quarta-feira, fevereiro 11, 2026

O Tempo cobra o tributo (Marcelo Tápia)

 Quem enfrenta sua velhice

o faz por não morrer jovem:

esse consolo se diz

para que o ancião se conforme.


Mas será melhor, por certo,

viver mais que partir cedo;

se outro mundo há, eterno,

que não se apresse o desfecho.


Foi-se a era dos heróis

que moços iam em glória;

hoje, com tudo o que dói,

prefere-se a longa história.


Sim, não falta dor à idade:

entre outras, essa sentença

sugere viver com arte,

e manter leve a consciência,


sem pesar demais os erros,

nem cultivar os remorsos,

e tampouco dar-se aos medos,

só aos riscos, com conforto. 


Desprezar os maldizeres

convém a quem se quer bem;

nutrir amizades que restem

é o que a alegria retém.


Pensar no porvir se deve,

mas o agora sempre urge:

amanhã talvez me leve

a infalível foice a algures.


Fruir as coisas vividas,

mínimas de todo dia,

é ter a vida colhida

mesmo onde ela se escondia.


O tempo curto desdobra-se

em muitos se cada instante

é preenchido sem sobras,

seja ao depois, seja ao antes;


se os anos idos soçobram,

deixo o choro e sigo adiante. 

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