sábado, janeiro 24, 2026

Calino de Éfeso, Fragmento 1, Versos 1-4 (Trad. Donaldo Schüler)

 Fragmento 1, versos 1-4 (ed. West).


Até quando vocês vão ficar na cama?

Quando é que veremos em vocês ânimo guerreiro,

    meus jovens? Vocês não têm vergonha dos vizinhos,

com toda essa preguiça? Até parece que estamos entronizados 

     na paz, enquanto a guerra devasta a terra. 

sexta-feira, janeiro 23, 2026

Arquíloco - Traduções de Donaldo Schüler

 Fragmento 1 (ed. West)

Servidor eu sou do deus da Guerra

     e no amoroso dom das Musas eu versado me declaro. 


Fragmento 2 (ed. West)

A lança me dá vinho, a lança me dá pão,

     eu como, eu bebo com a lança na mão. 


Fragmento 5 (ed. West)

Um saio apoderou-se do meu escudo e se ri de mim,

   para meu pesar -- arma excelente -- a um matagal a joguei na fuga.

Mas salvei a minha vida. O que me interessa o escudo?

    Que se vá! Em breve terei outro igual.


Fragmento 11 (ed. West)

Nada melhorarei chorando, nada

    arruinarei no gozo e florescendo em festas.


Fragmento 177 (ed. West)

Ó Zeus, Zeus pai, teu é o poder nas alturas,

   as obras dos homens contemplas,

as criminosas e as praticadas na lei. Observas

   a soberba e a moderação de todos.


Fonte: Schüler, Donaldo. Literatura Grega. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985. 

quinta-feira, janeiro 22, 2026

Mimnermo fr. 1 - Trad. Donaldo Schüler

 Que é a vida? O que é gostoso longe da esplêndida Afrodite?
Quero morrer, quando cessar a fome
dos segredos do amor, dos suaves favores, do leito --
estas e não outras são as flores da juventude
de homens e mulheres. Sobrevindo dolorosa
a velhice, deformadora de homens formosos,
cuidados amargos roem as entranhas,
cessa a alegria da luz solar,
vem a repulsa dos jovens e o desprezo das mulheres.
Amarga fizeram a velhice os deuses. 

Fonte: Schüler, Donaldo. Literatura Grega. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985. 

quarta-feira, janeiro 21, 2026

William Blake: De Jerusalém (A Invocação do Capítulo I)

      Do Sono de Ulro! e da passagem através da 
Eterna Morte! e do despertar para a Vida Eterna. 

Este o tema que noite após noite me convoca no sono e cada manhã
Me desperta ao raiar do sol. Então avisto o Salvador sobre mim,
A esparzir os seus raios de amor e a ditar as palavras desta canção.

"Desperta! Desperta! Oh tu que dormes na terra das sombras, acorda! Expande-te!
Estou em ti e estás em mim, em mútuo amor divinal:
Fibras de amor de um humano por outro, na terra deleitosa de Álbion.
Em todo o escuro vale do Atlântico, para baixo das colinas do Surrey, 
Uma água negra se acumula. Retorna, Álbion! Retorna!
Chamam por ti teus irmãos, e teus pais, e teus filhos.
Tuas amas e tuas mães, tuas filhas e tuas irmãs
Choram pela enfermidade de tua alma. E a Divina Visão se escurece.
A tua Emanação, que exibia os seus folguedos perante tua face,
Regozijando-se com suas filhas no Divino seio...
A tua Emanação onde a ocultaste, a adorável Jerusalém?
Onde a ocultaste da visão e do fruir do Todo-Santo?
Eu não sou um Deus distante, sou um irmão e um amigo;
Dentro de vossos peitos resido, e vós residis em mim:
Eis! Somos Um, a perdoar todo Mal, sem esperar recompensa! 
Sois os meus membros, oh vós que dormis em Beúlas, a terra das sombras!" 

O Homem, porém, perturbado se afasta, a descer para os vãos escuros, 
Dizendo: "Não somos Um; somos muitos, oh enganosa
Aparição, criada pelo cérebro incendiado! Sombra de imortalidade,
Que não quer perder minh'alma, vítima do teu amor! Que prende
O homem ao próprio inimigo do homem por meio de ilusórias amizades!
Jerusalém não mais existe! Suas filhas são indefinidas:
Somente pelo raciocínio o homem pode viver, e não pela fé. 

As minhas montanhas são minhas, e para mim vou guardá-las:
Os montes Malvern e os Cheviots, os Wolds, Plinlimmon e Snowdon
São meus. Aqui, sobre eles, construirei minhas leis de Virtude Moral!
Não mais haverá a humanidade: apenas a guerra e o poder e a vitória!"

Assim falou Álbion, com ciosos temores, escondendo a sua Emanação
Sobre o Tâmisa e o Medway, rios de Beúlas; dissimulando
Seu ciúme diante do trono divino, gelado, sombrio! 

As nuvens recobrem as margens do Tâmisa! Os antigos pórticos de Álbion
Se escurecem! São arrastados através do espaço infinito, espalhados
Pelo Vácuo, em desespero incoerente! Cambridge e Oxford e Londres
São levadas com os Anéis estelares, espedaçadas e disseminadas
Em Penhascos e Abismos de dor, ampliados sem dimensão, terríveis.
Corre o sangue pelas montanhas de Álbion, os gritos de guerra e tumulto
Ressoam na noite que não tem limite; e toda a perfeição humana,
Montanhas, torrentes e cidades ficaram pequenas e secas e escuras. 



Of the Sleep of Ulro! and of the passage through 
Eternal Death! and of the awaking to Eternal Life. 

 This theme calls me in sleep night after night, & ev'ry morn 
Awakes me at sun−rise, then I see the Saviour over me 
Spreading his beams of love, & dictating the words of this mild song. 

"Awake! awake O sleeper of the land of shadows, wake! Expand! 
I am in you and you in me, mutual in love divine: 
Fibres of love from man to man thro Albion's pleasant land. 
In all the dark Atlantic vale down from the hills of Surrey
 A black water accumulates, return Albion! Return! 
Thy brethren call thee, and thy fathers, and thy sons,
 Thy nurses and thy mothers, thy sisters and thy daughters
 Weep at thy souls disease, and the Divine Vision is darken'd: 
Thy Emanation that was wont to play before thy face,
 Beaming forth with her daughters into the Divine bosom --
Where hast thou hidden thy Emanation lovely Jerusalem,
 From the vision and fruition of the Holy−one? 
I am not a God afar off, I am a brother and friend; 
Within your bosoms I reside, and you reside in me:
 Lo! we are One; forgiving all Evil; Not seeking recompense! 
Ye are my members O ye sleepers of Beulah, land of shades! 

 But the perturbed Man away turns down the valleys dark,
[Saying. We are not One: we are Many, thou most simulative
Phantom of the over heated brain! shadow of immortality!
 Seeking to keep my soul a victim to thy Love! which binds 
 Man the enemy of man into deceitful friendships: 
Jerusalem is not! her daughters are indefinite:
 By demonstration, man alone can live, and not by faith. 

My mountains are my own, and I will keep them to myself:
 The Malvern and the Cheviot, the Wolds Plinlimmon & Snowdon 
Are mine. here will I build my Laws of Moral Virtue! 
Humanity shall be no more: but war & princedom & victory!"

  So spoke Albion in jealous fears, hiding his Emanation
 Upon the Thames and Medway, rivers of Beulah: dissembling 
His jealousy before the throne divine, darkening, cold! 

 The banks of the Thames are clouded! the ancient porches of Albion are
 Darken'd! they are drawn thro' unbounded space, scatter'd upon
 The Void in incoherent despair! Cambridge & Oxford & London, 
Are driven among the starry Wheels, rent away and dissipated,
 In Chasms & Abysses of sorrow, enlarg'd without dimension, terrible.
 Albions mountains run with blood, the cries of war & of tumult 
Resound into the unbounded night, every Human perfection 
Of mountain & river & city, are small & wither'd & darken'd
 Cam is a little stream! Ely is almost swallowd up! 
Lincoln & Norwich stand trembling on the brink of Udan−Adan! 
Wales and Scotland shrink themselves to the west and to the north! 
Mourning for fear of the warriors in the Vale of Entuthon−Benython:
 Jerusalem is scatter'd abroad like a cloud of smoke thro' non−entity: 
Moab & Ammon & Amalek & Canaan & Egypt & Aram 
Recieve her little−ones for sacrifices and the delights of cruelty 

 Trembling I sit day and night, my friends are astonish'd at me. 
Yet they forgive my wanderings, I rest not from my great task! 
To open the Eternal Worlds, to open the immortal Eyes 
Of Man inwards into the Worlds of Thought: into Eternity 
Ever expanding in the Bosom of God. the Human Imagination

terça-feira, janeiro 20, 2026

A Koré (Sophia de Mello Breyner Andresen)

 Alta e solene mais alta do que a luz
A pesada palidez sagrada do Pártenon
Reina sobre o dia

Folhagens dançam movidas pelo vento

Na mesa ao lado a Koré de nariz direito e cabelo entrançado
Serve de intérprete e erguendo a sua taça
Brinda com os comerciantes tedescos que saquearam
A Grécia e a Europa quase toda
Mas que após a derrota de seus generais
Ganharam a guerra

O café tem pó -- relíquia dos turcos

Porém no vinho resinado no frescor da vinha
Na fina suave brisa nas pálidas colunas
Algo dos deuses súbito visita
A luz do instante 

Sophia de Mello Breyner Andresen. Ilhas. in Obra Poética. Rio de Janeiro: Tinta da China, 2018. 

segunda-feira, janeiro 19, 2026

William Blake - O Pequeno Vagabundo

 Oh mãe querida, mãe querida, a Igreja é fria,
Mas doce e quente e boa é a Cervejaria;
onde há bom trato ao certo sei dizer esperto,
E esse trato no Céu jamais irá dar certo. 

Mas se dessem cerveja a nós lá na Igreja,
E uma doce fogueira, às almas benfazeja,
Cantar e orar se iria quanto é longo o dia,
E da Igreja ninguém jamais se afastaria. 

O Padre então rezar, beber, cantar pudera,
Quais pássaros seríamos na primavera
E teria a Ilusão, na Igreja em prontidão,
Prole mais forte, sem jejum e sem bastão.

E como um pai radiante ao ver os filhos seus
Contentes e felizes tal como Ele, Deus,
Concedendo quartel ao Diabo, ou ao tonel,
Dar-lhe-ia um beijo, e mais bebida, e mais burel. 

Tradução de Paulo Vizioli 

Dear Mother, dear Mother, the Church is cold, 
But the Ale-house is healthy & pleasant & warm;
 Besides I can tell where I am use'd well,
 Such usage in heaven will never do well. 

 But if at the Church they would give us some ale, 
 And a pleasant fire, our souls to regale,
We'd sing and we'd pray, all the live-long day,
 Nor ever once wish from the Church to stray.

Then the Parson might preach & drink & sing. 
 And we'd be as happy as birds in the spring: 
 And modest Dame Lurch, who is always at Church, 
Would not have bandy children nor fasting nor birch. 

 And God like a father rejoicing to see, 
 His children as pleasant and happy as he: 
 Would have no more quarrel with the Devil or the barrel,
But kiss him & give him both drink and apparel.

in: William Blake - poesia e prosa selecionadas. Introdução, Tradução e Notas de Paulo Vizioli. São Paulo: Nova Alexandria, 1993. 

domingo, janeiro 18, 2026

Mário Faustino - Cavossonante Escudo Nosso

 Cavossonante escudo nosso
          palavra: panacéia
ornado de consolos e compensas
enquanto a seta-fado
nos envenena ambos tendões
                                 rachados
No sabuloso mar na salsa areia
alimento não cresce
                             cobras crescem
e nos impõe silêncio o bramir vero
do veado oceano
                        cio cio
verdade, matogrosso universal
viçosamente ouvida
                     não palavras pa
lavras
                   e do cosmo selvagem
recém recém tombada
AMOR
estrela  inominada   pedra  lava
escudo  panejante   panacéia
                                         (a cruz
se enfuna)
bólide trespassando chão-essência
peito-presença

                           AQUI

         estamos.
Entre nome e fenômeno balança
nunca meu coração:
                             ferido sangra
pelo rosto do ser e por seus rins,
indiferente, he le na, às sílabas
véus teu ventre disfar-farçando:
ele singra ela sangra ele roxo
           ....espuma...
pela forma da coisa por seu peso
e para de pulsar rugindo contra
o que serve de rocha e despedaça
a liberdade sétima -- tocar
a liberdade oitava -- penetrar
a liberdade inteira -- conhecer: 
 
                      COR  AÇÃO

o sopro do metal ressoa chama
para a luta real
                     (há remoinhos)
cavossonante escudo rebentamos
a fraga  estilhaçamos  nus  sem-pele
estrelorientados  rumo-nós
                               boiamos
ainda que parados:
                            mudos:
                 
                                      somos. 


Fonte: Mário Faustino. Poesia Completa e Poesia Traduzida. Introdução, Organização e Notas: Benedito Nunes.  São Paulo: Max Limonad, 1985. 

sábado, janeiro 17, 2026

Evohé Bakkhos

 Evohé deus que nos deste

A vida e o vinho

E nele os homens encontraram

O sabor do sol e da resina

E uma consciência múltipla e divina. 


Sophia de Mello Breyner Andresen


in: Obra Poética. Rio de Janeiro: Tinta da China, 2018. 

sexta-feira, janeiro 16, 2026

Guilherme de Almeida - Carta à Minha Alma

 Minha desconhecida
                                  Nós vivemos
num mundo tão pequeno para nós,
tão juntos - e ainda não nos conhecemos.
Você não sabe ainda a cor
dos meus olhos, nem a inflexão da minha voz,
nem o humano calor
das minhas pobres mãos de barro,
nem o perfume azul do meu cigarro...
Eu ainda não sei a altura do seu céu,
nem o vôo levíssimo do véu
dos seus sonhos e dos seus dedos,
nem o nível dos seus folguedos, 
nem o fundo dos seus segredos...
No entanto, um mesmo teto abençoa e agasalha
nossas vidas alheias
(como é um mesmo o que abriga o crente e a santa):
moramos paredes-meias,
como o homem triste que trabalha
e a menina boêmia que canta...
Nós somos dois anônimos vizinhos.
E, para sermos "dois" no mundo, para
sermos assim sozinhos
entre a nossa recíproca ignorância,
entre nós dois, há apenas a distância
da parede comum que nos separa.
Ela chama-se "Vida".
Só ela nos divide -- a opaca intrometida.
Contra essa intrusa, para disfarçá-la
eu, daqui do meu lado, ao longo desta sala,
estendi numa longa, longa estante
toda uma biblioteca anestesiante.
Do seu lado, ela deve estar vestida
com um chale de cachemira sobre o qual
ressona o oco de uma guitarra adormecida,
e fenece um retrato íntimo e antigo, a lápis,
com uma florzinha pálida dos Alpes
esmigalhada no cristal...
Assim tão juntos nós vivemos
e infelizmente nem sequer nos conhecemos. 
Hoje, não sei por que, 
tive vontade de escrever para você,
de perguntar baixinho ao seu ouvido:
- Diga! para que nós nos encontremos
será preciso, então, que algum ciclone
se abata sobre nós e desmorone
a parede comum que nos separa: a Vida?
Ou -- o que para mim será mais morte ainda -- 
minha linha imortal, minha alma linda,
será que alguma vez nós já nos encontramos
e, sem nos ver, sem nos reconhecer, passamos? ...

Fonte. Carlos Vogt (org.) Os Melhores Poemas de Guilherme de Almeida. São Paulo: Global, 1993. 

quinta-feira, janeiro 15, 2026

Ovídio - Amores 1.5 - 3 traduções

1. José Paulo Paes (1997)
Era intenso o calor, passava já do meio dia;
    Estendi-me na cama a repousar os membros.
Das janelas, em parte abertas, em parte cerradas,
   Vinha luz semelhante à que há dentro das matas,
À luz mortiça do crepúsculo, após Febo sumir,
  Ou de antes de a noite ir-se sem que seja dia.
A esta luz é que se hão de mostrar as jovens tímidas;
   Nela, o pudor medroso espera achar refúgio. 
Eis que chega Corina numa túnica ligeira, 
   Cobriam os cabelos seu alvo pescoço;
Assim entrava pela alcova a formosa Semíramis,
   Diz-se, e Laís, a quem tantos homens amaram.
Desvesti-lhe a túnica; de tão tênue, mal contava:
  Ela lutou, entanto, para cobrir-se com 
A túnica, mas sem nenhum empenho de vencer:
   Venceu-a, sem pesar, a sua traição.
Ficou em pé, sem roupa alguma, diante dos meus olhos.
  Não havia, em seu corpo, um único defeito.
Que ombros e que braços a mim foi dado ver, tocar!
  Os belos seios, que deleite comprimí-los!
Que ventre mais polido logo debaixo do peito!
  As ancas, que primor! Que juvenil a coxa!
Por que pormenorizar? Nada vi de não louvável! 
   E a nudez lhe estreitei contra o meu próprio corpo. 
Quem não sabe o resto? Exaustos, repousamos depois.
   Que mais outros meios-dias prósperos me sejam!

2. Lucy Ana de Bem (2010)
Fazia calor e o dia tinha cumprido a metade de suas horas;
Os membros a descansar no meio do leito repousei.
Parte da janela estava aberta, parte fechada,
Tais lumes costumam ter as selvas,
Tais os crepúsculos que pouco alumiam quando Febo foge,
Ou quando a noite parte sem, contudo, ter nascido o dia;
É a essa luz que a menina casta deve expor-se,
Onde o tímido pudor anseie encontrar abrigo.
Eis, Corina chega, coberta por uma túnica lassa,
Com os cabelos repartidos cobrindo o cândido colo;
Da forma como, dizem, a formosa Semíramis adentrou a alcova
  E Laís, amada por muitos homens.
Arranquei-lhe a túnica; transparente, não estorvava tanto,
Entretanto, ela lutava para cobrir-se;
Ela, que lutava como se não quisesse vencer, 
Sem dificuldade foi vencida por sua própria cumplicidade.
Quando se pôs de pé, deposta a veste, ante os meus olhos,
Por todo o corpo, em toda a parte, defeito algum havia. 
Que ombros, que braços, vi e toquei! 
A forma dos mamilos quão apta era ao toque!
Que ventre perfeito sob o rijo peito!
Que ancas fartas! Que coxa juvenil!
Para que entrar em detalhes? Nada vi não digno de elogio, 
E nua, abracei-a junto ao meu corpo.
Quem desconhece o restante? Rendidos, ambos repousamos.
Que me ocorram muitos meios-dias como esse!  

3. Carlos Ascenso André (2011) 
Fazia calor, e o dia já tinha cumprido metade das suas horas;
   pousei em cima da cama o corpo, para lhe dar descanso.
Uma parte da janela estava aberta, a outra parte fechada;
   assim era a luz, como a que os bosques costumam deixar entrever,
como a penumbra do crepúsculo, à hora em que o sol se esvai,
  ou quando a noite já se foi e não nasceu, ainda, o dia;
essa é a luz que deve amostrar-se a jovens recatadas;
   nela, a timidez e a vergonha encontram refúgio.
Eis que surge Corina, resguardada e envolta em sua túnica,
   os cabelos caídos de ambos os lados do colo resplandecente;
assim formosa entrava Semíramis no quarto,
  diz-se, e Laís, amada por tantos homens.
Arranquei-lhe a túnica; e não é que me estorvasse muito a sua quase transparência, 
   mas ela resistia por estar coberta daquela túnica;
pois que resistia assim como quem não quer vencer,
   foi vencida sem custo, com a sua própria ajuda.
Quando ela surgiu diante de meus olhos, o manto caído aos pés,
   no corpo inteiro nem uma só mácula se me mostrou:
Que ombros! Que braços eu vi e toquei!
  A beleza dos seios, como se pôs ao dispor dos meus afagos!
Como era liso, abaixo da linha do peito, o ventre!
   Que grandiosidade e perfeição nas coxas! Que frescura nas pernas!
Que mais minúcias direi? Nada vi que não mereça elogio,
    e foi a nudez do seu corpo que apertei contra o meu. 
O resto, quem não o sabe? Depois da fadiga, repousamos ambos.
  Assim possam correr muitas vezes as minhas tardes! 

Fontes
ASCENSO, C.A. Ovídio. Amores. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
DE BEM, L. Primeiro Livro dos Amores. São Paulo: Hedra, 2010. 
PAES, J.P. Poesia Erótica em Tradução. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

quarta-feira, janeiro 14, 2026

Condição (Jaa Torrano)

Cumprindo as instruções do pai
Hefesto moldou de terra e água
imagem símil a Deusas imortais
todos os Deuses lhe deram parte
das honras que na partilha têm,
provindos dessa mesma imagem
herdamos esta ambígua finitude.

Só dos Deuses, só dos varões
ser respiramos da mesma mãe,
mas todo poder discreto separa,
um não vale e o Céu permanece
brônzea sede irresvalável sempre,
ainda nos aproxima dos Imortais
a certeira intuição ou a natureza.

Sonho sombrio somos homens,
mas quando vem dom de Zeus
brilha límpida em nós a doce
graça da vida que em nós vive.

Jaa Torrano. Solidão Só Há de Sófocles. São Paulo: Ateliê, 2025. 

terça-feira, janeiro 13, 2026

Contra a Esperança - Carlos Nejar

É preciso esperar contra a esperança.
 Esperar, amar, criar
 contra a esperança
 e depois desesperar a esperança
mas esperar, enquanto
um fio de água, um remo,
peixes existem e sobrevivem
no meio dos litígios;
enquanto bater
a máquina de coser
e o dia dali sair
como um colete novo.

É preciso esperar
 por um pouco de vento,
um toque de manhãs.
E não se espera muito.
 Só um curto-circuito
 na lembrança. Os cabelos,
ninhos de andorinhas
e chuvas. A esperança,
 cachorro a correr
 sobre o campo
e uma pequena lebre
que a noite
em vão esconde.

 O universo é um telhado
com sua calha, tão baixo
e as estrelas, enxame
de abelhas na ponta.

É preciso esperar contra a esperança
 e ser a mão pousada
no leme de sua lança.

 E o peito da esperança
 é não chegar;
seu rosto é sempre mais.
 É preciso desesperar
a esperança
como um balde no mar.

Um balde a mais
na esperança
e sobre nós.

segunda-feira, janeiro 12, 2026

Dante - Lírica

 XXXIX

Dante da Maiano a diversos poetas

Vê bem, poeta, esta visão que tive
e dá-me, peço, o seu significado:
-- uma mulher, formosas e por quem vive
meu coração servil e dedicado,

traz-me um presente: flores que convivem
com ramos e folhagem bem somados;
logo depois, na blusa dela estive,
nela vestido e a ela conformado.

Aí então, amigo, me atrevi
a tomá-la em meus braços já sem medo.
E sem lutar, sorria, a minha bela!

No seu sorriso, em beijos me perdi:
não digo mais, que me pediu segrefo.
-- E minha mãe, já morta, ia com ela. 


XXXIX

 Dante da Maiano a diversi rimatori

 Provedi, saggio, ad esta visione, 
e per mercé ne trai vera sentenza.
Dico: una donna di bella fazone,
 di cu' el meo cor gradir molto s'agenza,

 mi fé d'una ghirlanda donagione, 
verde, fronzuta, con bella accoglienza:
 appresso mi trovai per vestigione
 camicia di suo dosso, a mia parvenza.

 Allor di tanto, amico, mi francai,
 che dolcemente presila abbracciare: 
non si contese, ma ridea la bella.

 Così, ridendo, molto la baciai:
 del più non dico, ché mi fé giurare.
 E morta, ch'è mia madre, era con ella. 


XL


Resposta de Dante Alighieri

Compete a ti julgar e não te esquives,
-- ó homem que és tão sábio, tão louvado.
Para não discutir sonhos que vives,
às palavras mais finas vou atado.

Desejo verdadeiro, chama viva,
que a beleza e o valor movem somados,
-- eis o que amiga opinião cultiva
sobre este dom que ao senso tens doado.

Da vestimenta, pelo que senti, 
se entende: a tua amada te quer bem,
como anteviu teu sonho tão perfeito.

É um começo, ocorre-me, o que vi,
e aquela que já morta sobrevém
é Firmeza que a amada tem no peito. 

XL

Risposta di Dante Alighieri

 Savete giudicar vostra ragione,
 O om che pregio di saver portate. 
 Per che, vitando aver con voi quistione,
Com so rispondo a le parole ornate.

Disio verace, u' rado fin si pone,
 Che mosse di valore o di bieltate,
 Imagina l'amica oppinione
 Significasse il don che pria narrate.

Lo vestimento, aggiate vera spene, 
 Che fia, da lei cui desiate, amore; 
 E 'n ciò provide vostro spirto bene:

 Dico, pensando l'ovra sua d'allore.
La figura che già morta sorvene; 
 È la fermezza ch'averà nel core.

Tradução de Jorge Wanderley in: Dante. Lírica. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996

domingo, janeiro 11, 2026

Numa Estação de Metrô (Ezra Pound, Trad. Augusto de Campos)

 

Suzuki Harunobu - Mulher admirando flores de ameixeira à noite (ca. 1766)

A visão          destas faces           dentre a turba   :

Pétalas         num ramo úmido,       escuro           .



Fonte. Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos, José Lino Grünewald, Mário Faustino. ezra pound - poesia. São Paulo: Cobalto, 2024. 

sábado, janeiro 10, 2026

O Jasmim (Giórgos Seféris)

 Quer anoiteça

quer faça luz

fica branco 

o jasmim.


Tradução de Joaquim Magalhães e Nikos Prastinis in Seféris, Poemas Escolhidos. 

sexta-feira, janeiro 09, 2026

Mitopeia (J.R.R.Tolkien)

 Mitopeia

A alguém que disse que mitos eram mentiras e, portanto, inúteis, ainda que "inspirados através da prata". 

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FILOMITO A MISOMITO

Você vê árvores, e as chama assim,
("árv'res são árv'res e crescem, enfim);
palmilha a terra e com solene passo
pisa um dos globos menores do Espaço:
'Strelas são 'strelas, matéria em bola
que em matemático trajeto rola:
regimentado, gélido Vazio
de átomos morrendo a sangue frio. 

Por uma Vontade, à qual nos dobramos
mas que nós só de longe captamos, 
grandes processos o Tempo completa
de início escuro a incerta meta; 
e em página reescrita sem pista,
de letra e margem vária já revista,
eis multidão de formas infindáveis,
sombrias, belas, bizarras ou frágeis,
cada qual diversa, mas num só rol
de germe, inseto, homem, pedra e sol. 
Deus fez pétreas rochas, arbóreas árvores,
terra térrea, estelas estelaresm
e os homens humanos, que andam no chão
e a quem luz e som causam comichão.
O remexer do mar, vento nos galhos,
desenxabidas vacas nos atalhos,
trovão e raio, aves a cantar,
limo escorrendo a viver e murchar,
cada qual é registrado e impresso
nas contorções do cérebro em recesso.

Mas "árv'res" só são "árv'res" nomeadas --
e só o foram quando captadas
por quem abriu o hálito da fala
eco do mundo numa escura sala, 
mas nem registro nem fotografia, 
sendo risada, juízo e profecia,
resposta dos que então sentiram dentro
profundo movimento cujo centro 
é o existir de planta, fera, estrela:
cativos que grade serram sem vê-la, 
cavando o sabido da experiência,
abrindo o espírito sem consciência.
Grande poder de si mesmo criaram,
e atrás de si os elfos contemplaram
que na forja sagaz d'alma andavam,
luz e treva em teia oculta bordava.

*****
Não vê estrelas quem não as vê primeiro
qual prata viva explodindo em chuveiro:
chama florida sob canção antiga
cujo eco mesmo de longa cantiga
o perseguiu. Não há um firmamento,
só vazio, se não tenda, paramento
por elfos desenhado; não há terra,
se não ventre de mãe que a vida encerra. 

Mentiras não compõem o peito humano,
que do único Sábio tira o seu plano,
e o recorda. Inda que alienado,
algo não se perdeu nem foi mudado. (55) 
Des-graçado está, mas não destronado.
trapos da nobreza em que foi trajado,
domínio do mundo por criação:
o deus Artefato não é quinhão,
homem, sub criador, luz refratada
em quem matiz Branca é despedaçada
para muitos tons, e recombinada, 
forma viva mente a mente passada. 
Se todas as cavas do mundo enchemos
com elfos e gobelins, se fizemos
deuses com casas de treva e de luz, 
se plantamos dragões, a nós conduz
um direito. E não foi revogado.
Criamos tal como fomos criados. 

Sim! Sonhos tecemos para enganar
os corações e o Fato derrotar! 
De onde o desejo e o poder para sonhar,
e as coisas belas ou feias julgar? 
Querer não é inútil, nem calor
procuramos em vão -- pois dor é dor,
não de ser desejada, mas perversa;
ou ceder a uma vontade adversa
ou resistir seria igual. E o Mal,
desse apenas isto é certo: É o Mal. 

Bendito o tímido que o mal odeia,
treme na sombra, e o portão cerceia;
que não quer trégua, e em seu solar, 
mesmo pequeno, num velho tear
tece pano dourado à luz do dia
sonhado por quem na Sombra porfia. 

Benditos os que de Noé descendem
e com suas arcas frágeis o mar fendem,
sob ventos contrários buscando sé,
rumor de um porto indicado por fé.

Benditos os que em rima fazem lenda
ao tempo não gravado dando emenda.
Não foram eles que a Noite esqueceram,
ou deleite organizado teceram,
ilhas de lótus, um céu financeiro,
perdendo a alma em beijo feiticeiro
(e, ademais, falsário, pré-produzido,
falaz sedução do já-seduzido). 

Tais ilhas veem ao longe, e outras mais  belas,
e os que os ouvem podem girar as velas.
Viram a Morte e a derrota final,
sem em desespero fugir do mal,
mas à vitória viraram a lira,
seus corações qual legendária pira,
iluminando o Agora e o Que-Tem-Sido
com brilhos de sóis por ninguém vivido.

Quisera com os menestréis cantarm
com minha harpa o não visto tocar.
Quisera navegar com os marinheiros
sobre tábuas em montes altaneiros
e viajar numa vaga demanda,  (110)
que alguns ao fabuloso Oeste manda.
Quisera entre os tolos ser sitiado,
que em remoto forte, de ouro guardado,
impuro e escasso, recriam leais
imagem tênue de pendões reais, (115)
ou em bandeiras tecem o brasão
fulgurante de não visto varão. 

Não seguirei seus símios progressivos,
eretos e sapientes. Caem vivos
nesse abismo ao qual seu progresso tende -- 
se por Deus o progresso um dia se emende
e não sem cessar revolva o batido
curso sem fruto com outro apelido. 
Não trilharei sua rota sem vacilo,
que a isto e aquilo chama isto e aquilo,
mundo imutável onde não tem parte
criadorzinho ou de criar a arte. 
Eu não me curvo à Coroa de Ferro,
nem meu cetrozinho dourado enterro.

                                    ****

No Paraíso pode o olho vagar
do Dia imorredouro contemplar,
a ver o que ele ilumina, e nova
Verdade ter com essa vera prova. 
Olhando a Terra Bendita verá
que tudo é como é, e livre será:
a Salvação não muda, nem destrói,
jardim, criança ou brinquedo corrói.
Mal não verá, pois ele deve estar
não no que Deus fez, mas no erro do olhar,
não na fonte, mas em escolha errada,
e não no som, mas na voz quebrantada.
O Paraíso a confusão desfaz;
pois se inda criam, já não mentem mais.
Criarão, não estão mortos, é certo,
poetas com halo de chamas perto,
e harpas que sem falta tocarão:
do Todo cada um terá quinhão. 

Tradução de Reinaldo José Lopes in TOLKIEN, J.R.R. - Árvore e Folha. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2020. 

Mythopoeia

To one who said that myths were lies and therefore worthless, even though 'breathed through silver'

________________________________________________

PHILOMYTHUS TO MISOMYTHOS

You look at trees and label them just so,
(for trees are 'trees', and growing is 'to grow');
you walk the earth and tread with solemn pace
one of the many minor globes of Space:
a star's a star, some matter in a ball
compelled to courses mathematical
amid the regimented, cold, inane,
where destined atoms are each moment slain.

At bidding of a Will, to which we bend
(and must), but only dimly apprehend,
great processes march on, as Time unrolls
from dark beginnings to uncertain goals;
and as on page o'er-written without clue,
with script and limning packed of various hue,
an endless multitude of forms appear,
some grim, some frail, some beautiful, some queer,
each alien, except as kin from one
remote Origo, gnat, man, stone, and sun.
God made the petreous rocks, the arboreal trees,
tellurian earth, and stellar stars, and these
homuncular men, who walk upon the ground
with nerves that tingle touched by light and sound.
The movements of the sea, the wind in boughs,
green grass, the large slow oddity of cows,
thunder and lightning, birds that wheel and cry,
slime crawling up from mud to live and die,
these each are duly registered and print
the brain's contortions with a separate dint.
Yet trees are not 'trees', until so named and seen
and never were so named, tifi those had been
who speech's involuted breath unfurled,
faint echo and dim picture of the world,
but neither record nor a photograph,
being divination, judgement, and a laugh
response of those that felt astir within
by deep monition movements that were kin
to life and death of trees, of beasts, of stars:
free captives undermining shadowy bars,
digging the foreknown from experience
and panning the vein of spirit out of sense.
Great powers they slowly brought out of themselves
and looking backward they beheld the elves
that wrought on cunning forges in the mind,
and light and dark on secret looms entwined.

He sees no stars who does not see them first
of living silver made that sudden burst
to flame like flowers bencath an ancient song,
whose very echo after-music long
has since pursued. There is no firmament,
only a void, unless a jewelled tent
myth-woven and elf-pattemed; and no earth,
unless the mother's womb whence all have birth.
The heart of Man is not compound of lies,
but draws some wisdom from the only Wise,
and still recalls him. Though now long estranged,
Man is not wholly lost nor wholly changed.
Dis-graced he may be, yet is not dethroned,
and keeps the rags of lordship once he owned,
his world-dominion by creative act:
not his to worship the great Artefact,
Man, Sub-creator, the refracted light
through whom is splintered from a single White
to many hues, and endlessly combined
in living shapes that move from mind to mind.
Though all the crannies of the world we filled
with Elves and Goblins, though we dared to build
Gods and their houses out of dark and light,
and sowed the seed of dragons, 'twas our right
(used or misused). The right has not decayed.
We make still by the law in which we're made.

Yes! 'wish-fulfilment dreams' we spin to cheat
our timid hearts and ugly Fact defeat!
Whence came the wish, and whence the power to dream,
or some things fair and others ugly deem?
All wishes are not idle, nor in vain
fulfilment we devise -- for pain is pain,
not for itself to be desired, but ill;
or else to strive or to subdue the will
alike were graceless; and of Evil this
alone is deadly certain: Evil is.

Blessed are the timid hearts that evil hate
that quail in its shadow, and yet shut the gate;
that seek no parley, and in guarded room,
though small and bate, upon a clumsy loom
weave tissues gilded by the far-off day
hoped and believed in under Shadow's sway.

Blessed are the men of Noah's race that build
their little arks, though frail and poorly filled,
and steer through winds contrary towards a wraith,
a rumour of a harbour guessed by faith.

Blessed are the legend-makers with their rhyme
of things not found within recorded time.
It is not they that have forgot the Night,
or bid us flee to organized delight,
in lotus-isles of economic bliss
forswearing souls to gain a Circe-kiss
(and counterfeit at that, machine-produced,
bogus seduction of the twice-seduced).
Such isles they saw afar, and ones more fair,
and those that hear them yet may yet beware.
They have seen Death and ultimate defeat,
and yet they would not in despair retreat,
but oft to victory have tuned the lyre
and kindled hearts with legendary fire,
illuminating Now and dark Hath-been
with light of suns as yet by no man seen.

I would that I might with the minstrels sing
and stir the unseen with a throbbing string.
I would be with the mariners of the deep
that cut their slender planks on mountains steep
and voyage upon a vague and wandering quest,
for some have passed beyond the fabled West.
I would with the beleaguered fools be told,
that keep an inner fastness where their gold,
impure and scanty, yet they loyally bring
to mint in image blurred of distant king,
or in fantastic banners weave the sheen
heraldic emblems of a lord unseen.

I will not walk with your progressive apes,
erect and sapient. Before them gapes
the dark abyss to which their progress tends
if by God's mercy progress ever ends,
and does not ceaselessly revolve the same
unfruitful course with changing of a name.
I will not treat your dusty path and flat,
denoting this and that by this and that,
your world immutable wherein no part
the little maker has with maker's art.
I bow not yet before the Iron Crown,
nor cast my own small golden sceptre down.

In Paradise perchance the eye may stray
from gazing upon everlasting Day
to see the day illumined, and renew
from mirrored truth the likeness of the True.
Then looking on the Blessed Land 'twill see
that all is as it is, and yet made free:
Salvation changes not, nor yet destroys,
garden nor gardener, children nor their toys.
Evil it will not see, for evil lies
not in God's picture but in crooked eyes,
not in the source but in malicious choice,
and not in sound but in the tuneless voice.
In Paradise they look no more awry;
and though they make anew, they make no lie.
Be sure they still will make, not being dead,
and poets shall have flames upon their head,
and harps whereon their faultless fingers fall:
there each shall choose for ever from the All.





quinta-feira, janeiro 08, 2026

Matsuo Bashô

 o crisântemo

resistiu à tempestade --

que comovente!


Tradução de Joaquim M. Palma


Fonte. Matsuo Bashô. O Eremita Viajante. Lisboa: Assírio&Alvim, 2016. 

quarta-feira, janeiro 07, 2026

Ono no Komachi, Izumi Shikibu, Safo

Ono no Komachi 
 
O meu desejo de ti 
é forte para contê-lo -- 
assim ninguém vai culpar-me
se à noite for ter contigo
pela estrada de meus sonhos.

Tradução de Luísa Freire in  O Japão no Feminino I: Tanka. Poesia dos séculos IX a XI. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2025. 

***

Izumi Shikibu

nem meu travesseiro
desconfia de nós 
não conte a ninguém
de nosso encontro em sonho
em uma noite de primavera

Tradução de Andrei Cunha in: Poemas do Japão Medieval - seleções do Shinkokin'wakashû. Porto Alegre: Bestiário, 2024.

*** 

Safo - Fragmento 134 

Falava-te em <meus> sonhos, ó Ciprígena*...

Tradução de Rafael Brunhara (inédita) 

* A nascida em Chipre, isto é, Afrodite, deusa do amor e do sexo. 


terça-feira, janeiro 06, 2026

Izumi Shikibu (Tradução de Luísa Freire)

 Vem já sem demora --
assim que estas flores abrirem,
logo irão cair.
Esta vida é como o brilho
do orvalho sobre as flores. 


Tradução: Luisa Freire in: O Japão no Feminino I: Tanka. Poesia dos séculos IX a XI. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2025. 


segunda-feira, janeiro 05, 2026

Enviado à sua família quando o poeta partiu em retiro espiritual (Monge Dômyô) - Tradução: Andrei Cunha

 ao me despedir

penso que esta será

minha última jornada

falta-me determinação

para partir de uma vez


Fonte: Andrei Cunha. Poemas do Japão Medieval - seleções do Shinkokin'wakashû. Porto Alegre: Bestiário, 2024. 

domingo, janeiro 04, 2026

No fim do ano, triste por envelhecer (Izumi Shikibu) - Trad. Andrei Cunha

 se formos contar

os dias até o fim do ano

não tem nada mais

triste do que saber

que envelhecemos


Fonte: Andrei Cunha. Poemas do Japão Medieval - seleções do Shinkokin'wakashû. Porto Alegre: Bestiário, 2024. 

sábado, janeiro 03, 2026

Horácio, Livro I, Ode 4 - Sete Traduções

Soluitur acris hiems grata vice veris et Favoni
     trahuntque siccas machinae carinas,
ac neque iam stabulis gaudet pecus aut arator igni
     nec prata canis albicant pruinis.
Iam Cytherea choros ducit Venus imminente luna              
     iunctaeque Nymphis Gratiae decentes
alterno terram quatiunt pede, dum gravis Cyclopum
     Volcanus ardens visit officinas.
Nunc decet aut viridi nitidum caput impedire myrto
     aut flore, terrae quem ferunt solutae;               10
nunc et in umbrosis Fauno decet immolare lucis,
     seu poscat agna sive malit haedo.
Pallida Mors aequo pulsat pede pauperum tabernas
     regumque turris. O beate Sesti,
vitae summa brevis spem nos vetat inchoare longam.               
     Iam te premet nox fabulaeque Manes
et domus exilis Plutonia, quo simul mearis,
     nec regna vini sortiere talis
nec tenerum Lycidan mirabere, quo calet iuventus
     nunc omnis et mox virgines tepebunt.    
           

Tradução de Neyde Ramos de Assis (1962) 
Esvai-se o duro inverno ao grato retomar da primavera e as máquinas arrastam para o mar os navios em sêco; já não se alegra o gado em ficar nos estábulos e nem o lavrador em estar junto ao fogo, e a branca neve já não alveja os prados. Vênus, a Citeréia, dirige as danças à luz da lua e as belas Graças, junto com as Ninfas, batem a terra com um pé, com outro; e, enquanto isso nas fatigantes forjas dos Ciclopes, arde Vulcano.

Nesta ocasião convém cingirmos a cabeça luzente de perfumes com o verde mirto ou com as flôres que a terra produz, livre do gêlo; e imolarmos a Fauno, nos umbrosos bosques sagrados, uma ovelhinha ou um cabrito, como êle preferir. A pálida Morte pisa com o justo pé as cabanas dos pobres e os palácios dos reis. Ó afortunado Séstio, a breve duração da vida não permite que concebamos uma grande esperança. Logo te cobrirá a noite, a sombra da região dos manes, a exígua morada de Plutão; e,  quando ali chegares, não sortearás com os dados o rei do vinho nem fitarás o delicado Lícidas, por quem agora ardem os jovens e logo as moças se apaixonarão.

Tradução de Bento Prado de Almeida Ferraz (2003)

Brando se faz o rigoroso inverno,
pis já lá vêm Favônio e a primavera;
são levada ao mar as secas quilhas.
Já não se aquece o gado nos estábulos,
não goza o lavrador junto à lareira,
nem mais alveja o prado a branca geada.
Já, à clara lua, Vênus Citerea
dirige os coros, e as formosas Graças
juntas às Ninfas, batem, em cadência,
pés alternos, a terra; dos Ciclopes
Vulcano acende as duras oficinas.
Convém cingir agora a fronte ungida
do verde mirto ou das olentes flores,
que a mole terra reproduz fecunda
Convém agora que se imole a Fauno,
nos sagrados, sombrios bosques, anho
ou cabrito, conforme o seu desejo. 
Pálida, a morte, eqüitativa, bate
às cabanas dos pobres e aos palácios
dos ricos. Ó feliz Séstio, esta vida
breve não nos promete uma esperança
longa. Eis já aí a noite, e os fabulosos
manes e os reinos de Plutão vazios,
onde então, quando para lá partires,
não mais, com dados, tirarás a sorte
o reinado do vinho, como dantes,
nem mais admirarás o jovem Lícidas,
por quem ora se abrasa a juventude
e, logo mais, se abrasarão as virgens.

Tradução de Márcio Thamos (2006)

Desfaz-se o rude inverno com o retorno
da doce primavera e de Favônio,
e as máquinas arrastam quilhas secas.
Já não apraz ao gado estar no estábulo,
e nem ao lavrador sentar-se ao fogo:
não mais alveja o campo a branca neve.

Vem Vênus citereia já puxando
um cordão sob a lua sobranceira,
e as Graças, lindas, a dançar com as ninfas,
no ritmo dos seus pés a terra batem;
enquanto, grave e ardente, vai Vulcano
inspecionar as forjas dos ciclopes.

É hora de adornar a fronte clara
com o verdejante mirto ou com uma flor
que a terra, agora livre, nos oferta;
é hora de imolar, no umbroso bosque,
a Fauno a ovelhinha que ele exija,
ou um cabrito, caso ele prefira.

Com o mesmo passo adentra a Morte pálida
mesquinhas choças e soberbas torres.
Meu caro Séstio, a vida é muito breve,
nela não cabem longas esperanças.
De repente verás que já te cercam
a noite com seus manes espectrais
e a morada impalpável de Plutão.

Assim que lá chegares, dize adeus
a todos os prazeres deste mundo. 



Tradução de Pedro Braga Falcão (2008/2021) 

Dissolve-se o áspero inverno dando a bem-vinda vez à primavera e ao Favônio,
     as máquinas arrastam secas a quilhas,
e não mais se alegra o gado nos estábulos, nem o lavrador junto ao fogo,
     nem os campos alvejam com a ebúrnea geada.

Já Vênus Citereia seus coros conduz sob a luz que alteia,
     e as formosas Graças, junto com as Ninfas,
tocam na terra ora num pé, ora noutro, enquanto o refulgente Vulcano
     as imponentes forjas dos Ciclopes visita.

Agora é tempo de cingir a luzidia testa com o verde mirto,
     ou com a flor que a terra livre trouxe;
é hora de oferecer nos umbrosos bosques a Fauno sacrifícios;
    quer exija uma cordeira, quer prefira um cabrito.

A pálida Morte com imparcial pé bate à porta das cabanas dos pobres
     e dos palácios dos reis. Ó Séstio feliz,
a breve duração da vida impede-nos de encetar duradouras esperanças.
    Em breve te oprimirá a noite, e os Manes da lenda,

e a esquálida casa de Plutão; e assim que por lá vagares
    não mais te sairá nos dados a presidência do vinho,
nem admirarás o delicado Lícidas, por quem agora toda a juventude arde,
     e por quem em breve as virgens hão-de corar. 

Tradução de Frederico Lourenço (2023) 

O acre inverno é dissolvido pela mudança bem-vinda da primavera e do Favónio;
    e as máquinas arrastam as quilhas secas;
e já nem o gado se agrada com os estábulos nem o agricultor com o fogo;
    nem os prados com alvas geadas se branqueiam.
Já Vênus Citereia conduz as danças sob a lua sobranceira;
    e juntas com as Ninfas as Graças decorosas
percutem terra com pé alternado, enquanto Vulcano
   ardente visita as possantes oficinas dos Ciclopes. 
Agora fica bem ou a lustrosa cabeça atar com verde mirto, 
   ou atá-la com uma flor que as terras soltas oferecem.
Agora fica bem sacrificar a Fauno em bosques sombrios,
    quer ele exija uma cordeira, quer prefira um cabrito.
A pálida Morte atinge, com pé imparcial, casebres de pobres
    e torres de reis. Ó bem-aventurado Séstio,
o píncaro breve da vida impede-nos de dar início a uma esperança longa;
    já a noite oprime, assim como os Manes da fábula
e a casa insípida de Plutão. Assim que lá chegas,
    nem as soberanias do vinho sortearás com dados,
nem mirarás o jovem Licídas, com quem se escalda a rapaziada
    toda agora; e com quem, em breve, as virgens se vão encalorar. 

Tradução de Guilherme Gontijo Flores (2024)

Solvem-se o inverno amargo à feliz primavera e ao Favônio,
   roldanas correm sobre as quilhas secas,
gado não quer mais curral, lavrador não procura mais por fogo
   nem prados na geada então se alvejam.
Vênus Citérea guia seu coro por sob a lua clara, 
   acompanhando as Ninfas belas Graças
batem os pés alternados na terra e assim Vulcano ardente
    incita as oficinas dos Ciclopes.
Hoje convém coroar na cândida fronte murta verde
    ou flor que inculta terra florescera,
hoje à sombra dos sacros bosques convém sagrar a Fauno
    cabrito ou anho -- como assim prefere.
Pálida Morte idêntico pé baterá em casas pobres
   ou régias torres. Ó alegre Séstio,
esta brevíssima vida nos veta de longas esperanças,
  a noite já te oprime, os Manes (mitos)
e o ínfimo paço Plutônio; logo que para lá partires
   não tentarás no dado reinos víneos,
não mais verás o teu Lícidas tenro por quem se abrasam jovens
   e em breve as virgens todas viram fogo. 

Tradução de Trajano Vieira (2025)

O inverno acre cede, a primavera e o Zéfiro
tornam, carenas secas vão ao mar.
Alguém apaga o fogo, a rês já deixa o estábulo.
O gelo alvo não branqueia o prado.
Vênus conduz o coro, as Graças belas juntam-se
às Ninfas, cadenciando os pés à luz
da lua. Sob o auspício de Vulcano inflamam
as forjas na oficina dos Ciclopes.
Perfume o mirto verde as tranças dos cabelos,
a flor que espouca quando a terra se abre! 
No bosque umbroso impõe-se imolar a ovelha
ao Fauno, caso não se escolham cabras.
A morte branca pulsa o mesmo pé na torre
do rei e no casebre. Rico Séstio,
a vida breve barra a esperança longa.
A noite logo pesa e o lar esquálido
de Plutão, Manes fabulares. Quando partas,
dados não mais te elegem o ás da festa,
Licidas não admiras mais, por quem os jovens
ardem agora e, em breve, a moça inflama-se. 


    

sexta-feira, janeiro 02, 2026

As Jarras de Zeus (Ilíada, Canto 24, Versos 522-551) - 7 traduções

Tradução de André Malta (2024)

"Mas vamos, senta-te ao trono: § deixemos, de todo modo,
que as dores repousem no ânimo, § ainda que desgostosos,
porque ganho algum provém § do gélido prantear.
Pois isto os deuses fiaram § para os míseros mortais:
que vivam a penar - eles § próprios são sem aflições.
Sobre a soleira de Zeus § estão postas duas jarras
com dádivas que dá: uma § de más, e a outra de boas.
Pra quem as dá misturadas § o desfruta-raio Zeus,
esse então ora com males § cruza, ora então com venturas;
mas pra quem dá tão somente § horrendas, põe-no afrontado:
a maligna fome sobre § a terra divina o move,
e ele vaga desonrado § por deuses e por mortais. 
Assim a Peleu os deuses § deram esplêndidas dádivas,
desde o nascimento: sobre- § pujando a todos os homens
em riqueza mais fortuna, § reinava sobre os mirmídones,
e, embora mortal, fizeram § de uma deusa sua esposa.
Mas até mesmo para ele § o deus pôs um mal, pois não
lhe nasceu prole de filhos § soberanos no palácio:
gerou um só, prematuro § em sua morte. E agora não 
o amparo enquanto envelhece, § já que, tão longe da pátria,
demoro-me em Troia, a ti § e a teus filhos afligindo.
Tu também, ouvimos que eras § afortunado, ancião:
quanto delimitam Lesbos, § sede de Mácar, embaixo,
e, de cima para baixo, § a Frígia e o Helesponto infindo,
aí dizem que em riqueza § e prole sobrepujavas.
Depois, porém, que os Celestes § te deram tal sofrimento,
sempre em torno da cidade § há combates e matanças.
Mas suporta, e no teu ânimo § não lamentes sem cessar,
pois tu não ganharás nada § com penar pelo teu filho:
não o levantarás antes § de padecer outro mal" 

Tradução de Leonardo Antunes (2022):

Mas chega disso. Vem aqui sentar-te
sobre este trono. Deixemos de lado
a tristeza nos nossos corações,
por mais angustiados que estejamos.
Não há nada que possa ser ganhado
agora com o luto congelante,
pois foi assim que a vida foi tecida
 pelos deuses aos pobres dos mortais,
para viverem sempre angustiados —
e eles próprios não têm preocupações.
É sabido que existem duas urnas
postas ao lado dos umbrais de Zeus.
Os presentes que dão são diferentes:
uma dá males e a outra dá bênçãos.
Quando Zeus que se apraz com os trovões,
depois de misturar das duas urnas,
concede seus presentes para os homens,
 ora dá males, ora dá benesses.
Mas, quando ele resolve conceder
apenas os dons lúgubres a alguém,
faz um homem tristíssimo, que vaga
com fome horrível pelo chão sagrado,
sem nunca receber nenhuma honra
nem entre os deuses nem entre os mortais.
Foram tais os esplêndidos presentes
que os deuses concederam a Peleu
no dia em que nasceu, pois se tornou
eminente entre todos os humanos,
tanto em ventura quanto na riqueza.
Reinava sobre os homens mirmidões
e, sendo apenas humano, mortal,
recebeu uma deusa em casamento.
Porém o deus também lhe concedeu
a desgraça, pois ele inda carece
de uma estirpe de filhos poderosos
para encher o salão de seu palácio.
Teve somente um único rebento,
 de vida curta, que nem poderá
lhe dar cuidados conforme envelhece —
pois permaneço ainda muito longe
da terra pátria, acampado em Troia,
causando só tristezas aos teus filhos
e a ti mesmo, ancião, que ouvi dizer
ter sido próspero em tempos passados.
De fato, tanto em Lesbos, lá no assento
de Mácar, e também mais para o norte,
quanto também na Frígia, desde cima,
e por todo o Helesponto interminável —
em todas essas partes, velho, falam
de ti com muitos filhos e riquezas.
Porém agora, como as divindades
celestes te trouxeram a desgraça,
em torno à tua cidadela há sempre
batalhas e matanças de guerreiros.
Ainda assim, resiste! Não te doas
demasiadamente o coração,
pois não há nada mais a ser ganhado
 lamentando o destino de teu filho,
nem poderás fazer com que reviva.
É mais fácil sofreres outro mal.”

Tradução de Christian Werner (2018)

"Pois senta na poltrona, e, apesar de tudo, as aflições
deixemos descansar no ânimo, embora angustiados.
De nada adianta o lamento gelado. 
Isto os deuses fiaram para os pobres mortais:
viver angustiado. Despreocupados são eles próprios.
Dois tipos de cântaro estão no chão de Zeus
com dons que ele dá, males num, bens no outro.
A quem Zeus prazer-no-raio der uma mistura,
este ora obtém algo ruim, ora algo bom;
a quem der só coisas funestas, torna-o desprezível, 
danosa fome canina impele-o sobre a terra divinal,
e vaga nem honrado pelos deuses nem pelos mortais. 
Assim também a Peleu os deuses deram dons radiantes
desde o nascimento: entre todos os homens exceleu
na fortuna e na riqueza, rege os mirmidões
e, para ele, um mortal, fizeram de uma deusa sua esposa.
Mas também a ele o deus impôs um mal: que não
houvesse, em sua casa, progênie de filhos senhoris,
e gerou um só, vítima da morte não sazonal; dele,
envelhecendo, não cuido, pois, bem longe da pátria,
quedo-me em Troia, afligindo a ti e a teus filhos. 
Ouvimos que também tu, velho, antes era afortunado:
tanto quanto concentram Lesbos, assento de Ditoso,
a Frígia terra adentro e o ilimitado Helesponto,
a esses, velho, dizem que em riqueza e filhos superas.
Porém, desde que os Celestes te trouxeram essa desgraça,
em volta da cidade há sempre combates e carnificinas.
Aguenta e não lamentes sem cessar em teu ânimo;
nada realizarás, atormentando-te por teu filho,
nem o ressuscitarás, antes de sofreres outro mal" 

Tradução de Frederico Lourenço (2003/2013/2019)

Mas agora senta-te num trono; nossas tristezas deixaremos
que jazam tranquilas no coração, por muito que soframos.
Pois não há proveito a tirar do frígido lamento.
Foi isto que fiaram os deuses para os pobres mortais:
que vivessem no sofrimento. Mas eles próprios vivem sem cuidados.
Pois dois são os jarros que foram depostos no chão de Zeus,
jarros de dons: de um deles, dá os males; do outro, as bênçãos.
Àquele a quem Zeus que com o trovão se deleita mistura a dádiva,
 esse homem encontra tanto o que é mau como o que é bom.
Mas àquele a quem dá só males, fá-lo amaldiçoado,
e a terrível demência o arrasta pela terra divina
e vagueia sem ser honrado quer por deuses, quer por mortais.
Assim, também a Peleu os deuses deram gloriosos dons
535 desde o nascimento: a todos os homens sobrelevava
em ventura e riqueza e era rei dos Mirmidões;
sendo mortal, deram-lhe uma deusa como esposa.
Mas além disto lhe deram os deuses o mal, porque
não foi gerada no palácio uma progénie de filhos vigorosos,
 mas só teve um filho, fadado para uma vida breve. E eu
nem o acompanho na sua velhice, visto que bem longe da pátria
estou aqui sentado em Troia, atormentando-te a ti e aos teus filhos.
Mas também de ti, ó ancião, ouvimos dizer que outrora foste feliz
Tudo o que até Lesbos, sede de Mácaro, está compreendido,
545 e lá para cima, para a Frígia, assim como o amplo Helesponto:
dizem que entre estes povos eras distinto pela riqueza e pelos filhos.
Mas desde que os celestiais Olímpios te trouxeram esta desgraça,
sempre em torno da tua cidade há combates e morticínios.
Mas aguenta: não chores continuamente no teu coração.
550 Pois de nada te aproveitará lamentares o teu filho,
nem o trarás à vida, antes de teres já sofrido outro mal.»

Tradução de Haroldo de Campos (2003)

Mas senta agora neste trono: aflitos ambos,
deixemos que serene a dor no coração,
pois do pranto glacial não deriva nenhum
proveito. Assim os deuses urdem o fadário 
dos infaustos mortais: um viver agoniado,
sendo os numes incólumes; pois há dois cântaros
nos umbrais de Zeus, cheios de dons que ele nos dá,
um de ruins, de bons o outro. Mescla-os Zeus fulmíneo
e os versa: ora o mal, ora o bem, deparará 
quem os receba; quando maldosos opróbrios
apenas colha, malsinado vagará
pela terra divina, famélico, menos-
-prezado por mortais e deuses. A Peleu,
os deuses, com preciosos dons, lhe galardoaram 
desde o berço: excedia a todos mais em bens
e ventura; era rei dos Mirmidões; mortal,
de uma imortal se fez esposo. Um pesadume
o nume lhe infligiu: uma prole de príncipes
não gerou no palácio, salvo um, morituro - 
eu -, que dele não posso cuidar na velhice,
pois estou longe, em Troia, danando a ti e aos teus
filhos. Sênior, ouvimos que já foste muito
venturoso, excedendo em bens e prole a todos
nos limites de Lesbos, do rei Mácar, mar 
alto e, no plaino acima, a Frígia e o Helesponto, ainda,
infindo. Desde quando os Urânios te enviaram
malefícios, batalhas e carnagem cercam-te
a urbe. Sofre-os, paciente, e deixa de lamurias;
por teu filho agoniar-te, não fará com que ele 
ressuscite, mas outro mal pode advir-te, antes.”

Tradução de Carlos Alberto Nunes (1941)

"Vamos assenta-te agora no trono; apesar de angustiados
é conveniente deixar que as tristezas no peito se aplaquem.
Nada o homem lucra em deixar-se invadir pelo gélido pranto.
Sempre viver em tristeza: eis a sorte que os deuses eternos
de descuidada existência aos mortais infelizes dotaram.
Sobre os umbrais do palácio de Zeus dois tonéis se acham postos
de suas dádivas; um só de males; de bens o outro cheio.
Se misturando-as Zeus grande senhor dos trovões as derrama
quem as recebe ora goza ora males por sorte lhe tocam;
mas o que dele recolhe somente infortúnios escárnio
vivo se torna; em extrema miséria na terra divina
é condenado a vagar desprezado por homens e deuses.
Ao nascimento também de Peleu os eternos lhe deram
dons inefáveis: riquezas sem conta dos homens a estima
e o incontestado governo dos fortes guerreiros Mirmídones.
Mais: apesar de mortal como esposa uma deusa lhe cedem.
Grande infortúnio porém concederam-lhe os deuses negando-lhe
filhos que o mando pudessem herdar-lhe no belo palácio;
540 a mim somente gerou destinado a morrer muito cedo.
Longe da pátria não posso cercar de cuidados o velho
pois me acho em Tróia causando-te e aos filhos desditas sem conta.
Tu também velho já foste feliz pelo que me contaram.
Quantos guerreiros existem de Lesbos na sede de Mácar
até para o norte da Frígia nos lindes do vasto Helesponto
já dominaste abençoado com filhos e bens infindáveis.
Mas desde o instante em que os deuses celestes tal praga te enviaram
guerra somente e homicídios em torno dos muros te soam.
Vamos suporta! Não deves à dor excruciante entregar-te.
Nada consegues chorando teu filho com tantos encómios;
não ressuscita e além disso outro mal poderias causar-te.”

Tradução de Odorico Mendes (1874) 

Senta-te; ao luto agora devemos tréguas.
Viver sempre em tristeza é lote humano:
Existir sem cuidados é dos deuses.
Há dois tonéis ao limiar de Jove
De males e de bens: se misturados
Os derrama o Tonante, o que os recebe
Ora sofre e ora goza; mas, se entorna
Somente males, em penúria o triste
Vaga de pesadume em pesadume,
Dos imortais ludíbrio e dos mundanos.
Assim teve Peleu mil dons celestes,
Brilho, opulência, império e uma deidade
Por consorte; mas Júpiter negou-lhe
Ao trono sucessor, porque imaturo
Devo longe acabar, sem que de arrimo
Lhe seja na velhice, em Tróia estando
Para desgraça dela e teu flagelo.
Também lograste já de quanto abrange
Lesbos ao sul, de Macaris morada,
A Frígia eoa e amplíssimo Helesponto;
Brilhaste, velho, em filhos e riquezas;
Mas, dês que o Céu mandou-te a crua guerra,
Geme Ílio de matança e horror cingida.
A alma em luto perpétuo não consumas;
Com te afligir Heitor não ressuscitas;
Quiçá maiores danos te ameaçam.”