quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Drummond - Apelo aos meus dessemelhantes em favor da paz

 Ah, não me tragam originais
para ler, para corrigir, para louvar
sobretudo, para louvar.
Não sou leitor do mundo nem espelho
de figuras que amam refletir-se
no outro
à falta de retrato interior.
Sou o Velho Cansado
que adora o seu cansaço e não o quer
submisso ao vão comércio da palavra.
Poupem-me, por favor ou por desprezo,
se não querem poupar-me por amor.
Não leio mais, não posso, que este tempo
a mim distribuído
cai do ramo e azuleja o chão varrido,
chão tão limpo da ambição
que minha só leitura é ler o chão.
Nem sequer li os textos das pirâmides,
os textos dos sarcófagos,
estou atrasadíssimo nos gregos,
não conheço os Anais de Assurbanipal,
como é que vou -
                            mancebos,
                            senhoritas,
- chegar à poesia de vanguarda
e às glórias do 2000 que telefonam?
Passam gênios talvez entre as acácias
sinto estátuas futuras se moldando
sem precisão de mim
que quando jovem (fui-o A. C., believe it or not)
nunca pulei muro de jardim
para exigir do morador tranquilo
a canonização do meu estilo.
Sirvam-se de exonerar este macróbio
do penoso exercício literário.
Não exijam prefácios e posfácios
ao ancião que mais fala quando cala.
Brotos de coxa flava e verso manco,
poetas de barba-colar e velutínea
calça puída, verde: tá!
Outoniços, crepusculinos, matronas, contumazes:
tá!
O senhor saiu. Hora que volta? Nunca.
Nunca de corvo, nunca de São Nunca.
Saiu para não voltar.
Tudo esqueceu: responder
cartas; sorrir
cumplicemente; agradecer
dedicatórias; retribuir
boas-festas; ir ao coquetel e à noite
de autógrafos-com-pastorinhas.
Ficou assim: o cacto de Manuel
é uma suavidade perto dele.
Respeitem a fera. Triste, sem presas, é fera.
Na jaula do mundo passeia a pata aplastante,
cuidado com ela!
Vocês, garotos de colégio, não perguntem ao poeta
quando nasceu.
Ele não nasceu.
Não vai nascer mais.
Desistiu de nascer quando viu que o esperavam garotos de colégio
de lápis em punho
com professores na retaguarda comandando: Cacem o urso-polar,
tragam-no vivo para fazer uma conferência.
Repórteres de vespertinos, não tentem entrevistá-lo.
Não lhe, não me peçam opinião
que é impublicável qualquer que seja o fato do dia
e contraditória e louca antes de formulada.
Fotógrafos: não adianta
pedir pose junto ao oratório de Cocais
nem folheando o álbum de Portinari
nem tomando banho de chuveiro.
Sou contra Niepce, Daguerre, contra principalmente minha imagem.
Não quero oferecer minha cara como verônica nas revistas.
Quero a paz das estepes
a paz dos descampados
a paz do pico de Itabira quando havia pico de Itabira
a paz de cima das Agulhas Negras
a paz de muito abaixo da mina mais funda e esboroada de Morro Velho
a paz
da
paz.


Fonte: DRUMMOND, C.D.A. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Record, 2001. 

terça-feira, fevereiro 24, 2026

Yosa Buson - Traduções de Olga Savary

 Em rincões e esquinas
frios cadáveres:
flores de ameixeira.

***

Vou-me embora
e tu ficas:
dois outonos.

***

Oh cruel vendaval!
Um bando de pequenos pardais
agarra-se à relva.

***

Chuva de primavera:
na carruagem compartilhada
minha bem amada suspira.

***

Os dias são lentos:
há ecos que se escutam
em algum lugar de Kyo*

*Nota da Tradutora (N.T). Kyo ou Kyoto era a antiga capital imperial. O poeta alude aqui ao sentimento do passado que se advinha ou parece escutar-se através dos velhos muros da cidade.

***

Lento dia:
um faisão
repousando sobre a fonte

 N.T. Imagem impressionista na qual o símbolo do faisão implica tanto em tranquilidade como em certa monotonia.

***

Halo de lua:
não é o aroma da ameixeira florida
nascendo no céu?

N.T.Versão de Blyth. Henderson transcreve:

Da ameixeira em flor
flutua esta fragrância?
Há um halo em torno da lua.

Preferimos a do primeiro porque a sugestão -- quase mágica -- é maior. 

***

Menina muda,
convertida em mulher
já se perfuma.

***

Sob a folhagem amarela
o mundo repousa enterrado...
Exceto o Fuji.

***

Sobre o sino do templo
repousa e dorme
a borboleta*

N.T. A borboleta se transforma em sinônimo de ingenuidade e pureza através deste poema. O grande sino parece indicar o contraste. 

***

Ar matinal:
a penugem das erucas
ondula.

***

Chuva de primavera
e os ventres das espigas
não se molharam ainda.

***

Aqui e acolá
som de cascatas:
folhas tenras a esmo.

***

Frio na alcova
ao pisar teu pente,
minha esposa morta.

***

Faisão da montanha,
o sol da primavera
pisa sua cauda.

N.T. O verdadeiro sentido deste poema tem sido muito discutido. A imagem, no entanto, tem uma clara vitalidade poética. 

***
Vou até às cerejeiras,
dormir sob seus capulhos,
sem deveres.

N.T. Sentimento contemplativo diante da natureza. 

***

Um caranguejo:
no mesmo lugar 
que o céu de ontem.

N.T. O tempo aparece para nós como que parado, eternizado, através da visão do caranguejo imóvel sobre o céu sem nuvens.

***

Nada se move,
nem uma folha: inquietante
jaz o bosque no verão. 

***
Lavrando o campo:
do templo aos cumes
o canto do galo.

N.T. Enfoque melancólico ao fim do dia.

***
O uguisu está cantando,
sua pequena boca 
aberta. 

***
Indiferente e lânguido
queimo incenso:
anoitecer de primavera.

***

As flores me enlouqueceram:
e retorno à casa
enfastiado de cortesãos.

N.T. A beleza da natureza supera os artifícios da corte.

***
Estação chuvosa:
com uma lanterna de papel na mão
caminho ao longo do pórtico.

N.T. Sugestão de espera.

***

O lutador, na velhice,
conta à sua mulher o combate
que não devia ter perdido.

***

Casal de patos.
Mas o tanque é velho e a doninha
os vigia.

N.T. Os patos mandarins são símbolos de felicidade conjugal. Este poema é fatalista.

***

Um rouxinol!...
E na hora do jantar
a família reunida. 

***

Sob a chuva primaveril
absortos num diálogo
a capa de palha e o guarda-chuva. 

N.T. Este célebre hai-kai de Buson destacou-se especialmente tanto por seu humor como pela sugestão que se desprende da imagem final. Adivinham-se dois caminhantes - talvez enamorados - por seus implementos contra a chuva. 

***

O crisântemo amarelo
sob a luz da lanterna de mão
perde sua cor.

***

Chegado para ver as flores,
sobre elas dormirei
sem sentir o tempo.

***

Ontem um vôo,
hoje outro: os gansos selvagens
não estarão aqui esta noite.

***

Peônias
numa região celestial
do grande jardim.

***

Lavrando o campo
a nuvem imóvel
se foi.

N.T. Visão do tempo arrastando-se monotonamente. Persistência do céu como fundo desse mesmo tempo. 

***

A cerejeira florida
desapareceu entre as árvores
em templo convertida.

N.T.  Este hai-kai tem influência budista em seu conteúdo. A contemplação da natureza exalta e transforma as coisas. 

***

Em círculo rodam
os gansos selvagens; ao pé da colina
a lua é um selo. 

N.T. Poema que se visualiza pictoricamente pela forma com que localiza os elementos.

***

Uma baleia!
Nadando sob a água mais e mais
assoma sua cauda.

***

Olhai a boca de Emma O!
Parece que vai cuspir
uma peônia!

N.T. Emma O é o dono do inferno. Não se conseguiu estabelecer com exatidão se a peônia é usada como analogia da boca ou vice-versa. 

***

Amarelas couves em flor
Do lado leste, a lua,
e o sol se pondo.

N.T.

***

O ruído
de um rato sobre o prato
como resulta frio!

N.T. o animal raspando e resvalando sobre o prato branco e frio produz no poeta uma desagradável impressão de desespero. 

***

Melancolicamente
subo a colina
de sarças em flor.

***

Armazéns e atrás um caminho
onde as andorinhas
vêm e vão.

***

Capulhos na pereira
e uma mulher à luz da luz
lendo uma carta.

***

Primavera que parte
e botões de cerejeira
ainda irresolutos.

***

Florescente espinheiro
tão parecido aos caminhos
onde nasci!

***

Sinto um agudo frio:
no embarcadouro ainda resta
um filete de lua. 

***
Curta noite
perto de mim, junto ao travesseiro
um biombo de prata.

***

A noite passou rápida:
sobre a peluda eruca
contas de orvalho.

N.T. Estes três últimos hai-kais sobre o mesmo tema constituem um tríptico conhecido por sua força lírica. 

segunda-feira, fevereiro 23, 2026

Canções de Bilítis, Pierre Louÿs - Tradução de Guilherme de Almeida

 




CANTO PASTORAL

Devo cantar um canto pastoral, invocar Pan, deus dos ventos do estio. Guardo o meu rebanho, e Selenis o seu, à sombra redonda de uma oliveira trêmula.

Selenis está deitada na relva. Ela ergue-se e corre, ou procura cigarras, ou colhe flores e verduras, ou lava o rosto na água fresca do regato. 

Arranco a lã ao dorso louro dos carneiros, para prover à minha roca -- e fio. As horas são lentas. Uma águia passa no céu.

A sombra gira; mudemos de lugar o cabaz de flores e a jarra de leite. Devo cantar um canto pastoral, invocar Pan, deus dos ventos do estio.

CHANT PASTORAL 

Il faut chanter un chant pastoral, invoquer Pan, dieu du vent d’été. Je garde mon troupeau et Sélénis le sien, à l’ombre ronde d’un olivier qui tremble. 

Sélénis est couchée sur le pré. Elle se lève et court, ou cherche des cigales, ou cueille des fleurs avec des herbes, ou lave son visage dans l’eau fraîche du ruisseau. 

Moi, j’arrache la laine au dos blond des moutons pour en garnir ma quenouille, et je file. Les heures sont lentes. Un aigle passe dans le ciel.

L’ombre tourne : changeons de place la corbeille de figues et la jarre de lait. Il faut chanter un chant pastoral, invoquer Pan, dieu du vent d’été.

***


PALAVRAS MATERNAIS

Minha mãe banha-me no escuro, veste-me ao sol a pino e penteia-me na luz; mas quando saio ao luar, ela aperta-me o cinto e faz um nó duplo.

Ela me diz: "Brinca com as virgens, dansa com as criancinhas; não olhes pela janela; evita a palavra dos rapazes e teme o conselho das viúvas.

"Uma noite, alguém, como acontece a todas, virá buscar-te à soleira da porta, com um grande cortejo de tímpanos sonoros e flautas amorosas.

"Nessa noite, quando partires, Bilítis, tu me deixarás três odres de fel: um para a manhã, outro para o meio-dia, e o terceiro -- o mais amargo -- o terceiro para os dias de festa". 


PAROLES MATERNELLES

Ma mère me baigne dans l’obscurité, elle m’habille au grand soleil et me coiffe dans la lumière ; mais si je sors au clair de lune, elle serre ma ceinture et fait un double nœud.

 Elle me dit : « Joue avec les vierges, danse avec les petits enfants ; ne regarde pas par la fenêtre ; fuis la parole des jeunes hommes et redoute le conseil des veuves.

 « Un soir, quelqu’un, comme pour toutes, te viendra prendre sur le seuil au milieu d’un grand cortège de tympanons sonores et de flûtes amoureuses.

 « Ce soir-là, quand tu t’en iras, Bilitô, tu me laisseras trois gourdes de fiel : une pour le matin, une pour le midi, et la troisième, la plus amère, la troisième pour les jours de fête. »

***

OS PÉS DESCALÇOS

Tenho cabelos negros, soltos pelas costas, e um pequeno barrete redondo. Minha camisa é de lã branca. Minhas pernas firmes tisnam-se ao sol. 

Se eu morasse na cidade, teria jóias de ouro, e camisas douradas, e sapatos de prata...Olho para meus pés nus, calçados de poeira.

Psophis! vem cá, minha pobrezinha! leva-me até as fontes, lava-me os pés nas tuas mãos, e esmaga olivas com violetas para perfumá-los sobre as flores.

Hoje, serás minha escrava. Hás de seguir-me e servir-me, e ao fim do dia dar-te-ei lentilhas do jardim de minha mãe, para a tua. 

LES PIEDS NUS 

J’ai les cheveux noirs, le long de mon dos, et une petite calotte ronde. Ma chemise est de laine blanche. Mes jambes fermes brunissent au soleil.

 Si j’habitais la ville, j’aurais des bijoux d’or, et des chemises dorées et des souliers d’argent… Je regarde mes pieds nus, dans leurs souliers de poussière.

 Psophis ! viens ici, petite pauvre ! porte-moi jusqu’aux sources, lave mes pieds dans tes mains et presse des olives avec des violettes pour les parfumer sur les fleurs. 

 Tu seras aujourd’hui mon esclave ; tu me suivras et tu me serviras, et à la fin de la journée je te donnerai, pour ta mère, des lentilles du jardin de la mienne. 


 Fonte: Guilherme de Almeida (trad.) Pierre Louÿs. O Amor de Bilítis. Rio de Janeiro: José Olympio, 1948

domingo, fevereiro 22, 2026

Anacreontea - Traduções de Tadeu Andrade

 6

Eu tecia uma coroa
E entre as rosas vi o Amor;
Agarrei as suas asas,
Mergulhei-o no meu vinho,
E depois eu o bebi.
Mas agora, aqui no peito,
Elas fazem coceguinha.

7
As mulheres já me dizem:
“Você é um velho, Anacreonte!
Pega o espelho e vê se enxerga:
Não lhe sobram mais cabelos,
Sua cuca está pelada!”
Já eu, quanto ao meu cabelo,
Se ele existe ou já se foi,
Nada sei, mas isto eu sei:
Que convém tão mais ao velho
Se entreter com o prazer,
Quanto a Morte lhe é mais próxima.

8
Não me importa o que é de Giges 1,
Que reinou na antiga Sardes,
Não me tem qualquer cobiça,
Nem invejo os grandes reis.
Só me importa mergulhar
No perfume a minha barba,
Só me importa coroar
Com as rosas minha fronte.
O hoje é aquilo que me importa,
O amanhã quem é que sabe?
E, por isso, enquanto é dia,
Vá beber, lançar os dados,
Vá libar a Dioniso,
Pra doença não dizer
(Se vier): “Você não pode!”

 1Rei da Lídia, poderoso reino da Ásia Menor conhecido por suas riquezas. Sua capital era Sardes.

9
Deixe, pelo amor dos deuses,
Eu beber, beber sem conta,
Quero, eu quero enlouquecer!
Alcmeão enlouqueceu
E também o claro Orestes 1
Por matarem suas mães.
Eu, que não matei ninguém,
De beber o vinho rubro
Quero, eu quero enlouquecer.
Héracles enlouqueceu
Atirando as cruas flechas
Com o arco que era de Ífito 2.
Ájax enlouqueceu
Sobre o escudo se imolando
Com a espada de Heitor 3.
Quanto a mim, com este copo,
Nos cabelos a coroa,
Quero, eu quero enlouquecer.

 1 Tanto Alcmeão como Orestes mataram suas mães para vingarem seus pais. Como punição, ambos foram perseguidos com loucura pelas Erínias, deusas da vingança que punem crimes de sangue.

 2 Héracles matou Ífito, filho de Eurito, e tomou seu arco. Com esse mesmo arco, por um acesso de loucura que Hera lhe enviou, Héracles matou suas esposa, Mégara, e seus filhos.

 3 Na guerra de Tróia, Ájax, melhor dos gregos depois de Aquiles, depois de um duelo inconclusivo com Heitor, líder dos troianos, recebeu dele uma espada numa troca de presentes. Com essa mesma espada, Ájax se matou por vergonha de um acesso de loucura.

10
Que você deseja agora?
Que, matraca de andorinha?
Quer que as suas asas leves
Eu me ponha a tesourar?
Ou prefere que essa língua,
Como outrora fez Tereu 1,
Eu decida cortar fora?
Pra que foi dos belos sonhos,
Com seus cantos matutinos,
Saquear o meu Batilo?

 1 Tereu era um rei da Trácia que, apaixonado por Filomela, irmã de sua esposa, a estuprou, fazendo-a cativa e cortando-lhe a língua para evitar que contasse a alguém. Quando, Procne, sua esposa, descobriu, vingou-se servindo-lhe a carne do próprio filho num banquete. Quando Tereu perseguia as irmãs para matá-las, os deuses os transformaram em pássaros: tereu em uma poupa, Procne em um rouxinol e Filomela em uma andorinha, de onde vem a referência no poema.

11
Um Amor feito de cera
Um rapaz pôs-se a vender,
E eu, parando do seu lado,
Perguntei: “Quanto que custa
Este seu artesanato?”
E ele disse em fala dórica 1:
“Leve! Pague o que quiser!
Pra falar bem a verdade,
Eu não faço obras de cera,
Só não quero mais viver
Com o Amor, esse pilantra”.
“Vende-o! Vende-o! Pago bem!
Minha cama o acolherá”.
Vem, Amor, não se demore,
Incendeie-me, se não,
Para o fogo irá você.

 1 Um dos dialetos do grego. Talvez trate-se de uma referência à poesia dórica arcaica, que raramente cantava o amor. Seu autor mais famoso é Píndaro.

12
Alguns dizem que, gritando
À belíssima Cibele,
Átis, semi-feminino,
Na montanha enlouquecia 1.
Uns no píncaro do Claro,
Em que reina Febo Apolo,
Ao beber água falante
Enlouquecem, lançam gritos 2.
Quanto a mim, de Dioniso,
De perfume saciado,
E da minha companheira,
Quero, eu quero enlouquecer.

 1 Mortal por quem a deusa Cibele se apaixonara. Em pleno casamento dele, Cibele apareceu em sua forma divina e Átis, enlouquecido, se castrou, tornando-se o primeiro dos coribantes, sacerdotes eunucos da deusa.

 2 Referência ao oráculo de Apolo perto de Colofão, na Ásia Menor. Seu poço dava inspiração divina ao sacerdote.

13
Quero, quero, eu quero amar.
Eis que o Amor mandou amar,
Mas eu tive um pensamento
Tolo e desobedeci.
Ele então ergueu o arco
E as douradas flechas suas
E chamou-me para a a briga.
E eu tomando sobre os ombros
A armadura, como Aquiles,
Minha lança e meu escudo,
Com o Amor pus-me a lutar.
Ele vinha, eu fugia,
Logo lhe faltaram flechas
E ele se prostrou. Então
Atirou-se como um dardo,
E no meio do meu peito
Mergulhou e me desfez.
De que me serviu o escudo?
Que vou eu fazer por fora
Quando a luta é por dentro?

Fonte: "À moda de Anacreonte" in: À moda de Anacreonte | Tadeu Andrade

sábado, fevereiro 21, 2026

Lenda - Orides Fontela

 Na raiz cega deste espanto
há um cristal: quem o fitar

ah, quem o fitar
com os olhos em sangue
com as mãos em sangue
com o sangue vivo

quem o fitar não dormirá
mas será cristal de espanto 

--- ficará lúcido para sempre. 

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

Mário Quintana - Hai-Kais

 AMANHECE

Um copo de cristal
Sobre a mesa
Inventa as cores todas do arco-íris...

HOJE É OUTRO DIA

Quando abro cada manhã a janela do meu quarto
É como se abrisse o mesmo livro
Numa página nova...

QUEM SOMOS?

Esse estranho que mora no espelho
Olha-me de um jeito
De quem procura recordar quem sou...

A OFERENDA

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos...
Trago-te estas mãos vazias
Que vão tomando a forma do teu seio.

VERÃO

Quando os sapatos ringem
         - quem diria?
São os teus pés que estão cantando! 

O TÚNEL

Às vezes
O longo túnel do sono é iluminado, apenas,
Pelos olhos verdes dos fantasmas...

HAI-KAI DA PALAVRA ANDORINHA

A palavra andorinha
Freme devagarinho
E somo em silêncio...

HAI-KAI

Rosa suntuosa e simples,
como podes estar tão vestida
e ao mesmo tempo inteiramente nua? 

OS GRILOS

Eles cantam a noite inteira!
Não sabias?
Os grilos são os poetas mortos...

ELEGIA URBANA

Rádios. Tevês.
Goooooooooooooooooooooooolo!!!!
(o domingo é um cachorro escondido debaixo da cama.)

ESTRANHEZA

Os vivos e os mortos
Sempre tivemos uma coisa em comum:
Não acreditamos muito uns nos outros...

CONVITE

Basta de poemas para depois...
Ó vida, e se nós dois
Vivêssemos juntos?

HAI-KAI

Silenciosamente
sem um cacarejo
a Noite põe o ovo da lua...

HAI-KAI DE OUTONO

Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?

ARTE POÉTICA

Esses poetas que tudo dizem
Nada conseguem dizer:
Estão fazendo apenas relatórios...

LIBERTAÇÃO

A morte é a libertação total:
A morte é quando a gente pode, afinal,
Estar deitado de sapatos...

HAI-KAI DE OUTONO

Uma folha, ai,
melancolicamente
                   cai! 

O VERSO

O verso é um doido cantando sozinho.
Seu assunto é o caminho. E nada mais!
O caminho que ele próprio inventa...


Fonte: Polito, R. (org.) Mário Quintana. O Livro dos Haicais. Ilustrações de Roberto Negreiros; posfácio de Paulo Franchetti. São Paulo: Globo, 2009. 

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Orides Fontela

 Kant (Relido)


Duas coisas admiro: a dura lei
cobrindo-me
e o estrelado céu
dentro de mim


Orides Fontela. Rosácea, 1986. 

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Simônides - Elegia 8 (Tradução de Tadeu Andrade)

 Coisa mais bela disse o homem quio:
“Como das folhas são as gerações dos homens”.
Pouquíssimos mortais, como a escutassem,
Puseram-na no peito, pois atém-se a espera
Ao homem, já nascida n’alma jovem.
Quando um mortal possui da mocidade a flor,
No surdo engenho pensa o inatingível
E não espera que virá velhice ou morte,
Nem, se saudável, pensa na doença.
É tolo quem assim cogita, e desconhece
Que à juventude e à vida é pouco o tempo
Dos homens. E, se o aprendes, rumo ao fim da vida,
Na alma degustando os bens, suporta.

Fonte: tadeuandrade.wordpress.com  (Acessado em 11.02.2026).

terça-feira, fevereiro 17, 2026

Haikais de Bashô - Traduções de Olga Savary

 Ainda que morrendo
o canto das cigarras
nada revela!

***

Por nuvens separados
os patos selvagens
se dizem adeus....

Nota da tradutora (N.T.) Escrito na ocasião de partir -- para perambular por seus caminhos -- na idade de 23 anos, depois de perder seu primeiro mestre. 
***

Chuva cinzenta:
hoje é um dia feliz
mesmo com o Fuji invisível.

***

Ah, kankodori:
tu aprofundas
minha solidão! 

Nota da tradutora (N.T.) O kankodori é um pássaro que vive nas montanhas. Seu canto triste, ouvido à distância, assemelha-se ao do uirapuru. 

****

Move-te, ó tumba!
Meu pranto
é o vento do outono

***

Sobre o telhado
flores de castanheiro
ignoradas.

***

Sobre o tanque morto
um ruído de rã
submergindo.

***

A cada brisa
a borboleta muda de lugar
sobre o salgueiro

***

Pequeno cuco cinzento:
canta e canta, voa e voa.
Muito há o que fazer! 

N.T. Escrito em 1687, este hai-kai tenta aprisionar a vivaz domesticidade da ave, assim como a mesma felicidade que emana de seu trabalho. 

***

Estendidos ao sol
os quimonos: a manga
do menino morto. 

***

Chuva estival,
torna transparente
a ponte de Seta!

N.T. A "Longa Ponte" de Seta é uma das famosas "OITO VISTAS DO LAGO OMI". A visão é singular parecidade a que nos apresenta o mestre da gravura Hiroshige, através da qual uma chuva fina delineia tenuemente os contornos da ponta. 



***

Imensa calma.
Penetrando as rochas
o canto das cigarras.

N.T. Usou-se também: Filtrando pela rocha/o ruído das cigarras. De qualquer maneira, esta imagem resulta tão imprevista como feliz. 

***

Sobre o mar, a tarde:
Voz de pato vem
vagamente branca...

***

Vamo-nos, vejamos
a neve caindo 
de fadiga.

***

De que árvore florida
chega? Não sei.
Mas é seu perfume...

N.T. Escrito em 1688. O poema alude ao grande templo de Amaterasu Omikami, a Deusa do Sol, em Ise, e à sugestão de um perfume que pode ter emanado não necessariamente nesse instante. 

***

Molhadas,
inclinadas:
peônias sob a chuva

***

Ruídos nas ramas.
Trêmulo, meu coração detem-se
e chora na noite...

***

Nesta noite
ninguém pode deitar-se:
lua cheia.

***

Nem flores nem lua.
E ele tomando sakê
sozinho!

N.T. Escrito em 1689. Essa "pintura de um bebedor de sakê" reflete a exteema solidão e abstração em que se acha o homem, impassível inclusive ante a natureza. 

***

Já não me importa
o horto de camélias
mas ver de novo o Fuji.

***

Entre Sado
e o mar agitado,
a Via Láctea.

***

Viagem de anciões,
cabelos brancos, bastões,
visita às tumbas...

N.T. Escrito em 1694. Talvez uma triste rememoração dos familiares do poeta. Em todo o caso, a visão é tão piedosa como fatalista. 

***

Este caminho!
sem ninguém nele,
escuridão de outono.

N.T. Escritos no ano da morte de Bashô e conhecido como "o caminho de Bashô". 

***

A calhandra canta
sem deter-se em nada...
E que longo dia!

***

Nuvens de flores...
E um sino...o de Ueno?
Ou o de Asakusa?

N.T. A estação é a primavera, sinônimo de flores de cerejeira. Os sinos pertencem aos templos de Kaneiji, em Ueno,a Sensoji, em Asakusa, ambos dentro da atual cidade de Tóquio. Provavelmente Bashô o compôs às margens do rio Sumida e toda a quietude e o mistério que emanam do ambiente, tornam ainda mais mágico o som longínquo no meio da noite. 

***

O azeite de minha lâmpada
consumido. Na noite,
pela minha janela, a lua. 

***

Para minha fadiga
um albergue...Mas, oh,
estas glicínias!

***

Primeira nevada
própria para dobrar as folhas
dos junquilhos.

***

Cerros com tíbias sendas.
Sobre os cedros, o crepúsculo.
Ao longe, sinos.

***

Lua cheia:
vago através da noite
em torno do poço...

N.T. A lua na água do tanque faz esquecer o sono. 

***

Relvas de verão
sob as quais guerreiros
sonham.

***

Brisa leve:
a sombra da glicínia
estremece apenas...

***

Varrendo o jardim
a neve é olvidada
pelo ancinho...

N.T. De maneira indireta aparecem neste hai-kai os elementos zen-budistas ou o que se chama "sabor zen" ou zen-mi. É aguda a percepção do poeta ao dar-nos uma imagem que resulta imponderável, apesar da fortaleza do implemento. 
***

Canto e morte
da cigarra
na mesa paisagem.

N.T. Intenção zen-budista da relatividade da vida. 

***

Belo ainda na manhã
o velho cavalo
sobre a neve.

***

Sem sequer um galho
longe do mundo, vive
o nenúfar.

***

Porta fechada,
deito-me no silêncio.
Prazer da solidão.

***

A água gelada
e, apenas adormecida,
a gaivota.

***

Jogos e risos
que cessam:
lua de outono.

***

Pintando sobre o biombo
um pinheiro dourado:
interior de inverno.

N.T. A contemplação da natureza na pintura ajuda a suportar o inverno.  

***

Necessita o rouxinol
um farol de papel
para seguir alerta?

***

Desenhada sobre o cavalo
minha sombra parece
congelada.

***

Relâmpago
e na sombra
o ruído vibrante da garça

***

Sopra o vento de inverno
os olhos do gato
pestanejam.

***

Um doce ruído
interrompe meu sonho:
gotas de chuva sobre a folhagem.

***

Cebola branca
recém-lavada:
impressão de frio.

***

Galho morto
e, nele pousado, um corvo:
tarde de outono.

N.T. Escrito aproximadamente em 1679 e possivelmente um dos primeiros hai-kais do "estilo novo". Este poema tem sido considerado cmo um dos mais audazes do poeta e contém, além disso, "o princípio da comparação interna". De qualquer maneira, a visão não pode ser mais comprometedoramente desolada. 

***

O crepúsculo:
ervas que seguem o rastro
dos rebanhos retornando.

***

Até uma choça com teto de palha
neste mundo louco se transforma
em casa de bonecas. 

Fonte: O Livro dos Hai-Kais. São Paulo: Massao Ohno, 1980. 

segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Meleagro de Gádara - Antologia Grega 12,119

 Tomarei, Baco, a tua coragem. Comanda a festa,

     inicia, deus que segura as rédeas do coração mortal.

Nascido do fogo, tu amas a chama de Eros

   e após me prenderes de novo, me conduzes como teu suplicante.

És traidor e desleal, ordenas que se esconda teus mistérios,

    mas os meus agora desejas revelar. 

Tradução de Flávia Vasconcellos Amaral in: A Guirlanda de sua Guirlanda, Epigramas de Meleagro de Gádara: Tradução e Estudo. São Paulo: FFLCH/DLCV/USP. Dissertação de Mestrado. 2009. 


Suportarei em teu nome, Baco, a tua ousadia! Vamos,

   dirige a festa! Um deus dirige o meu coração mortal.

Porque no fogo foste gerado, amas a chama que há em Eros

    e, aprisionando-me de novo, arrastas-me como suplicante.

Como és traidor e falso! Mandas ocultar os teus mistérios,

    mas fazes questão de desvendar agora os meus.


Tradução de Carlos Jesus in: Antologia Grega: A Musa dos Rapazes (Livro XII). Coimbra: Coimbra University Press. 2017.  



Οἴσω, ναὶ μὰ σέ, Βάκχε, τὸ σὸν θράσος· ἁγέο, κώμων 
     ἄρχε· θεὸς θνατὰν ἁνιόχει κραδίαν·
ἐν πυρὶ γενναθεὶς στέργεις φλόγα τὰν ἐν Ἔρωτι
    καί με πάλιν δήσας τὸν σὸν ἄγεις ἱκέτην
 ἦ προδότας κἄπιστος ἔφυς, τεὰ δ' ὄργια κρύπτειν
      αὐδῶν ἐκφαίνειν τἀμὰ σὺ νῦν ἐθέλεις

sábado, fevereiro 14, 2026

Bacanal - Manuel Bandeira

Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
           Evoé Baco! 

Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada 
A gargalhar em doudo assomo...
         Evoé Momo! 

Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
--  Cobras de lívidos venenos...
     Evoé Vênus! 

Se me perguntarem: que mais queres,
Além de versos e mulheres? ....
-- Vinhos! ...O vinho que é o meu fraco!
           Evoé Baco!

O alfanje rútilo da lua
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que não domo!...
      Evoé Momo!

A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
        Evoé Vênus! 

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Jorge de Lima - Duas meninas de tranças pretas

 Eram duas meninas de tranças pretas. 

Veio uma febre levou as duas.

Foram as duas para o cemitério:

ambas ficaram na mesma cova.

Por sobre as pedras da sepultura

brotou bonina, brotou bonina,

nasceram plantas, nasceram mais plantas, 

flores do mato, canas da várzea:

a sepultura virou canteiro. 

Aves vieram cantar na plantas,

levaram sementes por sobre o mar.

Os peixes levaram estas sementes

até as Ilhas de Karakantá.

Ali brotaram flores estranhas.

Donde vieram flores tão raras?

Ah! só o poeta saberá.

Pois nesse mundo desconhecido

há casos desses que ninguém vê:

vieram insetos eijar as flores,

e um belo dia veio um poeta

pegar insetos para sua amada.

A borboleta mais rara que há

naquelas ilhas de Karakantá

é cor de amaranto com olhos azuis.

Mas heis de saber que a tal borboleta

contém veneno dentro dos olhos;

aí o poeta beijando tais olhos

ficou dormindo como um cadáver.

E então sonhou com as duas meninas:

que ambas dormiam na mesma cova,

que flores nasceram na sepultura,

que a sepultura virou canteiro,

que peixes levaram sementes da flores

para aquelas Ilhas de Karakantá.

O sonho do poeta o vento levou,

levou para um astro desconhecido.

E aí chegando tornou-se um mar:

a água do mar virou arco-íris.

Então uma deusa pegou o arco-íris

e fez um pente para se pentear.

E tanto se penteou a deusa do astro

que deu a luz duas meninas.

Sabeis quem são as duas meninas?

As duas meninas mais belas que há?

Ah! só o poeta saberá. 


Jorge de Lima. A Túnica Inconsútil. Rio de Janeiro: Guanabara, 1938. 

ais ou menos

       (oração pela descrença) 

    Senhor, 

peço poderes sobre o sono,

   esse sol em que me ponho,

a sofrer meus ais ou menos,

    sombra, quem sabe, dentro de um sonho.

     Quero forças para o salto

do abismo onde me encontro

   ao hiato onde me falto.

e, aos pés da pedra,

    essa sombra, pedra que se esfalfa.

    Pedra, letra, estrela à solta,

sim, quero viver sem fé,

   levar a vida que falta

sem nunca saber quem é. 


Paulo Leminski. ais ou menos. In: Toda Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. 

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Agamêmnon de Ésquilo, versos 1331-1342 - Tradução de Jaa Torrano

 Coro:

A prosperidade brota insaciável

a todos os mortais. Por recusa

ninguém a repele de indigitados palácios

a dizer: "não entres mais aqui".

Os Venturosos deram a este homem

capturar o país de Príamo

e honrado por Deus retorna ao lar.

Se agora responder por sangue antigo

e morto pelas mortes cobrar punição

com outras mortes,

que mortal ouvindo isso alardearia

ter nascido com incólume destino? 


Fonte: TORRANO, Jaa. Ésquilo. Oresteia I: Agamêmnon. São Paulo: Iluminuras, 2004. 

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

O Tempo cobra o tributo (Marcelo Tápia)

 Quem enfrenta sua velhice

o faz por não morrer jovem:

esse consolo se diz

para que o ancião se conforme.


Mas será melhor, por certo,

viver mais que partir cedo;

se outro mundo há, eterno,

que não se apresse o desfecho.


Foi-se a era dos heróis

que moços iam em glória;

hoje, com tudo o que dói,

prefere-se a longa história.


Sim, não falta dor à idade:

entre outras, essa sentença

sugere viver com arte,

e manter leve a consciência,


sem pesar demais os erros,

nem cultivar os remorsos,

e tampouco dar-se aos medos,

só aos riscos, com conforto. 


Desprezar os maldizeres

convém a quem se quer bem;

nutrir amizades que restem

é o que a alegria retém.


Pensar no porvir se deve,

mas o agora sempre urge:

amanhã talvez me leve

a infalível foice a algures.


Fruir as coisas vividas,

mínimas de todo dia,

é ter a vida colhida

mesmo onde ela se escondia.


O tempo curto desdobra-se

em muitos se cada instante

é preenchido sem sobras,

seja ao depois, seja ao antes;


se os anos idos soçobram,

deixo o choro e sigo adiante. 


Marcelo Tápia. Ascensões e Descensos. São Paulo: Editora Madamu, 2025. 

terça-feira, fevereiro 10, 2026

Interrupção - Konstantinos Kaváfis

 A obra dos deuses, nós a interompemos -- entes 
somos da pressa e do momento, inexperientes.
No palácio de Elêusis e no de Ftia, eis
que iniciam Deméter e Tétis, em chamas
altas e fumo espesso envoltas, grandes obras. Mas
sempre foge Metanira aos aposentos do rei,
cabelos soltos, temerosa. Também
Peleu se atemoriza sempre e intervém.


Tradução de José Paulo Paes in: Konstantinos Kaváfis. Poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. 

segunda-feira, fevereiro 09, 2026

Horácio, Ode III. 30 - Tradução de Trajano Vieira

 Ergui um monumento mais perene

que o bronze, mais altivo que as pirâmides

nem a chuva voraz, nem sucessivos

anos o anulam, nem o árduo Áquilo.

Morro mas parcialmente e pouco vai

de mim a Libitina. Novo, os pósteros

só me farão crescer, enquanto suba

ao Capitólio o sumo padre, atrás

a virgem quieta. Onde o Ofanto estronda,

onde Dauno regeu a gente rude, 

na Apúlia árida, dirão: não mais

negligenciável, foi quem pôs o canto

eólio, pioneiro, em metro itálico.

Reivindica, Melpômene, a altivez

conquistada por méritos e cinge

minha cabeça com o louro délfico.

domingo, fevereiro 08, 2026

Marcelo Tápia

 VOZES


Aprendo por mim mesmo,

mas o Deus

plantou-me no imo

cantares diversos


De verdade anunciada

tenho o ambíguo;

se me é dado cantar,

diga-se no que digo.


o desígnio

de ser alheio e ser comigo

de se revelar

a voz do que imito,


o vão perdido

do elo divino.


Marcelo Tápia. Ascensões e Descensos. São Paulo: Editora Madamu, 2025. 

sábado, fevereiro 07, 2026

Anna Akhmátova

 A MUSA

Quando à noite eu espero a sua vinda, 
minha vida parece estar por um fio. 
Que valem honras, juventude, liberdade 
diante da doce amiga com a flauta na mão? 
Ei-la, chegou: lançando o manto para trás
deteve o olhar atento sobre mim.
“Foste tu” – lhe pergunto – “que ditaste a Dante 
as páginas do Inferno?” E ela: “Eu". 


 Tradução de Rafael Brunhara

sexta-feira, fevereiro 06, 2026

 Este é o tempo

Da selva mais obscura


Até o ar azul se tornou grades

E a luz do sol se tornou impura


Esta é a noite

Densa de chacais

Pesada de amargura


Este é o tempo em que os homens renunciam.


Sophia de Mello Breyner Andresen. Mar Novo, in Obra Poética. Rio de Janeiro: Tinta da China, 2018. 

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Horácio, Ode I, 38 - Tradução de Trajano Vieira

 Detesto aparatos persas, não

suporto, infante, a tília das guirlandas,

não queiras encontrar em que lugar

retarda a rosa extemporânea.


Não emprestes teu zelo a somar

algo que for, menino, ao simples mirto.

O mirto não humilha quem ministra 

o vinho, e a mim que o sorvo à sombra. 


Trajano Vieira. Catulo & Horácio: Uma Antologia. São Paulo, Cotia: Ateliê Editorial, 2025. 


Outra Tradução: Haroldo de Campos 

Horácio, Ode I.38 - Tradução de Raimundo Carvalho

 Rapaz, odeio pompas persas,

não me apraz coroa de tília,

não queiras saber onde a rosa

            brotou tardia.


Nada acresças ao simples mirto;

vigio; nem a ti, servindo-me,

mirto é vil, nem a mim, bebendo

           na espessa vide. 


Tradução de Raimundo Carvalho


Fonte: CARVALHO, R. Lira a Vapor - Poesia Reunida 1983-2025. São Paulo: Immensa Editorial, 2025. 

terça-feira, fevereiro 03, 2026

Byron: So we'll go no more a-roving

   Já não remaremos mais
tanto noite adentro, embora
   corações batam iguais
e o luar brilhe como outrora.
Pois a espada enfim desgasta
sua bainha e a alma, o peito,
corações dão-nos seu "basta"
e Amor quer pausa no leito.
Mesmo se o dia desfaz


brusco a noite própria a amar,
já não remaremos mais
tanto como outrora ao luar.


   So late into the night,
Though the heart be still as loving,
   And the moon be still as bright.

For the sword outwears its sheath,
   And the soul wears out the breast,
And the heart must pause to breathe,
   And love itself have rest.

Though the night was made for loving,
   And the day returns too soon,
Yet we'll go no more a roving
   By the light of the moon.

Tradução de Nelson Ascher in "Um Pouco de Tudo". Link: Folha de S.Paulo - Nelson Ascher: Um Pouco de Tudo - 11/09/2006. [Acessado em 25 de janeiro de 2026]

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Biografia - Sophia de Mello Breyner Andresen

 Tive amigos que morriam, amigos que partiam

Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.

Odiei o que era fácil

Procurei-me ver na luz, no mar, no vento.


Sophia de Mello Breyner Andresen Mar Novo. in:  Obra Completa. Rio de Janeiro: Tinta da China do Brasil, 2008.

domingo, fevereiro 01, 2026

Li Bai - Bebendo sozinho sob a lua (2 traduções)

 Em meio a flores a jarra de vinho
virar sozinho sem mais companhia
Erguer o copo à lua reluzente
e mais a sombra agora somos três
Contanto a lua não saiba beber
e em vão a sombra me devolva o corpo
por um momento seguem lua e sombra
Todo o prazer é só uma primavera
Eu canto e a lua flana tremulando
Danço e se soma a sombra redobrando-se
Despertos dividimos alegria
depois de ébrios cada qual um caminho
Até não mais, desfeitos nós se apartam
rever-se um dia pela Via Láctea 

Tradução de Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao in: Antologia de Poesia Clássica Chinesa - Dinastia Tang, São Paulo: Editora da Unesp. 2013

Ergo entre as flores um copo de vinho
e convido o luar
Acabo também por convidar
a minha sombra.
Mas a lua não sabe beber.
e a minha sombra não me consegue acompanhar.
Companheiros de um instante.
– a lua      a minha sombra e eu – vamos brindar.
à primavera..
Enquanto canto     a lua vagueia.
Enquanto danço  a minha sombra desespera.
Esqueçamos tudo enquanto estivermos a beber.
Que cada um se afaste.
quando o dia chegar.
Na longínqua Via Láctea.
mais cedo ou mais tarde.
nos voltaremos a encontrar.

Tradução de Pedro Belo Clara in: "7 poemas de Li Bai » Recanto do Poeta" [Acessado em 24.01.2026]