Hoje pensei o dia inteiro em te ligar
porque tive vontade de te ouvir
a sua pressa, a sua ansiedade e a sua urgência
ao telefone, e claro, você,
o que está fazendo e tal,
e as lições do professor de poesia, a quem
sempre releva perguntar o que está lendo.
Porque você tem seu Catulo, seu Horácio,
seu Plínio Jovem,
a remediar -- e sejamos
positivos, preencher --
a vaga do tempo incompreensível.
E eu te contaria que andei lendo
a biografia de Petrarca.
E você, com seus livros,
com seus clássicos e urgência,
repõe as letras no sentido das coisas,
quando, amigo e professor,
traz os poetas da Roma velha e cansada
para passear nas ruas da Santa Cecília,
Angélica, Consolação.
E eu te diria que Petrarca,
tão alto poeta,
viveu mergulhado em ninharias, como nós,
doce consolo.
E minha amiga sempre diz
dos encontros que havia antes
e não há mais
-- e eu me lembro
de você
e de seu sonoro nome em minha agenda
e penso que estamos aqui
e também nos encontramos
e almoçamos na cidade poluída
defendendo nosso Horácio
no fundo do bolso.
Iuri Pereira
in: Parte de Tudo. São Paulo: Hedra, 2025.
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