra em deixar-se invadir pelo gélido pranto.
Sempre viver em tristeza: eis a sorte que os deuses eternos
de descuidada existência aos mortais infelizes dotaram.
Sobre os umbrais do palácio de Zeus dois tonéis se acham postos
de suas dádivas; um só de males; de bens o outro cheio.
Se misturando-as Zeus grande senhor dos trovões as derrama
quem as recebe ora goza ora males por sorte lhe tocam;
mas o que dele recolhe somente infortúnios escárnio
vivo se torna; em extrema miséria na terra divina
é condenado a vagar desprezado por homens e deuses.
Ao nascimento também de Peleu os eternos lhe deram
dons inefáveis: riquezas sem conta dos homens a estima
e o incontestado governo dos fortes guerreiros Mirmídones.
Mais: apesar de mortal como esposa uma deusa lhe cedem.
Grande infortúnio porém concederam-lhe os deuses negando-lhe
filhos que o mando pudessem herdar-lhe no belo palácio;
540 a mim somente gerou destinado a morrer muito cedo.
Longe da pátria não posso cercar de cuidados o velho
pois me acho em Tróia causando-te e aos filhos desditas sem conta.
Tu também velho já foste feliz pelo que me contaram.
Quantos guerreiros existem de Lesbos na sede de Mácar
até para o norte da Frígia nos lindes do vasto Helesponto
já dominaste abençoado com filhos e bens infindáveis.
Mas desde o instante em que os deuses celestes tal praga te enviaram
guerra somente e homicídios em torno dos muros te soam.
Vamos suporta! Não deves à dor excruciante entregar-te.
Nada consegues chorando teu filho com tantos encómios;
não ressuscita e além disso outro mal poderias causar-te.”

Tradução de Odorico Mendes (1874) 

Senta-te; ao luto agora devemos tréguas.
Viver sempre em tristeza é lote humano:
Existir sem cuidados é dos deuses.
Há dois tonéis ao limiar de Jove
De males e de bens: se misturados
Os derrama o Tonante, o que os recebe
Ora sofre e ora goza; mas, se entorna
Somente males, em penúria o triste
Vaga de pesadume em pesadume,
Dos imortais ludíbrio e dos mundanos.
Assim teve Peleu mil dons celestes,
Brilho, opulência, império e uma deidade
Por consorte; mas Júpiter negou-lhe
Ao trono sucessor, porque imaturo
Devo longe acabar, sem que de arrimo
Lhe seja na velhice, em Tróia estando
Para desgraça dela e teu flagelo.
Também lograste já de quanto abrange
Lesbos ao sul, de Macaris morada,
A Frígia eoa e amplíssimo Helesponto;
Brilhaste, velho, em filhos e riquezas;
Mas, dês que o Céu mandou-te a crua guerra,
Geme Ílio de matança e horror cingida.
A alma em luto perpétuo não consumas;
Com te afligir Heitor não ressuscitas;
Quiçá maiores danos te ameaçam.”