sexta-feira, outubro 13, 2023

Paladas de Alexandria - Antologia Grega 9.72 e 9.169

 De Paladas de Alexandria nos restaram aproximadamente 151 epigramas na Antologia Grega. Estabelece-se seu período de atuação no século IV d.C. Sua poesia mostra a figura de um professor de letras (grammatistés) resignado, o último dos pagãos numa cidade cristã.

Traduções: Rafael Brunhara

quinta-feira, outubro 12, 2023

O Mapa - Mário Quintana


O mapa 

 Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...

(E nem que fosse o meu corpo!)

 Sinto uma dor infinita
 Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...

 Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...

Quando eu for, um dia desses,
 Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
 Serei um pouco do nada
 Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
 Suave mistério amoroso,
 Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...

quarta-feira, outubro 11, 2023

Alceu da Messênia - Epigramas

 Alceu da Messênia atuou entre 219 e 198 a.C., durante o reinado de Filipe V da Macedônia sobre a Grécia. Dele nos restaram diversos poemas de ataque a Filipe, o que nos permite datar sua obra com relativa precisão. Mas dos 22 epigramas que nos restaram, parte considerável é de natureza erótica. Segundo o célebre filólogo alemão Ulrich von Wilamowitz-Moellendorf, Alceu representava o último poeta helenístico a demonstrar uma verdadeira originalidade. O poeta Meleagro de Gádara (séc I d.C.) diz que Alceu é um "jacinto falador": o jacinto, entendido pelos gregos com uma flor que simbolizava a dor, poderia ser uma alusão aos poemas políticos contra Filipe, que relevam um tom melancólico. Entretanto, como seus poemas são muito mais diversos do que isso, talvez a comparação seja apenas fortuita. 


Traduções: Rafael Brunhara

sexta-feira, outubro 06, 2023

Paulo Silenciário - Epigramas Eróticos

 *Paulo Silenciário (575 d.C ou 585 d.C.) foi um poeta grego de Constantinopla. Compôs entre outros epigramas, uma écfrase da igreja de Hagia Sofia. Mas sua obra é mais conhecida por seus poemas eróticos, cerca de oitenta, que foram conservados pela Antologia Palatina.

Traduções: Rafael Brunhara

quinta-feira, outubro 05, 2023

Madrigal - Paulo Henriques Britto

Desista: não vai dar certo.
O mundo é o mesmo de sempre,
desejo é uma coisa cega.
Desista, enquanto é tempo.

As mãos não sabem o que pegam,
os pés vão aonde não sabem.
As cartas estão marcadas:
vai dar desgraça na certa.

O mundo é sempre a esmo,
desejo é uma porta aberta.
Desista, que a vida é incerta.
Ou insista. Dá no mesmo.

in Paulo Henriques Britto. Formas do Nada. São Paulo: Cia das Letras, 2012. 

domingo, outubro 01, 2023

Iniciação - Fernando Pessoa

Não dormes sob os ciprestes, 
 Pois não há sono no mundo. 

 ...... 

 O corpo é a sombra das vestes 
 Que encobrem teu ser profundo. 

 Vem a noite, que é a morte 
 E a sombra acabou sem ser. 
 Vais na noite só recorte,
 Igual a ti sem querer. 

 Mas na Estalagem do Assombro 
 Tiram-te os Anjos a capa. 
 Segues sem capa no ombro, 
 Com o pouco que te tapa. 

 Então Arcanjos da Estrada
 Despem-te e deixam-te nu. 
 Não tens vestes, não tens nada:
 Tens só teu corpo, que és tu. 

 Por fim, na funda caverna, 
 Os Deuses despem-te mais. 
 Teu corpo cessa, alma externa, 
 Mas vês que são teus iguais. 

 ......

 A sombra das tuas vestes
 Ficou entre nós na Sorte.

 Não estás morto, entre ciprestes.

 ...... 

 Neófito, não há morte.