quinta-feira, janeiro 15, 2026

Ovídio - Amores 1.5 - 3 traduções

1. José Paulo Paes (1997)
Era intenso o calor, passava já do meio dia;
    Estendi-me na cama a repousar os membros.
Das janelas, em parte abertas, em parte cerradas,
   Vinha luz semelhante à que há dentro das matas,
À luz mortiça do crepúsculo, após Febo sumir,
  Ou de antes de a noite ir-se sem que seja dia.
A esta luz é que se hão de mostrar as jovens tímidas;
   Nela, o pudor medroso espera achar refúgio. 
Eis que chega Corina numa túnica ligeira, 
   Cobriam os cabelos seu alvo pescoço;
Assim entrava pela alcova a formosa Semíramis,
   Diz-se, e Laís, a quem tantos homens amaram.
Desvesti-lhe a túnica; de tão tênue, mal contava:
  Ela lutou, entanto, para cobrir-se com 
A túnica, mas sem nenhum empenho de vencer:
   Venceu-a, sem pesar, a sua traição.
Ficou em pé, sem roupa alguma, diante dos meus olhos.
  Não havia, em seu corpo, um único defeito.
Que ombros e que braços a mim foi dado ver, tocar!
  Os belos seios, que deleite comprimí-los!
Que ventre mais polido logo debaixo do peito!
  As ancas, que primor! Que juvenil a coxa!
Por que pormenorizar? Nada vi de não louvável! 
   E a nudez lhe estreitei contra o meu próprio corpo. 
Quem não sabe o resto? Exaustos, repousamos depois.
   Que mais outros meios-dias prósperos me sejam!

2. Lucy Ana de Bem (2010)
Fazia calor e o dia tinha cumprido a metade de suas horas;
Os membros a descansar no meio do leito repousei.
Parte da janela estava aberta, parte fechada,
Tais lumes costumam ter as selvas,
Tais os crepúsculos que pouco alumiam quando Febo foge,
Ou quando a noite parte sem, contudo, ter nascido o dia;
É a essa luz que a menina casta deve expor-se,
Onde o tímido pudor anseie encontrar abrigo.
Eis, Corina chega, coberta por uma túnica lassa,
Com os cabelos repartidos cobrindo o cândido colo;
Da forma como, dizem, a formosa Semíramis adentrou a alcova
  E Laís, amada por muitos homens.
Arranquei-lhe a túnica; transparente, não estorvava tanto,
Entretanto, ela lutava para cobrir-se;
Ela, que lutava como se não quisesse vencer, 
Sem dificuldade foi vencida por sua própria cumplicidade.
Quando se pôs de pé, deposta a veste, ante os meus olhos,
Por todo o corpo, em toda a parte, defeito algum havia. 
Que ombros, que braços, vi e toquei! 
A forma dos mamilos quão apta era ao toque!
Que ventre perfeito sob o rijo peito!
Que ancas fartas! Que coxa juvenil!
Para que entrar em detalhes? Nada vi não digno de elogio, 
E nua, abracei-a junto ao meu corpo.
Quem desconhece o restante? Rendidos, ambos repousamos.
Que me ocorram muitos meios-dias como esse!  

3. Carlos Ascenso André (2011) 
Fazia calor, e o dia já tinha cumprido metade das suas horas;
   pousei em cima da cama o corpo, para lhe dar descanso.
Uma parte da janela estava aberta, a outra parte fechada;
   assim era a luz, como a que os bosques costumam deixar entrever,
como a penumbra do crepúsculo, à hora em que o sol se esvai,
  ou quando a noite já se foi e não nasceu, ainda, o dia;
essa é a luz que deve amostrar-se a jovens recatadas;
   nela, a timidez e a vergonha encontram refúgio.
Eis que surge Corina, resguardada e envolta em sua túnica,
   os cabelos caídos de ambos os lados do colo resplandecente;
assim formosa entrava Semíramis no quarto,
  diz-se, e Laís, amada por tantos homens.
Arranquei-lhe a túnica; e não é que me estorvasse muito a sua quase transparência, 
   mas ela resistia por estar coberta daquela túnica;
pois que resistia assim como quem não quer vencer,
   foi vencida sem custo, com a sua própria ajuda.
Quando ela surgiu diante de meus olhos, o manto caído aos pés,
   no corpo inteiro nem uma só mácula se me mostrou:
Que ombros! Que braços eu vi e toquei!
  A beleza dos seios, como se pôs ao dispor dos meus afagos!
Como era liso, abaixo da linha do peito, o ventre!
   Que grandiosidade e perfeição nas coxas! Que frescura nas pernas!
Que mais minúcias direi? Nada vi que não mereça elogio,
    e foi a nudez do seu corpo que apertei contra o meu. 
O resto, quem não o sabe? Depois da fadiga, repousamos ambos.
  Assim possam correr muitas vezes as minhas tardes! 

Fontes
ASCENSO, C.A. Ovídio. Amores. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
DE BEM, L. Primeiro Livro dos Amores. São Paulo: Hedra, 2010. 
PAES, J.P. Poesia Erótica em Tradução. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

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