quinta-feira, janeiro 29, 2026

andrômaca

 não conheci troia

ruínas a mais ruínas a menos

também guardamos pedras aqui

do outro lado do oceano

tudo o que aprendi foi nesse alfabeto moderno

eis o momento apoteótico minha obsessão

nossos despojos é troia

minhas amigas encurraladas

na mesa do chefe é troia

a jovem saco preto no rosto

festa de luxo é troia

as baratas roendo o cu

da guerrilheira comunista é troia

é troia meu companheiro baleado no rosto

é troia os corpos desovados no mangue

as lideranças perseguidas é troia

as vítimas do feminicídio é troia

os milicos os fascistas os tiranos

disparam todos contra troia

a filosofia o direito o ocidente

nascem da devastação de troia

agora você entende por que voltei?

não conheci troia mas a entrevejo esplêndida

nas carícias clandestina durante os bombardeios

e gás de pimenta nas barricadas

nas clínicas de aborto nos abrigos

inusitados na desobediência

no canto sim no canto

eu não vou me entregar

você grita eu repito

através dos séculos

minha irmã

não há poemas para ti

nenhuma linha sobre cibele

onde perdemos o tino quando virou espetáculo

maldita literatura e seu panteão de vitórias

me abrace forte a explosão está próxima

ela há de vir


Luiza Romão in: Também guardamos pedras aqui. São Paulo: Editora Nós, 2021. 

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