sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Jorge de Lima - Duas meninas de tranças pretas

 Eram duas meninas de tranças pretas. 

Veio uma febre levou as duas.

Foram as duas para o cemitério:

ambas ficaram na mesma cova.

Por sobre as pedras da sepultura

brotou bonina, brotou bonina,

nasceram plantas, nasceram mais plantas, 

flores do mato, canas da várzea:

a sepultura virou canteiro. 

Aves vieram cantar na plantas,

levaram sementes por sobre o mar.

Os peixes levaram estas sementes

até as Ilhas de Karakantá.

Ali brotaram flores estranhas.

Donde vieram flores tão raras?

Ah! só o poeta saberá.

Pois nesse mundo desconhecido

há casos desses que ninguém vê:

vieram insetos eijar as flores,

e um belo dia veio um poeta

pegar insetos para sua amada.

A borboleta mais rara que há

naquelas ilhas de Karakantá

é cor de amaranto com olhos azuis.

Mas heis de saber que a tal borboleta

contém veneno dentro dos olhos;

aí o poeta beijando tais olhos

ficou dormindo como um cadáver.

E então sonhou com as duas meninas:

que ambas dormiam na mesma cova,

que flores nasceram na sepultura,

que a sepultura virou canteiro,

que peixes levaram sementes da flores

para aquelas Ilhas de Karakantá.

O sonho do poeta o vento levou,

levou para um astro desconhecido.

E aí chegando tornou-se um mar:

a água do mar virou arco-íris.

Então uma deusa pegou o arco-íris

e fez um pente para se pentear.

E tanto se penteou a deusa do astro

que deu a luz duas meninas.

Sabeis quem são as duas meninas?

As duas meninas mais belas que há?

Ah! só o poeta saberá. 


Jorge de Lima. A Túnica Inconsútil. Rio de Janeiro: Guanabara, 1938. 

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