Eram duas meninas de tranças pretas.
Veio uma febre levou as duas.
Foram as duas para o cemitério:
ambas ficaram na mesma cova.
Por sobre as pedras da sepultura
brotou bonina, brotou bonina,
nasceram plantas, nasceram mais plantas,
flores do mato, canas da várzea:
a sepultura virou canteiro.
Aves vieram cantar na plantas,
levaram sementes por sobre o mar.
Os peixes levaram estas sementes
até as Ilhas de Karakantá.
Ali brotaram flores estranhas.
Donde vieram flores tão raras?
Ah! só o poeta saberá.
Pois nesse mundo desconhecido
há casos desses que ninguém vê:
vieram insetos eijar as flores,
e um belo dia veio um poeta
pegar insetos para sua amada.
A borboleta mais rara que há
naquelas ilhas de Karakantá
é cor de amaranto com olhos azuis.
Mas heis de saber que a tal borboleta
contém veneno dentro dos olhos;
aí o poeta beijando tais olhos
ficou dormindo como um cadáver.
E então sonhou com as duas meninas:
que ambas dormiam na mesma cova,
que flores nasceram na sepultura,
que a sepultura virou canteiro,
que peixes levaram sementes da flores
para aquelas Ilhas de Karakantá.
O sonho do poeta o vento levou,
levou para um astro desconhecido.
E aí chegando tornou-se um mar:
a água do mar virou arco-íris.
Então uma deusa pegou o arco-íris
e fez um pente para se pentear.
E tanto se penteou a deusa do astro
que deu a luz duas meninas.
Sabeis quem são as duas meninas?
As duas meninas mais belas que há?
Ah! só o poeta saberá.
Jorge de Lima. A Túnica Inconsútil. Rio de Janeiro: Guanabara, 1938.
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