Em rincões e esquinas
frios cadáveres:
flores de ameixeira.
***
Vou-me embora
e tu ficas:
dois outonos.
***
Oh cruel vendaval!
Um bando de pequenos pardais
Um bando de pequenos pardais
agarra-se à relva.
***
Chuva de primavera:
Chuva de primavera:
na carruagem compartilhada
minha bem amada suspira.
***
Os dias são lentos:
há ecos que se escutam
em algum lugar de Kyo*
*Nota da Tradutora (N.T). Kyo ou Kyoto era a antiga capital imperial. O poeta alude aqui ao sentimento do passado que se advinha ou parece escutar-se através dos velhos muros da cidade.
***
Lento dia:
um faisão
repousando sobre a fonte
N.T. Imagem impressionista na qual o símbolo do faisão implica tanto em tranquilidade como em certa monotonia.
***
Halo de lua:
não é o aroma da ameixeira florida
nascendo no céu?
N.T.Versão de Blyth. Henderson transcreve:
Da ameixeira em flor
flutua esta fragrância?
Há um halo em torno da lua.
Há um halo em torno da lua.
Preferimos a do primeiro porque a sugestão -- quase mágica -- é maior.
***
Menina muda,
Menina muda,
convertida em mulher
já se perfuma.
***
Sob a folhagem amarela
o mundo repousa enterrado...
Exceto o Fuji.
***
Sobre o sino do templo
repousa e dorme
a borboleta*
N.T. A borboleta se transforma em sinônimo de ingenuidade e pureza através deste poema. O grande sino parece indicar o contraste.
***
Ar matinal:
a penugem das erucas
ondula.
***
Chuva de primavera
e os ventres das espigas
não se molharam ainda.
***
Aqui e acolá
som de cascatas:
folhas tenras a esmo.
***
Frio na alcova
ao pisar teu pente,
minha esposa morta.
***
Faisão da montanha,
o sol da primavera
pisa sua cauda.
N.T. O verdadeiro sentido deste poema tem sido muito discutido. A imagem, no entanto, tem uma clara vitalidade poética.
***
Vou até às cerejeiras,
dormir sob seus capulhos,
sem deveres.
N.T. Sentimento contemplativo diante da natureza.
***
Um caranguejo:
Um caranguejo:
no mesmo lugar
que o céu de ontem.
N.T. O tempo aparece para nós como que parado, eternizado, através da visão do caranguejo imóvel sobre o céu sem nuvens.
N.T. O tempo aparece para nós como que parado, eternizado, através da visão do caranguejo imóvel sobre o céu sem nuvens.
***
Nada se move,
nem uma folha: inquietante
jaz o bosque no verão.
***
Lavrando o campo:
Lavrando o campo:
do templo aos cumes
o canto do galo.
N.T. Enfoque melancólico ao fim do dia.
***
O uguisu está cantando,
sua pequena boca
aberta.
***
Indiferente e lânguido
queimo incenso:
anoitecer de primavera.
***
As flores me enlouqueceram:
As flores me enlouqueceram:
e retorno à casa
enfastiado de cortesãos.
N.T. A beleza da natureza supera os artifícios da corte.
***
Estação chuvosa:
com uma lanterna de papel na mão
caminho ao longo do pórtico.
N.T. Sugestão de espera.
***
O lutador, na velhice,
conta à sua mulher o combate
que não devia ter perdido.
***
Casal de patos.
Mas o tanque é velho e a doninha
os vigia.
N.T. Os patos mandarins são símbolos de felicidade conjugal. Este poema é fatalista.
***
Um rouxinol!...
E na hora do jantar
a família reunida.
***
Sob a chuva primaveril
absortos num diálogo
a capa de palha e o guarda-chuva.
N.T. Este célebre hai-kai de Buson destacou-se especialmente tanto por seu humor como pela sugestão que se desprende da imagem final. Adivinham-se dois caminhantes - talvez enamorados - por seus implementos contra a chuva.
***
O crisântemo amarelo
O crisântemo amarelo
sob a luz da lanterna de mão
perde sua cor.
***
Chegado para ver as flores,
sobre elas dormirei
sem sentir o tempo.
***
Ontem um vôo,
hoje outro: os gansos selvagens
não estarão aqui esta noite.
***
Peônias
numa região celestial
do grande jardim.
***
Lavrando o campo
a nuvem imóvel
se foi.
N.T. Visão do tempo arrastando-se monotonamente. Persistência do céu como fundo desse mesmo tempo.
***
A cerejeira florida
A cerejeira florida
desapareceu entre as árvores
em templo convertida.
N.T. Este hai-kai tem influência budista em seu conteúdo. A contemplação da natureza exalta e transforma as coisas.
N.T. Este hai-kai tem influência budista em seu conteúdo. A contemplação da natureza exalta e transforma as coisas.
***
Em círculo rodam
os gansos selvagens; ao pé da colina
a lua é um selo.
N.T. Poema que se visualiza pictoricamente pela forma com que localiza os elementos.
***
Uma baleia!
Nadando sob a água mais e mais
Nadando sob a água mais e mais
assoma sua cauda.
***
Olhai a boca de Emma O!
Parece que vai cuspir
uma peônia!
N.T. Emma O é o dono do inferno. Não se conseguiu estabelecer com exatidão se a peônia é usada como analogia da boca ou vice-versa.
***
Amarelas couves em flor
Do lado leste, a lua,
e o sol se pondo.
N.T.
***
O ruído
de um rato sobre o prato
como resulta frio!
N.T. o animal raspando e resvalando sobre o prato branco e frio produz no poeta uma desagradável impressão de desespero.
***
Melancolicamente
subo a colina
de sarças em flor.
***
Armazéns e atrás um caminho
onde as andorinhas
vêm e vão.
***
Capulhos na pereira
e uma mulher à luz da luz
lendo uma carta.
***
Primavera que parte
e botões de cerejeira
ainda irresolutos.
***
Florescente espinheiro
tão parecido aos caminhos
onde nasci!
***
Sinto um agudo frio:
Sinto um agudo frio:
no embarcadouro ainda resta
um filete de lua.
***
Curta noite
perto de mim, junto ao travesseiro
um biombo de prata.
***
A noite passou rápida:
sobre a peluda eruca
contas de orvalho.
N.T. Estes três últimos hai-kais sobre o mesmo tema constituem um tríptico conhecido por sua força lírica.
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