quarta-feira, outubro 11, 2023

Alceu da Messênia - Epigramas

 Alceu da Messênia atuou entre 219 e 198 a.C., durante o reinado de Filipe V da Macedônia sobre a Grécia. Dele nos restaram diversos poemas de ataque a Filipe, o que nos permite datar sua obra com relativa precisão. Mas dos 22 epigramas que nos restaram, parte considerável é de natureza erótica. Segundo o célebre filólogo alemão Ulrich von Wilamowitz-Moellendorf, Alceu representava o último poeta helenístico a demonstrar uma verdadeira originalidade. O poeta Meleagro de Gádara (séc I d.C.) diz que Alceu é um "jacinto falador": o jacinto, entendido pelos gregos com uma flor que simbolizava a dor, poderia ser uma alusão aos poemas políticos contra Filipe, que relevam um tom melancólico. Entretanto, como seus poemas são muito mais diversos do que isso, talvez a comparação seja apenas fortuita. 


Traduções: Rafael Brunhara

sexta-feira, outubro 06, 2023

Paulo Silenciário - Epigramas Eróticos

 *Paulo Silenciário (575 d.C ou 585 d.C.) foi um poeta grego de Constantinopla. Compôs entre outros epigramas, uma écfrase da igreja de Hagia Sofia. Mas sua obra é mais conhecida por seus poemas eróticos, cerca de oitenta, que foram conservados pela Antologia Palatina.

Traduções: Rafael Brunhara

quinta-feira, outubro 05, 2023

Madrigal - Paulo Henriques Britto

Desista: não vai dar certo.
O mundo é o mesmo de sempre,
desejo é uma coisa cega.
Desista, enquanto é tempo.

As mãos não sabem o que pegam,
os pés vão aonde não sabem.
As cartas estão marcadas:
vai dar desgraça na certa.

O mundo é sempre a esmo,
desejo é uma porta aberta.
Desista, que a vida é incerta.
Ou insista. Dá no mesmo.

in Paulo Henriques Britto. Formas do Nada. São Paulo: Cia das Letras, 2012. 

domingo, outubro 01, 2023

Iniciação - Fernando Pessoa

Não dormes sob os ciprestes, 
 Pois não há sono no mundo. 

 ...... 

 O corpo é a sombra das vestes 
 Que encobrem teu ser profundo. 

 Vem a noite, que é a morte 
 E a sombra acabou sem ser. 
 Vais na noite só recorte,
 Igual a ti sem querer. 

 Mas na Estalagem do Assombro 
 Tiram-te os Anjos a capa. 
 Segues sem capa no ombro, 
 Com o pouco que te tapa. 

 Então Arcanjos da Estrada
 Despem-te e deixam-te nu. 
 Não tens vestes, não tens nada:
 Tens só teu corpo, que és tu. 

 Por fim, na funda caverna, 
 Os Deuses despem-te mais. 
 Teu corpo cessa, alma externa, 
 Mas vês que são teus iguais. 

 ......

 A sombra das tuas vestes
 Ficou entre nós na Sorte.

 Não estás morto, entre ciprestes.

 ...... 

 Neófito, não há morte.

sexta-feira, setembro 22, 2023

O poema - João Cabral de Melo Neto

 A tinta e a lápis

escrevem-se todos

os versos do mundo.


Que monstros existem

nadando no poço

negro e fecundo?


Como o ser vivo

que é um verso,

um organismo


com sangue e sopro,

pode brotar

de germes mortos?


O papel nem sempre

é branco como

a primeira manhã.


É muitas vezes

o pardo e o pobre

papel de embrulho;


é de outras vezes

de carta aérea,

leve de nuvem.


Mas é no papel,

no branco asséptico,

que o verso rebenta.


Como um ser vivo

pode brotar

de um chão mineral? 


O Engenheiro (1942-1945) in: SECCHIN, A.C. (org.) João Cabral de Melo Neto - Poesia Completa, Rio de Janeiro: Alfaguara, 2020. 

segunda-feira, setembro 18, 2023

Catulo, 9 - QuatroTraduções

Verani, omnibus e meis amicis
antistans mihi milibus trecentis,
venistine domum ad tuos penates
fratresque unanimos anumque matrem?
venisti. o mihi nuntii beati!
visam te incolumem audiamque Hiberum
narrantem loca, facta nationes,
ut mos est tuus, applicansque collum
iucundum os oculosque suaviabor.
o quantum est hominum beatiorum,
quid me laetius est beatiusve?

Verânio, dos amigos o primeiro,
de todos os trezentos mil que tenho,
voltaste a tua casa, a teus Penates,
irmãos (um coração) e idosa mãe?
Voltaste. Ah, que notícia tão feliz!
Vou te ver são e salvo e ouvir contares
feitos, lugares, povos lá da Ibéria
com teu jeito e, chegando a ti meu rosto,
teu lábios belos vou beijar e os olhos.
Ó quantos homens vivam tão felizes,
quem mais que eu é alegre ou feliz?

[Tradução de João Angelo Oliva Neto in O Livro de Catulo, São Paulo: Edusp, 1996]


Verânio, que de todos os meus trezentos mil
amigos és o primeiro,
regressaste tu a casa, aos teus Penates,
aos teus adoráveis irmãos e à tua velha mãe?
Regressaste! Ó felizes novas!
Visitar-te-ei são e salvo, e ouvir-te-ei falar
dos lugares, dos feitos, das gentes iberas,
como é teu uso, e tomando-te o pescoço,
a boca alegre e os olhos te beijarei.
Ó, de todos os homens felizes do mundo,
há algum mais alegre e feliz do que eu?

[Tradução de José Pedro Moreira e André Simões in Catulo. Carmina. Lisboa: Cotovia, 2012]

Verânio, dos amigos todos meus, 
Acima estando duns trezentos mil, 
Tu voltaste à casa, aos penates teus,
 Aos irmãos em alma, e à anosa mãe? 
Voltaste! Oh, que notícia mais feliz! 
Vou te ver com saúde e ouvir do ibero
 Povo, feitos, terras, as narrativas, 
Como costumas; e, inclinando o rosto, 
A linda face e os olhos vou beijar. 
Ó, quantos homens haverá felizes 
Mais contentes do que eu ou mais felizes?

[Tradução de Beethoven Alvarez, 2018]

Devo ter uns trezentos mil amigos,
Verânio. Para mim, és o primeiro.
Voltaste a tua casa, ao teu larário,
a tua mãe senil, a teus irmãos
uniconcordes? Sim! Que bom saber!
Hei de rever-te firme e forte, ouvir
por onde andaste, o que fizeste, a gente
ibérica, no teu estilo. Arcando
o colo, beijo os belos lábios, olhos.
Quantos homens conheçam a alegria,
nenhum conhecerá como me alegro. 

[Tradução de Trajano Vieira in Catulo, 20 Poemas. Londrina: Galileu Edições, 2022]



domingo, setembro 17, 2023

Catulo, 96 - três traduções

Si quicquam mutis gratum acceptumve sepulcris
 accidere a nostro, Calve, dolore potest,
 quo desiderio veteres renovamus amores 
atque olim missas flemus amicitias, 
certe non tanto mors immatura dolori est 
Quintiliae, quantum gaudet amore tuo.


Se à muda cinza algum carinho e agrado, ó Calvo,

     pode dar nossa dor -- esta saudade

com que nós renovamos antigos amores 

    e choramos perdidas amizades, 

certo Quintília já não sofre pela morte

    tão precoce, mas goza teu amor.


[Tradução de João Angelo Oliva Neto in O Livro de Catulo, São Paulo: Edusp, 1996]


Se alguma coisa de bom ou estimado mudas tumbas

pode tocar, Calvo, com a nossa dor, 

com essa saudade velhos amores renovamos

e outrora perdidas amizades choramos,

então não se dói tanto com a morte precoce

Quintília, quanto se alegra com o teu amor. 


[Tradução de José Pedro Moreira e André Simões in Catulo. Carmina. Lisboa: Cotovia, 2012]


Caso a tumba silente possa receber

a dor que seja grata -- e a saudade

remova amores do passado, Calvo, e o pranto

amizades que o tempo dissipou --, 

Quintília já não padece a morte prematura,

tanto quanto sorri com teu amor. 

[Tradução de Trajano Vieira in Catulo, 20 Poemas. Londrina: Galileu Edições, 2022]