terça-feira, fevereiro 24, 2026

Yosa Buson - Traduções de Olga Savary

 Em rincões e esquinas
frios cadáveres:
flores de ameixeira.

***

Vou-me embora
e tu ficas:
dois outonos.

***

Oh cruel vendaval!
Um bando de pequenos pardais
agarra-se à relva.

***

Chuva de primavera:
na carruagem compartilhada
minha bem amada suspira.

***

Os dias são lentos:
há ecos que se escutam
em algum lugar de Kyo*

*Nota da Tradutora (N.T). Kyo ou Kyoto era a antiga capital imperial. O poeta alude aqui ao sentimento do passado que se advinha ou parece escutar-se através dos velhos muros da cidade.

***

Lento dia:
um faisão
repousando sobre a fonte

 N.T. Imagem impressionista na qual o símbolo do faisão implica tanto em tranquilidade como em certa monotonia.

***

Halo de lua:
não é o aroma da ameixeira florida
nascendo no céu?

N.T.Versão de Blyth. Henderson transcreve:

Da ameixeira em flor
flutua esta fragrância?
Há um halo em torno da lua.

Preferimos a do primeiro porque a sugestão -- quase mágica -- é maior. 

***

Menina muda,
convertida em mulher
já se perfuma.

***

Sob a folhagem amarela
o mundo repousa enterrado...
Exceto o Fuji.

***

Sobre o sino do templo
repousa e dorme
a borboleta*

N.T. A borboleta se transforma em sinônimo de ingenuidade e pureza através deste poema. O grande sino parece indicar o contraste. 

***

Ar matinal:
a penugem das erucas
ondula.

***

Chuva de primavera
e os ventres das espigas
não se molharam ainda.

***

Aqui e acolá
som de cascatas:
folhas tenras a esmo.

***

Frio na alcova
ao pisar teu pente,
minha esposa morta.

***

Faisão da montanha,
o sol da primavera
pisa sua cauda.

N.T. O verdadeiro sentido deste poema tem sido muito discutido. A imagem, no entanto, tem uma clara vitalidade poética. 

***
Vou até às cerejeiras,
dormir sob seus capulhos,
sem deveres.

N.T. Sentimento contemplativo diante da natureza. 

***

Um caranguejo:
no mesmo lugar 
que o céu de ontem.

N.T. O tempo aparece para nós como que parado, eternizado, através da visão do caranguejo imóvel sobre o céu sem nuvens.

***

Nada se move,
nem uma folha: inquietante
jaz o bosque no verão. 

***
Lavrando o campo:
do templo aos cumes
o canto do galo.

N.T. Enfoque melancólico ao fim do dia.

***
O uguisu está cantando,
sua pequena boca 
aberta. 

***
Indiferente e lânguido
queimo incenso:
anoitecer de primavera.

***

As flores me enlouqueceram:
e retorno à casa
enfastiado de cortesãos.

N.T. A beleza da natureza supera os artifícios da corte.

***
Estação chuvosa:
com uma lanterna de papel na mão
caminho ao longo do pórtico.

N.T. Sugestão de espera.

***

O lutador, na velhice,
conta à sua mulher o combate
que não devia ter perdido.

***

Casal de patos.
Mas o tanque é velho e a doninha
os vigia.

N.T. Os patos mandarins são símbolos de felicidade conjugal. Este poema é fatalista.

***

Um rouxinol!...
E na hora do jantar
a família reunida. 

***

Sob a chuva primaveril
absortos num diálogo
a capa de palha e o guarda-chuva. 

N.T. Este célebre hai-kai de Buson destacou-se especialmente tanto por seu humor como pela sugestão que se desprende da imagem final. Adivinham-se dois caminhantes - talvez enamorados - por seus implementos contra a chuva. 

***

O crisântemo amarelo
sob a luz da lanterna de mão
perde sua cor.

***

Chegado para ver as flores,
sobre elas dormirei
sem sentir o tempo.

***

Ontem um vôo,
hoje outro: os gansos selvagens
não estarão aqui esta noite.

***

Peônias
numa região celestial
do grande jardim.

***

Lavrando o campo
a nuvem imóvel
se foi.

N.T. Visão do tempo arrastando-se monotonamente. Persistência do céu como fundo desse mesmo tempo. 

***

A cerejeira florida
desapareceu entre as árvores
em templo convertida.

N.T.  Este hai-kai tem influência budista em seu conteúdo. A contemplação da natureza exalta e transforma as coisas. 

***

Em círculo rodam
os gansos selvagens; ao pé da colina
a lua é um selo. 

N.T. Poema que se visualiza pictoricamente pela forma com que localiza os elementos.

***

Uma baleia!
Nadando sob a água mais e mais
assoma sua cauda.

***

Olhai a boca de Emma O!
Parece que vai cuspir
uma peônia!

N.T. Emma O é o dono do inferno. Não se conseguiu estabelecer com exatidão se a peônia é usada como analogia da boca ou vice-versa. 

***

Amarelas couves em flor
Do lado leste, a lua,
e o sol se pondo.

N.T.

***

O ruído
de um rato sobre o prato
como resulta frio!

N.T. o animal raspando e resvalando sobre o prato branco e frio produz no poeta uma desagradável impressão de desespero. 

***

Melancolicamente
subo a colina
de sarças em flor.

***

Armazéns e atrás um caminho
onde as andorinhas
vêm e vão.

***

Capulhos na pereira
e uma mulher à luz da luz
lendo uma carta.

***

Primavera que parte
e botões de cerejeira
ainda irresolutos.

***

Florescente espinheiro
tão parecido aos caminhos
onde nasci!

***

Sinto um agudo frio:
no embarcadouro ainda resta
um filete de lua. 

***
Curta noite
perto de mim, junto ao travesseiro
um biombo de prata.

***

A noite passou rápida:
sobre a peluda eruca
contas de orvalho.

N.T. Estes três últimos hai-kais sobre o mesmo tema constituem um tríptico conhecido por sua força lírica. 

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